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História (interativa) broken crown - Capítulo 9


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Notas do Autor


Para quem tem o privilégio de estar de em quarentena, um capítulo de presente!

Capítulo 9 - 3.0 - 'till we all fall down


Diferente de tudo que imaginava, os jantares da realeza não eram tão glamurosos Aurora Waldorf quanto imaginava. Em sua fértil imaginação, acreditava que a iluminação da sala seria estupenda, de modo que todo o outro presente na arquitetura reluzisse e desse um toque ainda mais perfeito para aquele conto de fadas. Também acreditava que a família real estaria sorrindo, perguntando coisas sobre as selecionadas como suas profissões e a vida antes dali, mas nem mesmo o príncipe estava presente na mesa. Em seu pensamento, apenas uma perguntava ecoava: Como ele esperava conquistar uma das garotas se nem mesmo fazia esforço para conhece-las?

Logo reparou que o príncipe não era o único ausente naquela noite. Apenas doze – contando com ela própria – selecionadas sentavam-se junto a mesa. Este fato fez com que franzisse o cenho de forma desconfiada e começasse a tentar reconhecer de quem era a ausência. No entanto, não precisou se esforçar muito, pois a garota ao seu lado já havia se dado o trabalho de divulgar todas as informações.

— Se está procurando por Nyx Karibean, ela não irá vir jantar conosco. — Comentou a garota ao seu lado, cujo o único fato que se lembrava sobre ela era que era filha de um conde. — Parece que o príncipe a dispensou pouco tempo depois que fomos para o quarto.

— Como assim? — Aurora apresentou leve dificuldade para controlar o nível da voz dela. — Por qual motivo? Ele nem mesmo a conheceu.

Parecendo ter se engasgado, o rei começou a tossir. Embora a maioria das garotas houvessem ficado apreensivas com a situação, imaginando o que poderia acontecer naquele momento, Fenella Cavenaugh permaneceu com sua perfeita postura como se nada estivesse acontecendo ao seu redor. E ela não era a única, pois a rainha não moveu nem mesmo a pálpebra enquanto o rosto do marido se rubificava.

— Majestade...? — Athena questionou, levemente preocupada com a situação.

Fenella apenas prosseguiu, plantando uma pequena semente de dúvidas na mente de Aurora. Pouco estava interessada se o rei havia se engasgado com a comida ou se alguém estava tentando mata-lo. De qualquer forma, antes que finalizasse com a pergunta de ouro, um dos guardas já havia se aproximado para verificar o bem estar do soberano.

— Você acredita que ele precisa conhecer alguém para casar com ela?

***

Como herdeiro ao trono de Britannia, o príncipe tinha alguns benefícios. Principalmente diante da famosa seleção, onde atentados a família real poderiam ocorrer a qualquer momento. No entanto, estava certo que não obteria nenhum ponto com seu pai – apenas perderia vários – e estaria longe de agradar as selecionadas, mas... Ele realmente precisava de um tempo sozinho. E por sozinho, ele queria dizer com seu irmão gêmeo que ocultava entre as paredes da ala leste.

Esgueirou-se por entre os corredores, a caminho da torre “incendiada”, com a ajuda do guarda Patel que estava de plantão naquele dia e, pela primeira vez em muito tempo, conseguiu chegar ao local sem problemas. Não havia ninguém para segui-los, todos estavam ocupados com tarefas, treinamentos e refeições... Nem mesmo a dama de companhia da rainha estava disponível para depositar uma porção de broncas sobre a irresponsabilidade que ele tinha ao visitar frequentemente o local.

— Espero que tenha comida. — Justin resmungou ao ouvir os passos pesados do irmão no corredor. — Parece que esqueceram de mim outra vez.

— Eu trouxe meu jantar inteiro e, dessa vez, ele está bem caprichado. — Respondeu.

Embora o nome do aposento remetesse a um acidente histórico – um incêndio provocado como um atentado contra a rainha Caitrona – era um local extremamente bem cuidado, embora levemente empoeirado. Duas enormes estantes de livro se erguiam em uma ponta do cômodo, repletas de livros velhos e uns poucos mais novos que haviam sido presente de Aretha para o príncipe. Do outro lado, a cama – que Dustin lembrava ter sido um item extremamente difícil de se colocar ali sem que ninguém mais no palácio notasse – estava perfeitamente arrumada e seus travesseiros e almofadas alinhados de forma exata.

