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História In The Purest Passion, Interativa - Capítulo 6


Escrita por:


Notas do Autor


+.:♦°❝Olá amores!!
Novamente mais um capítulo de itpp! E antes de tudo queria agradecer a maravilhosa @sunshinexz novamente pela correção do capítulo (te amo demais neném ♥️) e também agradecer vocês! Obrigada pelo apoio, pelos comentários, pela animação com a história, pelas personagens maravilhosas... nem tenho palavras para descrever o quanto sou grata a todo mundo!
Lembrando que as aceitas saíram há 2 meses atrás em dois dias diferentes por meio de vídeos publicados no meu canal no youtube. Os links dos vídeos estarão nas notas finais (menos as das aceitas do louis, que estão tendo que corrigi-lo). Além disso nas notas finais explicarei o que motivou cada um dos príncipes.

Outros avisos:
⇢ Peço perdão pela demora em postar o capítulo. Estive estudando para o enem esse tempo todo e após isso minha gatinha, que alguns já devem saber se chamar marie, piorou muito de saúde então tive que começar a dar uma atenção redobrada a ela.
⇢ Uma última coisa: as Selecionadas tem as cenas divididas igualmente, tenho controle total sobre isso. Então caso sua Selecionada não tenha aparecido neste irá aparecer no próximo.

Bom, é isso, espero que aproveitem o capítulo ♥️

Capítulo 6 - (06). the grand entrance.


CAPÍTULO 06: A GRANDE ENTRADA

Seu coração é um rosto exposto em pleno baile de máscaras.

— Zack Magiezi

—— •⚜• ——

Deve-se dizer que sim, todos estão ansiosos para o próximo evento do Quadrângulo.

Caso você esteja se perguntando de qual evento se refere — e consequentemente esteja vivendo numa caverna esse tempo todo — foi anunciado no Jornal Oficial do dia 15 de agosto que com a volta da Seleção as suas tradições também retornariam. E a maior de todas elas é, com toda certeza, a Grande Entrada, onde as Selecionadas farão uma passeata do Kensington até o Palácio de Londres — ou Buckingham II para os mais formais. Mas essa não é a melhor parte, de longe estamos ansiosos para a próxima parte que se segue: o Baile do Primeiro Encontro.

Apesar dos príncipes terem afirmado que escolherão a Selecionada por olhares trocados, obviamente podemos especular se estão falando a verdade.

Teria algo que os chamasse? Algo que os fizesse escolher uma entre as suas Selecionadas?

De qualquer forma, esperamos que as escolhidas para serem as próximas Rainhas do Quadrângulo sejam exemplares e adequadas — e fica o adendo que não confiamos totalmente em certo príncipe para fazer tal escolha.

Trecho do Jornal Daily Times, publicado dia 16 de agosto.

 

21 DE AGOSTO, 17:15.

Primrose quase conseguia segurar a euforia que havia no ar com as próprias mãos, de tão palpável.

Naquele quase anoitecer de Londres, com o Sol se preparando para se despedir num belo pôr-do-sol, a eletricidade entusiasta invadiu o ar úmido da Inglaterra. Ou talvez tenha invadido todo o Quadrângulo, afinal faltava menos de meia hora para a Grande Entrada, para o começo da Seleção. Dava para ouvir os gritos ansiosos dos cidadãos, clamando para que a passeata começasse de uma vez, e de onde Prim estava — na porta que dava para o quintal dos fundos, sem vista para o portão da frente e, consequentemente, para a multidão fervorosa e os paparazzis — notava-se que eram muito mais intensos de perto.

A Selecionada de Benedict por um impulso de nervosismo levou a mão aos cabelos, a fim de enrolá-los com os dedos, apenas para se lembrar que eles estavam muito bem escondidos debaixo daquela peruca cinza com flores de penteado um tanto vintage — estilo esse que era presente em todas as outras perucas das Selecionadas.

Soltou um pequeno gemido e colocou o peso do corpo na perna direita.

À sua frente havia uma dupla de Selecionadas — talvez Margaret e Olympia, Prim não se lembrava direito dos nomes ainda, eram muitas garotas — e atrás de si havia ainda seis duplas de garotas em uma fileira. Assim que todas elas, ou ao menos a maioria, ficaram prontas para o baile, foram orientadas a irem até a porta de saída para o quintal dos fundos e a formarem quatro filas em ordem alfabética conforme o príncipe escolhido. Depois Charlotte dividiu elas em duplas, afinal seriam duas Selecionadas em cada carruagem.

A divisão era formada por Selecionadas do Príncipe Louis e de Kendrick juntas, enquanto as Selecionadas dos príncipes Benedict e Hadrian formavam outras duplas.

Ainda havia uma certa separação entre elas, era notável como as organizadoras estavam receosas caso deixassem duas ou mais Selecionadas de um mesmo príncipe perto uma da outra. Era a Seleção, uma competição para algumas ali, embora a mídia vendesse como “uma história de amor entre os príncipes e jovens garotas com a chance de se tornarem princesas e futuras rainhas” não mudava que algumas só queriam a coroa.

Primrose olhou por cima dos ombros da — talvez — Margaret e observou uma das carruagens se retirando com mais duas Selecionadas e uma outra parando em frente a porta logo após. O cocheiro usava uma cartola prateada, assim como sua vestimenta que era da mesma cor porém com detalhes vermelhos e azulados. Era claramente uma referência a bandeira do Quadrângulo, que também estava presente na carruagem — duas pequenas miniaturas postas uma de cada lado do veículo.

— Próximas! — chamou Charlotte, que segurava um tablet e estava de frente para as garotas.

As possíveis Olympia e Margaret se adiantaram e foram guiadas até a carruagem que tinha se posicionado ali, com um guarda ajudando as duas a subirem na carruagem. Elas se sentaram uma de frente para a outra e Prim logo tomou a liderança da fila dupla sozinha.

Charlotte, que até então mantinha os olhos no aparelho em suas mãos, dando apenas vagas conferidas nas carruagens saindo e se colocando em filas do outro lado do quintal, levantou o olhar para Primrose com uma confusão expressiva.

— Onde está sua dupla? — perguntou ela.

— Ela ainda não apareceu, acho que ainda não está pronta — respondeu Prim prontamente.

— Mas que diabos! — exclamou Charlotte, e então se afastou clicando em um aparelho grudado ao seu ouvido e pedindo sobre a dupla de Prim.

Quando a próxima carruagem vazia parou em frente a porta Primrose voltou a procurar pela garota que seria sua parceira de carruagem que estava claramente atrasada e que por pouco não deixaria Charlotte completamente maluca pelo atraso — isso se ela já não aparentasse estar maluca.

Caso se lembrasse bem, sua dupla era Rebekka, Selecionada de Hadrian e famosa ganhadora de dois Oscars. E, caso se atrasasse mais, possivelmente causaria um infarto na professora de etiqueta, que não parava de gritar no aparelho do ouvido, exigindo que a equipe de criadas da Selecionada se adiantasse mais rápido.

Demorou cerca de mais alguns dez minutos para que a garota surgisse entre as outras Selecionadas que formavam a fila.

A Selecionada usava um vestido acinturado de um vermelho vivo de decote coração, uma fenda se abria pela perna direita e, enquanto o braço direito estava completamente exposto, o braço esquerdo estava coberto por uma manga comprida. Era um vestido diferenciado, ousado e sensual, feito para chamar atenção. A peruca era de vermelha também, embora pendesse mais para um tom alaranjado.

Primrose não deixou de notar a forma como Rebekka andava, exalando confiança em cada passo, e, com um estalo em sua mente, Prim percebeu o que a Selecionada de Hadrian tinha feito.

A sua própria Grande Entrada.

Mesmo que fosse apenas para algumas Selecionadas restantes na fila, Charlotte e alguns guardas, era a sua entrada. E, bom, Prim não tinha como negar que havia funcionado. Todos a olhavam, mesmo que Charlotte a olhasse mais com censura e fúria do que qualquer outra coisa.

— Perdoem-me pelo atraso — pediu Rebekka, olhando inocentemente para Charlotte e Primrose quando chegou ao lado das duas. — Fiquei muito dividida com a escolha da maquiagem.

— Espero que não se repita — disse rispidamente Charlotte. — Andem logo, para a carruagem agora!

As duas obedeceram a organizadora, ambas dirigindo-se rapidamente para a carruagem, que já tinha o soldado segurando a porta aberta para elas.

Rebekka subiu primeiro, aceitando a ajuda do guarda e sentando-se delicadamente no estofado do transporte.

Na sua vez, quando o guarda ofereceu a mão, Prim ignorou, fingindo que não havia visto que ele havia oferecido ajuda para ela subir. Ao se sentar de frente para Rebekka ela não deixou de notar também o desapontamento do guarda em ser ignorado, mas estava tão habituada com aquilo que não ficou martelando isso na sua mente. Embora agora viesse algo muito pior pela frente. O baile.

Dança nunca foi seu forte, especialmente por envolver o toque humano. E Prim não queria ter uma crise de afefobia em frente de todas as Famílias Reais do Quadrângulo e da mídia.

Pelos céus, torcia que não fosse ela a escolhida para a dança. Se o príncipe a escolhesse não saberia o que faria. Fingir um desmaio talvez fosse uma ótima aposta.

— Foi você que escolheu seu vestido? — indagou Rebekka repentinamente, com uma careta analisando o vestido de Prim.

Tirada de seu devaneio, Prim analisou o seu vestido. Ele tinha uma saia de cor creme com o topo sendo de um vermelho rubro detalhado com flores levemente douradas e mangas caídas no ombro. A saia era esvoaçante, de um tecido leve, e deixava Prim muito confortável em usá-lo, sendo modesto e levemente romântico.

— Sim — proferiu Primrose, sem demonstrar reação prevendo o que veria depois.

— Ele é tão… — Ela fez uma pausa dramática com a mesma careta ainda no rosto, e então completou: — Extremamente inocente — debochou Rebekka com um sorriso afiado.

Prim não se moveu, não emitiu som algum e muito menos demonstrou qualquer feição. Apenas piscou os olhos castanhos escuros para a Selecionada sentada à sua frente que logo fingiu se distrair com outra coisa quando a carruagem — que agora emitia um pequeno som elétrico que Prim percebeu ser do escudo de acgamantion — se moveu indo para trás da carruagem onde estavam Olympia e Margaret.

Rebekka não tinha a atingido como pretendia. Não que Prim fosse um poço de autoconfiança, porém, depois de anos lidando com sua síndrome, Primrose estava tão acostumada a ser chamada de metida, ou qualquer outra coisa, que com o tempo ela aperfeiçoou a prática de ignorar opiniões alheias quando necessário.

E talvez, ali na Seleção — mesmo que ela não tivesse planejado estar ali —, isso poderia muito bem ser um ótimo escudo.

Quando finalmente todas as Selecionadas estavam nas suas carruagens, e Primrose ouviu de longe o Primeiro-Ministro do Quadrângulo terminar seu discurso para a multidão sobre a importância das tradições, todas as carruagens passaram pelo portão do Kensington em ordem da fila e ela então percebeu que estava certa.

Os gritos de entusiasmo dos paparazzis, mas principalmente do povo, estavam muito mais eletrizantes de perto.

 

—— •⚜• ——

 

Eram tantos que Nicolette nem conseguia distinguir direito as pessoas. Um mar de pessoas, era isso que era.

Ela viu de soslaio o Primeiro-Ministro, Jeremy Bloom, em um palco na frente do Kensington assim que sua carruagem e de Leatrice passou pelos portões do palácio, e logo depois veio os flashes e gritos entusiasmados.

A estrada estava deserta, liberada para elas, apesar de ter guardas dos dois lados em postos, mantendo a sentinela, a segurança — e contendo a multidão mesmo com as barragens de ferro colocadas ali para que ninguém ultrapassasse o limite. Havia pontos de divisão para jornalistas e a população no contorno da rua, e Nicolette notou que havia sido selecionado quais as revistas e jornais que poderiam ter o privilégio de estar ali, cobrindo o evento.

Ocorreu a Nicolette o que teria acontecido se ela não tivesse sido sorteada para a Seleção, o que teria feito para conseguir dinheiro para o tratamento da pneumonia de seu pai. 

Provavelmente teria que trabalhar dez vezes mais na oficina de mecânica, e tinha certeza que a irmã, Juliette, teria feito o mesmo com seu trabalho de costureira. Talvez até Theo, seu irmão mais velho, teria ajudado. Mas essa era uma ferida aberta que não se cicatrizara ainda, e Nico duvidava que ele poderia fazer algo se ao menos soubesse da situação do pai; era um pedinte desde que saíra da prisão.

No entanto, Nico sabia, que nem trabalhando dez vezes mais conseguiria manter seu pai vivo. Os Seis nunca conseguiam dinheiro suficiente para nada.

— Não se esqueça de sorrir, Nicolette — aconselhou Leatrice, que acenava para a multidão enquanto Nico ainda mantinha a cara carrancuda. — Não acho que eles possam fazer uma boa matéria se você nem ao menos sorrir.

Leatrice não parecia querer dar um sermão em Nico por sua falta de graciosidade, ao contrário disso parecia realmente querer dar um conselho e trazê-la para a realidade. Acompanhando a sua dupla, logo Nico começou a acenar também, sorrindo para a multidão e retribuindo os olhares das câmeras dirigidos a ela. Tentou se concentrar no que sua irmã havia dito para ela antes de dar sua primeira entrevista. “Apenas sorria, seja você mesma e tente não falar merda”. A acalmava um pouco, mas isso talvez fosse por estar longe das câmeras, ao menos o suficiente para que os flashs não machucassem seus olhos.

— Obrigada — agradeceu Nicolette para Leatrice, avistando uma garotinha nos ombros do pai, segurando um cartaz que dizia “Vocês são lindas!”. A Selecionada mandou um beijo para a menina. — São tantos que fiquei desnorteada por um segundo.

— Entendo perfeitamente — sorriu Leatrice, lançando mais e mais beijos para a multidão.

Enquanto as carruagens continuavam a prosseguir para o Palácio de Buckingham II ficou evidente para Nicolette que uma tal de Margaret já havia se tornado a favorita da imprensa e da população para ser a próxima Rainha da Escócia. Não que não chamassem por Nicolette também, ou por qualquer outra Selecionada, contudo o nome “Margaret” era gritado tanto e havia tantos cartazes para ela que isso estava mais do que claro e escancarado.

