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História Insomnia - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Painkiller




A ruiva estava sentada em uma cadeira na parte de fora da cafeteria. Shinsou avistou primeiro sua regata verde chamativa, mas preferiu deixar esse detalhe de fora.


Entrou no café e rumou até a área aberta. Itsuka Kendou tinha ambos os braços apoiados na mesa pelos cotovelos e mexia distraidamente no celular, um sorriso bobo no canto dos lábios.


Hitoshi sorriu ao vê-la e sentou sem cerimônias na cadeira em frente à dela.


─ Toshi! ─ Kendou sorriu, arrumando sua postura ─ Chegou rápido. Pedi um expresso duplo 'pra você.


─ Valeu. ─ Shinsou manteve o sorriso, colocando ambas as mãos no bolso do moletom cinza escuro.


─ Então, sobre o que queria conversar? ─ perguntou, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha.


─ Hm… Aconteceram algumas coisas.


─ Ok, que coisas?


Conversar com Kendou era muito mais fácil do que conversar com qualquer pessoa. Ela sempre esperava que Shinsou dissesse as coisas em seu próprio tempo, nunca o apressava ou pressionava.


─ Lembra da festa do Monoma?


─ Sinceramente, não lembro de muita coisa. ─ Itsuka riu.


─ É, eu imagino. Bom, de qualquer jeito, Neito me pediu para ajudar o DJ no fim da festa.


─ Ah, disso eu lembro. Kaminari era o DJ, certo? 


─ Certo. 


─ Ibara não parava de falar sobre ele, ─ Kendou riu fraco ─ aparentemente, ela tem um crush forte nele. 


Shinsou arqueou uma sobrancelha e não conseguiu conter um sorriso sarcástico. 


─ Ah é?


─ Pois é, mas a Ibara está sempre mudando de interesse amoroso, chega a dar dor de cabeça. Mas enfim, o que tem o DJ?


─ Bom… Ele meio que pediu meu número depois de tudo aquilo…


─ Oh…


─ E começamos a conversar pela semana, e meio que saímos juntos ontem…


─ Oh.


─ E eu talvez tenha beijado ele.


─ Oh! ─ Kendou bateu uma palma, animada. ─ É sério?!


─ É sério. 


─ E isso é bom?


─ Espero que sim. ─ Hitoshi bagunçou os próprios cabelos ─ Ele dormiu na minha casa, já que choveu ontem e acabamos nos molhando e, ahn… ─ sentiu seu rosto esquentar violentamente, e ficou com medo de explodir no meio da cafeteria ─ Meio que nos beijamos até dormir.


─ Isso é o que eu chamo de progresso rápido. ─ Itsuka riu, sarcástica. ─ E você gosta dele?


─ Talvez? Acho que ainda é muito cedo 'pra dar nome aos sentimentos. Eu acho que por enquanto… Vamos apenas dizer que eu gosto da companhia dele.


─ Ok, ok. Isso é bom. É quase um final feliz. Você encontrou alguém que pode passar a gostar, e isso tudo vai desiludir o Monoma. Melhor impossível. 


─ Espera, desiludir?


─ É. Você sabe como é, Monoma sempre deu em cima de você.


─ Sim, só que de brincadeira. Né? ─ seu tom soava um tanto desesperado.


─ Ahn, não. ─ Kendou pendeu a cabeça para o lado, confusa. ─ Shinsou, Neito é apaixonado por você. Você sabia disso, não sabia?


─ Como assim "você sabia"?! Óbvio que eu não sabia! Ele nunca me contou!


─ Meio que tá na cara, sabe? Além disso, você é o futuro psicólogo, não deveria entender dessas coisas de sentimento?


─ Kendou, isso é diferente. Monoma sempre, sempre me jurou que era tudo brincadeira e que eu não devia levar ele a sério.


─ Porque ele achava que não tinha chance. Olha, Toshi, não 'tô dizendo que todo esse mal entendido é sua culpa. Vocês são dois patetas oblíquos. ─ Shinsou não podia discutir com aquele fato ─ A paixão dele é problema dele. Você não deve nada ao Monoma. Mas eu acho que, em honra dessa amizade de anos, vocês precisam conversar. 