— Coloque aqui. — Sugeriu o mais velho, apontando para a pequena mesa onde geralmente fazia suas refeições.

Como sempre, o guarda Patel ficou encarando teto enquanto os rapazes se ajeitavam. Ele gostava das pinturas que a falecida rainha havia feito a mão para o pobre príncipe que ali habitava. Olhar para aquilo era como olhar para o céu, porém com um efeito um pouco menos tocante a alma.

— Torta de ruibarbo com pera e avelã! — Justin disse de forma animada ao ver a refeição. — Que os deuses te abençoem, meu irmão.

— Metade do palácio acredita que é meu favorito graças a você. — Dustin resmungou, servindo-se com um pouco de sopa de ervilha. — No entanto, é o mínimo que posso fazer por você depois de tudo e... Bom, é por causa da seleção que agora seu jantar será servido ainda mais tarde.

— Agora a refeição dos guardas é após o toque de recolher. — Patel explicou, ainda que demonstrasse estar distraído.

— O que não faço por meu irmão que acaba de noivar? — Brincou.

Certamente a face do herdeiro não pode ser mais carrancuda. Todos sabiam que ele não estava nem um pouco confortável com toda aquela história, principalmente porque detestava seguir as regras da realeza. Por outro lado, Justin compreendia que não era apenas a questão da idade deles. Sabia que para o irmão crescer, ele precisava de uma responsabilidade e o reino para ele parecia longe de ser uma responsabilidade.

— Como foi conhecer as garotas? — Perguntou.

— Eu não as conheci. — Dustin deu de ombros. — Pouco me importa conhece-las, afinal quem irá escolher com quem irei casar será nosso pai, não é?

— Sabe que pode tomar suas próprias decisões...

— Mas será que eu quero tomar decisões? — Questionou.

— Então por que reclama quando alguém quer toma-las por você?

 Como herdeiro, as questões sobre a própria vida eram um tanto mais complicadas do que parecia ser. Desde pequeno, não havia opções de escolha para ele e quando colocavam algo para que decidisse, tinha que pensar em qual seria a decisão que agradaria as pessoas a sua volta? Ele deveria escolher o que seu coração dizia ou o que as leis diziam? Deveria ser como seu pai ou deveria ser ele mesmo? Nunca houve uma sinceridade em suas escolhas. Sempre houve alguém ou algo por trás...

— Você não sabe...

— Eu sei, Dustin. — Dessa vez houve seriedade na voz do irmão. — Eu já fui você diversas vezes e, honestamente, se você nunca criar a sua própria voz, então você nunca será um rei de verdade.

Palavras duras geralmente traziam certo efeito sobre o herdeiro, mas naquela noite ele esperava não estragar tudo. Queria apenas relaxar, algo que estava realmente difícil desde o inicio daquele maldito circo da realeza.

— Você já eliminou alguém?

— Pelos deuses, não quero falar sobre essas garotas.

Não era preciso muito, para que o gêmeo “fantasma” soubesse que o irmão estava tentando se esconder em cada palavra que dizia.

— Quem foi?

— Nyx Karibean.

— Por qual motivo?

— Genética.

Por um segundo, pareceu que Justin estava prestes a engasgar. Ele bebeu um pouco do suco que havia colocado em seu copo e respirou fundo.

— Você tentou ser suave?

E como o herdeiro poderia ser suave diante daquela situação? Ele havia sido obrigado pelo pai a jogar uma garota para fora da competição por um motivo fútil. Ao menos, ele não havia tido tempo para que ela criasse expectativas a respeito dele. Talvez fosse mais fácil assim. Ou talvez assim, todas vessem mais rápido que a realeza era diferente de tudo que haviam imaginado.

***

Havia um tempo considerável entre o jantar e o toque de recolher, o que significava que todas poderiam explorar um pouco daquele imenso lugar que habitariam por tempo indeterminado. Para Lana Doherty, uma jovem que cresceu privada da vida luxuosa que sua família possuía, aquele era um momento precioso. Finalmente as portas haviam se abrindo para ela.

No entanto, precisava se preocupar com cada passo que estava dando. Poderia estar caminhando em direção errada e não estava pensando sobre os corredores do palácio. Sua maior preocupação era quanto quem ela era de verdade. Em sua ficha, Lana era uma garota completamente perfeita, criada para ser uma verdadeira dama da alta sociedade... Mas o mundo era maior do que aquilo. Ela sabia disso.

