História Intenso - Ruggarol (2Temporada profundo) - Capítulo 4


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Categorias Karol Sevilla, Ruggero Pasquarelli, Sou Luna
Personagens Karol Sevilla, Personagens Originais, Ruggero Pasquarelli
Tags Karol Sevilla, Ruggarol, Ruggero Pasquarelli, Sou Luna
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Palavras 4.995
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Ficção, Ficção Adolescente, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Drogas, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 4 - B O R D A S N E G R A S


RUGGERO

Desaparecer no escuro. Esse era o meu plano.

Que merda de plano.

Karol foi embora na manhã seguinte ao funeral do meu pai. Passei as quatro semanas seguintes em Silt. A tela do meu filme pessoal do Velho Oeste deveria ter terminado. Acabou o show. Bem-vindo ao resto da sua vida. Aproveite seu tempo neste paraíso de torpor emocional. Beba algumas cervejas. Trepe com algumas garotas. Divirta-se.

Meus delírios deveriam me proteger. Afinal, por que eu deveria me preocupar? Por que deveria ter receio de não conseguir comprar comida para a minha família? Ou medo de que a minha irmã caçula tussa os pulmões para fora devido à laringite? Ou pavor de morrer sozinho e nunca mais fazer amor com a única mulher que eu desejo?

É sempre uma droga.

É uma droga e nunca deixará de ser. Nunca chegará ao fim. Não há uma cortina para cair e esconder tudo. É como Karol disse: há algumas coisas tão terríveis que não deveríamos precisar passar por elas, mas precisamos. Somos nós que precisamos senti-las, que precisamos suportá-las.

É a nossa vida para ser vivida, quer queiramos ou não.

Voltei para Silt e fui trabalhar.

Voltei para o meu zimbro e pensei no futuro pela primeira vez em meses. Pensei em Karol. No que ela havia dito. No que eu havia feito a ela. Pensei em quanto me esforcei para evitar que ela me visse aqui, lutando para não desmoronar.

Não consegui suportar o que ela me disse.

Não consegui suportar o que armei para ela e a vergonha que senti quando ela não chorou nem gritou, e eu me dei conta de que estava tentando forçá-la a mudar de ideia sobre mim porque não podia simplesmente lhe contar a verdade.

Eu a amava. Todo dia, toda hora, toda porra de minuto, eu a amava.

E, mesmo a amando, eu a magoei, porque achei que precisava fazer isso. O que mais a faria ir embora? Uma mulher inteligente como Karol, leal, carinhosa – ela teria feito qualquer coisa por mim, inclusive ficar. Viva o Ruggero, por descobrir o que precisa fazer para mandar o amor da vida dele embora. Comer Rita Tomlinson contra a porta da caminhonete de Bo – isso vai resolver a questão.

Eu estava com nojo de mim mesmo. Eu me odiava.

Mas, meu Deus, eu amava Karol. Ela sempre foi mais corajosa do que eu. Melhor do que eu, mais inteligente, capaz de ver o âmago das coisas. Ela olhou para mim e viu um homem que valia a pena salvar, mas eu já havia decidido não ser salvo. Eu a mandei para o mais longe possível de mim, porque precisava ficar em Silt.

Esse foi o roteiro que recebi quando entrei no set.

Só que reli o roteiro depois que Karol foi embora, com o cadáver do meu pai debaixo da terra, dentro de um caixão que comprei com dinheiro de tráfico, e me dei conta de que eu nunca fui a porra do xerife.

Ninguém com o mínimo senso de justiça ou correção teria feito aquilo com ela.

Eu havia feito.

O que isso me tornava?

Tenho uma lista na minha cabeça: “Merdas que precisam ser resolvidas”.

No topo da lista está “situação de moradia”. Então, na segunda-feira da semana do funeral, passei pela casa da minha avó depois do trabalho para conversar com a minha mãe. Ela estava no sofá, enrolada em uma manta. A TV estava ligada, mas ela não parecia estar assistindo.

