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História Implacável - Capítulo 4


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Capítulo 4 - Longe


Fanfic / Fanfiction Implacável - Capítulo 4 - Longe

David Summer é ridículo.

De verdade, ele pode ser lindo, ter um abdômen excepcional e um humor bêbado que chega a ser fofo, mas ele é ridículo.

Depois da cena no refeitório e então no estacionamento, sigo para minha última aula, que por alguma brincadeira de mau gosto do destino, é no mesmo prédio que o dele.

Caminho até a sala e o encontro escorado na porta conversando com duas garotas e um rapaz, tão lindo quanto todos os ridículos universitários da Brown. As garotas também são lindas e mesmo que o verão já tenha acabado há algumas semanas, elas exibem suas longas pernas bronzeadas com saias um curtas demais para um dia de outono. 

Paro por alguns segundos e olho ao redor. Em comparação com elas, sou básica num nível absurdo. Me sinto um tanto fora do padrão em comparação com as garotas ao meu redor e abraço meus livros na frente do corpo tampando minha roupa. David me observa curioso e franze o cenho.

- Com licença.

As duas garotas me olham de cima a baixo e dão uma risadinha sarcástica que trato de ignorar. 

Encontro um lugar mais ao meio e me acomodo, tirando o material da bolsa. Abro o livro no primeiro capítulo e me perco na leitura até ser interrompida por David se inclinando na minha orelha e sussurrando:

- Só pra deixar claro: você tá linda e não tem nada de errado com a sua roupa.

Me arrepio dos pés à cabeça com o calor de suas palavras ricocheteando no meu pescoço. Levanto a cabeça e encontro um sorriso fraco estampado em seu rosto.

David sorri e segue para o fundo da sala.

Fito à sala a frente a minha frente tímida e encantada. As palavras dele fazem um sorriso coçar em meus lábios, mas não lhe dou o prazer de ver isso. Seu pedido de desculpas me impressionou, ele não pareceu estar fazendo aquilo só para amenizar o clima entre o grupo, foi sincero e pude ver a culpa em seus olhos. 

Balanço a cabeça e dou uma olhada para trás. Ele está sentado na última cadeira da fileira e abre o caderno concentrado. David não me parece o tipo de cara que se  interessa por ética e filosofia, mas não o conheço muito para poder opinar.

Ok. Ele tem todas as características de um universitário que só gosta de farra e bebedeira, mas talvez ele seja maior do que isso. Realmente estou pensando no possível lado bom do cara que tentou me agarrar a força?

Ele também te salvou de ser abusada por um idiota.

Ele é violento e participa de lutas ilegais.

Mas te chamou de linda nas últimas 24 horas mais vezes do que qualquer um no último mês.

A cada ponto negativo que tenho, minha consciência encontra algo para inocentá-lo. Tudo bem, David Summer talvez possa ser mais do que eu previ, mas ainda sim, ele não é o tipo de cara com quem quero ter uma amizade.

- Boa tarde, sou o Clayton Stewart e irei ministrar as aulas de filosofia e ética nesse semestre...

O professor entra na sala e se apresenta. Volto minha atenção para frente, limpando David Summer da minha cabeça. O professor passa um breve resumo sobre a matéria e aplica um teste básico para nivelamento da classe. A matéria é nova na grade então não há tanta gente assim na sala.

Poucos minutos depois do início da aula, David vem se sentar do meu lado. O olho confusa e pergunto:

- O que está fazendo?

- Me sentando?

Ele joga a mochila por cima da mesa e tira caneta e lápis de dentro dela. O professor nos observa com curiosidade, mas não diz nada e começa a entregar os testes. Gosto filosofia e sou boa nisso, contudo David parece não saber nada. Ele parece confuso, ansioso e não para de batucar a caneta na mesa um segundo.

- Você pode parar com isso?

