História Incompleto (Amostra) - Capítulo 1


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Adolescente, Drama, Jovem-adulto, Romance, Young Adult
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Palavras 6.012
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção Adolescente, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Suicídio
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Um


Fanfic / Fanfiction Incompleto (Amostra) - Capítulo 1 - Um

EU GOSTO DO CALOR, gosto do sol. Gosto ainda mais de senti-lo em minha pele, sentir o calor que emana, o calor que me aquece. O sol bate na janela do carro que nos leva para Los Angeles. Eu a abro para sentir o vento, para deixa-lo entrar. Ele golpeia meu rosto e eu respiro fundo. É como se já pudesse sentir o cheiro da maresia e da areia. Coloco um pouco de minha cabeça para fora. Observo o céu perfeito. Apoio meu braço na janela. Eu quero gostar de Los Angeles, quero gostar da Cidade dos Anjos. Quero gostar de minha nova vida.

Olho para meus pais, eles estão calados. Então permaneço calada também. Estou ansiosa para conhecer a praia. Ansiosa para ver tudo. Ansiosa para adorar o que está por vir.

Carros nos ultrapassam, e nós ultrapassamos outros. O caminhão da mudança nos segue fielmente através dos estados. Coloco minha cabeça toda para fora, para vê-los.

— Você com a cabeça assim, parece um cachorro — meu pai, Robert diz, me olhando pelo retrovisor externo. Vejo seu sorriso. Eu sorrio de volta. Meu cabelo balança, e eu preciso voltar para dentro e acabo sentindo fios de cabelo na boca, eu os ajeito. É difícil controlar os cachos.

— Admita, sou uma cadelinha muito bonitinha — me enfio no espaço entre seus bancos. Apoio-me em seus assentos e encaro a avenida a frente.

— Ah, com certeza. Uma vira-lata provavelmente, mas bem bonitinha — ele aperta a ponta de meu nariz e boba como sou, mostro minha língua para ele.

— Falta muito? — Questiono, pelo que deve ser a quinta vez. Me sinto infantil refazendo esta pergunta, porém é difícil conter meus nervos. Meu coração está acelerado, por alguma razão que não compreendo. Deve ser minha ansiedade, mas não posso deixa-la me controlar.

— Trinta minutos — ele diz, se virando para frente e se esticando para pegar a garrafa de água. Deve estar morna e horrível porque a compramos horas atrás. Meu pai bebe tudo.

James está concentrado em dirigir. Ele deve estar cansado, apesar dos dois terem revezado durante a viagem. Eu poderia ajudar... Se eles confiassem em mim como uma boa motorista. Porém mais ninguém acredita nisso além de mim.

Me jogo no banco e me arrasto para perto da janela outra vez, sorrindo, extremamente animada.

No começo, odiei a ideia de me mudar, fiquei com medo, mas passei a encarar como uma chance de mudar tudo. Não só o fato de sair do Oregon, e sim, mudar quem eu sou. Farei isso por mim e principalmente por meus pais. Eles merecem. Depois de tudo o que aconteceu.

Depois de tudo o que eu fiz.

*

Seguro a caixa que tem algumas de minhas coisas e meus objetos decorativos. O pessoal da mudança nos ajudam, levando os móveis maiores para dentro da nova casa. Meus pais passam com caixas também. Todos estão trabalhando sem parar, tentando resolver a mudança o mais rápido possível. Todos estão cansados.

Encaro a casa. Eu havia a visto apenas por fotos, mas meus pais vieram pessoalmente visita-la, e disseram que ficaram apaixonados no exato momento em que a viram em pessoa. Agora, que estou aqui, estou igualmente apaixonada.

As paredes externas são verdes e a porta é laranja, na porta está pendurada um símbolo da paz. Eles a compraram só por isso com certeza, eu dou um sorriso. Há verde por todos os lados. A frente da casa é cercada por matos, há uma pequena trilha para o jardim traseiro e do lado direto há a garagem aberta. Tem dois andares. Nossa rua é uma longa subida e é sem saída. Imagino como não deve ser a vista. Espero que meu quarto tenha uma janela enorme que me mostre toda a beleza de Los Angeles.

— Vamos entrar? — James pergunta, apertando meu ombro, sorrindo. Feliz, o que é uma boa coisa.

— Sim — respondo, o mais contente que posso demonstrar.

Ele me deixa e pega mais caixas.

Eu entro. Ao contrário do lado de fora, as paredes são brancas, e isso é um alívio. O primeiro cômodo é a sala e não há portas ou paredes, da porta de entrada eu já posso ver a cozinha e depois sala de jantar, é como um corredor longo e largo. É bem iluminada, com muita luz natural, temos várias janelas que mostram o jardim da frente e o traseiro. Robert vai adorar cuidar das plantas, ele é fascinado por verde. Outro motivo para eles terem comprado a casa, tudo é bem verde e temos um jardim enorme. E do lado direito fica a escada para o próximo andar.

