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História Infinite Near Ends - Capítulo 2


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Notas do Autor


hello, mais capítulo de I.N.E para vocês

Capítulo 2 - Capítulo II


     Andei até em casa distraída por Oasis nos fones, eu poderia simplesmente pegar o ônibus como todo mundo, mas ter de lidar com aquele ambiente claustrofóbico e barulhento não me agradava, de toda forma eu não era claustrofóbica, porém se na escola que era um ambiente suficientemente grande eu já me sentia sufocada, a ideia de estar dentro do ônibus,com certeza não era para mim, e as minhas músicas provavelmente não abafariam o barulho mesmo no máximo. 

     Enquanto procurava a chave de casa na bolsa, escutei a buzina do carro de minha mãe logo atrás. Ela se aproximou com o carro e eu escutei Crazy do Aerosmith não muito alto lá dentro, ela adorava aquela música, nas histórias que me contava, foi ao som dessa música que meu pai a conheceu. Era difícil de imaginar eles se conhecendo logo com essa música, já que minha mãe não era do tipo que fazia um homem subir pelas paredes como a música dizia, ela era tão calma que irritava, porém, se eu levasse para o lado da aparência, com certeza qualquer um subiria pelas paredes, ela era tão linda que quando andávamos publicamente era difícil saber se eu me sentia intimidada ou com ciúmes, por quê ela costumava chamar muita atenção e não tinha nenhuma noção disso.

     Ainda eram 15h30, meu horário normal de chegar em casa, era muito cedo para que ela estivesse fora do trabalho, já que o seu horário normal era geralmente às 18 horas.


     — Chegou cedo. — Falei. Me abaixei para olhá-la dentro do carro. — Aconteceu alguma coisa?

     — Não, só uma fugida. Ter que escutar aquele homem falando em meu ouvido o tempo todo cansa. — Disse, sem economizar gestos. — Vamos, entra. Faz muito tempo que a gente não sai. Eu ando tão ocupada agora que as coisas estão indo bem na revista que quase não te dou atenção.

     — Quase não me dá atenção? — Falei. Entrei no carro e joguei minhas coisas no banco de trás. — Você só sabe fazer isso Sra Roberta! 

     — Não é verdade. — Partiu com o carro. — Você não me conta nada.

     — Mãe, não tem nada pra contar. Você deveria se preocupar com sua vida pessoal agora, não acha? — Falei. — Está a tanto tempo sozinha.

     — Eu não estou sozinha, tenho você. — Ela passou a mão em meus cabelos e eu a peguei.

     — Não conta, você sabe que não conta, oras. Que eu saiba, depois do papai você não teve mais ninguém. Fica só trabalhando e trabalhando, quando não está pensando nisso está pensando em mim.

     — Ah, Emma… — Ela foi interrompida pelo seu celular que começou a tocar dentro da bolsa. Ela pediu que eu o pegasse, era seu chefe. — Oh, pelo amor de Deus. Atenda para mim, diga qualquer coisa, não sei. — Falou e obedeci.

     — Sr. Thomas? — Atendi. Ele reconheceu minha voz, pelas tantas vezes que minha mãe já tinha feito eu atender. — As vezes ela precisa de um descanso, não é? — Ele riu. — Ok, tudo bem. Até logo senhor. — Desliguei e respirei fundo, ele era até legal, porém falava demais.

     — Por que você não sai com ele? — Perguntei.

     — O que? — Ela riu e fez careta. — Não! Se eu quase não aguento aquele homem no trabalho, imagine dessa forma.

     — Sei. Mas por que não?

     — Ele é meu chefe Emma, está sempre mandando eu fazer isso ou aquilo, ele até me liga para perguntar qual gravata deve usar ou perguntar se o corte de cabelo está bom, meu Deus o cabelo dele é curtíssimo, nem dá pra perceber alguma mudança. — Ela disse concentrada no caminho. 

     — Você está interessada nele, não está? Mesmo que só um pouquinho. — Ela riu e fez que não. — Ah, admita que ele é um partidão! 

     — Não. Olha, ele é o meu chefe, não daria certo nunca, mesmo que escondido. É como aqueles romances de professores com alunos, uma coisa incerta que se alguém descobrisse acabaria num piscar de olhos. — A olhei séria, não era o tipo de comparação que eu esperava.

     — Ah não, mãe! — O que ela disse me fez lembrar o substituto, e o que eu menos queria era me lembrar dele. — Eu estava ótima até agora. Por que você teve que falar dessa forma? 

     — O que, o que foi? — Disse séria, então sorriu. — Não me diga que você está gostando de um professor? — Fiz que não.

     — No! Claro que não! — Falei. — Mas você me fez lembrar de um cara irritante que chegou hoje na escola.

     — Oh. Você vai me contar sobre ele?

     — Talvez. Você vai me deixar dirigir? — Ela me encarou por um momento com os olhos semicerrados e fez que sim. — Ótimo, então. Só conto quando estiver com as mãos no volante!


     Minha mãe me levou primeiro a uma lanchonete que ela costumava frequentar, depois andamos sem rumo pelo parque mais próximo, onde ficamos por um bom tempo conversando encarando o céu. Foi a primeira vez em muito tempo que saímos juntas, foi divertido e nostálgico, eu sentia falta dela, mesmo que ela estivesse em casa todos os dias algo parecia faltar naquela presença, até esse dia, então eu pude me sentir feliz, consegui perceber que o que faltava não era algo só na presença dela, era na minha também, eram raras as vezes em que fazíamos algo juntas em casa ou em qualquer outro espaço, geralmente eu ficava trancada dentro do quarto lendo ou ela ficava trabalhando, então era difícil manter uma relação realmente saudável entre nós duas como mãe e filha, aquele momento me deixou realmente, completamente, inteiramente feliz.


     — Está ficando tarde, vamos embora. — Ela disse, se levantou e saiu sem me esperar. — Vamos, você ainda tem uma história para me contar.

     — Eu achei que você já tivesse esquecido. — A segui até onde o carro estava estacionado. Fiquei completamente arrependida de ter citado o que tinha acontecido. — Deixa isso pra lá, não é nada. 

     — Pode começar a contar. — Ela falou quando entrei no carro. 

     — Ah, tem certeza? — Ela sorriu e fez que sim. — Ok. Ele é um professor substituto, sabe. — Falei e sai com o carro depois de programar o GPS para a rota de casa. — Ele é irritante, muito irritante. Passou a primeira aula inteira me culpando por não poder dar a aula só porque cheguei atrasada, e nem foi tanta coisa assim. Ele perdeu tempo porque quis.

     — Mas você chegou atrasada, se perdeu de novo? 

     — É mãe, porque mais? — Falei. — Ah, ele também disse que me conhecia, porém eu nunca vi ele.

     — Qual o nome dele? — Ela perguntou.

     — Walk. Não acho que você conheça. Em todo caso, aquele cara é muito estranho.

     — Walk… Jesse ou James?

     — Como assim mãe? — A olhei confusa. — James… O irritante convencido. Ele me perseguiu! 

     — Você está exagerando, Emma. — Ela disse e riu.

     — É. Só um pouco. — Admiti. — Mas ele realmente disse que me conhece.

     — Sim.

     — Sim, o que? — Fiz bico.

     — Ora. Sim, vocês se conhecem.

     — Não! — A encarei. — Você está muito enganada. Eu provavelmente me lembraria de alguém como ele.

