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História Interestelar - Capítulo 13


Escrita por:


Notas do Autor


♡ NOTAS FINAIS ♡
(ATENÇÃO EU REVISEI O CAPÍTULO MAIS OU MENOS ENTÃO PERDÃO QUALQUER MERDA!)
1. quem tá vivo sempre aparece
2. queria dizer que no dia 07/01, Interestelar comemorou 2 aninhos de vida ♡
3. esse capítulo é dedicado a: @taeterea e @jeontaetaae, as que me marcam surtando no Twitter, VOCÊS SÃO PERFEITXS
4. @SuperNew_Child um beijão para você e sua amigue ♡
5. @sophieinthedark te amo
6. minha filha Letícia, voltando a pergunta que te fiz e você não respondeu: o que mais tem em SP além de poluição é museu!

Capítulo 13 - Louvre


— Agora é sério, você está bem, garoto? — Taehyung se pronunciou, após eu não ter tido reação alguma quanto a sua pergunta anterior. 

Tive de me forçar a piscar várias vezes enquanto encarava os olhos, agora castanhos e preocupados de Taehyung. Essa foi à única coisa que consegui fazer para ao menos demonstrar algum tipo de reação a sua chegada repentina. 

Era alguma prenda do destino. 

Tinha que ser. 

Assim, ok, eu havia parcialmente assumido meus sentimentos quanto a Taehyung. Mas eu tinha que ser testado tão rápido? Não era justo! Eu precisava respirar, eu precisava raciocinar...

— Jeon... 

— Taehyungie! — Hoseok surgiu ao meu lado na porta, sorrindo de lado a lado para Taehyung. Nem cinco segundos se passaram e seu tom saiu de animado para reprovador — Você é um depravado intergaláctico, Kim Taehyung! Uma hora dessa vindo atrás do Jungkookie? Você estava espiando a nossa...

— Hyung! — exclamei, dando uma cotovelada em seu braço. Não era possível que Hoseok ia entregar que estávamos falando do comandante que estava bem a nossa frente, puta merda. 

— Estavam falando sobre mim? — Taehyung ergueu uma sobrancelha e seus olhos cintilaram em azul rapidamente, de maneira maliciosa que apenas ele conseguia. 

Antes que Hoseok dissesse alguma coisa, perguntei: 

— Taehyung, o que veio fazer aqui? 

— Eu perguntei primeiro, Jungkook. — Taehyung disse sucinto, como se isso fosse um verdadeiro argumento. Céus, meu irmão usava essa desculpa comigo!

— O quarto é meu. — contra argumentei de forma veloz. Um sorrisinho cafajeste surgiu no rosto de Taehyung, o que montou sua perfeita feição ardilosa e debochada. 

— Eu sou seu comandante, apenas me responda — ergueu a cabeça para mim de forma imponente, o que me fez reagir imediatamente dando alguns passos pra próximo de si, exalando desafio e irritação. Taehyung sorriu.

— Fazer joguinho de autoridade comigo não da certo, comandante — dei ênfase na palavra comandante com uma generosa carga de sarcasmo. Eu nem ao menos batia continência para ele, não seria agora que eu o obedeceria. 

Taehyung me encarava com um misto de indignação e divertimento, como se me visse como uma criança levada que não quer obedecer aos mais velhos. 

— Vocês vão ficar até quando nessa discussão? Por que dependendo eu consigo procurar aquele estoque de pipoca sintética, sabe? — Hoseok entrou em nosso diálogo e meio que me acordou de um transe. Subitamente, me afastei de Taehyung. Eu estava empenhado em discutir com Taehyung, de uma forma que eu não fazia desde... Um bom tempo.

Era estranho como eu apenas os conhecia há pouco, mas pareciam anos e décadas, afinal, vivenciamos situações extremas e fomos confidentes um do outro. 

O tempo era extremamente relativo, afinal de contas. 

E seguindo a linha de raciocínio do tempo que eu o conhecia, a forma que eu discuti com Taehyung fora semelhante a quando nos conhecemos. Similar também a quando eu queria fazer qualquer coisa que não envolvesse admitir o que eu estava sentindo em relação a ele. Tudo estava igual, até mesmo nós não tendo a capacidade de ficarmos alguns passos de distância. 

Aquele maldito magnetismo...

Eu estava fugindo dos meus sentimentos e eu me dei conta naquele exato instante em que Hoseok interrompeu nossa discussão (besta, se posso dizer). 

— Na verdade, Hoseok, eu queria é falar com você — Taehyung desviou seu olhar que estava preso em mim desde que eu abri a porta do quarto. — Eu queria é falar com você e como o seu quarto é caminho ao do Jeon, vim ver como ele estava.

— Ataaaaa... O que é que 'ce quer, chato? — Hoseok perguntou, mas antes que Taehyung respondesse, puxou uma garrafa de sua mão direita — Meus céus, isso é vinho? 

Hoseok praticamente saiu correndo e quando me virei para o ver, ele já estava bebendo o vinho direto do bico. 

— Jungkook — Taehyung me puxou pelo braço e colocou sua mão em minha cintura, me fazendo ficar automaticamente tenso. Prendi a respiração enquanto sentia a dele bater contra o meu pescoço. — O Hoseok te falou alguma coisa? 

— Ele estava aqui me contando algumas coisas — respondi automaticamente. O tom de Taehyung não era mais debochado como enquanto discutíamos. Estava muito sério então nem pestanejei em respondê-lo — E eu acho que não é muito bom ele beber... Aliás, de onde você tirou esse vinho? Tem certeza que...

— Eu já passei por isso com ele diversas vezes — Taehyung praticamente cochichou contra meu ouvido, a voz rouca e séria ressoando pelos meus tímpanos. Os pelos da minha nunca se arrepiaram e Taehyung pareceu perceber porque enquanto falava sorriu um pouco contra meu pescoço. Meu rosto ficou vermelho, se por excitação ou por vergonha, eu não sei — Todas as vezes que ele revive o passado, ele bebe bastante e depois apaga. É melhor assim.

—  Ele é o ex alcoólatra mais estranho que eu conheço.

— Você não é o único a estranhar — Taehyung concordou comigo e olhou com uma leve inquietação para o hyung em cima da cama.   

 — Mas você certeza que ele vai ficar bem? — queria proteger o hyung de qualquer outra dor do planeta que ele pudesse enfrentar. Hoseok não merecia nada de ruim. Não mais. 

— Absoluta — respondeu convicto, as íris trocando de cor tão rápido que eu me perdia.

Perdia-me nele mais uma vez. 

Nossos olhares se chocaram por alguns instantes. Tivemos uma discussão silenciosa se aquilo era o melhor a se fazer. 

Sua mão em minha cintura fazia a região queimar...

— Vocês são uns pau no cu, sabiam? Ficam aí de beijinho, de papinho e nada de realmente ir pros finais né? — Hoseok quase gritou e mais uma vez, acordei do outro universo que Taehyung me colocava. 

Hoseok estava em cima da minha cama, virando praticamente a garrafa inteira. Se eu não tivesse preocupado com ele, ficaria envergonhado com seu comentário (novidade alguma). 

— Eu só estava perguntando se Jungkook está bem, não é Jungkook? — Taehyung havia se afastado de mim, tal ato feito na mesma velocidade que tinha se aproximado. 

Os olhos dele trocaram de cor diversas vezes enquanto esperava a minha resposta. 

— Claro — menti de uma forma extremamente mecânica enquanto eu devolvia o olhar de Taehyung. Me esforcei para sair daquela troca de olhares e no instante que consegui, dei as costas para Taehyung. Não queria correr riscos de me perder nele. 

Tinha que fugir só mais um pouquinho do que eu sentia. 

Só um pouquinho mais. 

— Taehyungie, você não disse por que queria falar comigo — Hoseok disse em um tom que dava leves indícios de que estava ficando alterado. Suspirei ao me sentar em minha cama. Precisava ficar uns minutos em silêncio, digerindo toda a história de Hoseok e agora, a presença do Taehyung em meu quarto logo após eu, em partes (!), ter dito que sentia algo por ele. 

Ainda não conseguia acreditar na bela sorte que eu tinha. 

Hoseok pulou ao meu lado na cama e se sentou balançando as pernas, com o rosto virado para Taehyung com um sorriso e ao mesmo tempo, ansioso com a garrafa sendo jogada de mão a mão. 

Alguma coisa me disse que aquela noite seria longa, principalmente quando Taehyung puxou da bolsa que estava em sua mão direita, frasquinhos de tinta e perguntou: 

— Pinta meu cabelo, Hobi-ah?

 

 

Hoseok hyung embriagado era semelhante a uma montanha-russa. Ele subia os tons em suas palavras e também em suas emoções. E então, caia subitamente. Seu semblante se tornava triste e ele, de repente, aquietava-se. Mas, Taehyung realmente estava acostumado a aquilo, pois, sempre dava um jeito de puxa-lo de volta. 

— Eu e a Trina — Hoseok parou de pintar o cabelo de Taehyung para arrotar e dar mais um gole na garrafa de vinho. Taehyung revirou os olhos enquanto olhava para mim, gesticulando como estava em uma situação difícil, e não pude deixar de rir para ele. Não era só Hoseok que estava em uma montanha-russa, eu também vivenciava isso com minhas emoções. Tal que ao mesmo tempo em que eu me via no auge de querer interagir com Taehyung, eu também queria cair para bem longe dele em queda livre — Tatuamos isso aqui... Ó... Taehyungieee olhaaaaa!

— Hobi, eu já vi essa tatuagem mais de um milhão de vezes — Taehyung empurrou levemente o braço direito de Hoseok, que o próprio havia colocado na cara de Taehyung (este estava com partes do cabelo com tinta preta e sim era uma cena cômica de se ver). — Vai mostrar para o Gukkie-ah. 

— Verdade né, eu não falei dessa tatuagem pro Jungkookie, Kookie, Jungkookieeee — Hoseok veio até mim, em uma tentativa de saltitar, com as mãos ocupadas com o vinho e o pincel cheio de tinta preta. Dei uma leve afastada de meu hyung para não ser atingido pela tinta, assim como havia ocorrido com a camisa de pano claro de Taehyung (várias vezes) (não que ele parecesse se importar). — A gente fez essa assim que tivemos permissão de fazer as tatuagens legalmente como soldados da frota. Assim, não que eu ligue de fazer coisas ilegais né, até por que...

— Isso é latim, não é? — interrompi Hoseok falando de sua facilidade em cometer atos ilícitos ao estar finalmente próximo de sanar minha dúvida quanto àquelas tatuagens idênticas. Quando pude, finalmente, ver direito a tatuagem que ele e Trina dividiam, observei a atentamente a caligrafia extremamente fina e delicada, em que provavelmente, apenas um falante da língua poderia entender á escrita devido fonte que fora usada. Agora estava claro eu não ter entendido nenhuma das vezes que tentei ler. 

— Aí, Jungkookieeeee, você é a porra de um geniozinho! — Hoseok disse de forma animadamente arrastada, e quase que a coloração escura no pincel caiu em minha calça clara, mas eu rapidamente esquivei. — Taehyungie, já que você viu a tatuagem ”mais de um milhão de vezes” — Hoseok se virou para Taehyung enquanto tentava imitar sua forma de falar. Recebeu foi o dedo médio do comandante — por favor, diga ao nosso garoto o que está escrito. 

