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História In a different life - Capítulo 21


Escrita por: elfasy

Notas do Autor


Preparem os lenços.

Boa leitura <3

Capítulo 21 - Tiffany


Como já era de se esperar, lutar contra um demônio não foi nada fácil. Muito menos contra um que tinha ligação direta comigo. 

E, se levar em consideração que eu já era ruim em luta corporal, então só podia dar em desastre mesmo. 

Tiffany conseguia prever cada um dos meus movimentos. E, quando não apenas esquivava deles - como eu esperava que ela iria fazer - ela revidava. 

O canto do meu lábio ardia com um corte que, até agora, não havia cicatrizado, minhas costelas doíam dos chutes e cotoveladas que eu havia tomado e meus punhos e braços tremiam e suavam, já não aguentando mais desferir socos que nunca atingiam seu alvo. 

- Vamos lá, Hyukjae - ela falou após desviar de mais um soco sem a menor dificuldade - Sabe que pode fazer melhor do que isso!

Eu rosnei e saltei na direção dela tentando acertar um chute na sua barriga, mas Tiffany segurou meu tornozelo com as duas mãos e me girou no ar, me fazendo cair de cara no chão. Meu queixo estalou e eu tinha certeza de que tinha rachado um pedaço do meu dente.

Fechei os olhos com força e afundei meus dedos na terra como garras. Atrás de mim, o vento começou a soprar com força e eu ouvi a risada aguda dela.

- Vai começar a apelar já? - provocou.

Senti toda raiva me dominando junto com a frustração de não conseguir acertar sequer um golpe e usei aquilo pra me levantar, mesmo com todo o meu corpo dolorido.

Olhei por sobre o ombro e tudo que eu via era vermelho. Meus olhos brilhavam e minhas presas se duplicaram, não se projetando apenas meus caninos, como o par de dentes na frente deles. Eu queria dilacerar a garganta de alguém de tanto ódio. 

Encontrei o olhar de Tiffany e ela sorriu satisfeita, me chamando com o indicador. 

Bufei e me virei já com a minha perna esquerda erguida, pronto pra lhe acertar um chute, que ela interceptou com o antebraço, mas eu continuei indo pra cima, dando chutes diretos e cruzados, os quais ela continuou rebatendo. Mas, dessa vez, eu não estava golpeando aleatoriamente. Quando a encurralei contra o muro e Tiffany percebeu, eu lhe dei um sorrisinho antes de erguer minha perna direita com o joelho contra o meu peito e esticá-lo, dando um chute direto na direção da sua barriga. 

No entanto, meu pé atravessou o muro já que Tiffany submergiu no chão no exato momento em que eu a acertaria. 

- Quem tá apelando agora?! - questionei e arranquei meu pé do muro em tempo de girar o corpo e vê-la surgindo do chão na minha frente.

Então, segurei em seu pescoço e a atirei contra o tronco grosso da árvore que tinha ao nosso lado. Antes que ela sumisse novamente, enterrei meu joelho na sua barriga e depois dei um soco no seu queixo, abrindo o canto do seu lábio como ela havia feito comigo mais cedo. Sangue negro escorreu pelo canto da sua boca.

Estava prestes a finalizar aquilo, quando Tiffany se segurou no galho acima de si e se ergueu, me dando um chute no peito com os dois pés e me arremessando pra longe. 

Assim que bati com a cabeça no chão, me senti totalmente zonzo e cobri o rosto com o braço, incomodado com a claridade que surgiu de repente. 

- Acabou por hoje, neném - ouvi sua voz dizendo e me esforcei pra abrir os olhos.

O sol havia nascido. Era por isso que as dores, que já estavam fortes, agora, pareciam insuportáveis. 

Tiffany me estendeu a mão e eu a peguei, aceitando a ajuda pra levantar.

Olhei em volta e franzi o cenho por não ver mais ninguém ali.

- Todos já entraram pra dormir - ela explicou e eu a encarei.

- Por que não avisaram?

- Shindong te chamou, mas você estava absorto demais na batalha pra parar. Heechul achou melhor interromper. 

Tiffany tinha um sorriso no rosto, mesmo com o corte fundo que havia no seu lábio.

- Desculpa por isso - pedi, agora com a cabeça mais fria, e ela riu.

- Eu exigiria desculpas se você não tivesse conseguido me acertar. Estou orgulhosa de você - piscou e eu senti minhas bochechas esquentando.

Meu lábio não teve tempo de se curar antes do sol nascer e, muito menos, as fraturas na costela. Eu mal conseguia respirar sem sentir uma dor excruciante. 

Tiffany deve ter percebido enquanto eu mancava em direção a mansão, pois colocou a mão nas minhas costas e nos transportou pro meu quarto. 

- Aqui - falou, me oferecendo seu pulso.

Eu a encarei com o cenho franzido, não entendendo o que era pra eu fazer, exatamente.

- Bebe - pediu e eu arregalei os olhos, surpreso.

- Por quê?!

- Pra você se curar.

- Não vai me fazer mal? - perguntei, lembrando da cor de seu sangue, e ela sorriu.

- Vai fazer você se sentir igual quando bebeu o de Heechul.

As lembranças da noite que me alimentei de Heechul preencheram minha mente e eu quis me enterrar de vergonha ao saber que Tiffany tinha conhecimento sobre aquilo. Mas, também, me lembrei de como me senti forte e bem depois de provar do sangue dele. E do quanto ele era cheiroso, mesmo ainda não sendo tão bom quanto o de Aiden. 

Pensar em como eu não desconfiei de nada naquela época me fazia sentir o vampiro mais burro do mundo, mas eu me consolava lembrando que nem mesmo Leeteuk sabia.

Suspirei e segurei no punho dela antes de cravar meus dentes em seu pulso fino e delicado. 

Assim que provei a primeira gota, todo o meu corpo entrou em alerta. O gosto era agradável como o de um humano qualquer. No entanto, a sensação era totalmente diferente. Cada gole que eu dava, era como uma injeção de adrenalina. Eu me sentia pulsando de dentro pra fora e cheguei a soltar um gemido antes de me forçar a afastar a boca dali. 

Eu ainda estava ofegante quando o efeito quase alucinógeno passou, mas notei que toda a dor e ardência havia sumido. 