     — Ah Emma, vocês eram pequ…


     De repente senti meu corpo ser jogado em direção a janela e um chiado ensurdecedor percorrer minha cabeça. Eu não entendi ao certo o que estava acontecendo, era como se o tempo estivesse parando e ao mesmo tempo passando extremamente rápido, senti algo molhado e viscoso escorrer pelo meu rosto, mas não tive forças para ver o que era, minha visão estava completamente distorcida, nada parecia fazer sentido naquele momento. Forcei minha cabeça se virar para minha mãe, tentei virar o rosto em sua direção o máximo que pude mas não vi nada além de suas pernas cobertas por vidros estilhaçados e mãos ensanguentadas. Juntei mais forças para chamá-la e até mesmo tocar sua mão, mas nenhum ruído sequer passou por minha boca e, por mais que sua mão estivesse próxima eu não conseguia alcançá-la. O desespero tomou conta do meu peito, senti meu coração pulsar cada vez mais rápido, eu precisava ver o rosto dela, mas nem alcançar a sua mão eu conseguia. Minha visão foi ficando cada vez mais turva e sombria, meu corpo pesado, a vida parecia querer me abandonar.

     Mesmo que eu já estivesse acostumada com aquela escuridão em minha cabeça, de alguma forma essa em que me coloquei, me prendeu e sufocou, me fez passar e repassar várias vezes a tarde tarde com minha mãe, eu não podia acreditar tinha nos colocado naquela situação.


     " — Chris, vá lá pra cima, por favor. — Escutei minha mãe falar quando estava prestes de descer para a sala. — Papai e eu precisamos conversar.

     — Mas mamãe, eu quero continuar a–

     — Que droga! Vá logo para o seu quarto Christina. — Meu pai falou alto. Logo depois vi Chris correr escadas acima, em minha direção.

     — Você não precisava ter gritado com ela, seu imbecil. Acha que ela tem culpa de ter um pai como você? — Eu ainda escutava a voz de minha mãe, porém ela parecia brava. Becca que também estava escutando havia levado Christina para o quarto.

     — Roby, não exagera. Aquilo não foi nada demais, só aconteceu uma vez…

     — Mas aconteceu Fillip, aconteceu o que não era para acontecer, nós prometemos um para o outro e você simplesmente acabou com tudo! — Ela gritou. 

     — Eu já te pedi desculpas! Você anda tão ocupada com seu trabalho, e eu fui fraco.

     — Eu sei! Eu sei, mas traição é traição, você me traiu, traiu nossas filhas Fill… a gente… eu não consigo mais continuar assim.

 

     Dias mais tarde


     — Crianças, eu e a mamãe vamos ficar longe um do outro por um tempo, muito tempo na verdade. O papai vai viajar para um lugar um pouco longe daqui. — Eu e minhas irmãs o escutamos falar, nós nunca tínhamos passado por um momento como aquele, geralmente as coisas eram mais agitadas e felizes, mas aquilo está tenso.

     — E eu quero saber se alguma de vocês me acompanharia. — Ele disse e se aproximou de nós, tocando nossas mãos. — Mas vocês terão que ter certeza, porque não vão ver a mamãe por um tempo.

     — Mas saibam que nunca estarão sem mim, eu vou sempre estar pensando em vocês. — Minha mãe se aproximou e abaixou-se ao lado do papai, os dois estavam com  semblantes tristes, mas a mamãe era a única a chorar.


     Seguido por Becca, Christina também decidiu ir com meu pai, as duas decidiram seguir nosso pai para que ele não ficasse sozinho e pelo mesmo motivo eu fiquei com a mamãe. No final em que todos se despediam, meus pais se abraçaram e trocaram aquela três palavras seguidas por um "adeus". Eu entendi naquela hora que apesar do adeus, o amor deles não havia acabado porque, coisas como essas simplesmente não acabam, mas eles estavam cansados e machucados demais para continuar, aquilo com certeza foi o fim, até mesmo para mim."


     Eu tinha pouco mais de 9 anos quando aconteceu deles se separarem, por muito tempo eu tentei ao máximo não me lembrar disso e do porquê de ter acontecido e consegui, cheguei a não mais entender o motivo da separação, se tornou uma memória vazia em minha mente, mas ela tinha retornado sem nenhum esforço.

     Abri meus olhos quando senti algo quente em meu rosto, olhei para a direção da luz e vi uma mulher de branco abrindo as persianas do cômodo em que eu estava.


     — Ah, então realmente existe vida após a morte. — Pensei alto. A mulher se virou para mim surpresa e um pouco assustada, aparentemente. 

     — Graças a Deus. — Foi o que disse. Ela andou até um interfone e informou que eu havia acordado. — Você não morreu. O Dr Mendes já está a caminho.

     — Certo. Você pode me dizer o que aconteceu?

     — Eu não tenho permissão para falar, só os médicos encarregados. — Fiz que sim, então perguntei sobre minha mãe. — Ela está no quarto ao lado, não precisa se preocupar. — Ela disse e a porta se abriu.

     — Bom dia, Hermione Miller? — O médico baixo e moreno me cumprimentou.

     — Sim, é o meu nome. — Falei. 

     — Ótimo. O acidente foi um pouco grave, você bateu a cabeça em duas regiões perigosas, então a possibilidade de você perder algumas funções do cérebro, como armazenamento de memórias era considerada. — Ele disse. Examinou meus olhos e anotou algo enquanto olhava o monitor. — Mas você está bem, se lembra de tudo em sua vida, não é?

     — Ah, sim, eu acho. — Respondi. — Como exatamente aconteceu, isso!? — Perguntei apontando para mim mesma naquela cama.

     — Bom, foi uma batida envolvendo três carros, incluindo o seu, você atravessou o sinal vermelho e acabou se colidindo com uma Van e outro carro de pequeno porte. — Ele disse. 

     — Então a culpa foi minha… como estão as outras pessoas? As que estavam nos outros carros, eu digo.

     — Estão bem, assim como vocês, porém já saíram. A colisão foi direta com seu carro, então o dano foi duas vezes maior pra vocês.

     — E a minha mãe, como ela está?

     — Ela está dormindo agora, mas está bem, inclusive acordou primeiro que você mesmo sendo a mais prejudicada fisicamente.


     O médico disse que ainda teríamos de ficar por mais dois dias, que seríamos medicadas a cada 6h e 8h, também comentou sobre três visitantes e sobre ter informado nossa família. A enfermeira que estava encarregada da medicação me informou sobre o tempo que estive dormindo, dois dias, e quando eu poderia ver a minha mãe, que seria por volta das 17h, horário em que os remédios paravam de agir, e por ele causar uma sonolência um pouco pesada. Cai no sono novamente sob efeito dos remédios, dormir por dois dias não pareceu o suficiente para mim aparentemente, era como se não fizesse diferença tomar os remédios ou não.

     A lembrança da separação de meus pais me trouxe de volta um sentimento de raiva, algo que senti pelo meu pai naquela época, mas eu era nova e influenciável, escutar minha mãe gritar com ele naquele dia fez, provavelmente, o sentimento despertar e voltar depois de tanto tempo. Porém eu ainda sentia falta, aquela foi a última vez que os vi, e depois de algum tempo mantendo contato através de ligações, simplesmente paramos, eu não achei estranho, mesmo já tivéssemos sido uma família, viria a acontecer em algum momento e isso com certeza me ajudou a esquecer mais facilmente.


