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História Imortais Sagrados - Capítulo 5


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Notas do Autor


Olha essa é a primeira e última experiência escrevendo um negocio tão grande. Que coisa horrível, parecia que não tinha fim aaaaaaa
Então, tem muita coisa acontecendo nesse cap pq eu n sei como foi possível 12 pessoas fazerem tanto estrago. Eu to em PANICO q esses acontecimentos tenham ficado confusos, entao se estiver me avisem pfvr.
HISTORY FACT: Por ser um império bem grande, a Pérsia era governada absoluta por um rei e tinha as demais cidades administradas por um governador local chamado de Sátrapa. Vamos dizer entao que eles são prefeitinhos, certo?
Espero que gostem, nossa pilhagem chega ao fim.

Capítulo 5 - Capítulo Quatro


Diferente da rua tão desperta em que Uzui e Suma abordaram a escolta de mercadorias, Hinatsuru, Sabito e Makomo adentraram a noite por um lado da cidade deserto e silencioso, onde todas as vidas pareciam já ter se recolhido, deixando-os para desbravar sozinhos aquela névoa sombria. Seu objetivo, entretanto, não eram soldados tampouco uma carroceria, mas sim uma casa. O trio estava apenas a duas ruas da casa da moeda para onde todo o tesouro do galeão estava sendo escoltado, e tudo que eles precisavam para que o capitão pudesse retirar a recompensa era de uma desculpa despretensiosa. Tennouji voava baixo, e tão logo anunciou que as fardas dos soldados já estavam em posse da tripulação, levantou voo para relatar a situação dos três que julgavam ter encontrado o alvo perfeito.

– Vamos subir. Ao primeiro sinal de fogo, peça ajuda. – o imediato falou à Hinatsuru.

Sabito e Makomo escalaram até a varanda e invadiram por um dos quartos. Ao fincar os pés no segundo andar, afastaram a cortina e aprumaram os ouvidos para se certificar de que não havia perigo; de dentro do aposento, era possível ouvir um ronco alto e uma respiração pesada, características de um sono profundo. Entraram pé-ante-pé, e sem que fizessem o menor ruído, checaram os demais cômodos da casa. No total, haviam três pessoas naquela moradia: dois – um homem e uma mulher em idade avançada – dormiam no quarto pelo qual entraram e um jovem rapaz ressonava no andar de baixo. Três reféns.

– Eh! Levante-se! – Sabito o chacoalhou à pontapés até que despertasse – Sem gritos. – avisou, apontando sua espada.

– Pelos deuses, estou morto!

– Ainda não, amigo!

– Mas o que há, senhor? O que isso significa?

– Significa que preciso de sua colaboração, e se não puder contar com ela, contarei com a colaboração de seu cadáver.

Embora suas palavras não carregassem tanta verdade, o terror que elas provocaram no rapaz foi suficiente para que ele não oferecesse recusa à qualquer que fosse o pedido do pirata mascarado. Sabito amarrou firmemente as mãos do jovem e o levou para o quarto onde Makomo já havia feito o mesmo com os dois mais velhos.

– Escutem-me: não pretendemos matá-los, mas é certo que o faremos caso não sejam... prestativos. Agora me digam: há aqui um sótão? – Sabito perguntou, sempre com a espada em riste.

– Oh, por favor, não temos nada de valor que possa servir à vocês! Por favor, não tirem nossas vidas! – a mulher tremia e os olhos vertiam tantas lágrimas que era difícil não se apiedar, mas ambos os piratas se mantinham firmes, afinal, o medo era uma arma tão ou mais afiada que a própria espada.

– Não precisam se preocupar com suas vidas se responderem nossas perguntas. – Makomo se abaixou próximo aos reféns com uma serenidade que antes fez aumentar o horror que sentiam – Por favor, pode nos dizer se há aqui um sótão?

– Há sim! Há sim, senhora! – balbuciou trêmula – O que querem de nós?

– Por ora, nada. – Makomo se levantou e caminhou em direção à porta – Irei checar.

