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História Identity Crisis - Capítulo 14


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Notas do Autor


ALERTA: As cenas podem ser fortes. Eu tentei amenizar o máximo possível, gente. Acho que está seguro para os leitores, mas caso vocês achem que é demais, me avisem.
Ultimamente estou paranoica com essas coisas de violação de regras e também romantização de coisas erradas. Não é minha intenção, então fique bem claro novamente que não apoio uma visão romântica da violência, beleza? É o tema que quero trabalhar, então deem um crédito. To aprendendo ainda.

Capítulo 14 - C13. Tormenting


A casa voltou a ter os costumeiros sons de louça sendo lavada, chão sendo varrido e móveis sendo polidos. O tic tac dos saltos das empregadas voltou a soar normalmente pelos corredores da mansão após a saída do Sr. Wilde.

Lupus inspirou o ar calmo da tarde e até pareceu que ele podia sentir o cheiro do irmão que dormia no último andar no último quarto. Ele manteve sua expressão inalterada e colocou as mãos na cintura pacificamente, sorrindo para o nada, mas quem o visse saberia que aquele sorriso significava o contrário de satisfação.

Nenhum dos empregados ousou dizer uma palavra enquanto ele voltava a subir as escadas com uma lentidão até desesperadora, arrastando as luvas de couro pelo corrimão brilhante.

Quando Lupus chegou ao terceiro andar ele olhou para o tapete que levava a um único quarto do lado esquerdo. Não havia quadros naquela parede e o lustre estava apagado, de modo que apenas a única janela daquele espaço iluminasse o caminho.

Aquela parte da casa era meio macabra e solitária, mas Lupus costumava ir bastante ali uns anos atrás, assim como toda sua família. Afinal, quando Lass tinha chegado na casa, trazido a reboque por Regis, ele recebeu o ódio gratuito da mãe e dos filhos dela e depois de uma semana caiu de cama. Anemia e estresse profundos.

Lupus tocou a maçaneta, todos os seus sentidos alertas, e um insistente estremecimento em sua mão esquerda o fez ficar parado uns segundos ainda antes de entrar.

Lass podia ser antissocial o quanto fosse, mas ele não tinha o costume de se fechar em seu canto como um morcego e andar de preto. Suas paredes eram claras e seus móveis eram modificados por ele mesmo, o que Lupus acreditava ser um dos hobbies dele. A decoração era toda metódica e todas as coisas tinham o seu lugar de um jeito que incomodava, mas isso Lupus entendia, já que tinham obviamente puxado essa mania de seu pai.

Havia um rádio em cima de uma prateleira que tocava uma música instrumental – ideal para dormir – e o próprio menino estava deitado, dormindo virado para o lado direito, com a luz saída da janela batendo bem em seu rosto.

Lupus se aproximou em silêncio, sentindo direto na pele a nostalgia de entrar naquele quarto e perceber que quase nada tinha mudado, e pôde ver a marca quase desaparecida no pescoço do meio irmão menor.

O moreno franziu a testa, incomodado. Por mais que aquele dia estivesse nublado, parecia haver uma luz calorosa somente para aquela criança. Por onde Lupus andasse só havia a escuridão do medo, inveja e mágoa. Mas para Lass não havia nada disso; não importava o quanto o garoto sofresse, só tinha luz na vida dele.

Lass mexeu o corpo em seu sono e entreabriu os olhos. Na lerdeza ele demorou para perceber a presença de Lupus, mas quando levantou os olhos míopes e encarou os olhos vinho, sobressaltou-se e levantou de um pulo, proferindo uma exclamação e agarrando seus óculos em cima do criado mudo para então ficar de joelhos na cama, mordendo os lábios, sem coragem de olhar para cima.

No silêncio, Lass mexeu nos cabelos brancos, tentando ajeitá-los. Sua atitude tímida fez a boca de Lupus tremer.

— O-O que faz aqui? — murmurou Lass, com sua voz quase desaparecendo.

O maior soltou um “Tsc” e fechou os olhos, buscando alguma paz interior. Por que estava ali? Que pergunta tola. Era tão claro como o dia mais claro. Ele só estava ali depois de uma longa abstinência por que seu pai... Não... Por que ele, Lass, tinha quase deixado o segredinho ser descoberto.