Tiffany me encarava com um sorriso no rosto e eu sorri de volta.

- Obrigado.

- Estou aqui pra isso - deu de ombros - Agora, vamos tomar banho - pegou no meu pulso e foi andando em direção ao banheiro, mas eu me retesei, a encarando assustado.

- JUNTOS?!

- Qual o problema? - ergueu uma sobrancelha, realmente não entendendo a minha reação, e eu pisquei algumas vezes, ainda muito chocado pra dizer qualquer coisa - Somos como irmãos, Hyukjae.

- Somos?

- Eu tenho uma parte de você dentro de mim - sorriu antes de tocar meu rosto - E você tem uma parte de mim dentro de você. 

- Mas… - pigarreei - Heechul e Leeteuk…

- Com eles é diferente. Não compartilham poderes e nem alma. Mas, se você não se sente confortável, tudo bem.

- É que… - engoli o nó de vergonha na garganta.

Eu não via mulheres daquela forma. Muito menos Tiffany. Agora que ela havia falado, realmente o que eu sentia forte por ela não era nada carnal. No entanto, ainda me sentia estranho por causa de Donghae.

- Eu sei - ela respondeu - Não preciso ler sua mente pra saber que isso tem a ver com a sua fidelidade à Donghae. Não se preocupe - sorriu e sumiu em uma fumaça púrpura como Heechul fazia.

Eu suspirei, aliviado por estar sozinho finalmente, e entrei no banheiro pra tomar banho. 

☾✩☽

Já deitado na cama, apesar de muito cansado, eu não conseguia adormecer. Toda vez que eu fechava os olhos, cenas horrendas invadiam minha mente. Eram apenas flashes, mas eu podia ver muito sangue e diversos corpos estirados no chão. 

Pra um vampiro, aquilo não devia ser perturbador e, na real, não era. O que me perturbava era o pensamento de que aquilo poderia ser a visão de Donghae naquele momento. 

Eu sabia que, de alguma forma, ele tinha nos conectado e eu podia ouvi-lo e me comunicar com ele nos meus sonhos. Mas, agora, eu estava acordado. Não fazia sentido estar vendo aquilo.

Talvez fosse apenas a minha imaginação querendo me perturbar. 

Me remexi na cama novamente antes de sentir mais uma presença no quarto. Eu não precisava olhar pra saber quem era.

Tiffany se sentou no colchão atrás de mim e fez um carinho sutil na minha cabeça. Eu fechei os olhos e, imediatamente, as imagens sumiram.

Meu corpo relaxou e eu me senti caindo no sono. 

☾✩☽

Acordei na noite seguinte com o quarto cheio. 

Lá estavam Tiffany e Heechul. Eram apenas duas pessoas, mas suas presenças já eram perturbadoras e cansativas o suficiente.

Pelo menos, a de Heechul era. 

Me esforcei pra me sentar com as costas apoiadas na cabeceira e, como eu esperava, Heechul se adiantou.

- E então? - perguntou e eu franzi o cenho, confuso.

- Então o quê?

- Falou com Donghae hoje?

Na mesma hora eu arregalei os olhos. Donghae não havia se comunicado comigo naquela noite.

- Não… meu deus, Heechul, será que--

- Fica tranquilo - Tiffany falou e nós dois a encaramos - Eu cortei a conexão de vocês.

- Você o quê?! - me levantei em um pulo.

- Aquilo estava te impedindo de dormir. As visões estavam te perturbando e nenhum de vocês dois parece realmente capaz de controlar isso. Fiz um favor a vocês.

- Um favor o caralho! Eu não pedi pra você fazer nada!

- Hyukjae, calma - Heechul pediu.

- COMO VOCÊ QUER QUE EU ME ACALME?! ELA TIROU DE MIM A ÚNICA LIGAÇÃO QUE EU AINDA TINHA COM DONGHAE!

Heechul suspirou, cansado.

- Reverte isso, Tiff - pediu e ela deu de ombros.

- Não posso.

- COMO NÃO?! - fui pra cima dela, mas Heechul me impediu, com a mão em meu peito.

- Eu fechei sua mente pra ele, assim como fiz com Heechul ontem. Posso abri-la novamente, mas… não posso garantir que ele vá conseguir se conectar com você de novo já que ele não tem controle sobre isso. 

Eu senti toda a raiva acumulada dentro de mim borbulhar. Quando vi, já a agarrava pelo pescoço e a arremessei contra a parede do lado oposto do quarto. 

Uma luz branca surgiu e eu já sabia o que estava por vir.

Quando Kyuhyun apareceu, imediatamente eu corri em sua direção.

- Como ele está? - perguntei segurando em sua blusa e o vi franzir o cenho antes de arrancar minhas mãos de si.

- Não toque em mim, imundice - bateu em suas roupas, como se tirasse poeira, mas eu estava preocupado demais pra sentir raiva daquilo - Só vim ver o por que da barulheira. Siwon me pediu e, pelo visto, você acabou de brigar com a sua verme, né?

Tiffany ainda estava contra a parede me encarando com uma expressão neutra. O que me deixou ainda mais transtornado, já que era óbvio que ela não se arrependia do que havia feito.

- No entanto, eu devo agradecer à ela, porque, pelo menos, sua alma parou de perturbar essa manhã e você não fica mais gritando por horas, atormentando todo mundo. 

- Todo mundo no caso você, né - falei e ele assentiu.

- E existe alguém mais importante, por acaso?

Eu apenas revirei os olhos, sem paciência nenhuma pra ele naquele momento.

- Como está Donghae? - insisti e Kyuhyun me encarou por alguns segundos, como se cogitasse se queria responder ou não.

- Você cortou a conexão de vocês - acusou.

- NÃO FUI EU! FOI ESSA MALUCA! - apontei Tiffany com a mão e ela estreitou os olhos pra mim.

E nem assim eu fiquei com medo. Ela podia me matar se quisesse. Naquele momento, eu só queria saber sobre Donghae.

- Ele sentiu - Kyuhyun falou apenas aquilo e eu sabia exatamente o que ele queria dizer.

Donghae havia sentido que nossa conexão foi quebrada. Agora, ele devia estar se sentindo mais sozinho do que nunca. Talvez até achasse que eu morri. Ou o abandonei. 

