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História Implacável - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Sorte


Porra, a expectativa está me matando. Ela tenta recuar, mas acaba tropeçando e suas costas batem na árvore atrás dela. No susto, Mackenzie me puxa junto de si e nossos lábios colidem.

Beijo o canto de seus lábios e aperto sua nuca. Minha boca deixa uma trilha de beijos do pescoço até a orelha, ela fecha os olhos e arfa. Sua boca está gelada e tensa, então a beijo com carinho e sugo seus lábios levemente. Ela abre a boca por puro instinto e aproveito disso pra abrir passagem em sua boca.

Diferente das outras garotas que eu beijei durante a noite, ela não tem gosto de cerveja. Pelo contrário, ela é doce como uma bala e isso me deixa faminto por açúcar. Aperto sua cintura enquanto aumento a intensidade do beijo. Minhas mãos automaticamente apertam sua bunda, a puxando contra mim. Suas mãos agarram minha jaqueta, me puxando e empurrando ao mesmo tempo.

Ela corresponde o beijo como timidez, mas vontade.

Um grupo perto de nós ri alto nos trazendo de volta à realidade. Mackenzie me empurra com toda sua força, quebrando o enlace de nossos lábios e passa a mão na boca.

– Seu idiota!

Cambaleio um pouco, tonto pela bebida e pelo melhor beijo da noite. Essa garota tem cara de anjo, mas me fez queimar de desejo.

Balanço a cabeça e a olho com um sorriso. – Te dou um sete. Te daria um dez porque me deixou de pau duro, mas me empurrou em seguida. Isso te fez perder alguns pontos, linda.

O vermelho em seu rosto não me diz se é raiva ou vergonha. Talvez ambos. Ela abre a boca para falar, mas se cala e lança um tapa no meu rosto, fazendo minha bochecha formigar em ardência.

- Fica longe de mim!

Seus gritos batem na minha cabeça e tampo os ouvidos.

– Porra, garota!

Ela sai apressada pra dentro do bar e suspiro. Uma coisa é fato, ela beija pra caralho.

M A C K E N Z I E

Minha primeira festa na faculdade e eu acabo nos braços do maior cafajeste, egocêntrico, ridículo do campus. Isso definitivamente não estava na minha lista de afazeres e me odiei a cada segundo depois do acontecido. Me odiei por ter permitido, mas me odiei ainda mais por ter gostado.

Grunho irritada de novo desejando que ele esteja bêbado o bastante para esquecer tudo aquilo no dia seguinte. Deus sabe que eu não esqueceria tão facilmente assim.

Depois da cena vergonhosa do lado de fora, corro pro banheiro e permaneço ali por pelo menos meia hora. Me parece o lugar mais seguro e estranhamente calmo de todo esse bar. Fico ali mexendo no celular até Penn surgir completamente bêbada.

– Ei, o que você tá fazendo aqui?

Ela cambaleia da mesma forma embriagada que David tinha feito anteriormente. Ela se apoia na pia e ri.

– Você tá girando.

Ela olha ao redor – Tudo tá girando. – Penn franze o cenho e ri novamente.

– Ok. Você não tá nada bem. Cadê o Taylor?

– O Tay? Hmm, vou transar com ele hoje. Transar até ficar de perna bamba!

As outras garotas no banheiro riem e fecho os olhos contanto até três.

Nota Mental Número Um Para Não Cair Numa Furada Novamente: nunca ceder às ideias imbecis de Penélope novamente.

A carrego pra fora e Taylor está ali nos esperando.

– Ela está bêbada.

– Não. Ela foi além disso.

Pela feição irritada em seu rosto, posso ver que ele está m bravo. Taylor pega ela pela cintura e ela resmunga alguma coisa só pra ele.

– Vamos embora, Mack.

– Ok.

Quando Taylor disse que íamos embora, eu estava crente de que só nos três iríamos. Quer dizer, David provavelmente está transando ou pegando alguém a força por aí. Mas quando chegamos ao lado de fora, lá está ele. Recostado em sua moto como se fosse o rei do mundo todo com um cigarro na boca.

– Que demora, porra!

Por que ele tem que adicionar um porra no final de cada frase? Meu devaneio é interrompido pelo som de água jorrando. Penn.

Ela se debruça e vomita na grama. Corro até ela, segurando seus cabelos pra trás.