Abandono minha caixa no chão e me aproximo da janela da sala de jantar, ela é branca e grande. Dá para o jardim traseiro, suspiro diante da imagem. Uma pequena perfeição. Eu poderia escrever uma música para expressar a beleza do pôr do sol. Mas não me alongo, quero arrumar tudo.

Os quartos ficam no andar de cima, junto ao deck.

Há quatro portas. Assim que se sobe a escada, temos duas portas de um lado e uma porta solitária do outro. A porta solitária é a suíte de meus pais. E a porta no fim do corredor, é a porta para sair em direção ao deck. Entro na primeira porta a direita, onde meus pais já haviam me informado que seria meu quarto. A última porta leva para o terceiro quarto da casa, mas ele será transformado em um escritório.

Meu novo quarto é pequeno e verde. Deixo minha caixa no chão e olho em volta. Eu vou deixar isso bonito, pintar essas paredes, apesar do verde não me incomodar, é um verde escuro, mas não é algo queira acordar e ver. Iria me sentir dentro de uma alface.

Coloco as mãos na cintura e analiso tudo a minha volta, se ficar apenas a metade do que meu quarto antigo era, vai ser bom. Meu quarto tem uma janela, mas ela não é direcionada a nada especial, apenas para a casa ao lado. Porém, se eu ficar de lado, consigo pescar um pouco da paisagem. Abro minha janela, ela sobe e eu coloco metade de meu corpo para fora. Me seguro bem, porque sou do tipo desastrada, tenho certeza que poderia cair daqui. Não é tão alto, mas certamente me machucaria.

Por segurança, volto para dentro.

*

São necessárias várias horas para que eu deixe meu quarto quase pronto. Tudo o que consegui fazer foi arrumar minha cama, tirar o essencial da caixa e fazer alguma decoração, mas estou cansada demais para planejar de verdade o que será feito em meu novo quarto. Foram longas horas de viagem. Viajar de carro parece agradável, porém se torna cansativo depois de mais de dez horas dentro dele.

Ainda restam várias coisas fora de ordem, porém deixarei isso para quando eu tiver disposição. Talvez eu nunca faça.

Desço para ver como meus pais estão se saindo. A sala está desmontada ainda, mas sei que em breve verei muitas plantas e quadros feitos por Robert.

— Tudo certo? O que achou do quarto? — James questiona. — Ele é bom, não é?

— Ele é bem... Verde — digo, me aproximando dele.

Precisamos ficar de pé, ainda sem as cadeiras ou mesa.

— Eu adoro verde! — Robert anuncia vindo do lado de fora com uma caixa de pizza na mão e uma sacola com refrigerantes. Ele deve ter pesquisado pizzarias na redondeza.  

Eu e James nos olhamos e reviramos os olhos. Robert deixa a caixa de pizza na bancada e me abraça apertado.

— Eu gostei — continuo, suspirando quando os braços dele me agarram. — Ainda não tive tempo de olhar o deck. Imagine como é, no pôr do sol. Deve ser perfeito.

— Sim! Estou animado, mas do que deveria. Essa casa é linda — Robert diz, puxando James para perto. Meu pai dá um beijo em James na boca e um na minha bochecha.

— Hey, cuidado com a herpes — eu digo, fingindo nojo.

— Você é asquerosa, garota — Robert bagunça meu cabelo. — Bem, vamos comer.

Quando ele tira a tampa da caixa, eu e James não poderíamos esperar algo diferente. Toda vez ele faz isso. Estamos decepcionados, mas não surpresos.

— Pai! — Reclamo, olhando indignada. — Brócolis, de novo? — James fica aborrecido e triste.

— Caramba, Rob, eu fui bem claro quando pedi Pepperoni. Você sempre faz isso — ele fala, pegando um pedaço da pizza verde.

Meu pai joga as mãos no alto, como se estivesse sendo acusado de um crime terrível. E estamos, de fato. — Eu estou preocupado com a saúde de vocês... Sabem quantas calorias...

— Não comece, só não comece... — Jay levanta a mão.

Meu pai fica irritado. — Não me interrompa, senhor Huw. Você sabe...

Então eles começam, as discussões bobas de sempre, e eu sorrio. Eles são doces demais para ficarem realmente bravos com qualquer coisa. Principalmente entre si. Eles falam alto e depois esquecem, se abraçam e trocam palavras sussurradas. Segredinhos de casal.