Ela estava acabada, na verdade. Com os cabelos oleosos, como se não lavasse havia dias, e o esmalte lascado nas unhas dos pés.

– O que está passando?

– Porcaria. Pode mudar, se quiser – responde ela, me passando o controle remoto.

Passo rapidamente por alguns canais.

Eu havia pedido a minha avó que levasse Jim para comer um hambúrguer para termos um momento a sós, mas, sentado ao lado dela, percebo o erro que cometi. Prevejo os humores da minha mãe como o clima.

Mas não é o humor dela que me preocupa. É o meu. Há uma nuvem negra sobre a minha cabeça.

Se eu achasse que poderia adiar essa conversa por mais uma ou duas semanas, adiaria.

– A sua namorada se mudou para a casa do Bo?

– Não. Ela foi para casa.

– Achei que ela ia ficar por aqui, pela forma como olha para você.

A forma como Karol olha para mim...

Levantei um muro ali.

A forma como ela me tocou, a forma como ela tentou me reconfortar, a forma como ela arrancou os sapatos e encheu aquela cova comigo...

Aumento a altura do muro. Minha voz sai seca quando pergunto:

– Por que ela ficaria?

A almofada ao meu lado no sofá tem a estampa de um cervo. Quando era criança, eu a achava muito legal. Brega. É o que acho deste lugar agora. Minha vida toda ali, surrada, brega e de classe baixa.

É a parte complicada de frequentar uma escola de garotos ricos no centro do país. Passamos dois anos em salas de aula com molduras de madeira maciça de 15 centímetros de espessura. Quando voltamos para casa, tudo parece cem vezes pior do que nos lembrávamos.

Nossos gostos mudam. Hondas e Toyotas em vez de carros americanos. Produtos feitos à mão em vez de feitos por máquinas. Traços locais, orgânicos e artesanais. Quando você percebe, os hambúrgueres das grandes cadeias começam a ter gosto de mijo quando voltamos a comê-los.

– Não gosto de você ficando lá com ele – diz a minha mãe.

– O Bo é legal.

– Você não sabe. Não estava no trailer naquela noite.

– Como eu poderia estar?

– Você nunca está aqui. Mesmo quando está em casa, está pensando em como preferiria estar em outro lugar. Com Karol.

Minha mãe pronuncia o nome de Karol como se apenas esnobes se chamassem Karol, e eu fico imediatamente puto. Respiro fundo e tento ignorar a fúria. Ela tem razão. Eu perdi a noção do meu lugar no mundo, fui para Putnam, me deixei convencer de que poderia haver mais para mim, e olhe o que aconteceu. Se tivesse ficado, minha mãe provavelmente ainda estaria com o Bo. Meu pai jamais teria aparecido, não teria se mudado para o trailer, porque seria onde eu estaria morando.

Nada dessa merda teria acontecido se eu tivesse ficado.

– Eu estou aqui agora – digo.

Mas Karol está sussurrando na minha cabeça.

Eles nunca vão parar de tirar coisas de você. Nunca.

Eu devia ter dito a ela que não espero que parem.

Essa é a parte que Karol não entende, porque ela nasceu com uma colher de prata na boca e cresceu pensando que poderia ser quem quisesse, fazer qualquer coisa que se dispusesse a fazer. O mundo pertence a Karol, mas não pertence a mim.

Eu sou de Silt. Nasci para cuidar da minha irmã e tomar conta da minha mãe. Eu pertenço a este lugar e a esta família, e isso quer dizer que eles tiram de mim e eu estou aqui para dar a eles o que precisam.

Eu não posso ir embora. Não posso sonhar grande.

Não posso ter faculdade, Karol ou qualquer coisa fora das fronteiras deste lugar, porque, se eu for embora, vou deixar Jim vulnerável aos erros descuidados da minha mãe e a uma visão estreita de futuro.

Se eu trabalhar duro, mantiver a cabeça baixa e cuidar das coisas, posso dar o mundo a Jim.

É o melhor que posso esperar.

– Quero alugar uma casa em Coos – digo à minha mãe. – Um lugar grande o bastante para nós três.