– Você não vai pilotar. - Taylor deixa claro a David, que rola os olhos antes deles iniciarem uma breve discussão.

Eu sabia que ele é um idiota, só não sabia em qual proporção. Ele quer voltar pilotando sua moto. Pelo que posso ver - e sentir - de David, ele é mais marrento do que o aconselhável para uma pessoa. E também não gosta de ser contrariado.

Penn cambaleia e a seguro enquanto Taylor convence o idiota. Eles entram num acordo e Tay se vira pra mim, o olhar de David também me encontra e deduzo que eles falam algo sobre mim.

– Nunca mais vou beber de novo!

Penélope murmura e a arrasto até a lateral do carro de Tay. Ele se aproxima e sorri pra mim.

– Você tem carta de motorista, né?

— Tenho. – assenti.

– Você vai levar os dois pra casa e eu vou estar bem a sua frente na moto do Dave. Você pode fazer isso?

Engulo o seco e olho pro carro. É um Camaro. Eu não tenho carta de motorista pra dirigir um Camaro.

– Taylor, eu não sei dirigir um Camaro.

Ele sorri — É mais fácil do que parece. Na verdade, é exatamente a mesma coisa. Você pode fazer isso, Mack.

Balanço a cabeça negativamente e ele ri.

Taylor é uma das pessoas mais positivas que conheço. Ele consegue convencer qualquer um de qualquer coisa com aquele sorriso confiante que diz "fica fria, vai dar tudo certo". Quando ele sorriu, acreditei que eu realmente poderia dirigir um Camaro.

– Vamos lá. Vou estar na sua frente.

O medo de acabar batendo o carro de Taylor ou atropelar um cachorro pelas ruas escuras em torno do apartamento deles me apavora o caminho todo.

A palma das minhas mãos está suando e seguro o volante com ambas como se minha vida dependesse disso. A risada de David ecoa pelo carro silencioso e tenho um sobressalto com o susto.

– Que isso, lucky? Se assustando tão fácil?

Junto toda a paciência que tinha e suspiro ignorando suas palavras.

– Meu nome é Mackenzie.

Ele ri e encosta a cabeça no vidro olhando pra mim.

– Eu sei. Mas agora você se tornou minha sorte. Você surgiu na noite em que ganhei meu maior caixa, foi o meu melhor beijo da noite... Isso te faz meu amuleto da sorte. Além do mais, olha só pra mim... Tem uma gata dirigindo um Camaro e me levando pra casa. Sou um filho da puta sortudo. – ele diz com um sorriso enorme e balanço a cabeça.

– Não sou nada sua.

Ele ri e mordeu o lábio num gesto sexy pra caramba, e me praguejo novamente por estar achando esse babaca atraente.

– Lucky. Minha lucky.

Ele cantarola para si mesmo.

– Algumas garotas dariam tudo pra ser você agora.

Rolo os olhos de novo e me concentro na estrada.

– Então desce ai e pede pra uma delas te levar pra casa.

– Nah... Você tá fazendo um ótimo trabalho sozinha. - ele rebate e respiro fundo, decidindo ignorá-lo. David está tão bêbado quanto Penélope e é irrelevante rebater.

Fico feliz por ele estar bêbado. No dia seguinte duvido que ele se lembre de algo. Chegamos no apartamento e Taylor já está lá nos esperando. Ele ajuda Dave e eu seguro Penn.

Ajudo ela a entrar no apartamento. Admito que subir dois vãos de escadas foi realmente complicado, mas ao ver que Taylor tinha que segurar alguém com o dobro do peso de Penn mostra que a minha situação não estava tão ruim assim.

Ele pega as chaves e abre a porta com um pouco de dificuldade. Quando entro naquele lugar percebo que a minha opinião sobre um apartamento de homens estava totalmente errada.

Não é um "abatedouro" como sempre imaginei. É um apartamento arrumado, típico de universitários que têm uma diarista que faz uma limpeza uma vez por semana. Há uma sala e cozinha conjuntas, separadas apenas por um balcão americano. Ao lado esquerdo um corredor com três portas. O suficiente para comportar dois quartos e um banheiro talvez.

Taylor joga Dave no sofá e ele reclama pelo mau jeito. Tay vem me ajudar com Penn e pega ela no colo levando até o quarto. Jogo as chaves do carro de Taylor no balcão e suspiro me recostando nele. Meus músculos estão cansados e eu já posso sentir meus olhos pesarem com o sono.