     Acordei sentindo algo tocar em minha mão, o quarto estava escuro, mas ainda estava dia, um pouco de luz entrava pela persiana. Eu não consegui ver quem estava ao meu lado, apenas sua silhueta que se levantou revelando uma boa altura e ombros largos, ele abriu a persiana da janela, o quarto estava realmente escuro e a claridade repentina me deixou um pouco tonta, quando me acostumei pude ver quem segurava minha mão. Cheguei a pensar que fosse minha mãe ou até mesmo meu pai, nem considerei a possibilidade dele estar aqui, mas ele estava e era estranho, imprevisível, engraçado e me deixou muito surpresa. 


     — O que você está fazendo aqui? — Perguntei. Eu não consegui forçar um tom de raiva ou irritação, apenas o monótono condizia com meu estado.

     — Como você está? — Ele perguntou e voltou a se sentar ao meu lado.

     — Bom, estou aparentemente viva, e você?

     — Eu? — Ele suspirou e sorriu. — Estou feliz e aliviado.

     — Ah, é? — Fez que sim. — Por que?

     — Você faz muitas perguntas.

     — E você não responde nenhuma delas. — Falei. — Como veio parar aqui?

     — Estava nos noticiários, informaram sobre um acidente em uma das avenidas principais, então falaram o nome de sua mãe, o seu, e o de outras cinco pessoas.

     — Isso está nos noticiários? — Ele fez que sim. — Céus. Que merda. Mas porque veio?

     — Te incomoda que eu esteja aqui? — Eu disse que não. Porém era realmente estranho que logo ele fosse me ver. — Mas você parece incomodada. — Ele sorriu. Um sorriso muito bonito inclusive.

     — Não estou. Mas é muito estranho, eu esperava a Ângela ou o Theo, não você. — Falei. Encarei e ignorei totalmente ele brincando com meus dedos.

     — Eles vieram ontem e hoje também, mas você estava dormindo, faz mais ou menos uma hora que foram embora. — Ele disse. Eu continuei ignorando o fato dele estar invadindo a privacidade dos meus dedos.

     — Faz muito tempo que você está aqui? — Perguntei e puxei minha mão, ela estava começando a ficar suada e eu incomodada. 

     — Algumas horas, mas já estou indo. — Ele se levantou e beijou minha testa antes de ir até a porta. Eu não acredito que deixei ele fazer isso, com aqueles lábios, eu bati a cabeça realmente muito forte.

     — Espera, me responda só mais uma coisa. — Pedi. Ele se virou pra mim com uma expressão séria e indecifrável, desde a primeira vez que eu o vi, percebi que identificar qualquer sentimento naquele rosto seria um pouco difícil, até enigmático, às vezes ele parecia neutro demais ou intenso demais, alguém difícil de ler apenas com os olhos.

     — Eu conheço você? — Esperei ele dizer que sim para que eu pudesse confirmar o que minha mãe havia dito, mas ele fez que não e saiu.


     A forma como ele agia com certeza me irritava, às vezes me tratava bem e outras nem tanto, chegava a ser rude, mas acho que dei motivos pra isso, eu o tratei mal, então até que merecia. Enquanto o quarto ainda estava claro olhei em volta e uma prateleira no canto da sala, minha mochila estava lá, fui até ela e encontre meu celular intacto e as chaves de casa, estava tudo lá sem nenhum arranhão. Voltei até a cama com o celular e vi que haviam  algumas ligações e mensagens, todas de ninguém mais que Angela e Theo perguntando se a Hermione Miller do noticiário era eu — Bom, agora sabem. Respondi que sim, confirmando e para mostrar que eu estava acordada, as respostas foram cheias de amor e carinho, como " Você não vai dirigir nunca mais, sua retardada. ", eles me amavam.

     Mais tarde, enfermeira me levou até o quarto onde minha mãe estava e quando eu a vi, senti que tinha se passado muito tempo, como se fosse a primeira vez que a estivesse vendo depois de anos ou coisa do tipo, então eu chorei, chorei porque estava com saudades, medo, e um sentimento de culpa sem limites. Depois de muito chorar, ela me proibiu de dirigir até que eu  tivesse o meu próprio carro, brigou comigo por eu ser muito distraída, mesmo que eu não tenha autonomia sobre isso, ela também comentou sobre velhos amigos que não via a quase 10 anos, coincidentemente o mesmo tempo desde que meu pai se fora, que foram nos visitar, mas eu estava dormindo e James quis esperar até que eu acordasse, mesmo que isso significasse ele ir embora de táxi.


     — Então eu realmente o conheço? — Ela disse sim, mesmo que parecesse não entender. — Mas quando eu perguntei ele disse que não!

     — Isso é uma coisa que vocês dois tem que resolver agora. — Ela disse. — Ah, Sr. Thomas enlouqueceu e quer vir aqui.

     — Sério? — Eu ri com um pouco de malícia.

     — Não faz essa cara, é muito estranho que ele faça isso.

     — Ah, mamãe. O interesse dele está óbvio e a sua animação com isso, você não consegue me esconder. — Falei e me sentei no banco ao lado da cama. — No final das contas, os dois estão iguais.

     — Caso algo realmente venha a acontecer, você não vai se importar?

     — Claro que vou me importar, você é minha mãe, é da sua felicidade que estamos falando. — Eu disse segurando em sua mão e repetindo exatamente o que o substituto tinha feito mais cedo. — Não importa com quem esteja, contando que se sinta bem, eu fico bem.

     — Mas o seu pai, ele…

     — Ele vai continuar sendo meu pai. — Interrompi. — Para de se preocupar e comece a viver de verdade. Em todo caso, a culpa foi do papai de estarmos conversando sobre isso agora, não é?

     — Então você finalmente se lembrou, não é. 

     — É, mais ou menos. Isso é muito estranho, por tanto tempo isso ficou escondido aqui. — Falei. — Eu estou até com um pouco de raiva dele.

     — Não, a culpa foi minha também. Mas acontece, qualquer casal passa por isso uma hora. — Ela disse.


     Eu odiava o fato das pessoas acharem que traição era algo normal que acontecia com todo mundo, mas é claro, muita gente passava por isso, porém não era normal, o fato de haver segundas opções em um relacionamento era algo genuinamente estúpido e inaceitável, não conseguia entender o que levava alguém a fazer isso mesmo estando em um bom compromisso com alguém, como por exemplo, meus pais, duas pessoas que eram visivelmente feitas um para o outro — Que culpa tenho eu em acreditar em almas gêmeas. —  separados por algo estúpido, por uma fraqueza ou carência, qual o sentido? Geralmente quando passamos por algo assim temos de procurar nossos parceiros, não é? — Minha pouca experiência conta com esse ponto de vista. Em todo caso, minha mãe não tinha de se culpar por um erro de meu pai, ela tinha que entender, porém sozinha.

Ficamos deitadas juntas na cama apertada do hospital por um longo tempo, nós apenas olhávamos o teto em silêncio, embora eu quisesse muito perguntá-la sobre o substituto, o que aconteceu e por que eu não me lembrava dele, mas achei que seria melhor falar diretamente com ele. Era como se minhas perguntas só precisassem das respostas dele, o que até fazia sentido já que, ele era o X da questão. Porém ele afirmou que eu não o conhecia e, é, eu não o conhecia, não sabia nada sobre ele, seu nome e aparência não me traziam nenhuma familiaridade, eu também não tinha nenhum vestígio de lembrança sobre ele ou qualquer coisa relacionada, não era como se eu as tivesse bloqueado também, afinal, o que ele teria feito de tão grave, quebrar minha boneca preferida ou rasgar um de meus livros porque ele era um idiota sem cérebro?