– Coos?

– A Jim pode ir para a escola por lá. Os professores são melhores.

– Jim não é inteligente o bastante para isso ter importância.

– É, sim.

Minha mãe suspira. Já tivemos essa discussão antes.

– Você tem dinheiro suficiente para isso?

– Sim, mas se quisermos um lugar legal, você vai ter de trabalhar também.

– Eu me demiti da prisão. Não posso trabalhar no mesmo lugar que Bo.

Isso não é verdade. Ela foi demitida. Bo me contou que discutiu durante uma hora com o pessoal de recursos humanos, tentando convencê-los a mantê-la. Ele estava lá havia quinze anos e pensou que poderia ter influência suficiente. No fim, minha mãe não valia tanto.

Mais uma mentira. Mais uma decepção.

Deixe para lá.

– Você ainda está com o carro do meu pai?

– Sim, mas eu disse ao Jack que ele podia ficar com o carro.

– Por que porra você fez isso?

– Ele sempre gostou do carro e queria ficar com alguma coisa do Bruno.

– Não posso continuar dirigindo a caminhonete do Bo sem pagar para ele! Ainda mais com você o tratando desse jeito! Como vamos nos virar?

– Eu não sei, Ruggero! Eu não consigo lidar com tudo isso sem o seu pai aqui!

– Quando você conseguiu lidar com as coisas? Quando? Quando você conseguiu lidar com qualquer coisa?

– Não use esse tom comigo!

– Vou usar se você merecer! Tudo o que fez desde que ele morreu foi chorar, sentir pena de si mesma e provocar uma briga que poderia ter evitado. Acabou, mãe! Precisamos seguir em frente, porque temos coisas para resolver: onde vamos morar, como vamos comprar roupas novas para Jim ir para a escola, um exame médico para ela. Ela ainda está no plano de saúde do Estado?

– Seu pai a tirou.

– Puta merda. Então precisamos reinscrevê-la. O funeral me deixou praticamente sem nada, mas tenho dinheiro suficiente para um carro barato. Se você trabalhar à noite, posso continuar trabalhando com paisagismo de dia e vou encontrar um apartamento na rota do ônibus para a Jim ir para a escola. Eu acho...

– Ruggero.

– O que foi?

Ela está esfregando as mãos no rosto. Está pálida.

– Eu não posso fazer nada disso.

– Por que não?

– Eu não consigo... Não consigo pensar. Não consigo dormir. Quero Bruno. Para mim, é difícil até mesmo olhar para você. Você é tão parecido com ele e...

– Simplesmente não olhe. Não pense. Não estou pedindo para você pensar. Só quero que me ajude a dar um jeito na vida de Jim, arrumar essa papelada. Vou botar você na minha conta do banco. Faremos o aluguel no nome dos dois. Assim...

– Ruggero... – Ela me interrompe de novo, a voz um sussurro.

– O quê, porra?

Ela está chorando de novo. Sempre chorando.

Lembro como meu pai costumava reclamar disso. Porra, você está sempre chorando, Michelle!

Quando não está chorando, está pegando no meu pé. Vadia inútil!

Esse eco deveria me fazer sentir pena, mas, em vez disso, aumenta a minha frustração. Passei metade da minha vida tentando ser o ajudante, o sócio, o chefe dela. Uma função que eu não desejaria ao meu pior inimigo.

– Eu não consigo – suplica ela, secando os olhos na manga. – Eu simplesmente não consigo.

– O que você quer que eu faça? Tudo? Enquanto você fica aqui sentada no sofá da Joan chorando?

– A Joan vai me deixar ficar.

– A Joan é mãe dele, não sua. Ele não se casou com você. Não ficou ao seu lado, não a tratou bem, não respeitava ou amava você. Ele batia em você sempre que lhe dava vontade. Por que está fazendo isso? Por que se prender a essa porra de lembrança doente enquanto a Jim precisa de você?

Ela assoa o nariz e baixa o lenço de papel. Está com a boca entreaberta.

