História Inbetween Days (Reddie) - Capítulo 1


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Categorias It: A Coisa
Personagens Edward "Eddie" Kaspbrak, Richard "Richie" Tozier
Tags One-shot, Reddie
Visualizações 69
Palavras 1.706
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fluffy, LGBT, Romance e Novela, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Slash, Yaoi (Gay)
Avisos: Drogas, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Spoilers
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 1 - Go on, just walk away.


O sol forte do meio da tarde esquentava sua cabeça e fazia os óculos escorregarem até a ponta do nariz suado, suas pernas fazendo um maldito esforço para pedalar a bicicleta o mais rápido que conseguiam. A respiração ofegante denunciava que ele vinha fumando mais do que devia, uma vez que parecia realmente ter se esforçado em tomar a posição de Beverly como chaminé dos Losers depois que a Molly Ringwald havia saído da cidade. Depois de tudo o que acontecera no verão anterior dentro daquela casa da Neibolt, e tudo o que vinha acontecendo dentro dele, os cigarros haviam se tornado uma válvula de escape para relaxar a cabeça e a confusão de seus sentimentos. Eddie detestava quando ele jogava fumaça na cara dele de propósito, e Richie teria sorrido com o pensamento se não tivesse precisado frear tão bruscamente ao virar a esquina.

O carro bege de Sonia Kaspbrak parecia tão abarrotado que o porta-malas não queria fechar nem sob a insistência dos dois caras de uniforme laranja que ajudavam a mulher gorducha a enfiar mais uma bolsa grande e florida lá dentro. Richie se recusava a acreditar que aquele caminhão barulhento na frente da casa que se escondia por trás dos altos arbustos na fachada fosse o que ele achava que era. Segurando a bicicleta entre as pernas compridas, retirou os óculos embaçados pelo suor e tentou limpá-los na barra da camisa, voltando a colocá-los no rosto e protegendo os olhos do sol forte para conseguir enxergar melhor. De onde estava, ele não conseguia ouvir muito bem o que a Sra. K dizia aos dois homens com sua voz estridente, embora tivesse certeza de que o olhar que eles trocaram entre si quando ela deu as costas não queria dizer que ela estava sendo exatamente simpática.

Richie viu quando o garoto baixinho desceu as escadas da entrada da casa, cabisbaixo ajeitando a alça da mochila no ombro e arrastando uma mala que parecia pesar mais do que ele mesmo. Ignorando a iminência de ser enxotado dali pela Sra. K, Richie largou a bicicleta no chão, saindo por cima dela e tomando o tropeço que quase o derrubou como impulso para dar uma corrida até o garoto que arrastava os pés pelo gramado.

- Eds! - chamou e o menor imediatamente olhou em sua direção, os olhos castanhos arregalados em surpresa. - Vai viajar, Eduardo? - Richie brincou, soltando uma risadinha sem graça, disfarçando o medo que subia pelo seu peito de que o que seu subconsciente dizia fosse verdade.

Eddie engoliu em seco, seu olhar encontrando o de sua mãe que os observava logo ali com aquela cara vermelha e raivosa.

- Vamos, Eddie, - Sonia bateu na lataria do carro, os dois trabalhadores já haviam subido para a cabine do caminhão.

- Um minuto, mamãe, - o garoto gritou de volta, ao que ela se enfezou e conseguiu gritar ainda mais alto. Mãe e filho começaram a discutir em vozes aceleradas algo que Richie estava desorientado demais para entender, as palavras "despedir", "mudança" e "filho da mãe" voando soltas e sem nexo pelo ar abafado de verão. Eddie voltou batendo os pés, puxando Richie pela camiseta para falarem um pouco mais afastados da mulher que cambaleava para andar, suas pernas reclamando sob seu peso.

- O que tá rolando, Eds? - ajeitou os óculos naquele tique nervoso enquanto o baixinho chutava um pedaço de grama solta com o pé, o rosto baixo evitando encará-lo. - Eds?

- Estamos indo embora, - Eddie falou finalmente, apertando a alça da mochila em seu ombro, num volume tão baixo que Richie precisou se curvar na direção dele, se recusando a acreditar que tinha ouvido direito. - Mamãe diz que Ludlow é muito mais segura, e o mercado imobiliário de lá está em alta, encontrou uma cas-

- Você está se mudando agora? - olhou exasperado em volta, buscando algo que dissesse que aquilo era uma grande pegadinha, que Eddie estava tirando uma com a cara dele, mas só conseguiu enxergar a placa de "VENDE-SE" fincada um pouco atrás de onde o pequeno estava. - Seu filho da puta, não vai se despedir dos seus amigos?! - uma onda de raiva subiu formigando pelos seus braços e ele se sentiu capaz de agredir Eddie por um nanossegundo.

- Fui falar com Bill ontem. Deixei uma carta-

- Uma carta? - Richie empurrou o outro garoto pelo peito, fazendo com que ele desse dois passos para trás pelo impacto e segurasse os pulsos de Richie para equilibrar-se. - Merda, você acha que a gente só merece uma maldita carta? - Eddie não respondeu, o rosto ficando vermelho e os lábios crispados.

- Por favor, Richie, - a voz falhou levemente ao falar o nome do amigo. - Não torne isso mais difícil do que já é.

Richie sentia todo seu corpo trêmulo, os olhos ardiam e um gosto amargo subia pela garganta. Enfrentar A Coisa não tinha sido tão assustador quanto aquele momento Mesmo com os dedos dormentes e esbranquiçados por segurar tão fortemente aquela camisa pólo azul-clara, sentia Eddie escapando por entre eles. Os olhos do pequeno o encaravam vermelhos e marejados, as sobrancelhas erguidas numa expressão de súplica. Richie soltou-o de seu aperto, voltando a arrumar os óculos que caíam mais uma vez.