     No outro dia, durante a tarde fiquei andando pelo quarto esperando meus amigos chegaram, mas eles pareciam ter me abandonado naquele lugar sozinha e completamente entediada.


     — Ela está acordada! — Me assustei com a voz de Angela, que entrou no quarto sem avisar, seguida por Theo. Eu me mantive ocupada tentando descobrir qual botão do controle da cama eu não deveria apertar, enquanto eles não chegavam.

     — Você está um horror! — Theo disse. — Mas pelo menos tirou a faixa da cabeça.

     — Você não presta. — Falei. Ele e Ângela subiram na cama como dois gatos e ficaram a minha volta. 

     — Eu jurei que, se você estivesse dormindo de novo, eu não voltaria aqui nunca mais, mesmo que isso significasse não receber mais caronas do professor ou ver o médico bonitão do térreo. — Ele disse fazendo cachinhos em meu cabelo, junto a Ange que parecia cansada.

     — E você, passou a noite em claro novamente, não é? — Falei ignorando o comentário de Theo.

     — Tá óbvio, né? — Fiz que sim. — Mas não briga comigo, foi o último capítulo, se eu dormisse iria perder toda a inspiração e tudo que tinha planejado. Valeu a pena!

     — Sei. Mas seu cérebro precisa de descanso pra te dar inspiração, se continuar assim você só vai torrar ele.

     — Foi exatamente o que eu disse pra ela. — Theo falou e recebeu um tapa de Ange.

     — Cala a boca! Você nem me ouviu direito.

     — Certo. Ok, hoje eu vou dormir na sua casa e te ouvir a noite toda! — Ele disse e Ange riu de forma sarcástica e óbvia. 

     — Não. Da última vez você fez uma bagunça, e eu tive que arrumar tudo sozinha. E meus irmãos também não gostam de você, sabemos porquê! — Ange respondeu.

     — Foda-se aqueles escrotos dos seus irmãos, não estou indo para ficar com eles e sim com você. — Ele disse. — Também pouco importa se eles me olharem torto, de toda forma sou eu quem tenho mais pena deles. — Continuou, naturalmente calmo.

     — Estou indo para incomodar você, que culpa tenho se são eles quem ficam irritados. — Continuou.

     — Meu irmãos são patéticos e incrivelmente mentes fechada, eu sinto muito por eles. — Ange sorriu. — Ah, mas de qualquer forma, eu só te aguento na minha casa por algumas horas, ok!?

     — Eu estou de castigo, não posso sair. — Fiz bico.

     — Eu já disse, você nunca mais vai dirigir, é desastrada para qualquer coisa. — Ange disse e Theo conformou.

     — Nunca mais, ok?

     — Minha mãe já me proibiu de qualquer forma! — Falei e eles riram, riram por um bom tempo. Aquilo não era engraçado pra mim, mas muito merecido.

     — Eu escutei uma criança falando… Jesus. — Ange disse e parou de rir. Só ela quem continuou rindo depois de um tempo, ela era do tipo que achava graça de tudo e era a última a parar de rir.

     — Estou entrando. — O substituto se anunciou e fechou a porta atrás de si. 

     — Pensei que não viria. — Falei, ele chegou perto da cama e sorriu.

     — Eu estava aqui ontem, nem deu tempo de você sentir falta. — Revirei os olhos. Não era algo que eu esperava.

     — Vocês parecem muito próximos. — Theo murmurou em meu ouvido, mas eu não dei atenção.

     — Fui ver a sua mãe antes de vir pra cá, ela está muito bem. — Fiz que sim, ele se aproximou mais e afagou minha cabeça. — E você tirou a faixa, que bom.

     — Não me trate como uma criança. — Me afastei. — O que é isso que você tem aí atrás, não tirou as mãos das costas desde que entrou.

     — Ah, isso? — Ele revelou a mão que segurava um buquê pequeno com tulípas vermelhas e amarelas. — Eu trouxe pra você, e também para dar um pouco de vida pra esse quarto, também trouxe para sua mãe, então não se sinta privilegiada. — Ele falou e sorriu. Eu peguei aquele pequeno arranjo sem relutância alguma, mesmo com seu comentário desnecessário. Eram minhas flores favoritas de qualquer forma. 

     — Bom, do mesmo jeito eu agradeço. — Sorri, ele correspondeu.


     Coloquei água em uma jarra vazia que estava na janela e arrumei as flores lá dentro. Eu estava realmente feliz por tê-las ganhado, mesmo que dele, eram especiais pelo significado que tinham, talvez ele nem soubesse que elas tinham um significado quando me entregou, porém não deixavam de ser especiais.

     Ange e Theo ficaram me provocando por longas horas, enquanto o substituto só ficou sentado na poltrona, trabalhando em seu notebook, uma vez ou outra ele comentava algo e eu o mandava calar a boca, ele simplesmente sorria quando eu fazia isso, e era com uma facilidade irritante, era como se ele não se importasse com essa minha atitude infantil, ele não se importava com nada na verdade, e quando veio a se irritar, foi a coisa mais aleatória possível, qualquer um já teria me dado uns cascudos, mas ele não fazia nada.


     — Ok! Hora de ir Ange, ainda temos que ir na sua casa  — Theo se espreguiçou. — Minha bunda está doendo por ficar tanto tempo sentado.

     — Ah, certo. A minha também está. — Ange se levantou e massageou as nádegas. Agora eles sabiam como eu me sentia o dia todo. — Amanhã eu não vou poder vir aqui, meu amor, mas eu te ligo. 

     — Não se preocupem comigo, eu vou ficar bem.

     — Eu posso levar vocês se esperarem um pouco, estou quase terminando. — Disse o substituto, ainda encarando a tela do notebook.

     — Não precisa teacher, a gente vai andando, a casa da Ange é aqui perto.

     — Não é, não. — Falei com estranheza.

     — É sim. Cala a boca. — Ângela falou entredentes e eu entendi o que estava acontecendo.

     — A-há, eu saquei a de vocês, seus idiotas! — Falei e o os dois saíram um empurrando o outro. Podiam ao menos ter acendido a luz. — Hum… eu vou acender a luz pra você. Seus olhos vão acabar derretendo desse jeito.

     — Eu agradeço a preocupação. — Disse ainda sem tirar os olhos do aparelho. Ele parecia estar me ignorando, o que era bem conveniente, vendo que eu estava o mandando calar a boca a todo momento. Me deitei no sofá que ficava em sua frente, separados apenas pela mesa de centro, enquanto ele ainda trabalhava, e encarei as tulipas, olhar para elas contra o céu escuro e nublado não tinha preço.


     — Você realmente gostou delas, não é? — Perguntou. Voltei meu rosto para ele que já tinha guardado todo seu material, mas ainda estava com os óculos de coruja.

     — Lógico! É bem óbvio, né. Mas você não sabe o significado delas, sabe?

     — O que você acha? — Disse, seu corpo estava inclinado para frente, escorado com uma mão no queixo.

     — Ora, como assim o que eu acho? — Falei e me sentei de frente pra ele. — Estou perguntando para você, a resposta é sua.

     — Sim. E o que você acha? — Perguntou novamente com uma sobrancelha arqueada. 

     — Não sei, oras. Agora estou achando que você sabe.