Eu os amo. Amo o que fizeram por mim. Amo o fato de me amarem tanto que deixaram tudo para trás pelo meu bem. Amo por terem me salvado de um futuro incerto. Eles me resgataram, como anjos. Me resgataram quando fui abandonada, quando fui deixada em um orfanato, quando estava no limite da idade, quando nenhum casal me queria porque já era grande demais. Eles me adotaram quando todos me rejeitaram.

Minha gratidão nunca terá limites e não há nada no mundo que eu não faça por eles. Por seu bem. Já os magoei muito e nunca mais irei ser aquela garota de novo. Se eles mudaram por mim, eu posso facilmente mudar por eles.

— Eu amo vocês — digo, de repente, bem alto para ser ouvida. — De verdade. Com todo meu coração — sinto meus ombros tremerem porque quero chorar. — Sei que pedi desculpa, mas nunca é o suficiente, então direi outra vez: Me desculpe.

Eles param no momento que abro a boca. Me olham com amor. Nunca há raiva em seus olhos, nunca há decepção. Já vi esses mesmos rostos desfigurados pela tristeza, mas nunca julgamento ou ódio. James é o primeiro a me alcançar, ele me abraça forte e Robert corre para se juntar.

— Nós te amamos também, Sidney — James sussurra, se segurando. — Oh, e como amamos.

— Eu sei, eu sei — repito sem parar e sem deixar de abraça-los. — Obrigada. Desculpe.

— Não se desculpe e não agradeça. Não precisa — Robert informa, se afastando primeiro, ele segura meu rosto. — Não há nada no mundo que eu ou James não faríamos pelo seu bem.

*

O domingo é marcado pela arrumação. Passamos o dia inteiro colocando tudo no lugar, todos nós sabemos que demorara para que tudo fique organizado mais uma vez. Não falo apenas da organização da casa, e sim de tudo. O emprego de James e o desemprego de Robert. Eu realmente deveria arrumar um emprego. Ainda mais com o fundo que meus pais têm guardado para minha faculdade, em caso de eu não conseguir uma bolsa integral, sinto que eu deveria ajudar financeiramente. Não utilizar apenas meu cérebro para garantir a faculdade.

Sento em minha cama com o notebook no colo, ligo a vídeo chamada para ver Ana. Havíamos combinado de conversarmos assim que eu chegasse em Los Angeles, mas eu simplesmente estava cansada demais.

Chamo Ana, porém ela não responde. Decido então perder tempo nas futilidades das redes sociais, ao menos é algo a se fazer. Abrindo meu Facebook, tomo um susto e meu estômago embrulha quando vejo as solicitações de amizade. Estou tentada a clicar, a ver como está. Tenho vontade de aceitar, de iniciar uma conversa. Perguntar o que ainda quer comigo.

Mas Deus é bom, Ele sabe o que faz, porque é no meu momento de decisão que Ana me responde.

A tela se expande quando eu aceito e vejo o rosto de minha amiga.

— Siddy! — Ela grita do outro lado. Eu abaixo o volume, Ana não é conhecida por falar baixo. — Como estão as coisas? — Ela ajeita seus cabelos vermelhos. Ela deve ter um dos cabelos mais lindos que vi na minha vida.

— Bagunçadas, você sabe como mudanças são uma loucura. Mas aqui é lindo demais, Ana. Você não faz ideia.

— Faça um tour, por favor.

Aproveito o fim da tarde, o início da noite, para leva-la até o deck. O pôr do sol é a coisa mais linda do mundo. O céu está pintado de laranja, vermelho e amarelo. Ao longe eu vejo o mar. Suspiro só de pensar em visitar a praia. Talvez eu seja convincente o suficiente para que meus pais me levem a um passeio na praia amanhã.

— Meu Deus, isso é tão perfeito — minha câmera está virada para a paisagem que tenho. Sento na cadeira vermelha de madeira. Mal posso esperar para ver o que Robert irá fazer com a decoração de nossa casa.

Tenho certeza que irá deixar tudo perfeito, ao nível Tumblr ou Pinterest, porque é nisso que ele é bom. Ele sabe deixar tudo lindo. Designer de Interiores, é o que faz. Ele se diz clichê porque é um gay que gosta de decoração. Acha que é o mesmo que um gay ser estilista. É simplesmente clichê, Siddy, todos os outros gays já fazem isso. Sabe eu deveria ser motorista ou talvez personal trainer. Não sei, algo que os heterossexuais fazem. O que eles fazem? Faz anos que não finjo ser um deles, não sei nem como se comportam.

— Parece uma pintura — Ana comenta quando viro o notebook para que possamos nos ver novamente. — Apesar de já sentir sua falta, eu estou feliz que esteja aí.

