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História Instrumentos Mortais - versão Percy Jackson - Capítulo 5


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Notas do Autor


Oiii cupcakes🧁
Eu nem demorei tanto assim né?

Boa leitura❤

Capítulo 5 - Clave e Pacto


Fanfic / Fanfiction Instrumentos Mortais - versão Percy Jackson - Capítulo 5 - Clave e Pacto

– Você acha que vai acordar alguma hora? Já faz três dias.

— Você precisa dar um tempo a ela. Veneno de demônio é forte demais, e ela é uma mundana. Não tem os símbolos para se manter forte como nós.

– Mundanos morrem com grande facilidade, não é mesmo?

– Piper, você sabe que dá azar falar em morte na sala dos doentes.



Três dias, Annabeth pensou lentamente. Todos os seus pensamentos passaram tão intensa e lentamente quanto sangue ou mel. Preciso acordar.

Mas ela não conseguia.

Os sonhos a prendiam, um após o outro, um rio de imagens que a levavam como uma folha capturada em uma corrente. Ela viu a mãe deitada em uma cama de hospital, os olhos pareciam hematomas no rosto pálido. Viu Fred, no topo de uma pilha de ossos. Percy com assas saindo das costas, Piper sentada nua com o chicote enrolado em si própria como uma rede de anéis dourados, Jason com cruzes queimadas nas palmas das mãos. Anjos, caindo e queimando. Caindo do céu. 



– Eu disse que era a mesma garota.

— Eu sei. Pequena, não é? Percy disse que ela matou um Ravener.

— É. Eu pensei que ela fosse uma fada quando a vi pela primeira vez. Mas ela não é bonita o suficiente para ser uma fada.

— Bem, ninguém tem boa aparência quando está com sangue de demônio correndo pelas veias. Hodge vai chamar os Irmãos?

— Espero que não. Eles me dão arrepios. Qualquer um que se automutila daquele jeito...

— Nós nos automutilamos.

— Eu sei, Nico, mas, quando o fazemos, é permanente. E nem sempre machuca...

— Se você tiver idade o suficiente. Por falar nisso, onde está Percy? Ele a salvou, não é mesmo? Eu pensei que fosse demonstrar algum interesse pela recuperação dela.

— Ele veio visitá -la. De manhã antes do nosso treino, você ainda está dormindo por isso não viu.

— Às vezes eu fico pensando se ele... Olhe! Ela se mexeu!

– Acho que está viva, afinal de contas. — Um suspiro. — Vou contar a Hodge.



As pálpebras de Annabeth pareciam ter sido costuradas. Ela imaginou se poderia sentir a pele rasgando quando as abrisse lentamente e piscasse pela primeira vez em três dias.

Ela viu um céu límpido e azul acima, nuvens brancas fofas e anjos gorduchos com laços dourados que voavam a partir dos pulsos. Será que estou morta?, ela imaginou. Será que o paraíso é assim? Ela fechou os olhos com força e os abriu novamente: dessa vez ela percebeu que o que estava encarando era um teto arqueado de madeira, pintado com uma temática antiquada de nuvens e querubins.

Com dificuldade, ela se levantou para sentar. Todas as partes do corpo de Annabeth doíam, principalmente a nuca. Ela olhou em volta. Estava em uma cama com lençóis de linho, uma de uma longa fileira de camas similares com encosto metálico. A dela tinha uma pequena mesa de cabeceira ao lado, com um jarro branco e uma xícara em cima. Cortinas atadas cobriam as janelas, bloqueando a luz, apesar de ela ainda conseguir ouvir o fraco e constante ruído nova-iorquino do trânsito vindo do lado de fora.

— Então, finalmente acordou — disse uma voz seca. — Hodge vai ficar satisfeito. Todos nós pensamos que você morreria durante o sono.

Annabeth virou. Piper estava apoiada na cama ao lado, com os longos cabelos castanhos presos em duas tranças que ultrapassavam a cintura. O vestido branco havia sido substituído por jeans e uma camiseta azul justa, embora a joia vermelha ainda estivesse pendurada no pescoço. As tatuagens escuras e em espiral não estavam mais lá; a pele dela era tão homogênea quanto uma vasilha de creme. 

— Sinto muito por desapontá-la. — A voz de Annabeth roçava como uma lixa. — Esse aqui é o Instituto, certo?

— Sim. Você está na nossa enfermaria, não que já tivesse concluído isso.

Uma dor repentina e aguda fez com que Annie apertasse o estômago. Ela se engasgou.

Piper olhou alarmada para ela.

— Você está bem?

A dor estava diminuindo, mas Annie podia sentir algo ácido no fundo da garganta e uma leve tontura.

— Meu estômago. 

— Ah, certo. Eu quase esqueci. Hodge mandou dar isso a você quando acordasse. — Piper pegou o jarro de cerâmica e derramou um pouco do conteúdo na xícara que combinava, e a entregou a Annabeth. Estava cheia de um líquido nebuloso que tinha um vapor singelo. Tinha cheiro de ervas e mais alguma coisa, alguma coisa rica e escura. — Você não come nada há três dias — destacou Piper. — Provavelmente por isso está se sentindo mal.

Cautelosamente, Annabeth tomou um gole. Era delicioso, rico e encorpado, e deixava um gosto amanteigado no final.

— O que é isso?

Piper deu de ombros.

— Uma das tisanas de Hodge. Sempre funcionam. — Ela deslizou para fora da cama, aterrissando no chão com as costas arqueadas como um felino. – A propósito, sou Piper di Ângelo. Moro aqui.

— Eu sei o seu nome. Eu sou Annabeth. Annabeth Chase. Foi Percy quem me trouxe aqui?

Piper fez que sim com a cabeça. 