Soco a almofada com toda a minha força. Quero ser violento com alguma coisa, mas não com ela.

Quando eu era criança, era pelo sorriso dela que eu me esforçava. Sua alegria era o prêmio que eu recebia se fizesse as piadas certas e lesse seus humores corretamente.

Sou um cretino em continuar forçando a barra quando sei que ela não está exagerando. Ela realmente não consegue fazer nada.

– A Jim não precisa de mim. Ela tem você.

Ela diz isso com tanto pragmatismo que soa como o barulho de um portão de cela se fechando.

Jim tem a mim.

Eu tinha Karol.

Não mais.

Eu me levanto. Ando para a frente e para trás diante dela. Enfio as mãos nos bolsos, tiro, cruzo os braços, passo os dedos pelos cabelos.

Sei aonde esta conversa está indo, e não estou pronto para ela.

– Você quer que eu tome conta dela. Até quando?

– Até eu me sentir preparada.

– Quando vai ser isso?

Ela encolhe os ombros e olha para as próprias pernas.

– Até eu conseguir trabalhar. Comprar um carro, guardar um dinheiro para alugar uma casa.

Seguro uma risada. Ela nunca vai se sentir preparada. Eu me viro, desejando ser capaz de sentir mais carinho – um pouco da amizade que costumávamos ter, se não amor mesmo.

Eu a amo.

Eu só não a respeito nem confio nela.

E não posso carregá-la. Se ela está me dando a minha irmã para carregar comigo, eu aceito, mas não posso levá-la também. Não se ela não me ajudar.

– Tudo bem. Se vamos fazer isso, vamos oficializar. Você me dá uma procuração legal por Jim. Preciso ser capaz de tomar decisões.

Ela está com os olhos arregalados.

– Eu sou a mãe dela!

– Não estou tentando roubá-la de você. Procuração legal é diferente de guarda. Só quer dizer que você me dá permissão para matriculá-la em escolas, cadastrá-la em seguros de saúde, esse tipo de coisa.

– Como você sabe?

– Eu pesquisei.

Uma dúzia de vezes desde os meus 12 anos.

– Vamos precisar de um advogado?

– Não. É bem simples, se os dois adultos estiverem de acordo.

– Os dois?

– Você e eu.

– Ah. Você tem idade suficiente?

– Fiz 21 há duas semanas.

– Nossa. Eu me esqueci do seu aniversário.

– Eu sei.

E, qualquer que seja o motivo, é isso que a faz franzir o rosto e começar a chorar de verdade.

Sento de novo, suspirando lentamente e abrindo os braços para ela ter contra o que se jogar. Ela soluça e me diz como eu me pareço com ele.

“Igualzinho a ele, igualzinho a ele.”

Isso a deixa arrasada.

Três semanas depois, o Dr. T. aparece no meu trabalho justamente quando estou subindo na caminhonete para pegar Jim na escola. Bo me disse para ficar com o veículo. Disse que não precisa dele. Nada como a caridade para fazer com que nos sintamos uns merdas.

Fecho a porta e aceno para o Dr. T. A ideia é fingir que ele está ali para conferir os produtos ou comprar um novo anão de jardim. Mãos no volante. Olhos no retrovisor. Engato a marcha.

Não funciona. Ele está acenando com os braços na minha visão periférica. Está correndo na minha direção, fazendo um gesto para que eu abra a janela.

Sou tomado pela vergonha. Sinto-a subindo pelos meus braços, esvaziando meu estômago, prejudicando a minha respiração. É sempre assim com ele.

Quando conheci o Dr. Tomlinson, antes de me formar na escola, éramos amigos. Talvez eu esteja me enganando ao me lembrar das coisas assim, mas era assim que parecia. Como se tivéssemos coisas em comum, coisas sobre as quais conversar, ideias que trocávamos enquanto percorríamos os dezoito buracos do campo de golfe. Simpático pra cacete.

Então ele me apresentou à Rita.

Não consigo mais olhar para ele. Preciso fazer um esforço monumental para simplesmente encará-lo. Todas as vezes que o vejo fico esperando que ele diga.