Peço baixo o suficiente para que só ele possa ouvir. Ele me olha tímido e assente parando com o som irritante. David se mexe, suspira e vira as páginas pulando questões e a sua inquietação está me atrapalhando. Só restam cinco alunos na sala e eu já estou quase no final.

- Vocês têm mais dez minutos. - o professor avisa.

Pânico reveste a face dele e respiro fundo, porque sinto uma onda de empatia por ele.  

- C, C, B, E, A. - sussurro.

David vira o rosto pra mim e me pergunta com o olhar do que eu estava falando. - As respostas da primeira parte: C, C, B, E, A.

Repito em um tom ainda mais baixo. Ele fica alguns segundos, mas logo começou a anotar as respostas. As outras são discursivas, eu não tenho como ajudá-lo, mas também não existem respostas certas para as questões que Clayton propõe no teste. É uma questão de ponto de vista. 

Levanto da cadeira, depois de guardar meus livros e deixo o teste na mesa do professor. Ele sorri gentil para mim e saio em direção a saída. Puxo o celular do bolso para mandar uma mensagem a Penn sobre seu paradeiro.

Alguns minutos depois o pátio se esvazia e o fluxo de alunos por ali ficou escasso. Penn ainda não respondeu. A caminhada até o dormitório é um tanto longa e estou cansada.

Suspiro e me levanto pronta para pedir um Uber até em casa.

- Mack!

Escuto me chamarem e quando me viro, vejo David correndo na minha direção. 

- Oi.

- Valeu. - ele ofega - Pelas respostas.

Dou de ombros. - Tanto faz.

- Fico te devendo.

- Summer! - algumas garotas o chamam e rolo os olhos me afastando assim que ele olha na direção delas. 

D A V I D

- Fala, merdinha. - Zach diz me dando um murro no ombro quando me jogo no sofá.

Crescer numa casa onde o chefe da casa é um mecânico e se tem dois irmãos mais velhos, não me deu os melhores bons modos. Jonathan Summer é conhecido por aí por ser o progenitor dos três maiores problemas da cidade.

Zachary e Willian são encrenqueiros de primeira como eu. Todos eles tiveram uma fase no auge da adolescência em que foram parar na delegacia por alguma bagunça. Ainda sim, Will acabou se tornando o mais centrado de nós.

- Cadê o pai?

- Ele teve que resolver umas coisas na oficina e disse que ia levar a Angel pra jantar depois.

Rio - Eles estão levando isso a sério mesmo?

Zach dá de ombros.

Ele é três anos mais velho que eu, mas pelo menos dez anos mais idiota. Ele decidiu pular a faculdade e disse que seria o filho a assumir o negócio da família.

Nós somos em três. Willian é o cabeça da família. Ele aguentou bem as pontas quando a merda complicou há uns anos e agora trabalha em Boston, mas sempre vem nos visitar para se certificar de que não estamos enlouquecendo meu coroa.

- Parece que sim. Você sabe que ele sempre teve uma queda por ela.

- Tanto faz. Como andam as coisas?

- Bem. A Zoey veio aqui te procurar. Ela tá doida pra ver você.

- Eles já chagaram de Orlando?

Assim que ele assente, pulo do sofá e saio em direção à casa vizinha.

A família Archibald é vizinha do meu pai desde a minha infância. A primeira linhagem deles acabou se mudando para Nova York depois da morte de Edward Archibald, ele foi um dos grandes caras da cidade. Bridget Archibald é a filha mais nova e acabou se mudando pra casa, que esteve abandonada por alguns anos com o marido. Alguns anos depois eles tiveram uma filha, Zoella.

Toco a campainha e não demora até que uma das garotas mais lindas que já vi, abra a porta.

- Dave! - Zoey grita estendendo os braços para que eu a pegue no colo.   Ela já está grande e mesmo que todo mundo diga que ela já é uma pré adolescente, Zoey sempre será minha garotinha.

- Oi, Zozo.