     — Então eu sei! — Ele disse sorrindo, eu ri.

     — Não! — Sorri. — Não é desse jeito. Só me fala.

     — Ok, só estou brincando com você. — Ah, não me diga. Ele se levantou, foi em direção a janela e pegou a flor amarela. — Esta significa…

     — Céus, para de fazer hora. Eu sei que você sabe. — Sorriu.

     — Calma, você está muito apressada! Bom, amarela, ela é basicamente, relacionada à alegria, felicidade, coisa do tipo. Satisfeita? — Fiz que sim e ele colocou a flor de volta no lugar, então pegou a vermelha e sorriu. Ele andou até mim com a flor na mão e se sentou ao meu lado.

     — E esta, — Continuou. — significa amor verdadeiro ou eterno, dá no mesmo. — Disse e me entregou.

     — Não dá no mesmo, são coisas diferentes. 

     — Mas se é verdadeiro, é eterno. — Falou. Vendo por aquele lado, fazia sentido. — Eu soube que, em tempos de guerra, as pessoas enviavam essas flores para aqueles que estavam longe como forma de expressar os sentimentos, a saudade.

     — E mesmo sabendo disso, você as me deu. — Falei encarando a flor.

     — São apenas flores, seus significados não importam. 

     —Tem razão, mas eu gosto de pensar nelas desse jeito.

     — É, eu também. — Concordou.

     — Eu conheço você? 

     — Você já me fez essa pergunta. — Ele disse e se escorou no sofá, me virei para olhá-lo e ele estava de olhos fechados. Pedi que me respondesse. 

     — Não. Não conhece.

     — E você, me conhece mesmo? — Perguntei. Ele abriu os olhos e ficou me encarando também. Ele não tinha expressão nenhuma em seu rosto, mas eu via uma certa frustração começar a surgir.

     — Percebi que não mais.

     — Por que?

     — Porque tudo muda Emma, inclusive as pessoas. Eu fui precipitado em dizer aquilo quando nos vimos, eu estava tão empolgado, foi a primeira vez que você ficou em minha frente depois de muito tempo, mas sequer notou que era eu quem estava em sua frente também. Até agora você parece não entender nada. 

     — E realmente não entendo. Você chegou do nada, disse que me conhecia enquanto até agora eu não tenho ideia de quem seja você. — Falei reafirmando o que ele tinha acabado de dizer, o que me deixou um pouco desconfortável.

     — Exato! — Ele se levantou, pegou a flor de minha mão e a colocou de volta com as outras. — É isso que me deixa mais frustrado. Você não se lembra de absolutamente nada. Eu fiquei por anos pensando em você e como fui babaca por te deixar sozinha no momento em que mais precisava, mas agora, agora eu sou só um estranho que veio para substituir sua velha professora.

     — OK! Você quem foi embora, não é? — Falei ainda sentada, apenas o seguindo com os olhos. — Você quem me deixou sozinha, sei lá porquê, não é? Então, que culpa tenho eu? — Perguntei. Ele parecia estar ficando irritado, e isso era interessante.

     — Como diabos você ainda não entendeu, Hermione? Que droga. 

     — Não entendi o que? Você só está me deixando confusa! — Falei. Eu entendia que a situação não era das mais adequadas, e eu tentei o máximo que pude segurar o riso. Ele estava muito sério, era estranhamente legal ver ele daquele jeito.

     — Você está brincando comigo? — Ele disse. Eu fui até às flores para aliviar a vontade de rir, mas ele veio atrás. — Isso não é engraçado, Emma. Pode não significar nada pra você agora, mas ainda é alguma coisa pra mim. — Falou. 


     Ele segurou meus ombros para que eu olhasse em seus olhos, então eu não pude mais rir, sua expressão não deixava. Era uma sensação forte demais para mim ter aqueles olhos me encarando depois de ouvir tanto.


     — Me desculpe! — Falei ainda suportando seus olhos e mãos sobre mim. — Eu só queria te ver irritado. Sabe, você é sempre tão inatingível e estável, isso me irritava, mas agora é como se toda aquela perfeição absoluta se quebrasse…

     — Eu não acredito. — Ele falou e passou as mãos pelos cabelos. — Perfeição absoluta, Emma, sério?  Brincando desse jeito só pra me deixar com raiva?

     — Raiva é uma palavra um pouco forte.

     — Mas é como estou me sentindo, Emma… está ficando tarde, eu vou indo.

     — Ah, certo então, seu idiota. — Minha irritação tinha começado a surgir também. — Mas me desculpe, ok?

     — Ok. Até logo.


     Logo após ele sair, a enfermeira entrou para me medicar.

     Eu dormi olhando as flores dele, e pensando se elas ainda estariam vivas para eu poder levá-las pra casa, realmente esperava que sim. De qualquer forma, eu não esperava que ele ficasse tão irritado, no começo foi engraçado ver aquele novo lado dele, mas exagerei, aparentemente dei a entender de que não me importava com o que ele falava ou até sentia, quando na verdade era ao contrário, era algo que eu queria saber e entender, porém eu só brinquei. Normalmente eu não faria algo tão estúpido e imaturo, mas que culpa eu tinha se a personalidade dele me intrigava. Eu ainda não sabia o que pensar sobre ele, e o fato dele me conhecer a um tempo me deixava desconfortável, porque ele estava certo, para mim, ele não passava de um substituto que havia despertado muito do meu interesse — Admitir isso não foi fácil. —, isso é tanto culpa dele quanto da minha mãe.

     Assim como disseram, Ange e Theo não apareceram, mas conversamos por mensagens, já o professor não deu nenhum sinal de vida. Eu queria que ele fosse em meu último dia no hospital, mas única presença da qual ele fazia parte era a das tulipas que ele havia trago completamente intactas até aquele momento. A sexta-feira estava quase no fim quando chegamos em casa, sensação de ser acolhida pelo lar encheu meus pulmões e eu senti que podia finalmente respirar mesmo sabendo que a culpa era minha por toda aquela situação louca, eu tinha certeza que minha mãe se sentiu da mesma forma, estávamos juntas, novamente em casa, o nosso lar.


     — Eu não estou cansada, você está? — Fiz que não. — A gente dormiu tanto naquele hospital que não deu tempo de se cansar. 

     — Vamos assistir algum filme? Eu escolho.

     — Certo, mas primeiro, um banho. Eu vou primeiro. Você arruma a sala pra gente dormir lá, caso dê sono. — Disse. Ela subiu escadas acima massageando os ombros e com pressa.


     Arrumei a sala com travesseiros e alguns cobertores, então fui a cozinha para ver o pote de sorvete esquecido no freezer e o coloquei em uma temperatura maior para que descongelasse um pouco. Subi para o meu quarto e tudo estava como eu tinha deixado, é claro, a mesma bagunça, livros, CDs e roupas espalhados das formas mais aleatórias possíveis. Eu tinha que arrumar aquele lugar logo, seria talvez no sábado, ou depois, mais adiante também, que diferença iria fazer. Separei meu pijama de listras roxas para depois do banho e uma calça jeans folgada com a única blusa branca dentro do guarda-roupa para de manhã, se eu não fizesse isso, ficaria, provavelmente, de pijama o dia todo, o que não era uma má ideia. 

     Minha mãe e eu acabamos não assistindo nada, só devoramos o saboroso pote de sorvecâncer e conversamos até tarde. Mamãe teria de ir trabalhar pela manhã, embora tivéssemos acabado de sair do hospital, ela escolheu ir — E contra minha vontade.