— Poxa, obrigada, Ana — finjo tristeza.

— O que quero dizer, é que isso é para seu bem. Toda a coisa é para você — ela ergue as sobrancelhas tentando convencer.

— Eu sei. Entendi. Estou só brincando. Estamos longe uma da outra há dois dias e já se esqueceu de meu humor. Oh, não. Você não irá me trocar por nenhuma outra garota, vai?

Ela ri e dá de ombros, como se dissesse “não prometo nada”.

— Eu irei stalkear até seus ossos — digo sorrindo.

*

Eu grito. É tudo o que posso fazer. Não me importo se isso irá atrapalhar os vizinhos. Não me importo com o fato de já ser tarde da noite. Não gosto de fazer escândalo, mas isso? Isso precisa de um circo, um show para que Los Angeles inteira seja capaz de ouvir.

— O que quer dizer com “amanhã você começa as aulas”? — Objeto, berrando outra vez.

James revira os olhos para meu tom de voz e comportamento infantil. Robert é mais compreensivo.

— Pensei que ia poder estudar em casa. Quero dizer, estamos no meio do ano do meu último ano! Qual diferença faz ir para a escola. Em seis meses eu irei embora! — Tento me acalmar, mas conforme falo, parece cada vez mais absurdo.

— Sid, querida, eu sei que não é nada propicio a época, porém — Robert ergue um dedo educativo —, é a chance de fazer algumas amizades.

— Amizades em seis meses? Você está brincando? Por que ia querer conhecer alguém se daqui seis meses iremos dar as costas e cada um ir para sua universidade?

— Você terá a chance de conhecer alguém que pode acabar indo para a mesma universidade que você. Pense bem, já iria conhecendo alguém e isso é ótimo — ele continua, tentando ver o lado bom.

Mas não existe lado bom.

— Pois bem — digo, entrelaçando meus dedos —, como vi, estou sofrendo com ditadura dentro de minha própria casa. Portanto, eu irei obedecer suas regras, mas jamais concordarei com as mesmas. Saibam disso. Guardem isso — aponto para minha cabeça. — Porque por mim jamais será esquecido — falo tudo e saio de maneira dramática da sala.

Então é isto.

Aulas logo pela manhã do dia seguinte. Não tive nem mesmo tempo de realizar um breve tour que fosse por Los Angeles. Terei que conciliar isso com a escola e com o emprego que pretendo ter.

Tudo bem, eu penso, vamos ver pelo lado bom... é como meu pai disse, é a chance de fazer amigos.

Afinal, as únicas pessoas que conheço são meus pais e vai ser bom conhecer alguém que já viva em Los Angeles, que me apresente os melhores lugares, os mais interessantes. Que me apresente os costumes.

Tenho que fazer isso funcionar. Não posso desapontar. Não deveria nem mesmo estar reclamando do simples fato de ir para a escola. Quantos milhões de adolescentes não passam pelo o mesmo que eu? E serão apenas seis meses. Nada demais vai acontecer em seis meses. Metade do ano. Aguentar até julho. Moleza.

Vai ser bom.

Me animo no mesmo momento.

Farei ser bom.

*

­Meu celular desperta as sete horas da manhã. Com um toque preguiçoso, o desligo. Meus olhos continuam fechados, estou aquecida demais para ter forças para sair da cama. Mas o faço de qualquer maneira, antes que James venha gritar comigo. Faço qualquer coisa para não ouvir sermão de um deles. Afasto as cobertas com um choramingo baixinho. Porém, o céu está tão lindo que me encorajo a levantar apenas para vê-lo. Minha janela está aberto e um ventinho bate. Olho para fora e respiro profundamente o ar.

Eu consigo.

 

Tomo banho.

Presto muita atenção em minha maquiagem nos pontos estratégicos. Coloco uma camiseta que comprei antes de sair do Oregon, é uma camiseta de fundo branco, com um desenho muito colorido da praia com Califórnia escrito por cima, isso e uma calça jeans e tênis. Me encaro no espelho e me concentro em encontrar qualquer tipo de falha em minha base. Não, está tudo certo, nada de errado aparecendo. Dou um sorriso para me incentivar.

Neste ano, não tive participação na escolha de meus materiais, e por isso meus materiais são simples. Os safadinhos já haviam comprado o material e guardaram segredo o tempo todo. Não irei me queixar por isso, vou aceitar. A mochila é a mesma que venho usando nos últimos dois anos, uma de pano, roxa, lotada de bottons de bandas, séries, filmes e até coisas que nem gosto.