Lass teve coragem para levantar os olhos, mas sua expressão não melhorou vendo o irmão mais velho encará-lo com desprezo palpável. O garoto sentiu um medo irremediável.

— Você se esqueceu do que eu te disse na última vez que entrei nesse quarto? — questionou o maior, tirando as mãos dos bolsos, os dedos formigando, seus olhos enchendo de sangue, sua cabeça fervendo.

— H-Huh? — indagou Lass, sentindo um leve tremor em sua mão esquerda e a segurando, tentando impedir aquela emoção de tomar conta.

— Você é bem esquecido, não é, moleque?! — Lupus se aproximou dele em dois passos, rosnando rouco enquanto agarrava o cabelo de Lass, agressivo, e o empurrava de volta para a cama.

Lass caiu de lado, fechando os olhos fortemente. Não que houvesse doído, mas algo tão repentino assim deixaria qualquer um chocado. Na verdade, o albino pensou que o irmão ia vir com um belo de um tapa, mas não foi o que aconteceu.

— Eu falei que nunca mais ia por um dedo em você se não contasse sobre a mamãe e eu para o pai. — Lupus disse, apontando-lhe o dedo.

O menor encolheu, engolindo em seco.

— M-Mas eu não disse nada, Lupus. Eu prometi que não ia dizer nada! — reclamou o albino, passando a mão no rosto, arrumando os óculos.

— Hah! — Lupus abriu os braços, indignado. — Se você tivesse mesmo me ouvido, não teria aparecido na minha frente outra vez!

O grito do mais velho fez Lass ficar com os olhos cheios d’água. Lupus riu de sarcasmo, incrédulo, não aguentando aquela cena.

— A culpa é sua.  A culpa é toda sua. — Lupus apontou, contando bem devagar as palavras. — Por que você apareceu na minha frente eu tentei me controlar, mas você me levou ao limite. E você muito inteligente deixou que alguém percebesse e por isso agora o pai está querendo achar o responsável a todo custo! Ele disse que se eu não achar o culpado ele mesmo vai achar!

Lass encolhia toda vez que Lupus levantava mais e mais a voz, pouco se importando com quem ouvisse.

— Desculpa, eu pensei que ninguém ia dar importância para uma marca pequena.

Lupus passou as mãos no rosto, começando a ficar realmente zangado. Seu sorriso tinha ficado sinistro e sua postura um pouco desajeitada, como se não fosse mais ele ali.

— Me diz o que eu faço agora. — Lupus apontou para si mesmo, olhando para Lass com a expressão afetada de desespero mesclada à de raiva. — Depois de um ano todo tentando melhorar, tentando evitar causar problemas, todo o meu esforço vai pra lama?! Não fode!

Lass ficou em silêncio, mantendo a cabeça baixa, tentando pensar em uma solução para a situação. Em algo que pudesse deixar o irmão mais calmo. Mas era impossível para ele.

Lupus começou a andar de um lado para o outro. Sua inquietude era exagerada e anormal. Os braços balançavam e as mãos tremiam. Ele fazia sons e respirava alto para tentar controlar alguma espécie de bolha emocional interna prestes a explodir.

— Lupus...

— CALA A BOCA!

Lass encolheu, sentindo o medo intensificar ao ver a expressão de Lupus ficar pior, como ele ficava uns anos atrás quando Lass cruzava-lhe o caminho. Geralmente era nessa hora que vinha um tapa forte em sua cara. Mas não aconteceu.

Os olhos vinho estavam inchados e lágrimas grossas começaram a se formar nos cantos. Era a primeira vez que o albino via um ataque tão forte assim. Lupus mordia os lábios e coçava o cabelo louro. Ele parecia estar se acalmando. Lass inspirou ar, sentindo que ele próprio estava fora de si. Aquilo era irreal.

Quando o menor abriu a boca para dizer algo, Lupus levantou a mão direita, cobrindo o próprio rosto com a esquerda, impedindo-o de falar. Ele tomou ar antes de olhar para Lass, se recompondo aos poucos.