     Eu já estava de pé antes do despertador que minha mãe havia colocado para tocar às seis Em toda minha vida eu nunca tinha acordado tão cedo, mas já era de se esperar, eu quase que literalmente, só dormi a semana toda. Olhei o meu estado no espelho do banheiro e reparei que minhas olheiras tinham clareado bastante, mas ainda profundas, meu cabelo estava em seus dias de revolta, ele era minha única vaidade, mas era porque eu não tinha tanta escolha, na verdade era como se meu próprio cabelo mandasse em mim, algo estranho de se pensar, mas era quase isso.

     Depois de uma bom banho, fui para o meu quarto e peguei as roupas que havia separado, logo, procurei por meus cadernos para fazer os deveres da última aula que fui.


     — Morning. Estou entrando. — Minha mãe avisou com três batidinhas na porta. — Você está bem?

     — Sim, dormir cansa. — Riu. Ela se sentou na cama depois de empurrar uma pilha de papéis e livros. — E você, como está?

     — Completamente restaurada. — Sorriu. — Preparei seu café, está no microondas.

     — Vou comer depois que terminar isso. — Apontei para os cadernos.

     — Certo. Agora eu vou trabalhar. Se precisar de alguma coisa, já sabe. — Ela fez gesto de me liga, me deu um beijo na testa e saiu.

     — Depois você me conta sobre o seu chefe no hospital, ok? — Gritei, ela gritou em resposta, Não.


     Um pouco depois de concentrar todos os meus neurônios naquelas atividades, desci para a cozinha e comi o que minha mãe tinha me preparado enquanto assistia a um documentário sobre tubarões, era o tipo de coisa que não teria influência alguma em minha vida, mas era interessante demais para deixar passar.

     Enquanto estava no quarto pensando por onde começar a arrumar, escutei um som estranho vindo da sala, então, como nos filmes de terror, onde as pessoas sabem o perigo que correm, fui ver o que era, percebi que era apenas o telefone antigo que a gente não usava há tempos que estava tocando, aquela coisa estava parada a tanto tempo que achei que não funcionava mais, porém minha mãe insistia em deixá-lo caso precisássemos, e foi como aconteceu.

     Atendi e esperei que quem estivesse do outro lado falasse algo.


     — Não disseram nada. Oi? — Escutei uma voz feminina, mas consegui reconhecer.

     — Quem é? 

     — Ah Emma! Vocês estão em casa, certo. Estamos indo!

     — Espera, mas...— E desligou. Para ter um número tão antigo como esse, deveria ser algum conhecido, e sabiam meu nome.


     Fui me sentar na varanda e esperar seja lá quem fosse a pessoa da ligação. Mamãe e eu nunca recebíamos visitas, já que os únicos dias em que estávamos realmente livres eram os domingos, na verdade o dia livre era apenas da minha mãe, eu quem não tinha paciência para lidar com pessoas em minha casa, tirando todo meu conforto e tempo, eu poderia fazer várias coisas interessantes e legais ao invés de dar atenção aos visitantes, a não ser que os visitantes fossem meus amigos, assim as coisas mudariam um pouco. 

     Fechei meus olhos por um momento, mas acabei pegando no sono na cadeira de balanço acolchoada que minha mãe adorava, sempre que podíamos, nos sentavamos ali apenas para relaxar, era reconfortante.


     — Isso não é um bom lugar para se dormir. — Abri meus olhos surpresa e confusa com a voz que me tirou de meu cochilo. 

     — Mas o que diabos você está fazendo aqui? — Perguntei de forma defensiva e agressiva ao substituto que estava abaixado em minha frente. — Não me diga que aquela voz de moça no telefone era sua? 

     — O que? Não. — Ele riu. É claro que não era, a voz dele era de um grosso suave bonito, não daria para confundir assim.

     — Certo. O que você está fazendo aqui então, trouxe alguma mulher contigo? — Perguntei e olhei por cima de seus ombros depois de me levantar, mas ele estava sozinho.

     — Não, mas se eu trouxesse, você ficaria com ciúmes? — Ele disse com uma sobrancelha arqueada e um sorriso cínico.

     — Por que eu ficaria com ciúmes? — Fiz careta. Ele deu de ombros e puxou meu braço para que eu me sentasse ao seu lado. — Mas eu falei com uma mulher no telefone. — Continuei.

     — Sim, eles já estão vindo. — Me virei para ele e perguntei quem estava vindo, ele sorriu. — É surpresa. Eu sou tipo aquele presente super legal que vem antes da surpresa de verdade.

     — Eu já disse que você é um idiota?

     — Você deveria tratar seu professor com mais respeito. — Ele disse ainda sorrindo, um sorriso irritantemente bonito.

     — Não vamos misturar assuntos da escola com o que acontece aqui fora. — Falei. — Mas é sério, quem está vindo?

     — Eu já disse que é surpresa! Só espera. — Fiz bico. Ele não disse mais nada, e nem eu.


     Eu não esperei muito até começar a escutar vozes no jardim.


     — Olha como esse lugar está, não mudou quase nada. — A voz era familiar e se aproximava. 

     — Eles chegaram. — O substituto disse e se levantou, eu o segui para ver quem era.

     — Não acredito. — Pensei alto. Vi meu pai, Becca e Chris parados no jardim olhando em minha direção, eu apenas acenei. 


     Não entendi porque, mas vendo-os ali, em minha frente, meu corpo começou a formigar e senti um grande nó subir pela minha garganta, como se eu estivesse prestes a chorar como uma criança. O professor ficou ao meu lado e murmurou "Surpresa", e eu o agradeci em silêncio, com apenas um suspiro, ele tinha trago o meu lar.


     — Ei, olhe pra você. — Meu pai me abraçou quando chegou perto, eu devolvi o abraço com força e senti meu pescoço ser espetado por sua barba. — Está tão linda, ah, você me lembra sua mãe quando jovem.

     — Tá bom, pai,  ela parece assustada. — Chris falou, eu ri e a abracei. — Jesus, você está muito alta.

     — Pelos céus! Por que vocês só apareceram agora? — Falei depois de abraçar Becca também, e depois meu pai de novo. 

     — Você não está chorando. — Becca disse. — Eu esperava muitas lágrimas.

     — Sério? Isso foi o mais emotiva que consegui ver dela desde que cheguei. — Me virei para o substituto, eu nem me lembrava da presença dele.

     — Eu realmente achei que você não estava mais aqui.

     — Nossa, isso doeu um pouco. Você foi muito insensível.

     — Ele disse, eu fiz careta. 

     — Vamos entrar, certo? Vamos… — Chamei e todos entraram, exceto o substituto. — O que você está esperando?

     — Eu tenho coisas para fazer agora. — Disse

     — Não tem, não. — Deduzi.

     — Por que você é desse jeito? É realmente engraçado me deixar irritado? — Meu coração doeu ao escutar isso.

     — Eu já te pedi desculpas. — O peguei pelo braço e o puxei até a porta. — Agora vamos entrar. Jesus você é muito dramático. — Resmunguei. Ele estava irritado novamente, mas não era minha intenção deixá-lo daquele jeito.