A navegadora deixou o quarto à passos tão silenciosos que os inquilinos, por um instante de medo, acreditaram se tratar de uma aparição. Sabito foi até janela e, cuidando para não ser visto, apurou o esconderijo de Hinatsuru, que estava de guarda próximo da esquina.

– Podemos subir. O telhado cedeu facilmente. – Makomo retornava ao quarto.

– Ah! Pois que comece então! Veja se encontra óleo ou pólvora!

– Óleo ou... mas o que pretende o senhor com isso? – o velho se pronunciou, aterrorizado pelo que se apresentava.

– Oh, deuses! Vai matar todos nós!

– Quietos! Eu já lhes disse que não os farei mal! Mas... sua casa já não é algo com que possam contar.

– Do que está falando, senhor?

– Precisaremos atear fogo à ela.

– Fogo! – replicou com espanto – Mas por que?

– Com isso não vale que se preocupem. Apenas façam o que mandam se não quiserem queimar com ela.

Makomo voltou com uma quantidade generosa de óleo, uma lamparina acesa e um pouco de pólvora. Entregou tudo ao imediato que, indo ao primeiro andar, se pôs à encharcar o chão, a mobília e tudo o mais que fosse inflamável. Entrou no quarto repetindo os mesmos movimentos que fez no andar inferior, vendo os três reféns tremerem ainda mais sempre que um respingo ou outro os atingia.

Da escada, Sabito jogou a lamparina ao primeiro andar e imediatamente o fogo se espalhou, consumindo tudo que fora encharcado.

– Vamos aguardar. – o pirata declarou.

– Aguardar? Vamos queimar junto com a casa! São loucos? – o mais jovem gritou em pânico.

– Apenas o suficiente para o fogo se espalhar. – ao espiar pela porta, Sabito viu que as chamas já consumiam as escadas – É tempo! Agora... – virou-se para os reféns – Poderiam fazer a gentileza de gritar?

– O-o que? – o rapaz perguntou confuso, o que fez o pirata agarrar seu colarinho e grudar a lâmina da espada rente ao seu pescoço.

– Peça ajuda se tem amor à vida!

Os gritos de socorro ecoaram pela rua, mas não eram suficientes para despertar os moradores de seu sono tranquilo, de modo que Hinatsuru se colocou em ação. Deixando a segurança do seu esconderijo, a mulher se pôs a correr pela vereda gritando por ajuda, dando alcance aos pedidos desesperados dos inquilinos na casa incendiada.

– Socorro! Fogo! Ajudem! Ajudem, por favor!

– O que há? O que está acontecendo? – alguns já apareciam em suas janelas, de caras amassadas e meio perdidos, evidenciando a rapidez com a qual levantaram.

– Fogo! Fogo! A casa está pegando fogo! Logo vai se espalhar por toda rua!

– Pelos deuses! Tragam água! Vamos ajudar!

Dentro em pouco, a algazarra se espalhou enquanto as chamas cresciam agressivas de tal maneira que queimavam à menor aproximação.

– Chamem os soldados! Chamem os soldados! – alguém gritou – Há gente na casa!

Hinatsuru e mais alguns cidadãos correram ao destino que tanto necessitavam distrair: a casa da moeda. Ao chegar nos portões guarnecidos, imploraram por socorro, levando com eles um grande contingente do local.

Quando chegaram na rua que ardia em chamas poderosas, Hinatsuru deixou a confusão e voltou para seu esconderijo, aguardando que seus companheiros aparecessem no telhado. Na casa, os piratas conduziam os reféns para o sótão, onde um buraco aberto no telhado pela navegadora, daria à eles uma fuga segura antes que a maior parte das autoridades de Persis fosse acionada.