Procuro pelas chaves do carro de Penn no balcão, mas não encontro. Eu podia jurar que ela tinha deixado ali. Ela provavelmente vai passar a noite por aqui e não me sinto a vontade para pedir pro Taylor me deixar no dormitório e voltar. É uma viagem de uns vinte minutos e ele está igualmente cansado.

— Lucky? — David murmura e levanto o olhar vendo ele cambalear para chegar ao corredor. Ele está literalmente caindo de bêbado.

Rolo os olhos e me arrasto para ajudá-lo.

David apoia o braço nos meus ombros e passo os meus ao redor do seu abdômen para conseguir segurá-lo.

Durante a luta percebi que ele se encaixava ainda mais no modelo bad-boy. O cara é um lutador metido e gostoso. É praticamente patético como essa última parte me afeta, porque ele é extremamente irritante.

O caminho até seu quarto deveria ser de um metro e meio, mas nunca pareceu tão longo. Ele é pesado, o corpo é coberto por músculos e o braço esquerdo fechado com tatuagens que acabam no ombro.

Abro a porta do quarto e o lugar também supera as minhas expectativas. O quarto é bem maior que o meu no dormitório. Tem uma cama enorme que está desfeita, uma escrivaninha de vidro no canto perto da janela, um closet, algumas prateleiras e o lugar é coberto por pôsteres e objetos aleatórios espalhados por estantes.

Empurro seu corpo pesado até a cama e o deixo ali sentindo meu ombro doer por conta do peso.

— Lucky.

Ele me chama mais uma vez em sussurro. Quando me viro, sinto a mão de David segurando a minha. Ele me observa com um sorriso e faz um carinho nos meus dedos, quase que de uma forma gentil.

— O que... — ele me puxa mais pra si e acabo sentando na cama ao seu lado.

— Você é linda, sabia? — um sorriso esquisito pinta meus lábios e coro, me sentindo desconfortável com a situação.

— Hmm, ok. Você está muito bêbado.

Ele gargalha e me sinto constrangida e nervosa.

— Tá, eu bebi demais e posso estar bêbado pra cacete, mas você é linda. Amanhã, vou estar sóbrio e você vai continuar sendo linda.

Rio fraco e balanço a cabeça. Com certeza acabar a noite no quarto de um cafajeste bêbado sendo galanteada por ele não estava no meu plano de aulas. Mas uma coisa é certa, eu nunca vou esquecer disso.

— Ok. Obrigada.

Dou de ombros e me levanto ao escutar os passos de Taylor no corredor e em seguida a ducha sendo ligada. Provavelmente ele dará uma chuveirada na Penn.

— Vou ajudar minha irmã.

Levanto, mas ele segura minha mão e me puxa de novo. — Não, não. O Tay cuida dela...

O bafo alcoólico dele tão perto de mim me deixa nauseada e se as minhas mãos não estivessem presas, certamente eu voaria no pescoço dele agora.

— David...

— Você é linda e tem um cheiro delicioso... - ele murmura cheirando meu pescoço e passando as mãos nas minhas coxas. - Aposto que deve ser uma delícia em outros lugares também...

Isso não pode estar acontecendo de novo. Ele segura minhas duas mãos juntas e se vira, deitando por cima de mim, todo meu corpo entra em alerta. Tento me soltar concentrando toda minha calma para não surtar. —Me solta, David. — peço com um bolo na garganta. Ele murmura alguma coisa e continua beijando meu pescoço. Meu corpo inteiro começa a entrar em alerta e me debato, tentando empurrá-lo de cima de mim, mas seu corpo pesado e bêbado não se move. - Me solta! - grito alto e ele não se move.

O desespero de estar sendo contida contra a minha vontade volta pela segunda vez na noite e sinto as lágrimas encherem meus olhos. - David, por favor! - peço, sem forças para lutar e para tirá-lo de cima de mim.

— Taylor!

Meus gritos saem abafados pelo choro que eu tento engolir. O ar para de entrar nos meus pulmões e eu começo a sufocar.

— Taylor, socorro!

David sorri mal intencionado com seus olhos dominados pelo desejo e quando ele tenta me beijar, seu corpo é retirado de cima de mim e lançado contra o chão.

— Mas que porra é essa, Dave!