─ Eu sei, eu só… Não sabia.


─ Tudo bem. Você não era obrigado. Monoma também não facilitou. Acho que ele pensou que seria mais fácil se você pensasse que era tudo uma brincadeira. Ele podia te manter por perto, por mais que soubesse que você nunca vai vê-lo da maneira que ele vê você. 


─ É… Isso é uma droga. Eu conheço o Monoma há eras. Eu podia ter me apaixonado por ele nesse meio tempo, mas nunca aconteceu.


─ Talvez Kaminari seja sua alma gêmea. ─ Kendou lhe lançou um sorriso sugestivo.


─ Talvez.


─ Achei que não acreditava em almas gêmeas. 


─ Eu também não acreditava que algum dia iria cogitar gostar de alguém, mas aqui estamos nós.


Kendou riu, colocando ambas as mãos sob a mesa, as palmas viradas para cima. Revirando o olhos com um pequeno sorriso no canto dos lábios, Shinsou colocou as mãos sob as dela.


─ Eu espero que dê tudo certo 'pra você, Toshi, sério mesmo. Não que você precise namorar alguém para ser feliz, mas afeto nunca é ruim, né?


─ Isso é discutível. 


─ Deixa de ser chato. ─ Kendou sorriu, se levantando e tirando o celular do bolso ─ Eu preciso ir. Tetsu disse que vai me levar em um show hoje e quero comprar um presente também. 


─ Quantos anos vocês estão fazendo mesmo?


─ Nove.


─ Uau.


─ Pois é. ─ a ruiva deu a volta na cadeira, o segurou pelos ombros e beijou sua bochecha ─ Me liga amanhã e a gente conversa mais, ok?


─ Ok.


Enquanto observava Kendou ir embora, Hitoshi se perguntava de que show ela estava falando. Monoma provavelmente o teria convidado. 


Falando no diabo, Shinsou decidiu que quanto antes eles pudessem conversar, mais rápido tiraria aquele mal entendido das costas.


Andar até a casa de Monoma Neito nem foi a pior parte do dia. Gostava de andar. Era uma ótima forma de se livrar do estresse e de criar um roteiro mental de cada coisa que diria e de cada provável resposta que o loiro poderia criar. Era uma mania, achar que tudo iria se seguir da maneira que imaginou. Raramente era assim, mas na sua cabeça podia ser. Era tão mais simples e prático.


Quando alcançou a grande casa branca cheia de vidros e com a piscina visível do jardim, Shinsou pulou os degraus da escada até chegar na campainha, respirando fundo antes de tocá-la.


Monoma levou menos de um minuto para atender a porta. Parecia ter acabado de acordar, e estava claramente com um humor ruim.


─ Ah, olha você aí. Sumiu ontem a noite inteira e hoje vem bater na minha porta, tsk tsk. ─ ele disse, antes de abrir um sorriso sarcástico ─ E aí? Quer entrar?


─ Pode ser. ─ Neito afastou a porta, sorrindo, e Hitoshi entrou.


Como sempre faziam quando ia até a casa do loiro, foram até a cozinha, pegaram dois copos de suco e sentaram-se na beira da piscina, encarando a água excessivamente azul.


─ Seus pais não voltaram ainda? ─ perguntou, e Monoma negou com a cabeça. 


─ Perderam o voo. Só chegam de madrugada agora.


─ Que merda.


─ Pois é, uma merda. Mas honestamente, prefiro a casa sem eles.


─ É justo. ─ Shinsou bebeu um gole de seu suco. Se perguntou o que Kaminari colocaria no rádio para uma situação como aquela. Chegou à conclusão de que provavelmente seria Painkiller.


─ E você, por que está aqui? Sentiu tanto assim minha falta? ─ Neito perguntou com um sorriso sugestivo.


Shinsou sentiu como se tivesse levado um tapa na cara. Não conseguia mais enxergar as coisas da maneira como enxergava. Como se tudo fosse uma brincadeira. 


