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História If I could love - Capítulo 8


Escrita por: DollieBlue

Notas do Autor


Oh-la-la, olha quem voltou? E vamos de comemorar, né? Bom, eu só queria dizer que fiquei muito feliz que ainda existem pessoas que querem ler essa obra, e eu estou muito agradecida pela forma como a minha volta foi recebida. De coração, obrigada, gente!

Gostaram da capa? Eu amei! Estava com saudades de editar pra essa história. E eu também atualizei a capa da fanfic, amo! E eu só queria dizer que se vocês sentiram falta de interação entre a Clara e o Justin todo esse tempo, eu dedico esse capítulo à eles, mas principalmente à vocês. ❤️

Aproveite a leitura!

Capítulo 8 - Cold Water


Fanfic / Fanfiction If I could love - Capítulo 8 - Cold Water

A ventania gélida me lembrava de como eu me sentia estranha sem um moletom, de como a exposição dos meus braços me incomodava, era como estar nua. Demorou algum tempo até que eu parasse de correr e começasse a andar, mas foi uma péssima ideia, porque as pessoas que passavam estavam começando a me notar, o que era pior ainda. Depois do quarto olhar hostil e do quinto de pena, não tive mais coragem de olhar no rosto de ninguém, apenas olhei para o chão, meus dedos dos pés se contorcendo sobre os chinelos. Eu me sentia imunda, precisava urgentemente me enfiar dentro de roupas pesadas ou de uma banheira gelada.

Conforme eu andava sem rumo, a sensação de pânico crescia. Eu não sabia o que fazer, mas precisava fazer alguma coisa. Minhas mãos estavam fechadas nos meus ombros, enquanto eu tentava me proteger do frio. Mesmo longe daquela casa, ainda podia sentir lágrimas embaçando a minha visão, eu não queria chorar, mas não conseguia parar. Precisava me esconder, achar algum lugar onde ninguém pudesse me ver como estou. De repente, respirar era uma tarefa difícil de novo, e eu não conseguia parar de chorar, e quando um estranho tentou se aproximar com uma mão erguida em direção ao meu ombro, comecei a correr de novo. Corri o mais rápido que eu pude até tropeçar e cair com tudo para frente. Eu estava caída na calçada e as pessoas apressadas precisaram se desviar do meu corpo jogado. O impacto foi forte o suficiente para ralar minhas mãos, já que meus joelhos estavam protegidos pela calça.

— Garota, você está no meio do caminho! — Uma voz estranha esbravejou, mas eu não estava ouvindo.

Olhei para minhas mãos que tremiam na altura dos meus olhos, e encarei os ferimentos, estava ardendo como fogo, mas eu não detestava aquilo. Ouvi mais alguns xingamentos, mas continuei olhando para baixo, incapaz de encarar alguém. De repente, tudo estava muito ensurdecedor, desde as buzinas de carros, os passos, os murmúrios, até minha própria respiração, meu coração acelerado. Levei as mãos até a cabeça e a apoiei nos joelhos, esperando passar. Porém, a sensação piorava cada vez mais, até que eu senti dedos nas minhas costas, e eu pulei de susto, me jogando para trás. Todo o meu corpo se contraiu e quando olhei para trás pronta para correr da minha irmã ou de tia Khaterine, arregalei os olhos.

— Meu Deus! Clara? — A voz era carregada de preocupação e descrença, Bieber não esperou sequer uma reação minha antes de se aproximar.

— Não me toca! Não me toca! Não me toca! — Falei freneticamente, abraçando o meu próprio corpo e encarando meus pés. Meu desespero fez ele recuar, eu não conseguia olhar nos olhos dele sabendo do meu estado.

Abaixei a cabeça e me encolhi ainda mais, sentindo as lágrimas e os soluços. Eu me odiava. Eu me odiava por desmoronar por uma coisa tão estúpida. Eu me odiava por perceber como depois de todos esses anos, Katherine ainda tinha esse maldito poder sobre mim. Eu me odiava por não conseguir respirar. Eu me odiava por estar na frente da última pessoa que deveria me ver nesse estado. Eu me odiava por ser tão fraca.