Ambos seguiram escada acima, tendo Makomo à frente e Sabito como o último da fila. O calor e o ar carregado de fumaça ficavam a cada minuto mais difíceis de ignorar, fazendo com que subissem tão rápido quanto o possível. Por um infortúnio do destino, Sabito pisou em falso no último degrau e um de seus pés afundou na madeira, cravando farpas e pedaços de pau em sua pele. Ele sentiu o sangue jorrar ao mesmo tempo em que uma dor lancinante se espalhou por todo seu corpo, causando gritos e maldições a sorte que lhe abandonara. Makomo afastou os reféns e com sua espada quebrou o restante do piso que prendia a perna do marido. Apoiando-se nela, Sabito tentou se por de pé, mas a dor causada pelo esforço o fez ir ao chão imediatamente. Foi preciso apenas um segundo para constatar: corriam grave perigo.

De seu esconderijo, Hinatsuru esperava ansiosa, temendo por cada segundo que os dois não apareciam no telhado. Com os minutos passando depressa, Hinatsuru não teve dúvidas de que algo havia acontecido, e naquela situação, quinze minutos talvez fosse o suficiente para que ambos morressem.

♤♤♤

Já perto da casa da moeda, um grupo de soldados se aproximava rapidamente dos portões que se mostravam um tanto desfalcados.

– Essa roupa está me dando nos nervos! – o menino javali cochichou, incomodado com a farda e puxando repetidamente a gola como se ela a enforcasse.

– Cala-se, Inosuke! – Obanai o repreendeu.

Tomioka, Tanjiro, Inosuke, Obanai e Makio se apresentaram em formação para os guardas à entrada da casa. Após um cumprimento, Tomioka se adiantou:

– Trago ordens do general! Preciso falar com seu superior imediatamente.

Os soldados trocaram olhares assombrados. Ordens do general? O que poderia ter acontecido para receberem ordens assim tão de repente? Abriram passagem para o esquadrão de mensageiros, que ao entrar, puderam ouvir diversos boatos circulando sobre um grande incêndio numa vereda muito próxima. Os homens corriam e informavam uns aos outros que precisavam de mais ajuda, que o fogo se descontrolava rapidamente e logo se espalharia por todas as casas próximas. Tomioka se atentou para qualquer menção ao irmão ou às companheiras, mas nada fora dito. Aquilo fez sua alma se tranquilizar, ainda que pouco, porquanto imaginou que tudo corria bem.

– Tenente. – cumprimentou e estendeu-lhe uma carta marcada pelo selo do superior – Ordens do general, acreditamos estar sob ataque.

– Ataque? Pelos deuses! Por quem estamos sendo atacados?

– O general suspeita que sejam piratas, senhor.

– Piratas! Malditos bucaneiros! Quanta audácia tem esses canalhas em atacar um dos portos de Persis!

– Sim, senhor.

– Então... – depois de ler e averiguar o selo – Eles estão aqui pelo ouro do Mali? Pior para eles! Não encontrarão nada aqui além de canhões! Vamos transferi-lo agora mesmo. Soldados! Preparem uma escolta, quero vinte homens comigo! Esta casa está comprometida, fiquem em alerta!

O esquadrão foi formado rapidamente. Sob o comando do tenente, pilhas e pilhas de baús cheios de ouro e prata foram colocados em duas carroceiras enormes, próprias para transportar uma grande carga em situações de emergências. Dez homens escoltavam a primeira, acompanhados por Tomioka e Obanai, enquanto a segunda era acompanhada por Tanjiro, Makio e Inosuke. Pelos fundos, as duas carrocerias foram retiradas com cautela, tendo como objetivo chegar à casa da moeda de número quatro, localizada perto do palácio e, portanto, bem mais guarnecida que as demais. Que infelicidade estava próxima de atingi-los ao descobrir que o tesouro jamais chegaria ao destino pretendido.

– Agora! – o capitão gritou.

Tomados de assalto, a reação tardia dos soldados custou cinco homens à escolta. Cinco homens que talvez pudessem ser a diferença entre uma derrota e uma derrota vergonhosamente rápida. Tomioka impelia todo peso de seu corpo em ataques certeiros, as faíscas despontavam dos choques entre as lâminas, e nem mesmo a desvantagem numérica era capaz de detê-lo. O capitão atacava com um fervor que desconcertava os adversários, deixando-os incapaz de fazer algo além de defender os golpes que desciam sobre suas cabeças com força. Quanto mais atacava, mais diminuía a distância entre si e o oponente, e chegando perto o suficiente, a menor abertura era fatal. Giyuu lançava seus ataques em pontos onde que sabia que, ao levantarem a espada para se defender, os soldados cometeriam o grave erro de deixar exposto parte do corpo, proporcionando ao capitão a chance de golpear-lhes com a soqueira envenenada.