— Hodge ficou furioso. Você derramou fluido e sangue por todo o carpete de entrada. Se ele tivesse feito isso quando meus pais estavam aqui, certamente teria sido castigado. – Ela olhou para Annie mais estreitamente. — Percy disse que você matou aquele demônio Ravener sozinha.

 Uma rápida imagem daquela espécie de escorpião com a face irritável e maldosa passou pela mente de Annabeth; ela deu de ombros e agarrou a xícara com mais força. 

— Acho que matei.

— Mas você é mundana.

— Incrível, não? — disse Annie, saboreando a leve expressão de incredulidade no rosto de Piper. — Onde está Percy? Ele está por aqui?

Piper deu de ombros.

— Em algum lugar — ela disse. — É melhor avisar a todos que você acordou. Hodge vai querer falar com você. 

– Hodge é o tutor de Percy, certo?

— Hodge é o tutor de todos nós — disse Piper. — O banheiro é por ali, e eu coloquei algumas das minhas roupas velhas penduradas no cabide de toalhas caso você queira se trocar.

Annabeth foi tomar outro gole e viu que a xícara estava vazia. Ela não estava mais com fome, nem tonta, o que era um alívio. Repousou a xícara na mesa e abraçou o lençol em torno de si.

— O que aconteceu com as minhas roupas?

— Estavam cobertas de sangue e veneno. Percy as queimou.

— Queimou? — perguntou Annabeth. — Me diga uma coisa, ele é sempre grosso ou guarda isso para os mundanos?

— Ah, ele é grosso com todo mundo — disse Piper alegremente. — É o que o faz ser tão sexy. Isso e o fato de que já matou mais demônios do que qualquer um de sua idade.

Annie olhou para ela, perplexa.

— Ele não é seu irmão?

Isso atraiu a atenção de Piper. Ela deu uma gargalhada alta.

— Percy? Meu irmão? Não. De onde você tirou uma ideia dessas?

– Bem, ele mora aqui com você — disse Annabeth. — Não mora?

Piper fez que sim com a cabeça. 

– Bem, mora, mas...

— Por que ele não mora com os próprios pais?

Por um breve instante, Piper pareceu desconfortável. 

— Porque eles estão mortos.

Annie abriu a boca, surpresa.

— Eles morreram em algum acidente?

— Não. — Piper inquietou-se, colocando um chumaço de cabelo castanho atrás da orelha esquerda. – A mãe dele morreu quando ele nasceu. O pai foi assassinado quando ele tinha 10 anos. Percy viu tudo.

— Oh — disse Annabeth, com a voz fraca. — Foram... demônios?

Piper se levantou.

— Olhe, é melhor eu avisar a todos que você acordou. Há três dias que estão esperando para que você abra os olhos. Ah, e tem sabão no banheiro — ela acrescentou. — Talvez você queira se lavar. Está cheirando mal.

Annie encarou-a.

— Muito obrigada.

— Disponha.


As roupas de Piper eram ridículas. Annabeth teve de dobrar as pontas da calça jeans diversas vezes até parar de tropeçar nelas, e o decote da camiseta branca só exaltava a falta do que Leo chamaria de airbags.

Ela se arrumou em um pequeno banheiro, com uma barra de sabonete de lavanda. Secando-se com uma toalha de mão branca, deixou os cabelos molhados soltos e embaraçados, mas perfumados. Ela semicerrou os olhos para enxergar o próprio reflexo no espelho. Havia um hematoma roxo na bochecha esquerda, e os lábios estavam secos e inchados.

Tenho que ligar para Fred, ela pensou. Certamente havia um telefone aqui em algum lugar. Talvez deixassem que ela o utilizasse depois de falar com Hodge.

Ela encontrou os tênis repousados ao pé da cama da enfermaria, com as chaves amarradas nos cadarços. Deslizando os pés para dentro deles, ela respirou fundo e saiu à procura de Piper.

O corredor do lado de fora da enfermaria estava vazio. Annabeth olhou para baixo, perplexa. Parecia o tipo de corredor em que ela às vezes se encontrava em pesadelos, sombrio e infinito. Lâmpadas de vidro em forma de rosas penduravam-se em intervalos nas paredes, e o ar cheirava a poeira e cera de vela. 

A distância, ela podia ouvir um barulho fraco e delicado,  como sinos balançando com uma tempestade. Ela partiu lentamente pelo corredor, passando a mão na parede. O papel de parede vitoriano estava desbotado pelo tempo, cor de vinho cinza-claro. Cada um dos lados do corredor era alinhado com portas fechadas.

O som que ela estava seguindo foi aumentando. Agora podia indentificá-lo como o barulho de um piano sendo tocado com uma habilidade desconexa — porém inegável —, mas ela não conseguia identificar a música. 

Dobrando a esquina, ela chegou a uma entrada, a porta estava completamente aberta. Espiando o lado de dentro, ela viu o que era: sem dúvida, uma sala de música. Um piano de cauda estava em um dos cantos, e fileiras de cadeiras estavam alinhadas na parede oposta. Uma harpa coberta ocupava o centro da sala.

Percy estava sentado ao piano, os dedos esguios passeavam velozmente pelas teclas. Ele estava descalço, usando jeans e uma camiseta cinza, os cabelos negros bagunçados como se ele tivesse acabado de acordar. Observando os movimentos rápidos e convictos das mãos do menino Annabeth se lembrou da sensação de ter sido erguida por aquelas mãos, cujos braços seguravam-na pela escada, e as estrelas no céu, que pareciam uma chuva de fios prateados.

Ela deve ter feito algum barulho, porque ele se virou no banco, piscando os olhos nas sombras.

— Nico? – ele perguntou. – É você?

— Não. Sou eu. — Ela deu alguns passos para dentro da sala. — Annabeth.