Abraço-a fechando a porta atrás de mim com o pé. Seus braços finos enrolados no meu pescoço, me apertam deixando claro que ela morreu de saudades.

- Alguém sentiu minha falta... - cantarolo rindo e Bridge me dá um sorriso da cozinha.

- Sim, você tava morrendo de saudade de mim, Summer.

Me sento no sofá e ela se joga no meu colo.

- Você está uma gatinha bronzeada, hein.

Belisco o nariz dela e recebo uma careta em resposta. - E você tá parecendo um marginal com essa calça caindo.

- Marginal? Essa palavra é nova.

- Mamãe disse que eu deveria ter cuidado com os marginais na praia. Todos eles usavam com a calça caindo que nem você.

- Zoella! - Bridget a repreende de longe e não consigo conter a risada

- Mas você disse, mãe! - ela se defende.

- Não foi isso que eu quis dizer, Dave.

Bridget se desculpa e eu rio balançando a cabeça.

- Tá tudo bem, Bridge.

- Ela disse - Zoey diz baixo.

Sou um marmanjo de vinte e um anos que tem uma melhor amiga de dez. Pode ser estranho, mas faz todo sentido pra mim e pra Zoey. Nossa amizade começou quando meu pai decidiu que iria me castigar me fazendo cuidar da filha da vizinha por três horas depois da escola. No início, eu odiei. Era um verdadeiro porre ter que ficar sentado olhando uma criança de seis anos. Com o tempo eu acabei me apegando aquela pestinha e nos tornamos melhores amigos. Zoey é um anjo na minha vida. Quando a raiva me impede de ver os limites, eu penso nela e consigo voltar a realidade.

Nós dois conversamos até a hora do jantar, conto a ela algumas coisas sobre a minha volta as aulas e ela me conta tudo sobre a viagem a Disney e as praias de Miami no verão. Ganho meu dia observando a alegria dela ao falar do Mickey na mesa de jantar.

M A C K E Z I E

O segundo dia de aula foi mais agradável e tranquilo. Conversei com algumas garotas na aula de Fundamentos da Matemática Financeira e isso tornou ainda mais complicada a compreensão da matéria. A professora não era lá das mais simpáticas também.

Quando a aula acaba dando início ao intervalo, suspiro aliviada e preocupada ao ver que só entendi um terço de todos os números que enchem a lousa. Tiro uma foto do quadro e faço uma nota mental para passar na biblioteca mais tarde.

Penn não está me esperando do lado de fora da sala como no dia anterior e isso me assusta um pouco de início, mas percebo que essa é sua forma sutil de me deixar andar com as minhas próprias pernas. Sorrio sozinha e peço informação para algumas pessoas até achar meu refeitório.

Olho ao redor e o lugar parece ainda mais cheio do que no dia anterior. Eu nunca ia encontrar ela ali.

Meu celular vibrou com uma mensagem:

Penélope Manson: "À sua direita."

Olho na direção e a encontro com o braço estendido, sorrio e faço meu caminho até lá. Meu sorriso morre um pouco quando vejo que David já está lá. Preciso ficar me lembrando de que apesar de tudo, ele não é tão ruim assim.

- Oi, pessoal.

Taylor sorri pra mim, Penn me dá um beijo na bochecha e David apenas acena, o lugar vago é novamente ao lado dele e acabo me sentando a contragosto.

- E então como foi a aula Mack?

Penn me pergunta sorridente.

- A aula não foi lá essas coisas. Foi matemática financeira e eu não entendi nada - faço uma careta - Mas conheci umas garotas legais.

Ela sorri satisfeita - Ontem tive um teste de nivelamento na aula de filosofia e acho que fui bem. - sorri satisfeita.

- Nem me fale nessa porra de prova. - Dave diz revoltado - Provavelmente me fodi.

- Vocês tem aula juntos? - Taylor questiona curioso.

- Sim. Filosofia. Acho que só não me ferrei por completo porque a Lucky me ajudou.