Inosuke atacava com uma brutalidade que apenas suas duas espadas serrilhadas poderiam proporcionar. Causava um terror impressionante ter aquelas armas capazes de não apenas cortar e ferir, mas de estraçalhar a carne humana, passando rente à pele. E era fato, ele se divertia com isso. Inosuke tinha um estilo um tanto bagunçado, ele nunca havia sido um aluno muito atento às aulas de esgrima, o que o fez desenvolver algo que fosse mais compatível com sua personalidade. Não eram poucas as vezes que Giyuu precisava chamar sua atenção para não matar sem querer qualquer civil.

Tanjiro tinha mais leveza. Ele era bastante ágil, o que fazia seu estilo trabalhar com esquiva. O intendente se concentrava mais em escapar dos ataques com rasantes e movimentos reflexos, deixando para levantar sua espada apenas quando um golpe preciso era desferido contra seu corpo. Confundindo os soldados mudando rapidamente sua posição em campo, era tão simples quanto assustar uma criança golpear os inimigos.

Já Obanai era dotado de uma precisão com a qual apenas médicos poderiam ser agraciados. Embora sua baixa estatura pudesse ser um problema, ele a usava ao seu favor de tal modo que seus golpes miravam em pontos fatais do abdómen e mais abaixo. Defender-se de golpes baixos era sem dúvida uma tarefa difícil, e a tensão causada pela direção da lâmina também legava ao médico uma abertura direta para o pescoço, que, uma vez golpeado, não deixava chance para se recompor.

Makio não usava espada. Seu arsenal preferido era composto por duas facas de lâmina curva as quais se encaixavam tão perfeitamente em suas mãos, que pareciam terem sido forjadas tomando seu corpo como molde. As lâminas permitiam que ela realizasse movimentos mais livres e estes abusavam da flexibilidade de seu corpo. Seus ataques se assemelhavam à uma dança, mas para o azar dos espectadores, sua arte era mortal. No cabo das facas ficava acoplado a soqueira venenosa que dava aos piratas uma vitória que podiam considerar limpa.

Não durou muito até que a escolta estivesse derrotada. Apenas um soldado, aterrorizado com o ataque, fez uma tentativa de fuga desesperada para alertar ao tenente sobre a farsa dos mensageiros do general.

– Eh! Aonde pensa que vai? – Inosuke gritou, deixando uma risada diabólica escapar – Ele é meu! Eh! Covarde! Volte já aqui! Obedeça seu mestre, o grande Inosuke-sama!

O menino javali saltou sobre o soldado, desferindo um poderoso chute em suas costas que o fez ir de cara no chão. O pobre homem nem teve tempo de encarar a face alucinada do garoto, já que Inosuke desceu o punho sobre sua nuca injetando-lhe o veneno.

– HAHAHA, Idiotas! Todos eles! Mil vezes idiotas! – bradava satisfeito com a missão.

Estavam empilhando os corpos em um local afastado quando ouviram uma voz conhecida. Hinatsuru vinha ofegante, trêmula, tentando ao máximo conter o medo que tomava seu corpo. Ela sabia que o medo só pioraria tudo.

– Hinatsuru, o que faz aqui?

O coração de Gyuu começou a bater numa sequência tão rápida que ele podia sentir até as veias pulsarem. Algo estava errado. Definitivamente, algo estava muito errado. Hinatsuru por pouco não conseguia parar, e o capitão segurou seus ombros para dar apoio e fazê-la respirar. A voz quase não saía da garganta, presa em meio a um misto de temor e cansaço.

– Onde estão Sabito e Makomo? O que aconteceu? – Tomioka se adiantou.