— Sai daqui. Me deixa sozinho. — Lupus ordenou, escondendo os olhos marejados e a expressão de ódio de seu rosto.

Lass contorceu o rosto como se dizendo, “Mas esse é o meu quarto” e um segundo olhar do mais velho foi o suficiente para ele entender que se não saísse, o mais velho provavelmente perderia o pouco controle que tinha e bateria nele.

— Irmão... — Lass murmurou, fechando os olhos fortemente, mas propositalmente não saindo do quarto. Ele sabia o que aconteceria em seguida.

Lupus rangeu os dentes, com os olhos fechados também, e foi em um milésimo de segundo, sua mão esquerda abriu-se. Quando se deu por si, Lass estava sentado no chão.

O silêncio era tão alto que ecoou. Ou Lupus achou que ecoou em seus ouvidos.

Aquele som era familiar. Ele o tinha ouvido diversas, diversas vezes. Desde quando era uma simples criança.

Tudo tinha começado quando seu pai apareceu com um Lass de quatro anos em casa, revelando o adultério com certa mulher irlandesa. Não durou uma semana e sua mãe, Olívia, uma pessoa histérica emocionalmente instável, começou a maltratar Lass. Fez isso durante dois anos inteiros até perceber que tinha perdido o marido para sempre. Ela se enforcou no quarto dos dois filhos que tinha, Lupus e Lemius, o mais velho. Deixou uma carta dizendo que amava a família e que seus sentimentos por Regis nunca mudaram, mas que a culpa era de Lass, que por causa da existência daquela criança ela não poderia mais viver.

Na época, Lupus era apenas uma criança de doze anos. A cena traumatizante do corpo de sua mãe e das palavras dela se repetiam todos os dias na mente do menino e o fizeram cair em um mundo obscuro do qual ele quase não conseguiu sair.

O que Lupus decidiu fazer a partir daquele dia foi tomar o lugar de sua mãe. Ele passou a bater em Lass, xingá-lo, importuná-lo e maltratá-lo de todas as formas possíveis, todos os dias, garantindo que o pai nunca descobriria. Ele sempre soube que era errado, mas dessa forma ele poderia manter a memória da mãe viva. Essa foi a forma que ele encontrou para se salvar.

— Não me chama disso. — ele disse friamente, balançando a cabeça e lembrando-se das outras vezes que bateu no irmão. Todas as cenas retornaram como se tivessem acontecido há poucos dias.

Lass estava caído sobre as pernas, a mão pressionando a face atingida, mas ele aguentava a dor e engolia o choro prestes a sair.

— I-Irmão... — Lass fechou os olhos de novo, falando com a voz tão fraca que mal se ouvia, mas ele disse novamente, propositalmente, porque essa era a única forma que Lupus odiava ser chamado.

Lupus fez um barulho que mais parecia um urro e caiu sobre o albino, agarrando-lhe a camisa e balançando com uma mão enquanto a esquerda batia no rosto.

— CALA... A... BOCA! — Lupus gritou a cada tapa dado com sua força débil, já que seu corpo todo tremia e ele estava prestes a desmaiar.

O menino chorava, incapaz de aguentar tal dor. O moreno também chorava, mas ele ainda estava na beira de sua consciência.

Lass via perfeitamente que o irmão estava se segurando para não fazer mais nada.

— Por que você insiste?! — Lupus o balançou, agarrando seu colarinho e abaixando o rosto, impedindo a si mesmo de olhá-lo. — Por que você não reage, seu idiota?! VOCÊ ME IRRITA! PARE DE QUERER ME FAZER SENTIR MELHOR!

O albino sentiu seu coração apertando em seu peito.

Era raro Lass ficar afetado quando sua madrasta e Lupus batiam nele. Afinal, ele apanhava desde os quatro anos sem parar e não doía mais como antes. No entanto, com o passar do tempo ao apanhar de Lupus, ele percebeu uma coisa... Ele queria ajudar o irmão.

Ele sabia o que era perder a mãe. Ele não se importava de aliviar a dor do irmão pelo menos um pouco. Ele podia ser o bode expiatório de Lupus, não tinha problema. Ele faria qualquer coisa para ajudá-lo.