Como havia sido planejado a passeata durou cerca de quinze minutos, e quando a carruagem chegou em frente ao Palácio de Londres, sendo formado quatro meio círculos em volta do portão de entrada no palácio, Nicolette sentiu um breve nervosismo momentâneo por conta da dança que poderia acontecer com o príncipe, por mais que tivesse tido aulas excepcionais com os professores de dança, ainda assim não achava que estava perfeita. Bom, sendo franca estava longe da perfeição, assim como tudo que envolvia graciosidade e uma certa boa postura e modos. Pelos céus, se ela fosse escolhida tinha certeza que iria tropeçar no pé do príncipe ou até mesmo cair.

Nicolette já estava pensando nas manchetes com uma horrorosa foto dela estirada no chão na frente de todos quando a última carruagem encontrou seu lugar e um som foi emitido do palácio a sua frente, um som de um trompete, que assim que emitiu sua primeira nota todos se calaram para ouvir. O trompetista, acima do palco, virado para a multidão de dentro dos territórios do palácio, tocou o instrumento e então fez uma breve reverência e virou-se para o lado direito do palco, refazendo a reverência novamente. Ele fazia a reverência para uma orquestra, do lado do palco em que Nicolette sabia que iria subir para receber a sua máscara da Rainha da França ou de uma das princesas francesas.

Aplausos varreram a multidão chegando até as Selecionadas, e a maestra se pôs a reverenciar todos, com um orgulhoso sorriso no rosto. Quando ela se virou para sua orquestra os sons cessaram novamente, apenas o barulho de algumas câmeras capturando o momento podia ser ouvido além dos cavalos relinchando. E então eles tocaram.

Quando a primeira nota foi emitida, Nicolette já conseguiu se arrepiar inteira com a música melodiosa. Era a Sinfonia n.º 7, de Beethoven, o primeiro momento chamado de Poco Sustenuto, Vivace. Violoncelos, violinos, flautas, trompetes, e tantos outros instrumentos se misturavam com elegância, de forma magicamente majestosa, e Nico se manteve arrepiada pelo magnetismo do começo ao fim. Ficou tão presa naquela melodia, que assim que a maestra fez o último movimento de mãos, e a música cessou, chegando ao seu clímax, Nico e as Selecionadas começaram a bater as palmas antes da multidão.

Toda a orquestra se pôs de pé e reverenciou as Selecionadas, e em seguida a multidão ali. A orquestra então se virou para a porta principal do palácio e o portão de entrada foi aberto. Cerca de quatorze guardas saíram ordenados e marchando em sincronia, para cada carruagem de Selecionada. Ainda sincronizados, eles abriram as portas das carruagens de cada Selecionada um segundo depois de Nico ouvir o som de que o escudo da carruagem havia se desfeito. Os soldados estenderam a mão para as Selecionadas, e, após Leatrice sair, foi a vez de Nico, que aceitou a mão estendida do guarda de bom grado.

Como haviam ensaiado, formaram a fila única em ordem e tomaram rumo para o palco em frente ao palácio.

Na lateral do palco um guarda ajudava as Selecionadas a subirem as escadas, e assim que estavam lá em cima imediatamente formaram a fila de frente para a multidão na ordem de cada príncipe, sendo assim Nico se dirigiu para seu lugar entre Cassiopeia e Olympia.

Em seguida as Rainhas, acompanhadas das princesas subiram para o palco. As Selecionadas fizeram a reverência e logo depois as rainhas acenaram com a cabeça, assim as Selecionadas tornaram a manter a postura ereta.

Nico conseguiu reconhecer cada uma das rainhas e princesas presentes, notando que seguiam um padrão para suas vestimentas. As da Família Real Escocesa usavam vestimentas de tonalidades azuis — a Rainha Davina usava um vestido de um azul escuro escamoso, com flores decorando o topo do vestido e com uma capa de um tom mais claro de azul; a Princesa Cameron tinha o vestido midi tomara-que-caia de uma tonalidade azul como o céu a entardecer, com um certo brilho parecendo estrelas; a Princesa Anabel estava ausente, possivelmente ainda não tinha idade para comparecer à cerimônia —, as da Família Real Alemã aderiram ao amarelo — a Rainha Amélie tinha o vestido com mangas bufantes curtas, dando a impressão de uma gola, bem acinturado, porém com uma longa cauda; a Princesa Eveline também apostava nas mangas bufantes, apesar de serem diferentes do da mãe, e o vestido dela parecia de um tecido amarelado diferente, não sendo brilhante e sem nenhuma cauda grandiosa —, já as da Família Real Francesa abusavam do vermelho — a Rainha Desirée usando um vestido brilhoso de mangas longas, acinturado e com belo decote, e o vestido da Princesa Scarlett tinha alças finas, sendo igualmente brilhoso como o da mãe, e com uma comprida fenda na perna direita, expondo uma tatuagem de cobra; no entanto, e Nico teve de conter o sorriso quando percebeu, a Princesa Jeannie não usava nenhum vestido, na verdade usava um terno vermelho de mangas bufantes com pequenas presilhas brancas, uma calça de alfaiataria preta e uma gravata borboleta rubi —, e por fim, as da Família Real Inglesa usavam o branco — com a Rainha Florence usando um vestido liso colado, com pequenas mangas soltas, lembrando um pouco uma pequena capa, e a Princesa Beatrix usava um vestido de apenas uma manga bufante, que contornava seu ombro direito e com alguns espaços cobrindo seu corpo estrategicamente, enquanto alguns eram transparentes, não tinha como negar que ele tinha sido feito pela Rainha Amélie.

As quatro rainhas deram um passo à frente no palco, viradas para a multidão, e foi a Rainha Florence quem tomou a palavra primeiro:

— Hoje é o dia em que vinte e oito jovens entrarão no Palácio de Londres, mas não só isso. Hoje é o dia em que elas retomaram uma tradição há tempos perdida, onde terão uma experiência única, não somente de conhecer um príncipe, ou seu futuro marido…

— Mas de conhecer outras realidades além da sua — completou a Rainha Amélie. — Trazemos essas filhas do nosso grandioso Quadrângulo para mostrar que até mesmo aquele que pode ser tratado com indiferença por sua casta pode mostrar quem realmente é, pode se tornar alguém que jamais imaginou ser: uma Rainha.

— Não importa nosso passado, devemos mostrar quem somos hoje — prosseguiu com o discurso a Rainha Desirée. — Mostrar perseverança, liderança, humildade e lealdade. Ser Rainha às vezes significa pensar no seu povo antes de si, significa se sacrificar por um bem maior. No entanto, acima disso está o amor.

— O amor — disse a Rainha Davina. — É a única coisa que ultrapassa as limitações impostas, ultrapassa o dever. O amor é algo que transformou a realidade de cada uma de nós que, agora, vocês chamam de rainhas. É algo que vai além do que acreditamos ser possível.

— E, todas nós temos certeza, que cada jovem aqui nesse palco será tocada pelo amor — concluiu a Rainha Inglesa, dirigindo-se para as Selecionadas.

A multidão aplaudiu, e em seguida o hino foi cantado.

Tudo a seguir passou-se rapidamente, com o final do hino uma mesa retangular de vidro emergiu do chão do palco com as vinte e oito máscaras. A Princesa Scarlett entregou a Nico sua máscara com um pequeno sorriso nos lábios avermelhados e desejou-lhe boa sorte logo depois da aparição das máscaras.

Depois todas já estavam adentrando no palácio, e Nico não teve como não se sentir inundada pela eletricidade do nervosismo.

 

—— •⚜• ——

 

Lá de cima ele conseguia ver a aglomeração no andar de baixo.

O Grande Salão estava tomado por pessoas da alta sociedade, assim como alguns jornalistas do Jornal Oficial e também políticos importantes. Hadrian conseguia ver, por exemplo, o Primeiro-Ministro, Jeremy Bloom, com sua esposa e o filho ao encalço. Sabia que o ministro deveria abrir os portões do Kensington para as Selecionadas depois de um discurso, e certamente não sabia como ele havia chegado tão depressa ao Buckingham, já que claramente não viria junto das Selecionadas. 

Talvez, ocorreu ao príncipe alemão, ele tivesse vindo pelo túnel que ligava os dois palácios, de forma que o ministro conseguisse chegar ali sem atravessar a rua repleta das Selecionadas e dos jornalistas. Era bem provável, e caso se recordasse bem da pequena orientação do Chefe de Guarda, Scott, sobre os túneis e passagens secretas do Palácio de Londres, ele tinha citado algo sobre o túnel subterrâneo que ligava os palácios.

Hadrian deu mais uma espionada pela fresta da porta do segundo andar do Grande Salão, vendo o espaço aberto no final da escadaria, onde ele desceria e escolheria a sua Selecionada para a dança.

— Saia daí antes que os urubus te vejam — ordenou Louis após dar um tapa na cabeça alourada de Hadrian, que emitiu um pequeno som de reclamação quando fechou a porta delicadamente. — Se eles te verem vai parecer que está nervoso e que não consegue seguir ordens, e você mais do que ninguém sabe como os urubus conseguem distorcer qualquer coisa.

Louis mantinha um sorriso no rosto, mas Hadrian notou que não chegava aos olhos.

— Pelos céus, o que teriam para inventar mais de mim? — questionou Hadrian com ar divertido e Louis arqueou a sobrancelha, indo em direção a um espelho próximo, examinando o próprio reflexo.

— Não subestime a criatividade deles — pontuou Kendrick, sentado numa poltrona próxima ao espelho onde estava Louis.

— Já até tentaram espalhar que você e Eveline eram amantes! — exclamou Benedict da parede onde estava apoiado, os olhos arregalados. — Pelo amor de Deus, Hadrian! Acusaram vocês de incesto, e você ainda gosta de brincar com o que podem fazer com sua imagem?

— Nessa eles se superaram, devo admitir — assentiu o alemão, sentando na poltrona de frente para Kendrick que alisava o terno azulado já perfeito.

Faltavam poucos minutos para que finalmente o baile começasse, de forma que eles já estavam preparados e prontos ali perto da porta que se abriria para eles depois do aviso de Charlotte, que passaria ali para instruí-los a se prepararem de forma adequada. Nenhum deles parecia nervoso, como notara Hadrian há alguns minutos, mas ele estava, e não tinha como negar isso.

Não sabia nem como havia inscritas para ele, sabia que era o príncipe menos popular e certamente esperava que nenhuma Selecionada tivesse se inscrito por ele. Provavelmente todas tinham outros propósitos ali, e nenhum seria ele. 

Bom, exceto talvez por uma delas.

— Quem são os urubus?

Quando o príncipe olhou para o lado, tirado de seu pequeno devaneio, viu Anabel, Dave e Joshua se aproximando. Embora Anabel claramente liderava o grupo dos pequenos, andando na frente dos outros dois que brincavam de lutinha. A princesa parecia um pequeno bolinho azul claro com o vestido que usava, a saia era bem rodada e havia uma gola de tule envolta do pescoço da garota. Já Dave e Joshua usavam ternos miniaturas, ambos com os símbolos de suas casas nas abotoaduras.

— São os jornalistas, pequenina — explicou Louis, sorrindo para Anabel e colocando as mãos nos bolsos da calça que fazia conjunto com o terno.

— Mas por que vocês os chamam de urubus? — pediu a princesa escocesa, franzindo a testa enquanto Dave e Joshua desferiam socos fingidos e grunhidos atrás dela.

— Porque eles são como urubus, sempre procurando por carne morta, por restos nossos, em qualquer lugar. Sempre prontos para acabar com a gente e nos matar lentamente — explicou Louis de forma sombria, intensificando o olhar na escocesa e se curvando um pouco.

— Louis — chamou Kendrick, parando de procurar qualquer defeito em seu terno. — Não assuste minha irmã, isso é um aviso.

— Não estou assustada! — retorquiu Anabel, aparentemente bem ofendida.

— Ela é apenas uma criança, Louis, espero que tenha isso em mente — alertou Kendrick para Louis, ignorando a irmã.

— Não sou só uma criança! — exclamou Anabel, fechando as pequenas mãos em punhos. — Tenho seis anos!

— Viu só! — disse o francês, apontando para a pequena escocesa com um sorriso divertido no rosto. — Ela não se importa e tem seis anos.

— Não me interessa, não quero você falando coisas malignas na frente de Anabel e Dave, muito menos impróprias — falou Kendrick, enfatizando a última parte.

— Eu nunca ousaria fazer isso — afirmou Louis, fingindo inocência.

Kendrick balançou a cabeça com desdém e chamou Anabel com a mão, para que ela sentasse no seu colo, mas ela virou o rosto para o outro lado cruzando os braços. 

— Bebel? — chamou o irmão, franzindo a testa. — Bebel, vamos, eu preciso do seu boa sorte antes de ir lá para escolher uma Selecionada.

Anabel nem ao menos virou o rosto para responder:

— Pois pensasse nisso antes de me chamar de indefesa.

— Eu não te chamei de indefesa — afirmou Kendrick calmamente, abrindo um sorriso. — Nunca poderia cogitar te chamar de indefesa, está longe de ser. Ou acha que esqueci de quando me chutou nas pernas porque não dancei com a princesa da Espanha no ano passado, afinal você havia prometido a sua amiga que eu dançaria com ela, não é mesmo?

Anabel não conseguiu evitar rir virando-se para o irmão mais velho.

— Paloma ficou muito chateada porque você não a chamou para dançar, você mereceu aquele chute.

— E eu concordo com você — respondeu Kendrick a irmã, e então chamou-a novamente com a mão erguendo-se da poltrona. — Venha agora, preciso ouvir seu boa sorte.

A princesa escocesa sorriu e correu para o irmão, que tinha os braços esticados esperando por ela. Kendrick a pegou prontamente, dando risada e beijando-a na ponta do nariz. De vislumbre, o príncipe viu que Dave e Joshua pediam para Hadrian e Benedict para também os pegarem no colo, mas os colocando em seus ombros. 

Os príncipes aceitaram de imediato, e logo os meninos brincavam de lutinha em cima dos ombros do alemão e do inglês.

— Me diga então, Bebel — começou Ken, conferindo se Dave e Joshua tinham perigo de cair e se machucar de soslaio. — Você veio mesmo me dar boa sorte, certo?

— Mais ou menos — confessou a escocesa, franzindo o cenho pensativa. — Também queria me livrar um pouco desses idiotas.

Anabel apontou para o irmão e para o príncipe mais novo da Inglaterra, que agora tinham arregaçado as mangas para terem mais movimento dos braços. Porém, no momento que ouviram Anabel, ambos pararam e ficaram olhando para a princesa com os semblantes irritados.

— Não somos idiotas! — xingou Joshua, parecendo realmente ofendido e esticando o pescoço, o que fez Benedict perder por um segundo o equilíbrio, mas recuperando-o logo depois. — Estamos só praticando para quando nosso treinamento começar.