Eu não sabia se ficava constrangido ou se achava fofa a forma que ele havia se referido a mim. Sorte que Hoseok já havia dado as costas para voltar a pintar o cabelo de Taehyung (que estava parecendo um dálmata) e nenhum dos dois pode ver meu constrangimento estampado em meu rosto (acompanhados de um sorriso mínimo de me sentir querido).

Mas eles não precisavam saber dessa parte. 

— “Tua usque ad mortem” — Taehyung declamou a frase, como se pronunciar latim para um coreano fosse à coisa mais simples do universo. Hoseok que tinha voltado a pintar o cabelo dele parou naquele instante em que o mesmo tinha dito a frase. 

— Traduz ou nada de cabelo pintado. 

Taehyung respirou fundo e eu dei risada do mesmo, que teve como reação me fuzilar com os olhos. 

Logo depois, sorriu de lado. E droga, eu conhecia aquele sorrisinho. 

Ele ia falar alguma coisa que iria me envergonhar. 

— Teu até a morte — Taehyung disse, me encarando intensamente. 

Dito e feito. Eu queria enfiar minha cabeça em um buraco. O pior, é que Taehyung tinha noção disso.

Esse puto não havia dito trégua?

— Não é lindo, Jungkookieeee? — Hoseok pediu minha opinião com sua fala arrastada, e seus dedos pincelavam os cabelos de Taehyung com a tinta preta. 

— Ah — me belisquei para voltar para aquele momento e Taehyung sorriu cafajeste para mim — Sim, apesar de ser meio... 

— Meio o que? — Hoseok parou mais uma vez de pintar o cabelo de Taehyung, o que fez o comandante se virar indignado. 

— Hoseok, vamos ficar até amanhã fazendo isso se você continuar parando a todo instante! 

— Se eu quiser eu pinto o seu cabelo até o dia que os outros se explodirem, seu insuportável! — Hoseok exclamou irritado e jogou tinta no rosto de Taehyung. Coloquei minha mão direita na boca para impedir que meu riso escapasse. Esquece tudo que eu disse, Hoseok bêbado era tudo que eu precisava. Taehyung movimentou seus lábios dizendo: “Se você rir, eu vou te...”. Mal o deixei terminar e já estava rindo. — Agora, Jungkook você dizia...? 

— Eu só achei a frase muito forte, entende? “Teu até a morte”. Não é o tipo de coisa que você diz a qualquer pessoa — respondi, dizendo devagar e olhando para Taehyung na última frase. 

— É que você pensa muito no sentido romântico, né Jungkookie — Hoseok sorriu e piscou os olhos de forma nada discreta. Quis bater na minha testa de como ele entregava todo o jogo, mas Taehyung olhava para mim e eu não quis piorar as coisas mais que meu hyung de cabelos vermelhos já fazia por si só. — Mas dizer que você é de alguém não é necessariamente prometer o romance a vida inteira ou que você está apaixonado por ela realmente. Pode querer dizer que você se entrega a essa pessoa ao ponto dela ter você. Em outras palavras, é confiança, entendeu? ­­­­­­­— Hoseok continuou falando e falando toda a viagem necessária para explicar a própria tatuagem enquanto Taehyung fazia gestos e mimicas como se dublasse Hoseok. Ri baixinho e vi Taehyung rir junto a mim. Uma sensação gostosa de ver Taehyung sorrir comigo subiu ao meu corpo e fora (in)felizmente, cessada por Hoseok que havia percebido nossas risadinhas — Meus céus, você reclama quando eu paro de pintar, mas aiiiiiiiii você pode ficar se mexendo pra ficar de risadinha com o Jungkookie, né, seu...

— Eu não estava fazendo nada, Hobi-ah, é o vinho subindo para a sua cabeça — Taehyung não o deixou nem ao menos terminar seu xingamento e olhou sapeca para mim ao mesmo tempo em que usava seu tom de voz mais sonso para com o hyung, aquele mesmo tom que ele contava leves mentiras para a galera acordada na frota para fazerem o que ele estava mandando sem questionar. 

Hoseok hyung semicerrou os olhos para o comandante que agora estava com metade do cabelo preto e a outra metade branca com vários pontinhos pretos (e eu me perguntava, como não tinha uma câmera nessas horas?), e logo se virou para mim:

— Ele está falando a verdade, Jungkookie?

Atrás do meu hyung, estava um Taehyung gesticulando com as mãos vários não a fim de que eu não o entregasse. Até cogitei realizar as súplicas do quase moreno, mas eu gostava muito do Hoseok para mentir. 

E eu também queria uma pequena vingança de Taehyung flertar comigo descaradamente. 

— Não, hyung — falei sorrindo pequeno com um que de vingança, com a reação imediata de um olhar indignado de Taehyung. Hoseok não esperou nem cinco segundos e já havia jogado todo frasco de tinta em Taehyung, sujando sua camisa despojada inteira.

— Mente na nave do caralho, Taehyung-ah! — Hoseok exclamou alto, pegando a garrafa de vinho e virando mais uma vez. Taehyung sujo de tinta escura como o vácuo que nos rodeava na nave, cruzou seus braços e olhou feio para mim. Segurei o riso.

“Você me deve essa, Jeon Jungkook!” li seus lábios se movimentando. Concordei levemente enquanto soltei meu riso de sua situação e Taehyung revirou os olhos, sorrindo comigo.

E aquela sensação gostosa retornara.

Acho que nem se eu quisesse, conseguiria fugir daquilo.

 

 

Eu achei que nada me traria mais exaustão do que treinar no simulador com Trina, ou lutar contra os androides. Estava extremamente enganado, já que fazer Hoseok bêbado ir dormir era a missão mais cansativa e inacreditável que eu vivenciei.

Poderia, de verdade, entrar no meu top 10 de momentos que eu não acredito que fiquei tão acabado.

Primeiro Hoseok pensou que eu estava brincando com ele sobre irmos dormir e começou a me chamar de matador de diversões. Então, ele percebeu que eu realmente estava falando sério e começou a dizer que eu havia o abandonado para ficar de complô com o Taehyung e tinha provas já que me viu conversando com ele. 

(E realmente eu estava em certo complô com Taehyung, o mesmo havia me dito antes de entrar em meu banheiro para lavar seu cabelo e corpo repleto de tinta, para que eu convencesse Hoseok de dormir antes que ele desmaiasse em qualquer canto do meu quarto e fossemos obrigados a carrega-lo para cama) (o que ambos não queríamos uma vez que o hyung conseguia ser incrivelmente pesado).

Depois de muita discussão, travesseiros voando e comidas sendo jogadas em meu rosto (e quase que um dos frascos de tinta de Taehyung se rompe no meu chão), Hoseok cedeu. Deitamos em minha cama que tinha como decoração acima dela, minha janela gigantesca de ponta a ponta com visão do espaço. 

Mas, mesmo com todo cenário acima de si, para meu hyung bêbado, era mais interessante falar à forma que ele mantinha seu cabelo vermelho até os dias atuais enquanto mexia no meu.

Como eu estava exausto o suficiente de tudo, apenas ria desacreditado de suas carícias e puxões desengonçados com sua fala arrastada que, periodicamente, dizia sobre como meus cabelos são macios. 

(Até consegui me distrair do fato de que Taehyung estava tomando banho no meu banheiro, usando a minha toalha e correndo um grande risco de ele sair sem...). 

— E aí eu uso... Tantas tintas... Você deveria pintar o cabelo também, Jungkookie! — falou de maneira arrastada e os olhinhos miúdos, com os dedos enfiados nos meus cabelos e os puxando. — Sempre sobra tinta vermelha mágica e você poderia ficar igual uma cereja e aí combinar... Combinar pra quando você fica vermelho de vergonha que é toda... Hora, né. 

Revirei meus olhos com a última frase, o que o fez dar uma risadinha. A tal da tinta vermelha mágica era uma mistura de shampoo e tintas de pintar robôs humanoides (como Yeri) que, segundo o médico Hoseok (ele usou esse termo mesmo para explicar), era completamente segura em pequenas quantidades e deixava aquele tom vermelho cintilante nos seus cabelos. 

E Hoseok a chamava de mágica por que ele não precisava descolorir o cabelo no processo de tintura. 

— Acho mais fácil eu fechar meu braço de tatuagens do que eu pintar meu cabelo, hyung — Jimin tentou por vários anos para que eu pintasse meu cabelo, uma vez que ele vivia pintando e despintando o próprio. Nunca cedi e não seria a “tinta mágica” do Hoseok que mudaria minha ideia. 

(E o tanto que o médico-cabeleireiro-comandante da robótica-hyung era meio doido, me fazia desconfiar da segurança de colocar tinta de pintar robôs em meus cabelos que tinham contato direto com a minha cabeça).

Eu sabia que mencionar as palavras “fazer tatuagens”, traria um risco de Hoseok começar a tagarelar sobre o assunto e querer discutir todos os tipos possíveis que eu poderia por em minha pele. 

Só que ele não o fez. 

Seu olhar e seus dedos que anteriormente faziam voltas nas pontas dos meus fios foram até uma tatuagem dele e a dedilharam com delicadeza. Chegava até ser bonita, a maneira que ele olhava e tocava suas tatuagens. Era como se fosse um monumento para si.

E a tatuagem acariciada naquele instante, era a da nave. A última e a única que não fora explicada. 

— Não te falei o qual é dessa aqui, falei? — Hoseok pela primeira vez em vários minutos não se embolou com as palavras, apesar de ainda falar arrastado. Neguei com a cabeça para respondê-lo e seu olhar voltou para tatuagem — Eu te falei que a senhora Min quis que eu a tatuasse né?

— Falou — resolvi responder baixinho.

— Ela quis que fizéssemos uma coisa juntos, algo que nós dois sempre carregássemos igual — arqueei minhas sobrancelhas, como num Grand Finale de surpresas da história de Hoseok. 

— Mas... Uma nave? — era um pouco... Estranho... Principalmente pela história dos dois. 

— Foi uma nave que nos uniu para sempre — ele disse, virando de barriga para cima e eu fiz o mesmo, então ficamos nós dois olhando para o nada do espaço.

— Não seria mais plausível vocês tatuarem algo sobre o Yoongi? Afinal, vocês se conheceram por causa dele. 

— Ela tatuou! Não vou te falar o que foi a tatuagem, por que é coisa mais fofa do mundo e eu não aguento mais chorar — me respondeu e eu quase insisti, mas ele retornou a falar — Ambos tatuamos coisas sobre o Gi só que com nossas respectivas memórias e significados com ele. Queríamos algo que o envolvesse e nos envolvesse. 

— Tá... Mas uma nave? — ainda não entrava na minha cabeça os dois tatuando uma nave. 

— Uma nave o levou e uma nave me trouxe até aqui. A nave que tirou nosso amor pode ser a mesma que pode trazê-lo de volta. É uma promessa de esperança, Jungkookie — Hoseok explicou pausadamente como se lutasse contra o sono ou quisesse que eu entendesse muito bem. 

Fiquei quieto em alguns instantes. 

— Não era isso que eu ‘tava esperando — eu jurava que seria pela primeira vez alguma tatuagem sem explicação de Hoseok, que seria só foi um surto de “faça agora” como a da sopa de miojo de galinha. 

Tudo tinha uma explicação, uma memória, uma ideia a ser explorada e eu ficava besta de como Hoseok tinha tanto a oferecer como pessoa. 

Tinha sorte de tê-lo como amigo. 