– Algo está errado, capitão! Eles não deixaram a casa, não saíram! Algo está errado! – despejou.

Os olhos do capitão se arregalaram ao entender o que aquelas palavras significavam. Sabito e Makomo estavam em perigo, grande perigo. Se as chamas não os matassem, tão certo quanto a loucura que era essa pilhagem, seriam pegos pela guarda do exército. Não houve hesitação de sua parte. Tomioka guardou sua espada e iria iniciar a corrida em direção à casa incendiada, mas antes de dar o primeiro passo, foi impedido pelas mãos de Obanai.

– O que vai fazer, capitão?

– Vou salva-los! Solte-me!

– O Sagiri não pode ficar sem o senhor também! Não está pensando direito?

– É o meu irmão, Obanai! Solte-me!

– Se recomponha, capitão! – Obanai segurou firme a gola da farda do outro – Siga o plano. Inosuke e eu iremos trazer de volta Sabito e Makomo. Siga o plano. – frisou. – Inosuke!

– Não me trate feito um cachorro, cobra maldita! Ninguém me diz o que fazer! Agora me siga, vamos salvar nossos companheiros!

Ambos se foram em direção à rua que haviam acabado de deixar, mas o coração de Tomioka não se aquietou. Uma dose de culpa venenosa foi se instalando em seu peito e a irritação fez com que ele batesse firme as mãos na carroceria que continha seu prêmio, agora um tanto menos desejado. Alguns minutos se passaram, sem saber ao certo que rumo tomar, quando Tennouji surgiu nos céus avisando: “crá, crá Uzui está com o último carregamento! Último carregamento à bordo! Crá, crá Sabito ferido! Makomo e Sabito estão presos! A guarda está aumentando! Crá, crá, guarda aumentando!”

Era o que faltava para Tomioka tomar uma decisão. Ainda que Obanai e Inosuke pudessem resgata-los, com toda certeza, eles seriam pegos. Dessa vez, ele precisava de algo grande. Algo que nenhum soldado pudesse ignorar, mesmo que fosse necessário sacrificar mil civis.

– Hinatsuru! – chamou – Leve as carrocerias para a costa pelas passagens de que falei. Uzui vai estar esperando. Coloquem o ouro à bordo e preparem o navio para partida. Proíbo vocês de voltarem, entendeu?

– Sim, senhor! – respondeu, se colocando rapidamente no lugar do cocheiro – O que vai fazer?

– Ganhar tempo! Tanjiro, Makio! Venham comigo!

Tomaram direções diferentes, mas o peso que pairava no ar se mostrava comum à todos eles: o medo da perda.

♤♤♤

Makomo tentava conter o sangue e limpar o máximo da madeira que estava fincada na pele do imediato. Sabito sentia dores horríveis, como se diversas agulhas o estivessem perfurando. O ar não ajudava, a fumaça entrava rápida e o calor fazia a ferida arder ainda mais. O sótão era baixo e cada minuto aumentava a sensação de que estavam num forno, com brasas queimando bem abaixo de seus pés. O chão estava quente, as paredes estavam quentes e se aquela casa não tivesse um revestimento de pedra, tudo já teria ido abaixo.

– Precisamos solta-los ou morrerão conosco. – Makomo comentou com Sabito, sem parar seu trabalho na perna. – Abram essa janela! – gritou para que abrissem a única e pequena passagem de ar naquele local.

– Vão nos delatar assim que saírem. O garoto pode nos... Makomo!

O mais novo dos reféns, impelido pelo medo e o instinto de sobrevivência que frequentemente transforma a mais estúpida das ideias em possibilidade, pulou sobre a navegadora, prensando as costas dela contra seu corpo. Mesmo com as mãos amarradas, os braços se posicionaram no pescoço de Makomo e o apertaram firme. Os dois mais velhos se encolhiam num dos cantos do quarto, enquanto o mais novo suspendia no ar a pirata, mas a esperança que tinham em matá-la não durou muito. Makomo desferiu uma pesada cotovelada nas costelas do rapaz, o que o fez se curvar, pondo os pés da navegadora de volta no chão. Ela impulsionou a cabeça para trás, e a pancada fez o nariz do outro sangrar. Com mais duas cotoveladas no mesmo local e prováveis costelas quebradas, o rapaz afrouxou o agarre, deixando-a livre.

