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História Identity Crisis - Capítulo 11


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Notas do Autor


19 de Fevereiro de 2021. Introdução ao nosso baby~

Capítulo 11 - C10. Seclusion


— Não, não dói.

O menino de óculos quadrados de aro negro respondeu com um sorriso amarelo, não convencendo nem a uma mosca. Era óbvio que ele tinha passado por alguma coisa e estava escondendo de novo.

Lass Isolet tinha esse costume de mentir, mas não por maldade. Era só que ele queria evitar ficar perto de muitas pessoas e ser obrigado a falar sobre si mesmo e sua família, esta que era sem dúvida a raiz de todos os seus problemas.

A menina à frente era baixa, tinha olhos verdes e cabelos bastante claros, mas não como os seus. Ela era simplesmente clara enquanto ele era albino.

— Lass, por isso eu falo para andar com a gente em grupos. Assim você não passaria por esse tipo de coisa. — a menina reforçou, segurando o colarinho da camisa do garoto, que fez uma expressão de desgosto. — Não emburre, seu bobo. Eu só quero ver se está muito sério.

Ela afastou a gola de sua blusa e vislumbrou a marca pequena quase preta.

Se fosse qualquer outra pessoa seria apenas fácil brincar e dizer “É um chupão”, porém, com Lass essas brincadeiras não existiam. Isso graças à história bastante conhecida na turma, de que o garoto irlandês era fruto de um adultério e também o estopim do relacionamento do Senhor e Senhora Wilde, que levou a mulher ao suicídio.

Depois disso que ocorreu quando ele tinha por volta de seis anos, os colegas e professores de Lass perceberam que o albino chegava abatido e muito triste e algumas crianças diziam ter visto machucados por seu corpo quando estava no vestiário.

No entanto, nada podia ser feito, não por aquela criança. Aquela escola podia até ser a maior elite da Inglaterra, mas ainda assim não era capaz de interferir nos assuntos familiares, especialmente porque eram crianças de famílias renomadas demais para serem questionadas. Lass incluso, ainda que bastardo.

— Estou bem, Rena. Não foi nada, eu juro. — ele rebateu, forçando ainda um sorriso.

Rena não engoliu nada disso, mas como sempre se conformou e afagou sua cabeça.

— Estou aqui se você precisar. Tenha certeza disso, Lass. — ela disse ainda mais uma vez, tomando as mãos nas suas e o fitando tão profundamente nos olhos que o fez se sentir constrangido.

Ele respondeu baixo, quase um murmúrio.

— Sim. Eu sei.

Os dois separaram-se e sentaram em suas respectivas mesas.  A de Lass ficava ao lado da janela, onde ele acostava e encarava o céu por muitos minutos sem ódio nenhum, mesmo tendo razões para fazê-lo.

“Desde muito tempo tem sido assim.” Pensou ele, lembrando-se do passado, sem sentir um pingo de nostalgia. Um vislumbre da dor passou por sua mente e ele fechou os olhos pelo choque. Uma dor latejante no hematoma de seu pescoço.

Com isso recordou-se das palavras de sua mãe e irmãos:

“Você é a mancha da nossa família! ”, “Um bastardinho como você nunca vai ter lugar nessa casa! ”, “Você deve saber o seu lugar, seu lixo! ”

As palavras aumentavam, o ódio por ele se alimentava de sua presença, seu medo ia sumindo. Sim, apenas sumindo, até que havia chegado a um ponto onde ele já acreditava ser normal receber tantos xingamentos e agressões.

Lass era apenas um objeto para ser mostrado aos outros. Sua mãe lhe apresentava assim: “Esse é o nosso filho amado que adotamos depois de termos os dois mais velhos. Eu sentia tanta falta de ser mãe e simpatizei tanto com o menino que eu e Regis não pensamos nem duas vezes”.

Mentira.

Lass nunca fora adotado, ele possuía o sangue de seu pai.

Mas deixem os detalhes. O que importa era que nesses momentos ele sentia-se apenas um pouco feliz. Quem podia culpá-lo por receber um elogio, mesmo que falso, aos seis anos?

— Resolvam a próxima questão e depois vou selecionar um de vocês para responder oralmente. — a voz do professor tirou-lhe a concentração, fazendo-o voltar aos estudos.

— Ei. — alguém o tocou por trás em seu ombro e Lass sobressaltou-se. — Calma aí, Isolet.

— Precisa de algo, Srta. Haan? — indagou o garoto, piscando apaticamente para ela após se recuperar.