— Bom, Josh pode ser um idiota, mas eu não sou! — reclamou Dave, mostrando a língua para a irmã.

O quarteto de príncipes herdeiros deram risadinhas e Kendrick aproximou a boca do ouvido da irmã.

— Se quer saber, Bebel, eles me lembram muito Hadrian e Benedict crianças — cochichou para a irmã mais nova.

— Eles também eram idiotas assim? — gritou Anabel, olhando para Benedict e Hadrian horrorizada.

— Ei! — reclamou Benedict, ajeitando o irmão nos ombros. — Não nos calunie para sua irmã!

Hadrian, que também arrumava a postura para que Dave não caísse, concordou com a cabeça balançando-a repetidamente, claramente ultrajado.

Do lado de Kendrick, Louis soltou um riso de desdém.

— Não é calúnia se for verdade — cortou Louis, o sorriso afiado tão típico dos d’Orleans no rosto.

— De qualquer forma eu não sou idiota! — berrou Dave, mostrando novamente a língua para a irmã, quase desequilibrando Hadrian.

Quando Hadrian recuperou o equilíbrio a porta lateral se abriu, revelando Charlotte, que arqueava o par de sobrancelhas assustada com a cena que encontrava. Dois dos herdeiros, com os ternos agora levemente amarrotados, segurando outros príncipes nos ombros — estes que estavam sem o seus devidos ternos e com as mangas arregaçadas, isso sem contar o suor na testa —, enquanto o príncipe escocês segurava a irmã no colo, fazendo-a brincar como se fosse um avião, ou um pássaro.

O único que se mantera elegante era o francês, que agora se divertia às custas dos outros que haviam sido pegos no flagra e com as feições de susto preenchendo os rostos. O sorriso de Louis se alargou.

— Boa noite, querida Madame Charlotte — disse Louis. — Devo dizer que está deslumbrante.

Por um instante pareceu que a mulher estava em transe, olhando para a cena perplexa, e então recuperou o fôlego.

— Obrigada Alteza — agradeceu Charlotte, os olhos ainda cravados nos príncipes pegos no flagra, que agora colocavam todos os príncipes menores no chão delicadamente, com medo de efetuarem movimentos bruscos, como se a professora de etiqueta pudesse atacá-los. — E-está na hora — gaguejou a mulher, e então limpou a garganta tentando disfarçar.

Kendrick deu um passo à frente e disse:

— Perdoe-nos Madame Charlotte, queríamos apenas… 

— Você não me deve desculpas, Príncipe Kendrick — respondeu Charlotte, piscando várias vezes, e então respirou fundo virando-se para a porta por qual entrara. — Vamos, garotas — chamou a mulher e seis criadas avançaram da porta, na direção dos herdeiros com ternos bagunçados. — Preciso deles perfeitos essa noite.

Enquanto as criadas passavam com total excelência os ternos, e ajeitavam o que precisava ser arrumado nas vestimentas, nenhum som foi emitido. A não ser, claro, por Louis, que se encontrava ao lado de Charlotte e nem tentava disfarçar os risos que escapavam de sua boca.

Enfim, depois de alguns minutos, as criadas saíram, deixando as vestimentas dos príncipes impecáveis novamente. A porta foi fechada e Charlotte pareceu voltar a si.

— Agora, vocês três — começou ela, olhando fixamente para Joshua, Dave e Anabel. — Vão ir encontrar suas babás, que arrumarão suas roupas e então poderão ir ao baile. Devem ir agora, altezas.

Anabel se empertigou, e deu um tapinha no ar.

— Tá bem, tá bem — concordou a escocesa, de forma desdenhosa. — Mas antes tenho que ter uma conversa séria com esses quatro panacas.

E se dirigiu para os herdeiros, parando em frente primeiramente de Louis.

— Você, seu canalha — falou Anabel, calmamente, arrancando um sorriso divertido do príncipe. — Se eu souber que magoou qualquer uma daquelas moças irei fazer um pacto com Jeannie e iremos infernizar sua vida para sempre. Os métodos delas são mais maléficos dos que os meus, então não subestime-nos.

— Certamente, alteza — assentiu Louis, reverenciando-a com a cabeça.

Anabel seguiu para o próximo, e Benedict estremeceu.

— Já você — começou ela, apontando o dedo para a cara do príncipe inglês. — Não coloque suas Selecionadas em perigo, me ouviu bem?

— Ouvi sim — respondeu o príncipe.

— Vá com calma com elas, não as obrigue de fazer nada perigoso se elas não quiserem, entendeu? — brandou Anabel, o dedo bem apontado para o rosto de Benedict, que arregalava os olhos.

— Eu nunca…

— Entendeu bem? — interrompeu Anabel.

Por fim, o príncipe cedeu:

— Entendi.

— Ótimo — disse a princesa e foi para o próximo, Hadrian engoliu em seco, mas Anabel apenas franziu a testa. — Você eu diria para tomar cuidado com as suas Selecionadas, não sei se elas podem gostar de você logo de cara, com tudo que os urubus já fizeram e tudo mais.

Do outro lado Charlotte indagou:

— Urubus?

Todos responderam em uníssono:

— A mídia.

A princesa escocesa chegou então a seu irmão, o último.

— Agora você, meu irmão, eu diria que precisa tentar se levar mais pelas suas emoções do que pela mente — aconselhou Anabel, e Kendrick abriu um sorriso, já imaginava que seria isso que ela falaria a ele; não duvidava que Cameron tinha falado com a irmã sobre aquela conversa que tiveram tempo atrás. — Mas você é um teimoso de primeira com suas convicções, então espero que uma delas dê um murro em você, ou no seu coração, tanto faz.

Kendrick abaixou-se na altura da irmã e depositou um beijo em sua testa.

— Obrigada por suas palavras de sabedoria, Bebel — agradeceu Kendrick por fim.

— De nada, agora eu e esses outros dois temos que ir — anunciou Anabel, indo na direção de Joshua e Dave, enlaçando os braços nos garotos.

— Mas eu não queria ir — murmurou Dave, sendo arrastado pela irmã.

— Cale a boca, e talvez eu faça a mamãe rever a ideia de nunca mais te dar doces antes de dormir.

Dave calou-se imediatamente após aquilo, e Benedict reparou que o irmão mais novo, Joshua, falava algumas curiosidades sobre o palácio para Anabel, antes de enfim desaparecerem de vista.

Charlotte virou-se para os herdeiros, que a olhavam esperando seu sinal.

— Muito bem, altezas — começou Charlotte, endireitando-se. — Preciso de uma fila horizontal de frente para a porta da escadaria. Príncipes Benedict, Hadrian, Kendrick e Louis da esquerda para a direita, respectivamente, por favor.

Logo os príncipes estavam prontos, posicionados lado a lado como Charlotte instruíra. Foram feitos os últimos retoques nas coroas de cada um deles e nas joias, verificando se todas brilhavam grandiosamente e se as máscaras estavam bem posicionadas nos rostos, e enfim Charlotte parou de se mexer de um lado para outro.

— Certo, tudo pronto. Vocês entrarão daqui dois minutos, lembrem-se, tudo como foi ensaiado — Charlotte então foi até a porta lateral, e antes desta ser fechada ela os olhou uma última vez. — Boa sorte, altezas.

A porta lateral fechou-se, e não demorou para a porta principal para a escadaria ser aberta.

Nenhum dos príncipes admitiria, mas naquele momento, quando todos eles sorriram e vários flashes dispararam na direção deles, todos eles sentiram uma pontada de ansiedade no estômago.

— Com vocês, Vossas Altezas, os Príncipes do Quadrângulo — anunciou um homem, no pé da escadaria.

Todos no recinto, exceto pelos herdeiros, fizeram a mais formosa das reverências.

Os príncipes desceram para o topo da escadaria, e a porta atrás deles foi fechada pelos guardas.

O homem que anunciara os herdeiros voltou a falar logo depois:

— E agora, com vocês, as Selecionadas do Príncipe Benedict, da Inglaterra.

Uma porta à direita do homem foi aberta e os flashes dispararam para as Selecionadas a vista.

Todas elas caminharam graciosamente até o final da escadaria, em formato de meio círculo, e fizeram uma reverência elegante. Os convidados, que estavam mais afastados das Selecionadas do príncipe inglês, bateram palmas e Hadrian viu Benedict dar o primeiro passo à frente.

As Selecionadas endireitaram-se, olhando para frente, esperando o príncipe. Benedict desceu as escadas calmamente, e parou quando chegou no final da escadaria, frente a frente com suas Selecionadas ele abriu um sorriso espontâneo.

Sem hesitar, ele estendeu a mão para a Selecionada escolhida, que Hadrian percebeu que, ao contrário de Benedict, hesitou por um instante. Hadrian também não podia ignorar que desde o primeiro momento que as Selecionadas olharam para o príncipe ele escolheu aquela que seu olhar cruzou primeiro.

A Selecionada escolhida — que usava uma máscara branca com dourado, vestido em tonalidade clara e com prata, além de uma peruca azul-celeste — estendeu a mão de volta para o príncipe, e as demais Selecionadas restantes se dispersaram, três indo para a direita, e outras três para a esquerda.

Benedict levou a Selecionada até o centro do Grande Salão, todos abrindo espaço para o casal. A música Fascination começou a tocar logo depois, com sua melodia calma e romântica.

Os dois dançaram de forma excelente, afinal de contas Benedict era realmente muito bom com coreografias, compensando pelos dois, mas também porque a dança era fácil. Contudo, na parte do salto a escolhida não se lembrou de erguer a perna, para que Benedict a puxasse para o colo, então o príncipe rapidamente improvisou, pegando as duas pernas da selecionada em vez de uma. Talvez fosse sua imaginação, mas Hadrian pensou ter ouvido um resmungo da Selecionada.

Depois que ele a pôs no chão novamente tudo ocorreu de forma razoável, e quando a música terminou de ser tocada pelos músicos o casal se despediu e partiram pela porta que dava para os jardins enquanto o restante do público aplaudia.

Assim que as palmas cessaram todos se voltaram para Hadrian, ele seria o próximo afinal. 

A porta à direita foi aberta pelos guardas novamente.

— As Selecionadas do Príncipe Hadrian, da Alemanha — anunciou o homem novamente, apesar de ser um pequeno murmúrio para Hadrian.

Da mesma forma que as Selecionadas de Benedict haviam feito as sete moças se posicionaram em meio círculo e fizeram a reverência. 

O príncipe não notou que havia descido toda a escadaria até chegar ao final dela, e então as Selecionadas levantaram o olhar à ele. Mas ele havia sido fisgado assim que ela o olhou. Aqueles olhos que ele conhecia há tantos anos.

Ele estendeu a mão, e ela colocou a mão junto a dele.

Através daquela máscara que ela usava — dourada, cravejada com algumas pedras prateadas —, daquele vestido branco esvoaçante com detalhes de flores, da peruca esverdeada, era ela. 

Csilla.

E no instante em que soubera que ela estaria ali na Seleção, por ele, era uma esperança. Esperança de que alguém ali não o julgaria sem conhecê-lo, não o usaria. 

Não tinha como ele escolher outra para aquela primeira dança.

Ele nem ao menos reparou que já estavam no meio do Grande Salão até que a La Valse D’Amelie começou a ser tocada pelos músicos. Eles dançaram, e ela continuava graciosa como ele se lembrava que ela era. 

Durante aquela dança, Hadrian se sentiu voltando no tempo, quando dançavam quase todos os dias juntos. Ele não conseguiu evitar reviver todo seu passado com Csilla, sentindo sua mão enlaçada na dela novamente, seus corpos próximos depois de tanto tempo. Embora sentisse também que havia algo estranho, porém sua mente afastou o pensamento rapidamente.

Deveria ser só sua imaginação.

Todos com certeza ficaram hipnotizados por cada passo que davam, e quando a dança terminou eles agradeceram os aplausos e Hadrian a conduziu para a porta que levava aos jardins, o mesmo pelo qual Benedict saíra.

Quando finalmente os sons do baile começaram a ficar mais baixos ele se virou sorridente para ela, porém Csilla continuava olhando para frente.

O seu sorriso murchou e ele notou, pela segunda vez, que tinha algo errado. Até então fingiu não notar como ela parecia não querer nem ao menos estar com o braço enlaçado no dele, porém Hadrian afastou o pensamento novamente.

Talvez fosse sua própria mente tentando enganá-lo, certo?

Ele limpou a garganta e disse:

— O encontro será no meu quarto, achei que seria mais reservado e terá um jantar, obviamente, já que não poderemos usufruir das comidas do próprio baile.

— Não vou com você para o encontro — falou ela rispidamente.

Ele parou de caminhar, forçando-a a parar também.

Não tinha ouvido direito, certo? Ela não havia dito aquilo.

— Como? — indagou Hadrian, e Csilla não teve como não notar a insegurança na sua voz.

— Não vou ao encontro — ela repetiu.

Pareceu por alguns breves instantes que ele não iria falar mais nada, mas como se tivesse recuperado a voz ele perguntou confuso:

— Mas porquê?

Em segundos ele viu a feição de Csilla se tornar furiosa, e antes mesmo que raciocinasse o que estava acontecendo sentiu sua bochecha esquerda queimar e seu rosto virar bruscamente.

Por Deus, ela tinha acabado de dar um tapa nele?

Não, não, não podia ser. Csilla era amável e gentil com ele. E não era do tipo que lhe dava um tapa.

Ele levou a mão para a bochecha ardente e percebeu que era real. Csilla acabara de lhe desferir um tapa. E um dos mais fortes que ele já tomara de uma dama.

— Isso — xingou ela, as feições vermelhas de raiva. — É por não ter me defendido enquanto seu pai falava suas suposições de minhas intenções com você!

Hadrian abriu a boca, mas antes de falar qualquer coisa, Csilla pisou com tudo no seu pé, e o príncipe arfou de dor.

— E isso é por não ter ao menos tentado me contatar depois — gritou ela, e começou a andar em direção às escadas que levariam ao interior do palácio.

Mesmo com a dor no pé, Hadrian começou a correr atrás dela, embora sem muito eficácia.

— Csilla! — chamou ele, mas ela não se virou, determinada a entrar pelas portas agora abertas pelos guardas ali.

Que ótimo, agora ele estava fazendo papel de bobo na frente dos soldados.

— Csilla! Por favor! — chamou ele de novo, avançando no primeiro degrau e ignorando como que um dos guardas parecia tentar segurar um riso da sua cena patética.

— O que foi, Vossa Alteza Real? — brandou ela, virando-se rapidamente e segurando a bainha do vestido.