─ É, na verdade, eu queria falar com você. ─ Soou um pouco mais sério do que pretendia.


Monoma bebeu um gole de seu suco e também assumiu uma postura mais séria.


─ Ok. Falar sobre o que?


As palavras não formavam frases concretas em sua mente. Não sabia por onde começar. "Eu sei que você é apaixonado por mim", ou "eu talvez esteja apaixonado por outra pessoa" não pareciam as coisas ideais para se dizer. Pela primeira vez na vida, Shinsou estava sem saber o que dizer. 


─ Eu beijei o Denki.


Monoma engasgou com o suco. 


Que desastre.


─ Denki? Kaminari Denki? O DJ? ─ perguntou em meio a gritos histéricos e tosse.


─ É. O DJ.


Shinsou evitava o olhar do loiro. Neito procurava algum traço de que aquilo era uma brincadeira na expressão do outro, mas Hitoshi estava sério demais até para ele próprio. 


─ Sério mesmo?


─ Sério mesmo.


─ Oh. ─ Monoma encarou a piscina. ─ Oh…


Shinsou o ouviu fungar e entrou em desespero quando virou a cabeça e o loiro estava chorando. Não estava esperando que tudo fosse ladeira abaixo tão rápido.


─ Neito…


─ Não! ─ ele abanou as mãos ─ Não, não, tá tudo bem, não me entenda errado. ─ limpou as lágrimas do rosto com as costas das mãos ─ Eu 'tô feliz por você. 


Disse, mas as palavras se perderam em seus soluços que cortaram a garganta. Shinsou sequer sabia como reagir. Já havia visto Neito chorar de raiva ou frustração, mas aquilo era diferente.


Estava chorando por coração partido.


─ Desculpa.


─ Não é sua culpa, Toshi. É minha. Eu sempre soube que não seria a pessoa por quem você ia acabar se apaixonando, mas…


─ Mas?


─ Bom, esperança é a última que morre, 'né? ─ ele continuou limpando o rosto das lágrimas que continuavam a cair.


─ Eu não diria que estou apaixonado, Monoma. 


─ Eu diria. Eu te conheço. Você nem teria vindo até aqui me dizer isso se não fosse importante para você também. 


Não podia ir contra aquele fato. Shinsou notou que precisaria tirar um tempo para entrar em consenso com os próprios sentimentos.


─ Enfim, não é culpa sua. Não é como se fosse sua obrigação me amar de volta.


─ Monoma…


─ Você deveria ir agora, Toshi. Tipo, ir embora.


Shinsou suspirou, mas não discutiu. Se levantou, indo em direção à cozinha e deixando o copo meio vazio na bancada. Ou talvez estivesse meio cheio, mas ele era pessimista. 


Quando se virou, viu Monoma na porta, segurando um dos braços e olhando para baixo. Ver suas lágrimas indo das bochechas para o chão fez Hitoshi sentir vontade de abrir um buraco e se enterrar vivo.


Se aproximou, sem dizer nada. Talvez palavras fossem demais para aquele momento. Talvez palavras sempre fossem demais. 


Shinsou tocou um de seus ombros, e Neito desabou de vez, o abraçando como se ele fosse se dissolver em névoa a qualquer segundo.


A proximidade deles parecia tão efêmera agora. Estavam ali, abraçados, mas Shinsou nunca estaria ali como Monoma queria, e agora, Monoma estar ali não era mais como Shinsou queria. Pensou se ver as coisas por aquele lado iria simplesmente destruir tudo o que construíram. Amizades sempre foram tão frágeis? Era o que se perguntava. E se fossem, haveria algum jeito de salvar aquela? O tempo iria dizer.


E por falar em tempo, Hitoshi perdeu a noção dele enquanto acalmava Neito, que agora dormia no sofá, o rosto vermelho e marcado pelas lágrimas, os olhos inchados. Deixou a casa antes que ele acordasse. Talvez fosse a escolha errada, mas a vida tinha muitos "talvez".