Desço a escada correndo para não perder o café da manhã. Pulo os três últimos degraus e meu peso faz o maior barulho no chão de madeira. Escuto um pequeno grito de James da cozinha. — Vai com calma, sua louca. Não quebre o chão.

Eu chego na cozinha rindo e jogo minha mochila no chão. Dou um beijo na bochecha de James que vira o bacon na frigideira. Ele sorri com o contato. Me sento junto a bancada e jogo meu cabelo para trás. O entusiasmo toma conta de mim, não paro de sorrir por um segundinho sequer. Estou tentando ver tudo por uma ótica diferente, ver o lado bom de tudo. Estamos na Califórnia, na terra de Baywatch e The O.C. Como isso aqui não pode ser bom? Tupac fez uma música sobre a Califórnia. Temos praias incríveis, uma casa linda e eu tenho uma família. Não tenho porque desanimar.

E serão apenas seis meses.

Então tenho poucos meses para aproveitar ao lado de meus pais. E se por acaso conseguir, dos meus futuros amigos. Não sei ainda para qual universidade irei. Não sei se estou disposta a ir tão longe depois de tudo, ao mesmo tempo que, ir para longe, possa ser uma oportunidade de recomeçar sozinha. Mas quero ficar ao lado de meus pais, ser capaz de vir todos os finais de semana, comer a pizza verde de Robert e ouvir piadas sarcásticas de James. Não sei se quero ficar longe de tudo.

Decido por agora, esquecer isso. Na verdade, minha decisão final é tomar decisão nenhuma. Vou aproveitar o agora. Preciso me preocupar com meu primeiro dia de escola e pelo fato de ser praticamente uma intrusa. Entrar no meio do ano é o mesmo que chegar atrasado em um evento importante. Todos te olham e cochicham.

— Sid — James fala, retomando minha atenção —, você está pronta? — Pergunta, colocando o prato na minha frente. Temos ovos, bacon e suco de laranja.

— Estou — coloco toda minha animação para fora e uma boa parte da comida para dentro.

— Você consegue chegar lá sozinha? Ou quer carona? — Ele se senta na minha frente.

— Tudo bem. Eu posso usar o Google Maps. Chegarei lá rapidinho de bicicleta. E não quero que você se atrase em seu primeiro dia de trabalho — digo tudo de boca cheia, sem vergonha alguma, mesmo quando um pouco do ovo cai de minha boca.

— Ok, se você diz — ele começa a comer, mas para. — Sabe, eu meio que estou nervoso pelo emprego novo.

Eu me estico e seguro sua mão. Parece até pálida perto da minha. Espero que Jay pegue alguma cor em Los Angeles. Mas em nossas últimas férias na praia o deixaram apenas vermelho, ao passo que eu e Rob ganhamos lindíssimas cores bronzeadas. Talvez porque somos favorecidos pela pele morena e James não, com sua pele branca. Ainda me lembro de suas pernas vermelhas e para cima do joelho brancas por conta da bermuda.

— Vai dar tudo certo. Eles irão adorar você. Tenho certeza.

— Hm — diz, desacreditado. — Queria ter metade de seu otimismo, Sidney Lancaster — ele aperta meu nariz. — Agora coma porque você não pode se atrasar.

O Lancaster é de Robert. O sobrenome de James é Huw. Isso porque James é japonês. E vamos concordar, Lancaster soa melhor que Huw. Mas eu não me importaria de ter o sobrenome de meus dois pais. Porém, todo o processo de adoção foi longo e complicado. Estou com Jay e Robert há oito anos, eles me adotaram quando tinha dez anos, mas nos conhecemos dois anos antes da adoção ser finalizada. Já é difícil realizar a adoção de uma criança, mas quando se é um casal homossexual que não é casado, tudo piora. A culpa não era deles por não serem casados, a legalização do casamento homossexual foi apenas em 2015. Eles me queriam em 2010. Cinco anos adiantados para que pelos menos o processo ficasse mais fácil. E cada vez mais, eu ia ficando mais velha e ninguém me queria, e se não fossem eles, quem seria? Ainda bem que tudo deu certo. Estou aqui, agora, com eles, e isso foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida.

— Tudo bem. Tchau, pai — dou a volta na bancada para lhe dar um beijo de despedida. — Boa sorte no emprego novo — digo com meu braço enrolado em seus ombros largos. James é grande, forte. Não é de se surpreender que Robert babe por ele.

— Tenha um bom dia, meu anjo — ele deixa um beijo em minha testa e aperta minha bochecha.