Ele comenta bagunçando o cabelo.

- Lucky? Quem é essa? - pergunta Penn e rolo os olhos corando.

- A Mack.

Sinto o sorriso de David na minha direção e desvio o olhar, tomando um gole da minha garrafa de água.

- A Mackenzie? - Penélope se engasga.

- Ela foi o meu amuleto da sorte na luta. Foi a noite em que ganhei o maior cachê até hoje e você sabe que não acredito em coincidências.

David passa o braço por trás da minha cadeira e sorri olhando pra mim. Mantenho o foco no olhar de Penélope que me olha frustrada querendo rir.

- Isso é besteira.

- Mas e então, você passou cola pro Dave, Mack?

- É... Ele estava me irritando com sua inquietação e passei algumas respostas... Quando não se trata de números eu sou ótima.

- Engraçado. Dave é fera em exatas... Eu também, mas só quando se trata de engenharia. Essa merda de matemática financeira não é comigo. Vocês poderiam se ajudar. Já que você não vai bem com filosofia e Mack tem dificuldade com matemática... Podiam estudar juntos. - Taylor sugeriu e foi a minha vez de engasgar.

- Eu não acho... - mais tossidos. - Não acho isso uma boa ideia.

- É uma ótima ideia. - Dave contorna sorrindo.

Penélope olha pra mim, depois para David e em seguida tortura Taylor com o olhar.

- Não confio muito no seu conhecimento para qualquer coisa, Summer.

Ele ri alto sem se sentir ofendido e roloos olhos.

- Diga a ela, Tay. Diga a ela o que eu sou capaz de fazer.

- Ele é o rei dos números. Nunca vi alguém tão habilidoso com operações matemáticas quanto Dave. Ele pode ser um babaca, mas é insano quando se trata de exatas.

Admito que todo aquele exagero ao redor do conhecimento matemático de David me deixa curiosa e me sinto uma formiga. Como ele - David Summer e eu repito David Summer - pode não ser um idiota completo? Não sou a rainha do conhecimento, mas ele é...

- Agora falando sério, isso é uma boa ideia lucky. Além do mais isso aqui é uma Liga Ivy, eu não estaria aqui se fosse um idiota por completo. - ele debocha e balanço a cabeça porque até que faz sentido. Estamos numa das melhores universidades do país e não é qualquer um que é aceito. Olho para Penn pedindo a opinião dela e ela dá de ombros jogando a escolha para minhas mãos.

- Obrigada, mas não. - digo e forço um sorriso. David parece levemente ofendido, mas mudo de assunto com Penn.

O refeitório está caótico então Taylor tem a genial ideia de ir com Penn na frente pegar a comida e quanto Dave e eu guardamos o lugar. Assim que eles saem respirei fundo e tento ignorar a existência da pessoa ao meu lado.

- Cadê sua educação, linda?

Ele provoca.

Decido ignorar e procurar minha carteira dentro da bolsa. - Ah, vai dizer que tá guardando rancor do nosso beijo? Eu sei que você gostou.

Ele lembra? Merda! Ele lembra! O olho chocada e confusa, por que ele resolveu falar disso agora?

- Só podia estar bom demais pra ser verdade! - reclamo - Cala a boca e esquece isso, David.

Digo com frieza sem olhar pra ele e escuto seu riso em resposta - Vou ser bonzinho e te dar a oportunidade de tirar um dez. Que tal? Na minha casa ou no seu dormitório? - Dave fala próximo ao meu ombro, num tom insuportavelmente provocativo. Os pelos da minha nuca se arrepiam com tanta proximidade e tento não deixar transparecer.

Viro o rosto e o dele está a poucos centímetros dos meus. - Eu nunca, escute bem isso, nunca mais vou cometer o erro de te deixar próximo o suficiente pra me beijar.

Deixo claro e ele mantém seus olhos fixos nos meus lábios enquanto seus dentes brincam com seu lábio inferior. 