Se pegou, por um segundo, pensando sobre a estranha eliminação de uma das garotas. Não costumava ser intrometida, se pegou pensando em como a garota deveria estar se sentindo naquele momento. Talvez ela estivesse em prantos porque aquilo significava muito para ela... Ou talvez estivesse feliz. Só havia um jeito de descobrir, portanto resolveu direcionar seus passos para o quarto da garota.

Cada selecionada tinha um número para o quarto e mais cedo, enquanto subiam para conhecer seus aposentos, ouviu a garota comentando com certa timidez sobre ter pego um número ímpar. Não seria muito difícil descobrir qual deveria ser o número correto, tinha quase certeza que se lembrava o número da maioria deles.

Tentou primeiro no quarto três, depois nove e, por fim, quando já acreditava que estava na hora de perguntar para algum guarda, finalmente viu a garota saindo do quarto onze. Ela não parecia completamente feliz, mas não parecia tão triste assim... Era como se ela soubesse desde o principio que seu lugar jamais seria na corte.

— Nyx? — Chamou-a, esperando que a jovem fosse simpática com ela.

Na verdade, Lana não sabia o que esperar da maioria das garotas naquele lugar. Algumas pareciam estar na ofensiva, enquanto outras dispostas a fazerem amizades ao invés de conquistar o príncipe. Não conseguia diferenciar quem estava sendo sincera e quem não estava...

— Está falando comigo? — Nyx pareceu um pouco surpresa.

— Desculpe. — Lana tentou não parecer invasiva. — Não vi você no jantar e...

— Está tudo bem, provavelmente a fofoca já deve ter se espalhado. — Ela deu de ombros. — Parece que eu não sou adequada para ser uma selecionada, então fu dispensada.

— Como assim dispensada? Você foi realmente eliminada?

— Tudo indica que sim. — Suspirou. — Por isso estou saindo do quarto de selecionada. Preciso ir para o quarto de visitantes... Infelizmente estou confinada a permanecer no castelo.

***

Definitivamente o jantar não havia caído bem. Naquele momento, Maybelle Sarabelly estava ajoelhada em frente ao vaso sanitário colocando para fora tudo que havia comido há poucos minutos. Parecia um tanto ridículo a situação e o gosto azedo em sua boca era terrível, mas não havia muito o que poderia fazer. Ela havia feito aquela escolha e estava disposta a fazer o que fosse preciso para manter aquele bebê seguro.

Do outro lado da porta do banheiro, suas criadas escutavam tudo e sabiam que ela estava ciente. Ficava um tanto irritada tendo duas mulheres em quem não tinha confiança alguma – embora a jovem não fosse de confiar verdadeiramente em alguém – em sua porta, mas compreendia que a função delas era zelar, ajudar e, principalmente, ter a certeza de que ela não estava morrendo.

— Eu estou bem. — Resmungou, limpando a boca com as costas da mão. — Por que não vão preparar meu vestido de amanhã? Preciso estar bem preparada para conhecer o príncipe...

— Senhorita, tem certeza que...

— Eu preciso de um vestido decente!

Geralmente a jovem de Caledonii não costumava distribuir ódio gratuito para funcionários ou destrata-los, mas tudo que desejava naquele momento era ficar sozinha. Apenas ela e a pequena criatura que crescia em seu ventre. Além do mais, não estava sendo completamente mentirosa sobre seu pedido. Precisava realmente de um vestido que fosse apresentável – e notável – para conhecer aquele que poderia ser o futuro pai de seu filho.

***

Entre todos os assuntos que constantemente invadiam os pensamentos de Demetrius Kavanaugh, nenhum deles estava envolvendo o surto psicótico de uma selecionada. Ele tinha muitos outros problemas em sua lista mental para resolver, como as rebeliões ao norte do país ou os problemas com os Francos e conflitos com Nova Roma... Isso sem contar os problemas conjugais que vinha tendo desde o último feriado. A última coisa que esperava era ter que aguentar uma selecionada insistindo que deveria ter uma guarda pessoal.

— Temos tudo sobre controle, senhorita Tamble-Fritz. — Disse pela décima vez, irritando-se com os argumentos da jovem.

— Creio que o senhor não está compreendendo tudo que estou falando. — Ela insistiu. — Eu não estou falando que somente as outras selecionadas poderiam fazer algo contra mim... Estou dizendo que qualquer outra pessoa poderia...