Taylor corre até mim desesperado com o olhar em fúria e cheio de culpa. Me sento na cama me sentindo exposta e envergonhada e abraço meu corpo. Minha respiração está a entrecortada e minhas mãos tremem.

— Mackenzie, está tudo bem? Por Deus, me desculpa, eu... - ele me olha completamente perdido e passo as mãos no rosto, limpando as lágrimas. Meu coração bate desesperado e eu sinto a náusea subindo minha garganta. O que há de errado com todos esses malditos homens?

— Qual é Tay, a gente só estava...

Ele tenta levantar do chão, mas está bêbado demais pra isso. David demora até se estabelecer com os dois pés no chão e nesse momento Taylor o segura pela nuca fazendo com que ele se curve com a cabeça baixa.

—Sai porra desse quarto, David! - depois da ordem amarga de Taylor, ele é jogado para fora do quarto e eu continuo parada.

Meu coração está acelerado demais e o nervosismo corrói as minhas células.

— Eu não sei o que dizer... Por Deus, me desculpa, Mack. A Penn está passando mau e eu estava no banheiro com ela... Eu... Não sei nem o que dizer. Não devia ter te deixado sozinha com ele. Dave não... Ele não te conhece então... Porra, isso não é desculpa. Me desculpa mesmo.

Taylor tenta se desculpar por algo que não foi culpa dele. O errado nessa história é o babaca do Summer. Ou talvez até fosse eu, por ter cedido a um pedido da minha irmã indo contra os meus princípios.

— Está tudo bem, Tay. Só... - paro para respirar fundo e passar a mão pelos meus olhos, que ainda têm lágrimas querendo sair. — Vou pegar o carro da Penn e voltar para o dormitório.

Me levanto da cama e saio com um passo apressado daquele quarto. Entro no quarto de Taylor e encontro a bolsa de Penn jogada na cama. Procuro as chaves do carro e depois saio dali desesperada por ar puro e calmaria.

Depois da cena horrível na madrugada de sábado, passei o domingo inteiro dentro do quarto no dormitório. Pedi comida pela internet, lavei o cabelo, fiz as unhas e apreciei minha própria companhia durante o dia. Penn me enviou algumas mensagens no domingo a tarde avisando que passaria o dia com Taylor se recuperando da ressada. Não mencionei nada sobre o ataque de Summer em mim, porque eu sabia que ela iria criar uma cena - ainda que fosse justo. Eu não queria complicar mais a minha vida e a vida de Taylor. Então fiquei quieta e tratei de apagar os eventos traumáticos daquela noite da minha cabeça.

Quando meu celular desperta dando início ao meu primeiro dia de aula na universidade eu não me sentia nem um pouco preparada para isso.

Minha noite de sono foi péssima e as imagens de David me beijando e então me agarrando a força sempre voltavam a me atormentar quando eu pegava no sono. Para ajudar Shelby, que eu tinha descoberto ser o nome da minha - não-mais-desaparecida - colega de quarto, havia chegado no meio da madrugada com o namorado. Pelo cheiro horroroso eu podia dizer que ambos estavam drogados e prestes a transar ali comigo na cama ao lado. Cocei a garganta algumas vezes até ela se lembrar de que não estava sozinha.

Os dois tiveram uma breve conversa de murmúrios se referindo a mim e saíram minutos depois, ela acabou voltando há umas duas horas e desabou na cama.

Shelby reclama por conta do barulho e me levanto desligando o alarme. O sol brilha contra as cortinas e sorrio. Pelo menos o dia está ensolarado.

Junto minhas coisas e me arrasto pelo corredor até os banheiros coletivos. Há uma série de garotas tomando o mesmo caminho, a maioria delas passeia pelo corredor com seus pijamas minúsculos e justos como as garçonetes do Hooters. No fundo, sinto um pouco de inveja de tamanha autoestima delas por se vestirem assim sem medo dos julgamentos.

Os chuveiros são separados por paredes. A maioria está cheio e o vapor no ar me deixa nervosa por conta da claustrofobia. E ambientes abafados não são o meu forte. Respiro fundo e mantenho o foco já que estou sozinha.

Tomo um banho rápido me sentindo desconfortável com a conversa das garotas vizinhas ao meu espaço. Visto minha roupa íntima e o roupão comprido e fofo que comprei em Chicago. Quando volto ao dormitório Shelby continua dormindo. Não me preocupo em acordá-la, já que ela é veterana e não me parece nem um pouco preocupada com as aulas.