Ele hesitou, não sabia se queria conversar com ela com seus guardas olhando. E aquele que tentava segurar o riso parecia prestes a ceder.

— Vocês poderiam se retirar, por favor? — pediu ele aos guardas que concordaram e instantes estavam fora de vista. 

Csilla continuava com a feição furiosa no rosto, mesmo assim ele avançou mais um degrau.

— Csilla, se você ainda está com raiva de mim… — Hadrian oscilou, mas engolindo em seco prosseguiu: — Por que se inscreveu para a Seleção?

Ela o encarou, incrédula com a pergunta. Contudo, sua expressão raivosa se suavizou e abriu-se um sorriso cético em seu lugar.

Era possível o herdeiro alemão ser tão inocente assim no final das contas?

Hadrian claramente não estava gostando da situação. Bufou impacientemente e cruzou os braços.

— Perdoe-me, Vossa Alteza — adiantou-se Csilla, e desceu as escadas, ficando cara a cara com Hadrian. — No entanto, devo admitir que é deveras engraçado você não ter percebido antes.

— Percebido o que? — indagou Hadrian, faltando pouco para perder completamente a paciência.

— Me diga, Hadrian, quantas Selecionadas são Dois ou Três?

Ele tentou lembrar de todas as Selecionadas, das suas castas, mas nem ao menos tinha decorado os nomes completos das suas. E também não conseguia entender o motivo daquilo ser importante naquele momento.

— Não sei — admitiu com raiva.

— Temos dez Selecionadas que são Dois, e seis que são Três — informou Csilla com clareza. — A maioria aqui são de casta alta. Você realmente acha que isso é uma mera coincidência, Hadrian?

O príncipe arqueou uma das sobrancelhas louras e espessas, apesar de estarem escondidas por detrás da máscara branca-dourada que usava no rosto.

Obviamente ele sabia que alguns dos ministros tinham selecionado a dedo algumas das garotas. Algumas devido a favores que certos ministros deviam às famílias das jovens, outras por proporcionarem maior destaque para o evento. Outras por pura chantagem de segredos. E era inegável que a maioria dessas jovens eram de castas altas.

Mas ele não podia revelar isso para Csilla. Por mais que conhecesse ela desde sempre era uma informação que não poderia vazar ao público de nenhuma maneira.

— Você está insinuando que o sorteio não foi realmente um sorteio? — questionou o príncipe, escondendo muito bem de que sabia muito mais do que Csilla pensava que ele soubesse.

— Xeque-mate! Agora junte um mais um, Hadrian.

Imediatamente veio a cabeça de Hadrian o dia em que voltara do orfanato, depois da discussão sobre a possível Seleção com o pai. Havia uma coisa que sua mãe lhe disse durante a conversa dos dois nos estábulos, algo que o deixou instigado, embora tivesse deixado de lado e ignorado. Até agora.

Nunca deixarei que se case por conveniência, era o que sua mãe lhe dissera. 

Como um instalo ele entendeu sobre o que Csilla queria explicar a ele.

Sua mãe que tinha colocado Csilla na Seleção. Certamente motivada pelos anos que os dois compartilharam da companhia um do outro, a sua mãe deve ter achado que assim seria uma maravilhosa forma de garantir que ele pudesse encontrar o amor ali.

Uma onda de raiva o invadiu. Não precisava da mãe cuidando de sua vida amorosa, ou supondo que ele e Csilla seriam o casal perfeito, que assim o filho poderia casar por amor como os pais. Hadrian trincou o maxilar, mais raivoso ainda ao pensar em como tinha sido patético em achar por um breve momento que havia alguém ali que havia se inscrito realmente por ele. Alguém que não o julgaria pelas manchetes tendenciosas e falsas a seu respeito.

Sua boca se encheu do gosto amargo da raiva mais intensamente, e ele quase saiu dali para dentro do palácio batendo os pés.

Sua mãe podia muito bem supor que ele e Csilla seriam um ótimo casal e que se amavam lá no fundo, mas a olhando agora, posta a sua frente e com ar de zombaria para ele, sua mãe não podia estar mais enganada.

Csilla e ele eram passado, e somente isso. Nem ao menos se conheciam mais, os anos que passaram afastados garantiram isso.

— Você nem chegou a se inscrever, certo? — perguntou Hadrian, apenas para confirmar e tentando não demonstrar toda a fúria que o consumia.

Csilla abriu um sorriso cínico.

— Como que você ousou pensar que eu poderia cogitar me inscrever para você depois de ter sido humilhada e ignorada por você? — As feições dela continuavam brandas, apesar de terem se suavizado. — Pois bem, agora que você finalmente entendeu irei me retirar, Vossa Alteza. Tenha uma desprezível noite.

E sem mais nem menos, Csilla partiu para dentro do palácio, deixando o príncipe furioso para trás.

 

—— •⚜• ——

15 minutos antes…

 

O Grande Salão explodiu em aplausos, enquanto Hadrian e sua escolhida deixavam-o.

Agora era sua vez de escolher uma entre suas Selecionadas, apesar de já ter decidido quem seria.

— Senhoras e senhores — chamou a atenção o homem que vinha anunciando as Selecionadas. — As Selecionadas de Vossa Alteza, Príncipe Kendrick, da Escócia.

Kendrick estampou o melhor dos sorrisos assim que a porta foi aberta e elas adentraram no salão, se posicionando naquele meio círculo e reverenciando-o.

Descendo as escadas Kendrick percebeu que não foi difícil localizar a escolhida entre as outras seis. Ela usava um vestido com saia rosada bem armada, o topo de um tom entre o vermelho e o preto. A máscara era preta detalhada com brilho, e, assim como a máscara, a peruca de penteado vintage era negra, porém com uma coroa de flores rosadas, combinando com a saia do vestido.

Era a descrição exata que o príncipe recebera de uma das criadas do Kensington.

O escocês parou no defronte as Selecionadas, fitando-as com calma, fingindo analisar todas elas, e depois deu um passo para frente, em direção a escolhida.

— Aceita dançar comigo, minha querida e estonteante Selecionada? — perguntou a Margaret.

Ela piscou duas vezes antes de aceitar, juntando sua mão ao do príncipe que se mantinha estendida.

Conduziu ela até o meio do Grande Salão, sem tirar os olhos dela, que também o fitava, e tão naturalmente ele enfim enlaçou as mãos na dela, um segundo antes de começar a ser tocada a música Fire on fire.

Não tinha como negar, ela era uma perfeita dançarina, mais do que ele mesmo. E, com toda certeza, era de fato estonteante e elegante, com uma postura impecável.

Dançando juntos ele percebeu que não poderia ter feito escolha melhor.

Sabia desde o princípio que precisava escolher para o baile uma Selecionada que fosse excelente dançarina, e não tardou para pousar os olhos na ficha de Margaret alguns dias antes do baile. Ele obviamente não deixaria sua escolha ser meramente aleatória, fazendo uma hipotética escolha em que a escolhida fosse uma dançarina péssima, ou que não aprendera o suficiente da coreografia. E como Margaret era professora de ballet — embora também cursasse direito — ela era a escolha perfeita.

Primeiro pensou que seria eficaz se apenas decorasse as feições dela, porém depois percebeu que era rídiculo. Teria que ficar um tempo demasiadamente longo até conseguir identificá-la direito entre as demais, estavam muito bem disfarçadas afinal. 

Foi quando bolou o plano.

Foi simples, apenas ligou para o Kensington e conversou com uma das criadas, puxando papo com ela até que a mulher falasse além da conta, dando as descrições dos vestidos, das máscaras, e até das perucas de cada Selecionada. Quando a mulher enfim se deu conta que tinha falado demais perguntou o motivo da ligação do príncipe, já que até então havia só conversado com ela. Kendrick apenas mentiu dizendo que precisava falar com Charlotte, e quando a criada passou o telefone para a professora de etiqueta ele só perguntou se as Selecionadas estavam bem alojadas.

Girando Margaret agora pelo salão, que retribuia o sorriso dele, percebeu que não se arrependia nenhum pouco de ter trapaceado na antiga tradição do Baile do Primeiro Encontro. Não tinha como ele fazer uma escolha totalmente aleatória quando podia proporcionar uma bela dança para todos ali e para a mídia.

Ele puxou-a para o peito dele, o último passo de dança antes da coreografia acabar, e Margaret pode sentir o perfume do príncipe. Ela constatou rapidamente, naquele breve momento tão próxima ao príncipe, que era uma mistura de baunilha, ameixa e âmbar, e isso a fez soltar uma risada — não esperava tal combinação para o herdeiro escocês.

Logo em seguida, sendo ainda envolvida pelo príncipe com o peito dele em sua lombar, ela sentiu os flashes na direção dos dois e sentiu um arrepio percorrer seu corpo delicado quando o príncipe aproximou os lábios de seu ouvido.

— Obrigada pela excelente dança, minha estonteante Selecionada — disse o príncipe.

Margaret enrubesceu, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, o príncipe a girou e eles dois fizeram uma pequena reverência para aquele amontoado de pessoas que aplaudiam. Flashes dispararam na direção deles, e o príncipe enfim enlaçou seu braço no dela e a conduziu para uma porta à esquerda do Grande Salão, que já estava aberta pelos guardas.

— Diga-me, minha querida dama — disse o príncipe, assim que passaram pela porta que foi fechada novamente. — Está com fome?

— Um pouco — mentiu Margaret, abrindo um sorriso tímido.

A verdade era que estava morta de fome, a única refeição antes do baile havia sido um chá da tarde e como Margaret repudiava a bebida — como alguém podia gostar daquilo? — ela apenas comeu uns biscoitos amanteigados.

O Príncipe Kendrick sorriu compassivo, como se soubesse de alguma forma que ela estava faminta.

— Bom, posso tranquilizá-la informando que nosso encontro será um jantar — explicou ele, tomando então o rumo por outro corredor do palácio.

Aquele lugar parecia ser um labirinto.

Grandioso, majestoso e luxuoso com certeza — Margaret olhava para o teto, para as paredes repletas de pinturas, as estátuas que decoravam o local… tudo aquilo era espetacular. Mas, ainda muito difícil de se entender, afinal era seu primeiro dia ali. 

— Não se preocupe em entender o palácio inglês agora — falou ele, como se lesse os pensamentos da Selecionada, ou apenas tinha reparado no olhar intrigado dela. — Amanhã vocês terão um tour por todo ele, com o auxílio da pessoa que o conhece como a palma de sua mão.

— Você se refere a professora de história, a senhorita Aisha, Vossa Alteza? — perguntou-lhe ela, recordando-se que Charlotte havia informado elas sobre o tour que fariam pelo palácio juntamente da professora de história.

— Não — O príncipe deixou escapar um riso entre os lábios. — Estou me referindo, é claro, a Joshua, o príncipe mais novo da Inglaterra.

— Desculpe-me, mas porquê isso seria tão óbvio, Vossa Alteza?

— Digamos que o pequeno príncipe é fascinado pelos atalhos, esconderijos, pelas obras, e pela arquitetura — explicou o príncipe, direcionando-a para uma escadaria que logo começaram a subir. 

Prosseguindo com a caminhada, com o braço enlaçado no do príncipe, Margaret se permitiu ser guiada completamente por ele, deixando-se levar enquanto admirava as diversas obras de artes e estátuas nos corredores.

Reconhecia certos monarcas nas estátuas ou nas artes penduradas nas paredes, como o antecessor e pai do Rei Sebastian, o antigo Rei Dariel junto da antiga Rainha Marely. Margaret sabia que o antigo rei havia falecido há alguns anos — o funeral havia sido transmitido pelo Jornal Oficial de todo Quadrângulo —, e que a ex-rainha Marely tinha se mudado para um palácio mais afastado da cidade desde então, embora visitasse regularmente o filho e netos no Palácio de Londres.

Ocorreu a Selecionada se a antiga rainha poderia visitá-los durante a Seleção, ou se ela estava presente no baile e Margaret não tivesse notado sua presença.

— Não se preocupe — disse o Príncipe Kendrick inesperadamente, quando viraram mais uma vez para a direita num outro corredor extenso — Estamos chegando.

Após caminharem por mais alguns minutos, num silêncio confortável, enfim o príncipe parou em frente a uma porta. Os guardas que a guardavam a abriram rapidamente e Margaret abriu boca, completamente surpresa com a beleza do local.

Havia uma mesa redonda posta com uma toalha creme detalhada em dourado — que Margaret não deixou de pensar que era possivelmente ouro —, dois pratos quadrados, duas taças e um vaso com um buquê de camélias vermelhas e margaridas. No chão havia também velas espalhadas e pétalas vermelhas, e na mesa duas velas maiores juntas do vaso de vidro com o buquê de camélias e margaridas.

Mas o que mais a fazia achar aquele local deslumbrante era que tudo estava posto numa das várias varandas do palácio, porém essa tinha um diferencial das demais que ela já tinha visto em fotos do palácio ou quando observava o palácio de fora de seus portões. 

Era completamente em vidro cintilante. Exceto o chão que era de um branco puro, todo o resto cintilava. O vidro — se é que fosse vidro realmente — brilhava como um arco-íris, as luzes refletindo pela varanda.

Não tinha outra palavra para descrever senão mágico.

— Esta é a Varanda Cristalina — esclareceu o príncipe escoces, conduzindo-a pela varanda até a mesa. — Produz um efeito muito mais bonito quando se tem sol, mas hoje teremos que nos conformar com seu espetáculo da noite.

— É muito linda — admitiu Margaret, ainda muito impressionada.

O príncipe abriu um sorriso sincero, e soltando-se do braço da Selecionada moveu-se até uma das cadeiras, puxando-a para que Margaret se sentasse.

— Oh, você não precisava fazer isso — disse Margaret surpresa; estava tão atônita olhando para a varanda e a vista dela para a cidade que nem havia reparado no príncipe puxando a cadeira para ela.

— Não espere que meus costumes de cavalheiro mudem porque você me chama de Vossa Alteza, minha dama — respondeu o príncipe, os olhos cristalinos de cor entre o azul e o verde refletindo por de trás daquela máscara negra que ele usava.

— Sendo assim, obrigada Alteza — agradeceu Margaret, sentando-se na cadeira.

O príncipe contornou a mesa e juntou-se a ela, sentando à sua frente.

— Diga-me, minha querida, prefere vinho tinto ou branco? — perguntou-lhe.

— Admito que não possuo preferência, Alteza.

— Certo, então escolherei um vinho branco. De uma ótima safra inclusive.

Em seguida o príncipe tocou uma sineta que até então Margaret não havia percebido a presença, e logo um garçom adentrou pela porta em que eles haviam entrado. O príncipe pediu o vinho e o jantar, depois o garçom voltou a desaparecer pela porta e eles ficaram a sós.