Uma melodia suave de Beethoven interrompeu as palavras da garota. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que a duquesa Marchioness se importava com ele. Nunca havia imaginado que em uma situação como aquela ela ligaria para dizer qualquer coisa, ainda que não importasse.

— Com licença, preciso atender.

Obviamente a jovem não se sentiu nem um pouco satisfeita com aquela situação, mas o duque não daria a oportunidade para que ela voltasse a falar qualquer coisa com ele. Apenas deslizou o dedo sobre a tela e atendeu o celular, colocando-o rapidamente sobre a orelha.

— Querida...

— Por favor, ligue para a emergência. — Do outro lado da linha, a duquesa choramingou com um gemido agudo de quem estava sentindo uma imensa dor.

Demetrius congelou quase imediatamente, temendo que tipo de coisas poderiam ocorrer para com a esposa. Não que seu relacionamento fosse genuíno e repleto de sentimentos, mas naquele momento a mulher com quem havia compartilhado seu sobrenome era realmente importante e carregava um filho em seu ventre. Se algo acontecesse com ela, nunca seria perdoado.

— Ness, o que está acontecendo? — Questionou, sentindo um leve pânico tomar conta de si. — Onde você está?

— Eu perdi o controle... — Ela respondeu entre soluços. — Por favor, chame a emergência.

— Mande a sua localização. Eu estou indo para aí...

Não havia tempo para mais nada naquele momento. Ele certamente ligaria para a emergência dentro de alguns minutos, mas primeiro precisava se preparar para o que estava por vir. Por este motivo, virou-se para a jovem Kathellen Tamble-Fritz e direcionou suas palavras com firmeza para ela.

— Encontre com o rei e diga que a duquesa sofreu um acidente. — Disse com rapidez. — Não voltarei até ter certeza de que ela está bem.

***

Diante de um mundo que não pertencia a uma pessoa como ela, Aisha Campbell invadiu seu próprio quarto sentindo-se ligeiramente zonza. Havia visto tantas coisas que jamais imaginara que viveria para ver. Toda aquela arquitetura era completamente fora do comum e reluzia mais ouro do que as imagens do grande palácio do Reino Franco. E, além de tudo isso, ainda havia aquelas maravilhas culinárias. Nem mesmo sabia pronunciar o nome da maioria delas.

Tudo o que precisava naquele momento era deitar em sua própria cama e respirar fundo para não pirar. Não estava tão entusiasmada quanto parecia. Na verdade, parecia prestes a ter um ataque de pânico. Como poderia ficar tanto tempo por ali sem saber fazer o mínimo que outras garotas faziam? Não que estivesse se menosprezando, mas ela era basicamente a garota da casta mais baixa e apenas sabia diferenciar os garfos na mesa graças ao trabalho...

Jogou seu corpo na cama com tanta vontade que não conseguiu evitar de agradecer os deuses por ter um lugar tão maravilhoso quanto aquele para descansar, mesmo que as palavras de sua irmã ainda ecoassem em sua mente. Ela estava basicamente se vendendo para a realeza em uma forma tão baixa e machista...

— Está tudo bem, senhorita Campbell?

Aisha quase caiu da cama ao ouvir a voz da criada que havia sido designada para ela. Estava tão cansada que havia se esquecido completamente que permanecer sozinha agora era algo quase completamente impossível.

— Perdão se te assustei. — Implorou a jovem.

— Está tudo bem. — Suspirou, ajeitando-se na cama. — Não deveria estar indo para seu quarto ou coisa assim?

— Estava terminando de arrumar suas coisas no armário. — Justificou-se. — Além disso, o toque de recolher dos funcionários é um pouco diferente.

— Não estou surpresa.

— Tem alguma preferência para amanhã?

Com uma leve careta surgindo em sua face, a jovem tornou-se pensativa. Escolher uma roupa para o primeiro dia parecia ligeiramente mais difícil do que escolher para chegar no palácio. Além disso, não tinha a mínima ideia sobre o que deveria ser elegante para aquela gente. Imaginou que talvez alguma coisa mais leve seria o ideal e deveria tentar evitar as transparências até que tivesse certeza do que estava fazendo.

— Acho que você entende melhor do que eu sobre isso... — Respondeu. — Pode escolher o que quiser, apenas não me faça usar nada muito clássico.