As teclas do piano chacoalharam quando ele se levantou.

— Nossa própria Bela Adormecida. Quem finalmente deu o beijo para você acordar?

— Ninguém. Eu acordei sozinha.

— Tinha alguém com você?

— Piper, mas ela saiu para buscar alguém, Hodge, eu acho. Ela me disse para esperar, mas...

— Eu deveria tê-la alertado sobre o seu hábito de nunca fazer o que te mandar. — Percy franziu os olhos para ela. – Essas são as roupas de Piper? Ficaram ridículas em você. 

— Bem, afinal você queimou as minhas roupas.

— Isso foi meramente uma medida de precaução. — Ele fechou o piano. — Vamos, eu levo você até Hodge.


O Instituto era enorme, um vasto espaço cavernoso, que parecia menos projetado de acordo com um espaço plano e mais como um espaço naturalmente cavado em uma pedra pela passagem de água e dos anos. Através de portas entreabertas, Annabeth viu incontáveis quartinhos idênticos, cada um com uma cama simples, uma mesa de cabeceira e um grande armário de madeira aberto. Arcos claros de pedras erguiam os tetos altos, muitos deles cuidadosamente esculpidos com pequenas figuras. Ela percebeu algumas temáticas repetidas: anjos e espadas, sóis e rosas.

— Por que esse lugar tem tantos quartos? – perguntou Annie. — Eu pensei que fosse um Instituto de pesquisa.

— Essa é a ala residencial. Juramos oferecer segurança e alojamento a qualquer Caçador de Sombras que requisitar. Podemos abrigar até duzentas pessoas aqui.

— Mas a maioria dos quartos está vazia.

— As pessoas vêm e vão. Ninguém fica por muito tempo. Geralmente somos só nós: Nico, Piper, Bianca, os pais deles, Hodge e eu.

— Bianca?

— Você não conheceu a famosa Piper? Nico é o irmão mais velho dela. Bianca é a mais nova, mas ela está viajando com os pais.

— De férias?

— Não exatamente — Percy hesitou. — Você pode pensar neles como diplomatas estrangeiros, e isso aqui como uma embaixada, mais ou menos. Agora eles estão no país natal dos Caçadores de Sombras, resolvendo algumas negociações de paz muito delicadas. Eles levaram Bianca junto porque ela é muito nova.

— País natal dos Caçadores de Sombras? — A cabeça de Annabeth estava girando. — Como se chama?

— Idris. 

— Nunca ouvi falar.

— Claro que não. – Não havia arrogância ou superioridade na voz de Percy. Ele falava como um professor ensinando algo algo que o aluno não sabe. — Os mundanos não sabem nada a respeito. Existem sortilégios, feitiços protetores, por toda as fronteiras. Se você tentasse cruzar as fronteiras de Idris, simplesmente seria transportada de uma fronteira para a próxima. Você nem ficaria sabendo.

— Então não consta nos mapas?

— Não nos mundanos. Para os nossos propósitos, você pode considerá-lo um pequeno país entre Alemanha e França. 

— Mas não tem nada entre a Alemanha e a França. Só a Suíça. 

— Exatamente – disse Percy. — Bom saber que você prestou as aulas de geografia.

— Suponho que já tenha estado lá. Em Idris, quero dizer.

— Cresci lá.  — A voz de Percy era neutra, mas alguma coisa no seu tom deixou claro que mais perguntas nesse sentido não seriam bem recebidas. — A maioria de nós cresceu lá. Existem, obviamente, Caçadores de Sombras no mundo inteiro. Temos que estar em todos os lugares, porque as atividades demoníacas estão em todos os lugares. Mas, para um Caçador de Sombras, Idris é sempre "sua casa".

— Como Mecca ou Jerusalém — disse Annabeth, pensativa. — Então a maioria de vocês é criada lá,  e depois, quando crescem...

— Somos mandados para onde precisam de nós — disse Percy sucintamente. — E existem alguns, como Piper e Nico, que crescem longe do país natal, pois os pais estão longe. Com todos os recursos do Instituto aqui, o treinamento de Hodge... — Ele parou de falar. — Essa é a biblioteca.

Eles chegaram a um par de portas arqueadas. Um gato persa azul com olhos amarelos estava deitado à frente delas. Ele levantou a cabeça enquanto os dois se aproximavam e bocejou.

– Olá, Church — disse Percy, acariciando a cabeça do gato com o pé descalço. As pupilas dos olhos do gato se encolheram de satisfação. 

— Espere aí — disse Annabeth. — Nico, Piper e Bianca... eles são os únicos Caçadores de Sombras da sua idade, os únicos com quem você socializa?

Percy parou de acariciar o gato.

— São. 

— Isso deve ser muito solitário. 

— Tenho tudo de que preciso. — Ele abriu as portas. Após um instante de hesitação, ela o seguiu.


A biblioteca era circular, com um teto cônico em uma parte, como se tivesse sido construída no interior de uma torre. As paredes eram alinhadas com livros, as prateleiras tão altas que escadas enormes eram postas em intervalos ao longo do recinto. E também não havia livros normais — eles eram encadernados em couro e veludo, enfeitados com cadeados de pedras brilhantes e iluminados com caligrafias douradas. Pareciam gastos de um jeito que deixava claro que não eram apenas velhos, mas bastante utilizados, amados.

O chão era de madeira polida, incrustada com pedaços de vidro, mármore e pedras semipreciosas. A camada inferior formava um padrão que Annabeth não conseguia decifrar – poderiam ser as constelações, ou até um mapa do mundo; ela suspeitou que teria de subir a torre e olhar para baixo para enxergar direito.