— Creio que temos que resolver isso — disse o príncipe repentinamente.

— Isso?

— Isso.

Margaret franziu o par de sobrancelhas.

— Mas o que seria isso, Alteza? — perguntou ao príncipe, confusa.

Ele sorriu e Margaret perguntou a si mesma se ele tiraria aquela máscara que cobria o seu rosto. Não fazia sentido ele ter que usá-la também.

— Estou me referindo a você me chamar toda hora de Alteza — explicou ele.

— Ah, mas acredito que Madame Charlotte ficaria muito decepcionada.

— Porquê?

— Ela foi muito insistente em seguirmos os protocolos reais à risca.

— Neste caso — o príncipe ergueu-se levemente sobre a mesa, e instintivamente Margaret se aproximou dele, os lábios dele chegando bem perto de sua orelha pela segunda vez naquela noite, ele completou: — Posso lhe assegurar que Madame Charlotte não está nessa varanda, então pode deixar esse protocolo de lado por agora.

O príncipe voltou a retornar a cadeira e Margaret soltou um riso.

— Então como posso me referir a você, Alteza? — perguntou-lhe, arqueando a sobrancelha.

— Acredito que apenas Kendrick ou Keny está ótimo — ponderou o príncipe, e levou as mãos para a máscara em seguida, porém hesitou. — Não se importa se eu retirar essa máscara certo, senhorita?

— Claro que não, Keny — respondeu Margaret, sorrindo ao falar o novo apelido do príncipe.

— Estamos de acordo então — sorriu o príncipe, retirando enfim a máscara e a pousando ao lado de seu prato. Naquele momento, quando as luzes arco-íris brilharam pelo rosto agora exposto do príncipe ela poderia jurar que ele parecia celestial, mas logo o pensamento se perdeu quando ele prosseguiu: — Me diga, poderei chamá-la por algum apelido, ou será somente senhorita misteriosa esta noite?

Era uma pergunta inofensiva, mas claramente escondia as reais intenções do príncipe: que ela revelasse sua identidade sem querer.

Pois bem, ela não cairia nesse joguinho.

— Esta noite creio que somente senhorita misteriosa está ótimo — retorquiu Margaret, desafiando o príncipe com o olhar.

Ele arqueou o par de sobrancelhas e ergueu as mãos, para se defender da acusação presente no olhar dela.

— Eu nunca comprometeria você para revelar sua identidade, senhorita misteriosa — defendeu-se o príncipe.

— Tenho certeza disso, Keny — riu a Selecionada.

O príncipe abriu a boca para falar mais alguma coisa, mas as palavras se perderam quando a porta foi aberta pelos criados que traziam a comida e o vinho que ele havia pedido.

Rapidamente, e com excelente eficiência, a comida foi posta na mesa, assim como o vinho. Margaret percebeu que o prato principal era espaguete a parisiense, e a sobremesa era cranachan, que ela se lembrava ser uma sobremesa típica escocesa.

Após servir as taças de ambos do vinho branco o último garçom restante se retirou, deixando novamente ambos a sós.

— Acredito então que não terei nenhuma dica sobre quem você é, correto? — pediu o príncipe, levando o espaguete a boca em seguida.

— Certamente que não — confirmou ela, após mastigar e engolir a garfada de espaguete.

Kendrick sorriu convincentemente para si mesmo.

Claro que ele sabia que era Margaret, mas não era algo que ele queria que ela soubesse; que ele havia arquitetado tudo para escolher a pessoa mais correta, no caso ela. E ele com certeza não queria desperdiçar seu tempo pedindo dicas sobre quem ela era, afinal já sabia sua identidade. O plano era que ela se negasse a dar qualquer dicas sobre quem era para ele poder ir para o ponto principal: conhecê-la.

Ou, melhor dizendo, saber quais os seus melhores atributos que poderiam a tornar uma boa rainha. Não, uma boa não. Uma rainha perfeita.

— Que tal então você me dizer mais sobre você? — Margaret imediatamente lançou-lhe um olhar de censura. — Não, não! Não estou pedindo sobre seus aspectos físicos ou características que possam estar na sua folha de inscrição que me fariam reconhecê-la quando nosso jantar acabar, mas sobre você. Como você é, senhorita misteriosa?

Margaret levou à boca mais uma garfada de espaguete e pensou sobre o que diria a ele.

Não poderia falar sobre o ballet, nem mesmo sobre sua paixão por ensinar as crianças a dançar. Seria específico demais. Teria que ser algo que não estivesse em sua folha de inscrição, talvez algo que só ela soubesse e que não teria como ele perceber depois que ela não estivesse mais escondida por detrás de uma máscara.

— Gosto do verão — começou ela, e logo se pôs a explicar melhor quando percebeu que o príncipe a encarava com real interesse. — O verão entre junho e agosto, é um dos momentos em que minha família se reúne e posso colher morangos com meus parentes.

— Posso então dizer que a senhorita aprecia a companhia de sua família? — perguntou o príncipe, sorrindo.

— Oh, claro! Amo todos eles — respondeu Margaret, ruborizando um pouco por conta do olhar atento do príncipe. — E você, aprecia a companhia de sua família?

O príncipe bebericou o vinho antes de dizer:

— Aprecio, certamente. Evidentemente temos discussões e bom, tem as implicações que causamos uns aos outros, mas somos uma família. Nós protegemos uns aos outros.

Algo no tom em que ele disse aquilo fazia parecer a Margaret que ele não se referia somente a Família Real Escocesa. Tomando um pouco de vinho, para tomar coragem para perguntar, ela questionou-o:

— Posso estar errada, Alteza…

— Keny — interrompeu-a, corrigindo Margaret amavelmente.

— Keny — repetiu Margaret, sem conseguir evitar o sorriso no rosto. Não podia negar que era um tanto peculiar poder falar tão abertamente assim com o futuro Rei da Escócia. — Como eu ia dizendo, posso estar errada, mas a forma como você falou me deu a entender que não se referia somente a sua família, digo a Família Real Escocesa.

Kendrick endireitou a postura, e Margaret não deixou de notar um brilho no olhar dele quando ele explicou:

— Ah, não, você está certa. Posso já lhe adiantar que vai perceber logo logo que o Quadrângulo é uma grande família, somos muito unidos.

Uma lembrança, quase tão afastada de sua memória, voou à mente de Margaret. Um dia que o Jornal Oficial fez uma reportagem especial onde mostraram fotos dos herdeiros do Quadrângulo brincando juntos, cheios de lama, assim como as princesas todas juntas e gritando com os meninos. A reportagem era antiga, quando os príncipes tinham cerca de uns quatorze anos, mas Margaret ainda mantinha a lembrança de ter visto aquela edição do Jornal Oficial.

Não parecia tão surreal assim serem realmente uma grande família, apesar de não entender completamente como a Família Real Escocesa ou a Alemã poderia gostar de ter vínculos com a Família Real Francesa. Os monarcas franceses deixavam tão claro sua aversão a pessoas de castas baixas que ela não conseguia ver uma imagem da Rainha Amélie, que era uma Sete anteriormente, confraternizando com a Rainha Desirée.

Parecia uma ideia absurda demais.

Mas Margaret não deixou seus pensamentos submergirem para sua face enquanto continuava a jantar na companhia do príncipe escocês.

Ele não era nenhum pouco parecido com os franceses. 

Ao menos esperava que não.

 

—— •⚜• ——

45 minutos antes…

 

A máscara do príncipe refletia o seu brilho dourado, assim como o terno impecável refletia o vermelho e branco.

Desfazendo a reverência, no momento em que o príncipe começa a descer a escadaria, ela reergue-se, a postura elegante se sobressaindo às demais. Ela notava como o príncipe fitava ela e as outras, naquele meio círculo de Selecionadas. O príncipe mantinha o sorriso perfeito no rosto, assim como sua postura confiante, e um toque de sensualidade nos olhos azulados.

O olhar sensual do Príncipe Louis varria as Selecionadas, mas não parecia procurar uma entre elas. Era como se apenas estivesse dando as boas-vindas sem recorrer a uma troca de palavras. Na verdade, parecia já ter escolhido uma entre elas, e agora tentava disfarçar que já havia feito sua escolha.

Ao chegar ao final da escadaria, agora de frente para elas, Rowena deu-se conta que ele já havia escolhido antes mesmo de dar o primeiro passo para descer em direção a elas.

Estendendo o braço, e cochichando algo no ouvido da Selecionada escolhida para a dança, ele dispensou as restantes. Rowena as acompanhou, dirigindo-se discretamente para o lado direito do Grande Salão com mais três garotas, enquanto outras duas se dirigiram para o lado esquerdo, e Cassiopeia — o vestido vermelho sensual tinha sido uma das escolhas mais ousadas entre as Selecionadas, não havia como esquecer que era ela — era levada ao centro do salão pelo Príncipe Louis.

Como havia sido instruída, ela observou a dança dos dois — que fora razoável, considerando uma pisada em falso de Cassiopeia —, e assim que o casal saiu por uma das portas laterais e as palmas cessaram, enfim ela podia se mover livremente pelo Grande Salão. Sem demora começou a se dirigir para a mesa principal, recheada com bebidas chiques e comidas exuberantes.

O percurso foi lento — ser barrada por cerca de cinquenta pessoas diferentes da alta sociedade que tentavam acertar qual Selecionada ela era não ajudou —, mas após vinte minutos ela finalmente conseguiu alcançar a mesa principal.

Após servir-se com um doce de limão, ouviu um trompete irromper o Grande Salão, chamando a atenção de todos. Rowena virou-se, assim como os demais, para o local de onde vinha o som do instrumento, e deparou-se com o mesmo homem franzino que havia anunciado as Selecionadas e os Príncipes no último degrau da grande escadaria, no canto esquerdo.

— Senhores e senhoras, as Famílias Reais do Quadrângulo! — anunciou o homem assim que as portas do topo da escadaria foram reabertas.

A Família Real Inglesa, como era de se esperar, desceu primeiro as escadarias, seguidos pela Família Real Alemã, Escocesa e, por último, a Francesa. Quando todas elas chegavam ao final da escadaria os convidados e as Selecionadas reverenciavam, e depois as princesas e os príncipes não-herdeiros se dispersavam na multidão do Grande Salão, enquanto os reis e rainhas ficavam ali, no aguardo dos demais monarcas.

Depois de certo tempo Rowena entendeu que eles abririam a pista de dança para o público, e não se enganando, quando a Família Real Francesa chegou ao final da escadaria e foram reverenciados, todos os casais de reis e rainhas foram para o centro do salão, dançando com seus cônjuges. Em poucos minutos a pista de dança já estava repleta de outras pessoas dançando as valsas tocadas por uma banda no canto direito do Grande Salão.

Rowena serviu-se com mais um pequeno aperitivo e voltou a observar o baile, que agora havia algumas Selecionadas dançando com outras pessoas, enquanto outras faziam o mesmo que ela; servindo-se com aperitivos deliciosos.

Ela, então, pousou o olhar na porta pela qual o seu príncipe escolhido e Cassiopeia haviam saído,  e, em seguida, compreendeu o motivo dele ter a escolhido. Era tão óbvio que Row ficou incomodada de não ter percebido antes. Evidentemente era por causa do vestido de Cassie.

O príncipe havia escolhido para a noite uma máscara lisa dourada e as vestes com uma camisa formal vermelha-sangue, uma gravata com detalhes de rosas e um terno branco detalhado de prata. E entre as Selecionadas do Príncipe Louis a única que usava um vestido vermelho, que combinasse com as roupas do príncipe, era Cassiopeia.

Um pequeno riso escapou de seus lábios carnudos com a conclusão que tivera, porém foi interrompido quando ela sentiu alguém tropeçar nela e um líquido atingir sua perna esquerda.

— Ah! Meu Deus, desculpe-me, sinto muito mesmo!

Row virou-se, deparando-se com uma Selecionada de máscara prateada com lindas flores brancas decorando-a e um vestido leve de tonalidade creme com uma abertura lateral, deixando a perna direita exposta. Analisou-a por alguns segundos, procurando qualquer vestígio em suas feições de que havia propositalmente jogado a bebida, porém apenas encontrou um leve corar e preocupação genuína no seu rosto.

— Está tudo bem — disse gentilmente Rowena após um tempo, observando a parte em que seu vestido claro estilo sereia estava molhado. — É só água, certo?

— Na verdade acho que é champanhe — disse a Selecionada, visivelmente mais aliviada com a reação de Row. — Sinto muito mesmo, não queria…

— Como eu disse, está tudo bem — interrompeu Row. — É só água, ou nesse caso champanhe.

As duas soltaram uma leve risadinha, analisando o vestido molhado.

— Acho que agora só terei que me retirar um pouco antes do horário — comentou Rowena, tocando na parte molhada do vestido.

— Sinto muito mesmo, não queria…

Rowena ergueu a mão, fazendo com que a Selecionada se calasse com o movimento.

— Por favor, pare — pediu ela. — Sendo bem sincera você me salvou desse baile chatíssimo, só o que me prendia aqui era a comida.

— Não posso negar que a única coisa que me prende a esse baile também é a comida — confessou a garota rindo. — Posso te acompanhar até seu quarto, e então te ajudar com o vestido se quiser.

Rowena concordou com um aceno de cabeça, e as duas começaram a abrir caminho pelo Grande Salão que agora estava lotado com diversas pessoas dançando uma valsa agitada e elegante. Selecionadas dançavam com desconhecidos, desconhecidos estes que pareciam querer ter um tempo com cada uma delas, sabendo que depois poderiam gabar-se de que haviam dançado com as futuras rainhas entre todas as vinte e oito Selecionadas. 

Havia, no entanto, um destaque a mais para a Rainha Davina e o Rei Gregor, que bailavam com excelência, arrancando olhares de muitos dos convidados com a graciosidade e paixão com que se moviam, além da Princesa Jeannie em um canto, sendo puxada para o centro do salão pela Princesa Cameron, que insistia para a princesa francesa que dançassem. Também não passou despercebido de Rowena e da Selecionada que a acompanhava a presença do Trio Brilhante; as princesas Eveline, Beatrix e Scarlett estavam sentadas em um estofado branco-perolado, com taças de champanhe na mão, fitando o Grande Salão e cochichando entre elas.

Quando estavam quase chegando perto da porta de saída ocorreu a Rowena que ela ainda não sabia o nome da Selecionada que a acompanhava, e, não demorando muito mais, perguntou:

— Desculpe, mas qual o seu nome mesmo?

Astra — respondeu ela, observando um garçom passar com uma bandeja com diversos aperitivos. — Você é a Rowena, certo?