     Conversamos por bastante tempo, meu pai comentou sobre ter ido ao hospital na noite anterior, mas eu e mamãe já termos saído. Ele havia chegado em New York e ido direto ao hospital, como estava muito tarde, deixou sua sua visita para depois. Exceto pelos fios brancos, ele estava o mesmo, mas engordou um pouco e assim como minha mãe, não tinha construído nenhum relacionamento de longo prazo, porém tinha seus namoricos, diferente dela que só estava começando um possível relacionamento depois de tanto tempo.

     Junto a Chris e Becca eu preparei o almoço, uma quantidade maior do que eu estava acostumada, tudo podia dar errado, enquanto preparavamos tudo, elas me contavam como era viver longe e sem contato comigo e a mamãe, não era muito diferente de nós na verdade, sentimos falta uns dos outros, mas a distância sempre iria causar um certo desconforto na relação, ainda mais sem contato algum como nós ficamos. Também escutamos várias músicas, elas eram completamente aleatórias, assim como eu, porém sempre fui mais chegada aos clássicos. Meu pai ficou na sala conversando com o substituto intruso por um bom tempo até terminarmos.


     — Bom, eu não tenho ideia se isso ficou bom o suficiente, já que fiz com elas, e elas não parecem ter nenhuma experiência na cozinha. — Falei rindo.

     — Você realmente diminuiu nossa capacidade de cozinhar?

     — Ela está certa de qualquer forma. — Becca disse. — O papai não tem tempo para cozinhar então pedir comida é nossa única saída. Mas o cheiro disso está bom, o gosto não deve estar diferente.

     — Então está bom, não é. Vamos comer logo, eu estou com fome. — Papai fez sinal para que eu me sentasse na mesa, foi o que fiz. Olhei para James em minha frente, ele parecia muito concentrado em escolher o que iria comer primeiro, era muito estranho, já que não tinha tanta opção de por onde começar, mas ele começou pelos fritos.

     — Ei. —  O chamei. — Cuidado para não engasgar. — Foi uma provocação, mas a forma como ele começou a comer me fez pensar nisso como uma precaução.

     — Está falando sério? — Fiz que sim, mostrei como sério era. Jesus, ele estava mastigando pelo menos? — Sei. Tome cuidado você também. 

     — Ah, certo. Eu estava me segurando, mas tenho que perguntar. — Chris disse e largou seus talheres. — Vocês estão namorando? — Eu senti a comida travar em minha garganta, comecei a tossir. Meu pai riu. O que a gente tinha feito pra ela pensar daquele jeito?

     — Eu falei pra você tomar cuidado. — O substituto falou e me deu um copo d'água. — Não. Ela me odeia. — Ele respondeu.

     — Obrigada. — Agradeci pela água. — Não, é, a gente não está namorando. E eu não odeio você, de onde tirou isso?

     — Você não sabe esconder. — O olhei confusa. Ele realmente pensava isso sobre mim? Eu não tinha nenhum motivo bom o suficiente para odiá-lo. — Mas não tem problema, ok? — Sorriu.

     — É sério, vocês dois parecem ser um casal. — Fiz que não. O substituto sorriu. — Quando você vai conquistar ela, J? — Becca perguntou. Eu já não estava entendendo o que acontecia ali.

     — Garotas como ela são difíceis, dão muito trabalho. Mas eu sou insistente.

     — Vocês perceberam que eu ainda estou aqui e estou escutando, não é? — Falei. Não era o tipo de reencontro familiar que eu esperava. — E não venha com essa de que é insistente. Não é engraçado.

     — Não era uma piada. — Revirei os olhos. Eu estava prestes a mandá-lo pastar.

     — Calma, esquentadinha. — Meu pai finalmente falou algo. — Eles só estão te provocando.

     — Você está muito enganado Sr Philip, nós estamos falando muito sério. — Continuou Becca. — Até você sabe disso.

     — Como assim? — Afastei o prato. — Olha, até pouco tempo eu nem conhecia esse cara, eu não tenho ideia de quem ele seja. Por que vocês conhecem ele e eu não?  — Fiquei irritada por ser a única ali a não entender nada. 

     — Então você estava falando sério. — Meu pai disse a James.

     — Sim. Isso é muito estranho.

     — Do que vocês estão falando? — Becca perguntou. — Como você não o conhece?

     — Estou satisfeita. Vou subir. — Falei e larguei meu prato quase intocado sobre a mesa. Eu estava irritada, é claro, mas o motivo da minha irritação não era sobre que eles falavam, mas sobre mim, sobre não entender, sobre não me lembrar dele e o porquê disso. Estava tudo misturado.

     — Emma, espera. — Becca me chamou quando já estava prestes a subir para meu quarto, porém não parei, a chamei para subir comigo. Ela era um ano mais velha que eu e cursava design em Kingston, seu gosto pelas coisas eram parecidos com os meus, não parecia que ficamos tanto tempo separadas.

     — Como você não se lembra dele? — Continuou.

     — Não sei, mas de que importa agora. — Falei. — É como o papai e a mamãe, eu não me lembrava do porque deles terem se separado, não fazia ideia. — Abri a porta do quarto e ela ficou um pouco assustada quando viu a bagunça, eu até que entendia.

     — O que aconteceu aqui dentro? 

     — Eu arrumo outro dia…

     — Sei. A mamãe já viu isso? — Fiz que sim. Ela começou a recolher alguns livros e colocá-los nas prateleiras. Menos trabalho pra mim. — Mas, porque você não se lembrava? 

     — Eu não queria lembrar e não lembrei. Então o acidente aconteceu e toda aquela história foi jogada em cima de mim. Um grande balde de água fria. 

     — Eu também queria não lembrar — Ela disse. Ainda estava arrumando meu quarto e perguntando o que podia e o que não podia ser jogado fora, enquanto eu estava só dobrando e desdobrando uma blusa. — Foi difícil lidar com aquilo quando percebi o que estava acontecendo.

     — Eu fiquei com muita raiva dele.

     — É claro que ficou, eu também fiquei. Mas passou, essas coisas passam sem a gente perceber, só que você esqueceu, eu tive de lidar.

     — Foi inesperado. 

     — Mas se você se lembrou disso, é provável que você se lembre do J. 

     — J? Por que J? — Perguntei. Ela infelizmente parou de arrumar minhas coisas e me puxou até a porta.

     — Quando a gente era mais nova, chamávamos ele de Xames. — Ela riu. — É tipo, presunto, em alguma língua. Então ficou só J, pra ficar fácil pra gente. Agora vamos voltar, certo, era pra você ficar feliz e não estressada.


     — Xames, ein… — Falei quando voltamos a cozinha. 

     — Você se esqueceu de tudo menos isso, é sério? — Ele disse soando bravo.

     — Ah, você está muito irritadinho desde aquele dia, fica de boa. — Falei me referindo ao dia no hospital.

     — Aquelas flores no seu quarto são as dele? — Becca perguntou, a olhei com os olhos semicerrados. Ela não precisava ter citado isso.

     — Elas ainda estão vivas? — Fiz que sim.

     — Claro, estão sendo bem cuidadas. — Respondi.

     — Fez isso pra me agradar? — Ele sorriu, fiz careta. Era o cara mais estranho que eu já tinha conhecido.


     Mesmo sem mais vontade de comer, eu fiquei na mesa conversando e escutando meu pai elogiar a comida, me dar sermões por dirigir de forma desatenta e fazer piadas sem graça. Quando todos terminaram, arrumamos tudo e fomos para a sala assistir, eu e o substituto queríamos com todas as nossas forças assistir a Orgulho e Preconceito, porém meu pai e irmãs optaram por Procurando Nemo e depois Dory, nós acabamos assistindo o que a animação, já que era a escolha da maioria. No final de Procurando Dory, meu pai resolveu ir embora, ele disse que tinha de resolver coisas só trabalho e minhas irmãs estudarem para repor as faltas que teriam.