Meu peito se comprimiu e eu engoli o nó em minha garganta.

- Kyuhyun… - falei com um fio de voz.

- Ele tá vivo, Hyukjae. Os caçadores só vão matá-lo se ele se transformar. 

Se aquilo era pra me tranquilizar, não ajudou em nada.

- Eu quero ver ele - falei e Kyuhyun olhou fundo nos meus olhos, não sei se tentando me intimidar, mas não funcionou.

Eu estava certo da minha decisão.

- O que te faz pensar que eu faria o que você quer? - perguntou com um tom de desdém.

- Kyuhyun… por favor - pedi, engolindo todo o meu orgulho.

Kyuhyun soltou o ar pelo nariz em uma risada debochada e negou com a cabeça.

- Por mais que eu adore ver você se humilhando e, sinceramente, o deixaria fazendo isso por horas, eu não estou com tempo pra você hoje. Não vou te levar pra vê-lo.

- O que você tem a perder? - desafiei.

- A minha paciência! Que já não é muita com relação à você, seu verme. 

Era inútil aquela discussão. Eu só estava perdendo energia necessária pra fazer o que eu realmente queria. 

Dei as costas à Kyuhyun e me transportei pro quintal onde eu havia lutado contra Tiffany naquela madrugada.

Não demorou muito e eu senti sua presença atrás de mim e suspirei.

- O que você quer? - perguntei.

- Te ajudar.

- Você já me ajudou demais - falei, ríspido.

- Eu sei o que você pretende fazer. 

- Se está aqui pra me impedir, é melhor esquecer porque eu não desisto disso nem pelos meus poderes - me virei pra encará-la sério e ela tinha um sorriso triste no rosto.

- Jamais vou tomar os poderes de você, neném. Faz parte do contrato. Eles são seus desde que você tomou a decisão de se transformar e me entregou sua alma.

- Mas você disse ontem--

Ela riu, me interrompendo.

- Eu só tava brincando com você - abanou a mão na frente do rosto e eu bufei, ainda irritado com os seus truques - Sei o que você tem em mente e vou te ajudar.

- Como? - cruzei os braços, ainda não confiando nela.

- Primeiro, preciso abrir sua mente de novo, vem cá - chamou com a mão e eu hesitei por alguns instantes.

Demoraria até que eu confiasse cegamente nela novamente. 

Então me aproximei e deixei que ela tocasse na minha cabeça. No entanto, não senti nada de diferente.

Donghae ainda não estava comigo.

Tranquei o maxilar com raiva e Tiffany suspirou.

- Ele vai encontrá-lo novamente - garantiu.

- É bom que encontre mesmo - ralhei, me afastando novamente - Como você pode me ajudar? Você já deve saber quais são os meus planos. 

- Posso transportá-lo pro mais perto possível do covil deles em apenas uma viagem, pra que você não gaste sua energia se transportando diversas vezes até chegar lá. 

- E o que mais?

- Bom… não posso intervir numa batalha entre vampiros e caçadores, mas, nesse caso, como você não está indo pra brigar, acredito que posso burlar umas regrinhas - falou pensativa e eu ergui uma sobrancelha, começando a gostar daquela história.

- Que regrinhas? - quis saber.

- Posso te emprestar mais alguns dos meus poderes. Mas esses seriam temporários. 

- De quais poderes estamos falando?

- Atravessar objetos sólidos e invisibilidade. Acho que esses já são suficientes pra você poder se infiltrar lá e encontrar Donghae. 

Pisquei algumas vezes, totalmente embasbacado com a possibilidade de ter aqueles poderes tão facilmente. 

- Você tá falando sério?!

- Claro, Hyukjae - riu - Eu não brinco em serviço. Agora, vamos - estendeu a mão pra mim e eu suspirei antes de segurá-la. 

Como havia dito, Tiffany nos transportou até a rua de trás da casa em que Aiden morava com a sua família adotiva. Só de ver a construção de longe eu já senti um arrepio na nuca, lembrando do dia que quase fomos descobertos por Changmin. 

- Eu posso senti-lo - ela disse - Ele está por perto, Hyukjae. 

- Eu não consigo… - falei, frustrado.

Até ontem, eu tinha certeza que conseguiria sentir exatamente onde Donghae estava. A raiva começava a borbulhar dentro de mim novamente quando senti Tiffany repousando a mão sobre o meu peito. 

- Não se preocupe - disse - Você vai encontrá-lo. 

Aquilo não me tranquilizou em nada, no entanto, eu senti uma força nova dentro de mim, a qual eu não conhecia, mas desconfiava ser o novo poder que Tiffany estava me cedendo. 

- Pronto - ela disse, dando dois passos pra trás - Tente atravessar a cerca.

Eu encarei o pequeno muro de madeira e me concentrei, tentando ativar o poder novo que me foi concedido. Caminhei em direção à cerca e tropecei nela, quase caindo pro outro lado, de cabeça. 

- Merda! - reclamei enquanto a ouvia rindo atrás de mim.

- Você não precisa se concentrar tanto assim - disse e eu a encarei - Isso só vai deixar seu corpo mais rígido e, consequentemente, suas moléculas não vão se afastar pra que você possa atravessar. Tente relaxar e pense na cerca como parte do seu corpo - aconselhou e, ainda me encarando, atravessou a cerca como se a madeira fosse apenas um holograma.

Eu respirei fundo e encarei a cerca novamente. Dessa vez, pensei em Donghae, no quanto queria vê-lo novamente e em como a oportunidade se apresentava tão próxima. Dei os três passos necessários e senti cócegas nas pernas onde a cerca atravessou meu corpo.

- Muito bom! - Tiffany aplaudiu - Agora, hora de ficar invisível - então ela estalou os dedos.

Eu não senti nada de diferente e, quando ergui minhas mãos, ainda conseguia vê-las.

- Acho que não funcionou - comentei, desanimado.

- Aí que tá, meu belo dizimador de vidas humanas - acariciou meu queixo e eu refreei a vontade de empurrar sua mão pra longe, ainda não tendo a perdoado completamente - Você está invisível apenas pra humanos.

- Então… Donghae não vai me ver? - perguntei triste e ela suspirou.

- Vou ficar por aqui. Quando você encontrá-lo, eu o deixo visível de novo.

- Promete?