No centro da sala, havia uma mesa magnífica. Era esculpida a partir de um único bloco de madeira, um pedaço grande e pesado de carvalho, luminoso com o brilho dos anos. O bloco se apoiava nas costas de dois anjos, esculpidos a partir da mesma madeira, as asas entrelaçadas e as faces entalhadas com olhar sofrido, como se o peso da mesa estivesse quebrando suas respectivas colunas. Atrás da escrivaninha, sentava um homem magro, com cabelos grisalhos e um longo nariz pontudo.

– Uma amante de livros, posso perceber — ele disse, sorrindo para Annabeth. — Você não tinha me contado isso, Percy.

Percy riu. Annabeth podia perceber que ele estava atrás dela, com as mãos no bolso, e aquele sorriso irritante.

— Não conversamos muito durante nosso breve contato — ele disse. — Temo que nossos hábitos de leitura não tinham sido abordados.

Annie virou-se para ele e lançou-lhe um olhar.

— Como você sabe? — ela perguntou para o homem atrás da mesa. — Que eu gosto de livros, quero dizer.

— A expressão no seu rosto quando você entrou — ele disse, levantando-se e circulando a mesa. — Por algum motivo duvidei que tivesse ficado tão impressionada comigo.

Annabeth conteve uma exclamação de espanto quando ele se levantou. Por um instante parecia que ele estava estranhamente deformado, o ombro esquerdo era mais alto que o outro. Ao se aproximar, ela percebeu que a protuberância era na verdade um pássaro, empoeirado no ombro dele — uma criatura de penas brilhantes com olhos pretos reluzentes.

— Esse é Hugo — disse o homem, tocando o pássaro no ombro. — Hugo é um corvo e, como tal, sabe muitas coisas. Enquanto eu, Hodge Starkweather, sou um professor de História, e como tal, não sei quase nada.

Annabeth deu uma risadinha e apertou a mão esticada de Hodge.

— Annabeth Chase.

— Honrado em conhecê -la — ele disse. — Ficaria honrado em conhecer qualquer pessoa capaz de matar um Ravener apenas com as próprias mãos. 

— Não foram só as mãos. — Ainda parecia estranho ser exaltada por ter matado alguma coisa. — Foi aquela coisa do Percy, bem, não me lembro o nome, mas...

— Ela está falando do meu Sensor — disse Percy. — Ela o enfiou na garganta do bicho. Os símbolos devem tê-lo sufocado. Acho que vou precisar de um novo — ele acrescentou, quase como se só tivesse pensado nisso agora. – Deveria ter dito isso antes.

— Temos vários outros na sala de armas — disse Hodge. Quando ele sorriu para Annie, milhares de pequenas linhas saíam de seus olhos, como rachaduras em um quadro antigo. — Você pensou rápido. Como teve a ideia de usar o Sensor como uma arma?

Antes que ela pudesse responder, uma risada aguda ecoou pela sala. Annabeth estivera tão enfeitiçada pelos livros e distraída por Hodge que não havia notado Nico espalhado em uma poltrona vermelha ao lado da lareira vazia.

— Não acredito que você vá cair nessa história, Hodge — ele disse.

Inicialmente, Annabeth nem sequer registrou as palavras dele. Estava ocupada demais o encarando. Como muitos filhos únicos, ela ficara fascinada pela semelhança entre irmãos,  e agora sob a clara luz do dia, podia notar que Nico não era nada parecido com a irmã. Enquanto Nico tinha cabelos pretos, sobrancelhas finas curvadas nos cantos, pele pálida, e era do tamanho de Annabeth – o que o fazia ser mais novo do que aparentava —, Piper tinha cabelos castanhos, pele bronzeada e aparentava ser a mais velha dos irmãos.  Ele tinha cílios longos e escuros como os da irmã,  mas Piper tinha olhos caleidoscópio e ele tinha olhos negros. Encaravam Annabeth com uma hostilidade tão pura e concentrada quanto ácido. 

— Não estou entendendo muito bem o que você quer dizer, Nico — Hodge ergueu uma sobrancelha. Annabeth ficou imaginando qual seria a idade dele; havia algo angelical a seu respeito, apesar da cor grisalha dos cabelos. Ele trajava um terno cinza impecável, perfeitamente passado. Ele poderia se passar por um professor universitário gentil se não fosse pela cicatriz grossa que marcava o lado direito do rosto. Ela ficou imaginando onde ele teria arrumado aquela marca.

– Você está sugerindo que ela não matou o demônio?

— É claro que não matou. Olhe para ela: ela é mundana, Hodge. Além disso, não passa de uma criança. É claro que ela não matou o Ravener.

— Eu não sou uma criança — interrompeu Annabeth. — Eu tenho 16 anos, bem, vou fazer 16 no domingo.

— A mesma idade de Piper — disse Hodge. — Você diria que ela é uma criança?

— Piper faz parte de uma das maiores dinastias de Caçadores de Sombras da História — disse Nico secamente. — E essa menina vem de Nova Jersey.

— Eu sou do Brooklyn! — Annabeth estava enfurecida. — E daí? Acabei de matar um demônio na minha própria casa, e você vai ficar se comportando como um babaca porque não sou uma riquinha mimada feito você e sua irmã?

Nico espantou-se.

— Do que você me chamou?

Percy riu.

— Ela tem razão, Nico — disse Percy. — São esses demônios de ponte e túnel que você realmente tem que observar...

— Não tem graça, Percy — interrompeu Nico, olhando os próprios pés. — Você vai ficar aí parado, simplesmente, permitindo que ela me ofenda?

— Vou — disse Percy calmamente. — Vai fazer bem a você, pense nisso como um treinamento de resistência. 

– Podemos ser parabatai — Nico disse severamente. — Mas a sua impertinência está esgotando a minha paciência. 

