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História Imperium - Capítulo 17


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Notas do Autor


desculpem a demora p att to sem net em casa :(
prox cap é o ultimoooo

Capítulo 17 - Tempestade


Capítulo Quinze — Tempestade.

 

A garagem estava silenciosa quando chegaram. Mark e Jackson saíram primeiro do carro, ambos desnorteados, com rostos carregando culpa e tristeza. A missão tinha sido dada como um sucesso, mas ninguém sabia ainda sobre Jaebum. Não queriam criar pânico entre os agentes, mas, mais do que isso, Jackson e Mark queriam ser aqueles a falarem para Yugyeom e Youngjae o que tinha acontecido. Por isso que, quando chegaram ao andar onde os meninos estavam acompanhando a missão, não tinha choro, gritos ou palavras que poderiam machucar mais ainda. Os meninos, na realidade, os abraçaram entre risos e comemoraram brevemente, entretanto era claro nas expressões tristes que algo tinha dado errado, e isso apenas se confirmou quando em uma olhada rápida Youngjae percebeu que Jaebum não estava com eles.

— Cadê o Jaebum? — Foi o primeiro a perguntar.

Yugyeom olhou em volta também, procurava o amigo há um tempo, mas pensou que ele talvez tivesse passado em algum outro andar antes. As expressões de Mark e Jackson, entretanto, não davam margem para pensar outra coisa: algo tinha dado errado. O Kim, ligeiramente chocado, travou no lugar, os olhos imediatamente buscando Jinyoung, que o encarava como se quisesse remediar uma explosão enorme que logo aconteceria. Youngjae, por outro lado, não conseguiu manter a frieza que ser líder daquele grupo lhe cobrava; com as mãos tremendo mais do que nunca, agarrou os ombros de Jackson, que estava na frente, e o encarou nos olhos como se pudesse dissecar o amigo por completo.

— Cadê ele? — Perguntou com um fio de voz.         

— Youngjae, o Jaebum... — A voz de Jackson falhou, então os olhos dele de repente se encheram de lágrimas.

A cena de mais cedo não parava de se repetir em sua mente. Jaebum, a granada, a explosão e os rebeldes os puxando para irem embora. Não tinha mais o que ser feito por Jaebum, logo o prédio estaria cercado tanto de civis quanto de agentes, ficar por ali para tentar resgatá-lo ou recuperar o corpo dele seria um risco grande demais a ser tomado agora que tinham muitas coisas para priorizar. Jackson não entendia porque ele tinha se explodido, se era uma maneira de derrubar os agentes para deixá-los fugir ou se foi por engano, entretanto isso não era mais importante agora, afinal entender os motivos de Jaebum certamente não o traria de volta. Sentia raiva também, de si mesmo e de Mark. Eram mais velhos, responsáveis por ele, não deveriam tê-lo deixado correr muito longe.

— Você está mentindo. — Youngjae vociferou, apertando os ombros do chinês. Os olhos dele também estavam cheios de lágrimas.

— Me desculpa, a gente não conseguiu voltar para buscar ele. — sussurrou.

Yugyeom foi o primeiro a desabar. Como se de repente tivesse perdido o comando do próprio corpo, deixou-se cair no sofá e começou a chorar descontroladamente. Jinyoung não demorou muito mais para apará-lo, abraçando o mais novo com força, também sentindo o rosto queimar pelas lágrimas que não queria derrubar. Bambam estava estático, pela primeira vez sentia que a mente não estava processando absolutamente nada, nem mesmo as informações mais óbvias. Seus olhos caminhavam de Mark, Jackson e Youngjae para Jinyoung e Yugyeom, entretanto o tailandês sentia que algo tivesse sido arrancado de si, sua alma, talvez. Sabia que era uma missão perigosa, entretanto aquilo parecia irreal demais por algum motivo. Sentia que a memória de um Jaebum confiante andando pela base estava sumindo, esvaindo entre seus dedos.

Mark estava igualmente estático, mas seu rosto carregava marcas de uma culpa que nunca iria embora. Jackson chorava, e sentia raiva, e tentava acalmar Youngjae, que estava tão trêmulo e gélido que parecia prestes a desmaiar. Não era simplesmente a perda de um integrante dos rebeldes, era uma perda que os afetava tremendamente, um garoto, o mais novo da equipe, que tinha feito muito nos últimos meses e lentamente os ajudou a melhorar, ainda que tal melhora não fosse realmente perceptível junto de todas as outras coisas que aconteciam tão frenéticas por ali. Jaebum também tinha sido alguém que deu duro para melhorar, pois não queria atrasá-los, assim como foi um amigo, um amante e uma pessoa em quem podiam confiar de olhos fechados. Não tê-lo ali enquanto os civis protestavam de preto na rua a favor dos rebeldes parecia vazio, sem sentindo.