Por um segundo, pareceu ver uma certa animação na criada. Era realmente estranho, pois aquela jovem parecia ser completamente feliz em trabalhar no palácio e, na sua visão, aquele não parecia ser o melhor emprego do mundo. Conviver com a elite já era um tanto estressante. Imaginava o que seria se tivesse que conviver com garotas mimadas e...

Pouco depois que sua criada saiu com empolgação do quarto, a porta de abriu novamente. Dessa vez, Aisha não se assustou. Pensou que a mulher que havia acabado de sair estava retornando com alguma dúvida, mas estava enganada. Parada em sua porta estava uma das selecionadas...

— Perdão. — Disse a jovem, sem saber se deveria entrar de uma vez por todas ou sair correndo para fora.

— Está tudo bem. — Suspirou, esfregando os olhos. — Quero dizer, você está bem? Parece um pouco assustada.

— E-eu... — Hesitou. — nunca dormi sozinha em toda minha vida.

Talvez se a jovem de Venicones fosse como as outras garotas, estaria rindo e jamais se permitiria dizer o que estava prestes a dizer. Na verdade, não sabia exatamente porque estava prestes a soltar palavras como aquelas, mas... Como uma seis, ela conhecia uma versão da vida diferente do que Louisa di Gasparello deveria conhecer.

— Pode ficar aqui. — Sugeriu, com uma estranha sensação de não saber o que estava fazendo.

Por outro lado, Louisa também não parecia muito confortável com a sugestão, mas aceitou sem pensar duas vezes. Deu um passo para dentro e fechou a porta atrás de si. Nem mesmo houve tempo para chegar na cama até que ouviu a pergunta que a jovem Campbell não conseguiu manter escondida em sua mente.

— Você era uma serva, não é? — Aisha perguntou, notando a tatuagem no pescoço da garota.

Louisa balançou a cabeça, afirmando.

— Devota de Àilleacht... — Confirmou sem sentir real confiança em contar completamente sua história de vida.

— Deus da sexualidade, juventude e beleza... — Em parte, logo notou a garota, fazia completamente sentido. Louisa era uma garota extremamente bonita, com traços iranianos e um encantador par de olhos castanhos. — Parece legal.

Embora Aisha fosse completamente boa em puxar assunto, não parecia ser algo muito fácil com aquela garota. Na verdade, compreendia que conversas não pareciam do feitio da jovem porque dentro dos conventos e templos – onde geralmente os servos estavam presentes – não parecia ser o tipo de lugar onde você passa horas conversando ou fazendo amizade.

— Há quantos anos você era...

— Desde meus oito anos. — Respondeu se sentando na cama. — Pertencia a casta sete por ser órfã e vivia em um orfanato sujo em Votandii quando surgiu a oportunidade de me tornar uma serva de Puríon... Eu iria me tornar uma três. Todo mundo quer subir na vida.

Não concordava completamente com “todo mundo quer subir na vida”, mas... Cada um tinha sua própria opinião. Ela não queria ser uma alpinista social. Apesar de tudo, gostava da vida como seis. Tinha uma liberdade que naquele lugar parecia ser inimaginável.

— Estou indo dormir. — Informou, virando-se para o outro lado. — Espero que você não faça muito barulho ou vou ter que te expulsar.

***

 Durante a troca de turnos, o movimento no castelo se intensificava. Era possível ver todos correndo de um lado para outro, uns com pressa para descansar enquanto outros precisavam iniciar suas jornadas. E no meio daquela confusão, aquele era o único momento em que Jayesh Patel e William Baxton, ambos guardas reais, tinham para conversar.

— Bom dia. — Resmungou o jovem Baxton com uma aparência cansada.

— Eu preciso de um favor. — Patel, com uma face ligeiramente assustada, implorou.

— Bom dia para você também, Baxton. Como foi a noite? — Ironizou.

— Estou falando sério...

Com a mente cansada por ter que dobrar o turno na noite anterior, tudo que William esperava era um pouco de simpatia do colega de trabalho e um bom café da manhã com Aileen Mackenzie – sua melhor amiga e uma das criadas escolhidas para cuidar de uma determinada selecionada – que deveria estar se preparando para um longo dia. Em outras palavras, apenas esperava que não fosse abordado ao amanhecer com pedidos de favor.

— O que foi?

— Preciso que cubra meu turno...

— Está ficando maluco? — Baxton resmungou. — Eu dobrei o turno noite passada e precisei pegar o turno da noite novamente... Mentalmente não tenho condições de proteger nem uma formiga.