— Às vezes — Hoseok demorou em me responder e eu podia jurar que ele já estava cochilando. Não ousei fazer barulhos para que o silêncio o forçasse a dormir — As coisas não vem do jeito que a gente quer. Tipo... — a fala arrastada retornara — Eu queria encontrar a mãe do Yoongi, e eu não tava esperando ela estar na cadeia... E tudo mais. O importante é que eu a encontrei... Sabe...?

— E como espera encontrar o Yoongi-ah? — perguntei curioso sobre quais eram seus pensamentos sobre o momento. Depois de ouvir toda aquela história, eu queria tanto que Yoongi estivesse vivo e pudéssemos encontrá-lo. Era uma vontade que até doía. 

— Não me importa. Eu só quero encontrá-lo. O mais difícil que é encontrar ele, se eu já tiver, já estou satisfeito... Mais que satisfeito, radiante — disse invicto e um leve sorriso no rosto, quase não pareceu sonolento dizendo. Me perguntei quantas vezes ele pode ter pensado nisso. 

— É um boa forma de pensar, de verdade — fui sincero. — Bem bonita também. 

— Você sabe exatamente o que é não ter as coisas como você esperava — por mais que eu soubesse de dezenas de momentos que as coisas não ocorreram de acordo com as minhas expectativas, o tom malicioso de Hoseok me deixou confuso sobre qual situação ele se referia. 

— Do que você está falando?

— Sobre você não estar esperando que Taehyung aparecesse em sua porta justo quando...  —  tampei sua boca rapidamente antes que as palavras fugissem de sua boca. E eu conseguia sentir meu coração bater com força em meu peito. 

Assim que juntei minha irritação para xingar Hoseok por não ter nada na cabeça em falar aquilo em voz alta com o assunto da frase estava no outro cômodo, vi que ele havia dormido, enfim.

Como ele havia conseguido dormir com minha mão em sua boca?

Tirei minha mão dali e silenciosamente, me levantei para cobri-lo melhor na cama, com cuidado.

— Não precisa desse evento todo para cobrir ele, o sono de Hoseok é igual de uma pedra  — a voz de Taehyung ressoou atrás de mim e logo me virei. 

Desejei com todas as minhas forças que eu não tivesse o feito. 

Taehyung estava apenas com uma calça que era levemente folgada em suas pernas, mas que não era nada que conseguia esconder o belo par de pernas que ele tinha. E como eu disse: apenas de calças. Da cintura para cima, toda sua pele era exposta, cortando a parte coberta pela toalha que estava pendurada em seu pescoço. 

Era capaz de se ver o inicio de suas clavículas e o peitoral largo que combinava perfeitamente com a extensão de seus ombros. O corpo magro com a pele que parecia ser beijada pelo Sol todos os dias me desconsertaram completamente.

E toda a composição era potencializada pelos seus cabelos que agora escuros como a noite e com aquele corte de cabelo, o faziam parecer um ser de outro universo. 

Nada me tiraria à ideia de que ele realmente poderia ser de outro universo. 

  — Se eu não te conhecesse, Jungkook, diria que está admirado comigo sem camisa  —  despertei e o encarei diretamente nos olhos. Seus fios negros caiam sobre os olhos que cintilavam em um azul tempestade. 

Desviei o olhar e senti minhas bochechas esquentarem:

  — Por que está sem camisa?

  —  Eu me esqueci de trazer uma limpa do meu quarto  — Taehyung respondeu dando uma risadinha  —  Mas você ainda tem essa belezinha aqui, então, não me preocupei tanto...

Olhei para o que ele se referia e estava em suas mãos: o casaco que ele havia deixado em meu quarto no dia que decidi ficar na Alfa. Fechei meus olhos, querendo absurdamente bater na minha testa pela desatenção. 

Eu já tinha me acostumado a deixar o casaco pendurado no banheiro para que eu colocasse depois de tomar banho e poder desmaiar na cama. Não que eu gostasse do cheiro na blusa! (na altura do campeonato, tinha mais meu cheiro do que o de Taehyung)... E sim por que ela era quentinha...

  — Meus céus, Tae, me desculpa... Eu deveria ter devolvido...  — falei, ainda mais sem graça que eu já estava por ver ele um tanto despido.  — Desculpe de verdade e...

— Tá tudo bem, Gukkie. Fica melhor em você do que em mim  — falou com um sorriso mínimo, com os olhos castanhos me encarando de forma doce (quis morrer naquele instante) — Só ia querer emprestado um pouquinho... A não ser que você queira que eu fique sem camisa, eu mesmo não me importo...

  — Vista-a logo, por céus  — tirei meus olhos de si assim que comecei a reparar como sua cintura era fina e harmonizava com seu tórax cor de caramelo. Os detalhes nele prendiam total minha atenção.

Ouvi seu risinho debochado mais uma vez e revirei meus olhos. 

   — Eu tinha que conferir se poderia usar mesmo, certo? Você pareceu gostar bastante de usar esse casaco  —  seu tom debochado quase transbordava em sua fala e fiz uma careta de irritação para si quando me virei. Fora uma ótima máscara para minha real reação dele com o casaco, que mesmo fechado, deixava um corte em "V" no seu peito... Respirei fundo e repeti para mim mesmo: "Vamos lá, Jungkook, você já lutou contra androides gigantes... Você sobreviveu à porrada da highthunder e aos olhares assassinos da Trina... Consegue sim sobreviver ao Taehyung...";

O comandante de cabelos, agora negros, começou a vir em minha direção e todo meu mantra caiu por Terra. Eu não ia aguentar Kim Taehyung.

 — Não deixa de ser seu casaco, Taehy...

  — Você está bem, Jungkook? Não tive a oportunidade de te perguntar sobre... O que aconteceu na Travessia  —  o comandante subitamente se aproximou ainda mais, e segurou meu pulso com delicadeza para chamar minha atenção ao que perguntava. E também me interromper. 

Só que a única coisa que passava pela minha cabeça era como que sempre tínhamos que acabar tão perto um do outro? Não consegui o responder de primeira e Taehyung muito menos, ele mesmo parecia um pouco desnorteado. Ambos ficamos alguns instantes sentindo aquela coisa bizarra. 

Aquele sentimento que nossa proximidade trazia.

Puxei meu braço de seu toque e ele pareceu entender e acordar no mesmo instante, por que se afastou também.

— Estou bem, Tae. Hoseok fez todos os exames possíveis em mim e eu não estou sentindo nada. Só cansaço, mas nem da pra fugir disso nessa nave  — falei, segurando o pulso que ele havia tocado. 

— Me desculpe se apertei com muita força  — Taehyung fez um gesto na direção de meus braços naquela posição estranha que ficaram. — Às vezes, não sei controlar muito a força que tenho.

— Você não apertou forte  — eu não admitiria que a sensação da falta do seu toque perturbava meu corpo.  — E o que você quis dizer com força que...

— Eu sei que você disse que está bem  — Taehyung me interrompeu mais uma vez e eu quis esgana-lo, por céus. Por que era tão difícil ele me deixar fazer uma pergunta que não fosse superficial? — Mas o bem que eu quero dizer é emocional, Jungkook. 

Travei mais uma vez no lugar que eu estava. Pronto. Ele sabia que eu e Jimin terminamos, que eu havia chorado quase metade da água do meu corpo e que eu gostava dele. Iria me caçoar e dizer que não sei cumprir com trato nenhum. Provavelmente, não iria querer nada comigo porque eu com certeza só fui mais um na lista dele apesar de ele ser bem cavalheiro comigo e...

— Jungkook? 

— Anh, o que? — pisquei várias vezes e Taehyung me encarava num misto de preocupação e com nítida feição de quem me achava louco. 

— Você começou a olhar pro nada e não me respondeu, tá tudo bem? — percebi como eu realmente havia crescido, porque agora eu estava com a cabeça na altura da cabeça de Taehyung e eu não podia fugir de seus olhos que me prendiam como ninguém. 

— Claro, claro, estou, ah... — balbuciei por alguns instantes e passei a língua dentro da boca, tentando me recordar do que falávamos. Tomei coragem de pergunta-lo sobre a pergunta dele  — Você me perguntou como estou emocionalmente, não é? Poderia explicar um pouco melhor?

— Sobre o que pensa de ter envelhecido, se está tendo problemas com isso... Se aconteceu mais uma vez o estresse pôs traumático, o luto a respeito de seu amigo...  — começou a citar o que significava sua pergunta e eu fui erguendo minhas sobrancelhas, e por dentro quase pulando de felicidade. Meu cérebro tinha que parar de ser tão mirabolante com as possibilidades  — Pensou que fosse outra coisa...? 

— Não! Não, não, não  — sacudi minha cabeça junto com minhas mãos para expressar a negação. Só me faltava era um Taehyung desconfiado e próximo a fazer alguma piada maliciosa que me deixaria com vergonha  — Eu só queria ter certeza, enfim... Como estou? Envelhecer assim tão rápido foi bem bizarro e esquisito. Às vezes... 

Parei uns segundos para ponderar se deveria contar a ele a respeito da mania que notei de ficar me tocando para ter certeza de que eu era eu. Antes que eu abrisse a boca para inventar outra coisa, Taehyung disse:

— Vou deixa-lo terminar de contar, mas se tiver qualquer coisa que não se sinta confortável, acho que o que eu vim te propor aqui vai te fazer bem nesse sentido. 

Franzi minhas sobrancelhas.

— Propor o que? 

— Bom, Jason me disse que tem uma Yeri que você gosta... 

— Não é exatamente gostar...

— Me deixe terminar, Guk  — se ele não tivesse me chamado pelo apelido de uma forma reduzida e que me deixou abobado, eu tinha certeza que ia manda-lo tomar no cu por sempre me interromper e agora querer que eu o deixe terminar! — E não sei se Hoseok já comentou, mas as Yeri tem várias programações da área da saúde. Elas poderiam ser bem melhores e mais rápidas que são, só que perderíamos tempo demais ativando essas programações uma vez que elas são de um equipamento antigo e precisaria ser manual...

— Aonde você quer chegar com isso...? — eu já estava quase implorando para ele chegar ao final, eu era irremediavelmente curioso.

— Bem, poderíamos programar essa Yeri que você gosta para fazer um tratamento de terapia com você  — Taehyung pareceu entender que eu estava quase morrendo de curiosidade e resumiu. Fiquei surpreso com a proposta. 

E logo me preocupei. 

 —Você não acha que os outros soldados vão ficar com raiva? Eles já acham que sou privilegiado de ter esse quarto... Nenhum batedor novo fala comigo por causa disso, sabia? — despejei todos os primeiros pensamentos que me vieram à mente, logo de cara.

— Ei, calma, calma. Eles não precisam saber que você está fazendo isso — Taehyung logo tentou me acalmar, e colocou sua mão em meu ombro direito como se fosse ajudar em alguma coisa. Ele ainda não entendeu que seu toque me deixava... — E de qualquer forma, você é o mais novo daqui, eles entenderiam...

— Primeiro que: eu duvido muito, você já viu como eles discutem pelas coisas? Até um pedaço de pão é quase motivo pra eles saírem no tapa— Taehyung teve que concordar comigo e eu quase disse que a razão deles não brigarem é a do comandante surgindo periodicamente no salão... Mas eu não daria esse gostinho a ele, definitivamente, não —  E segundo: eu não sou mais novo agora. 

Ao invés de apenas concordar e dizer: "Realmente, Jungkook, você está mais velho agora e como sempre, inteligente", Taehyung apenas exibiu uma expressão maliciosa em seu rosto.