— Foi a única coisa que eu consegui salvar dele. — Mark murmurou, mostrando um pequeno chip. — Entrei no sistema de compartilhamento que ele nos deu acesso antes da missão e salvei tudo do painel dele antes que tentassem apagar para evitar uma invasão. As fotos, os vídeos... Foi o que eu consegui.

Rumou até a mesinha baixa no centro, entre os sofás, e deixou-o ali. Suas mãos também tremiam. Quando passou por Yugyeom, o direcionou um olhar que pedia desculpas, mas o amigo não o viu, pois estava abraçando o próprio corpo, então Mark foi embora. Youngjae o viu ir e gritou porque sua frustração, raiva e tristeza pareciam ser apenas um sentimento agora, um sentimento grosseiro e letal, que machucava não só seus sentidos, mas também castigava seu corpo. Jackson não parava de se desculpar a todo o momento, e ambos choravam. Youngjae não podia cobrá-los de nada, não podia jogar a culpa do que acontecera neles, mas no fundo, mesmo que isso fosse idiota da sua parte, ele gostaria de ter alguém para descontar toda a sua raiva além do próprio Im e si mesmo. Ir tinha sido escolha dele, não desistiu em momento algum, mas podia ter interferido. Não sentia que ele estava pronto, não deveria ter deixado.

Jackson soltou-se de si e foi até o sofá. Bambam caiu ao lado dele, ainda chocado, não demorando muito em receber o Wang em seus braços.

— Temos que ir buscar ele. — Youngjae murmurou, agitado demais para raciocinar.

— Não tem como. — Jinyoung logo retrucou, deixando de fitar Yugyeom para encarar o amigo.

— Claro que tem, Jinyoung! Só precisamos invadir o lugar e...

— Não vou deixar você se suicidar. — O Park levantou-se, irritado. Sabia que Youngjae iria agir dessa forma. — Se tivesse sido capaz de salvar Jaebum, os meninos teriam o feito. Se eles voltaram sozinhos, é porque não tinha jeito. Você não pode deixar o complexo de herói te afetar agora!

— Jackson e Mark estavam assustados! — Youngjae aproximou-se um passo, irritado. — Talvez tenha como...

— Não tem como, Youngjae. — Jackson disse, cansado. — Ele se explodiu.

Um silêncio agonizante caiu sobre eles. Yugyeom de repente parou de soluçar, levantando os olhos vermelhos e opacos, cinzentos como nunca, encarando o chinês como se ele tivesse contado a maior mentira do mundo inteiro, mas, no fundo, sabia que nenhum dos meninos brincaria com algo tão sério a sim. Youngjae sentiu as pernas fracas, precisando sentar-se também, porque a idéia de Jaebum ter se explodido não fazia o mínimo sentindo. Com a voz trêmula, pediu que Jackson explicasse exatamente o que tinha acontecido e mesmo estando fraco, ele o fez. Detalhe por detalhe, tudo que se lembrava foi dito e até mesmo descreveu como o Im o olhou antes de puxar o gatilho da granada. Conseguia reviver a cena várias vezes em sua mente, mas em cada uma delas ela parecia ainda mais dolorosa, afinal Jackson enxergava novas possibilidades, mesmo que inviáveis, de salvá-lo em todas elas.

Yugyeom encarava o chão sem dizer nada. Jinyoung estava atordoado com a informação, como se ela fosse simplesmente impossível em sua cabeça — talvez não acreditasse que Jaebum tinha a coragem de se expor a tanta dor dessa forma. Bambam parecia ter tido o suficiente daquele papo, pois se levantou completamente desnorteado e foi embora, correndo até o banheiro. Jackson disse que também não aguentava mais nada daquilo, logo se retirando depois de pedir desculpas várias vezes novamente, como se isso pudesse atenuar a própria dor. Youngjae estava processando todas as palavras do amigo com cuidado, o peito doendo, a ansiedade correndo pelas veias.

— Por que ele fez isso? — Yugyeom sussurrou, frágil. Não conseguia compreender Jaebum.

— Talvez ele quisesse garantir que os meninos o vissem morto. — Jinyoung murmurou em resposta. — Assim não voltariam para buscá-lo. Ou fez isso para ajudá-los a fugir.