Aceno enquanto me afasto dele. Cato minha mochila e saio para o jardim. Minha bicicleta está jogada no chão. Ela é um pouco infantil porque tem um cestinho na frente e tiras roxas no guidão. E bem, meu cestinho tem uma flor vermelha na frente. Mas ignoro isso. Mesmo que já seja adulta. Talvez eu devesse muda-la. Não quero ser motivo de piada. Mas... eu adoro minha bicicleta da maneira que se encontra. Então não há motivo para mudar.

Coloco minha mochila na cesta. Paro para olhar o percurso no Google Maps e deixo meu celular preso na bicicleta para saber por onde devo ir.

Me preparo para descer a ladeira. Por um breve segundo, penso que devo ser cautelosa, que deveria descer com cuidado para não cair e chegar esfolada na escola.

Ou posso simplesmente me divertir.

Dane-se. Vou descer com tudo.

Sorrindo, subo na bicicleta. Avanço com pequenos passos para perto da descida. Procuro qualquer sinal de carro. Nenhum subindo ou descendo. Está cedo, não tem muito movimento. Mordo o lábio. Vai ser uma descida e tanto. Chego no limite e tiro meus pés dos pedais, que giram freneticamente enquanto desço loucamente a rua. O vento parece que irá me engolir, eu grito durante a descida inteira. Meu cabelo voa para trás, vai ser um inferno arruma-lo depois. O que vale é a diversão, é posso garantir que é muito divertido. Enquanto desço, ouço uma mulher gritando “cuidado”. Aperto firme no guidão. Estou chegando ao fim da rua. Ainda estou em uma velocidade muito grande, não posso frear ou serei projetada. Preciso manter por algum tempo. Quando for mais propicio colocarei meus pés no pedal. As casas são vultos para mim. Estou calma, sou ótima pilotando bicicleta.

No momento certo, coloco os pés do pedal e começo a controlar a velocidade da bicicleta. Faço as curvas que o GPS indica, chegando cada vez mais perto da escola. Pedalo rápido demais, fazendo minhas pernas arderem. Eu deveria ir com calma para que não chegue toda suada na escola, mas minha energia precisa ser gasta de alguma maneira. E esta é a única que tenho agora.

Eu chego cinco minutos antes do horário. Ainda preciso passar na secretaria. O GPS afirma que cheguei ao local certo, mas sinceramente, não tem como errar um alvo desse.

Vários estudantes estão entrando ou simplesmente parados nos bancos da frente da escola enquanto o sinal não bate obrigando-os a entrar. Noto alguns olhares que sabem que não sou daqui.

Palisades Charter High School. Minha nova escola. O símbolo da escola é um golfinho. Um golfinho. Eu já amei.

Eu cheguei pelo lado errado, preciso dar a volta para guardar minha bicicleta. Ir para o estacionamento. Desço dela para recuperar o fôlego e caminhar um pouco. Meu corpo reclama, ainda cansado da corrida. O estacionamento é grande e cada vez mais carros e alunos chegam, ônibus amarelos estacionam lotados de estudantes falantes.

Prendo minha bicicleta ao lado de outras. A minha é a mais chamativa, com certeza.

Tento arrumar meu cabelo esvoaçado para parecer apresentável. Já sou nova, não preciso parecer louca — pelo menos não a princípio. Mas vai ser fácil me misturar no meio de cerca de duas mil pessoas. Eu encontro a secretaria sem precisar pedir ajuda. Digo que sou nova, peço meu horário e a mulher da secretaria está animada, me deseja sorte e um bom primeiro dia. Eu agradeço e desejo um bom dia a ela também.

Coloco as duas alças da mochila nas costas e olho em volta, tentando me localizar. Minha primeira aula é matemática. Ótimo, já irei começar o dia tomando um tiro na cara. Se tem algo não entendo, é matemática. Nunca fui boa com números, essa é a verdade. Estou mais para história, biologia, e similares nada que envolva cálculos, apenas textos. Me entendo melhor com palavras. E pessoas. É nisso em que sou boa.

 

Eu acabo chegando atrasada por dois minutos. Bato na porta de madeira duas vezes. Ajeito meu cabelo, acho que é a décima vez, parece-me que ele está sempre desarrumado. Meu cabelo é curto, na verdade, aparenta ser curto, isso porque ele é bem cacheado, preto e volumoso. Uso muitos produtos para controla-lo. Houve tempos em que tentei alisa-los, porém, os preferi mantê-los naturais.

O professor abre a porta com uma careta zangada. Seu cabelo é ruivo e sua pele muito branca. Ele me lembra Ana e de repente sinto muitas saudades de minha amiga.

— Atrasada em seu primeiro dia? — Ele questiona o óbvio.

— Me perdi. Desculpe — aviso, balançando o papel na frente dele.

Ele recua alguns passos e me dá espaço para entrar. E eu o faço o mais confiante que consigo. Meus colegas me encaram, querendo saber quem é a novata.