De repente, franzi as sobrancelhas quando senti algo pesado sobre mim, e quando ergui os olhos, percebi que Bieber ainda estava ali, e agora seu sobretudo enorme me cobria. Foi então que notei que ele estava agachado como eu, numa distância mínima, e me observava com olhos cautelosos. Involuntariamente agarrei o sobretudo e me enfiei o máximo que pude no tecido. Desviei o olhar.

— V-vai embora… — minha voz saiu tremida e eu fechei os olhos, sentindo as lágrimas quentes na bochecha.

— Clara, deixa eu te ajudar. — Seu tom era cuidadoso, e quando eu olhei para ele, sua mão estava estendida para mim, e ele não parecia se importar de estar perto enquanto as pessoas cochichavam. Ele sequer estava prestando atenção nelas.

Fiquei encarando sua mão durante alguns segundos, totalmente imóvel. Meu corpo inteiro estava tremendo quando eu levantei sozinha, ignorando sua mão suspensa no ar. Sua presença foi um choque necessário no meu sistema, um lembrete urgente de que eu precisava me controlar. Bieber se levantou devagar. Quando finalmente tomei coragem para encarar seu rosto, os olhos castanhos estavam com um ar preocupado e sua expressão parecia atenta a cada respiração minha.

— Eu estou bem. — Minha voz não soou tão firme, e eu me odiei pela mentira descarada.

Ele não disse nada durante um tempo, parecia me analisar... como um médico faria. Mesmo que ele tivesse tentado uma discrição, percebi seus olhos me medindo, e imaginei seus comentários internos de pena e desaprovação, o que me fez cerrar os punhos com força. Sua cautela era semelhante a um adestrador de animais selvagens, analisando um felino e decidindo qual pedaço de carne o domaria mais rápido, e eu não gostava nada disso.

— Vamos sair daqui, esse lugar está cheio de gente idiota. — Eu não esperava que Bieber dissesse isso, nem que ele começasse a andar logo em seguida, sem checar se eu o estava seguindo.

Foi então que olhei de relance ao redor, e vi aqueles olhares hostis de novo, a troca de sussurros. Respirei fundo e olhei na direção de Bieber, que já estava um pouco longe. Era uma péssima ideia seguir naquela direção, na direção dele. Não havia como tudo terminar bem, ele iria me entregar para Caroline na primeira oportunidade e ela me jogaria nas garras de tia Katherine sem nem hesitar. Eu queria seguir na direção oposta e fugir dele, mas ao mesmo tempo, ele parecia ser o único caminho que eu enxergava. E no fim, meus pés seguiram o rumo que os pés dele traçaram antes. Só então pude perceber a camisa branca que estava usando, e me agarrei mais forte ao sobretudo para afastar o pensamento de que o cachecol azul escuro parecia solitário em seu pescoço. Ele estava usando jeans claros e botas pretas. Seu cabelo continuava indeciso entre o loiro e o castanho claro, naquele topete perfeito no alto da cabeça. Seus ombros eram largos e talvez eu não tivesse notado como ele era alto. Caroline era mais alta que eu, e talvez por isso eu não tenha notado tanta diferença quando via eles juntos, mas perto de mim, ele era muito alto.

Ele não olhou para trás sequer uma vez, e em meio aos outros passantes, parecia contar com a sorte de que eu o estivesse seguindo. Aquela atitude estava me deixando inquieta. O que ele queria?

Nós andamos por mais alguns minutos, ele na frente e eu seguindo um pouco atrás. De repente, seus passos freiaram e ele arriscou olhar para trás, e quando me viu, uma curva ameaçou se formar no canto da boca, mas ele se conteu e se virou totalmente na minha direção. Recuei dois passos, colocando distância entre nós e segurei o sobretudo pela gola firmemente. Seus olhos pararam no meu braço um segundo antes de eu tentar escondê-lo debaixo da roupa. Ele se aproximou.