Ela fez um bico e confidenciou:

— Sabe, eu estava na biblioteca ontem e vi uma pessoa que chamava a atenção de todo mundo passando. Então eu perguntei a uma amiga e ela me disse que ele era seu irmão!

O garoto reagiu só então, arregalando os olhos. Lembrava-se que tinha ido pegar um livro e reencontrou seu irmão mais velho, Lupus, depois de um ano inteiro. E então ele o intimidou daquela maneira, agarrando sua gola e o encurralando na estante.

Reajustando os óculos sobre o nariz, Lass pigarreou.

— Sim, você deve estar falando do Lupus. Ele é o segundo filho mais velho da família.

— Ohh! Eu duvidava, já que vocês são completamente opostos. — ela sorriu largamente, juntando as mãos como se estivesse sonhando. Ela era ingênua, sem saber de nada sobre a verdadeira personalidade daquela pessoa.

— Sim, nós temos mães diferentes. — Lass explicou.

Ara Haan era nova na Academia Real de Londres, transferida de uma escola no Japão, e não sabia de absolutamente nada sobre as polêmicas da Família Wilde.

— Ah. — ela parou de falar no mesmo momento, desviando os olhos para o chão.

Antes que ela disse algo mais, o professor limpou a garganta, fazendo a sala inteira ficar em silêncio.

— Se querem conversar, podem fazer isso na sala da diretora. — o rígido professor pronunciou, sem mover-se um milímetro, olhando-os com desprezo.

Os dois, Ara e Lass ficaram mudos, pegos de surpresa pela decisão do professor carrasco.

— Andem.

No fundo dos olhos dele tinha um brilhinho irritante de escárnio.

Os dois juntaram suas coisas e deixaram a sala sem dizer um A, se dirigindo à sala da diretora, onde foram encarados com um suspiro.

— Não é a primeira vez que recebo sua visita aqui Sr. Isolet. — Karina Erudon voltou-se para ele detrás de sua mesa, continuando seu trabalho enquanto o olhava por baixo das lentes de hipermetropia.

A mulher voltou seus olhos para a garota, que estava encolhida em si mesma, temerosa do que viria a acontecer quando seus pais soubessem de seu “terrível” erro e encarou seu documento antes de sentar-se ereta e escrever algo em um pedaço de papel e estendê-lo à menina. Em seguida, a mulher de cabelos violeta e olhos vermelhos intensos juntou as mãos sobre a mesa de cedro.

— Srta. Haan, você pode se direcionar à enfermaria, você não deve estar se sentindo muito bem com a mudança de temperatura dos últimos dias.

A menina com os cabelos presos em um rabo de cavalo tomou o papel e agradeceu com uma leve reverência, se despedindo de Lass com um pequeno aceno e um breve olhar de “boa sorte”.

Assim que Ara deixou o recinto, Karina deu total atenção ao garoto. Primeiro ela moveu os dedos, como se mensurasse o que diria. Segundo, ela mordeu o canto de lábio de forma quase imperceptível, mas Lass percebeu. Por último, ela cruzou as pernas para o outro lado.

— Lass... Eu não sei quantas vezes discutimos o seu desempenho nos conselhos de classe. — ela começou, suspirando de novo. — Eu não queria ser direta quanto a isso, mas uma vez que eu não tenho o direito de me intrometer na vida pessoal dos alunos, eu não tenho mais escolha a não ser chamar seu pai para conversarmos.

Lass abriu a boca, mas não teve coragem de dizer nada. O que ele poderia dizer afinal? Ele não queria ter que fazer seu pai continuar lidando com seus problemas, mas ao mesmo tempo ele não poderia ir contra a palavra da diretora.

A ligação foi objetiva e não foi possível saber se ela estava irritada, mas Lass nunca soube mesmo ler as expressões dela apesar de ser extremamente observador. Então Lass abaixou seu olhar atrás das lentes e se sentou numa poltrona ao lado da porta e esperou.

Cerca de uma hora depois, seu pai, que naquele dia havia saído para um trabalho em Stradfort-upon-Avon¹, chegou impecável. Para ele pegar um trem até Birmingham e em seguida pegar seu jato particular apenas para atender ao pedido da diretora de seu filho, era exagerado.

Regis Wilde era O homem do turismo. Comandava hotéis nos pontos mais visitados do país e por isso participava de vários eventos.

Sendo o homem que era, mesmo sendo um dos homens mais ricos da área, era aventureiro e despreocupado, sem falar que para sua posição era meio... “desleixado”.

Vinha de jeans claro e a camisa de botões era a única coisa típica de um empresário. Nos pés, um par de botas Harley Davidson de couro marrom.