Arrumo minha mochila depois de me vestir e checo minha aparência no espelho. Passo um pouco de maquiagem para não parecer tão sem graça e solto um suspiro inseguro. 

Novos começos são sempre difíceis, mas vai dar tudo certo. - digo a mim mesma numa tentativa falha de ganhar confiança.

Meu celular apita com uma mensagem de Penélope.

Penélope Manson: "Tô aqui embaixo te esperando, xx"

Respiro fundo de novo e pego a mochila.

— Ei. Você está péssima. — digo assim que entro no carro. Penn está com a ressaca estampada em seu rosto, mesmo tentando esconder isso com maquiagem e seus óculos Rayban.

— Obrigada. Você também está ótima, irmãzinha. — ela debocha e ri quando ela dá partida.

— Aconteceu alguma coisa? O Tay estava estranho hoje de manhã.

Engulo o seco e desvio o olhar para a rua. Se Taylor não mencionou o desastre, eu não vou contar. A situação já foi pra lá de embaraçosa e eu bem sei que Penn não sabe dividir as coisas. Ela vai acabar descontando parte da raiva em Taylor e eles teriam problemas no relacionamento. Eu não quero nada disso pra nenhum de nós.

— Não. Peguei seu carro e voltei pro dormitório. Só isso.

O assunto morre ali. Paramos na Starbucks para comprar café e ela me deixa no meu prédio para minha primeira aula de verdade. Olho ao redor sentindo o frio na barriga antes de adentrar o edifício. O orgulho que sinto agora é maior do que eu jamais poderia descrever.

Sempre vi nos filmes que o primeiro dia de aula na faculdade é divertido e o momento em que se faz amizades pra vida toda.

Quando entro na minha primeira aula de história da arte, o lugar está quase vazio e falta apenas dez minutos para o início da aula. Escolho um lugar na frente e me sento tirando o bloco de anotações e caneta.

A sala, que se parece com um mini auditório, é enorme deve abrigar uns cem alunos com facilidade. O tempo passou e de repente o lugar foi enchendo desesperadamente minutos antes da aula começar. Me sinto levemente desconfortável por ser a única a não estar em um grupinho, mas respiro fundo e relaxo os ombros. Primeiros dias são sempre esquisitos.

Um cara senta do meu lado e me dá um sorriso cordial. Seus olhos verdes me chamam atenção e quase fico encarando por tempo demais. A aparência dele é de cair o queixo, tipo, quantos caras ridiculamente lindos pode haver em uma só universidade?

— Derek Müller, é um prazer. - ele me cumprimenta com um sorriso e droga, fui pega encarando de novo. Sinto meu rosto esquentar em vergonha e retribuo.

— Mackenzie Manson.

Derek olha pra mim e sorri. — Caloura, né?

Franzo o cenho e ri fraco. Está tão na cara assim?

— Sim. Então você é veterano.

— É meu segundo ano aqui. – ele diz e tira as coisas da mochila. Nesse meio tempo consigo reparar que pelo seu tamanho e charme, ele com toda certeza é um atleta. A dúvida com relação a qual esporta paira no ar. Brown é famosa pelo time de futebol americano e hóquei, mas também há o time de basquete e lacrosse. Derek é alto o suficiente para jogar os três esportes.

— Olha, as coisas podem parecer chatas no primeiro dia, talvez até na primeira semana. Mas melhora com o tempo. — ele diz e eu rio.

— Hm, obrigada?

Ele ri e encontra a caneta. – De nada. Costumo ser legal com os calouros porque uns caras não foram tão legais comigo quando cheguei. É só minha forma de não ser um completo idiota.

Não consigo disfarçar o quanto isso me deixa surpresa. Ele parece estar num nível superior ao de todos os veteranos que tive contato agora.

– Ah, que legal. Obrigada de novo. Ainda estou meio perdida por aqui, mas vou tentando me encontrar.

Ele assente e sorri — Duas dicas importantes: a comida do refeitório da ala leste é muito melhor que o central. E nunca, NUNCA, use os banheiros do prédio de artes. Aquele é o lugar é um antro de sacanagem. - não consigo conter minha surpresa e rio de novo. Sua simpatia me deixa menos nervosa e mais confortável. - Ok. Anotado!