Nunca, David!

Reforço e lhe lanço um sorriso irônico. Ele levanta o olhar pra mim e sorri.

- Tem certeza?

- Abso...

Sou interrompida por sua mão puxando minha nuca e seus lábios colidindo contra o meus. Ah, meu Deus. De novo?

Sempre sonhei com meu primeiro beijo. Quando aconteceu no nono ano me senti patética por ter criado tanta expectativa a respeito disso. Foi péssimo e não rolou nada do que os filmes e livros diziam sobre borboletas no estomago e arrepios na espinha. Com o tempo fui aprendendo que não é o beijo que faz a pessoa, mas sim a pessoa que faz o beijo. Beijar alguém só por beijar é esquisito, mas beijar alguém que te faz se sentir além é definitivamente a melhor coisa sobre aquela troca de saliva constante.

De uma forma bem esquisita e indesejada, os beijos de David me fazem ir além. Sinto minha pele de arrepiar, meu ventre se contrair e uma vontade louca de não parar nunca. O cara sabia beijar!

Dave beija minha boca, mas meu corpo todo sente seu sabor. Ele aperta minha nuca com uma força moderada me trazendo mais pra perto dele e suga meu lábio inferior em provocação. Eu quero mais, chegar mais perto, beijar mais forte, ir mais fundo... Até que desperto com a consciência do que está acontecendo.

Recuo um pouco e ele suspira na minha boca - Dez. Com certeza, dez.

David faz um carinho na minha bochecha antes de se afastar e de repente sinto a realidade voltando com o tilintar dos talheres e da conversa das pessoas. 

Estamos no meio do refeitório. Com centenas de pessoas ao redor.

O rubor cobre meu corpo rapidamente e não tenho coragem de olhar ao redor pra ver quem assistiu ao nosso show. Sou caloura, acabei de chegar na faculdade e ganhar fama de vagabunda logo na primeira semana não é o que eu tenho em mente. Me levanto e pego minha bolsa para ir embora.

Saio sem dar ouvido aos chamados de David. 

D A V I D

- Cadê a Mack?

- Ela foi sentar com umas meninas que conheceu na aula hoje.

Engulo o seco com a mentira, já sabendo que vou estar encrencado em breve. Depois que Mackenzie saiu correndo do meu beijo, fiquei uns quinze segundos tentando processar essa merda.

Ela gostou. Ficou explícito na maneira como ela me beijou de volta, mas não fez sentido nenhum ela sair correndo.

Depois do sonho que tive com ela na madrugada, acordei duro e tive que bater uma pra esfriar a cabeça e colocar meu pau de volta no lugar. No instante em que ela apareceu no refeitório com aquele sorriso de boa moça e aquele jeito de que não quer nada demais, senti meu lábios coçarem pra beijar os delas.

- Se você fez alguma coisa...

- Não sou idiota, Penélope.

Murmuro irritado. - É, amor. Ele não ia ser estúpido a esse ponto. - Taylor acrescenta, mas pelo olhar que recebo dele, ele já sabe que eu tenho culpa no cartório. Me levanto pra pegar minha comida e balanço a cabeça.

M A C K E N Z I E

Depois da gracinha de David, sigo para as minhas aulas e aproveito para dar uma volta pelo campus, até encontrar a biblioteca.

- História da arte? - alguém fala nas minhas costas e levanto o rosto.

A garota magra e alta com cabelos escuros e um sorriso simpático toma lugar na mesa.

Fazer amigos é o segundo tópico na minha lista de afazeres na minha nova vida acadêmica. Planejar é uma das minhas manias. Eu gosto de deixar tudo pronto, organizado para obter um melhor resultado no final.

As anotações no meu caderno fazem tudo parecer mais fácil, mas a realidade é outra. Preciso me abrir, deixar a bolha ao meu redor se dissipar e viver uma nova vida. E isso inclui fazer novos amigos.