— Clara, o que houve com o seu braço? — Sua pergunta soou tão aflita, que eu desci o olhar para minha própria pele.

Estava muito pior, a mancha vermelha tinha se espalhado e as marcas de unhas estavam feias e escuras, só quando olhei para aquilo tomei uma consciência súbita da dor, da ardência. Percorri a língua nos lábios, sentindo a pele machucada pelos meus próprios dentes. Bieber também percebeu, e em meio ao meu silêncio, ele voltou a falar.

— O que aconteceu, Clara?

— Eu caí. — Disse rapidamente. Ele estreitou os olhos num ar de dúvida, e seu olhar desceu novamente até o meu braço, me fazendo sentir exposta. Devsiei o olhar.

De repente, sua mão se fechou no meu pulso e eu arregalei os olhos. A sensação quente da sua pele na minha foi um choque, mal percebi quando perdi o fôlego. Sua mão não era pesada e não tinha um aperto forte, porém fiquei tão paralisada diante dessa atitude que meu corpo ficou rígido como pedra e eu estava surpresa de mais para me mover. 

— Me solta! — Exigi com a voz baixa, olhando nos olhos dele. Seu olhar estava preso no meu braço, o analisando.

— São marcas de unhas, Clara. — Ele disse com um tom cauteloso, então seus olhos encontraram os meus. Uma explosão de preocupação colidindo com meus olhos arregalados — Quem fez isso?

— Bieber — pronunciei o seu nome num tom baixo de aviso não planejado. Foi como se tivesse um gosto amargo na minha língua.

Ele me soltou devagar e rapidamente recolhi o braço para dentro do sobretudo, protegendo-o de seus olhos. O eco da sensação de sua pele na minha reverberou por todo o meu corpo, a estranha noção da ausência fazendo meu pulso queimar. O fantasma do seu toque pareceu assombrar meus sentidos momentaneamente, porque não prestei atenção no que ele disse.

— Foi a… — ele parou, incerto, mordeu os próprios lábios e me encarando com o resto da pergunta presa dentro dos olhos. Fiz uma careta.

— Não foi a sua namorada. — Disse rapidamente, e ele ficou calado, um tipo de silêncio encorajador. Respirei fundo. — Não foi ninguém, eu mesma me machuquei.

Seus olhos se arregalaram por um instante.

— Não conte a Caroline. — Acrescentei. Quando ele abriu a boca, complementei: — Não conte a ela sobre nada disso.

Fiz um gesto com o indicador para me referir ao nosso redor. Ele pareceu hesitar por um momento e então percorreu a língua nos lábios. Eu senti minha própria boca seca antes de distraidamente repetir o ato.

— Você teve um ataque de pânico. — Seu tom era cauteloso, como se ele tivesse medo que sua voz quebrasse algo muito frágil e que de maneira nenhuma podia ser reparado.

Estou ciente. — Cruzei os braços na altura do peito.

— No meio da rua.

Sim.

— E não quer que eu conte à sua irmã.

Exato.

— Você não se machucou.

Abri a boca para responder, mas fechei. Seus olhos estavam cheios de confiança quando me viu hesitar, e se ele tinha alguma dúvida antes, agora não tinha mais, não importa que resposta eu desse.

— Por que você se importa?

— Eu só quero ajudar. — Aquela cautela na voz, ele estava se dando conta de que talvez a coisa frágil estivesse prestes a quebrar.

— Eu não preciso da sua ajuda. Eu só preciso que guarde essa situação inesperada entre nós. Não era para… você me ver assim. — Minha voz soou séria até ficar estranha no final, o tom baixo. Foi como estar envergonhada.