– Quando tentar atacar um pirata, certifique-se de que pode mata-lo.

Avisou e desceu um último golpe sobre seu rosto com o anel envenenado. Quando ele apagou, mais pelo soco que pelo veneno, ela mesma abriu a janela e voltou para checar o marido.

– O matou! O matou! Meu filho, você o matou! – a mulher gritou, abraçando o homem desesperada em busca de apoio.

– Quietos! Ele não está morto!

A situação se complicara. Sem a ajuda do mais jovem, ela sozinha não conseguiria fazer os velhos subirem ao telhado, e quem sabe, nem eles iriam sair deixando para trás o corpo do filho. Não conseguiria salva-los.

– Makomo...

– Se disser que preciso te deixar eu mesma amputarei sua perna. – respondeu irritada, com os pensamentos se embaralhando. Um pequeno silêncio se formou antes de Sabito suspirar e dizer:

– Eu só ia dizer que foi um golpe esplêndido. Um baita soco!

O comentário a fez sorrir por baixo da máscara, mas não foi o suficiente para a animar. Ela sabia que a cada minuto que passavam ali, estavam aceitando pouco a pouco a ideia de que iam morrer.

Atrapalhando os pensamentos de Makomo, um bater de asas surgiu na pequena janela, e Tennouji anunciou o que pareceu ser uma mensagem dos próprios deuses: “crá, crá Obanai e Inosuke chegando! Obanai e Inosuke chegando! Crá, crá!

Pouco tempo depois, ouviram passos se aproximar pelo telhado e a cabeça de um garoto mascarado aparecer pelo buraco com sua característica risada alucinada.

– Eh! Foi daqui que pediram o resgate? O mestre chegou!

♤♤♤

– Capitão, aonde estamos indo? – Tanjiro perguntou enquanto eles corriam pelas ruas.

– Casa do sátrapa! – respondeu simplesmente.

– Eh!?

Por ter vivenciado muitos conflitos e ser uma cidade antiga, muitos e muitos túneis de emergências corriam por baixo de algumas ruas. Há muito que não eram utilizados, mas Tomioka jamais esqueceu por quantos desses caminhos andou enquanto brincava de explorar ou quantos túneis memorizou quando o general Urokodaki lhes ensinava por onde fugir e salvar cidadãos em caso de guerra.

Alguns desses túneis subterrâneos tinham ligação direta com casas de autoridades, era óbvio, pois para muitos reis a segurança dos cidadãos não era a maior prioridade.

Tomando esses atalhos, o trio emergiu nos fundos da casa do sátrapa da cidade. E ainda sob o disfarce de soldados, correram para a entrada, causando o maior dos alardes quando a porta foi aberta por um dos empregados.

– Fujam! – o capitão irrompeu aos gritos – Fujam todos! Estamos sendo atacados!

– Senhor! Kanroji-sama ainda está em seus aposentos! – uma das empregadas o avisou.

– Vamos pega-lo. Fuja e avise aos soldados que o sátrapa está sendo sequestrado!

– Sequestrado? – perguntou horrorizada – Sequestrado por quem?

– Por nós!

Tomioka tirou sua pistola do cinto e disparou duas vezes para o alto, fazendo todos os empregados fugirem aos gritos de socorro. O trio se despiu das fardas e colocaram suas máscaras para assumirem a real identidade de fantasmas dos mares.

– Esvaziem a casa! Encontrem barris de pólvora e os posicionem nas entradas! – ordenou à Makio e Tanjiro.

O capitão invadiu os aposentos do sátrapa, que se encontrava em roupas de dormir junto à sua esposa. O homem parecia revoltado com a repentina invasão.

– Mas quem ousa...!? O que está acontecendo aqui?

– Karonji-sama, o senhor e sua esposa estão sob o meu poder.