- Claro que prometo - sorriu e me deu um beijo na testa - Agora vai.

Eu suspirei, ansioso, e caminhei em direção à antiga casa de Aiden. 

Olhei em volta, preocupado que alguém me visse mesmo que eu estivesse invisível, e atravessei a parede lateral. 

Fui parar na cozinha e, pra minha sorte, não havia ninguém ali. 

Entrei no corredor e ouvi barulhos vindos do que parecia ser a sala de estar. De fininho, fui até lá. A mãe adotiva de Aiden estava sentada numa cadeira de balanço tricotando algo enquanto cantarolava uma canção que tocava no rádio. Era uma cena tão… simples e monótona que, por um segundo, eu quase esqueci que ela fazia parte de um clã de caçadores de vampiros e sabia que, naquele momento, Donghae estava sofrendo em algum lugar de sua casa e, ainda assim, tricotava como se tudo estivesse bem e em paz.

Aquilo fez minha raiva emergir e a janela da sala bateu com uma corrente de vento, fazendo a senhora se sobressaltar.

Bufei e sai dali antes que fizesse algo de errado. 

Comecei a subir as escadas e vi Changmin descendo junto com Yunho. Ambos conversavam e estavam vestindo luvas cirúrgicas sujas do que parecia ser sangue. Engoli em seco e me encostei na parede, deixando que eles passassem por mim.

Yunho parou de repente e olhou por sobre o ombro na minha direção. Arregalei os olhos, mas notei que ele olhava além de mim. Não estava me vendo, mas, talvez, conseguisse sentir minha presença.

- Algum problema? - Changmin surgiu retirando as luvas sujas e Yunho continuou analisando a parede atrás de mim de cima à baixo.

- Senti uma presença familiar por aqui…

- Devem ser os anjos - deu de ombros.

- Não. É menos poderosa.

Fechei a cara na mesma hora e refreei a vontade de atacá-lo pra defender meu orgulho que já estava ferido desde que precisei me humilhar pra Kyuhyun.

- Sabe… eu acho que Aiden trouxe algum daqueles sanguessugas pra cá - Changmin comentou de repente e Yunho o encarou.

- Sério?!

- Na última vez que ele dormiu aqui. Minha mãe disse que tinha visita no quarto dele e eu senti uma presença estranha ali… ele fugiu naquele dia. Quando o encontrei novamente, estava no ninho deles.

- Deve ter sido o Hyukjae.

A menção do meu nome na boca de Yunho me fez engolir um nó na garganta de ódio. Conquistador barato, tentando me envenenar com seu sangue podre e ainda inventando mentiras pra Siwon com a intenção de nos prejudicar. 

Ele seria o primeiro que eu atacaria quando viéssemos buscar Donghae e acabar com essa raça de uma vez por todas.

- Nossa, você consegue chamar eles pelo nome? - Changmin fez cara de nojo e eu fechei minhas mãos em punho.

Yunho soltou uma risada pelo nariz.

- Se a ocasião fosse outra, eu daria um trato no Hyukjae, não vou negar.

Tive vontade de vomitar com a imagem mental e Changmin pareceu sentir o mesmo.

- Você é nojento. 

- Não se esqueça que Aiden é um deles. E você ainda consegue chamar ele pelo nome.

Changmin desviou o olhar do dele e pareceu hesitar por um milésimo de segundos, antes de dar de ombros.

- Precisei fingir por tanto tempo que ele era meu irmão e que me importava com ele que acabei me acostumando.

- Não me diga que você está com um fraco pelo nosso pequeno ratinho de laboratório? - Yunho debochou, apoiando o antebraço no corrimão da escada.

Eu havia chegado no meu limite de paciência ouvindo aquela conversa. Logo, não conseguiria mais me controlar.

- Não viaja, idiota! É só uma pena que eu tenha vivido minha infância com alguém que, agora, vou ter que torturar por um bom tempo - deu de ombros, totalmente desprovido de qualquer empatia ou afeto por Donghae.

Seu próprio irmão.

Me lembrei das vezes que Donghae defendeu Changmin e sua família, tendo certeza de que, mesmo que eles fossem o que eram, ainda se importavam com ele. E, agora, imaginava como ele estaria se sentindo vendo o próprio irmão o torturando sem um pingo de remorso sequer.

Senti um nó de ódio na garganta e, pra que eu não precisasse estragar tudo voando na garganta daquele desgraçado, ergui a mão e fiz com que uma rajada de vento batesse a janela da cozinha, que também estava aberta.

Isso serviu pra que ambos se sobressaltassem e se adiantassem pra lá, indo verificar se era alguma invasão. 

Eu suspirei, tremendo de raiva e usando todo o meu parco autocontrole pra não arruinar minha chance de ver Donghae mais uma vez. Então, subi as escadas. 

Me lembrava que, em um dos meus sonhos, Donghae disse que havia uma porta no teto de onde ele estava, então as chances dele estar no segundo andar eram pequenas, mas, como Changmin e Yunho tinham vindo de lá sujos de sangue, achei melhor averiguar. 

As memórias que eu tinha daquela casa eram vagas e meus pés me levaram até o quarto que fora de Aiden. 

Quando entrei lá, tudo parecia exatamente do jeito que nós havíamos deixado. 

Cenas de nós dois juntos na sua cama passaram pela minha cabeça e eu senti meu peito comprimindo.

- Donghae… - sussurrei, alisando o travesseiro que havia em sua cama. 

Estava tão perdido em pensamentos que não percebi quando algo entrou no quarto até sentir um arrepio na nuca.

Ouvi um rosnado e me virei em tempo de ver um cachorro gigantesco - que, vale ressaltar, não parecia natural de forma alguma.

Seu pelo era tão branco que parecia reluzir e seus olhos eram de um azul intenso, que brilhava como bolas de gude. Desnecessário dizer que seus dentes eram tão afiados quanto os meus e ele babava enquanto me olhava diretamente.

Não achava que a invisibilidade de Tiffany pudesse me esconder de algo como aquilo, então tinha certeza que ele me via.

- B-Bom garoto - ergui a mão com a palma pra baixo, tentando parecer o menos intimidador possível.

O que não funcionou.

O bicho correu na minha direção e, antes que eu pudesse me esquivar, bateu com as patas no meu peito e me derrubou no chão. 