— Certo — confirmou Row.

— E você acha que seria muito mal educado pegar uma bandeja desses garçons para levarmos ao seu quarto e comermos juntas, Rowena? — questionou Astra, abrindo um pequeno sorriso malicioso.

— Estava pensando no mesmo, Astra — admitiu Rowena, sorrindo divertidamente.

Sem nem pensar, um instante depois, as duas passaram pela porta de saída, sem antes conseguirem persuadirem juntas um garçom para dar a elas a bandeja com diversos doces e salgados, e, em menos de minutos, as duas conversavam subindo as escadas para o segundo andar, em direção ao quarto de Rowena.

 

—— •⚜• ——

Uma hora antes...

 

As luzes das lanternas flutuantes refletiam na taça de Dakota enquanto ela levava o garfo à boca com uma notável pressa, apesar de querer tentar ser discreta. Benedict não deixava de notar também que a peruca azul-celeste tinha um pequeno brilho que contrastava com o Jardim Oeste, assim como o vestido que ela usava.

Repentinamente ela levantou o olhar frio para ele, e Benedict se sentiu constrangido por estar observando-a.

— Então — pigarreou ele, tentando pensar no que dizer a seguir. — O que achou do jantar? — perguntou Benedict, engolindo em seco.

Sua escolhida meramente fez uma balançar de cabeça positivamente.

— Ótimo — respondeu a garota, e em seguida prosseguiu: — Posso me retirar agora, Vossa Alteza?

Benedict foi pego de surpresa com a pergunta, embora fosse bem evidente desde o momento em que enlaçou seu braço no da Selecionada, para levá-la ao centro do Grande Salão, que ela não estava nem um pouco confortável dele ter a escolhido para o baile. E só piorou quando ela errou um passo e ele teve de improvisar para não ficar tão claro o erro.

O prato dela estava ainda comido pela metade, não chegara nem a bebericar do vinho que ele havia pedido pro servente trazer para eles.

Era notável que ela queria se ver livre da companhia dele.

— Certamente — permitiu Benedict, levantando-se e dando a volta na mesa para ajudá-la a se erguer da cadeira, mas antes que ele chegasse ela já havia se posto de pé. 

Ele hesitou, colocou as mãos nos bolsos da calça elegante bege e ficou grato pela máscara que ainda usava esconder o vermelho de suas bochechas. A Selecionada defronte à ele fez uma pequena reverência e se retirou praticamente correndo, deixando-o em pé plantado no meio do jardim iluminado com lanternas flutuantes.

Ficou ali por alguns minutos, observando até ela passar pelo caminho pelo qual haviam vindo e ficando grato quando a viu subir uma escadaria que não levava para o Grande Salão. Não precisava que mais alguém, além dos serventes — que agora fingiam não estar com vergonha por ele —, saber de seu fracasso com a sua primeira Selecionada com quem tivera contato ali.

Tentou repassar na sua mente se havia feito algo de errado, mas havia agido como um cavaleiro, tinha sido gentil e se desculpou mil vezes por tê-la pego de surpresa com o passo improvisado. Quando ele brincou de tentar adivinhar sua identidade ela fechou a cara e disse na mesma hora que era Dakota. Na hora ele ficou tão constrangido, que apenas fingiu não ter escutado e falou sobre outras coisas. Porém ela apenas balançava a cabeça concordando, às vezes respondendo suas perguntas com um “sim” ou com um “não”, e outras vezes nem isso.

Talvez ela já o odiasse.

Talvez toda a Seleção fosse uma bobagem.

Talvez ele fosse idiota de ter achado que poderia achar alguém entre elas que conseguiria manter uma companhia agrádavel.

Ou, talvez, só ele entre os herdeiros tivera um encontro tão catastrófico.

— Vossa Alteza?

Benedict virou-se rapidamente, encontrando o olhar da equipe de serventes o observando com atenção. Deveriam tê-lo chamado e ele nem escutara.

— Sim, Davidson? — falou Benedict, atento agora ao servente à frente dos demais.

— Podemos retirar a comida e limpar o jardim? — questionou Davidson, levemente receoso.

— Ah, claro. Podem sim. Irei caminhar um pouco pelo jardim, preciso de ar fresco — informou Benedict e logo se pôs a caminhar, sem se importar por onde ia.

Sua mente foi inundada de pensamentos junto da caminhada. Não tinha mais certeza se a Seleção funcionaria para ele, principalmente depois do desastre do seu primeiro encontro. Dakota com toda certeza não queria estar ali, então o que ele deveria fazer?

Mandá-la para casa? Ir atrás dela? Tentar novamente ter uma conversa com ela? Ignorá-la?

Uma parte da sua mente lhe dizia que era nervosismo, que ela só estava nervosa e por isso não tiveram uma boa conversa, por isso ela sempre o cortava quando ele tentava puxar assunto.

Mas e se não fosse isso? E se todas agissem com ele assim?

Tomado pelos devaneios, Benedict continuou sua caminhada noturna pelos jardins, mantendo uma distância segura dos arredores do Grande Salão — de onde ele conseguiu ouvir a música e a conversa mesmo estando afastado.

Cerca de meia hora depois estava decidindo se já não era tempo de ir enfim se preparar para ir dormir quando ouviu um estalo de graveto se partindo. Em alerta ele começou a procurar o criador do barulho, com a mão bem posicionada na sua pulseira dourada de leão, pronto caso fosse um ataque rebelde. 

Foi quando a viu por cima dos arbustos que contornavam a Fonte Angelical.

Estava sentada no banco de frente à fonte, tinha retirado os saltos altos e massageava os pés delicadamente. O vestido rosado detalhado em dourado estava erguido até as coxas, deixando suas pernas à mostra, e a máscara estava pousada ao seu lado no banco.

A face da Selecionada estava posta à luz do luar, e a peruca azul com um lindo laço de uma tonalidade mais escura estava levemente encurvada para a esquerda, alguns fios voando com a brisa refrescante da noite.

Reconheceu-a na hora da foto de inscrição. 

Dahlia Elysée Escamilla Louviere, uma famosa atriz de casta Dois. E sua Selecionada.

Num breve momento, vendo-a ali sob a lua, com a água cristalina da fonte refletindo seu reflexo, Benedict teve o leve impulso de querer ir lá se sentar com ela e conversar. Contar-lhe sobre seus pensamentos. Porém percebeu como ele agiria estranhamente e irresponsavelmente, sem seguir nenhum protocolo do Baile do Primeiro Encontro.

Em menos de dois minutos ele já tinha se retirado dos jardins, entrando em um dos corredores do palácio, decidido que deveria se deitar.

Caminhava cautelosamente, se deparando às vezes com guardas realizando suas rondas, e com criadas andando de um lado para o outro, possivelmente terminando de arrumar os últimos detalhes dos quartos das Selecionadas, que ficavam no segundo andar e terceiro andar. Tomando o rumo para o segundo andar ele se dirigiu para o outro lado, para a escadaria que levava ao terceiro, e enfim ao quarto andar, onde seu quarto e uma banheira estariam à sua espera.

Virando por mais um corredor ele estava pronto para subir as escadas para o terceiro andar quando, pela segunda vez naquela noite, deparou-se com mais uma Selecionada.

A garota estava de costas para ele, embora ele conseguisse visualizar o seu perfil. Ela mantinha o olhar para o horizonte de uma das pequenas sacadas do terceiro andar, parecia estar vidrada em pensamentos, refletindo sobre alguma coisa. Sua concentração era tanta, e ao mesmo tempo de certa forma inspiradora para ele. Então ficou ali, observando-a observar o céu estrelado, o muro que protegia o palácio, e os diversos carros que rodavam as ruas ao longe dele.

Havia algo nela, ou talvez naquela cena, que fazia-o se sentir bem consigo mesmo tendo seus próprios pensamentos a respeito da Seleção e de tudo que a influenciava, pois sentia que ela pensava sobre tudo isso também.

Escorando-se na parede ele notou que não sabia mais quanto tempo estava ali parado, observando a Selecionada de vestido esverdeado com um tule claro por cima, onde os ombros eram cobertos de uma tonalidade de um dourado brilhoso. Ela ainda usava a máscara, assim como a peruca rosa, então ele não saberia dizer quem ela era.

E naquele momento ela virou-se, sobressaltando-se  ao perceber que havia alguém a observando esse tempo todo.

Por um segundo ele pensou em correr dali, mas lembrando-se do fracasso que havia sido seu primeiro encontro não queria dar mais uma má impressão para qualquer uma das Selecionada. Então ele avançou dois passos para perto dela, que continuou parada assustada na varanda, e disse ofegante:

— Perdoe-me! Não queria assustá-la! Só estava indo em direção ao terceiro andar.

Ela o olhou atentamente, e Benedict notou que ela sabia que ele não estava indo ao quarto andar, mas que havia permanecido ali parado a olhando por um certo tempo.

Ao menos ela não sabe há quanto tempo estou parado aqui a observando, pensou Benedict e se sentiu muito mal por seu comportamento imediatamente quando o pensamento lhe invadiu. Aquela atitude era longe de ser cavaleiresca, e muito pouco digna de um príncipe.

Por um minuto, que pareceu se alastrar por uma eternidade, Benedict pensou que ela não falaria nada. Até que ela pareceu notar a sua coroa e imediatamente suas feições angelicais se transformarem com a súbita surpresa. Ela levou as mãos até a saia do vestido e fez uma breve reverência. 

— Perdoe-me, Vossa Alteza — desculpou-se ela, erguendo-se em seguida da excelente reverência.

O príncipe sorriu, relaxando um pouco.

— Não me deve desculpas, minha querida borboleta — respondeu Benedict, e notando um franzir de sobrancelha da garota se apressou a completar: — Por conta da máscara.

E apontou para a máscara da Selecionada, que tinha bonitas borboletas esverdeadas.

— Ah, claro — disse timidamente, levando a ponta dos dedos as pequenas borboletas.

Benedict levou a mão aos cabelos, levemente nervoso de fazer algo errado.

— Desculpe novamente, pela intromissão de observá-la. Sei que não fui um cavaleiro, não gostaria de passar uma impressão errada.

Ela voltou seu olhar para ele, agora abrindo um sorriso.

— Você também não me deve desculpas, Vossa Alteza.

— Receio que devo sim — retorquiu ele, dando uns passos em direção a ela e adentrando na varanda. Benedict ficou agradecido por ela não fazer mais nenhuma objeção a suas desculpas, e muito menos recuar quando se aproximou. — Posso, no entanto, tentar consertar meu erro?

Pousando o corpo no parapeito da varanda, Benedict olhou profundamente nos olhos dela, procurando algum vestígio de desconforto nela, porém surpreendeu-se quando um riso escapou dos lábios rosados da moça e ela apoiou os braços na varanda, observando-o com cuidado.

Ficou satisfeito consigo mesmo naquele momento. Talvez ele pudesse ter um bom encontro ainda naquela noite, mesmo que fosse informal, não oficial, e contra as regras da tradição do baile.

— Claro — concedeu ela.

— Bom, primeiramente gostaria de me apresentar formalmente — Benedict se endireitou rapidamente, e com uma voz aguda imitou o homem que havia anunciado os príncipes e as Selecionadas durante o baile: — Com vocês, Vossa Alteza Real, Príncipe Benedict da Inglaterra.

Em seguida fez uma reverência exagerada, arrancando novamente risos da Selecionada. Ela improvisou rapidamente uma reverência, e apresentou-se logo depois:

— Selecionada-que-não-deve-revelar-sua-identidade, ao seu dispôr, Vossa Alteza.

Dessa vez foi Benedict quem riu.

— Certamente, querida borboleta. Não gostaria que você revelasse sua identidade, é contra as regras, apesar de temer que nosso encontro também seja.

— Acredito, meu príncipe, que não teremos problemas se ninguém nos ver.

— Acredito no mesmo, bela borboleta.

Ela sorriu, e Benedict retribui o sorriso.

— Se não for incomodo, meu príncipe, poderia fazer uma pergunta?

— Claro, pergunte-me.

— Vossa Alteza não deveria estar em seu encontro agora?

— Deveria, mas… — Benedict pensou, tentando encontrar uma definição para seu encontro que não revelasse demais o desastre que havia sido. — Mas a minha escolhida ficou de mal jeito com o pé depois da dança, então se retirou mais cedo.

— Entendo.

O tempo pareceu congelar durante alguns segundos, enquanto os dois se olhavam sorridentes. E foi naquele pequeno instante que Benedict teve esperanças de encontrar alguém de quem gostasse, alguém com quem poderia se casar, entre aquelas sete garotas.

— Então, o que você está achando do palácio até agora? — questionou ele.

Repentinamente ele teve um inesperado sentimento de querer saber mais sobre ela, até de querer saber sua verdadeira identidade, embora nunca fosse perguntar isso à ela. Não queria que ela se sentisse pressionada por ele, e muito menos que quebrassem ainda mais as regras do baile. 

A Selecionada pensou por um tempo antes de responder:

— Acho que é muito cedo para dizer com certeza — ponderou ela, mas acrescentou rapidamente em seguida: — Mas a comida com certeza é maravilhosa, provei uns aperitivos ainda quando estava no baile.

— Nossos cozinheiros realmente são excelentes, gosto de me gabar disso — falou ele, brincando. Então Benedict ficou um tanto sério e pediu: — E as outras Selecionadas? Gosta delas?

A garota arqueou a sobrancelha.

— Não houve briga, se é o que você gostaria de saber. Porém, respondendo realmente sua pergunta, a maioria acredito serem bem amigáveis, gosto delas no geral. Ao menos até agora.

O príncipe balançou a cabeça positivamente, então um questionamento maior veio na sua mente, e antes de pensar a respeito ele o falou em voz alta:

— Porquê você se inscreveu?

Os olhos dela encontraram o seu, e ele imediatamente percebeu que tinha ido longe demais. E, antes que pudesse pedir desculpas novamente — seria a quinta vez naquela noite? —, ela respondeu friamente:

— Isso, Vossa Alteza, não é da sua conta.

Em seguida ela começou a sair da varanda quase correndo.

Pelos céus, aquela era a segunda vez na noite que uma Selecionada saia correndo da presença dele. Não tinha como aquilo ser bom, então ele se pôs a correr ao alcance dela, e com cinco passos a alcançou.

— Espere! — chamou ele, levando instintivamente sua mão a dela, fazendo-a parar e olhá-lo com o mais puro nojo. — Perdoe-me, devo mesmo dizer que fui longe demais e…

Benedict parou de falar abruptamente, ouvindo passos e vozes femininas, e notou o topo de duas perucas coloridas subindo as escadarias para o segundo andar. Ainda não tinham subido o suficiente para o ver ali, o que era uma dádiva. 