O empurrei antes que fizesse qualquer tipo de piadinha constrangedora e isso arrancou uma risada gostosa de si.

— Nem vem, Kim Taehyung!

—Tá, tá... — o sorriso de como se tivesse aprontado uma retornara ao seu rosto e eu só queria me jogar num buraco negro de tão lindo que era —  Você vai pensar no que eu te falei?

Fiz uma careta denunciando minha duvida e o rosto do homem de cabelos escuros a minha frente ficou mais sério.

— Crises de ansiedade como aquela que teve são algo sério, Jungkook... Não quero que fique daquela forma de novo — não consegui focar o olhar nele por muito tempo, já que pude sentir todo meu rosto esquentar. 

Ele realmente estava preocupado comigo?

— T-tudo bem, Tae — acenei para concordar com aquilo já que minha voz saiu quase como um sopro por conta de minha timidez. Depois disso, aquele pensamento dos soldados sentirem raiva de mim, retornou a minha mente e junto dele, uma ideia — Mas você vai ter que me prometer uma coisa.

A sobrancelha de Taehyung se ergueu e sua feição era um claro: "prossiga", e foi o que fiz:

— Eu faço a tal terapia com a Yeri maaas, você vai ter que prometer que se der certo comigo, vai dar a mesma chance para os outros soldados. Eu acho que todos merecem uma oportunidade de ficarem bem da cabeça também.

Os olhos de Taehyung cintilaram em castanho escuro e azul em questão de segundos. O mínimo que eu havia observado Taehyung me fazia acreditar que isso ocorria quando algo muito emocionante ou várias emoções o transpassava. 

E por isso que ele tinha aquela expressão ilegível; seus olhos o entregavam, de certa forma.

Sorriu abertamente para mim, como se eu tivesse dito que a guerra havia acabado. Parecia admirado.

— Acho que teve uma ideia maravilhosa, Jeon Jungkook — como até um sorriso poderia ser assustadoramente intimidante de tão bonito? — Eu aceito o combinado. 

— Não era você que tinha dito que o trabalho manual demoraria demais? — perguntei, um pouco sarcástico. Taehyung entrou na minha e seu sorriso encantador se transformou naquele um pouco cafajeste que ele sabia montar em seu rosto.

— Nunca é demora demais para ajudar as pessoas — Taehyung respondeu sucinto, com aquele tom que ele usava nos discursos para toda frota. Fiz uma careta de nojo e o comandante riu. — Você odeia quando eu falo como comandante, eu fico impressionado. 

— Parece um ator de novela mexicana — falei me aproveitando do novo termo explicado por Hoseok e ainda com a careta de como se eu tivesse comido algo amargo (porém, era apenas o Taehyung sendo brega). 

— Até mesmo quando eu falo assim? — o tom dele mudou completamente, e era aquele mesmo jeito de usar a voz quando estava dando ordens mais sérias. Me esforcei para não exibir nenhuma reação. — Responda, hm?

Fechei meus olhos, querendo rogar todos os palavrões existentes enquanto segurava a vontade infernal de respondê-lo. Era inevitável querer obedece-lo assim, mesmo eu detestando obedece-lo ao mesmo tempo. 

(Talvez, ele estivesse certo quanto ao fato de eu dever fazer terapia).

Até que Taehyung riu e eu me joguei em minha cama de forma dramática. 

— Meu tom de voz sedutor te fez desmaiar...?

— Ha, ha, você é tão engraçado, Kim Taehyung — falei de forma arrastada e debochada, sentindo os pés de Hoseok tentarem me chutar da cama. O cara tá dormindo na minha cama e ainda quer me chutar!

— Eu sei, eu sei — o comandante disse como se agradecesse a uma plateia e como eu estava com os olhos virados para o teto, não vi que gesto fez. Só que algo me dizia que, ele realmente estava agradecendo como se houvesse uma plateia. 

Ficamos alguns instantes em silêncio, principalmente, quando Taehyung voltara ao banheiro para deixar as coisas sujas e usadas de seu processo de pintar o cabelo e então, os robôs da limpeza viriam buscar. Naqueles momentos, fiquei repassando aqueles minutos que conversamos na minha cabeça e tentando não dar voz a minha paranoia de que ele havia ouvido o que, Hoseok (quase) dissera. 

Não, era possível, era?

— Pretende fazer o que agora? — o retorno da voz de Taehyung ao cômodo me fez, instintivamente, me erguer um pouco para o ver. Estava bem menos sujo de tinta. 

— Tentar pegar meu travesseiro do Hoseok hyung e achar uma posição confortável para dormir no chão por várias horas seguidas — fui extremamente sincero. Tudo que eu mais queria era dormir, foram pelo menos duas horas ouvindo Hoseok e mais umas três com ele e Taehyung.

— Não, não, deixe eu te levar pra um lugar legal — Taehyung deu passos largos até a minha cama e nossos joelhos se esbarraram enquanto ele erguia sua mão para que eu aceitasse seu convite. 

Olhei para seus dedos de forma meio torta e desconfiada. 

— Vamos lá, Gukkie... Eu juro que vai ser legal, confie — o comandante sacudiu um pouco a mão em uma forma de mostrar entusiasmo, revirei meus olhos para si — E você precisa descontrair um pouco, de tudo. Vai te fazer bem.

— Não sei... Eu realmente gosto da ideia de ir dormir — eu também estava levemente desesperado com a hipótese de ir para algum lugar desconhecido com aquele ser humano que eu nutria sentimentos confusos. — E aliás, dormir é uma ótima forma de descontração. 

— Lembre que eu recebi tinta na cara por sua culpa — Taehyung fez chantagem e eu ri desacreditado de sua cara de pau.

— E eu te devo uma por causa disso? 

— É claro que sim, eu disse que devia — me recordava mais da parte que ele estava sorrindo que essa fala dele. 

— Você gesticulou, é diferente — dei de ombros e Taehyung negou com a cabeça, também não acreditando em meus argumentos. 

Conseguíamos ser incrivelmente teimosos, não? 

— Se você não achar legal, pode sair e até mesmo falar pro Hoseok jogar fofoca na nave de que sou mentiroso — seu sorriso um tanto canalha, se emoldurou ao seu rosto — Mas se achar legal...

— Virou uma aposta, é? — ergui uma de minhas sobrancelhas, deixando claro meu interesse repentino. Seu sorriso aumentou um pouquinho mais, percebendo que eu havia fisgado sua isca.

— Quer apostar?   

 

 

Desde que havíamos entrado em estado de “amizade” e quando estávamos fora dos olhares alheios, eram apostas que moviam nossa relação. Meu espirito competitivo conseguia mascarar o quão desconcentrado que Taehyung conseguia me deixar.

Aceitar sair com ele naquele exato momento, foi um desses surtos de espíritos competitivos. Entretanto, assim que vi como a nave estava silenciosa e vazia, e com toda a certeza daquele universo que estávamos, só haviam nós dois de acordados, toda minha bravura de competição foi murchando e eu só queria voltar pro meu travesseiro.

Porém, Taehyung não pareceu reparar quando agarrou minha mão e nos pois a correr pela nave para chegar até o tal “lugar legal”.

 

 

— Eu venho aqui, literalmente, todos os dias e você me traz aqui para descontrair?  — comecei a dizer, olhando descreditado para Taehyung que digitava longos códigos no simulador na sala de simulação. De verdade, eu estava chocado que de todos os lugares legais que ele poderia inventar, ele me levou pra sala que eu mais apanhei na minha existência — Já achei chato, posso ir? 

— Primeiro, você vem aqui todos os dias com Trina, não comigo — Taehyung pronunciou sem se virar para mim, com o corpo todo virado para o objeto metálico que eu estava acostumado de ver Trina digitar nele todos os dias — Segundo, nós nem entramos não vale ainda a aposta.

— Eu que falo "primeiro" e "segundo", Taehyung! — sim, eu não tinha nenhum outro argumento e joguei esse. Olhei para frente e vi a única luva da highthunder reluzir para mim do outro lado da sala.

— Você virou dono do primeiro e segundo, Jungkook? — o mais velho olhou para mim pela primeira vez desde que havia pregado seus olhos no simulador. Taehyung me encarava com deboche e diversão, aquela mesma diversão de como se eu fosse um garoto malcriado fazendo graça. 

— Sim, decretei agora — assim que eu disse isso, o espaço que as simulações ocorriam ficara verde e Taehyung fora o primeiro a pisar e sumir de minha vista. — Filho da... 

Eu já ia xinga-lo de ter me deixado sozinho, porém antes que eu dissesse qualquer coisa, sua mão surgiu entre o limite da simulação e a vida real e me puxou para dentro. 

Estávamos em um completo escuro. E a mão de Taehyung não havia me largado.

— Você me trouxe pra ficar no escuro, Taehyung-ah? — perguntei um pouco sarcástico e depois fiquei tenso com seu aperto em meu braço. Quantas vezes ele faria isso só naquele dia? — Se for pra fazer alguma gracinha...

— O jeito que você desconfia de mim a cada cinco minutos me admira — Taehyung devolveu o tom sarcástico e nos colocou a andar. As coisas pararam de ficar escuras assim que nos vimos de frente para uma porta enorme e duas esculturas ao lado dela.

Tombei um pouco a cabeça para esquerda e me soltei de Taehyung para me aproximar. Minha curiosidade sempre me fazia sair do lugar e naquele momento não fora diferente. 

Me aproximei o suficiente que pude perceber o que eram as esculturas:

— Haechi's? 

— Não sabia que ainda estudavam eles no quartel — senti Taehyung parar ao meu lado enquanto eu observava as esculturas com grande curiosidade. Eram metade da minha altura, provavelmente batiam em minha barriga. Os dois eram idênticos e estavam de lado, como se protegessem a porta. 

— Não estudamos — proferi de repente, depois de entrar em um mar de nostalgias de uma infância não tão perdida em minhas memórias — Eu os conheço por causa da minha avó. Ela ficou doente por causa do gás amarelo então, eu passei uma parte da minha infância na casa de praia dela sem poder sair da casa realmente. 

— Eu sinto muito por isso... Acho que o mais cruel dessa história toda é privar as crianças de serem crianças.  — acenei lentamente concordando com sua fala. 

— Bem, você está certo quanto a isso mas não precisa sentir muito — falei, me afastando um pouco de si e ficando mais perto ainda dos Haechi, abaixando-me a altura deles. Suas presas eram muito bem esculpidas... Quis toca-las mas me recordei que era uma simulação e minha mão apenas transpassaria o objeto — Não era ruim: Minha vó me contava muita coisa de como era o mundo antes dos outros chegarem. Me mostrou livros, fotografias, vídeos... E me contava dos mitos coreanos...

— Então, o Jungkook criança gostava de ouvir o folclore coreano? — Taehyung perguntou num tom quase que infantil, como se estivesse tão curioso quanto eu conseguia ser. 

— Mais do que ouvir sobre vocês, os Kim — falei, enquanto erguia meu olhar para Taehyung que riu exasperado para minha fala — Qual é? Essa criatura mitológica é muito mais legal que três irmãos bonitões salvando o universo.

—Não sei se agradeço em ser chamado de bonitão por Jeon Jungkook — Taehyung começou e eu voltei meu olhar rapidamente para os detalhes da escultura antes que corasse por perceber que, indiretamente, o chamei de bonitão — Ou se fico ofendido de não ser tão legal quanto um Haechi. 