— E a sua pertinácia está esgotando a minha. Quando a encontrei, ela estava caída no chão,  em uma poça de sangue e um demônio moribundo praticamente em cima dela. Eu vi quando ele se dissolveu. Se ela não o matou, quem foi?

– Raveners são burros. Talvez ele tenha picado o próprio pescoço com o ferrão. Já aconteceu antes...

— Agora você está sugerindo que o demônio se suicidou?

A boca de Nico enrijeceu.

— Não é certo que ela esteja aqui. Mundanos não são permitidos no Instituto, e existem boas razões para isso. Se alguém soubesse disso, poderíamos ser reportados à Clave.

– Isso não é totalmente verdade — disse Hodge. — A Lei permite que ofereçamos santuário a alguns mundanos em certas circunstâncias. Um Ravener já tinha atacado a mãe de Annabeth, e ela poderia ser a próxima. 

Atacou. Annie imaginou se isso seria um eufemismo para " assassinou". O corvo no ombro de Hodge se mexeu suavemente.

— Raveners são máquinas de busca e destruição — disse Nico. — Eles agem por ordem de feiticeiros ou poderosos lordes demoníacos. Agora, que interesse um feiticeiro ou um lorde demoníaco teria em uma casa mundana ordinária? — Os olhos dele brilhavam com desgosto ao olhar para Annie. — Alguma ideia?

Annabeth disse:

— Deve ter sido algum engano.

— Demônios não cometem esse tipo de engano. Se eles foram atrás da sua mãe, devem ter tido algum motivo para isso. Se ela fosse inocente...

— O que você quer dizer com " inocente" ? — A voz de Annie soava tranquila.

Nico pareceu espantado.

— Eu...

— O que ele quer dizer — disse Hodge — é que é extremamente incomum que um demônio poderoso, do tipo que controla um exercício de demônios menores, fosse interessar-se por seres humanos. Nenhum mundano consegue invocar um demônio, eles não têm esse poder, mas existem alguns, tolos e desesperados, que encontraram feiticeiros ou bruxas que o fizessem para eles.

— Minha mãe não conhece nenhum bruxo. Ela não acredita em mágica. – Um pensamento ocorreu a Annabeth. — Calipso, que mora no andar debaixo, é uma bruxa. Talvez os demônios estivessem atrás dela e tenham pego minha mãe por engano...

As sobrancelhas de Hodge se ergueram subitamente.

— Uma bruxa mora no andar abaixo do seu?

— Ela é charlatã, falsa — disse Percy. — Eu já averiguei. Não há qualquer razão para um feiticeiro se interessar por ela, a não ser que esteja procurando bolas de cristal que não funcionem.

— E voltamos ao início. — Hodge alcançou o pássaro e o acariciou. —  Acho que chegou o momento de avisar à Clave.

— Não! — disse Percy. — Não podemos...

— Fazia sentido manter a presença de Annabeth em segredo enquanto não sabíamos se ela iria se recuperar — disse Hodge. — Mas agora ela está melhor, e é a primeira mundana a atravessar as portas do Instituto em mais de cem anos. Você conhece as regras acerca do conhecimento de humanos sobre Caçadores de Sombras, Percy. A Clave deve ser informada.

— Exatamente — concordou Nico. — Eu poderia enviar uma mensagem ao meu pai...

— Ela não é mundana — disse Percy tranquilamente.

As sobrancelhas de Hodge saltaram novamente, e permaneceram levantadas. Nico, interrompido no meio de uma frase, engasgou com a surpresa. No silêncio repentino, Annie podia ouvir o som das asas de Hugo se agitando.

– Claro que sou — ela disse.

— Não — disse Percy. — Você não é.  — Ele virou-se para Hodge, e Annabeth viu o leve movimento em sua garganta enquanto ele engolia em seco. Ela achou esse leve nervosismo em Percy estranhamente confortante. — Naquela noite havia demônios Du'sien, vestidos como policiais. Tivemos de passar por eles. Annabeth estava fraca demais para correr, e não tínhamos tempo para nos esconder, ela teria morrido. Então eu usei a minha estela, coloquei um símbolo mendelim no interior do braço dela. Eu achei que...

— Você está louco? – Hodge bateu com a mão no topo da escrivaninha com tanta força que Annabeth achou que a madeira fosse quebrar. — Você sabe o que a Lei diz sobre colocar Marcas em mundanos! Você, você, mais do que ninguém deveria saber!

— Mas deu certo — disse Percy. — Annabeth, mostre a eles o seu braço. 

Com um olhar espantado na direção de Percy, ela esticou o braço. Ela se lembrou de ter olhado para ele naquela noite no beco, pensando no quão vulnerável parecia. Agora, logo abaixo da camada epitelial do pulso, ela podia ver três círculos sobrepostos desbotados , as linhas tão fracas quanto a lembrança de uma cicatriz que havia desbotado com o passar dos anos.

— Viu só, já está quase desaparecida — disse Percy. — E não a machucou nem um pouco.

— A questão não é essa. — Hodge mal podia controlar a própria raiva. — Você podia tê-la transformado em uma Renegada.

Dois pontos brilhantes de cor iluminaram as maçãs do rosto de Nico.

— Eu não acredito, Percy. Só Caçadores de Sombras podem receber Marcas de Pacto, elas matam mundanos...

— Ela não é mundana. Você não ouviu nada do que eu disse? Isso explica por que ela podia nos ver. Ela deve ter sangue de Clave.

Annie abaixou o braço, sentindo frio de repente.

— Mas não tenho. Não tem como.

— Você deve ter — disse Percy sem olhar para ela. — Se não tivesse, a Marca que eu fiz no seu braço...