— Em vista que a senhorita...

— Lancaster, Sidney Lancaster — respondo, olhando para o ruivo.

— Que a senhorita Lancaster — ele continua — chegou atrasada e é nova, deveria se apresentar.

Ele tenta esconder, porém vejo o breve sorriso malvado que tem nos lábios. Ele está achando que me obrigar a me apresentar na frente de meus colegas será humilhante. Mas eu não me importo nem um pouco em falar em público.

— Ótimo — digo, colocando a mochila no chão e então vou para o meio da sala. — Bom dia, amigos! — Bato até mesmo as mãos. — Meu nome é Sidney.

Devo ter falado por uns dois minutos, ganhei aplausos enquanto recolhia minha mochila e pegava um lugar vago na terceira fileira.

O professor não se apresenta, em verdade, passa boa parte da aula me ignorando ou quando me olha, parece irritado. O que é bem engraçado.

O sinal toca indicando o fim da primeira aula, interrompendo o professor que resmunga, ansioso para passar mais matéria.

Levanto junto aos outros. Guardo meu caderno e jogo minhas canetas na bolsa.

Uma garota se aproxima de mim antes que eu saia do lugar. Ela é pequena, branca e gordinha. Parece gentil, e seu cabelo é lindo, loiro nas pontas, castanho acima, longos e ondulados. — Hey, tudo bem? Meu nome é Sloan Montford. Temos essa aula em comum, percebeu? Eu estava bem ali — ela aponta para a frente. — Eu gostei do que fez com professor Lucio. Ele é um arrogante prepotente. Acho bom alguém colocar ele no seu devido lugar.

Ela fala tudo de uma vez. Não por nervoso, percebo que ela parece ser do tipo que fala sem parar e em uma constante sem notar.

— Sidney, certo? Você não é daqui, claro. É de onde? Onde você mora? Ei, vamos, não podemos no atrasar. Qual sua próxima aula, será que temos mais em comum? — Ela começa a andar. Eu a sigo, com um sorriso.

James diz que eu falo demais, mas se ele conhecer Sloan irá perceber que falo pouco.

Ai — Sloan para —, nem deixei você falar! — Ela segura no meu braço carinhosamente e volta a se mover. Nos enfiamos no corredor tumultuado e ela aperta mais meu braço para não me perder. — Qual sua aula agora?

Pego meu papel para saber, preciso decorar, não quero andar com o papel, é muito provável que eu o perca. — Agora tenho Educação Física — franzo a testa.

— Poxa, que pena, vou para Estudos Sociais — rapidamente, olha em volta, bolando um plano. — Façamos assim... na hora do almoço, vá ficar comigo. Ficamos na mesa perto da janela. Se eu te ver antes, aceno. Subo na mesa se for preciso — isso nos provoca risadas. — Tenho que ir. Ou então senhora Ridley irá me caçar. Tchau, Sidney — ela dá as costas e sai correndo.

— Hey, onde é a quadra? — Grito.

Sloan olha por cima dos ombros berrando sua resposta.

*

Sempre gostei de exercícios. Tenho muita energia, sou muito agitada e necessito sempre fazer algo para não me afundar. Então eu gosto desta aula.

A quadra interna é grande e vejo os outros alunos, alguns dando voltas para aquecer, outros nas arquibancadas conversando. Vou até a professora para me apresentar. Seu cabelo é loiro e mal cuidado, me dá uma leve agonia ver os fios quebrados. Ela é simpática, mas parece rigorosa. Ela diz que devo ir jogar vôlei e que tenho que trocar de roupa antes.

Eu faço tudo isso.

Sou a última a ser escolhida no time. Uma garota chamada Gal que me escolhe, ela quer que eu saque primeiro e eu faço. Eu sou boa no vôlei. Junto a meu time do Oregon, ganhei campeonatos. Gostava de ser a capitã, a que escolhia quem participaria de meu time. Mas ainda sou a estranha. Espero que isso mude. Tem que mudar. 

Me saio bem. Recebo alguns olhares surpresos e animados. Quando consigo marcar um ponto, uma garota alta, muito alta, até bate em minhas mãos. Nosso time vence, fico feliz por ser responsável por três dos nossos dez pontos. A capitã do time, Gal, promete me chamar nas próximas vezes no momento de montar o time. Bom, ao menos não ficarei sobrando na Educação Física.

O dia vai passando, e passando, eu reencontro Sloan duas vezes no corredor e temos Álgebra juntas. Ela me faz sentar ao seu lado e me passa bilhetinhos a aula inteira. Sloan se sente uma rebelde porque fica rindo o tempo todo. As mensagens são bobas, são perguntas sobre as aulas e trocamos número de telefone.