No caminho de volta para sua casa, Shinsou refazia em sua mente todos os momentos com Monoma que podia se lembrar. Se pensasse neles agora que sabia, iria ver todas as ações do loiro como ações de alguém apaixonado? Por isso preferia a bênção da ignorância. Enquanto não sabia, eram apenas ações, inocentes, sem duplos significados. Onde o afeto mudava de amizade para amor? O que indicava essa mudança? Hitoshi se perguntava. Era por causa dessas e de outras perguntas no mesmo calibre que decidiu cursar psicologia.


Suspirou.


Estava tão confuso com tudo que só queria dormir pelos próximos dois dias. Era estranho, nunca se sentiu tão cansado em toda sua vida.


Assim que pisou em casa, seu celular vibrou. Deitou-se no sofá e ligou a televisão, deixando em um canal qualquer. Miss Midnight aninhou-se ao seu lado. Tirou o celular do bolso, e quis jogá-lo da janela ao ver uma mensagem de Denki.


Shinsou, vai fazer algo hoje? ─ Ele perguntou, seguido de uma figurinha de JoJo.


Não pretendia, por que? ─ Respondeu, pensando que aquele dia realmente não iria ter fim.


Eu queria te chamar 'pra sair mas agora não sei se seria uma boa ideia. ─ Hitoshi arqueou uma sobrancelha. 


E por que não seria? ─ A resposta demorou cerca de um minuto para chegar. Para alguém ansioso como Shinsou, um minuto equivalia a cinco.


Se lembra da Jirou?


Assim que recebeu aquilo, Hitoshi ficou com um mal pressentimento. 


Lembro… O que tem ela? 


Recebeu outra figurinha de JoJo.


Ela vai fazer um show hoje com a banda dela. E eu queria ir com você. Eu gosto das músicas da Jirou, mas tenho certeza que elas ficariam ainda mais incríveis na sua companhia. ─ quase conseguia imaginar o sorriso convencido do loiro digitando aquilo.


Shinsou sentiu vontade de esconder o rosto e rir, ao mesmo tempo que se sentia corar.


Por mim tudo bem ─ na verdade, Hitoshi nunca fora a um show antes, tinha certeza que ia ser péssimo para sua ansiedade ─, mas tudo bem por você? Quer dizer… sendo a Jirou e tudo mais?


Daquela vez, Denki demorou cinco minutos para responder.


Sim, tudo bem por mim. Jirou é minha amiga. Como eu disse, já tá tudo bem. Eu vou 'pra apoiar ela. Como amigo. Mas eu quero que você vá comigo, sabe, como mais do que um amigo.


Hitoshi levou cinco minutos só para ter certeza de que estava entendendo aquela mensagem certo.


Mais do que um amigo? ─ era uma pergunta estúpida, mas que precisava ser feita.


É. Mais do que um amigo, mas não exatamente um namorado. Não ainda.─ Shinsou não se incomodou pela parte do não ainda.


Tá bom. Que horas? ─ como resposta, Denki mandou mais figurinhas de JoJo.


Às dez. Eu passo aí uns quinze minutos antes, pode ser? Denki perguntou.

 

Pode ser. Mas vamos ter que ter uma conversa séria sobre as figurinhas de JoJo. Ah, além disso, posso te fazer uma pergunta? ─ Shinsou não tinha certeza do que estava perguntando. 


Pode. ─ ele obviamente mandou outra figurinha de JoJo.


Se você fosse ter uma conversa séria na beira de uma piscina com a água bem azul, mais ou menos no começo da tarde, que música você  colocaria como trilha sonora?


Isso é bem específico, não? ─ Shinsou sabia que era ─ Bom, provavelmente Painkiller. Por que?


Em seu sofá, Hitoshi riu alto, incomodando sua gata, que puxou sua camisa com as pontas das garras.


Por nada. Te vejo daqui a pouco. ─ Não esperou por uma resposta, apenas bloqueou o celular e encarou o teto


─ Mid, você já se apaixonou por algum gato? Ou uma gata? O neutro de gatos seria apenas felino? É um sentimento estranho, não é?