- Sim. Mas não é minha graduação.

- Ah. Qual seu curso então?

Sua simpatia me faz sorrir. Ela é linda de uma forma romântica, mas com atitude.

- Ainda não decidi. Estou cursando as matérias obrigatórias para um bacharelado em artes, mas não decidi ainda o que quero.

- Ah... - ela assente e abre um livro grosso na mesa. - Psicologia é a minha praia.

- Legal.

- Legal? Não. Psicologia é incrível. Meus pais são psicanalistas, cresci nesse meio e aprendi a amar essa loucura.

A animação dela me faz rir. Ela é a segunda pessoa a ser simpática comigo ali, isso me fez sentir mais à vontade.

- Me parece uma área interessante, mas não é bem a minha praia.

- Então qual é a sua?

Sua pergunta vem acompanhada de um sorriso que me contagia. Seu interesse e e simpatia me faz sentir a vontade, lhe dou um sorriso e relaxo  - Bom, em relação à faculdade eu não tenho muita certeza. Quer dizer, meu primeiro plano era cursar direito, até escolhi algumas optativas ligadas a isso. Mas eu gosto mesmo é de arte. Exposições, música, fotografia... Fiz um curso de fotografia no início do ano em Chicago e foi incrível...

- Então por que não tá estudando isso? - ela faz isso soar tão absurdo que até eu percebo que parece idiotice não cursar algo que realmente amo.

- Porque é um ramo arriscado. Não quero passar quatro anos estudando uma coisa que não vai fazer jus ao dinheiro que meus pais gastaram com a minha educação, entende?

Ela morde o canto do lábio e assente.

- Bom, você pode arriscar e se dar bem, ou jogar fora anos da sua vida numa coisa que não te faz feliz.

Mmm, ela é boa nisso.

- Você é muito boa nisso, né?

Nós duas rimos - Eu sei. A propósito, me chamo Hailey. Hailey Morgan.

Ela estende a mão por cima da mesa e faço o mesmo - Mackenzie Manson.

- Prazer em te conhecer. Tenho certeza que vamos ser grandes amigas.

Sorrio e balanço a cabeça.

Hailey e eu gastamos mais ou menos uma hora entre conversas sobre história, psicologia e sobre a nossa iniciação. Ela também é caloura, mas tinha uma irmã veterana, então ela conhece as turmas populares e tem um namorado. Dylan.

O celular dela toca na mesa e ela atende. Como estamos na parte dos fundos da biblioteca, ninguém vem nos alertar sobre o barulho. Me dou conta do tempo e percebo que já passa do meu horário. Penn deve estar me procurando.

- Eu tenho que ir. Você está na Bronson, certo?

Concordo . - Divido um apê com a minha irmã no centro. Te vejo amanhã por aí. - junto minhas coisas indo embora logo depois dela.

D A V I D

Rejeição nunca foi uma sensação familiar pra mim. Nunca fui rejeitado na vida por ninguém. E posso dizer com todas as letras: é uma merda. E não estou sendo narcisista, é a verdade. 

Passo o dia inteiro incomodado com alguma coisa. Meu humor fica bem similar ao de Penélope quando ela está na TPM e decide que talvez seja divertido infernizar a vida de qualquer um que olhe em sua direção.

Mandei os caras irem a merda quando me chamaram pro Arcade depois da aula. Ignorei os chamados das garotas ao meu redor e fiquei puto comigo mesmo por nada.

- E ai, Dave?

Olho pra direção em que fui chamado e vejo Hailey descendo os degraus da biblioteca. Ela é uma garota legal, caloura e não merece a minha falta de educação como sua irmã, Stella. Respondo com um aceno e dou mais uma tragada no cigarro.

- Tudo bem? Parece que algum bicho te mordeu.

- Tô tranquilo. O que você tá fazendo aqui?

A biblioteca é um ambiente usado geralmente na semana anterior aos exames. Ninguém usa isso diariamente, pelo menos eu acredito que não.