— Basta, Percy — disse Hodge, o desagrado era claro em sua voz. — Não há motivo algum para assustá-la ainda mais.

— Mas eu estava certo, não estava? E também explica o que aconteceu à mãe dela. Se ela fosse uma Caçadora de Sombras em exílio, podia muito bem ter inimigos no Submundo.

— Minha mãe não era Caçadora de Sombras!

— Seu pai, então — disse Percy. — Que tal ele?

Annabeth revirou os olhos com uma expressão vazia.

— Ele morreu. Antes de eu nascer.

Percy se contraiu, quase imperceptivelmente. Foi Nico quem falou.

— É possível — disse, incerto. — Se o pai dela fosse um Caçador de Sombras e a mãe, uma mundana... bem, todos nós sabemos que é contra a Lei casar -se com um mundano. Talvez estivessem se escondendo.

— Minha mãe teria me contado — disse Annabeth, apesar de ter lembrado da única foto do pai, e na maneira como a mãe nunca falava a seu respeito, e sabido imediatamente que o que acabara de dizer não era verdade.

— Não necessariamente – disse Percy. — Todos nós temos segredos.

— Fred — Annie disse. — Nosso amigo. Ele saberia. — Com a imagem de Frederick, veio um flash de culpa e horror. — Já faz três dias, ele deve estar desesperado. Posso ligar para ele? Tem algum telefone aqui? – Ela se virou para Percy. — Por favor?

Percy hesitou, olhando para Hodge, que anuiu com a cabeça e se afastou da mesa. Atrás dele, havia um globo, feito de metal, que não parecia em nada com os outros globos que ela já tinha visto; havia alguma estranheza sutil no formato dos países e dos continentes. Ao lado do globo, havia um telefone preto antiquado com um giro de discagem prateado. Annabeth o levantou para a orelha, o tom de discagem familiar a reconfortou.

Fred atendeu no terceiro toque.

— Alô?

— Fred! — Ela se apoiou na mesa. — Sou eu, Annabeth.

— Annabeth. — Ela percebeu o alívio na voz dele, junto com mais alguma coisa que não conseguia identificar. — Você está bem?

— Estou — ela disse. — Desculpe por não ter ligado antes. Fred, minha mãe...

— Eu sei. A polícia esteve aqui.

— Então você não teve notícias dela. — Qualquer esperança de que a mãe tivesse escapado e se escondido em algum lugar desapareceu. Ela nunca teria deixado de entrar em contato com Fred. — O que a polícia disse?

— Apenas que ela estava desaparecida. — Annabeth pensou na policial com a mão esquelética e estremeceu. — Onde você está?

— Estou na cidade — disse  Annie. — Não sei exatamente onde. Com alguns amigos. Mas minha carteira desapareceu. Se você tiver dinheiro, eu posso pegar um táxi até a sua casa...

— Não — ele disse rapidamente.

O telefone escorregou na mão suada de Annabeth.

— O quê?

— Não — ele disse. — É perigoso demais, você não pode vir aqui.

— Poderíamos ligar para...

— Preste atenção. — A voz dele era severa. — Seja lá com que for que sua mãe tenha se metido, não tem nada a ver comigo. É melhor você ficar onde está .

— Mas eu não quero ficar aqui. — Ela podia ouvir a própria voz resmungando, como a de uma criança. — Não gosto dessas pessoas. Você...

— Eu não sou o seu pai, Annabeth. Já te disse isso.

Ela sentiu lágrimas queimando no fundo dos olhos.

– Desculpe, é que...

— Não me telefone mais para pedir favores — ele disse. — Tenho meus próprios problemas, não preciso ser incomodado com os seus — ele acrescentou e desligou o telefone.


Ela ficou parada olhando para o aparelho, o ruído buzinando no ouvido como uma vespa gigantesca. Ela discou novamente o número de Fred e esperou. Dessa vez a secretária eletrônica atendeu. Ela bateu o telefone, com as mãos tremendo.

Percy estava apoiado no braço da cadeira de Nico, observando Annabeth.

— Acho que ele não ficou feliz por receber notícias suas!

Parecia que o coração de Annie se encolhera ao tamanho de uma noz: uma pedrinha pequena e dura no peito. Não vou chorar, ela pensou. Não na frente dessas pessoas.

— Acho que gostaria de ter uma conversa com Annabeth — disse Hodge. — Em particular – acrescentou com firmeza ao ver a expressão de Percy.

Nico se levantou.

— Tudo bem. Vamos deixá -los a sós.

— Isso não é justo — protestou Percy. — Fui eu que a encontrei. Fui eu que salvei a vida dela! Você quer que eu fique aqui, não quer? — ele apelou, voltando-se para Annie.

Annabeth desviou o olhar, sabendo que se abrisse a boca começaria a chorar. Como se estivesse distante, ela ouviu a risada de Nico.

— Nem todo mundo quer você por perto o tempo todo, Percy — ele disse.

— Não seja ridículo. — Ela ouviu Percy dizer  mas ele parecia decepcionado. — Então tudo bem. Estaremos na sala de armas, à sua espera.

A porta fechou atrás dele com um clique definitivo. Os olhos de Annabeth estavam ardendo, do jeito que ficavam toda vez que ela tentava conter lágrimas por muito tempo. Hodge estava na frente dela, um borrão cinza difuso.

— Sente-se — ele disse. — Aqui, no sofá. 

Ela afundou agradecida nas almofadas macias, piscando os olhos.

— Eu não costumo chorar muito — ela se viu dizendo. — Não é nada. Daqui a pouco vou estar bem.

— A maioria das pessoas não chora quando está chateada ou assustada, mas quando está frustrada. Sua frustração é compreensível. Você está passando por uma fase e tanto.

— Fase? — Annabeth limpou as lágrimas na blusa de Piper. — Acho que poderia dizer isso.