Fechei os olhos e cobri o rosto com as mãos quando ouvi seu latido bem na minha cara.

- Calma, Junior - ouvi alguém dizer em meio aos latidos altíssimos que quase estouravam meus tímpanos. 

E parece que não serviu de muita coisa, pois senti uma mordida no braço e fui arrastado pelo chão do quarto até parar nos pés de alguém.

- Bom garoto - elogiou e o bicho parou ao seu lado, sentado e obediente como um… anjo.

Olhei pra cima e vi ninguém menos do que Cho Kyuhyun. 

- Você! Seu filho da puta! - ralhei enquanto tentava me levantar, mesmo com a dor forte da mordida em meu braço.

- Nada de movimentos bruscos - avisou e eu ouvi o cão rosnar mais uma vez, me arrancando calafrios.

- Que porra de bicho é esse?! - perguntei, segurando meu braço contra o peito.

- É meu bebê - fez carinho atrás da orelha dele e vi o cachorro abanar o rabo.

Soltei o ar pela boca, irritado e incrédulo.

- Não acredito que sua ideia brilhante pra tomar conta dessa casa enquanto está fora é a porra de um cão de guarda.

- Junior não é qualquer cão. Ele é um guardião, assim como eu - explicou e eu revirei os olhos, sem tempo algum pra tudo aquilo.

- Por que deixou que ele me mordesse seu… filho da puta? - eu quase o chamei de desgraçado, mas havia aprendido minha lição da primeira vez.

- Ele tava trazendo o lixo pro papai jogar fora, não é garoto? - brincou, mexendo na orelha dele e recebendo mais um abanar de rabo.

Aquilo era simplesmente inacreditável.

- Kyuhyun, seu divino escroto do caralho, você sabia que eu tava vindo pra encontrar o Donghae!

- E daí?

- E por que não tirou o seu cachorro daqui?!

- Achei que fosse óbvio. Não ia deixar você se safar assim tão fácil.

- FÁCIL?! - agarrei na gola da sua blusa, ignorando o rosnado de Junior pra mim - Você acha que qualquer coisa que eu passei até aqui foi fácil? Seu merda!

Kyuhyun soltou o ar pelo nariz em uma risada desdenhosa e me deu um peteleco na testa, me atirando pro outro lado do quarto.

- Não me interessa o que você passou até aqui. Você não vai ver ele.

Cerrei os punhos enquanto me levantava. A mordida no meu braço ardia, mas eu sentia que, aos poucos, ela começava a sarar. 

- Por que você não quer me deixar encontrar ele? - perguntei olhando pro chão.

Àquela altura, eu estava tão frustrado que não conseguia sequer encará-lo.

- Você não está preparado.

- Preparado? - ergui a cabeça, estreitando os olhos pra ele sem entender o que aquilo significava.

- Você não tem auto controle. Não vai conseguir ver o estado dele sem ter um surto e querer levá-lo com você daqui. E, acredite, Hyukjae, eu não vou hesitar nem por um segundo sequer em te matar se você o fizer. 

Engoli em seco porque eu sabia que aquela ameaça não era vazia. E que Kyuhyun era perfeitamente capaz de me destruir com apenas um estalar de dedos. 

Mas eu não desistiria tão fácil. 

Era por Donghae que eu estava ali. 

- Kyuhyun… eu juro que não vou tentar nada… eu só preciso ver ele. Falar com ele pelo menos mais uma vez antes de, provavelmente, morrer em batalha. Você sabe as chances que temos contra os caçadores… são pequenas e, mesmo que a gente consiga, haverá baixa do nosso lado… e uma delas pode ser eu - senti o nó na garganta, não por mim, mas por imaginar Donghae quando descobrisse sobre a minha morte - Por favor… eu imploro… eu só quero uma chance de falar com ele uma última vez - pedi com a voz trêmula.

Kyuhyun não pareceu nem um pouco comovido. Continuou me encarando com a sua cara de desdém antes de negar com a cabeça e torcer o nariz.

- Você me enoja - falou.

Tranquei o maxilar. Não era segredo pra ninguém que o sentimento era mútuo. 

- Vamos, Junior. Está na hora do seu almoço - tocou na cabeça do cachorro e deu meia volta, saindo do quarto com ele - Não tente nenhuma gracinha. O quarto é encantado, então você não pode usar seus poderes de transporte pra fugir. E não faça com que eu me arrependa, senão, quem vai sofrer as consequências será ele e não você - o ouvi dizer antes de sumir dali, levando o cachorro consigo.

Pisquei algumas vezes, desacreditado de que aquilo realmente estaria acontecendo.

Kyuhyun havia me permitido ver Donghae?!

Soltei o ar pela boca, só percebendo agora que eu o havia prendido e, como se sempre estivesse ali, uma pequena porta surgiu no chão do quarto. 

Arregalei os olhos e não perdi tempo antes de abri-la. 

Havia uma escada que dava pra um cômodo mal iluminado abaixo e, dali, eu já podia sentir o cheiro podre de sangue de pessoas mortas misturado com o de…

- Donghae - me alarmei, descendo as escadas o mais rápido que podia.

Quando coloquei os pés no chão, pude ver o ambiente familiar que eu presenciei nos meus sonhos e, estando ali, era ainda pior. 

Havia três corpos empilhados em um canto. O de baixo já começava a apodrecer e atrair bichos. Do outro lado, havia um lençol no chão onde um corpo estava deitado encolhido virado pra parede. Suas roupas estavam em frangalhos e dava pra ver diversos cortes pelas suas pernas e braços. Um acesso estava preso em seu antebraço, o alimentando com o que parecia ser soro, e uma máquina monitorava seus batimentos cardíacos. Eles pareciam normais, no entanto, o estado de Donghae não parecia nada normal pra mim.

Dei dois passos na sua direção, inseguro se deveria chegar mais perto sem ser anunciado. E eu não sabia se ele conseguiria me ver. 

Então, Donghae se remexeu e olhou por sobre o ombro, confuso. 

Assim que seus olhos encontraram os meus, seu semblante se iluminou e ele virou pra se sentar.

- H-Hyukie…? - falou com a voz rouca e fraca.

Meu peito se comprimiu na mesma hora, pois me lembrei dos seus gritos de desespero. 