Você comeu a minha mulher.

– Eu não sabia onde mais encontrar você. Seu celular está desligado?

– Eu mudei de operadora.

– Hoje em dia é possível manter o mesmo número, mesmo trocando de operadora.

– É, deu uma confusão.

Ele não é burro para acreditar nisso, mas é educado demais para dizer.

– Tem vinte minutos?

– Preciso buscar a minha irmã.

Meu salário foi depositado no dia anterior e prometi a ela que a levaria para comprar algumas coisas para a escola. Ela cresceu e as roupas do ano passado não cabem mais.

– Estava esperando poder falar com você sobre aquela bolsa de estudos.

Então não é este o dia. O dia da revelação. Quando me dou conta disso, também fico decepcionado. Faz seis anos que estou esperando a coisa desandar com o Dr. T. Do jeito que está, quero que isso aconteça. Eu quero ser acusado por ele, atacado por ele, culpado por esse homem de todas as coisas erradas que fiz.

Eu sou um vilão. Mereço um chute nas costelas. Mereço desprezo.

Ele bate com a mão no meu ombro e eu me encolho.

– Sei que você teve um ano difícil. Entendo por que achou que precisava deixar Putnam, mas você tem uma oportunidade de dar a volta por cima.

A vergonha. Meu Deus, a vergonha tomando conta de mim. Faria qualquer coisa para sair do meu próprio corpo nesse momento. Parte do motivo pelo qual deixei Silt, em primeiro lugar, foi para que nunca mais tivesse de sentar diante do Dr. T., escutando-o falar sobre os meus interesses enquanto Rita deslizava os dedos dos pés pela minha perna.

– Realmente preciso ir.

– Vou com você.

Ele simplesmente senta no lado do carona – um lembrete de como as coisas costumavam ser fáceis. Percorrendo o campo juntos, conversando enquanto o sol se punha no horizonte.

Eu gostava dele.

Eu pensava que se trabalhasse o suficiente, se ficasse longe o bastante de Silt, conseguiria ser como o Dr. T.: calças de marca, sapatos de 400 dólares e uma camisa branca imaculada que a empregada mexicana mandaria lavar a seco, caso manchasse.

Eu me pergunto se os sonhos de todo mundo começam a parecer sem sentido depois de uma dose de realidade ou se são apenas os meus. 

Ele prende o cinto de segurança. Eu parto para a autoestrada.

– Conversei com uma pessoa do escritório de auxílio financeiro sobre o seu caso na semana passada.

– O senhor não devia ter feito isso.

– Sei que você rejeitou a minha oferta, mas continuo esperando que mude de ideia. Você tem tanto potencial. Não suporto ver você jogando tudo fora. Precisa haver uma maneira de eu fazer isso por você.

– O senhor já fez mais do que o suficiente. E eu sinto muito pelo valor que desperdiçou com o semestre da primavera. Vou tentar pagar.

– Você não precisa fazer isso.

– Eu quero.

Ele se vira de lado e me olha fixamente.

– Ruggero, estou tentando ver a situação da sua perspectiva. Sei que aceitar dinheiro sempre foi difícil para você. Eu já disse mais de uma vez que o dinheiro é algo neutro, nem bom nem mau. Mas se posso usar o dinheiro que tenho para ajudar alguém como você, ele é extraordinariamente positivo. Compreendo que seja difícil para você ver dessa forma, está bem? Foi por isso que esperei que essa bolsa pudesse ser algo que você aceitasse. Porque não sou eu, não é o meu dinheiro. É uma bolsa de estudos da Putnam. Eles só vão dá-la porque você merece.

Eu não mereço nada.

– Tudo o que você precisa fazer é preencher uma papelada e a bolsa é sua. A universidade me informou que já tem os registros que demonstram que você é um aluno de méritos excepcionais.

“Méritos excepcionais”. Eu daria risada, se a frase não me deixasse com a garganta apertada. Eu lambi a boceta da sua mulher. Encostado nesta caminhonete. Com a Karol assistindo.