Hodge puxou a cadeira de trás da mesa, arrastando-a para que pudesse se sentar de frente para Annabeth. Os olhos dele, ela viu, tinham uma cor acinzentada – como os dela –, assim como o cabelo e o paletó, mas havia também gentileza em sua expressão. 

— Tem alguma coisa que eu possa pegar para você? — ele perguntou. — Alguma coisa para beber? Um chá?

— Não quero chá — disse Annie, quase sem força.  — Quero encontrar a minha mãe. Depois quero descobrir quem foi que a levou, e quero matar quem fez isso.

— Infelizmente — disse Hodge —, estamos sem vingança amarga no momento. Então é chá ou nada.

Annabeth soltou a base da blusa — agora marcada por pedaços molhados — e disse:

— Então o que devo fazer?

— Você poderia começar me contando um pouco a respeito do que aconteceu — disse Hodge, remexendo o bolso. Ele pegou um lenço imaculadamente dobrado, e o entregou a ela. Ela aceitou com um espanto silencioso. Ela nunca havia conhecido alguém que carregasse um lenço. — O demônio que você viu no apartamento, aquela foi a primeira criatura desse tipo que você já viu? Você não fazia a menor ideia de que existiam criaturas daquela espécie?

Annabeth balançou a cabeça, depois fez uma pausa.

— Um, antes, mas eu não percebi o que era. Na primeira vez que vi Percy...

— Certo, claro, que tolice a minha esquecer. — Hodge fez que sim com a cabeça. — No Pandemônio. Foi a primeira vez?

— Foi.

– E sua mãe nunca mencionou para você, nada a respeito de algum outro mundo, talvez, que a maioria das pessoas não consegue ver? Ela parecia particularmente  interessada em mitos, contos de fada, lentas do fantástico...

— Não. Ela detestava todas essas coisa. Ela detestava até mesmo os filmes da Disney. Não gostava que eu lesse mangá. Ela dizia que era muito infantil.

Hodge coçou a cabeça. O cabelo dele não se mexeu.

— Muito peculiar — ele disse.

— Na verdade, não — disse Annabeth. — Minha mãe não era peculiar. Ela era a pessoa mais normal do mundo.

– Pessoas normais não costumam encontrar suas casas saqueadas por demônios — disse Hodge, sem qualquer gentileza.

– Não pode ter sido um engano?

— Se tivesse sido um engano — disse Hodge. — e você fosse uma garota normal, não teria visto o demônio que a atacou, ou , se tivesse visto, sua mente teria processado como alguma coisa completamente diferente:um cão raivoso, até mesmo outro ser humano. O fato de que você conseguia vê-lo, e ele ter falado com você...

— Como você sabe que ele falou comigo?

— Percy disse que você contou que "ele falava" .

— Ele sibilava. — Annabeth estremeu ao se lembrar. — Falava sobre querer me comer, mas que não deveria fazê-lo.

— Raveners geralmente ficam sob o controle de algum demônio mais poderoso. Eles não são muito inteligentes ou capazes por si só – explicou Hodge. — Ele disse o que o mestre dele estava procurando?

Annabeth se concentrou.

— Ele falou alguma coisa sobre um Felipe, mas...

Hodge se esticou subitamente, de forma tão abrupta, que Hugo, que estava descansando confortavelmente no ombro dele, se lançou ao ar, irritadiço.

Felipe?

— Isso — disse Annie. — Eu ouvi o mesmo nome no Pandemônio, dito pelo menino, quero dizer, o demônio...

— É um nome que todos nós conhecemos — disse Hodge brevemente. Ele tinha a voz firme, mas ela podia ver que apresentava um leve tremor nas mãos. Hugo, de volta ao seu ombro, balançou as penas desconfortavelmente.

— Um demônio?

— Não.  Felipe é, era, um Caçador de Sombras. 

— Um Caçador de Sombras? Por que você disse era?

— Porque ele está morto — disse Hodge secamente. — Morreu há 16 anos.

Annabeth se afundou novamente nas almofadas do sofá. Sua cabeça estava latejando. Talvez ela devesse ter aceitado o chá. 

— Será que poderia ser outra pessoa? Alguém com o mesmo nome?

A risada de Hodge foi um ruído sem qualquer sinal de humor.

— Não. Mas poderia ser alguém usando o nome dele para transmitir algum recado. — Ele se levantou e caminhou até a mesa, com as mãos nas costas. — E essa seria a época propícia para isso.

— Por que agora?

— Por causa dos Acordos.

— As negociações de paz? Percy as mencionou. Paz com quem?

— Com os habitantes do Submundo — murmurou Hodge. Ele olhou para Annabeth. A boca dele estava enrijecida. — Perdão — ele disse. — Isso deve ser muito confuso para você. 

— Você acha?

Ele se apoiou na mesa, acariciando as penas de Hugo, distraído. 

— Os habitantes do Submundo são aqueles que compartilham o Mundo de Sombras conosco. Sempre coexistimos de forma complicada.

— Como vampiros, lobisomens e...

— Os Fair Folk — disse Hodge. — Fadas. E os filhos de Lilith, como semidemônios, são os feiticeiros.

— Então o que são vocês,  Caçadores de Sombras?

— Às vezes somos chamados de Nephilim — disse Hodge. — Na Bíblia eles eram filhos de humanos e anjos. A lenda da origem dos Caçadores de Sombras diz que foram criados há mais de mil anos, quando os humanos estavam sendo dominados por invasões de demônios de outros mundos. Um feiticeiro invocou o Anjo Raziel, que misturou um pouco do próprio sangue com o de alguns homens e o deu para que estes bebessem. Aqueles que beberam o sangue do Anjo se tornaram Caçadores de Sombras, assim como seus filhos e os filhos de seus filhos. O cálice passou a ser conhecido como Cálice Mortal. Embora, talvez, não passe de uma lenda, a verdade é que, ao longo dos anos, quando os exércitos de Caçadores de Sombras foram reduzidos, sempre era possível criar novos Caçadores de Sombras através do Cálice. 