— Ah, confesse, Taehyung — apontei para as esculturas do animal que era uma mistura de vários outros e empunha respeito já que sempre estava em posição de guarda e protegia os palácios antigos da Coreia (que boa parte havia sido destruído pelos outros nos ataques) — Eles são muito legais...

— Nem pensar, olha a cara desse bicho — Taehyung apontou dramaticamente para a escultura e eu ri um pouco — Prefiro esses dragões. 

— Dragões...? —  perguntei sem entender e Taehyung fez um gesto para que eu olhasse para cima e visse a porta. De fato, eu havia dado tanta atenção aos adereços protetores e nem tinha me atentado ao que eles protegiam. 

A porta era pelo menos duas vezes a minha altura e toda ela era coberta por pinturas de dragões. As cores branco, azul e vermelho se misturavam e se recriavam nos detalhes do cenário e os dragões tinham as mesmas cores com detalhes em dourado. Era quase como um ouro reluzente. 

Olhando por um longo tempo dava a impressão que os dragões da pintura se moviam dentro das nuvens e das águas.

Era majestoso. 

— É o ciclo de vida de um dragão na nossa mitologia — Taehyung explicou e eu me ergui, ficando ao seu lado. — De uma serpente do mar para uma criatura benevolente que proporciona as chuvas.

Vendo como eu estava estupefato com a pintura, Taehyung sorriu debochado e eu rapidamente, olhei-o de esguelha com presunção.

— Ok, isso é muito legal... Só que o lugar em si... —  me virei para ao redor da porta com os dragões e as esculturas dos Haechi, num gesto como se procurasse mais coisas — Não tem nada, sabe...

Taehyung ergueu uma de suas sobrancelhas e disse:

— Toque em um dos dragões.

O olhei como se fosse doido (além de eu achar que ele era de outro universo, nada me impedia de acreditar que ele fosse doido também).

— É uma simulação...? — perguntei devagar, assim que percebi que ele estava falando sério.

— Eu sei...? — me respondeu da mesma forma, soando irônico. Revirei meus olhos — Só toque-os, Gukkie-ah.

Encarei Taehyung com desconfiança mas logo fui fazer o que ele dizia. Não estava tão distante da porta e os dois passos que dei foram o suficientes para que eu quase estivesse colado a ela. 

O dourado vinha das escamas dos dragões. De perto, era quase como se respirassem, movimentassem... Existissem realmente. De forma lenta, vi minha mão indo em direção a elas...

E eu senti. 

As escamas, a respiração, o movimento. 

Quase perdi o fôlego. 

— Taehyung-ah! —  exclamei e me virei para si encantado, enquanto meus dedos deslizavam pela pele brilhante daquele dragão. Era assustadoramente real. E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa amais, o brilho passou a se espalhar até que tudo ficasse claro demais. 

Como se a simulação estivesse mudando.

 

Estávamos de frente para longos e largos corredores que os tons se misturavam entre marfim, branco, bege e dourado. Colunas gregas sustentavam os telhados luxuosos com detalhes suntuosos e que davam vista para o céu. O azul estava intensamente claro e nuvens mais brancas que eu conseguia me recordar, flutuavam. 

Nas paredes... Haviam quadros dos mais variados tamanhos. Caminhei um pouco no corredor a minha frente: os quadros eram infinitos e mais a frente se viam mais infinitas esculturas de todos os tipos e tamanhos. 

Foi quando eu entendi onde eu estava. Louvre. 

Eu jamais esperaria ser levado ao Louvre ou simplesmente ir por livre espontânea vontade. 

O Louvre virou o museu internacional de arte em meados da guerra. Os países acharam que seriam mais proveitoso resguardar todas as principais obras de arte de suas culturas em um espaço só, com a maior proteção do planeta. E que lugar seria melhor que um dos museus mais famosos do mundo?

Apesar de saber disso (que era o mínimo de qualquer um), eu nunca tinha cogitado ir ao Louvre porque era uma exclusividade de quem fizera o ensino médio da forma convencional. Como eu tive que estudar no quartel (sozinho), nunca tive a chance. Muito menos tive as aulas de arte oferecidas nos três anos de ensino médio para aprender melhor sobre as obras e que Jimin já havia me contado de serem fascinantes. 

Eu não conhecia nem a metade daquelas peças. Mas era tudo tão belo, agradável esteticamente e impressionante que eu quis com todas as minhas forças ter tido as aulas de arte e ter ido ao Louvre em meu último  ano.

Desejei ter sido um adolescente normal.

— Taehyung... — soltei um suspiro duradouro enquanto não tirava meus olhos de tudo que nos envolvia. — Isso... Isso é...?

— O Louvre, ma chérie — Taehyung abriu os braços como se dissesse "surpresa!" e falou em francês como se fosse estupidamente fácil. 

— Como... ? — eu nem ao menos conseguia terminar minhas frases. Passei a girar em círculos numa tentativa falha de captar os 360 graus. Parei repentinamente e encarei Taehyung sem acreditar ainda, seus olhos que estavam em um curioso tom caramelo, me observavam com diversão. — Como você colocou o Louvre aqui dentro?

— Não foi só eu, seria um insulto não valorizar todo o trabalho de Hoseok, Jiwoo e Namjoon nisso aqui — Taehyung havia cruzado os braços atrás do corpo e andou um pouco até uma gigantesca pintura cinzenta e ficou de frente para ela. 

— Jiwoo trabalhou nisso aqui? — olhei para o chão para ver se eu conseguia descobrir mais coisas novas sobre o lugar. Taehyung demorou a responder e eu fui até ele em passos fortes querendo saber minha resposta — Taehyung, qual é desse lu...

—Eu e Hoseok um dia estávamos treinando — nunca tinha ficado tão feliz de o Kim me interromper —E então começamos a falar como era absurdo não ter nada de entretenimento para os soldados... Um absurdo extremamente injusto

"Começamos a pensar no que poderíamos fazer e lembramos que o Louvre sempre é uma excursão aguardada no último ano do ensino médio de todos. Conversamos com o Namjoon e ele aprovou a ideia, na verdade, ficou bem animado de ter outra coisa para fazer que não fosse comandar a frota inteira. Seria uma diversão para nós também"

—E onde a Jiwoo entra nessa história? 

— Na parte financeira e política — Taehyung disse com um risinho de como se recordasse da época —Jiwoo dialogava com os chefões do governo com Namjoon e eu e Hoseok colocamos a mão na massa de fazer a programação. O pessoal do Louvre foi um pouco relutante de liberar o museu para fazermos mas cedeu depois de eu dar uns autógrafos...

—Super humilde — comentei revirando meus olhos. 

Taehyung sorriu ladino e deu de ombros como se dissesse: "o que posso fazer se sou um comandante aclamado?". 

— Mas se eles liberaram o escaneamento do museu e ele está aqui... Por que eu nunca ouvi falar dessa simulação? 

O sorriso de Taehyung morreu aos poucos e ele deu um longo suspiro enquanto seus olhos azuis se prendiam numa parte do quadro gigantesco em que havia um cavalo que aparentemente estava gritando. 

—Os governantes de todos os países acharam que os soldados se distrairiam com a simulação e mandaram cancelar o projeto — Taehyung suspirou mais uma vez — Eu e Hoseok queríamos ao menos finalizar mas precisávamos de dinheiro e eles fizeram questão de bloquear as nossas contas bancárias.

Parei de encarar o quadro para me virar para o mais velho ali, sem conseguir acreditar no que dizia. O mesmo nem precisou ver minha reação, já ria sem vida como se já soubesse o que eu pensava. 

— É muita ignorância pensar que os soldados devem unicamente servir e lutar, somos seres humanos também — disparei irritado, não conseguindo assimilar o quão injusto era Taehyung e Hoseok fazerem algo legal que daria um pouco de paz para os soldados e nem isso tiveram a decência de permitir. 

— Cultura acrescenta muito mais a nossa espécie do que balas e sangue — Taehyung proferiu e fiquei um pouco em silêncio sentindo o poder de suas palavras. 

Eu tinha certeza que eu seria uma pessoa muito diferente se tivesse aprendido sobre arte no ensino médio ao invés de aprender a atirar. 

— Mas e Jiwoo, ela vivia fazendo coisas ilegais, só financiar isso aqui só não seria mais uma? — perguntei com grandes esperanças na Jung mais nova que nunca se importava muito em seguir as regras. 

— De fato, ela não tinha medo de ser ilegal mais uma vez — Taehyung concordou — Mas se eles congelaram a minha conta, de Namjoonie e Hoseok, faria o mesmo com a da Medicamentos Jung e da própria Jiwoo e muita gente depende da grana da empresa e dela. Não adiantaria. Ficamos com o projeto inacabado mesmo — o comandante deu de ombros. 

— Inacabado? — dei uma volta de 360 graus mais uma vez, observando tudo e tentando encontrar qualquer coisa que gritasse “inacabado” ali. — Para mim, está em perfeito estado. 

— Perfeito estado? — Taehyung fez o questionamento da mesma forma que eu havia feito, soltando um risinho irônico e cruzando os braços — Nós entramos pela porta cultural da Coreia do Sul e estamos na seção espanhola do museu. A simulação é repleta de bugs e só suporta duas pessoas dentro dela... 

— Seção espanhola? — o ignorei reclamando das “imperfeições” de seu trabalho com Hoseok e repeti sua primeira fala. 

— Você está de frente para um quadro espanhol — Taehyung fez um gesto em direção ao quadro gigantesco cinzento a nossa frente. 

— Está mais para uma parede espanhola — brinquei por razão do tamanho do quadro e Taehyung sorriu revirando os olhos com minha piadinha. Me aproximei do quadro e vi uma tabelinha com informações desse e proferi o nome em voz alta — Guernica.

— É do Pablo Picasso — me virei para ver Taehyung explicar e ao mesmo tempo, fiz uma careta com o nome. Nunca tinha ouvido falar de Pablo Picasso — Ele foi um pintor muito importante na Espanha, que revolucionou as formas de pintura já que na época eram cultuadas as pinceladas delicadas e com raras críticas sociais... Quando ele começou a pintar que a câmera fora inventada e então ele decidiu parar de pintar as coisas de maneira bonita e começar a fazer... 

— Feio e com críticas sociais? — deduzi. 

— Exatamente — Taehyung confirmou — Esse quadro retrata a guerra civil espanhola... Quando os humanos ainda brigavam entre si ao ponto de fazerem guerras assim. 

— Ainda existem guerras civis — me recordei de Jimin falando da guerra civil no Marrocos. 

— Não do porte que eram quando Picasso pintou isso aí — Taehyung apontou novamente para o quadro — Hoje em dia, as guerras civis duram menos de um mês... Se forem de um grau maior, ainda assim, não chegam nem a um ano de duração. A guerra civil espanhola que ele pintou durou 3 anos cravados. 

Observei a peça mais atentamente depois das palavras de Taehyung. 3 anos de guerra de uma espécie contra a própria espécie. O quão insano isso soava? Era notório que quem fora retratado na pintura estava sofrendo. 

— Você está olhando para um quadro que fora pintado em 1937 — Taehyung acrescentou mais um conhecimento a obra e foi o que me tirou de olhar para os detalhes da figura a minha frente. — Isso o faz ter uns...

— 204 anos — fiz a conta rapidamente e me virei para si — E ainda assim, você sabe tudo sobre ele. 

— Eu criei essa simulação, seria estranho se eu não soubesse sobre — falou, gesticulando para o cenário ao nosso redor — E todos os quadros daqui merecem ser lembrados. 