Dei mais alguns passos incertos em sua direção. Eu queria tanto abraçá-lo forte e levá-lo embora comigo nem que fosse pro canto mais afastado e escuro do inferno. Qualquer lugar que eu pudesse mantê-lo escondido de tudo e todos pra que ele ficasse protegido pra sempre. 

- Donghae… - falei com um fio de voz e ele sorriu, deixando escapar a lágrima que ainda estava presa em seus olhos.

- Você veio… me salvar… eu sabia que viria - as lágrimas escorreram e pingaram na sua blusa.

Então eu desabei de joelhos no chão, não aguentando sequer sustentar o peso do meu corpo ao vê-lo naquele estado. 

- Hyukie… - engatinhou na minha direção, mas não conseguiu chegar até mim, sendo impedido por uma corrente presa em seu tornozelo. 

Donghae parou de joelhos a um metro de mim e olhou pro seu corpo, apertando o tecido de sua calça na altura de suas coxas.

- E-eu sei que estou horrível… - falou com a voz embargada e eu arregalei os olhos - Mas eu v-vou me curar e esses c-cortes vão sarar, eu--

O interrompi acabando com a distância entre nós, abraçando seus ombros e afundando o rosto no seu pescoço. 

E então nós dois desabamos de chorar.

- Você tá mesmo aqui… - Donghae sussurrou - Não é mais um sonho… 

- Não, Hae… não, eu tô aqui com você. Me perdoa ter demorado tanto - falei em meio a soluços e o senti negando com a cabeça.

- Mas você veio… eu fiquei com tanto medo quando não consegui mais senti-lo… 

- Me perdoa… não foi minha culpa.

- Tudo bem… eu já posso te sentir de novo - então ele se afastou e me encarou com um sorriso no rosto.

Agora, eu podia ver como ele estava pálido, magro, com olheiras fundas e rachaduras nos lábios. Seu cabelo estava desgrenhado e parecia estar mais ralo, com algumas falhas pelo couro cabeludo também ferido. 

- O que estão fazendo com você… - perguntei com a voz trêmula. 

Eu não queria realmente saber.

O sorriso em seu rosto vacilou e ele negou com a cabeça.

- Não importa… eu não sinto mais nada agora que você tá aqui… toda dor foi embora.

- Hae… - abracei sua cintura, voltando a chorar em seu peito - Eu quero tanto te tirar daqui… não posso permitir que isso continue. Não sei mais por quanto tempo você… - eu não conseguia nem dizer aquilo - Não posso… 

- Tudo bem… - senti sua mão na minha cabeça, começando um carinho suave - Enquanto eu resistir à transformação, eles não vão me matar.

- Mas eles estão te machucando, Donghae - me afastei, pegando em seu pulso e apontando as marcas de corte e furos em seu braço - Olha isso! Eu não posso permitir que isso continue! 

- Como você conseguiu entrar aqui sem ser pego? - perguntou de repente.

- É uma longa história… 

- Temos tempo - garantiu - Changmin acabou de sair daqui após fazer mais um teste. Agora, ele só volta amanhã. 

- Q-quer dizer que… eu posso passar a noite aqui com você? - perguntei e senti meu coração doer quando ele sorriu.

Aquele sorriso que eu tanto amava.  

Então ele assentiu.

Respirei fundo e sentei no chão ao seu lado, começando a contar pra Donghae tudo que havia acontecido desde o seu sequestro.

- UMA DEMÔNIA?! - tentou berrar quando contei sobre Tiffany, mas sua voz falhou e ele começou a tossir um pouco.

Me arrependi de ter ido até lá sem água ou comida pra ele, mas sai tão afobado e com pressa que sequer meu pijama eu tinha trocado.

- Sim. Ela que me ajudou a entrar aqui, já que Heechul é um inútil - revirei os olhos e Donghae riu.

- E… ela é bonita? - perguntou e eu reprimi uma risada pela sua pontinha de ciúmes. 

- Ela é bonita sim, mas você é muito mais - garanti e vi quando ele virou o rosto tentando esconder um sorriso tímido. 

Era tão doce como ele ainda conseguia ficar envergonhado comigo. 

- E o Kyuhyun? Nossa, não acredito que ele é um anjo. 

- Ele me ajudou a entrar aqui também - garanti com um sorriso forçado.

Devo ressaltar que ocultei pra Donghae a parte que Kyuhyun, sendo um anjo, na verdade, estava trabalhando junto com aquela corja de filho da puta pra torturá-lo. Deixei que ele acreditasse que era apenas uma criatura divina à parte de tudo isso. Por mais que ele soubesse que os anjos que transformavam os humanos em caçadores, preferi deixar que ele mesmo ligasse os pontos. 

Donghae já ficou devastado só de saber que Heechul era um demônio e nunca havia contado pra ele, sendo seu amigo apenas pra guardar sua alma, imagina se ele descobre que seu melhor amigo de infância, na verdade, estava junto com a sua família nesse plano maligno pra acabar com a sua vida. 

- Estou com saudade de todos… - Donghae admitiu - Até do Siwon - fez cara de desgosto e eu ri.

- Nós também sentimos sua falta - me inclinei e deixei um beijo na sua têmpora.

Donghae virou o rosto, tocando no meu queixo com as pontas frias dos seus dedos e encostando seus lábios nos meus.

- Sei que a sensação não é boa - falou contra a minha boca - Mas eu precisava sentir você mais uma vez assim - então beijou meu lábio inferior e se afastou.

Eu segurei em sua nuca e o trouxe pra perto novamente, iniciando um beijo. Minha língua logo invadiu sua boca e meu peito apertou de felicidade ao saber que eu estava ali com Donghae de verdade depois de todo esse tempo. Mesmo com as rachaduras dos seus lábios arranhando os meus, ainda era perfeito porque era ele.

Então Donghae chupou meu lábio inferior e lambeu o superior, como sempre teve costume de fazer, e eu sorri. Ele suspirou e apoiou a cabeça no meu ombro, parecendo cansado.

- Tá sentindo alguma coisa? - perguntei.

- Tô tonto… - resmungou com os olhos fechados e a testa franzida.

Ele ainda estava muito fraco. Não devia comer nada há dias, apenas se alimentando daquele soro pra se manter vivo. 