Na hora do almoço, eu procuro a mesa perto da janela. Sloan faz como prometeu, ela acena freneticamente e dá pequenos pulos. Seguro mais firme minha bandeja para que possa andar mais rápido.

— Pessoal — Sloan continua de pé e aponta para um espaço ao seu lado, que eu tomo —, essa aqui é a Sidney. Ela é do Oregon. Sidney, o pessoal da mesa é Isla — Isla é a garota alta da Educação Física, ela é morena, como eu, porém mais clara, e agora ela usa óculos —, Calleb — o garoto acena, sua pele é bronzeada e seus cabelos loiros desbotados e longos — e por fim, Franklin — termina com um garoto grande de olhos puxados. Ele me oferece um sorriso.

— Olá, como estão? — Questiono, dando um sorriso. Eu recebo respostas sobre estarem bem e me perguntam como eu estou.

O almoço é tranquilo. Todos conversam, em maior e menor grau. Sloan claramente é a mais ativa, tagarelando sem parar e eu acho que finalmente encontrei uma rival a minha altura no quesito falar demais. Sloan também se expõe muito, ela fala sobre todos seus problemas nos primeiros minutos. Fala sobre seus pais brigando, sobre o possível divórcio, sobre a calcinha dela, sobre a insegurança — os assuntos transitando entre si sem coerência. É engraçado, gosto dela imediatamente. A mais calada é Isla. Os meninos conversam sobre alguma garota e pedem opiniões. Mostram fotos, imploram por dicas. Reclamam das aulas, das provas, dos trabalhos. Me dizem onde são minhas aulas. Eles até mesmo me adicionam no Facebook, me seguem no Instagram e pedem meu número, me adicionam em seus grupos de conversa.

Toda a recepção me deixa feliz, entorpecida de felicidade. Não esperava por tanto calor. Sou boa em fazer amigos, mas isso é realmente o dobro da velocidade que esperava. É bom. Isso é muito bom. E eles parecem serem pessoas muito legais. Sinto que encontrei o grupo certo de pessoas.

Quando as aulas terminam, estou alegre. Minhas mãos estão soltas ao lado meu corpo, balanço meus braços sentindo a alegria passando por meu corpo. Estou no estacionamento da escola. Sloan e Frank vão para um lado, eles vão juntos na moto dele.

— Ei, Sidney — alguém grita atrás de mim. É Calleb. Ele tem um rosto bonito, até. Nada demais. Só agora percebo que seus olhos são castanhos escuros. Ele parece um rato de praia. Totalmente californiano. Quase posso vê-lo com uma prancha de surfe. — Não sei se alguém te contou, mas estamos combinando de ir tomar um sorvete, ir à praia — ele joga seu cabelo para trás. Calleb é agitado, move bem as mãos. — Você quer ir?

— Isso seria incrível. Estou aqui há dois dias e não conheci a praia. O que é quase um pecado.

— Legal, legal — de novo, ajeita o cabelo. Ele é alto, bem maior que eu sou. E eu sou alta... — Vamos ver no que dá — sorri. Seu sorriso é enorme e eu sorrio de volta, sem entender muito bem a última parte.

*

Enquanto faço o caminho de volta, um carro prata passa por mim. É rápido, mas não o suficiente e eu vejoos passageiros. Isla. E ela não está sozinha. Há um homem mais velho. Seria seu pai?

Deve ser. Se eu me lembrar, eu perguntarei.

 

É uma luta subir a ladeira. Descer foi emocionante, subir é deprimente. Mas eu o faço. Deve ter uma maneira mais fácil e menos dolorosa de chegar em casa. Ainda mais porque estou um pouco quebrada do vôlei, e de andar na escola inteira tentando achar as salas, e a procura pelo meu armário.

Apesar dos passos lentos, eu chego em casa, o que parece um sonho se realizando.

Largo minha bicicleta ao lado da porta. Ao abri-la, sou recepcionada por um cheiro maravilhoso de fritura. Mesmo da porta da frente, noto que a casa está mais organizada. Vejo alguns vasos de plantas pendurados, quadros nas paredes, luminárias. Robert ficou ocupado hoje.

— Oi, pai — digo deixando minha chave pendurada ao lado da porta.

— Siddy! Como foi seu dia? — Ele grita da cozinha. Eu vou até ele para evitar mais berros.

As janelas estão abertas, o sol está por aqui ainda. Isso porque ainda é cinco horas. O céu é azul e amarelo. Eu preciso mesmo parar de babar por este céu, mas parece impossível.

Eu conto tudo. E ele fica tão animado quanto eu.


Notas Finais




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