     — Ah. E você ainda está aqui. — Me virei para o professor depois de acenar para minha família até o braço doer.

     — Estou. Ainda quero assistir ao filme. 

     — Mas a gente já assistiu dois filmes.

     — E daí? Você também quer assistir, não é? — Suspirei. Eu já tinha assistido aquele filme tantas vezes que até às falas do Wickham, que eu tanto odiava, decorei.

     — Eu não acredito que vou dizer isso, mas, ok! Vamos assistir mais um filme! — Ele riu e coçou a cabeça. A situação se tornaria extremamente vergonhosa.

     — Vamos entrar, então? — Ele disse. Percebi que ainda estava o encarando. Eu já estava fora fora de mim. Não era nada comum eu ficar sozinha dentro de casa com meu sexo oposto, com exceção de Theo, e ainda irmos assistir ao meu filme preferido.

     — Certo! — Entrei com pressa e ele me seguiu. — Quer beber alguma coisa, eu posso preparar pra você. — Jesus, eu me ofereci para preparar coisas pra ele, o que diabos é isso?

     — Não se preocupe, eu já comi demais hoje. — Falou e se sentou no sofá como se estivesse em sua própria casa. Não gostei daquilo.

     — Ei. Onde você pensa que está?

     — Para de ser chata e coloca logo o filme. — Coloquei o filme para rodar, mas não porque ele pediu, então me sentei ao seu lado. — Está nervosa? — Ele murmurou perto do meu ouvido. A voz dele me fez arrepiar.

     — Eu deveria? — Perguntei, ele riu. É, talvez eu devesse. 


     Ficamos por duas horas debatendo sobre o filme enquanto ele ainda passava. ele dizia sobre a Elizabeth ser preconceituosa, por estar sempre caçoando e tirando conclusões precipitadas sobre o Darcy, que era o orgulhoso por não aceitar e reprimir os sentimentos que tinha despertado por ela desde a primeira vez que a vira. Eu obviamente concordei com tudo, ele estava mais que certo, porém eu não queria que o beijo acontecesse, mas ele achou o momento perfeito para aquilo, com a justificativa, 'Você por acaso vai passar a vida toda sem beijar quem ama?',  eu ri bastante daquilo. O filme acabou e nós continuamos no sofá, escorados um no outro, a gente mudou de posição pelo menos umas quatro vezes. 


     — Eu continuo achando que não deveria ter um beijo.

     — Mas Emma, aquele beijo no final foi perfeito, a demonstração de afeto no toque dos lábios, a beleza do sentimento. — Justificou novamente.

     — Eu sei, mas beleza daquilo tudo viria a acabar, sabe? No filme, a imagem foi muito romantizada. — Falei. — Prefiro o livro.

     — A questão ali é, o sentimento demonstrado pelo beijo, e não o beijo em si, aquilo é só um ato carnal, Emma, pense no sentimento. — Enfatizou, fiz bico. Eu já tinha entendido a muito tempo.

     — Eu sei. — Falei. Eu estava escorada em seu braço e ombro, a posição estava confortável demais para pra eu mudar. — Meus pais não se beijaram quando se separaram, mas o sentimento o amor deles nunca acabou.

     — Essas coisas não acabam, mesmo que percamos suas raízes de vista.

     — É. Por isso que nunca temos um só amor, são todos para sempre, para nossas vidas. — Falei. — A expressão, "da vida" nunca me agradou.

     — É muito limitada, não é? — Fiz que sim. — Você já amou alguém assim? — Me virei para ele e ri, ele continuou sério.

     — Isso é muito íntimo! — Falei. Fui até a cozinha em busca de água, ele me seguiu. — Mas não, ainda não me sinto boa o suficiente para amar alguém, também não é algo com que eu me sinta à vontade, eu não me lembro de ter passado para um estágio tão avançado como esse, na verdade. E você?

     — Eu? — O olhei escorado na bancada, havia tirado o moletom bege e ficado apenas com uma camiseta branca e larga, fazia ele parecer mais alto e bonito, mas também um pouco infantil. — Bom, não à muito o que dizer, mas há uma pessoa que, não importa o que aconteça, quanto tempo passe ou com quem ela esteja, eu sempre vou amá-la. — Ele disse. — Sempre, sempre. 

     — Sempre, sempre, não é… — Repeti o que ele disse e senti um pouco da tristeza daquela palavra. Sempre era muito tempo. — Tão meloso.

     — Você não precisa entender agora. — Disse. Às vezes parecia que ele me dava dicas para alguma coisa, mas eu não entendia absolutamente nada. — Ah, vou embora. — Ele saiu se espreguiçando.

     — Eu te acompanho. — Peguei  seu moletom jogado no sofá. — Não quero ver você voltando aqui para buscar coisas. — Se virou para mim e riu.

     — E se eu vier buscar você? — Ele disse escorado na porta com um sorriso irritantemente bonito e malicioso.

     — Eu duvido que isso venha a acontecer.

     — Certo. — Ele riu. — Estou ansioso para ver você admitindo seu orgulho. Até logo.

     — O que? — Perguntei. — O que você quer dizer com isso? — Ele me ignorou e continuou seguindo em frente. — Desagradável. — Pensei alto. Muito desagradável.


     A noite depois que minha mãe chegou, me arrastei até meu quarto para tentar arrumar o quarto, que graças a Becca já não estava tão bagunçado, mas acabei apenas indo dormir. O dia tinha sido, constrangedor e bastante feliz, Christina queria fazer uma surpresa para a mamãe, então não cheguei a contar ela sobre o dia, fiquei um pouco incomodada por isso, não costumava mentir ou esconder coisas dela, era assim que vivíamos, porém esse era um bom motivo, não era? No entanto, tudo que eu podia fazer era ficar mergulhada em meu abismo de perguntas sem respostas boas o suficiente para mim, ou tentando desvendar algum mistério do mundo, como o do triângulo das bermudas, ou apenas pensar em minhas paranóias, eu não sabia lidar muito bem com elas.


     — Emma!? — Minha mãe gritou. — Você vai continuar cochilando aí mesmo? 

     — Não, eu não estava cochilando, só estava pensando de olhos fechados. — Falei ela riu. Eu estava cochilando na verdade.

     — A noite foi ruim?

     — Eu dormi muito bem, mas ainda quero mais. — Falei e fui para a cozinha.

     — Você dorme demais. É praticamente a única coisa que você faz com muito prazer. 

     — Por que você é tão má? — Falei sentada na bancada.

     — O que nós vamos fazer essa tarde?

     — Eu não vou fazer nada. Você vai arrumar seu quarto, 

     — Ah, não… hoje não. — Resmunguei.

     — Por que não? Será benéfico para você e para mim, que não vou precisar olhar para aquela bagunça. — Ela disse. Escutamos alguém bater na porta então corri para atender, não pensei que eles iriam vir tão cedo. 

     — Vieram mais rápido do que pense… — Me interrompi  quando vi uma mulher loira rechonchuda e mais duas pessoas atrás dela.

     — Olá! — Ela disse. — Somos os novos vizinhos.


Notas Finais


Chegamos ao final. O que vocês acharam desse capítulo? Me contem


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