Ele não podia ser visto, ainda mais naquela cena, por mais Selecionadas que diriam como o Príncipe da Inglaterra era patético, babaca e tinha ido contra as regras do Baile do Primeiro Encontro.

Sem nem pensar direito no que fazia ele puxou a Selecionada mascarada para perto dele, que resmungou e quase tropeçou no próprio vestido, e a pegando no colo — com gritos agudos de protesto — correu para uma sala secreta que havia ali perto. Assim que chegou perto da parede correta, estendeu a mão e tocou o botão escondido. A parede se dividiu em duas, revelando uma pequena sala redonda, e ele adentrou junto da Selecionada.

A sala fechou-se assim que passaram pela divisa e ele suspirou de alívio, pelo menos não estragaria a sua imagem para mais duas Selecionadas.

— Me solte! — gritou a Selecionada, ainda se contorcendo em seu colo. 

Benedict a colocou no chão com cuidado, e não teve como não notar suas feições agora contraídas de raiva.

— Sei que agora você já não me deve mais nada, mas me desculpe novamente por isso — disse ele, sinceramente arrependido de seu comportamento.

Se ao menos tivesse subido logo as escadarias para o seu quarto em vez de ter parado para contemplá-la…

— Devo dizer, querido príncipe, que nunca esperaria uma atitude dessas — rosnou ela.

— Eu… Eu…

As palavras lhe faltavam, não tinha mais o que dar de desculpas pelo que tinha feito sem ser sincero com aquela garota, mesmo que ele mal a conhecesse. Mas, isso importava? Ela não poderia admitir para ninguém que haviam se encontrado, e ele muito menos poderia. Era contra as regras aquele encontro, e duvidava que alguém acreditaria nela se ela tivesse coragem de comentar sobre o ocorrido. O máximo de risco que poderia correr em ser sincero com ela era ser incompreendido e ser feito de patético novamente.

Tomando coragem, e de olhos fechados, ele explicou:

— A minha escolhida para o baile não machucou o pé, meu encontro hoje só foi péssimo. A Selecionada que escolhi odiou minha companhia, ela nem terminou o jantar direito antes de pedir para se retirar. — Benedict engoliu em seco, decidindo se falaria o que vinha depois disso, pois poderia soar muito infantil para o próximo Rei da Inglaterra. — Quando te vi me senti mais calmo. Senti que era válido me sentir daquele jeito, entende?

Após as palavras do príncipe, o silêncio reinou na sala escura arredondada, e Benedict abriu os olhos lentamente, com medo do que veria na face da Selecionada.

Aos poucos seus olhos se acostumaram com a escuridão e ele conseguiu distingui-la ali, a face ainda escondida pela máscara de borboleta, mas os lábios rosados entreabertos expostos. Lábios extremamente beijáveis.

Beijáveis? Pelos céus o que ele estava pensando? Tinha acabado de confessar seus sentimentos da noite para uma desconhecida, a qual ele havia agarrado e arrastado até aquela sala, e agora estava achando seus lábios beijáveis?

— Entendo — disse ela, tirando-o daquele pensamento. — Entendo perfeitamente.

Benedict procurou algum vestígio de riso no rosto da garota, mas apenas se deparou com a seriedade e compreensão sincera.

Ele abriu a boca para complementar, para explicar melhor, porém sentiu os vestígios de sua gagueira infantil no fundo de sua garganta. Sabia que gaguejaria se falasse. Uma coisa era ser sincero com a moça sobre seus pensamentos da noite, e outra, completamente diferente, era mostrar uma das suas inseguranças perto dela.

Fechou a boca e engoliu em seco, concentrando-se nos vários anos de tratamento com seu fonoaudiólogo, e então falou:

— Sinto muito por ter te pego no colo e ter te arrastado até aqui. Sei que foi péssimo o que fiz, e entendo sua raiva. Quando percebi que haviam mais Selecionadas subindo só tive o impulso de não fazer papel de bobo na frente de mais garotas, e de querer resolver o que lhe fiz.

A garota piscou os olhos, analisando-o com cuidado. Quando sorriu, Benedict ficou aliviado.

— Tudo bem — compreendeu ela, e sorriu mais maliciosamente ao continuar: — Mas como eu estou lhe concedendo um favor de não pagar um papel de bobo na frente de mais Selecionadas você me deve uma.

Benedict sorriu mais abertamente quando ela disse isso. Finalmente um jogo que ele gostaria de jogar.

— E o que será, minha querida borboleta? — pediu o príncipe.

— Eu não direi agora é claro. Pedirei quando souber o que pedir de verdade — respondeu-lhe ela, um brilho travesso atravessando os olhos.

— Mas como você irá me pedir se não pode revelar sua identidade para mim?

— Ora, Vossa Alteza, sei que você é muito inteligente e conseguirá adivinhar minha identidade depois de hoje — explicou ela, pousando as mãos atrás das costas e o olhando bem nos olhos. — Quando finalmente acertar minha identidade não terei problemas em pedir meu favor à você.

— Você está propondo que eu faça uma investigação para descobrir sua identidade?

— Não, meu príncipe — negou ela, balançando a cabeça em negativa. — Estou desafiando-o.

Benedict sentiu um vapor tomar conta de seu corpo. Não tinha nada mais que ele gostasse do que um ótimo desafio. E aquele era um dos melhores.

— Aceito.

Ele estendeu a mão para ela, e em um segundo eles apertavam as mãos, selando o acordo.

— O que acontece, no entanto, se eu não acertar? — perguntou ele subitamente.

— Tenho certeza que Vossa Alteza conseguirá — respondeu-lhe ela. — Mas caso demore mais do que três meses, ou caso eu seja enxotada daqui, te informarei que perdeu o desafio de alguma forma. E se você perder me deverá dois favores.

— Certamente — concordou Benedict, sorrindo de lado.

— Muito bem, agora que estamos de acordo, posso me retirar para meu quarto, meu príncipe? — pediu ela, e ele percebeu que o brilho travesso combinava perfeitamente com a moça.

— Sim, só deixe-me conferir se não há ninguém nos arredores.

O príncipe dirigiu-se até uma parte da parede branca da sala e clicando num pequeno botão um visor surgiu, com a visão do corredor e das escadarias. Confirmando que estava vazio ele clicou em outro botão, abrindo a sala novamente para o corredor limpo.

— Boa noite então, Vossa Alteza — falou ela, reverenciando-o.

— Boa noite, querida borboleta.

Ela sorriu uma última vez até que desapareceu no corredor, deixando-o só. Em minutos o príncipe se retirou da sala secreta e conduziu-se com cautela para o quarto andar, dessa vez sem se deparar com mais nenhuma Selecionada, o que era maravilhoso.

Novamente, sentia-se mais calmo com a perspectiva da Seleção. A moça tinha realmente o fascinado, e além disso tinha o deixado com esperanças de ter alguém ali que fosse de fato uma ótima escolha para se casar, sendo uma ótima e confortável companhia.

E a moça também havia o desafiado, um ótimo desafio e…

Foi quando ocorreu ao príncipe e ele parou abruptamente de subir as escadas. 

Não tinha visto o broche dela. Não tinha visto aquele maldito broche que informava de qual príncipe a Selecionada pertencia. 

Ela poderia ser qualquer uma entre as Selecionadas.

 

—— •⚜• ——

45 minutos antes...

 

Seus pés já estavam doloridos quando tocou a milésima música no baile, e não foi surpresa quando ela finalmente se dirigiu para Madame Charlotte, pedindo se já era permitido se retirar para seus aposentos no palácio. A professora concordou depois da milésima e uma música ressoar pelo Grande Salão, e logo Katerina se pôs a sair do Baile do Primeiro Encontro, satisfeita com a ideia de um bom banho antes de finalmente deitar-se para um ótimo sono.

Porém, o que a Selecionada não esperava era que o palácio parecesse mais com um labirinto do que qualquer outra coisa, e, aos poucos, se arrependeu de ter recusado a oferta de Charlotte de providenciar uns dos guardas para levá-la até seu quarto.

Depois de se dirigir para o quinto corredor seguido, que parecia ser igual a todos os outros que ela já passara, a Selecionada finalmente aceitou o fato de que tinha se perdido.

Katerina sabia muito bem que poderia simplesmente perguntar para algum dos guardas próximos onde ficava a escadaria para o segundo andar, mas seu orgulho se recusava a aceitar pedir ajuda por algo que ela havia sido instruída por Charlotte quando pediu para a professora se podia já ir para seu quarto. Apenas a ideia de virar-se para alguns daqueles homens e mulheres de uniformes e pedir a informação a deixava com raiva de si própria.

Então, quando a garota se virou para o sexto corredor, e se deparou com um espaço sem guardas com apenas dois vasos de chão e uma porta entreaberta, ela sorriu consigo mesma. Embora uma parte racional de seu cérebro a alertasse de que a escadaria, obviamente, não estaria atrás daquela dupla de portas grandiosas, seu orgulho teimava em dizer o contrário, e sua curiosidade a impulsionava a, ao menos, espiar pela fresta para constar se realmente, por algum milagre, a escadaria não estaria ali.

Com passos confiantes, a Selecionada tocou na maçaneta da porta, mas antes que pudesse abri-la por completo uma voz grave invadiu seus ouvidos, fazendo-a permanecer parada.

— Já disse para vocês pararem! — gritou aquela voz masculina, e Katerina não pode deixar de sentir seu corpo ser invadido por um calafrio com a raiva contida na voz. — Parem! Eu não quero mais nada disso!

Katerina esticou o pescoço para a fresta e a visão de uma cozinha gigantesca e refinada foi contemplada por seus olhos, era tão chique que ela não conseguia nem imaginar algo como aquilo antes de realmente ver a Cozinha Real. Seus olhos vagaram pelo local até se depararem com alguns cozinheiros e cozinheiro-chefe à frente dos demais, todos observando alguém que Katerina não conseguia ter visão pela fresta. Os funcionários pareciam acanhados, embora o cozinheiro-chefe tentasse manter a postura mais ereta possível.

— Alteza, perdoe-nos, mas você havia pedido um banquete exuberante, principalmente com sobremesas de morango, Kwame se esforçou muito para os doces em especial — disse o cozinheiro-chefe, apertando, quase imperceptivelmente, um pedaço da manga de sua roupa e indicando com a mão livre um homem de braços grandes e pele negra que Katerina percebeu ser o tal Kwame.

— Não me importo, quero que joguem tudo no lixo — brandou aquela voz masculina furiosa, e Katerina sentiu uma raiva súbita subir por sua garganta pela forma como aquele homem falava com os demais.

Houve um momento de silêncio constrangedor na cozinha que fez com que Katerina pensasse que o cozinheiro-chefe recusaria atender a ordem daquele príncipe mal-educado e grosseiro, porém o homem disse:

— Claro, Vossa Alteza. Como desejar.

A equipe da cozinha fez uma reverência conjunta, e, só quando ela ouviu os passos fortes se aproximarem da porta onde ela estava, Katerina percebeu que deveria desaparecer dali. Rapidamente, e com cuidado para não fazer nenhum barulho, a garota se atirou atrás de um dos vasos de chão com grandes flores azuis, rezando de olhos fechados para que aquele homem de voz furiosa estivesse tão concentrado em sua própria raiva que não reparasse numa Selecionada jogada atrás de um vaso de flor.

Felizmente, sua reza se provou ótima quando ela ouviu o homem passar pisando forte pelo corredor sem parar ou hesitar. Com cautela, a Selecionada abriu os olhos devagar, a tempo de ver o perfil do homem virando pelo bifurcação à sua esquerda. A imagem do dono daquela voz consumiu seus olhos, atingindo-a como um raio.

Os cabelos acastanhados, com os pequenos cachos, e um maldito maxilar definido, sem contar naqueles raivosos olhos azuis cristalinos.

Por um instante Katerina pensou que iria correr atrás dele e o esbofetear, um pensamento claramente não muito bem direcionado a um príncipe. No entanto, a repulsa que sentia por aquele príncipe, agora revelado, tomou conta de Kalie. Queria xingá-lo e chamá-lo de muitas coisas, e nenhuma seria parecida com “Vossa Alteza” ou “Meu querido príncipe”. Não, ela queria gritar com aquele maldito homem nojento e repulsivo por tratar aqueles funcionários de tal maneira.

Levantou-se devagar, tremendo de raiva, quando as diversas manchetes sobre aquele maldito príncipe a atingiram. 

Até então havia ignorado-as, pensando que poderia ser só algo da mídia tendenciosa. Mas, agora, depois de presenciar a grosseria do príncipe pessoalmente, não via motivos para não acreditar nas inúmeras manchetes.

Passado alguns minutos consideráveis, Katerina tomou o mesmo rumo que o príncipe grosseiro havia tomado , não por querer segui-lo ou xingá-lo — apesar do pensamento ser muito delicioso na mente dela no momento —, mas porque tinha quase certeza que ele também estava tomando o rumo para as escadarias.

O gosto amargo do ódio ainda impregnava na sua boca quando a Selecionada encontrou as escadarias, as duas garotas que conversavam distraidamente subindo a alguns degraus à sua frente pareciam distantes naquele momento. Sua mente apenas recapitulava a cena que havia presenciado com alguns flashes das notícias do príncipe canalha sobrepondo a cena.

“Príncipe da Alemanha é visto esbofeteando homem fora de uma casa noturna!”, “Príncipe Hadrian é flagrado bêbado nas ruas de Berlim!”, “Príncipe alemão soca paparazzi!”, e tantas outras manchetes perturbavam a mente da Selecionada.

O pior pensamento atingiu Katerina assim que ela finalmente encontrou seu quarto e fechou a porta.

Ela era Selecionada dele. Veria a cara daquele canalha com muita frequência a partir de agora, e não sabia como não iria acabar socando a cara daquele príncipe metido a besta em algum dia qualquer.

Com uma fúria indomável Katerina se jogou na cama gigante de seu novo quarto, vendo de soslaio suas criadas pela porta do banheiro preparando seu banho. 

No entanto, um pequeno sorriso vingativo se formou nos lábios da garota quando ela pensou em como o príncipe canalha, como aquele maldito Príncipe Hadrian, ficaria perfeito com um belo olho roxo.

 

—— •⚜• ——

 

Apesar de já ter passado da meia-noite o centro do Grande Salão ainda comportava diversas Selecionadas que dançavam com diversos parceiros diferentes enquanto uma música melodiosa e calma ecoava pelo salão e alguns jornalistas fotografavam tudo, seja com câmeras ou com os próprios ouvidos.

