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História Intermitências - Capítulo 5


Escrita por: softhyuk

Capítulo 5 - Sempre que ele parte


O parque de caravanas ficava na periferia e cheirava a mijo e fim do mundo. As ervas cresciam selvagens e mirravam sob o sol quente, que também torrava a tinta branca-encardida das caravanas e a fazia estalar. Havia roupa pendurada em cordéis a secar ao sol e algumas crianças corriam atrás de uma bola de futebol com as caras sujas de terra. Sora só visitara o parque quando criança e não conheceu o homem de pele queimada do sol e barba por fazer que lhe abriu a porta da caravana onde Yoongi costumava morar com a família.

— O Yoongi está? — perguntou. O ex-namorado não passara a noite em casa de Namjoon.

— Ele não está. — O homem respondeu com um sotaque americano carregado.

— Posso esperar aqui por ele?

— Não quero nenhuma fedelha amiga do Yoongi aqui em casa — bravejou, mandando-a embora com um gesto rude de mão e fechando-lhe a porta na cara. Sora ainda ficou a encarar a porta ferrugenta com um aviso de despejo afixado. O homem meteu a cabeça de fora por uma das janelas e agitou a caçadeira no ar. — Vai embora, miúda! Vai!

Perto das duas da manhã ela acordou com o barulho de pedrinhas a bater contra a janela do quarto. Lá em baixo, na luz amarela dos postes de eletricidade, estava Yoongi.

— Hey — saudou.

— Hey — devolveu Sora. — Pensei que tinhas ido embora — comentou, fingindo indiferença.

— Soube que foste ao parque das caravanas — disse. — Não devias ter ido. O Zeke é um bronco! Bateu-me quando tentei visitar a minha mãe e depois ainda lhe deu uma surra.

— A tua mãe está bem? — perguntou preocupada. Yoongi fez que sim com a cabeça. — E tu?

— Matei-o.

— Mentiroso — acusou. Yoongi limitou-se a encolher os ombros.

— Posso subir?

— Não é como se costumasses pedir das outras vezes — atirou com acidez. Yoongi riu e trepou a grade até à janela do primeiro andar. Roubou um dos cigarros de Sora e acendeu-o. — Não tens dinheiro para comprar os teus próprios cigarros?

— Eu vivo à custa do família do Namjoon, então não. — Riu sem graça. — O que é isso no teu ombro? — perguntou quando viu uma negra cobrir as sardas douradas do ombro esquerdo de Sora. Ela encolheu os ombros e ele notou que ela não usava soutien por debaixo da camisa de noite.

— Foi o meu pai.

— Um dia também o mato por te bater — disse, apertando o cigarro entre os dedos. Sora riu triste.

— Pode ser — concordou, apoiando a cabeça sonolenta no ombro de Yoongi.

Ele deixou o quarto de Sora já passava das quatro da manhã. Puxou-a pela cintura fina e ela mergulhou os dedos nos seus cabelos rebeldes quando se despediram com um beijo. A língua dele sabia a tabaco e Sora ficou inebriada de fumo.

Alguns dias mais tarde Sora levou uma tareia de cinto quando o pai chegou bêbado a casa e nessa noite Yoongi não apareceu no seu quarto.

— Acho que ele foi embora — disse Namjoon. — Ninguém o vê há dias.

— Ele disse que matou o namorado da mãe. Achas que é verdade? — Sora perguntou reticente e viu Namjoon encolher os ombros ossudos.

— Sei lá, é o Yoongi. Nunca dá para saber quando é que ele mente ou diz a verdade.

Duas semanas mais tarde Sora encontrou Yoongi caído na rua. Cheirava a sangue e asfalto quente e os joelhos desnudos dela queimaram quando se ajoelhou perto dele. Yoongi levara uma surra e estava inconsciente. Sora não sabia dizer se ele ainda respirava.

— Yoongi — sussurrou. Ele não se mexeu e ela tocou-lhe no rosto ensanguentado, manchando a saia e a camisa do uniforme quando o puxou para si. A t-shirt branca que ele vestia tinha uma macha vermelha muito escura por cima das costelas, empapando a erva seca à beira da estrada com sangue seco. Depois de começar a gritar deu por si a ser arrastada por uma das vizinhas para dentro de casa e ouviu ao longe uma sirene de ambulância.

Quando Sora regressou às aulas viu que os alunos tinham feito um memorial no átrio da escola com a fotografia de Yoongi do anuário do ano anterior e havia bilhetes escritos em post-it. Taehyung abraçou-a e deixou-a chorar no seu ombro quando leu o poema que o presidente da associação de estudantes escrevera em forma de homenagem.

Rendida, Sora percebeu que não haveriam mais intermitências entre idas e voltas: só uma lacuna.



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