— Ele sabe que eles voltariam nem que para pegar o corpo. — Youngjae resmungou, ainda incrédulo.

— Jaebum não teria acionado uma granada apenas porque ele podia. — Jinyoung disse entredentes. — Não seja irresponsável, Youngjae, eu sei que tudo que você quer é uma desculpa para entrar na prefeitura e explodir tudo. Isso é um plano suicida! Eles já devem ter movido Jaebum, vivo ou morto, para outro lugar, muito mais seguro, afinal Jackson disse que eles o reconheceram. Procurá-lo agora não vai dar em nada, talvez até façam uma armadilha para você.

— Eu não me importo, porra! — Youngjae gritou, virando-se completamente dominado pela dor da perda para Jinyoung. Os olhos dele estavam sem vida alguma. — Eu só o quero de volta, que merda, você não consegue ver isso?

— Eu consigo sim, seu babaca. — Jinyoung gritou em resposta, igualmente irritado. — Todos nós queremos Jaebum de volta, não aja como se apenas a porra da sua dor importasse nesse momento. Yugyeom o conhece desde criança, deve estar sentindo muito mais que você, mas não está sugerindo planos idiotas que iriam matar todos nós e nem mesmo tentando encontrar um motivo para descontar a frustração dele em outro alguém! — Com um respirar fundo mais lento do que o normal, Jinyoung deixou seus ombros caírem ao ver o amigo lhe fitar arrependido. — Não dá para mudar o que aconteceu, Youngjae, simplesmente não dá. O Jaebum explodiu a granada por um motivo e talvez nós nunca saibamos qual, mas eu também acho que isso foi um recado claro dele que não deveríamos correr atrás.

— O Jaebum não...

— Ele era muito mais forte do que eu imaginei. — murmurou, parecendo culpado por nunca ter reconhecido isso em voz alta antes. — Era um garoto e eu não achava que deveria estar aqui, não enquanto já tínhamos Yugyeom, jovem o suficiente, se arriscando. E eu senti muito ciúme dele, e muita inveja também, porque na idade dele eu me escondia e evitava a realidade. Jaebum era muitas coisas, Youngjae, e só agora eu vejo que sempre foi corajoso. Não acho que se ele estiver vivo por aí, queira você ou qualquer um de nós se arriscando mais ainda por ele.

Ao que terminou de falar, Jinyoung abaixou-se e pegou o braço de Yugyeom, que de repente pareceu notar onde estava e se levantou. Trazendo-o para perto, o Park abraçou o maior e virou-se para Youngjae, que ainda o encarava completamente sem forças.

— Vou deixá-lo no quarto. Você deveria ir esfriar a cabeça também.

***

Os dias estenderam-se silenciosos e ocupados. Nenhum dos seis falava um com o outro realmente, pareciam querer evitar o costume dos dias anteriores a missão porque qualquer sinal de normalidade os lembrava da presença alegre de Jaebum. Youngjae estava mais recluso, saía pouco do quarto e quando o fazia geralmente era para responder os chamados do outros líderes e discutir planos. Estavam analisando cada informação roubada, categorizando-as e jogando fora o que era desnecessário. Jaebum, apesar de ser um iniciante, tinha sido o segundo que mais roubara informações, mesmo que algumas delas tenham sido realmente idiotas, perdendo apenas para Mark, que era realmente imbatível. Quando soube disso, o Tuan deixou um sorriso um tanto que amargo aparecer.

— Fui eu que ensinei a ele a organizar as coisas desse jeito, mas Jaebum deve ter entrado em desespero porque salvou uma pasta chamada “Antigo modelo de tubulação de esgoto da Neos”.

Yugyeom olhava as fotos recuperadas do painel material de Jaebum constantemente. A maioria era com ele, ambos ainda jovens, antes do Im tornar-se rebelde. Algumas outras eram dos meninos, entretanto ele não tivera tempo o suficiente para encher a galeria com eles como tinha feito consigo, apenas anos poderiam revelar tantas fotos e Jaebum não iria ter chance de o fazê-lo. Jinyoung tentava manter o grupo junto na ausência de Youngjae, mas era difícil quando também não se sentia muito animado. A única coisa boa que tinham recentemente era que a cidade estava em um tipo de guerra civil; as pessoas tinham acordado, estavam apoiando os rebeldes publicamente, até mesmo celebridades, e as coisas corriam como o esperado — protestos, cartazes de apoio aos rebeldes, políticos temerosos renunciando. Ao menos isso.