– Poderia ser pela sua irmã, também. Soube que ela está morando com você agora. Você poderia levá-la e dar um novo começo a ela.

Fico observando a faixa branca da autoestrada, desejando esvaziar a minha mente. Não consigo parar de pensar no que ele disse. Eu poderia pegar a Jim e ir embora, simplesmente ir. Considero todos os ângulos disso e todas as formas como tudo poderia dar errado.

Não preciso ir longe para descobrir os erros nesse plano: a impossibilidade de arrancar Jim para longe de tudo o que ela conhece. A impossibilidade de administrar trabalho, o cuidado com ela e aulas, tudo ao mesmo tempo. A impossibilidade de aceitar mais um favor de um homem que eu ferrei de todas as formas possíveis.

Não consigo dizer a mim mesmo que mereço isso, não quando ainda consigo me lembrar do cheiro do perfume de Rita Tomlinson e do horror impassível na expressão de Karol.

Querer coisas me deixa infeliz.

Querer coisas me faz olhar para árvores e faixas de segurança quando estou dirigindo, faz com que eu pense se eu deveria comprar uma garrafa de uísque, levá-la para a casa do Bo, bebê-la até estar pronto para abrir o armário das armas dele, carregar sua .48 e dar um fim nisso.

– Não posso.

– Você pode! – Dr. T. insiste.

– Não. Eu não posso. Eu simplesmente não posso.

Depois disso, ele fica quieto. Quieto demais. Está com as mãos dobradas sobre o colo, o olhar distante. Ele leva quase 2 quilômetros para falar.

– Eu tinha outra pergunta para fazer.

– Pode fazer.

– É sobre a Rita.

Sinto os braços pesarem. O pé parece um bloco de concreto sobre o acelerador.

– Eu percebi no funeral... e não estarei sendo sincero se disser que foi a primeira vez que me perguntei. – Ele faz uma pausa. E me lança um sorriso rápido e desconfortável. – Eu estou preocupado que ela possa estar meio obcecada, acho. Com você.

Obcecada comigo? É assim que você chama?

– Ela fala muito sobre você. Nós falamos sobre você, é claro, da forma normal, mas desde que você voltou à cidade, o interesse dela parece um pouco... de mais.

Ele passa a mão sobre a boca.

– Sei que é uma pergunta constrangedora, mas ela já se comportou de forma inadequada?

Ele quer que eu o tranquilize. Está assustado, porque percebeu alguma coisa. Mas não deseja saber a verdade. Ele não quer somar um mais um e obter dois. Ele quer que eu diga: “Ei, não se preocupe, é três. Olhe. Vou mostrar a conta.”

Ligo o pisca-alerta e viro o volante. A caminhonete entra no estacionamento da escola.

– Não – respondo. – Não há nada com que se preocupar.

E então consigo sorrir. Preciso de todas as minhas forças para fazer parecer real, porque não quero que o Dr. Tomlinson saiba como é a mulher dele.

O fato de eu saber já é ruim o bastante.

– Absolutamente nada.

Examinando a minha expressão, ele se alegra.

– Está bem. Ótimo. Bem, caso algo aconteça, agradecerei imensamente se me contar.

– Pode deixar.

Diminuo a velocidade. Puxo o freio de mão. Desengato a marcha.

Os alunos estão saindo da escola, correndo e dando risada. Vejo a minha irmã saindo pela porta sozinha, a cabeça baixa, os cabelos caídos no rosto.

Ela não parece uma criança. Não quando a comparo com as outras. Ela é diferente, marcada, como se houvesse uma delimitação ao redor dela.

Roupas novas vão ajudar. Talvez possamos pensar em cortar os cabelos.

– Ah, prometa que você pelo menos vai pensar no que conversamos. O semestre já está em andamento, mas não é tarde demais.

Abro a porta. Saio da caminhonete.

– Ruggero?

– Claro. Vou pensar no assunto.

Digo isso apenas para ele parar de falar. Quando Jim chega, faço as apresentações, me despeço e sigo de carro na direção da loja de roupas.