— Então você sabe tudo sobre eles? — ergui minha sobrancelha e perguntei em tom de desafio. Dei largos passos para longe da enorme pintura e apontei para primeira que vi que não tivessem as formas geométricas de Picasso. Me dei o trabalho de tampar o nome da obra — Qual é essa obra e quem pintou?

— Essa é de Diego Velázquez e chama-se Vênus ao Espelho — Taehyung disse com simplicidade e eu retirei minha própria mão para conferir. Ele estava certo — Me impressiona você ter escolhido um nu artístico, Jungkook...

Eu nem ao menos tinha olhado a peça direito, apenas escolhi aleatoriamente. Com a fala do comandante, me virei para observar e realmente era uma pessoa pelada. Era uma mulher branca nua, deitada de lado e se admirando em um pequeno espelho que um cupido segurava. Desviei o olhar sem graça da tela assim que o observei com mais cuidado e Taehyung riu. 

— Preciso te avisar que muitos quadros possuem nudez — contou com o sorriso cafajeste preso ao rosto — É bem normal no mundo da arte à naturalização de pessoas peladas, sabe? Não precisa se assustar. 

Revirei meus olhos com seu tom de como se explicasse pra uma criança e me aproximei de si, sorrindo um pouquinho. Como sempre, um ou outro acabava se aproximando e era inevitável. 

E fiz isso sem perceber. 

— Posso aguentar isso, afinal, esse lugar é incrível — admiti, cruzando meus braços. 

— Ah, então consegui fazer Jeon Jungkook achar o lugar legal? — Taehyung me encarou sugestivo e eu havia esquecido completamente da aposta que fizemos.

— Olha, não foi você que fez o lugar ficar legal, é o Louvre, sabe? Já é legal por si só.

— Mas ainda assim você admitiu que gostou, ou seja... Eu ganhei — sorriu presunçoso, as íris azuis cintilavam em vitória e eu bufei. — E segundo a aposta...

— Eu tenho que ficar até você me mostrar tudo — terminei a frase por ele e fiz uma careta — Mas... Taehyung — o chamei, um pouco receoso. 

— Hm? — ele me olhou com mais cuidado depois que chamei seu nome devagar e seus olhos brilharam em castanho. 

Foi bonito de se ver. 

— Eu não... Não tive aulas de história da arte — falei um pouco envergonhado. Não gostava de parecer saber menos perto de Taehyung. Ele já me intimidava o suficiente mesmo quando eu sabia das coisas, imagina não sabendo? — Não conheço nem metade dessas obras. 

Taehyung apenas ergueu sua mão para mim e sorriu. 

— Vai ser um prazer apresentar elas a você, Jeon Jungkook — sua mão mais uma vez fora um convite só que dessa vez, não demorei em aceitar. 

 

Taehyung realmente conhecia as peças de todos os cantos daquele museu. Claro que não paramos para ver uma por uma, já que caso o fizéssemos, passaríamos mais de um mês ali dentro. O comandante me deixou livre para ir apontando as obras que me chamavam a atenção. E eu nunca tinha um padrão em minhas escolhas, sempre eram detalhes novos que me encantavam. 

As formas, os traços, as cores, curiosidade de o porquê pintar algo tão diferente no meio de pinturas tão repetidas às vezes (descobri que na Europa de centenas de anos, eles tinham uma obsessão em pintar "a natureza morta", ou seja, vi muitos quadros de frutas em vasos).

E era extremamente bom ouvir Taehyung falar deles. Ele dizia tudo com um entusiasmo genuíno e apontava peculiaridades que eu não havia percebido. Às vezes, eu nem ao menos conseguia prestar atenção no que ele falava e sim, no jeito que ele falava apaixonadamente. 

Fiquei imaginando um pouco em uma realidade paralela na qual Taehyung com suas roupas exóticas fosse apenas um guia do museu e eu apenas um garoto do ensino médio indo visitar. 

As coisas seriam diferentes?

Demos uma volta pela ala da Espanha e logo fomos para a da Itália, onde Taehyung disse que todos os países de língua latina estavam com seções próximas no museu. Os quadros e esculturas da Itália eram muito bem feitos, bonitos e realistas e não pareciam acabar nunca, pois eram inúmeros.

Não que isso fosse ruim. Aprender mais e ver Taehyung tão fora de sua máscara de comandante eram um prazer imenso. 

— Esse é o afresco chamado Criação de Adão, pintado por Michelangelo e ficava num teto de uma Capela na Itália — Taehyung apontou para cima e eu ergui minha cabeça para ver. Era uma pintura comprida onde um homem barbudo  envolto de anjos quase encostava-se à mão de outro homem que estava deitado. Descrevendo assim até parece que é tosco, mas era realmente fantástico de se ver — O Michelangelo pintou isso e mais dezenas de outras imagens bíblicas em 4 anos, sozinho e quase o tempo todo em pé olhando pra cima. 

— Deve ter dado um puta torcicolo — foi à única coisa que eu consegui pensar na hora e até mesmo fiz tapei minha boca depois, sem graça com a fala repentina. Taehyung deu uma leve risada.

Desgraçado de bonito. 

— Ele ficou com dezenas de dores realmente, mas era um cara determinado — Taehyung de repente pareceu se lembrar de algo e foi em direção a um quadro que estava a nossa frente — Por isso que ele não gostava muito do cara que pintou esse quadro aqui. 

Era uma tela enorme tanto de altura quanto de largura, onde haviam mais de dez pessoas dispostas em uma mesa com variadas poses e gestos (um mais cômico que o outro se posso dizer).

— "A Última Ceia" de Leonardo Da Vinci — fiquei ao lado de Taehyung e li a plaquinha que continha informações ao lado do quadro  — Por que o Michelangelo não gostava do Da Vinci? 
 — O Michelangelo era um homem muito sério e esforçado, tímido e trabalhava duro nos trabalhos dele. Já o Da Vinci, era extrovertido, não entregava os trabalhos completos ou nos prazos e era bem de boa com tudo. Eram opostos e rivais —
Taehyung explicou.

— Bem, de rivalidade eu entendo bastante — joguei no ar minha frase e Taehyung me deu uma cotovelada. — Ai!

— Nossa rivalidade é para fins benéficos, não é, Gukkie? — disse em seu tom de discursos e eu fiz uma careta de desagrado. 

— Diga por você —  me afastei e fui andando até outro quadro que havia chamado a minha atenção, onde duas mulheres decapitavam um homem (e tinha muito sangue na ocasião). Ouvi Taehyung me acompanhando atrás e eu sorri de canto, sem poder conter o quão adorável eu havia achado aquilo.

— Ah, Jeon não seja um Michelangelo mal humorado comigo! — falou Taehyung parando com o braço colado ao meu. Ao mesmo tempo em que eu queria tirar meu braço, queria deixa-lo ali para sempre naquele simples contato de peles — Esse aí é da Artemisia Gentileschi, uma mulher que conseguiu passar por cima do preconceito com as mulheres em sua época e ser valorizada como artista. 

— Uau —fui capaz de emitir apenas aquilo, verdadeiramente encantado com toda a tela e as novas informações — Por que tanto sangue? Não era tão comum assim ter tanto sangue, era? — perguntei curioso, uma vez que eu não me recordava de ver tanto sangue na maioria das obras.

— O período artístico que ela fez suas pinturas era o Barroco —  Taehyung teve que parar um pouquinho para pensar em minha pergunta, mas assim que formulou a resposta, passou a dispara-la rapidamente — Que valorizava mais o feio, sujo e nojento... Bastante sangue era normal, tipo um gore de época, sabe? E a Artemisia fora sexualmente abusada na juventude então, nos quadros dela é comum ver um homem sofrendo.

— Achei incrível a forma de vingança dela — sinceramente eu não pensei em nada melhor que sair pintando o seu alvo de revolta sofrendo como vingança.

— Se eu não fosse comandante da frota interestelar e fosse capaz de atirar nos outros, faria o mesmo que ela — Taehyung confessou e ao mesmo tempo me fez lembrar da frota por alguns instantes. 

Era louco como ficar ali dentro aprendendo tanto me fazia esquecer de tudo, de outros, de conflitos, de problemas e da frota. Era um universo inteiro dentro de uma simulação. 

E sinceramente, eu queria conhecer o máximo dali... Com Taehyung.

— Sairia pintando os outros sofrendo? — questionei com divertimento, encarando o rosto esculpido do mais velho ali. 

— Com certeza absoluta, é uma ótima forma de terapia — Taehyung deu de costas e começou a andar pelo largo corredor de telas e obras — A própria Artemisia é prova disso, morreu com 60 anos em uma era que isso se via com raridade. 

— Por isso que você disse que moraria na Europa, não é, Tae? — fiz outra questão só que dessa vez, com um tom mais atencioso, enquanto caminhava atrás deste que fiz a pergunta. Fazer perguntas pessoais a Taehyung era sinônimo de incerteza se ele responderia ou não — A maioria das faculdades de história da arte internacional estão lá...

O Kim parou de andar repentinamente e se virou, olhando para mim com aquele olhar indecifrável dele que mudava de cor em poucos segundos. Ele estava entre duas estátuas enormes e outras peças de arte. Naquele instante, eu soube que facilmente daria para confundir Taehyung com aquelas obras. 

Ele parecia uma delas.

— Está tão óbvio assim que essa é a razão?

 

Se eu havia achado a parte da Itália grande, a da França era quase infindável. Primeiro, vimos dezenas de esculturas de um tal de Rodin (que Taehyung ficou tentando me fazer pronunciar da forma correta que é "Rodã"). Depois, veio uma avalanche de quadros parecidíssimos que Taehyung contou que era normal eu sentir uma semelhança entre eles, já que foram pintados no mesmo período artístico, Impressionismo. 

— O Monet e o Renoir eram amigos como você pode ver nesse quadro, o Renoir pintou o Monet pintando — mostrou a tela em que era vista um homem em um jardim colorido com tons foscos. Era alguém fazendo uma pintura dentro de outra pintura. —  Na verdade, eles eram todos um tipo de clube, sabe? Renoir, Manet, Monet, Degas... E inventaram esse estilo menos realista, com cores alegres e...

— Meus céus, você disse muitos nomes — brinquei que estava tonto com a quantidade de palavras e Taehyung me deu um leve empurrão, sorrindo — E os quadros continuam parecidos demais para serem de pessoas diferentes. 

— São de pessoas diferentes e é fácil de pegar de quem é quem, olhe — Taehyung veio para trás de mim e pegou em minha mão e começou a apontar para os quadros ali presentes. Naquela altura do campeonato, eu estava até com a respiração travada. Não conseguia acreditar que ele havia feito aquilo — O Degas, pintava as bailarinas — disse e me fez dirigir meu indicador a um quadro em que várias meninas de tutu pareciam ensaiar numa sala de balé — O Renoir gostava de pintar as pessoas com olhos bem grandes e expressivos — dessa vez o escolhido fora um onde duas meninas com vestidos azuis e rosa, encaravam o espectador com seus olhos redondos e grandes que quase que eram totalmente desproporcionais ao rosto pequeno e delicado — O Monet curtia mais pintar paisagens e a natureza e foi até mesmo esse quadro aqui que deu nome ao movimento que ele faz parte — um barquinho flutuava em meio a um cenário repleto de vários tons de azul, verde e laranja do Sol que a obra exibia — E o Manet era o mais "realista" do grupo já que caracterizava bem as formas das pessoas e seus rostos —um menino tocava um instrumento com um chapéu e de uniforme vermelho, preto e branco.