Ele balança a cabeça e me olha concentrado. — O quê? Tem algo no meu rosto? —pergunto já levantando o celular para ver o que há de errado.

— Você me parece familiar.

— Deve ser por causa da minha irmã. Penélope Manson. Você a conhece?

Sua expressão vai da passiva para irritadiça num segundo. Ele é impedido de responder por conta da chegada do professor, que começa a se apresentar dando início ao que seria um monólogo de três horas. Derek não olha pra mim, nem troca mais palavras durante a aula. Ok, talvez não role a amizade.

No final do período, Penn está do lado de fora a minha espera. Derek fica conversando com o professor e não me preocupo em dizer tchau.

— Ai esta você! Como foi? Fez amigos? Me diz que sim! Nessa turma tem um monte de caras gatos e inteligentes, pegou o telefone de algum?

Penélope e eu somos irmãs desde os nove anos, quando meus pais morreram e meus tios ficaram com a minha guarda. Nós duas sempre fomos primas muito ligadas uma a outra então nossa adaptação depois do acidente foi fácil. Ela sendo um ano mais velha sempre achou que podia controlar tudo ao nosso redor. Controladora e exigente, eu podia entender e tinha aprendido a aceitar, mas algumas vezes ela ainda me irrita. Como agora.

— Vim pra faculdade pra estudar, Penn. Não pra namorar.

— Ah, Mack... Você não faz nem ideia do que a vida de universitária faz com você.

Ela ri ao dizer isso, mas a revelação só me assusta ainda mais.

Quando chegamos ao refeitório central, percebo que Derek tinha razão. O lugar está lotado e achar uma mesa será impossível. — Vem, eles estão por aqui.

Respiro fundo no segundo em que ela diz"eles". Atravessamos o refeitório, até a extremidade leste, que dá vista para o gramado. Enquanto nos aproximávamos, vou pensando numa desculpa plausível para não ter que me sentar com David.

— Não sei se quero me sentar com ele. Conheci umas garotas legais na aula hoje e...

— Ele pode ser um vagabundo, mas é primo do Tay. Não vou deixar ele fazer nada com você, Mack.

Tarde demais.

Quase digo, mas engulo as palavras. De longe avisto Taylor sentado numa mesa, ela me explica que esse  é o lugar deles. Suspiro frustrada. Penn não vai facilitar nem um pouco, ela era a pessoa mais mandona que eu conhecia. Nem meu pai era assim. Apenas assenti e deixei que ela me levasse até a mesa de David.

– Oi, amor. – Taylor diz e se levanta dando um beijo rápido nela, ele me dá um beijo na bochecha e sorrio em sua direção. David está sentado em frente à Taylor com uma cara nada boa. Penn toma seu lugar ao lado do namorado e o único lugar vago é ao lado do dito cujo.

Tomo a milésima respiração daquele dia e me sento.

— Você parece péssimo, Dave.

Penn comenta e engulo o seco pescando algumas folhas de alface no meu prato.

— Estou péssimo. Minha cabeça tá latejando pra caralho. — ele murmura e segurou a cabeça com as mãos.

Ele não se lembra. Eu já esperava por isso, mas admito que fiquei um tanto ofendida. Encolho os ombros quando ele esbarra seu ombro no meu e deixo o garfo cair no prato. Penn franze o cenho e olha pra mim assustada.

— Que isso, Mack?

Os olhos dele estão em mim e posso sentir o calor através da minha pele. Taylor olha pra mim pedindo desculpas e suspira.

— Fica fria, novata. – David diz e aperta meu joelho debaixo da mesa, me fazendo recuar imediatamente.

— Eu-eu... Eu... Perdi o apetite.

Levanto rápido, pegando minhas coisas e saio apressada para a saída.

D A V I D

A garota sai como se fugisse de alguém. Franzo o cenho, mas balanço a cabeça. Ela não é problema meu. Minha cabeça doí demais e esfrego os olhos me arrependendo de cada dose que virei no sábado.

– O que deu nela?

Taylor suspira e tomo o resto do suco. Sinto seus olhos em mim e encaro pro meu melhor amigo confuso, ele me fulmina com o olhar. — Vamos lá... Dave fez merda na festa.

Ele diz e o olho confuso. — Fiz. Bebi pra porra e agora tô com uma dor de cabeça dos infernos.

— O que ele fez? - Penélope pergunta já com raiva no olhar.