Respirei fundo e passei a abotoar os botões do sobretudo, satisfeita por ele bater muito abaixo dos joelhos em mim. Nesse pequeno momento de consciência, ao inspirar fundo, inalei o cheiro do Justin, que estava impregnado em sua roupa o tempo todo. Eu estava distraída de mais para reparar na colônia masculina adocicada, e parecia ter o aroma de algum óleo para cabelos também. Fechei momentaneamente os olhos, me sentindo meio bêbada de repente, então de modo consciente subi mais a gola do sobretudo que escondia facilmente o meu queixo, agora meu nariz estava imerso na roupa.

— Você está propondo compartilhar um segredo entre nós? — Seu tom tinha uma dose de curiosidade e a ponta de astúcia nas palavras. Ele ergueu as sobrancelhas e sua expressão era de uma inocência desonesta.

— Você não sabe ficar de boca fechada? É simples. Não existe segredo nenhum. — Disse de forma impaciente.

Justin desceu o olhar até minhas calças molhadas, ergueu os olhos novamente e encontraram os meus. Revirei os olhos.

— Eu não me mijei, é só água. — Minha resposta tirou um sorriso que revelou dentes perfeitamente brancos na sua boca. Uma covinha apareceu em sua bochecha e seus olhos também acompanharam o riso repentino.

— Eu não imaginava essa possibilidade, de qualquer forma. — Ele continuou sorrindo, de um jeito relaxado, suas mãos estavam enfiadas nos bolsos da calça. — Você se sente melhor?

— Eu estou bem.

— Respirar, você consegue? — Seu tom não tinha nada de zombeteiro, seus olhos estavam me analisando novamente.

Exalei bruscamente, mas não disse nada. Nós estávamos parados na frente de uma loja de doces, a brisa ainda era gélida quando batia no meu rosto, e os passantes já não se importavam comigo. Justin ergueu as sobrancelhas diante do meu silêncio, e eu me encolhi mais dentro do sobretudo.

— Quando as coisas ficarem difíceis, e você sentir que vai perder o controle, você fecha os olhos e respira contando até quatro, depois prenda a respiração por sete segundos e solta contando até oito. Isso vai ajudar na circulação do oxigênio no seu corpo e acalmar o sistema nervoso. — Ele disse tudo com um ar de conhecimento, num tom muito calmo. Eu deveria estar o encarando com uma careta, porque ele adicionou: — Tente.

Ergui as sobrancelhas, ainda calada, tentando decifrar suas intenções. Seus olhos me encaravam com expectativa, e quando eu não demonstrei nenhuma reação, ele deu um passo para mais perto, deixando todo o meu corpo alerta. Eu queria me afastar, porém meus pés não ousaram se mexer.

— Vamos tentar juntos. — Sua voz estava muito mais baixa, quase num sussurro. Eu desviei o olhar por um breve momento, antes dele voltar a falar. — Clara?

— Tudo bem.

— Tudo bem?

Tudo bem.

Ele assentiu, e então começou a contar um, dois, três, então eu fechei os olhos com certa relutância, e ambos respiramos fundo. Agradeci internamente por cada um fazer sua conta mental. Prendemos o ar ao mesmo tempo, e ele aprovou com um gesto quando ambos soltamos o ar. Quando abri os olhos, Bieber me olhava com curiosidade.

— E se isso não resolver, abrace seu corpo apoiando ambas as mãos nos seus ombros, e bata uma palma de cada vez. — Ele mostrou as palmas das mãos antes de abraçar seu próprio corpo e demonstrar a prática em si mesmo. — Tente.

Olhei para ele por mais alguns segundos, num ar desconfiado. Mordi os lábios, antes de lentamente abraçar o meu corpo e levar as mãos até os meus ombros, imitando seus gestos, de maneira incerta. A sensação não era desagradável e eu não detestava aquilo totalmente.

— A repetição desse ato vai passar segurança para o seu cérebro e ele vai entender que não existe situação de perigo. Seu corpo vai extrair a tensão gradativamente e relaxar. Você pode cobrir a cabeça com um cobertor ou casaco para que a percepção do ambiente ao redor não piore a ansiedade. — Ele disse tudo olhando nos meus olhos, naquele tom medicinal que penetrou minhas veias como uma agulha.