Assim que terminou de falar, simultaneamente nos encaramos bem perto um do outro, de uma maneira que só tínhamos ficado quando nos... Suspirei e me afastei de si e ele automaticamente fez o mesmo. 

 — Por que você faz essas coisas? — perguntei baixinho e me referindo a sua súbita aproximação.

— Pra ver sua cara de perdidinho que não sabe como reagir — foi sincero e eu o olhei indignado — É fofo, Gukkie-ah...

Deixei um tapa estalado em seu braço. 

— Você definitivamente é um Michelangelo irritado — Taehyung falou quando o dei as costas. Revirei meus olhos me afastando o máximo possível e observando os quadros vizinhos e tentando acertar o nome dos pintores de acordo com o que o (idiota) falou — Mas tenho certeza que Michelangelo não era tão bonito quanto você, fique tranquilo.     

 Taehyung disse em um tom simplório e como se fosse o fato mais óbvio que existisse. Continuei a andar pelas telas charmosas com pinceladas curtas, mas com as bochechas queimando e o coração a mil.

 

O corredor da França ao meio se cortou em outro corredor, de forma que parecia que estávamos no meio de dois corredores ao mesmo tempo. Parecia que haviam fundido e a prova maior disso é que um quadro ali na confusão de paredes e corredores estava dividido ao meio com duas pinturas diferentes: o lado direito possuía aquelas cores em tons pastel do Impressionismo e do lado esquerdo, cores fortes e quentes se destoavam completamente de seu vizinho de tela. 

—Eu disse a você que a simulação não é perfeita como deveria — Taehyung relembrou sua própria fala e acenou em direção ao defeito do cenário artificial — É cheia de bugs e agora a seção da França fundiu com a do... Brasil, eu acho?

— Olhe! Aquele quadro parece com aquela escultura do Rodin — balancei minha mão para uma tela ao lado da que estava toda equivocada. Era um desenho de um ser com pernas e braços enormes totalmente desproporcionais a cabeça minúscula. Havia um Sol e um cacto quase do tamanho do homem solitário presente na pintura com cores quentes. 

— Você não está errado, Abaporu provavelmente foi inspirado no Pensador mesmo — Taehyung concordou com minha fala e eu me abaixei para ler as informações da tela. 

— Tarsila do Amaral? — tentei pronunciar o nome devagar para não errar nenhum fonema. O comandante acenou que eu havia acertado e eu sorri alegre com o meu feito. — Por que ela pintou parecido com o Pensador?

— Ela acreditava num movimento artístico que era o de absorver a cultura de outros países e transformar em algo do seu país — explicou e eu acenei demonstrando que havia entendido. E eu tive uma ideia então logo me sentei no chão, ficando abaixo da pintura de fundo azul claro — O que você está fazendo? 

— Absorvendo uma pintura brasileira que foi absorvida de uma escultura francesa e fazendo uma pose coreana — falei, imitando a pose do Abaporu e consequentemente, do Pensador. Taehyung olhou para mim incrédulo e dando risada. 

— A sua versão é mais sorridente que a do Pensador, com toda certeza — quando parou de rir, Taehyung fez uma pose insinuando que estava julgando meu trabalho artístico — Agora, o seu nariz e do Abaporu são incrivelmente semelhantes, uma bela referência.

Olhei para cima para procurar algum nariz na pintura e definitivamente não havia nenhum. Olhei para Taehyung sem entender e ele me encarava com um sorriso debochado. Voltei a procurar na tela e compreendi sua ótima piadinha. 

Dei um salto e comecei a estapear o braço de Tae com força mais uma vez, com mesmo explodindo em risadas. 

— Eu já disse que não curto ser muito o que apanha, Gukkie-ah — Taehyung disse em meio as risadas. 

— Quem se importa? Eu não me importo! Aquilo nem é um nariz, seu imbecil! Não sabe nem interpretar o desenho direito — finalizei meus tapas com um mais forte ainda e que Taehyung emitiu um grunhido de dor, mas ainda com o sorriso debochado no rosto e os olhos azuis exalando divertimento com a situação — Você fala como se seu nariz fosse pequeno né, comandante?

Taehyung tentou olhar para o próprio nariz (o que o deixou vesgo e foi bem fofo, porém, eu estava com raiva!) e depois deu de ombros.

—Não é só o nariz que é grande, então... 

Infelizmente, essa eu entendi de primeira.

— Ewwww — fiz uma careta de desgosto enquanto tapava minhas orelhas e encarei Taehyung indignado — Por que você é assim?

Sai andando pelos corredores que cada vez mais apresentavam os bugs que Taehyung havia dito. 

— Gukkie, eu estava brincando. 

— Aham — respondi irônico. 

— Jungkook... 

— Estou te ouvindo, Taehyung — continuei andando. 

— Mas você tá ficando mais longe, Jungkook — comecei a dar passos mais rápidos e mais largos. — Jungkook! 

 

Depois de quase corrermos pelos corredores infinitos iguais duas crianças bobas (sem nem ao menos parecer ser um comandante e um soldado) e um pedido de desculpas (de Taehyung) e farpas (de minha parte), voltamos a fazer o tour pelos quadros com as explicações adicionais de Taehyung ao longo do caminho. 

As imperfeições da simulação foram ficando mais claras de acordo com cada parada, já que os quadros deixaram de ser por país e naquele momento, estavam dispostos sem lógica alguma. 

Tinham até esculturas gigantescas que de alguma forma saíram empilhadas! 

Mas cortando esses deslizes, não deixava de ser interessante ver e conhecer aquelas obras. E Taehyung estava completamente certo, eu precisava mesmo relaxar. 

Esquecer tudo e ao mesmo tempo relacionar tudo ao que eu aprendia naquelas artes. 

Aprendi sobre um japonês chamado Hokusai, uma mexicana com o nome de Frida Kahlo e mais tantos nomes e histórias que era impossível eu pensar em outros, treinos, Hoseok, Jimin ou qualquer outro detalhe. 

E por mais que todas essas coisas fossem importantes a serem pensadas, eu também merecia um pouco de paz e descanso. 

Estava grato de ter tido isso. 

Com Taehyung. 

 

— Parece que a simulação estabilizou um pouco e se transformou na seção holandesa — Taehyung se pronunciou quando viu os quadros mais à frente. 

— Como tem tanta certeza? 

— Aquele quadro ali — apontou para um onde vários homens vestidos de preto e chapéu da mesma estavam envoltos a um cadáver que era cortado por um deles — É de Rembrandt, que ia na mesma onda que a Artemisia, lembra? 

— Barroco? — não tinha tanta certeza assim, afinal, vimos tantas peças... E eu era um homem de exatas. 

— Exatamente — piscou para mim e eu desviei o olhar rapidamente, preferindo encarar a peça escura e um pouco medonha de Rembrandt — E ali, são alguns de Van Gogh, também holandês. Por isso que percebi que a seção holandesa está presente aqui. 

O tom de voz de Taehyung tinha mudado um pouco ao falar do tal do Van Gogh. Como se mostrasse algo que gostasse de verdade. Ao chegar perto, os quadros tinham um certo padrão de cores e pinceladas, o que denotavam que pertenciam a um mesmo autor. 

Mas cada um transmitia uma energia diferente. Foi o que mais me chamou atenção. 

— São encantadores, não? — eu nem ao menos tinha percebido Taehyung parar ao meu lado. Realmente fiquei envolto nas pinturas. 

— Mais do que qualquer outro que vi aqui — admiti baixinho, não conseguindo tirar os olhos das obras azuis e amarelas do holandês. — Como ele fez um quarto parecer tão instigante?

Apontei para uma das telas que exibia um quarto perfeitamente simples entretanto com as cores tão bem colocadas que eu não conseguia tirar os olhos. Passava uma ideia de conforto para mim. 

— Van Gogh era bom com as cores primárias. Principalmente, amarelo — Taehyung reforçou o que eu já tinha percebido — Ele tomava remédios para tratar seus transtornos emocionais e um desses remédios o fazia ver a cor amarela com mais nitidez. 

— É a coisa mais triste e ao mesmo tempo, mágica que já ouvi — expressei minha reação ao que fora dito, imediatamente. 

Não consegui dizer mais nada e nem mesmo Taehyung. De longe, li o nome completo do pintor. Vicent Willem Van Gogh. 

Minha mente começou a viajar dentro dos desenhos deste que observávamos enquanto eu me perguntava se ele havia sido feliz com o amarelo que tanto pintou. 

Porém, não perguntei nada a Taehyung. Nem ele ao menos me perguntou se eu queria saber mais alguma coisa ou foi soltando dados novos sobre o artista (ele tinha feito isso ao trajeto todo). 

Foi como se tivéssemos perdido as palavras.

E realmente, deixamos que Vicent roubasse todas nossas palavras. 

 

Tivemos que deixar a simulação por causa dos bugs que começaram a deteriorar todos os quadros, as paredes e o teto (que começou a quebrar e seus pedaços caíram quase em cima de mim). O comandante pegou em minha mão e passamos a correr pelos corredores, que começaram a cair ao nosso redor. 

— É uma pena que não tenha durado tanto — apesar de estarmos correndo para caralho, eu não estava preocupado. Sabia que era uma simulação e Taehyung não exibia nenhum indício de que estava preocupado, parecia até mesmo nada surpreso com o desfecho de nosso pequeno passeio — Tinha que mostrar e falar com você dos quadros da Nigéria, eles são de... JUNGKOOK, PULE! 

Soltei a mão de Taehyung e dei um salto em cima de uma pilha de quadros que havia se materializado a minha frente. Mesmo com tudo ruindo, eu soltei um riso. Era a adrenalina jorrando em meu sangue, me deixando zonzo e alegre para fugir da arte que pela primeira vez, tentava me matar. 

Quem diria que arte poderia tentar matar alguém não é?

Taehyung tomou minha mão novamente e viramos um dos corredores. Aquele pedaço já estava vazio e sem nenhum quadro, repleto de buracos no chão. No fundo daquele local, estava a porta que havíamos entrado. Os dragões pareciam cintilar, mesmo de longe.

— Tudo bem, Tae, eu me diverti bastante — falei, enquanto pulávamos os buracos. 

— Você nem viu a parte interativa do museu, ela é fenomenal. Quando chegarmos a nave de Seokjin, eu posso pedir ao Namjoon a parte da simulação que ficou com ele, talvez esteja melhor que essa — se houvesse alguém assistindo a nós dois tentando alcançar a porta, provavelmente acharia engraçado. Estávamos correndo mas conversando em tons normais, como se falássemos do que havíamos comido no café da manhã. 

— Kim Namjoon vai estar lá? — perguntei, assim que paramos de frente para porta. Só a ideia de já conhecer os dois Kim que restavam para eu dizer que já estive na presença da tríplice, me dava enjoo.  

— Meu irmão é um pouco excêntrico, gosta de presenciar as coisas — Taehyung explicou,  dando de ombros. Ótimo, era só isso que faltava. Um Kim que eu sentia coisas por ele, um que me odeia e outro excêntrico. 

Tudo que eu pedi pros céus. 

Antes que Taehyung pudesse abrir a porta, um dos buracos se abriu bem aonde ele estava de pé e a sorte é que estávamos de mãos dadas. 

— Taehyung! Por que você é tão pesado? — perguntei quase gritando, enquanto ouvi altíssimos barulhos de objetos arrebentando. Acho que era o teto. 