Um casal, no entanto, se destacava na pista de dança. Uma Selecionada de peruca curta e encaracolada, de uma tonalidade de roxo e azul nas pontas, dançava acompanhada de uma senhora miúda de cabelos grisalhos e curtos. Se destacavam, porém, não pela dança ser excepcional, mas sim pelo extremo oposto. A Selecionada em questão não conseguia acompanhar o ritmo único da senhora, que esta, em contrapartida, acabava amassando os dedos da mais jovem a cada dois passos da dança.

Tinha aceitado dançar com a senhora somente porque ninguém mais havia concordado, e ela não conseguiu recusar quando a senhora pediu a ela. Agora, Leatrice se deu conta, parecia na verdade que os fujões sabiam que a mulher não dançava nenhum pouco bem. 

Quando aquela maldita música terminou e aquela mulher elegante e desconhecida fez uma pequena reverência com a cabeça para ela, deixando-a livre dela e daquela dança medíocre, a Selecionada não pode deixar de soltar um suspiro de alívio. A senhora sorriu para Leatrice, que retribui com um pequeno sorriso para a senhora tentando ocultar sua careta de dor — seus pés latejavam de dor pelos diversos pisões que sofrera dos pés da mulher.

— Muito obrigada pela dança, querida — agradeceu a mulher, enquanto as duas deixavam o centro do Grande Salão repleto de diversas Selecionadas que se posicionavam para dançar com outros parceiros. — Faz muito tempo que não dançava assim, e faz muito bem para a saúde, sabe?

— Ah sim, acredito que já li isso em algum lugar — mentiu Leatrice, mordendo a parte interna da bochecha, descontando sua dor nos pés.

A senhora avaliou Leatrice por um instante quando pararam lado a lado, agora observando a pista de dança em vez de estarem dançando nela. Um sorriso sutil enrugou as faces da mulher depois de um instante, parecendo relembrar-se de alguma memória antiga.

— Sei que seus pés devem estão doloridos, criança — comentou abruptamente, e quando Leatrice fez menção de negar que ela havia pisoteado seus pés a senhora levantou uma das mãos, pedindo que ela parasse. — Nem tente negar que não pisei nos seus pés, minha cara, sei que sou uma péssima dançarina. Minha Evolet reclama muito sempre que eu a tiro para dançar, ela sabe que eu acabo pisoteando os pés dela.

Leatrice relaxou o corpo com a confissão da mulher, e não deixou de ficar curiosa com a menção de “Minha Evolet”.

— E porquê não a tirou para dançar hoje? — perguntou Leatrice, mantendo o olhar na pista de dança, sem de fato focar seus olhos em algo ou alguém.

— Essa noite ela está muito ocupada — respondeu a senhora elegante. — Mas ela me prometeu me conceder uma dança hoje a noite, e sei que ela vai cumprir de qualquer forma.

— Como você sabe? — questionou Leatrice, sem pensar.

— Ah minha querida, porque perdemos muito tempo antes de finalmente ficarmos juntas — explicou a senhora, e a Selecionada não deixou de notar um brilho melancólico no olhar da senhora. — Se me deixar te dar um conselho, querida, diria para não perder tempo quando encontrar a pessoa que ama. Bobagens, como orgulho, atrapalham muito.

Não tinha como não notar que aquela senhora e sua Evolet haviam passado por muita coisa para estarem juntas agora, e isso deixou Leatrice um pouco desconfortável. O amor, para ela, não era a mais pura leveza como aquela mulher parecia falar, mas sim algo que poderia ferir e, apesar de não conseguir admitir para si mesma, também amedrontá-la. Já havia tido suas próprias experiências com o amor, e nada havia se saído bem.

Antes que pensasse direito Leatrice falou:

— Não acho que o amor seja isso que a senhora diz ser.

A mulher virou-se para ela, arqueando uma sobrancelha.

— E o que eu estou dizendo ser? 

— Como se ele fosse simples e fácil.

— Então você não entendeu absolutamente nada do que eu disse — retorquiu a senhora. — O amor nunca foi e nunca será fácil. Ele é complicado, e não se torna menos complicado depois do “E viveram felizes para sempre”. Na maioria das vezes, o amor está fadado a dar errado.

— Bom, assim a senhora está me dizendo que não há esperanças pelo amor — murmurou Leatrice.

— Não. Assim estou te dizendo que, ao colocar seus sentimentos em uma bandeja, ele pode muitas vezes ser rejeitado até que alguém o aprecie de verdade. Estamos fadados a escolher entre duas opções: ou rejeitar o amor por medo, ou arriscar. E só os que arriscam podem viver o amor de fato.

Leatrice não tentou contradizer a senhora novamente, embora ainda não concordasse com o que a mulher havia dito.

— Lá vem ela — disse a mulher depois de um bom tempo que as duas haviam permanecido em silêncio.

Um sorriso iluminou as faces da mulher, observando sua amada vindo em sua direção. Leatrice procurou a tal Evolet e logo tudo se encaixou quando seus olhos acastanhados pousaram numa senhora que abria caminho entre os demais.

Era a antiga Rainha Evolet, da Alemanha. A mãe do rei e avó do Príncipe Hadrian.

— Prometi uma dança, não foi, Dora? — ironizou a mãe do Rei da Alemanha, assim que chegou bem próxima das duas.

Saindo de seu choque, Leatrice improvisou uma reverência, mas tanto Evolet quanto Dora riram.

— Pare com isso, sua boba — pediu amavelmente Evolet, dando tapinhas no ar. — Não sou mais rainha, ainda bem.

— Perdão, Rainha-mãe — desculpou-se Leatrice, erguendo-se da reverência.

— Ah, não me chame desse título ridículo, odeio ele — reclamou Evolet. — Está tudo bem, só quero levar minha esposa para dançar e levar uns bons pisões nos meus pés por conta dela. Aproveite o restante da noite, querida.

Em seguida as duas se dirigiram para o centro do Grande Salão, nem mesmo esperando que uma nova música começasse, e, por mais que Leatrice tentasse evitar olhar, o magnetismo contido no olhar das duas podia quase ser sentido no ar.

Atordoada com a conversa que tivera com as duas mulheres, que agora dançavam sorrindo e rindo pelo Grande Salão, Leatrice se encaminhou para a varanda. Tinha a sensação que precisava imediatamente de ar fresco.

Conseguindo com sucesso se desviar de todos os convidados que pediram por uma dança, Leatrice finalmente chegou na varanda imensa, e escorou-se no parapeito ao lado das escadas que levavam para os jardins.

Seus pensamentos transbordavam em sua mente, a maioria lembranças das diversas vezes que teve seu coração despedaçado. As imagens a atormentavam, mas era necessário lembrar-se que não estava ali para se apaixonar. Não, ela não estava ali para ser descartada novamente. Estava pelo dinheiro e só, e nada tiraria seu foco de conseguir ficar ali o máximo que pudesse para conseguir o que precisava.

Era só isso, dinheiro e deu. A Seleção não era mais nada para ela além de uma bela oportunidade.

Acalmando-se, a garota pensou em dar uma volta pelo quintal e enfim ir procurar seus aposentos no palácio que sabia ficar no terceiro andar após a caminhada. Caminhou para as escadas, decidida em dar uma olhada nos jardins antes de se deitar, porém ao dar o primeiro passo em direção a descida seu salto ficou preso na parte de trás de seu vestido. 

Tudo ficou em câmera lenta assim que ela perdeu o equilíbrio, encarando os degraus que ela sabia que fariam um belo estrago em seu rosto. No entanto, antes que sua face fosse ferida pela escada, sentiu um braço forte a envolver pela cintura, segurando-a forte e a impedindo de cair. Quando tudo voltou a ficar em seu tempo normal, virou o rosto para ver quem a segurava, e se surpreendeu ao ver aqueles olhos castanhos que faiscavam.

— Você deveria ter mais cuidado, garota tola — xingou a Princesa Beatrix, pondo Leatrice de pé.

Ignorando totalmente todas as aulas de etiqueta que tivera com Charlotte, além de seus próprios escrúpulos, Leatrice não conseguiu conter-se e replicou:

— Não me chame de tola.

A princesa inglesa arqueou a sobrancelha, surpresa com o atrevimento da Selecionada, embora essa fosse a única demonstração de seu descontentamento.

— Já odiou tanto o palácio só nessas primeiras horas para querer ser despachada na primeira noite, querida? — retrucou a princesa, afastando um cacho dos cabelos ruivos que lhe caíam pelo ombro.

Naquele instante Leatrice deu-se conta do que havia feito.  Por Deus, onde estava com a cabeça? Acabara de ofender uma das Princesas do Quadrângulo.

Leatrice abriu a boca para pedir desculpas para a princesa, contudo, a visão daquela mulher à sua frente, com os olhos faiscando, só lhe encheu de raiva. Ela poderia ser o que quisesse, até uma rainha, mas não era ninguém para poder chamá-la de tola.

— Creio eu que isso não está no seu controle, mas sim no poder do meu príncipe, Alteza — respondeu Leatrice.

Um sorriso irrompeu na face da Princesa Beatrix, mas não escapou dos olhos apurados de Leatrice uma rigidez no maxilar da princesa.

— Ah, minha querida, você pode descobrir, muito em breve inclusive, que o Príncipe Kendrick poderia muito bem ouvir alguns conselhos meus — respondeu ela, cravando os olhos no broche de lobo que Leatrice usava, e, poderia ser apenas a sua imaginação, mas aquilo pareceu deixá-la com mais raiva.

— Isso pode até ser verdade. Mas acredito ter um pequeno empecilho no conselho que você daria para o príncipe.

— E qual seria?

— Bom, você não poderia dizer de qual Selecionada se referiria o possível aviso, não é mesmo, Alteza?

Desta vez o sorriso irrompeu no rosto de Leatrice, enquanto o rosto da princesa inglesa parecia contorcer-se de raiva.

— Talvez. Apesar de parecer que você esqueceu-se do pequeno detalhe da minha presença no momento em que lhe deram sua máscara — revidou a princesa, fixando os olhos na máscara azul-clara com detalhes brancos de Leatrice.

— Então, acredito eu, que terei de esperar para ver se Vossa Alteza realmente se lembra do meu rosto antes de estar com a máscara — pontuou Leatrice, não conseguindo esconder desta vez a raiva em sua voz. — Agora, se me permite, estou indo para meu quarto.

Fazendo uma reverência rápida e mal-feita, a Selecionada desceu as escadas antes mesmo que a princesa inglesa pudesse falar mais alguma coisa, e, enquanto pisoteava o gramado dos jardins, uma parte de sua consciência lhe dizia que acabara de cometer a maior burrice da sua vida.

No entanto, a outra parte, ficara maravilhada em enfrentar a Princesa Beatrix e ver sua cara contorcida de raiva.

 

—— •⚜• ——

 

O perfume amadeirado refrescante penetrou nas narinas dela, deixando-a desnorteada e desejando que ele se aproximasse mais, embora conseguisse esconder bem isso de suas feições. Continuava o fitando com a sobrancelha arqueada, desafiando-o.

Ele, em contraponto, mantinha-se confortável com a situação, com uma postura confiante que lhe deixava com um ar de arrogância. Mas — e ela sabia que não tinha ninguém que pudesse discordar disso —, a arrogância combinava perfeitamente com ele. Era seu maior charme, e ela sabia que isso era um dos maiores fatores por ele ter levado tantas garotas para a cama. Ao menos pelo que diziam os boatos.

Com um clique a porta se fechou à direita do casal, trazendo um brilho de satisfação nos olhos dele e deixando-a mais instigada a trazê-lo mais para perto de si.

— E então? — ronronou o príncipe, girando a taça meio-cheia com o líquido rubro na mão. — Eles já foram, estamos a sós, como você desejava, mon amour.

Cassie sorriu sutilmente, sentindo a pressão da parede contra suas costas e grata pela equipe de serviçais terem se retirado.

— Primeiro — começou ela, olhando profundamente nos olhos azuis dele —, preciso de um gole do seu vinho, meu príncipe.

Louis abriu um sorriso afetado de lado, e encostou a taça sob os lábios vermelhos dela, a mão livre apoiada na parede, na parte superior de onde estava escorado o ombro da Selecionada.

— Certamente — concordou o príncipe francês.

Abrindo levemente os lábios, Louis despejou o líquido na boca dela cuidadosamente. Ela tomou dois goles e então ele tirou-lhe a taça, bebericando o restante do vinho tinto.

— E agora? — ronronou ele novamente para Cassie, enquanto, sem nem ao menos tirar os olhos dos dela, pousava a taça na mesa onde antes haviam jantado.

— Agora — Ela umedeceu os lábios lentamente, notando como o príncipe os observava, esperançoso — Você pode me beijar, se quiser, Vossa Alteza.

Um último sorriso surgiu na boca do príncipe, antes de selar sua boca na dela com um beijo.


Notas Finais


⋆,⇢✤ 𝗘𝘅𝗽𝗹𝗶𝗰𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼;
Começando pela escolha mais óbvia: o Louis. Ele basicamente escolheu quem usava vestido vermelho, e eu tinha isso definido fazia muitoooo tempo. Assim sendo, ele escolheu a Cassie, a única que entre as selecionadas do louis que mandou um vestido vermelho.

Já o Kendrick foi por quem dançaria melhor, obviamente. Ele nunca iria deixar na mão do acaso correndo o risco de dançar na frente de todos e ser um desastre. A escolha ficou entre Margaret e Devon dessa forma, ambas com notas "5" na habilidade de dança. Porém, a escolha final foi Margaret, por ela ser professora de dança me pareceu que o Kendrick iria pensar nela primeiro do que Devon.

Benedict, com a sorte que tem, ia escolher o olhar mais aflito e nervoso que tivesse entre as selecionadas. A que eu sabia que teria que ter a habilidade de dança de "1", por isso Dakota.

Já Hadrian não tinha um motivo claro, ele só queria se sentir bem com a companhia de alguém, por isso a Csilla. "Ah mas como ele iria reconhecer ela?". Gente, eles se conhecem desde de crianças, óbvio que ele ia saber quem ela era ali. E como ele estava movido pela curiosidade da presença dela e da saudade foi ela que ele escolheu.

⋆,⇢✤ 𝗚𝗹𝗼𝘀𝘀𝗮́𝗿𝗶𝗼;
⇢ Acgamantium: Metal fictício que foi inventado por mim para a história.
⇢ Cranachan: Sobremesa tradicional da Escócia. Atualmente é feita de uma mistura de nata batida, whisky, mel e framboesas frescas.
⇢ Afefobia: Medo exagerado de ser tocado de qualquer modo.

⋆,⇢✤ 𝗟𝗶𝗻𝗸𝘀;
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