— Sempre era possível?

— O Cálice não existe mais — disse Hodge. — Foi destruído por Felipe, imediatamente antes de morrer. Ele acendeu uma fogueira enorme e se queimou junto com sua família, a esposa e o filho. A terra ficou preta. Ninguém nunca mais construiu nela. Dizem que a terra é amaldiçoada. 

— E é?

— Possivelmente. A Clave lança maldições como punição pela violação da Lei. Felipe quebrou a maior de todas as Leis: voltou -se contra os companheiros Caçadores de Sombras e os matou violentamente. Ele e grupo que integrava, o Ciclo, mataram dúzias de seus irmãos, junto com centenas de habitantes do Submundo durante o último Acordo. Mas foram derrotados.

— Por que ele trairia outros Caçadores de Sombras?

— Ele reprovava os Acordos. Abominava os integrantes do Submundo e achava que tinham de ser esquartejados, vandalizados, para que esse mundo fosse mantido puro para os seres humanos. Apesar de os habitantes do Submundo não serem demônios, tampouco invasores, ele achava que tinham natureza demoníaca,  e isso bastava. A Clave não concordava; achava que a assistência dos habitantes do Submundo era necessária se algum dia quiséssemos livrar o mundo dos demônios de uma vez por todas. E quem poderia discutir, de verdade, que os Fair Folks não pertenciam a este mundo, quando estavam aqui há mais tempo do que nós?

— Os Acordos foram assinados?

— Sim, foram assinados. Quando os habitantes do Submundo viram que a Clave se voltou contra Felipe e o Ciclo em defesa deles, perceberam que os Caçadores de Sombras não eram inimigos. Ironicamente, com essa insurreição, Felipe possibilitou os Acordos. — Hodge sentou novamente na cadeira. — Peço desculpas, isso deve ser uma aula monótona de História para você. Esse era Felipe. Incandescente, um visionário, um homem de grande charme e convicção. E um assassino. Agora alguém está invocando seu nome...

— Mas quem? — perguntou Annabeth. — E o que a minha mãe tem a ver com isso?

Hodge se levantou novamente.

— Não sei. Mas vou fazer o possível para descobrir. Vou mandar mensagens para a Clave e também para os Irmãos do Silêncio. Eles podem querer falar com você. 

Annabeth não perguntou quem eram os Irmãos do Silêncio. Ela estava cansada de fazer perguntas cujas respostas só faziam com que se sentisse mais confusa. Ela se levantou.

— Existe alguma chance de que eu possa ir para casa?

Hodge pareceu preocupar -se.

— Não, acho que não seria sábio de sua parte.

— Tem coisas que preciso lá, mesmo que eu vá ficar aqui. Roupas.

— Nós podemos lhe dar dinheiro para comprar roupas novas.

— Por favor — disse Annabeth. — Eu tenho que ver se... eu preciso ver o que restou.

Hodge hesitou, depois acenou brevemente com a cabeça em afirmação. 

— Se Percy concordar, vocês dois podem ir. — Ele virou-se para a mesa, remexendo alguns papéis. Olhou por cima do ombro, como se tivesse acabado de reparar que ela ainda estava ali. — Ele está na sala de armas.

— Eu não sei onde fica isso.

Hodge deu um sorriso torto.

— Church te leva até lá. 

Ela olhou em direção à porta, onde o gato persa gordo e azul estava enrolado como um pequeno otomano. Ele se levantou enquanto ela de aproximava, seus pelos pareciam líquidos. Com um miado imperioso, ele a conduziu pelo corredor. Quando ela olhou para trás por sobre o ombro, viu que Hodge já estava fazendo anotações em um papel. Enviando uma mensagem para a Clave misteriosa, ela supôs. Eles não pareciam pessoas gentis. Ela imaginou qual seria a resposta deles.



A tinta vermelha parece sangue contra o papel branco. Franzindo o rosto, Hodge Starkweather enrolou a carta, cuidadosa e meticulamente na forma de um tubo, e assobiou para Hugo. O pássaro, grasnando suavemente, pousou no pulso de Hodge. Ele fez uma careta. Há anos, durante a Ascensão, ele sofreu um ferimento naquele ombro, e por mais leve que fosse Hugo — ou a virada das estações, uma mudança de temperatura ou umidade, um movimento súbito de braço — despertava antigas feridas e lembranças de uma dor que deveria manter-se esquecida.

Contudo, havia algumas lembranças que nunca se apagavam. Imagens explodiam como flashes por trás de suas pálpebras quando ele fechou os olhos. Sangue e corpos, terra pesada, um pódio branco manchado de vermelho. O choro dos moribundos. O verde e os campos de Idris e o infinito céu azul, espetados pelas torres da Cidade de Vidro. A dor da perda inflava nele como uma onda; ele cerrou o punho, e Hugo com as asas batendo bicou os dedos de Hodge com força, tirando sangue. Abrindo a mão, ele soltou a ave, que circulou sua cabeça enquanto subia pelo céu noturno e desaparecia.

Sacudindo-se para espantar a sensação de que alguma coisa terrível estava prestes a acontecer, Hodge alcançou outro pedaço de papel, sem notar as gotas de sangue que marcavam o papel enquanto ele escrevia.


Notas Finais


Passei a madrugada escrevendo esse capítulo. Grandinho né?
Me perdoem por qualquer erro ortográfico.

Até o próximo❤


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