- Eles não estão te alimentando? - perguntei e ele negou com a cabeça - Aqui - mordi meu pulso, rompendo a pele e o colocando nos seus lábios.

Assim que meu sangue tocou na sua língua, ele arregalou os olhos, parecendo voltar a si.

- Hyukie… - falou, segurando minha mão e afastando meu braço da sua boca - Tem certeza?

- Eu tô alimentado. Agora, quem precisa mais é você. Pode beber, meu amor - garanti e, mesmo relutante, Donghae assentiu.

Ele devia estar faminto, pois assim que começou a sugar meu sangue e minha pele cicatrizou, senti seus dentes a rasgando novamente e suspirei, sentindo um arrepio por saber que suas presas estavam ali enterradas na minha carne. 

Vi, aos poucos, a cor voltando pro rosto de Donghae e suas olheiras sumindo, e sorri comigo mesmo. 

De repente, ele soltou meu pulso e me encarou. Seus lábios estavam manchados e seus olhos injetados de sangue. Em volta da sua pupila começava a ficar vermelho vivo.  

Era lindo. 

- Como se sente? - perguntei e ele piscou algumas vezes, corando.

- Hyuk, eu posso… - hesitou, desviando o olhar do meu, e eu toquei seu queixo, o fazendo me olhar nos olhos novamente.

- Você pode tudo - garanti e ele sorriu.

Donghae se ergueu sobre os joelhos e me puxou pra que eu encostasse na parede, perto de onde sua corrente estava presa, pra que ele pudesse se sentar no meu colo. Assim que se acomodou, ele olhou nos meus olhos, com os seus voltando a ficar vermelhos e suas pequenas presas se projetando.

Eu sorri, já sabendo o que Donghae queria por estar conectado com ele novamente, e inclinei o rosto pro lado, expondo meu pescoço. O ouvi suspirando antes de sentir a ardência característica de seus dentes rompendo minha pele. 

Então ele bebeu mais do meu sangue. 

Respirei fundo e revirei os olhos porque aquilo nunca deixaria de ser prazeroso sendo feito com ele. 

Alisei seu quadril e subi minhas mãos pela sua cintura, adentrando sua blusa e sentindo sua pele morna. 

No entanto, Donghae segurou meus pulsos, me impedindo de continuar, e eu franzi o cenho, confuso. Ele ainda bebeu mais um pouco do meu sangue antes de se afastar e me encarar com o semblante triste.

- Não… por favor - pediu e tirou minhas mãos de si. 

Aquilo fez meu coração se quebrar em mil pedaços. Eu nunca havia sido rejeitado por ele antes. 

- Hae… desculpa, eu--

- Não - me interrompeu - O problema não é você… - abaixou a cabeça e eu o encarei confuso novamente.

- Qual o problema, meu amor? - toquei seu queixo com o meu indicador, erguendo seu rosto pra poder vê-lo - Por que você não quer que eu te toque? 

- Não é que eu não queira ser tocado por você, mas… - hesitou, desviando o olhar novamente e eu vi quando seus olhos encheram d’água.

- O que eles fizeram com você? - perguntei mais firme e ríspido.

A possibilidade de alguém ter tocado em Donghae sem o seu consentimento surgiu na minha mente e me fez ferver de ódio no mesmo instante. 

- Não! Não fizeram nada desse tipo comigo - garantiu e aquilo me acalmou um pouco - É que eu não quero que você veja como eu estou… - admitiu baixo e eu franzi o cenho, não entendendo.

- Como assim, meu amor? Eu já te vi tantas vezes.

- Mas eu nunca estive assim…

- Assim como? 

Ele não respondeu. 

- Hae, minha vida, você sabe que eu jamais vou me importar com a sua aparência, né?

- Eu sei, mas… tenho medo da sua reação ao ver… o que restou de mim…

Aquilo fez a minha ficha cair com a força de um soco na cara. 

Se, mesmo com todos aqueles cortes em seus braços e pernas, Donghae ainda estava preocupado que eu visse o resto do seu corpo, eu não conseguia nem imaginar o que poderia encontrar se decidisse olhar. 

Mas, também, eu não podia deixá-lo achando que eu o amaria menos com o que quer que tivesse em seu corpo. 

- Deixa eu ver - pedi com o tom de voz mais calmo e carinhoso que eu conseguia ter naquele momento. 

- Tem certeza? - perguntou inseguro e eu sorri, deixando um beijo na sua testa.

- Não existe absolutamente nada que possa fazer com que eu te ame menos - garanti - Me deixa ver o seu corpo… quero beijar cada canto e cada ferida pra fazer toda dor ir embora. 

Donghae sorriu triste e assentiu. 

Espalmei minha mão nas suas costas e me virei, o deitando delicadamente sobre o pano antes de estalar um beijo na sua boca. 

- Eu te amo - sussurrei contra os seus lábios e senti quando ele sorriu.

Me ajoelhei entre as suas pernas e comecei a desabotoar sua blusa devagar, observando suas reações e vendo se ele se sentia desconfortável. A todo momento, Donghae permaneceu olhando nos meus olhos, como se confiasse sua vida à mim. Eu apenas desviei meu olhar do seu quando abri o último botão, afastando sua blusa e vendo seu torso. 

Como eu imaginava, havia cortes em sua barriga também, ainda mais profundos do que os dos braços, mas pareciam mais antigos, pois já estavam com casquinha e cicatrizando. Também tinham alguns hematomas enormes próximo das suas costelas - que davam pra contar os ossos, de tão magro que ele estava. 

Eu toquei em seu peito com a ponta dos dedos e fui descendo, o alisando da maneira mais delicada possível antes de me inclinar e apoiar o rosto ali, ouvindo as batidas do seu coração. 

Lá estava ele. Vivo e quentinho, como deveria ser. 

Eu sorri e virei o rosto, deixando um beijo no seu peito antes de descer e beijar suas costelas. 

- Estão fraturadas? - perguntei o encarando e Donghae assentiu devagar.

- Mas já estão quase boas - garantiu.

Aquilo devia estar doendo tanto. Tranquei o maxilar e prossegui beijando seus cortes e outros hematomas até chegar no cós da sua calça. Eu a abri devagar e comecei a tirá-la, fazendo o possível pra não machucá-lo ou lhe causar mais dor. 