Lupus fungou e balançou o menor violentamente.

— VOCÊ É MASOQUISTA?! — gritou, sua voz rouca, seus olhos embaçados. Suas mãos subiram e tomaram os cabelos do albino, puxando-os, empurrando-o para o chão. Lass tentava segurar o choro, mas não conseguia, mas também não batia de volta. — TENHA ALGUMA REAÇÃO SEU BICHO DE CIRCO!

Quando Lupus estava quase socando o garoto, cego de raiva, sua visão ficou preta e tudo desapareceu.

Lass parou de sentir dor, mas sentiu um peso absurdamente maior que o seu sobre o corpo, tirando-lhe o ar.

Não havia ninguém além dos dois. Lupus tinha caído duro.

— Uff... Ugh-, — Lass resmungava enquanto forçava o corpo do irmão para o lado, que rolou mole e parou de lado. Sua face estava finalmente pacifica, mas as marcas de lágrimas e a vermelhidão não eram nada bonitas.

O albino pegou os óculos, que tinham caído no chão com os tapas, e ajustando-os no rosto.

“Provavelmente Miriam está por perto e sabe o que houve. Se eu a chamar ela vai vir. ” Lass pensou consigo mesmo, levantando-se. Seu pescoço doía um pouco e seus músculos frágeis ardiam pelos chacoalhos do irmão. Fazia um ano que isso não acontecia. “Ele realmente está tentando parar. Poderia ser muito pior”.

— Miriam. — chamou baixo, sua voz mal o obedecendo.

A empregada entrou num segundo no quarto, empunhando um esfregão. Ela tinha uma expressão aterrorizada e correu para Lass como uma mãe, agarrando-o pelo rosto.

— Ele te machucou?! Você está bem?! Ó meu pai, porque isso tem que acontecer?! — ela questionava à beira das lágrimas, passando os dedos no rosto de Lass, que tinha ficado com a marca dos dedos de Lupus. — Esse monstro! Ele ainda estava usando o anel!

— Está tudo bem.

— Como que está bem?! Você não está vendo a si mesmo, mestre! — Miriam reclamou, pegando um lenço e limpando o rosto do menino. — Você é uma criança! Como pode aguentar isso com tanta naturalidade?!

Lass inesperadamente sorriu para ela. Uma das poucas pessoas que viam seu sorriso era Miriam, a jovem que cresceu na casa e o vira crescer daquele modo. Ela foi praticamente como a sua mãe, gentil e bondosa, sempre o atendendo, mas infelizmente, incapaz de fazer algo por ele.

Ela enxugou os olhos, vendo o menino sorrir.

— Vai ficar tudo bem. — ele disse, tocando a mão da empregada e olhando para o irmão caído no chão. — Por favor, peça para os mordomos carregarem o Lupus para o quarto dele, sim?

Miriam o olhou, contrariada, ainda sem compreender.

— Mestre Lass! Por que continua fazendo isso? Você só vai se machucar se continuar fazendo isso. O Mestre Lupus precisa da ajuda de um profissional, não tem motivo para você continuar sendo tratado assim!

Lass arregalou os olhos.

— Não conte nada a ninguém, por favor! — Lass juntou suas mãos, implorando. Seu olhar era puro medo. — Eu posso ajudar ele! Está dando certo!

— Você é só uma criança! Não vou suportar mais ver isso acontecer na minha frente! — Miriam negou com a cabeça, começando a ficar zangada. — As coisas que ele disse para você! Eu ouvi tudo!

— Miriam, por favor, confie em mim.

Miriam limpou os olhos mais uma vez, fitando o pequeno rapaz, que era mais forte que um diamante.

— S-Se acontecer de novo, eu perco meu emprego, mas conto para o Sr. Regis. Me ouviu?

— Sim.

— Eu nunca mais vou te ver, entendeu?

— Sim, eu prometo.

— JURE que não vai mais ficar parado enquanto ele faz isso com você!

Lass hesitou, mas assentiu com a cabeça.

— Jure, Mestre Lass.

— Eu... Eu juro.

Continua


Notas Finais


Um ataquezinho cardiaco pra postar esse capítulo, mas beleza. Feito!


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