Os acordos aconteceriam pela tarde daquela quarta-feira cheia de temporais. Os rebeldes queriam evitar mais conflito, parte do centro da cidade tinha colapsado porque algum civil que apoiava o movimento tinha explodido uma bomba de Nível S e agora podiam ver parte da Lynx se olhassem diretamente pelo buraco. Além disso, a violência tinha piorado consideravelmente na periferia porque os vigilantes cresceram junto do apoio aos rebeldes, mas estavam agindo de forma impulsiva. Tudo isso era naturalmente esperado, cada lado tinha seus extremos e com a força que cresceram publicamente certamente haveriam aqueles prontos para assumir riscos muito grandes, mas os líderes dos rebeldes não queriam que mais pessoas se arriscassem. Com sorte, os acordos seriam bem sucedidos e iriam retirar vários corruptos de uma vez.

O plano inicial era controlar as coisas até terem certeza que tudo estava bem, mas Youngjae sabia que tinha pessoas nos rebeldes que cobiçavam cargos políticos grandes, portanto teriam que ficar de olho nessas pessoas e terem a certeza que o poder não as corromperia. Era a reta final da briga, entretanto o movimento deveria permanecer forte por muito mais tempo. Ele não esperava nada de positivo para si nessa reunião, não levando em conta que era considerado um criminoso altamente perigoso; estava sendo caçado, por isso não podia sair sem estar disfarçado e tinha que regular bem o que fazia pelas ruas. Sequer atualizar suas redes sociais podia; tinham medo que rastreassem Youngjae até a base, o que iria gerar um belo problema.

Sabia que os grandes donos das corporações afetadas estavam apenas procurando alguém para castigar. Os rebeldes podiam ter ideais bons, entretanto houveram coisas erradas na história do movimento e muitos, tanto empresários corruptos quanto civis, foram prejudicados por isso. Como assumira publicamente ser um rebelde, anunciando para o país todo sua posição de influência como líder, era normal que Youngjae fosse aquele que dava face ao movimento agora, então queriam puni-lo no lugar de caçar todos os rebeldes e prendê-los, pois isso seria muito trabalhoso e gastaria recursos demais. O Choi achava um castigo justo, ainda mais se isso fosse livrar muitos outros de serem perseguidos. Os meninos não concordavam com essa possibilidade, ainda mais depois que Jaebum não estava mais ali, porque soava como se Youngjae apenas quisesse fugir de sua dor.

Quando os líderes da parte dos anjos o informaram o que já sabia, as discussões tornaram-se ainda mais fervorosas.

— Você não vai se entregar, ponto. — Jinyoung exclamou, irritado.

— Sabe que eu devo. — Youngjae deu de ombros, cansado.

— Eles só querem alguém para bater, Youngjae, não aceite esse termo. — Mark murmurou, preocupado.

— Mark tem razão. Eles não querem fazer isso para tornar as coisas meramente justas ou porque acham que você tem que assumir as responsabilidades dos erros do passado, eles só querem alguém para descontar tudo isso, para desmoralizar, um último ato de maldade. — Jackson disse, as olheiras parecendo ainda mais profundas em seu rosto agora apático.

— Isso vai dá-los uma sensação de vitória, o que vai facilitar muito as nossas vidas quando saírem de seus cargos achando que venceram ao menos uma batalha. É uma vida por várias.

Bambam e Yugyeom observavam em silêncio. Youngjae estava evitando fitá-los recentemente, não porque não queria ser mais julgado ainda, mas porque sabia que eles tinham adquirido uma forma muito conveniente de lê-lo com o tempo. Bambam, que era seu melhor amigo desde criança, obviamente já há tinha há tempos, entretanto ele não era de fazer muito uso dessa percepção porque na maior parte do tempo eles concordavam com o que deveria ser feito. Desde que Jaebum não voltara para a casa, entretanto, o tailandês o observava muito mais, e estava sempre atento aos seus movimentos, como se pudesse prevê-los, até mesmo evitando certos vícios que Youngjae jurava ter abandonado — como fumar muito, por exemplo —, mas que voltaram com a tristeza.

Mas Bambam, apesar de também estar abalado, era muito analítico. Ele teria percebido antes de qualquer um.

— Você já sabia que seria assim. — disse o tailandês, fitando-o um pouco que decepcionado. — Desde o começo, não? Ou talvez antes, quando você assumiu a liderança. Você sabia que chegaria o dia que alguém teria que ser punido para as coisas acontecerem, por isso sempre falou que estava pronto para morrer.