- Vim pegar uns livros na biblioteca. O que você tá fazendo aqui? - ela questiona e franze o cenho.

É nítido que eu não sou do tipo culto. Pelo menos é o que a maioria das pessoas acham, mas sou um estudante do segundo ano de direito então minha carga de leitura é mais pesada que a dos demais. A área da biblioteca é a mais calma e deserta do campus, então sempre que preciso pensar ou matar o tempo venho até aqui e fumo um cigarro ou dois. 

- Nada.

Meu olhar corre o estacionamento vazio a minha frente e vejo mais alguém saindo da biblioteca. Mackenzie segura alguns livros e a mochila no ombro. Ela parece levemente alheia a situação. O céu está começando a escurecer e logo isso se tornaria um lugar perigoso pra ela.

- A gente se fala depois. - digo e dou uma última tragada no cigarro, jogando a bituca no chão.

Caminho com passos largos até Mackenzie e quando ela me vê, solta um suspiro irritado e se vira. 

- Qual é a sua?

- Por Deus, você não cansa de encher o saco?

- O que tem errado contigo, hein?

Comigo? Você que fica me agarrando sem mais nem menos!

- Porque eu sei que você gosta.

O olhar cético em seu rosto me alerta que falei demais. - Você só pode tá brincando comigo! - ela grita - Eu nem ao menos te conheço!

- Exatamente! Você nem me conhece, mas anda por aí achando que é melhor do que eu.

Ela bufa e rola os olhos como se eu fosse um pé no saco - Eu nunca disse isso!

- Nem precisou. Se você não quer me aturar fica longe, mas não sai por aí se achando a maioral. Foi só a porra de um beijo e você saiu correndo como se eu tivesse comido você no meio de todo mundo.

Essa garota não faz sentido nenhum, mas de um jeito esquisito é exatamente isso que chama minha atenção nela. O olhar cético em seu rosto deixa bem claro que ela está arrancando meu pescoço mentalmente.

Mackenzie abre e fecha a boca diversas vezes antes de grunhir e sair andando pra longe de mim. Pelo amor de Deus, que mulher complicada!

- Pra onde você vai?

- Pra longe de você!

Na hora eu nem me dei conta, mas depois percebi que uma das coisas que me levaram direto pra ela, foi a distância que ela colocou entre nós dois. Ela queria me manter longe. Mackenzie não queria ter proximidade comigo. Eu era todo errado pra ela. Um badboy não estava na lista de coisas que ela gostava, nem queria.

Eu não estava no que ela considerava seguro, mas ainda sim ela se arriscou ao se permitir gostar de mim. O que me surpreendeu, foi que ela arriscou tudo que era conhecido, equilibrado e seguro para ficar comigo.

Ela jogou tudo pro ar pra ficar com um cara que não merecia um segundo de seu tempo, mas que ela entregou toda sua vida sem pensar duas vezes.

Eu nunca seria bom o bastante. Mas eu a amava com cada célula do meu corpo, essa era a causa da minha dor. A fonte do meu sofrimento e da minha ruína era esse amor que eu nutria por ela e continuaria alimentando até meu último suspiro... Ou até que o destino entrelaçasse novamente nossos caminhos.

O pior de tudo era que as pessoas ao meu redor dizem que sofro atoa, tenho que seguir em frente de cabeça erguida. Mas ninguém entende como dói. Ninguém entende que aquela garota sempre será tudo pra mim, ninguém entende que quando você ama alguém, não existe a porra do controle, não tem mais aquilo de certo ou errado, você só ama. E eu amava. Ninguém consegue entender que aquela garota que me manteve longe por tanto tempo, era tudo o que eu mais queria ter por perto.

E sabe o que me frustra em tudo isso? Sobre ter um coração partido, é que você nunca mais vai conseguir se lembrar de como se sentia antes. E de alguma forma... Eu não queria.

 



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