– Quem era aquele cara? – pergunta ela.

– Eu era caddy dele.

– O que ele quer?

– Ele quer que eu volte para Putnam.

Ela fica em silêncio por um tempo, olhando pela janela.

– A Karol está em Putnam.

– Sim.

– Para onde eu iria se você fizesse isso?

– Eu disse que não, Jim.

– Mas se você fizesse.

– Você iria comigo.

– Sem a mamãe?

– Sem a mamãe.

– Isso não é contra a lei? Tipo, ela sendo a minha mãe?

– Se ela concordasse, eu poderia.

– Ah.

“Ah.” É tudo o que ela tem a dizer sobre o assunto.

Ela experimenta um jeans e está feliz, mas a minha irritação só aumenta, até ser incapaz de produzir qualquer reação ao seu desfile de moda particular. Ela fica furiosa comigo por não me empolgar. Eu estou furioso por desejar uma resposta diferente de “Ah”.

Querer é um buraco negro sem fundo, me sugando. Tentáculos de fé, esperança, confiança, sabedoria, bom senso, princípios, orgulho – tudo o que eu não tenho – me puxando para baixo.

Eu não posso.

Compro uma garrafa de uísque no caminho para casa.

Dez minutos depois de Jim ir dormir, eu a abro.

– Oi, Joan. – Tiro a sacola com o meu almoço do refrigerador. – Tudo certo?

– Vai trabalhar?

– Estou a caminho.

– Você vai se atrasar.

– Eu nunca me atraso – retruco, fechando a porta com o pé.

Eu a ouço soprar fumaça na varanda ao entrar no carro. Meu primeiro impulso é abrir o porta- luvas para pegar um cigarro, mas decido deixar o maço onde está. Vou parar de fumar, como Karol pediu. Tudo ainda me liga a Ka: suas acusações, a imagem dela com os pés enlameados, carregando terra com uma pá, sua risada, sua boca, seu corpo nu contra o meu.

Hoje de manhã, pensei nela durante o banho e gozei na minha mão, dentro das minhas lembranças.

Faz quase um mês que ela deixou Silt, e eu preciso abandoná-la mais do que preciso abandonar o cigarro.

– Ah, sim! – diz Joan da janela. – Seu tio Jack contratou um advogado.

Merda! Ele pôs o meu nome na papelada do hospital, para que eu pagasse a conta pelo nariz quebrado dele.

– Eu vou pagar a maldita conta!

– Não tem a ver com o que você fez com o rosto dele... Tem a ver com o seu pai. O advogado de porta de cadeia que o Jack arranjou acha que pode armar contra o Bo. Danos morais ou coisa parecida...

Ele quer abrir um processo civil. Como as autoridades não deram continuidade ao caso, meu tio quer fazer justiça com as próprias mãos.

– Que credibilidade o Jack tem? Ele é um bêbado caloteiro inútil. O que vai dizer, que a morte do papai o deixou mais bêbado caloteiro inútil?

– Olhe como fala. É do meu filho que você está falando.

– Desculpe.

Ela suspira.

– Esses engravatados só recebem a grana se ganharem o caso. Logo, o advogado acha que pode ganhar. Estou contando isso por causa da Jim.

– O que tem ela?

Mas eu compreendo. Às vezes, Jim acorda se debatendo na cama e gritando “Papai!” ou “Bo!”. Nessas horas, corro até o quarto dela e a abraço. É normalmente nesse momento que ela começa a chorar.

Eu sou o único que corre para acudi-la. Será minha culpa se Jim acabar deprimida, morta ou grávida aos 14 anos. Alguma coisa que eu fiz ou não fiz, algum sinal que eu deixei passar e que devia ter percebido.

– Talvez eles a façam testemunhar se houver julgamento – diz Joan.

– De jeito nenhum. Nem mesmo o Jack é tão escroto. Precisará passar por mim antes.

– Acho que esta é a ideia. Ele está com você engasgado desde o funeral.

– Eu sei cuidar de mim mesmo.

– Mas se ele chegar a ela...