Youngjae não o fitou.

— Esse é o seu jeito de dar as pessoas um motivo para permanecerem do nosso lado. Youngjae, o gamer mais conhecido do mundo... Sua morte traria muita exposição para as coisas que acontecem aqui, muito mais do que seu pronunciamento já trouxe: pessoas do mundo inteiro iriam procurar, pesquisar, e então os rebeldes teriam grande vantagem por causa da mídia, que certamente cairia matando em cima do governo cheio de endinheirados gananciosos perseguindo um garoto jovem. É esperto, Youngjae, não esperava menos de você.

Bambam aproximou-se, de braços cruzados. Fitou o amigo.

— Eu não posso te impedir de nada. — sussurrou. — Mas não aja como se essa decisão não tivesse sido abalada antes, não só por nós, mas também por Jaebum. Não precisa esconder que a morte dele não te impulsiona a se entregar porque esta se sentindo culpado, todos nós sentimos o mesmo.

Youngjae virou-se, fitando-o com uma expressão impassível, apesar de estar trêmulo.

— Você não sabe se ele morreu...

— Sei que se estiver vivo, já não é mais o garoto que conhecemos. Torturá-lo não traria nada, Jaebum não nos entregaria e tentar acessar as memórias dele seria trabalhoso por causa das máquinas que costumam danificar o cérebro. Levando em conta que ele provavelmente ficou em um estado ruim por causa da detonação da granada, seria arriscado e poderia matá-lo tentar ter as memórias dele, então resta duas coisas: a morte, ou transformá-lo em soldado com aquela técnica de reprodução de som e vídeo que Hyungwon sofreu. Se tivessem matado ele, Youngjae, teriam pendurado o corpo de Jaebum em um lugar público como provocação, ou talvez algo pior. Como nada aconteceu...

— Você acha que apagaram tudo que ele sabe e o transformaram em um robô? — sussurrou Youngjae, nervoso apenas de pensar nisso.

Bambam suspirou, dando de ombros. Ele já tinha visto rebeldes que foram capturados e voltaram às ruas como agentes do governo praticamente sem vida, apenas obedecendo a ordens. Era um processo feito quase como uma hipnose antiquada, mas funcionava bem melhor porque com o tempo e a tecnologia os cientistas descobriram formas de acessar e controlar o cérebro apenas com sons e imagens, tornando pessoas, saudáveis ou não, em seres sem vida. Hyungwon tinha sido um deles, mas com sorte escapou porque o processo não foi realizado corretamente. Ele não gostaria que Jaebum tivesse tido esse fim, mas levando em conta que ainda não tinham exposto o corpo dele, nem mesmo para causar dor em Youngjae, considerava que iriam usá-lo para algo ainda.

— Não gosto disso tanto quanto você, — Segurou o braço do amigo, que voltava a ficar irritado. — mas não estou escondendo e reprimindo o que sinto. Você está tomando decisões no calor do momento porque está se sentindo culpado de coisas que não causou. Jaebum era jovem, mas sabia o que estava fazendo. Como Jinyoung disse, ele detonou a granada porque sabia que a situação não iria melhorar para os meninos enquanto eles tentassem salvá-lo. Jaebum fez as escolhas dele racionalmente, você está agindo igual um adolescente.

— E como eu poderia agir? — resmungou Youngjae, segurando as lágrimas teimosas que ousavam escapar. — Eu estava apaixonado por ele, Bambam, e tinha feito planos. Queria passear com ele, ver filmes e, não sei, merda, fazer coisas normais!

Bambam suspirou, assentindo. Abraçou-o, logo sentindo os braços fortes do amigo envolverem sua cintura.

— Não estou te culpando por sentir, mas lhe dando um sermão por tentar esconder o que sente. Fale mais sobre isso, Youngjae, e não tome decisões dessa forma.

— Você sabe que eu não vou desistir desse acordo.

O tailandês assentiu, porque ele sabia que nada convenceria Youngjae a não se entregar, mas não queria aceitar. Jinyoung resmungou algo ao fundo, e logo ouviram a porta bater com força. Nenhum dos meninos iria aceitar perder outro membro do grupo tão facilmente.

— Já que não posso mudar o que você sente, nem mesmo tentar te convencer de desistir, me prometa que vai fazer uma coisa. — O Choi assentiu, mostrando que iria. — Se o dia chegar e você for mesmo se entregar, faça isso com confiança. Não abaixe a cabeça, não finja que está acuado. Você deve isso a Jaebum, que te admirava dessa forma, como um líder forte.