— Por que você está dizendo tudo isso? — Eu perguntei num tom áspero.

— São só conselhos, você pode seguí-los ou não. É sua escolha. — Ele não parecia ofendido quando respondeu.

Deslizei minhas mãos para dentro dos bolsos do sobretudo, encarando seu rosto com desconfiança. Respirei fundo o ar gelado do Outono, sentindo o vento brincar com o meu cabelo. O topete de Bieber também estava ficando rebelde sobre a ventania, os fios estavam desgrenhados sobre a testa e a ponta dos meus dedos formigavam com a vontade de afastá-los de seu rosto, alinhar fio por fio, mas ele não parecia se importar tanto quanto eu e precisei afastar os olhos de seu cabelo para não enlouquecer.

— Você quer que eu te leve para casa? — A pergunta súbita veio dele, e eu desviei a atenção daquela fantasia absurda envolvendo topetes rebeldes. 

De repente, me lembrei de que não podia voltar e que aquela casa já não me pertencia. Se eu dissesse isso, ele começaria um interrogatório incoveniente cheio de respostas que eu não saberia dar.

— Eu… — comecei, mas me perdi na elaboração da resposta. Ele aguardava paciente que eu continuasse. — Não quero ir pra casa agora.

— Não? E o que você quer fazer? — Seu tom era um desafio. Eu pensei.

Eu queria tomar um banho longo e gelado, lavar o chão do meu quarto, as paredes, o banheiro, limpar as maçanetas da casa, as janelas, reposicionar os móveis que tia Khaterine encostou. Porém:

— Quero comer… maçãs. — Eu mesma me surpreendi com a resposta, refletindo a reação inesperada de Bieber.

Ele sorriu sem mostrar os dentes dessa vez, mas dando o vislumbre da covinha na bochecha.

— Tudo bem, Clara.

Então, ele sugeriu que eu o seguisse novamente. Se o frio o incomodava, ele não parecia sentir falta do sobretudo. Biener acabou parando na frente de um Walmart 24h, não era lá essas coisas, sequer tinha cara de ser muito movimentado. O letreiro tinha duas luzes piscando e três que já não funcionavam. Estávamos debaixo da grande lona da loja, e analisando o mercado, prendi a respiração bruscamente, com certo receio.

— Bieber, eu não tenho dinheiro nenhum aqui... — disse num tom preocupado.

Ele se virou parcialmente e assentiu.

— Não se preocupe.

Ele voltou a andar em frente, e eu mordi os lábios encarando suas costas. Não consegui seguí-lo dessa vez, e incrivelmente ele percebeu, se virando para trás. Minha mente projetava a sujeira das prateleiras, os produtos largados nos lugares errados e bagunçados, o chão imundo e o cheiro nauseante do açougue. Bieber se aproximou.

— Eu vou esperar aqui. — Me adiantei antes que ele dissesse alguma coisa. E acrescentei — você pode entrar sozinho.

Ele me olhou desconfiado, parecia procurar objeções. Cruzei os braços na altura do peito e encarei seu rosto.

— Tem certeza? — Seu tom era incerto.

— Sim.

— Tudo bem.

Então, depois de continuar me olhando por um momento, talvez esperando a mudança de ideia, ele se convenceu de que ela não viria, se virou e saiu andando portas a dentro. No momento seguinte, eu estava sozinha, e num próximo, eufórica. Se eu tinha planos de fugir e deixá-lo sozinho, o momento era esse. Eu poderia sair andando, ou até mesmo correr para longe do mercado e me livrar de Bieber. Eu não confiava que ele realmente guardaria segredo sobre o que aconteceu hoje, não confiava nem um pouco nele, e estava certa que precisaria lidar com Caroline em algum momento.