Encarei suas pernas e, nas coxas, havia mais hematomas e furos de seringa. Diversos. Meu peito doía tanto de ver aquilo e eu jurei pra mim mesmo que iria fazer com que os responsáveis sofressem por cada uma daquelas feridas.

Me inclinei e passei os lábios pelas coxas e pernas de Donghae, beijando seus ferimentos com delicadeza. 

Quando olhei pro seu rosto, ele estava encharcado de lágrimas. 

- Por que você tá chorando, meu amor? - perguntei, preocupado - Eu te machuquei? - toquei seu rosto com as costas da mão e ele negou com a cabeça antes de soluçar.

- Você… - outro soluço - Você tá me olhando com a mesma adoração de sempre… mesmo eu estando… assim.

Eu sorri, mas tudo que eu queria era chorar e destruir com as minhas próprias mãos cada um daqueles miseráveis. Eles iriam pagar. 

- Como eu olharia de outra forma pra criatura mais perfeita que existe? - perguntei e ele riu, negando com a cabeça.

- Eu não sou mais perfeito… - seu queixo tremeu e eu quis morrer ali mesmo.

- Você é. Isso nunca vai mudar - grudei meus lábios nos seus antes de apoiar minha testa na sua e respirar fundo - Mas eu prometo que vou fazer cada um dos que fizeram isso com você pagarem com a vida. 

Afastei meu rosto pra olhá-lo nos olhos e Donghae assentiu antes de me puxar pra beijá-lo novamente. 

Deitei ao seu lado e o aconcheguei em meus braços.

- Descansa, meu amor - falei - Eu vou estar bem aqui quando você acordar - prometi.

Donghae sorriu e, no mesmo instante, adormeceu em meu peito. 

☾✩☽

Eu sabia que logo o sol nasceria logo e precisava ir embora antes que ficasse sem os meus poderes até mesmo fora daquele quarto. 

Encarei Donghae deitado no meu peito e, como se sentisse, suas pálpebras tremeram e ele acordou.

- Tá na hora? - perguntou baixinho e eu assenti.

Ele afundou o rosto no meu pescoço e inalou meu cheiro.

- Eu vou voltar pra te buscar - prometi - Não vai demorar.

- Eu não sei mais quanto tempo vou aguentar - admitiu em um sussurro e eu tentei engolir o nó de choro que se atou na minha garganta.

- Seja forte só por mais um dia - implorei - Por mim… 

Eu sabia que estava sendo egoísta, mas eu me recusava a deixá-lo morrer daquela forma. 

Donghae assentiu.

- Eu posso enfrentar qualquer coisa por você - disse e eu o apertei mais em meus braços. 

Assenti e deixei um beijo no seu ombro.

- Bebe mais um pouco - falei.

Logo senti sua mordida no meu pescoço e sorri, acariciando seu cabelo. 

Quando ele terminou, observei de novo as feridas em seu corpo e os hematomas estavam bem mais claros. 

- A dor diminuiu? - perguntei e Donghae assentiu.

Sorri satisfeito e beijei sua testa antes de ajudá-lo a vestir sua calça e abotoar sua blusa novamente. 

- Eu vou voltar - prometi.

- Sei que vai - segurou meu rosto com as duas mãos e me deu um último beijo. 

Com muita relutância, eu subi a escada de volta pro seu quarto.

Kyuhyun estava lá me esperando.

- Devo admitir que estou surpreso com a sua disciplina - comentou e eu o ignorei.

Me levantei do chão e olhei pela janela. Os primeiros raios de luz ameaçavam surgir, então eu precisava me apressar em sair dali o quanto antes. 

Olhei por sobre o ombro na direção de Kyuhyun e, por mais que a minha vontade fosse atacá-lo, eu me controlei. Não podia ser imprudente, pois precisava estar vivo pra salvar Donghae.

- Você já viu como ele tá? - perguntei e o sorriso debochado que havia em seu rosto se desmanchou aos poucos - Pois se não viu, aconselho que dê uma olhada. É desumano. Criatura nenhuma merece passar por aquilo. Ainda mais alguém puro como Donghae, que jamais matou uma mosca sequer.

Kyuhyun não disse nada. Continuou me encarando com uma expressão neutra e aquilo estava me deixando ainda mais irritado, então me virei em direção à janela novamente.

- Ele não sabe o que você fez - avisei - Ainda dá tempo de você se redimir com ele. Pense nisso. 

E me apoiei no parapeito da janela, usando a enorme árvore que havia ali pra descer, como Aiden havia feito na última vez que estivemos ali. 

Assim que botei meus pés no chão e me senti longe o suficiente de Kyuhyun pra ter meus poderes de volta, me transportei pra esquina onde havia estado com Tiffany e, pra minha surpresa, ela ainda me esperava lá. 

Assim que a vi, eu desabei. Ela me amparou em seus braços e deixou que eu chorasse em seu ombro. 

- Shhh… vai ficar tudo bem - garantiu enquanto acariciava meu cabelo.

- Você não viu como ele estava…

- Eu vi… posso ver o que você viu e sentir o que está sentindo… sinto tanto por tudo isso, neném.

Eu podia sentir sinceridade em suas palavras e, pela primeira vez, me senti amparado por alguém que não fosse Siwon, Yesung ou Donghae.

- Me leva pra casa - pedi e Tiffany assentiu.

Logo eu estava sentado na minha cama e, ao sentir a maciez do meu colchão, me lembrei de Donghae dormindo no chão frio, coberto de feridas e hematomas. 

Eu não conseguiria dormir ali. Jamais ficaria confortável sabendo o que acontecia com ele naquele exato momento. 

- Não dá - afastei Tiffany de mim e me levantei - Heechul - chamei e nada aconteceu - HEECHUL - gritei e, em segundos, ele surgiu no meu quarto - Precisamos agir. Hoje - exigi agitado.

Ele me olhou assustado antes de encarar Tiffany. Eu não sabia se ele podia ler minha mente de novo, mas, assim que a realização o invadiu, seu rosto também apresentou uma expressão de puro horror. 

- O que foi que vocês fizeram?


Notas Finais


Eu sempre choro lendo esse capítulo cara, não tem condição nenhuma QUEM FOI QUE ESCREVEU ISSO?
~beack ~elfasy


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