– Mas quem o senhor pensa que é? Eu sou o sátrapa dessa cidade!

– À você não importa quem somos. Agora, amarre as mãos de sua mulher e me acompanhe.

– Que absurdo é esse? Não o farei!

Tomioka sacou a pistola e apontou para os dois. O homem estremeceu dos pés a cabeça e levantando as mãos em rendição, fez o que o capitão ordenou.

Não demorou muito para que o alarme da cidade disparasse, avisando à todos que estavam sofrendo um ataque. A madrugada corria sem o menor sinal de estrelas no céu e Giyuu se perguntava se já estavam perto do fim.

Em pouco tempo, um grande contingente se apresentava aos portões do sátrapa, munidos de lanças e arcabuzes. O capitão fez uma breve análise de quantos haviam lá embaixo e se atentou especialmente as armas que portavam. Saiu à varanda com sua pistola apontada para o pescoço do homem que tremia em suas mãos e com um tiro para os céus, chamou a atenção dos soldados antes que eles invadissem a casa.

– Solte o sátrapa, senhor! – o tenente tomou a frente – Não há para onde fugir!

– Pois digo que há.

– Mas como? Está cercado!

– Ouça com atenção, tenente, pois tenho dois barris de pólvora deitados nas portas e mandarei a casa pelos ares ao menor sinal de invasão. – Tomioka falava tão tranquilamente que parecia zombar do esquadrão.

– Assim morrerá também e vai arder para sempre no inferno, pirata maldito!

– Que me importa o fogo do inferno diante do que vocês poderiam causar à mim? Vou com tudo pelos ares!

– Acaso é doido!?

– Sou apenas um homem com algumas reivindicações a fazer.

– E o que quer o senhor?

– Primeiro: afaste daqui sua tropa.

– E depois?

– Consiga para mim e meus companheiros um salvo-conduto assinado pelo próprio rei!

– Está certo! Liberte Kanroji-sama e farei o que pediu. Juro pela minha honra!

– Soldados não tem honra, tenente! Consiga o que peço e liberto seu sátrapa.

– Mas...

– Faça o que ele pede, tenente! – o sátrapa gritou em desespero.

– Senhor...

– Estarei aqui, tenente!

O capitão voltou para os aposentos. Tanjiro e Makio aguardavam ordens, tão receosos com as ações de Tomioka que não conseguiam ao menos se expressar.

– Eles não vão esperar, capitão! – Makio falou.

– Não vão trazer o que pedimos! – Tanjiro seguiu o lamento, mas Giyuu estava mais que ciente disso.

– Mas é claro que vão! Eu sou um sátrapa! – o homem berrou com um misto de medo e arrogância.

– Pro inferno com seu título! – Makio explodiu.

– O que faremos? – Tanjiro estava visivelmente apreensivo.

– Deitem fogo ao rastilho de pólvora e cuidem para não explodir antes de deixarmos a casa.

– Vai explodir minha casa? Mas espere! Eles vão conseguir o que pediu!

Como que para responder as súplicas do sátrapa, tiros de arcabuzes rasgaram as cortinas e se afundaram nas paredes. O capitão apenas olhou para o homem com sua costumeira inexpressividade e viu a face do senhor empalidecer diante da constatação. Pegou ambos pelo braço e correu para se encontrar com os demais piratas.

– Se quiserem viver, sugiro que me sigam. – Tomioka avisou sereno – Ao porão!

Desceram rapidamente e se protegeram como puderam. A explosão ensurdeceu todos que estavam próximos, e os segundos de desorientação os fizeram bambear. Mesmo com os ouvidos zunindo, não se permitiram parar. Pela saída do porão, aos fundos, todos deixaram a casa ainda cambaleando. Os estragos causados eram incalculáveis, aquelas ruínas, antes uma casa tão rica, não serviriam para mais nada além de lembrar a cidade do grande espetáculo causado por piratas. Malditos piratas!

– Kanroji-sama – Tomioka parou e encarou o velho coberto de fuligem e meio desnorteado – Aqui nos separamos.