Miss Midnight miou em resposta.


─ Você tem toda razão. É bizarro. ─ Shinsou suspirou.


Nunca havia feito questão de realmente se arrumar para algo até aquele dia. Não que tivesse feito muito diferente do que normalmente fazia, mas dessa vez, tinha em mente que estaria com Kaminari, o que já deixava tudo diferente.


Passou um bom tempo se olhando no espelho. O que sequer tornava Denki tão diferente? Não sabia dizer. Ele era como as outras pessoas, mas havia algo que era dele, algo tão único que Hitoshi simplesmente não podia ignorar.


Mas pensar demais não costuma fazer bem.


Como sempre, Denki chegou pontualmente. Um dejá-vu atingiu Shinsou ao vê-lo encostado no carro, porém, dessa vez, ele vestia uma calça jeans preta com mais rasgos do que tecido, uma camiseta amarela alaranjada vibrante coberta por uma jaqueta de couro preto pesada, e um detalhe que talvez não tivesse notado se não fosse Denki, mas havia um piercing prateado em sua orelha.


─ Ei. ─ Kaminari sorriu quando se aproximou, mas não disse nada. Parecia nervoso.


─ Ei. ─ Hitoshi encostou-se ao seu lado. Mais uma vez, ambos encararam o céu ─ Você tá bem?


─ Sim, sim. É só que… Ahn… ─ ele desviou o olhar ─, quer saber, vamos logo. Você vai entender quando chegarmos.


─ Ok.


Era melhor não perguntar. Denki parecia realmente ansioso, então Shinsou apenas entrou no carro.


Ao contrário das músicas calmas de normalmente, o rádio tocava No Brainer. O que era estranho, porque o lembrava do tipo de música que Monoma escutava. 


─ Shinsou.


─ Hm?


─ Você parece meio 'pra baixo hoje.


─ Oh… Dá 'pra notar? ─ Kaminari deu de ombros, fazendo uma curva.


─ Dá, acho. Não sei explicar, mas você parece que teve um dia terrível. ─ Hitoshi suspirou. Sentiu vontade de rebater e dizer que ele parecia que estava escondendo algo.


Decidiu não tocar naquele assunto.


─ Eu tive… Alguns problemas. Fui conversar com a Kendou hoje.


─ E algo ruim aconteceu com ela?


─ Não, não com ela. Com Monoma.


─ Monoma?


─ É. Uma vez eu te disse que você e ele eram os únicos que enxergavam alguma coisa em mim, né?


─ Sim, você disse. E eu disse que não é verdade. 


Shinsou sorriu, mas sua voz não tinha graça alguma.


─ Pois é. Eu descobri que ele foi apaixonado por mim por todos esses anos.


Kaminari piscou várias vezes e tirou os olhos da rua para encará-lo por alguns segundos.


─ Oh. ─ foi tudo o que conseguiu dizer ─ Isso… É ruim. Quer dizer, é ruim?


─ É ruim. Para ele, pelo menos. Eu fui conversar com ele também. Resolver as coisas. Foi difícil. É estranho pensar que Monoma realmente gosta de mim, mas que eu nunca vou conseguir gostar dele do mesmo jeito. 


─ Eu imagino como deve ser. ─ Denki observava a rua ao longe ─ Quer dizer, eu não faço ideia do que eu faria se descobrisse hoje que Sero é apaixonado por mim. Seria uma droga, até porque, ele tem a Mina.


─ É. E no meu caso, tem você. ─ pelo canto do olho, Shinsou viu o loiro corar ─ Eu gosto de você, sabe? Não sei muito bem como eu sei, nem que tipo de gostar é. Talvez seja bem mais do que eu imagino. Talvez não seja. Mas eu quero descobrir.


─ É um querer egoísta. 


─ Eu sei. ─ do banco do motorista, Denki suspirou.


─ Acho que não preciso dizer que eu também gosto de você, né?


─ Bom, não. Mas é sempre bom ouvir. 