De repente, me lembrei dela, e do extremo que ela chegou comigo. O Bieber e sua presença inesperada me distraiam do que realmente importava durante um tempo. Meu estômago se contorceu com uma sensação estranha. Caroline desistiu de mim, isso soava quase como uma piada. Uma piada sem graça e ridícula. Ela queria se ver livre do fardo que eu poderia ser, talvez ela já tivesse tido o suficiente, talvez eu merecesse isso, talvez eu devesse de fato deixá-la em paz.

Levei as mãos até o cabelo e tentei penteá-los com os dedos, mas tinha muitos nós e começou a doer. Fiz uma careta forçando os fios com uma pontada de impaciência, mas não fez com que os nós fossem desfeitos. Soltei um suspiro de exaustão e apenas coloquei os cabelos atrás das orelhas. Eu olhei para dentro do mercado, mas não vi a sombra do Bieber. Eu realmente poderia ir embora, eu podia fazer isso. Ele não iria se importar, na verdade faria uma preocupação fingida e iria correndo ligar para a Caroline, contar tudo o que prometeu guardar e dizer que me perdeu de vista.

Nesse momento, eu estaria bem longe do alcance de todos eles, ninguém me acharia. A ansiedade estava começando a me sufocar, se eu fosse fazer alguma coisa precisava ser agora. Eu não era covarde. Prendi o fôlego, intercalando um olhar rápido entre o mercado e a rua, os poucos passantes apressados e os carros movimentando a região.

— Voltei — dei um pulo assustado e percebi a figura do Bieber atrás de mim.

De repente, soltei todo o ar que eu prendia, de uma forma um tanto aliviada. Olhando para suas mãos, ele carregava duas sacolas, e quando notou meu olhar, me estendeu uma delas. Peguei com a ponta dos dedos e ao abrir avistei maçãs e uma garrafinha d'água. Ergui os olhos até o seu rosto.

— Eu não vou agradecer por isso. — Meu tom vacilou no último segundo, um arrependimento que chegou tarde de mais.

— Certamente, Clara. — Seu sorriso reapareceu no canto da boca. Franzi o cenho.

— Eu… não sou ingrata. — Disse com pouca certeza, lembrando das palavras de tia Khaterine. A covinha em sua bochecha afundou.

— Você não é.

Peguei uma maçã cuidadosamente e a garrafinha d'água. Primeiro, lavei as mãos, tomando mais consciência sobre a ardência das palmas feridas, não ousei fazer uma careta. Eu estava ciente da atenção de Bieber sobre mim enquanto eu lavava a fruta com cautela, tirando qualquer vestígio de terra ou rastros de dedos que pudessem ter tocado nela antes. A limpeza durou mais ou menos uns três minutos, e quando eu terminei, já tinha usado toda a água. Mordi um enorme pedaço crocante e suspirei com o sabor, estava um pouco aguada e a casca não era um vermelho vivo, porém ainda era uma maçã. Bieber esperou pacientemente eu degustar a fruta, e eu me senti um pouco incomodada de ser observada comendo, mas só naquele momento percebi que eu tinha pulado o café da manhã, e o almoço, provavelmente até mesmo a janta, mais tarde. Eu estava com fome.

Enquanto eu mordia os pedaços, caçando o miolo, começou a chover. Tipicamente, numa tarde de Outono canadense. Era uma daquelas chuvas pesadas e muito barulhentas, mas que não duraria muito tempo, só servia para lavar carros abandonados e possivelmente dar de beber aos viralatas de rua. Ele encarou o céu, antes de olhar no seu relógio de pulso.

— Você deveria ir pra casa. — Quando ele falou, senti uma semente na minha boca, e a engoli devagar porque não tinha lugar onde jogar fora.

— Se essa é a sua preocupação, você já pode ir embora. — Disse com uma educação fingida, seu rosto continuou sério.

— Não vou te deixar sozinha.

— Eu estou sempre sozinha. — Minha resposta surpreendeu a nós dois, mas não retirei o que eu disse. Ele suspirou pacientemente.

