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História Intermitências - Capítulo 4


Escrita por: softhyuk

Capítulo 4 - Sempre que ele diz que vai embora


Namjoon descascou uma tangerina e ofereceu metade a Sora — as unhas cravadas na casca ficaram amareladas e com cheiro cítrico. Sora agradeceu e comeu com lentidão os gomos doces e pegajosos, sucumbindo à fome. O céu estava limpo e fazia muito calor. Sora não via Yoongi há três dias seguidos.

— Tens visto o Yoongi? — perguntou.

— Ele tem dormido lá em casa e ontem foi vistar o meio-irmão ao lar de acolhimento. Também quis visitar a mãe, mas foi corrido a gritos e ameaças de caçadeira.

— Lembras-te de quando a mãe dele nos fazia lancheiras com melancia cortada aos cubos quando íamos em visitas de estudo na escola básica? — Sora perguntou com certa nostalgia e Namjoon acenou com a cabeça. — Parece que foi há tanto tempo…

— A culpa foi do pai do Yoongi que fugiu com outra mulher.

— Ela era tão simpática e agora já nem me reconhece quando passa por mim na rua.

— O Yoongi diz que ela consome coca…

— É…

Deixaram o silêncio abater-se sobre eles. O vento quente cortava-lhes a respiração e fazia os uniformes escolares grudarem na pele suada. A sombra das folhas agitadas das árvores assemelhava-se a um caleidoscópio gigante. Namjoon terminou de comer a sua metade da tangerina e deitou as cascas ao lixo. 

— O Yoongi está bem? — Sora perguntou assim que o amigo se voltou a sentar.

— Não. Ele diz que vai embora.

— Outra vez? — perguntou desiludida, zangada, acostumada. — Ele é mesmo um estúpido!

— Talvez seja melhor assim.

— Então era melhor se ele fosse de uma vez por todas e parasse com este joguinho que só serve para lhe alimentar o ego — ditou. Yoongi ia e voltava e, nas intermitências das suas idas, Sora esperava que um dia ele ficasse. Sabia, porém, que Yoongi estava demasiado quebrado para ficar. Ele não pertencia a lugar nenhum, muito embora ela soubesse que aquilo também o fazia sofrer: antes tivesse um lugar para chamar de lar. — Se ele for realmente embora nunca mais o perdoo — disse, ciente da sua mentira. Ia recebê-lo de novo com alguma piada ácida e o coração aos pulos.

— Ele também gosta de ti — confidenciou Namjoon.

— Isso é mentira.

— Porque achas que ele volta sempre?

Sora encolheu os ombros. Yoongi podia voltar por diversos motivos e ela não se achava incluída na equação. Talvez ele voltasse apenas para ser recebido de braços abertos e saber que alguém sentira a sua falta em algum lugar.

— Ele é muito egoísta — acusou.

— Somos todos — constatou o amigo. Sora pensou em Taehyung: talvez ela também fosse uma grande hipócrita.

Yoongi voltou a aparecer no seu quarto naquela noite e eles ficaram em silêncio deitados no chão a encarar o teto por muito tempo. Yoongi ganhara uma cicatriz na sobrancelha e a ferida do lábio já tinha sarado. As roupas dele cheiravam a fumo e sabão em pó.

— O Namjoon disse que ias embora. — Sora falou com pesar, reprimindo a vontade de chorar. Yoongi demorou em responder.

— Talvez… Aqui não há nada para mim.

— Então e eu? — perguntou angustiada. 

— Tu devias esquecer-me.

— Então devias parar de aparecer — rebateu irritada. Os nós da madeira do teto formavam desenhos estranhos e assustadores.

— Desta vez vou para sempre.

— Não vás — pediu Sora.

Yoongi levantou-se, roubou um dos cigarros de Sora e pôs-se a fumar à janela. Metade do rosto era iluminado pelo candeeiro da mesa de cabeceira e a mão tremia enquanto segurava o cigarro entre os dedos calejados. Ele bebia muito café e fumava demais: ia ficar arruinado do coração e dos pulmões.

— Então termina com o Taehyung.

— E como sei que vais realmente ficar?

— Não sabes. Eu vou com o vento.

Sora levantou-se do chão e fitou Yoongi, debruçado no parapeito a soprar fumo por entre os lábios de aspeto doente. Ele terminou o cigarro com lentidão, atirou o filtro pela janela e devolveu o olhar a Sora.

— Eu posso ser a tua casa, Yoongi.

Ele sorriu triste.

— Já és. É por isso que eu volto sempre — despediu-se, saltando pela janela, e a escuridão da noite engoliu-o ao longo da rua deserta.



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