Youngjae assentiu, e não falaram mais sobre o assunto.

***

O capuz ajudava a esconder parte de sua identidade, mas era a mascara que fazia todo o trabalho. Os acordos tinham sido feitos, cinco dos sete da lista de perseguidos pelos rebeldes iriam renunciar seus cargos e outros de confiança iriam entrar. Youngjae não estaria ali para observá-los de perto e saber se iriam fazer um bom trabalho, entretanto sabia que os meninos não os deixariam descansar. Não era porque tinham conseguido isso que estavam livres, muito pelo contrário, afinal ainda havia dois homens com cargos poderosos que tinham conexões sujas e eles ainda não tinham se entregado, além de vários outros que não tinham sido identificados ainda. Mas parte de um dos acordos era que alguém dos rebeldes fosse responsabilizado, para que alguma dignidade restasse ao governo, como se pegar o líder fosse um prêmio. E ali estava Youngjae, no meio da avenida principal da cidade, em plena luz do dia, deixando-se encharcar pela tempestade.

Seus passos até o meio da avenida apenas aconteceram quando o sinal abriu. Tinha se despedido da forma como podia dos amigos, mas ninguém tinha realmente os preparado para sua morte, nem mesmo seus próprios avisos sobre não temer morrer. Os rebeldes do lado Hell tinham feito uma homenagem a si, mas ninguém queria aceitar o que iria acontecer, por isso o ar estava esquisito na base. Youngjae, entretanto, estava realmente decidido, portanto quando parou ali no meio, sem temer os carros ou as buzinas, apenas tirou seu capuz, deixou a água escorrer pela parte de pele que a mascara que não cobria e enfim retirou-a também, revelando sua identidade. Demorou alguns segundos, mas logo viu um agente do governo, que vigiava uma das plataformas acima, gritar seu nome, então a agitação começou.

O que foi estranho para Youngjae, entretanto, não fora o fato de que já o esperavam ali — tinham combinado o horário em que ele iria se entregar, assim seria mais fácil —, mas sim a demora para atirarem em si ou para agarrarem-no pelo cabelo e arrastarem seu corpo para um carro. Ele esperava uma grande humilhação, uma morte no meio de todas aquelas pessoas que apontavam os painéis para si, tirando fotos, gravando vídeos, gritando seu nome. Seria um espetáculo, um prato cheio, mas ninguém tinha se aproximado; muito pelo contrário, na realidade as pessoas formaram um grande circulo a sua volta e ninguém se aproximava demais, como se estivessem igualmente ansiosos. Youngjae olhou de um lado para o outro, confuso, mas logo viu o furgão preto do governo se aproximando.

Ele esperou um grupo de elite saindo dali com armas e lasers vermelhos mirando em seu peito. Também esperou ser algemado, amordaçado e chicoteado na frente de todos, uma verdadeira humilhação. O que aconteceu, contudo, sequer passou-se pela sua cabeça. Quando um carro abriu caminho pelas pessoas ao fundo, as portas de trás dele se abriram e apenas um agente do governo saiu. Ele estava vestido dos pés a cabeça de preto e suas roupas brilhavam pela água da chuva. Carregava uma arma Nível S, grande, suficiente para causar um estrago em seu rosto, mas não a apontou de imediato. Antes de sequer prendê-lo ou dizer qualquer coisa, o agente aproximou-se o suficiente e retirou sua mascara, deixando-a cair no chão.

Youngjae sentiu o ar de repente se comprimir dentro de seus pulmões, como se pudesse explodir ali mesmo. As pessoas, a cidade, os carros — tudo ficou quieto de repente. A única coisa que o Choi conseguia ouvir era seu coração disparado dentro do peito, parecendo pronto para pular de seu peito e se estilhaçar no chão, e a chuva, que nunca pareceu cair tão pesada sobre o seu corpo. Os olhos roxos o encaravam sem vida, completamente inexpressíveis, mas ainda eram os mesmos olhos que já tinham sorrido para si, tão alegres que nem mesmo deveriam parecer tão ameaçadores naquele momento. Jaebum tinha parte do lado direito do rosto cheio de machucados, e sua orelha estava com uma parte arrancada, impedindo-o de usar os vários brincos, mas ainda era o mesmo Jaebum que se lembrava.

— Choi Youngjae, você está preso. — Ele apontou a arma para seu peito.

O único diferencial era que aquele Im Jaebum não se lembrava de ninguém, porque provavelmente tinha sido hipnotizado como Bambam tinha previsto.



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