— Você não entende...

— Qual o problema? — Questionou, levemente irritado.

— Não sei exatamente como dizer... — Suspirou. — Tem uma selecionada.

— Pelo amor dos deuses, me diz que você não dormiu com nenhuma!

— Não! Quer dizer, mais ou menos, mas não é exatamente assim. — Respondeu, observando o corredor a sua volta. — Na verdade, uma delas é meio que uma ex-namorada que tive...

— Vocês acabaram mal?

Levaria tempo para explicar como tudo aconteceu e como sua mente funcionava a respeito do relacionamento com Victoria Middleton e, honestamente, deveria contar que tinha medo que ainda houvessem sentimentos entre eles. No entanto, não sentia-se completamente seguro em contar tudo para o jovem Baxton e tinha motivos para não confiar cegamente em qualquer pessoa.

— Não tem motivos para fugir de nada, então... — Baxton respirou fundo e encarou o rapaz. —  Bom turno.

***

 Antes que o café da manhã fosse servido, as selecionadas deveriam se reunir no salão das mulheres para receber algumas instruções. De certa forma, uma situação como aquela apenas deixava o humor de June Flower extremamente irritado. Gostaria de estar em qualquer outro lugar naquele momento, mas o destino havia a colocado entre os enormes muros do palácio de Catuvellauni.

Não era possível dizer que estava completamente feliz por estar ali, porém não estava completamente chateada por aquilo. Estava fazendo algo pelo bem de seu pai – que acreditava ser para o seu bem – e isso já valia por tudo, mas... Ah, aquele lugar era como uma enorme gaiola onde se prendiam os pássaros mais exóticos.

Ela respirou fundo e observou com curiosidade os quadros que estavam pendurados em alguns locais específicos do salão. Eram belíssimas pinturas, provavelmente feitas séculos antes ou compradas de algum grande artista.

— Essa imagem me lembra muito a paisagem de Parisi. — Comentou outra selecionada, recém-chegada no local.

— Parece ser um local bonito...

June virou-se levemente para ver quem era a garota que se aproximava. Para sua surpresa, era a jovem Esmeé Turner que, pelo que se lembrava, deveria ser uma das selecionadas mais jovens e, honestamente, ela era muito bonita de forma modesta. Talvez fosse uma coisa comum para as pessoas de casta baixa. Elas não precisavam se esforçar para se destacarem na multidão, diferente das castas mais altas. Ela, por exemplo, já havia conhecido uma porção de pessoas que fizeram de tudo para atingir o nível de beleza que a sociedade considerava adequado.

— Bom dia, garotas. —  Outra selecionada cumprimentou-as, parecendo empolgada para o começo do dia.

Com a pele clara, semelhante a uma porcelana, e belos cabelos dourados presos em um coque perfeitamente bem feito, Athena Ashryver parecia ter saído da capa de uma revista e, naquela manhã especifica, estava com um vestido leve em tom bege florido que a deixava ainda mais perfeita. Provavelmente ela despertaria a inveja de muitas garotas, mas não de June.

A única coisa que a jovem Flower esperava era que o príncipe não fosse tão superficial como a maioria das garotas pareciam ser... E que ela conseguisse aguentar ficar presa naquele lugar por um tempo considerável.

— Será que todas vão vir tão bem vestidas? — Esmeé perguntou. — Estou começando a considerar que meu vestido não foi a escolha apropriada.

— Você está muito bonita com ele. — June elogiou.

— Está realmente maravilhosa com isso. — Athena se aproximou com delicadeza. — Certamente qualquer um vai se encantar por você e... Espera. — Ela tirou os próprios brincos. — Acho que isso vai dar um toque ainda melhor no seu visual.

Esmeé sorriu, sentindo-se levemente desconcertada com a situação. Não sabia se deveria recusar a oferta ou aceita-la, então optou pela segundo opção. Afinal, quantas vezes na vida poderia se usar um brinco de ouro com diamantes?

De certa forma, June achou a oferta agradável. Por um segundo, até mesmo passou por sua cabeça que nem todas as garotas ali fossem superficiais. Talvez elas apenas precisassem de um tempo para se enturmar e viver a vida na corte... No entanto, era sempre bom manter um pé atrás com todo mundo. Muitas coisas ainda estavam por acontecer e, de certa forma, a maioria delas iria cair. Apenas uma garota poderia casar com o príncipe.



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