- Acho que ninguém merece permanecer nesta cidade amaldiçoada, - Eddie tentou se recompor. - Não é seguro para ninguém, - ele continuou argumentando, como se aquela escolha tivesse sido feita por ele, e não por sua mãe controladora que estava obrigando-o àquilo.

E Richie acreditou.

E aquilo conseguiu magoá-lo mais ainda.

A buzina do carro soou alta e esganiçada, assustando-os.

- EDDIE! - Sonia gritou pelo filho, que desviou os olhos rapidamente para ela antes de voltá-los para o mais alto.

- Preciso ir, - Eddie se adiantou, passando por Richie a caminho do carro cujo motor roncava ligado.

Atordoado, com o coração querendo escapar pela boca entreaberta, num gesto impensado Richie buscou a mão do garoto, segurando-o no lugar. Ele não sabia o que pretendia, só queria poder impedi-lo de sair dali, de perto de si. Eddie olhou de suas mãos unidas para o rosto de Richie, esperando que ele dissesse alguma coisa.

E Richie queria ter dito alguma coisa.

'Não vá, eu não vou conseguir sem você.'

'Não vá, você não vê?'

'Não vá, eu… amo você.'

Só que nada disso foi dito.

Richie "Boca-de-Lixo" Tozier estava surpreendentemente sufocado pela falta de palavras.

Mais uma vez.

- A gente se vê… - Eddie pareceu desapontado, baixando os olhos e soltando lentamente suas mãos suadas. - Adeus, Richie, - se afastou, andando de costas, evitando contato visual com o garoto. - Se cuida.

Observando-o sumir dentro do carro que saiu apressado atrás do caminhão de mudança, Richie sentiu o chão ruir entre os dois exatamente como daquela vez na casa da Neibolt, por onde Eddie havia caído e quebrado o braço. Com os ombros curvados sobre si, ele sentia sua visão embaçada pelas lágrimas que ameaçavam cair por trás dos óculos. Sentia suas pernas dormentes ao correr para buscar sua bicicleta caída na esquina, subindo na mesma e começando a pedalar desnorteado pela ruas de Derry.

Ele não enxergava um palmo à sua frente, seguia aquele caminho que já tinha feito inúmeras vezes em sua breve vida de quase quinze anos.

Sentia raiva de Eddie. Por que ele tinha ido embora? E aquele filho da puta ainda iria sem se despedir.

Sentia raiva de Bill, que não o avisou que o amigo iria se mudar.

De Ben, de Mike, que provavelmente também sabiam que Eddie sairia da cidade.

De Bev e de Stan, por terem saído de Derry antes de todos e não estarem ali para ouvir as lamentações dele sobre tudo aquilo.

De si mesmo.

Por não ter dito a Eddie o que sentia, por não ter arriscado tudo de uma vez e tê-lo levado àquela maldita ponte e mostrado as iniciais que ele havia gravado ali.

Richie só se deu conta de onde estava quando chegou à Pedreira, sequer se lembrando de ter largado sua bicicleta em algum lugar pelo caminho de mata fechada por onde ela não passaria. Parado à beira do precipício, sentia seu rosto molhado pelas lágrimas quentes que desciam grossas e salgadas sem intervalo. Sua garganta doía pelos soluços de choro que saíam altos e graças a Deus não havia ninguém por perto para ouvi-los. Com a cabeça zonza e dolorida, andou para trás tomando impulso e correu com suas pernas bambas, pulando do penhasco naquele lago imundo e cheio de bactérias do qual Eddie tanto reclamava.

Seu corpo afundou na água gelada, Richie sentiu a dormência do impacto em seus membros e desejou poder desaparecer ali embaixo. Desejou sumir com aquilo que sentia, com aquilo que era. Desejou poder ser normal, assim como nas tantas noites que havia passado socando o próprio travesseiro, perguntando-se o porquê de não conseguir olhar para as garotas e sentir a mesma coisa que sentia com alguns garotos.

Sentir o que sentia por Eddie.

Richie gritou.

Um grito que não seria ouvido na superfície, um grito abafado debaixo d'água que gerou bolhas subindo pelo seu rosto. Um grito pelo qual ele tentava expulsar tudo aquilo que o corroía por dentro, tentando que, de alguma forma, quando ele voltasse à superfície, o ar não parecesse tão pesado e impossível de chegar aos seus pulmões.

Mas não foi o que aconteceu.

Boiando de barriga para cima, com suas roupas e sapatos ensopados, Richie sentia como se tivesse envelhecido anos desde que acordara naquela manhã. Sentiu que poderia morrer sufocado por aquela tristeza. Bem lá no fundo de seu coração congelado de medo e dor ele sabia.

Sabia que tinha perdido Eddie.

 

E mesmo quando os Otários fossem deixando Derry, um a um; quando ele mesmo desse as costas àquela cidade maldita dali a pouco tempo; quando Pennywise parecesse nada mais um pesadelo de uma infância meio esquecida, Richie ainda se lembraria dele. Uma memória agridoce.

E revê-lo quase trinta anos depois, quando ele acreditasse que tinha superado aquele sentimento, traria tudo de volta à tona e a esperança brotaria em seu coração mais uma vez.

Uma última vez.


Notas Finais


The Cure - Inbetween Days
https://www.youtube.com/watch?v=g-92svJage0
#rendida


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