— Jungkook, você vai ter que se jogar comigo! — Taehyung gritou dali, pendurado com a escuridão logo abaixo de si. 

— Que porra? — olhei para ele como se fosse doido (e definitivamente confirmei a premissa). Ouvi mais barulhos de queda e baques. 

— Eu to falando sério, é o único jeito de saírmos! — exclamou e eu olhei para a escuridão ao seu lado com apreensão. Voltei a olhar para o homem que eu segurava com força para não cair. Seus olhos estavam castanhos. — Jungkook, você vai ter que confiar em mim. 

Respirei fundo e fechei meus olhos, acenando para sua afirmativa. Quando abri meus olhos, apesar de tudo estar entrando no mais perfeito caos, Taehyung esperava minha resposta. 

Acenei mais uma vez e eu me joguei no negrume daquele buraco, sem soltar a mão dele em nenhum momento. 

 

Caímos para fora do tatame da simulação. E por o destino gostar de sempre me dar prendas, eu caí bem em cima de Taehyung. O mesmo nem reclamou ou fez qualquer piadinha de mau gosto, apenas caiu em uma gargalhada gostosa que eu havia visto poucas vezes ele dar. 

Não demorei muito para acompanhá-lo na risada. Estávamos vivos e isso era total motivo para sorrirmos.

— Viu, estamos bem — Taehyung disse entre risadas — Você tinha que ver sua cara de desespero, Gukkie-ah!

— É óbvio que eu estava desesperado, você é incrivelmente pesado! — respondi, enquanto não conseguia tirar aquele sorriso do rosto. 

Voltamos a rir e só após algum tempo, com a adrenalina diminuindo, passamos a apenas nos encarar. 

Irônico como quanto menos eu queria escutar meu íntimo em estar perto dele, parecia que o universo me empurrava para situações como aquela. Em que estávamos miseravelmente perto e eu não conseguia fugir de seus olhos brilhantes que as íris se modificavam a todo instante, nem de seus lábios nem tão cheios mas, belos o suficiente para mim. 

E eu não fugi. 

Muito menos ele.

 Presos naquele magnetismo que nos unia, ambos fomos em direção da boca um do outro, onde já no encostar de lábios, eu senti tudo dentro de mim revirar, esquentar e ter a sensação de acender. 

Eu nem ao menos me recordava de como se respirava. 

Demos vários selares demorados e quase que castos em comparação aos que tivemos da primeira vez. Mas não deixavam de ser agradáveis. Tinham gosto de saudade. 

Taehyung repentinamente separou o beijo (que mal era um beijo), mas não abriu os olhos. Sua feição era de tristeza e eu o encarei preocupado, ao mesmo tempo que não conseguia acreditar o quão bonito ele era. 

— Nós não conseguimos ficar em trégua alguma não é, Jungkook? — falou, sem nem abrir os olhos. Sorriu triste e deu dois tapinhas em minha perna. Entendi no mesmo instante que era um pedido silencioso para que eu me levantasse e ele pudesse fazer o mesmo. 

Por alguma razão, o fiz sem questionar.  Não falei nada. Me encontrava em uma espécie de transe. Taehyung disse algumas coisas e elas soaram abafadas para mim. Me deu as costas e eu não sabia o que dizer e muito menos o que ele havia me dito. 

Eu odiava aqueles momentos em que as palavras me sumiam. Que meu coração batia forte o suficiente para que eu cogitasse que ele sairia da boca, uma ansiedade surreal. Onde o medo me envolvia. 

Como eu tinha tanta valentia para lidar com buracos de minhoca e robôs gigantes e não com aquilo? 

Eu não podia deixar Taehyung ir. Eu tinha que enfrentar meu medo de encara-lo e dizer o que eu estava pensando de verdade. Poder fazer o que eu queria de verdade

Não podia deixar que aqueles momentos no museu tivessem sido só momentos. 

Fui correndo atrás de Taehyung, chamando seu nome. Tudo ao meu redor parecia ter ficado mais claro quando passei a correr atrás do que eu queria, dessa forma, pude ouvi-lo dizer muito bem: 

— Jungkook... É melhor ficarmos longe. Eu ficar longe de você é a melhor coisa na realidade, não sei me...

Assim que consegui alcançar o homem de roupas exóticas que havia saído antes de mim daquela sala, o puxei pelo ombro e o encarei nos olhos enquanto firmava minhas mãos em seu corpo: 

— Eu e Jimin terminamos. 

Taehyung piscou diversas vezes, todas as vezes com seus olhos trocando de cor. Parecia tão abobalhado quanto eu fiquei diversas vezes na sua presença. Pois aquela era a verdade: Taehyung me deixava bobo porque eu estava gostando dele igual o idiota que eu era.

Não tinha ideia quando começou, porque começou e nem como eu não havia percebido antes. Mas era a verdade. Eu estava gostando demais de Kim Taehyung, com todas as letras e todas as emoções tolas que envolviam esse fato. 

— Por minha culpa, você quer dizer...? — Taehyung abriu a boca pela primeira vez desde que eu confessei meu término. 

— Não! — fechei meus olhos e sacudi a cabeça. — Não, meus céus, não. 

— Então, você não contou a ele o que aconteceu? — perguntou com o rosto notavelmente confuso, os olhos mais castanhos que nunca. 

— Contei! Claro que contei. Contei várias coisas a ele e essa principalmente— confessei, ainda segurando os ombros do comandante com medo dele fugir. — Terminamos por uma série de fatores que discutimos juntos e decidimos fazer isso juntos. Não precisa se sentir culpado por isso, eu juro a você. Está tudo bem.

— Eu não tenho nada a ver com isso, então? — eu já ia responder que não, mas o jeito que Taehyung me olhava já era completamente diferente. Sorria de lado e seus olhos não trocaram de cor. Permaneceram profundamente castanhos enquanto me olhava com adoração. 

Adoração. 

Meu aperto em seus ombros suavizou e fora inevitável que nós dois nos aproximássemos mais uma vez. 

Mas agora sem remorso. Sem obstáculos. 

Sem incerteza alguma. 

— Taehyung, sinceramente? — perguntei e ele acenou logo em seguida — Desde o instante que eu pisei na Alfa, tudo — dei ênfase em tudo — Absolutamente, tudo na minha existência, tem um pouco de a ver com você. 

— Isso quer dizer que eu tenho um pouco a ver em tudo na sua cabecinha? — perguntou um pouco sarcástico, ficando mais perto ainda de mim. Suas mãos grandes rodearam minha cintura e eu quase soltei um suspiro. 

— Não se ache tanto — falei baixinho, enquanto ele me apertava com gosto. Não consegui abafar meu suspiro e ele riu. 

— Desculpe, Jungkook, é que tudo em você, absolutamente, tudo — imitou minha forma de se declarar e eu revirei meus olhos, mas mesmo assim, ainda incapaz de parar de sorrir.  — Não me deixa me controlar muito. 

— Por que está se controlando agora para me beijar, então? — não sei de onde tirei bravura para fazer tal pergunta mas já estava de saco cheio desse papo todo. Queria muito beijar Taehyung e jurava que tinha deixado isso claro. 

Taehyung afrouxou um pouco suas mãos em minha cintura e dentro de mim tive medo de ele me soltar. Pisei em toda minha timidez e pavor para ele me soltar daquela forma? Eu ia surtar.

Mas ele não precisava saber dessa parte. 

— Porque primeiro: quero saber se está tudo bem mesmo — disse em um tom questionador e sua feição estava demonstrando um pouco de sua aflição quanto ao assunto. — Já falei que não quero ser...

— Sim, Tae, está tudo bem. Eu sou um homem solteiro e você não está sendo amante de ninguém — o interrompi e tirei as palavras de sua boca. — Precisa confiar em mim dessa vez. 

Taehyung selou meus lábios rapidamente e suas mãos em minha cintura voltaram ao aperto usual. Quase abri um sorriso de orelha a orelha mas me contive. 

— Eu confio, Gukkie, só preciso tirar a limpo para ter toda certeza — respondeu, se aproximando e me selando mais uma vez — E segundo, eu acharia melhor que se for para darmos vários amassos que fizéssemos isso em uma cama. 

Ergui minha sobrancelha. 

— Você não presta — ri, e sacudi a cabeça negando, de bochechas quentes. Taehyung logo se aproximou e deixou vários beijos nelas.

— Vamos lá, Jeon, hm? — foi até minha orelha aproveitando que estava próximo e cochichou contra meu ouvido, me puxando contra seu corpo e seu aperto em minha cintura estava quase que possessivo. Desceu seu rosto pelo meu pescoço e começou a deixar beijos molhados que me faziam entrar em combustão. 

Gemi baixinho com todas aquelas sensações que perpassavam meu corpo sendo que ele nem havia me beijado ainda. Todas as coisas que ele me fazia sentir me desorientavam completamente e antes, me faziam querer fugir. Só que naquele momento, depois de admitir que estava solteiro enfim e praticamente dizer indiretamente que eu o queria, eu apenas queria mais daquelas emoções que me cegavam. 

Eu queria mais de Taehyung. Incansavelmente, infinitamente. Eu queria tudo que ele pudesse me oferecer. E suas mãos passeando pelo meu corpo e depois retornando a minha cintura com uma pegada forte que me aproximava ainda mais de si, me fazia ter certeza que eu era tão desejado quanto. 

Sem o responder, fiz a mesma coisa que quando havíamos nos beijado pela primeira vez, naquele protótipo de hospital: eu mesmo comecei o beijo. Taehyung não demorou em corresponder. Era insano. Indescritível. Não havia culpa, não havia receio. O beijo tinha saudade, tesão, vontade e... Aquelas borboletas no estômago. 

Eu não estava com temor de senti-las. 

Quando o beijo se partiu, o comandante me convidou para ir ao seu quarto.

E eu não tive medo daquela vez. 
 

 


Notas Finais


ARTISTAS E OBRAS MENCIONADAS NO CAPÍTULO (em ordem de aparição):
Pablo Picasso - Guernica
Diego Velázquez - Vênus ao Espelho
Michelangelo - A criação de Adão
Leonardo Da Vinci - A Última Ceia
Artemisia Gentileschi - Judite decapitando Holofernes
Renoir - Monet Pintando um Jardim em Argentheuil
Degas - A Aula de Dança
Renoir - Rosa e Azul
Monet - Impressão, nascer do Sol
Manet - O Tocador de Pífaro
Rodin - O Pensador
Tarsila Do Amaral - Abaporu
Hokusai e Frida Kahlo não mencionei nenhuma obra mas recomendo procurarem o trabalho deles, é incrível!
Rembrandt - A Lição de Anatomia do Dr. Tulp
Van Gogh - Quarto em Arles
BÔNUS: Haechi (ou Haetae) e dragões coreanos valem uma boa leitura, viu? A mitologia coreana é bem surpreendente.

então, eu to bem insegura com esse capítulo porquê eu tentei unir meus dois amores: pintores e escultores mundialmente famosos e interestelar. não sei se ficou bom mas eu me esforcei bastante para que ficasse legal e não fugisse tanto da ficção científica da história.
finalmente nossos bebês estão juntos e agora a fanfic vai entrar na segunda (melhor) fase. eu espero de coração que vocês tenham gostado.

https://twitter.com/BATHOFVENUS meu Twitter como sempre, sou aberta a ouvir comentários e surtos.

não tem previsão de próximo capítulo, mas vocês sabem, eu sempre volto.




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