Karina o olhou da cabeça aos pés. Mesmo o estilo sendo inadequado para encontros formais, Regis ficava muito sedutor. Seu olhar duro e de vermelho tinindo surgiu assim que tirou os óculos escuros de aviador.

— Bom dia, Sr. Wilde. Chegou bem rápido para um homem tão ocupado. — Karina cumprimentou num tom de enfado.

O homem piscou e levantou a mão para arrumar um fio que caía em sua testa. Os cabelos castanhos eram ondulados e volumosos. Como dizer, Lupus era a versão jovem de seu pai, de tão parecidos. Mas Regis levava no rosto um ar maduro, pouquíssimas rugas e usava o cabelo para trás, mostrando uma jovialidade inesperada.

— Você sempre tão ríspida. — ele retrucou, ignorando-a e olhando na direção de Lass. — Olá, Lass. Eu cheguei.

“Eu percebi”. Lass quis dizer, mas assentiu com a cabeça, engolindo saliva discretamente.

— Bem, vamos ao assunto? — ela interrompeu, pousando a caneta e cruzando os braços.

— Sim, como quiser. — Regis respondeu, sentando-se a frente dela.

— Escute, eu sou psicóloga. Sei de muitas coisas. Mesmo como estudante tive de lidar com essas questões. Muito nova eu comecei o ensino e me deparei com dezenas de casos parecidos. — ela iniciou, arrumando os óculos. — Me corrija se eu estiver errada. O Sr. Isolet tem aparecido nas aulas bastante distraído, com pouca expressão e com a saúde abalada. Os docentes das disciplinas de esportes já informaram no relatório que ele está abaixo do peso e que a tendência que ele tem para desvio de atenção aumentou de um dia para o outro. Isso não é normal.

Regis ficou quieto por uns segundos enquanto Lass encolhia dentro de seu pequeno eu, sabendo que falar não resolveria nada.

— Esses são problemas familiares, mas como professora também meu dever é proporcionar o bem-estar e segurança às crianças da minha academia. Por isso estou dizendo que ele apareceu várias vezes com ferimentos antes, quando chegou à academia e voltou a acontecer ao que parece. Hoje mesmo uma aluna me reportou isso.

Lass suou frio, surpreso por ela ter tido coragem e ter revelado o segredo para o pai. Regis, no momento em que ouviu isso, arregalou os olhos. Ele virou-se bruscamente para Lass.

— O que isso significa, Lass? — ele indagou, olhando firmemente nos olhos do menino incrédulo, mas disposto a ouvir tudo para só então dar seu parecer.

O albino inspirou, tentando desviar os olhos do pai, sentindo as lágrimas acumularem nos olhos. Se tinha alguém que o faria chorar era somente ele.

Vendo que o garoto estava ficando ainda mais fechado, Regis baixou a cabeça e voltou-se para a mulher.

— Isso é verdade? Ele está sendo maltratado por alguém?

Ela queria ter rido com a ironia.

— Não há dúvidas. Mas isso é algo que acontece quando ele vai para casa. — Karina olhou para o albino enquanto falava. — Mas você não pode nos dizer, não é, Lass?

O nome na boca dela soou terno. Ainda que toda a ternura do mundo não o faria revelar quem era o causador de seu sofrimento. Ele balançou a cabeça para os lados e olhou como se pedindo ao pai.

Regis o encarou como homem, como sempre fazia. Ele era um bom homem. Havia assumido o erro e o criado com o maior amor do mundo.

— Vamos falar sobre isso, tudo bem? A sós. — Regis sentenciou.

Karina franziu a sobrancelha.

— Nós não conversamos sobre o que fazer ainda, Sr. Wilde.

Regis foi se levantando e estendeu a mão para o filho, que a aceitou e fez o mesmo. Os dois olharam para a mulher, que estava indignada com a atitude.

Para Karina, ou Regis era muito frio ou muito atencioso, ela não sabia dizer. Mas ela ainda assim temia pelo que poderia acontecer depois que ela resolveu mexer com o tabu da elite.

O homem e o menino ainda a olharam, lado a lado, de mãos dadas, em sua direção.

— Eu vou conversar com a minha família, tudo bem, Sra. Erudon? Foi uma grande negligência minha, mas não vou deixar que isso aconteça mais. Agradeço sua atenção.

Ele cumprimentou com a cabeça e Lass o copiou.

Para Karina, a imagem daquelas duas pessoas lhe pareceu muito mais complexa do que aparentava. E ela sentiu o temor se tornar medo.

Continua



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