— Você não se lembra mesmo? – ele questiona irritado pra cima de mim.

Taylor costuma ficar puto comigo por muita coisa, mas quando falei com ele hoje de manhã e não recebi resposta imaginei que fosse porque falei alguma besteira pra Penélope na festa. Sempre que eu ficava bêbado sozinho, a gente acabava discutindo a relação.

— Lembro de que?

— Você agarrou a Mackenzie contra a vontade dela.

— Ele o quê? – Penn diz alto chamando atenção pra nossa mesa.

— Ele tentou agarrar ela a força enquanto eu estava no banheiro com você.

Ele explica e Penélope me fulmina com o olhar. — Seu filho da puta! Você perdeu o juízo?

Não tive tempo nem de piscar, ela joga a bandeja com a comida em cima de mim e lança o copo de suco na minha direção. Em seguida, pega sua bolsa e sai para Deus sabe onde.

O cheiro do molho vermelho da massa dela está ótimo, mas sentir ele escorrendo pela minha cabeça não é nada legal. – Que porra é essa?

— Você mereceu.

Taylor levanta e vai atrás da namorada enquanto fico ali coberto de comida e suco. Olho ao redor e vejo as garotas murmurando entre si, eu sabia que se pedisse elas me limpariam com prazer, mas agora tenho muita merda pra consertar pelo visto.

— Que merda você fez com a Penélope pra ela fazer isso com você? — Brian pergunta atrás de mim enquanto me troco. Por sorte, ele tem treino de futebol então tem uma muda de roupa no armário.

Brian Stephens é o manda chuva na Ômega Howl. Ele cursa economia e finanças para assumir os negócios da família no futuro. Brian é o Riquinho Rico do Campus e ele não se importa com isso. Eu também não me importaria se tivesse tanta grana quanto ele. O cara é meu melhor amigo depois de Taylor e está na minha lista de confiança. O que é engraçado, porque nós dois vivemos em realidades completamente diferentes. Ele passa as férias de verão festejando em Ibiza, Positano e todas os destinos de festa na Europa enquanto eu passo o verão ajudando meu pai na oficina. De qualquer forma, Brian é uma das pessoas mais incríveis e honestas que já conheci.

Ajeito o cabelo e me viro pra ver o resultado no espelho – Nada. Ela é louca e você sabe disso.

– Não sei de nada. Mas sei que você deve ter pisado feio na bola pra ela jogar a bandeja em você.

Rolo os olhos.

De fato tenho culpa no cartório dessa vez, mas não vou espalhar isso pra todo mundo porque eu realmente não faço ideia. Se tivesse agarrado Mackenzie a força na noite anterior eu merecia o que Penn tinha feito, na verdade, eu merecia coisa pior. Sempre estive acostumado com a sensação de lapso de memória no dia seguinte a uma noite de farra. Geralmente, ainda tenho os pontos altos da noite na minha cabeça, mas esqueço detalhes como: o nome da garota que fiquei, onde deixei minhas chaves e como fui parar na cama. Não lembrar de ter forçado uma garota a ficar comigo é uma merda das grandes e se torna maior ainda porque a garota é irmã da Penn. A coisa toda é uma merda e me sinto um pedaço de lixo.

Penélope tem mais bolas do que alguns caras da fraternidade e eu sei que ela vai tornar da minha vida um inferno se eu não consertar isso.

– Vou nessa. Depois te devolvo a camisa.

Ele assente e deu de ombros. Faço meu caminho até o estacionamento, sabendo que uma hora ou outra eles apareciam ali. Encontro Ford de Penn e lá estão ela, Taylor e Mackenzie.

– Ei...

– Sabia que você era idiota, mas não pensei que fosse um imbecil a esse nível, seu filho da puta!

Penn ruge na minha direção. Mackenzie não diz nada, mas ela também não precisa.

– Me desculpa. – me defendo com as mãos no ar.

– Foi péssimo!

– David, qual é a porra do seu problema? Com o tanto de mulher que faz fila pra chupar a porra do seu pau, você decidiu que era interessante ir pegar alguém que não quer ficar com você? Qual o seu problema? - ela grita de novo e recuo um passo porque não tenho certeza se ela vai ou não voar no meu pescoço. Se ela o fizer, vou sentar e permitir, porque eu mereço.