— Por que não pode ir pra casa? — A pergunta tinha um ar cuidadoso que me fez sentir de novo como se ele estivesse tentando não quebrar algo muito frágil. Pensei numa resposta.

— Não é mais a minha casa, sabe. — Falei num tom sugestivo, e tudo o que ele fez foi me encorajar com os olhos. Respirei fundo. — Caroline vai ficar melhor sozinha.

— Vocês brigaram?

— Não chegamos nesse ponto. — Eu disse de maneira rápida, e logo em seguida enfiei uma das mãos no sobretudo, segurando o miolo da maçã na outra. — Sejamos honestos, o que ela te contou?

— A última vez que conversamos foi ontem. Vocês não estavam se falando.

Ela não estava falando comigo. — Dei um ênfase que julguei ser necessário. — O que mais ela disse?

Ele pareceu hesitar por um momento.

— Que estava pensando... em tomar uma atitude imprudente. — A palavra usada soou quase como um elogio, como se o real significado fosse muito ruim em comparação ao que ele atribuiu.

— Quão imprudente? — daquela vez, era eu quem estava o encorajando a falar. De repente, ele pareceu ter um momento de clareza.

— Ela... quer que você se mude... — As palavras soavam diferente na boca de outra pessoa. Seu tom teve uma mistura desagradável de descrença e compaixão. De repente, ele fez um som de desaprovação com a língua. — Me desculpe.

Olhei nos seus olhos mais atentamente com uma expressão incerta. Com cuidado, perguntei:

— Pelo quê?

— Você tinha razão, eu fui um péssimo profissional e agi com total imprudência deixando você desconfortável. Por causa da minha inconveniência você teve uma péssima experiência com a terapia. É meu dever como médico ser paciente, como você disse. Nessas duas semanas eu estive procurando o meu erro, pesquisando todos os tipos de métodos e assistindo todos os tipos de palestras, mas isso é só uma desculpa pra encobrir que eu estive errando com você desde o início. Fiz sua irmã pensar que o problema era você, e eu sou o problema, Clara. — ele escolheu cada palavra com precisão, como se soubesse exatamente a forma de me fazer conter o fôlego. Quando finalmente soltei o ar, perdida no seu discurso, ele acresceu: — Eu sinto muito mesmo.

— Não seja um aproveitador da situação! Isso não vai me fazer voltar. — eu disse num tom aborrecido, um pouco elevado para se sobressair em meio ao barulho da chuva.

— Uma das coisas que sua irmã mais luta pra que você reconheça é que você precisa de ajuda. Não especificamente da minha, Clara, eu sou apenas um psicólogo sem experiência no mundo, mas existem muitos profissionais competentes lá fora. — mordi os lábios, acabando por me inclinar um pouco para a frente. Ele também fez isso, porque era meio difícil destacar a própria voz com a chuva se amplificando nos telhados. — Você se sentiria melhor com um estranho?

— Não. — respondi sem hesitar, e ele pareceu considerar. — Por que você se importa?

— Porque eu nunca mais quero ver você chorando, completamente sozinha. Não quero que você passe por aquilo de novo, nunca mais. — Ele não hesitou e suas palavras estavam cheias de sinceridade. Meu coração me espancava o peito.

— Eu… não gosto de responder perguntas. — Talvez, aquela resposta fosse a resposta mais sincera que eu já o tivesse dado até agora.

A chuva começou a diminuir.

— Como profissional, eu prometo que vou respeitar o seu tempo e não vou exigir nada de você. — Ergui as minhas sobrancelhas, uma desafio implícito, ele percebeu. — de novo...

Ele pareceu envergonhado por um momento, e demorou um tempo até que eu respondesse. Agora que sua voz estava mais límpida, eu dei dois passos para trás colocando uma distância maior em nós. Mordi os lábios.

