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História Intermitências - Capítulo 2


Escrita por: softhyuk

Capítulo 2 - Sempre que ele fica, I


Era madrugada quando Yoongi pulou a janela do quarto de Sora, levando no pulso um elástico de cabelo que roubou de cima da mesa de cabeceira. Correu rua abaixo sob a luz azul de início de dia, ainda o sol se escondia atrás dos telhados maltratados das casas. Ela queria encontrá-lo mais tarde na escola, muito embora soubesse que ele havia desistido fazia muito tempo.

— Soubeste do Yoongi? — perguntou a Namjoon, apoiado nas grades da escola pública que frequentavam. O amigo negou enquanto enfiava um pedaço de pão na boca e ajudava a engolir com sumo de maracujá. — Ele voltou.

— Onde é que ele está? — quis saber. Sora encolheu os ombros e rejeitou o pedaço de pão que Namjoon lhe ofereceu.

— Ele disse que o namorado da mãe o expulsou de casa.

— Não duvido, o tipo é doido! Uma vez vi-o bêbado a atirar em latas de cerveja vazias. Quando o Yoongi o foi tentar parar quase levou uma bala nas fuças — contou. — Ele passou a noite em tua casa? O Taehyung sabe?

— Não, nem pode saber.

— Eu não vou contar — assegurou e Sora sorriu em jeito de agradecimento.

— Achas que ele bate na mãe do Yoongi?

— Quem sabe… Ele só bebe cerveja e ninguém lá do parque de caravanas gosta dele. O Yoongi queria tirar o meio-irmão de casa, mas não tem para onde o levar.

Sora brincou com um pedaço de tinta a lascar das grades, virando pó e grudando nos dedos húmidos. Namjoon trazia o nó da gravata errado e ela riu.

— Afinal o que aconteceu entre vocês os dois? — perguntou.

— Uma coisa estúpida. Sabes como o Yoongi fica quando está bêbado…

Avistaram Taehyung dobrar a esquina ao fundo da rua. Ele acendeu um cigarro e sacudiu os cabelos loiros. Trazia as mangas do uniforme arregaçadas nos ombros, os cabelos da franja mal cortados e o cigarro aceso na boca. A maioria das garotas da escola eram apaixonadas por Taehyung e escreviam-lhe bilhetes com declarações. Corria o boato entre os rapazes de que Taehyung era gay só porque se perfumava e hidratava o cabelo.

— Gostas dele? — Namjoon perguntou. Taehyung ainda vinha longe e aproximava-se sem pressa, de pernas longas enfiadas nas calças do uniforme e sapatilhas de pano nos pés.

— Gosto. Mas também gosto de Yoongi.

— Mais cedo ou mais tarde vais ter de fazer uma escolha.

— O Yoongi nunca foi uma escolha. — Sora sorriu triste e Namjoon não disse mais nada. Yoongi era irresponsável, gostava do caos, de sumir e aparece quando bem lhe apetecia.

Taehyung chegou, por fim, de pele beijada pelo sol e sorriso bonito. Cumprimentou Namjoon após beijar Sora e lhe oferecer o resto do seu cigarro. Meteu uma pastilha de mentol na boca e passou um dos braços pelos ombros da namorada. A campainha soou estridente e eles atravessaram o portão sem pressa, cientes de qualquer castigo que pudessem apanhar pelo atraso.

No fim da tarde, quando entrou em casa, encontrou o pai sentado no sofá da sala. A televisão estava ligada aos berros e cheirava a noodles instantâneos. Sora foi recebida com uma bofetada que lhe deixou o rosto dormente e lhe arrancou um dos brincos da orelha. Antes que pudesse questionar, o pai atirou-lhe à cara o maço de cigarros que ela escondia na mesa de cabeceira.

— Mexeste nas minhas coisas — acusou. O pai ameaçou dar-lhe outra bofetada, desistindo a meio do processo. Sora apanhou o brinco do chão com os dedos de unhas roídas e viu o pai caminhar de volta para o sofá e acender um cigarro. Pensou em dizer-lhe que ele não passava de um hipócrita. A última vez que discutiu com ele, porém, terminou com algumas marcas de cinto nas costas.

Ao entrar no quarto tomou um susto quando viu Yoongi do lado de fora da janela a tentar entrar na divisão.

— Ficaste completamente maluco? Queres que o meu pai nos mate?

Yoongi segurou-lhe o rosto pequeno nas mãos, vendo uma marca nítida de cinco dedos cravada na pele morena e sangue no lóbulo direito da orelha.

— Não devias deixar que o teu pai te batesse!

— E tu não devias deixar que o namorado da tua mãe te expulsasse de casa! — ripostou zangada, soltando-se do aperto de Yoongi. Ele riu. — Qual é a graça?

— Nenhuma.

— És doido.

Yoongi apoiou as costas na parede e fitou Sora, que o observou de volta em silêncio. Pela janela aberta entrava um calor abafado com cheiro a terra seca.

— Hoje fui visitar a minha mãe. Ela pediu-me para eu voltar lá para casa, mas eu não quis. Também teve o descaramento de dizer que estava limpa quando se via bem na cara dele que tinha acabado de cheirar coca. — Riu a contragosto e passou os dedos grossos pelos cabelos ressecados.

— E o teu irmão?

— Tinha acabado de chegar da escola. Quando saí de lá fiz uma denúncia e veio um assistente social buscá-lo. — Suspirou ruidosamente. Pela primeira vez em muito tempo, Sora viu desespero naqueles olhos cor-de-abismo que a fitavam assustados. — Ouvi a minha mãe a gritar e o meu irmão a chorar. Não sei se fiz o que era certo.

Sora abraço-o, acolhendo-o nos braços magros quando o viu desabar em lágrimas. Yoongi apertou-a com força, cravando a ponta dos dedos na carne dos seus ombros e abafando os soluços no seu pescoço liso.

— Ninguém sabe o que é o certo e o errado — garantiu. — Ao menos fizeste aquilo que julgaste ser o melhor. Vai ficar tudo bem, Yoongi.

— Promete — pediu.

Mas Sora não podia prometer uma coisa daquela, por isso fez a única coisa que podia fazer naquele momento: beijou-o. 



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