— Penn, eu sei que fiz merda! Você me conhece bem o bastante pra saber que eu jamais faria alguma coisa assim em plena consciência. E sim, eu tô culpando a bebida, mas a culpa é minha por ter bebido demais. 

— Claro que a culpa é sua! Ela devia ir na delegacia prestar queixa contra você!

Se Taylor não estivesse entre nós dois, eu podia apostar que ela já teria me dado um soco. Suspiro, juntando paciência pra lidar com a situação. Olho pra Mackenzie e reparo de verdade em sua aparência. Não tem muita coisa na minha cabeça sobre a noite em questão, mas algumas imagens dela correm na minha mente. O olhar assustado nos olhos dela quando quebrei o nariz do Adam, o desprezo em seu tom quando cheguei bêbado para conversar com ela, sua reação pós-beijo e então o desespero em seu olhar quando deitei por cima dela. Porra, eu sou um idiota. 

— Amor... - Taylor a chama e ela se vira emputecida. 

— Mack, posso conversar com você a sós? – peço olhando fixamente para a minha "vítima".

Ela me olha desconfiada, mas cede.

— Eu tô de olho em você, Summer!

Penn faz questão de gritar quando nos afastamos uns metros. — Juro pra você que não faço ideia do que aconteceu. Só me lembro de você dirigindo e... E me colocando na cama? Não sei. Todo resto é um borrão.

Ela suspira e rola os olhos – Te salvei daquele cara antes da festa. Não ia te agarrar se tivesse são. Eu juro pra você que não sou esse cara desprezível que você viu.

— Não te conheço. E pelo que presenciei ontem, você não é confiável e muito menos uma pessoa equilibrada.

Agora ela estava me chamando de maluco? Só podia ser brincadeira. Bufei e puxei o maço de cigarro do bolso.

— Não estou pedindo pra você confiar em mim. Só tô dizendo que pisei na bola e juro por Deus que jamais vou fazer algo parecido de novo. Se você quiser, pode vir e me dar uma surra, eu ajoelho pra você me bater, se quiser. — digo e ela ri. Respiro aliviado com aquela reação, nem tudo está perdido.

— Você ao menos sabe pedir desculpas direito?

Pedir desculpas não é meu forte. Não gosto de estar "errado", mas sei que a situação pede por isso. Coço a nuca e puxo o maço de cigarro do bolso.

— Você é linda demais pra ser chata, viu? Mmm... me desculpa. Me desculpa não, na verdade... Me perdoa, foi uma merda gigantesca. — encolho os ombros e lhe dou um sorriso charmoso antes de acender um cigarro e dar a primeira tragada.

É quase imperceptível, mas ela esboça um sorriso satisfeito.

— Ok.

Sorrio e ela dá as costas pra mim. — Ei.

Ela se vira de novo e faz careta quando solto a fumaça. — Você não queria mesmo ficar comigo?

— Ah, pelo amor de Deus! Me poupe, você não é o rei do mundo. E sim, eu tenho certeza de que não queria ficar com você em nenhuma das vezes que você me agarrou! — ela diz alto e tampa a própria boca depois disso. Mackenzie olha ao redor preocupada com as pessoas ao redor, mas ninguém está prestando.

— Ok, Lucky. Se você diz. — os olhos dela brilham de um jeito curioso quando ela escuta o apelido. Sorrio e passo por ela em direção a minha moto.

Isso vai ser divertido.

°°°

Ela se mostrou diferente em cada momento que tivemos desde o primeiro instante. Ela não era como as outras... Mas o estranho em tudo isso era que ela era normal. E pra mim, para a minha realidade cheia de extravagâncias e exageros o normal era diferente.

Aprendi a gostar do normal, porque isso era tudo o que ela era. Mack não tinha um corpo exuberante, nem se vestia como se fosse para um desfile de moda, ela também não pintava as unhas todas as semanas, nem se preocupava em combinar a calcinha com o sutiã, ela simplesmente era... Ela.

E isso, esse jeitinho todo simples que ela tinha foi o que me encantou, foi o que me tornou um fodido apaixonado que faria qualquer coisa só por um sorriso daquela garota com o cabelo bagunçado pela manhã mais lindo de todos. Foi tudo isso e nada de tantas outras coisas que me fez perceber que as melhores coisas da vida... As mais fantásticas e imprescindíveis são as mais simples. 

Ela não era nada demais e nem queria ser muito. Ela só era... Minha.

 



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