O capitão desferiu um soco com o anel envenenado e Makio fez o mesmo com sua esposa. O trio, então, partiu por entre as palmeiras do jardim até os túneis que os levariam a costa.

O alvorecer despontava no horizonte enquanto os piratas corriam em direção ao cais. Tennouji os acompanhava de perto “crá, crá, todos à bordo! Todos à bordo! Crá, crá”, grasnava aliviando os corações dos três.

A cidade estava em polvorosa, ouviam-se gritos de ordem, de espanto, de angústia, uma verdadeira algazarra que havia despertado a população bem antes do sol nascer.

Tomioka, Makio e Tanjiro avistaram o navio de longe, com as velas içadas e a âncora suspensa. Os piratas subiram à bordo tão velozes quanto um raio, e assim que Giyuu fincou os pés no convés, disparou as ordens:

– Soltar cabos! Vamos zarpar imediatamente!

Correu à enfermaria para se certificar de que Sabito e Makomo estavam bem, e tão logo o fez, voltou depressa para assumir seu lugar no leme.

No porto, as tropas começavam a se agrupar e tiros de arcabuzes foram disparados contra o navio, estilhaçando parte do costado.

As ordens dos almirantes no porto bradavam para que os marinheiros subissem à bordo e perseguissem o navio pirata, mas ao descobrir a inutilidade do leme, as ordens mudaram para que apontassem os canhões. Nezuko se aprumou na amurada para ver o ato final de sua obra, e assim que os marinheiros enfiaram a pólvora na boca dos canhões, várias explosões seguidas pintaram o amanhecer de rosa e fogo. O grito de comemoração da mestre de armas se alastrou pelo navio, e por um breve instante todos acharam que tudo acabara bem.

– Barco à frente, capitão! – Inosuke gritou da gávea – Duas milhas de distância!

O capitão se projetou sobre a amurada, apenas para ver um pequeno escaler bem no caminho de seu navio.

– Eh! Saiam! Soltem as velas! – Inosuke gritava sacudindo os braços.

Os marinheiros do pequeno barco estavam em pânico ao ver o navio pirata cada vez mais próximo. As velas não soltavam por mais que tentassem e a batida era iminente.

– Está presa, capitão! As velas estão presas!

– Há crianças à bordo! – Tanjiro gritou com assombro.

– Makomo! – o capitão gritou – O leme! Mantenha o curso!

– Mas... capitão!

Tomioka pulou ao convés sem dar resposta à navegadora. Se apossou de uma corda e de pronto a lançou para gávea, gritando ao marinheiro:

– Inosuke!

Inosuke reconheceu rapidamente as pretensões do capitão e amarrou firmemente a corda na verga do traquete. Tomioka tomou impulso, correndo pela amurada e se atirou em direção ao escaler, pousando sobre o mastro da embarcação, finalmente livrando as velas do pequeno barco, amarrando-as com astúcia e as deixando bem estiradas. Sob o comando de Giyuu, o escaler navegou rapidamente para longe da rota do navio pirata, as crianças á bordo se agarravam a um velho assustadas, mas a expressão de Tomioka não chegou a se alterar.

Quando estava pronto para se lançar de volta ao mar, o capitão do fantasmas dos mares foi atingindo por uma forte pancada na cabeça, apagando completamente.


Notas Finais


Galeão: Embarcação comumente usada para comércio.
Imediato: Responsável pelo navio quando o capitão está ocupado.
Arcabuz: arma de fogo.
Rastilho: Fio embebido de póvolra ou outro material inflamável que comunica fogo de uma ponta à outra.
Convés: Parte descoberta de um navio.
Costado: Casco da embarcação.
Leme: Aparelho que permite governar uma embarcação.
Escaler: Embarcação pequena movida à remo ou vela.
Amurada: Parapeito da embarcação.
Gávea: Última peça vertical colocada nos mastros.
Verga: pau o qual se prende ao mastro de forma horizontal. Onde se fixam as velas.
Traquete: Mastro mais à frente da embarcação.


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