– Ela estava dormindo na casa de uma amiga, porra!

Joan dá uma tragada com tanta força que consigo escutar. Exala a fumaça.

– No dia antes do funeral, Jim falou com a Stephanie.

A mulher de Jack. Merda.

Merda.

– A Stephanie está dizendo para quem quiser ouvir que Jim estava no trailer quando Bruno levou o tiro. Jim será arrastada para essa história se isso acontecer...

Ela tem razão. Malditos Pasquarellis! Há um motivo pelo qual fiquei longe deles por tanto tempo. É sempre assim: drama em cima de drama, brigas e disputas, discussões por dinheiro, sexo, drogas e tudo o que eles consigam pensar. Eles se alimentam disso. Adoram isso.

Jack vai arrastar Jim para o meio disso tudo.

– Você não pode convencê-lo a desistir do processo? O Bo não tem muito dinheiro. O que quer que tenha acontecido naquele trailer, posso garantir que o Bruno mereceu.

– Quando foi que eu consegui convencer um Pasquarelli a desistir de alguma coisa?

Dei risada. Não tinha a intenção. Estou sem controle sobre mim mesmo.

Seis anos atrás, Jim era pequena demais para ser atingida por esse tipo de merda, mas eu não.

Cortei os laços com os Pasquarellis porque eles não protegiam a mim e minha irmã do meu pai.

Eles não vão nos proteger disso também. Eu preciso nos proteger.

– Obrigado pelo alerta.

– Me diga quando decidir o que vai fazer.

A manhã estava fresca, com o sol brilhando acima das montanhas. O vento soprava pela cabine da caminhonete, agitando o saco de papel em que levo o meu almoço.

Sou jovem, saudável e estou vivo. Livre do meu pai. Deveria me sentir bem.

Pegue a sua irmã e vá.

Foi o que o Dr. T. sugeriu. Foi o que Karol me disse, sem meias palavras. Mas tudo o que penso, olhando para o verde das montanhas, para o negrume do asfalto, para o céu azul, é que aquela é mais uma coisa na minha vida sobre a qual eu não posso decidir.

Vejo Iowa mentalmente. Verão em Putnam. Gramados verdes e prédios de tijolos à vista, cravos e floreiras nas janelas, estudantes por todo lado.

A esperança toma conta de mim, faz com que eu respire tão superficialmente que começo a ficar tonto e preciso parar no acostamento. Soco o volante e digo para mim mesmo que não dá. De jeito nenhum. Não dá, porra.

Leve Jim para outro lugar.

México. Oklahoma. Qualquer lugar longe de Jack, advogados e tribunais. Um destino bom o bastante para mantê-la a salvo de toda aquela cretinice traumática. Poderíamos viver em uma cabana na margem de um rio. Eu poderia aprender a domar cavalos. Nós comeríamos frijoles e tortillas.

Antes de ir embora, Karol disse que eu precisava encontrar uma forma de sair dessa vida. Na minha cabeça, ela repete esse conselho sem parar e todos os dias respondo a mesma coisa para ela: Desperdiçar uma vida inútil não é tão ruim. O ruim é ter um futuro e depois perdê-lo. 

Eu não acho que possa sobreviver a isso uma segunda vez.

No porta-luvas, encontro o último cigarro do maço. Acendo-o e fumo rápido, sugando profundamente a fumaça cancerígena, tentando me acostumar com o fato de que não importa se posso suportar viver em Putnam ou não.

Eu não tenho uma decisão a tomar.

Nós vamos para Putnam, porque tenho uma educação de 200 mil dólares esperando por mim lá.

Um bacharelado que significa alguma coisa. Eu seria um idiota se abrisse mão disso quando posso aceitar e usar para Jim.

Queimei completamente a minha vida em Putnam. Não quero vagar por entre as cinzas e construir uma cabana sobre o que restou, mas farei isso. Eu não tenho escolha.

Mais tarde, vou ligar para o Dr. Tomlinson.


Notas Finais


Espero que tenham gostado ❤
Até o próximo capítulo


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