— Nada de perguntas inconvenientes ou tentar fuçar o meu passado. Eu só vou responder o que eu quiser. E eu vou pagar por cada consulta. As sessões de terapia precisam ser rápidas e objetivas. Tudo, sem excessão, deve ser estritamente confidencial. — Enquanto eu listava, seus olhos pareciam anotar mentalmente cada item da lista, e quando ele pareceu prestes a se defender sobre a última parte, eu o interrompi bruscamente. — E não! ouse pensar que essa situação de hoje é uma brecha pra algum tipo de intimidade entre nós. Você é apenas o médico e eu a paciente. Eu sei que tudo já começa muito errado por você ser o namorado de Caroline, mas não espere que eu saia para jantares nos fins de semana com vocês dois, nem que sorria quando você aparecer na minha porta com um buquê de flores pra ela, e não espere que eu te receba quando Caroline não estiver em casa. Nunca, nunca espere nada disso de mim.

Quando eu terminei de falar, respirei fundo, tentando me lembrar da ausência de alguma condição, mas não me veio mais nada. Bieber me olhava de uma forma que não consegui captar muita coisa. Ele exibiu um sorriso de novo, seus olhos castanhos diminuindo de tamanho.

— Como quiser Srta. Morgan, será um prazer cuidar de você! — Ele estava sorrindo de novo, e no momento seguinte sua mão estava estendida na minha direção, a espera de um aperto. Eu devo ter feito uma cara esquisita, porque demorou um instante para que ele percebesse. — Ah! Perdão, eu me esqueci.

Bieber não pareceu constrangido quando enfiou a mão no bolso da calça, mas eu sabia que era fingimento. E então, sua atitude me trouxe um lembrete totalmente necessário.

E nunca mais me toque de novo. — Pronunciei cada palavra da maneira mais clara possível, e de repente, o fantasma de sua mão quente no meu pulso assombrou minha pele, e eu senti um arrepio. Ele arregalou os olhos brevemente, antes de dar uma tosse exagerada.

— Perdão, eu estava apenas preocupado com os machucados.

Daquela vez, seu tom estava sério e com um constrangimento visível. Se tocar no assunto dos ferimentos no meu braço atiçou sua curiosidade, ele não ousou fazer mais perguntas. Por outro lado, me lembrou de toda a dor do meu corpo, o cotovelo dolorido, a ardência nos lábios, minhas mãos machucadas, o latejar no lugar onde tia Khaterine enfiou as unhas. Me perguntei quanto tempo demoraria para as marcas saírem. O eco de suas perguntas perseguindo minha sanidade.

Até quando você vai fugir? O quão longe acha que pode ir?

Olhei para Bieber, ele estava mexendo no celular distraidamente. Mordi os lábios devagar, e quando eu olhei para o céu, já não chovia mais.


Notas Finais


Bom, eu definitivamente amei esse capítulo e eu sinto a maturidade dos personagens agora. Isso é ótimo! Estou desenvolvendo a Clara com muito cuidado e muito carinho, quanto à relação dela com o Justin vai ser uma longa jornada, pelo menos é o planejado. Não quero apressar as coisas de jeito nenhum, e acho que muitas aventuras vão acontecer antes de qualquer inclinação romântica. Aliás, algo me diz que lá na frente a Clara pode morder a própria língua...

Um aviso meio irrelevante, eu sei que na vida real o Justin e a Elle tem praticamente a mesma altura, mas como isso aqui é uma fanfic, Clara é uns 15 centímetros mais baixa que ele, porque achei coerente com o papel dela na história.

Bom, agora falando de atualizações, eu não sei pessoal, eu sei que essa história merece mais organização, mas eu acabei de voltar, e estou muuuito eufórica. Talvez mais pra frente seja um capítulo por semana, ou dois, quem sabe? Estou postando hoje de novo porque como eu disse, estou eufórica!! Mas, sendo honesta, vocês não devem mais me ver por aqui essa semana. Não se preocupem, eu voltarei.

E obrigada, obrigada, obrigada e obrigada! Eu só tenho a agradecer, pessoal ❤️


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