Os dois riram. As coisas pareciam tão mais simples com Denki, mesmo que dentro de toda a complexidade. Era um paradoxo, Shinsou pensou. A simplicidade dentro de seu pequeno e complexo mundo. 


Tudo parecia apenas fluir para onde devia, e no final, tudo funcionava. Hitoshi nunca acreditou em destino, e talvez nunca fosse acreditar.


Mas também não acreditava em amor. Talvez pudesse passar a acreditar.


Quando chegaram na pequena casa de shows, Shinsou avistou Mina na entrada, de braços dados com um garoto alto de cabelos pretos, que ele já havia visto pelo campus, Sero Hanta. Os dois os cumprimentaram quando desceram do carro.


Mina disse que os levaria para dentro e compraria bebidas enquanto Denki lidava com as entradas.


Hitoshi estranhou, claro, especialmente quando, cinco minutos depois, as luzes da casa se apagaram, e o início do show foi anunciado. 


A música começou a tocar enquanto as cortinas do palco subiam. Um solo de guitarra o chamou a atenção. A voz de Jirou e a bateria acompanharam logo em seguida.


Shinsou enfim entendeu o nervosismo de Denki.


Além de engenharia elétrica e mixagem, Kaminari também sabia tocar guitarra. Se perguntou se existia alguma coisa que aquele garoto não sabia fazer.


Ver Denki em um palco foi diferente de todas as vezes que Shinsou o viu. Debaixo das luzes dos holofotes, ele parecia brilhar ainda mais, sua energia era contagiante, até para a pessoa que costumava apenas assistir shows de longe, sem muita emoção. Hitoshi viu-se ao lado de Mina, gritando a letra da música de vez em quando. Toda vez que Kaminari abria os olhos, eles se encaravam e um arrepio percorria sua espinha. Era um tipo de adrenalina que nunca havia experimentado antes.


Quando a música terminou, mais duas se seguiram, até que deram um intervalo, e Hitoshi tomou alguns segundos para se acalmar. Seu coração estava assustadoramente acelerado. Ao seu lado, Mina ria, ainda animada.


Kaminari apareceu de repente no meio da multidão. Ele parecia cansado, mas seus olhos brilhavam de maneira energética. 


─ Oi. ─ ele disse, talvez sem saber muito bem o que falar.


─ Quando ia me contar que toca guitarra? ─ Shinsou perguntou, um sorriso no canto dos lábios, sentando-se em um dos bancos do bar. 


Denki suspirou de alívio e sentou ao seu lado.


─ Eu aprendi faz muito tempo. Muito mesmo. 


─ E você sempre tocou com a Jirou?


─ Não. Eu pedi para tocar dessa vez. 


─ Hm… Estava tentando me impressionar, Kaminari?


─ Depende. Funcionou?


─ Com toda certeza. 


─ Então eu estava.


Os dois riram, agora calmos, e sentados naqueles bancos, era como se o mundo ao redor deles desaparecesse. 


Eram apenas Shinsou e Denki.


─ Jirou canta bem. ─ comentou.


─ Tem que vê-la fazendo cover da LiSA.


─ Quem sabe eu veja, se você estiver tocando.


─ Pode deixar.


Por vários segundos, eles apenas respiraram, sem dizer mais nada. Os resquícios da adrenalina finalmente iam embora.


─ Shinsou.


─ Sim?


─ Você acredita que pessoas estão predestinadas a se conhecerem?


─ Honestamente? Não. O mundo é aleatório demais 'pra ter um roteiro.


─ Gosto de pensar que existem coincidências. 


─ Nós somos uma coincidência?


─ Hm… Não sei. Mas se formos, somos a melhor de todas.


Hitoshi sorriu. 


Era um bom desfecho.


A ideia de ser uma coincidência lhe soava ótima.










Notas Finais


todas as músicas que eu citei durante essa 3shot (em ordem porque eu realmente tenho muito tempo de sobra):

https://www.youtube.com/playlist?list=PLvjjFO0ulYq0iZeh4YDSqSWGTp2BcgjGf


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