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História (In)usual - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Disse que postaria duas fanfics hoje lá no twitter, mas... SURPRESA! Tem essa que decidi manter em segredo porque é meio que um presente para uma pessoa muito especial para mim e estou devendo algo do gênero para ela há muito tempo. @NanaHope, essa oneshot Taekook ABO é para você!
Não é exatamente o que estava planejando te dar, mas por enquanto, esse é um humilde presente e espero que goste. De todo o coração, você é muito importante pra mim e obrigada por estar aqui comigo há anos! ♥

Sem mais enrolação~

Capítulo 1 - Capítulo Único


“— Bons ômegas cozinham para seus alfas.”

 

 

“— Você não cozinha para o seu, Taehyung?”

 

 

“— Você não sabe fazer nada? Tá na hora de aprender algumas coisas, não acha?”

 

 

“— O papel de um ômega é deixar seu companheiro satisfeito.”

 

 

“— Nossa, ele está bem com isso? Digo, alfas não deveriam cozinhar, esse papel é de ômegas. Seus pais não te ensinaram não?”

 

 

“— Quer que te passe algumas receitas, querido? Vai treinando, vai ser melhor assim, seu alfa vai gostar.”

 

 

 

Taehyung sempre ouviu esse tipo de coisa. Não uma vez, não duas; mas sim, um monte. Durante anos.

Ele não ligava para o que diziam antes, mas de tanto persistirem na mesma coisa tanto tempo, aquilo ficou em sua cabeça e ele começou a remoer sozinho. Foi gradual, mas em algum momento, ele começou a se aprofundar nesse assunto.

Jeongguk notou. Claro que notou o silêncio inusual do mais velho. Eles já se conheciam muito bem e sabiam as nuances de cada um, portanto, não foi nada difícil perceber que seu ômega estava amuado por algum motivo.

Jeongguk virou para o lado da cama em que Taehyung estava deitado. O quarto estava um breu, mas ele sabia que Taehyung estava de costas para si e ele mordeu os lábios, ponderando.

Seu ômega não gostava de ser pressionado a falar. Se Taehyung sentia-se mal sobre alguma coisa ou se magoava, ele dizia, mas dizia em seu próprio tempo, quando já estivesse preparado para conversarem. Sempre foi assim desde que se conheceram, em meados de três anos atrás.

No começo foi difícil para o alfa lidar com ele, mas aos poucos foi entendendo que precisava dar espaço até Taehyung vir a si.

Porém, agora estava considerando se era uma boa esperar. O estado em que o ômega estava durava alguns dias e Jeongguk estava quebrando a cabeça tentando ser paciente.

A respiração de Taehyung se alterou e o alfa desistiu de se manter longe, passando os braços pela cintura fofa do seu companheiro e o trazendo para si. Taehyung se remexeu surpreso, mas se acalmou quando sentiu Jeongguk deixar um beijo em sua cabeça e o cheiro dele invadiu seu olfato, trazendo todo o tipo de conforto que precisava para aquele momento.

O ômega suspirou um pouco, deixando por hora, as preocupações de lado e focando no homem que o segurava apertado como se dissesse que não o deixaria cair.

 

 

 

 

 

 

Dois dias depois, Jeongguk estava em seu sofá (na verdade era uma poltrona grande de couro marrom, péssimo para a decoração da sala, mas era presente da sua avó e ele não teve como recusá-la), com um controle de Xbox na mão, enquanto dedicadamente prestava atenção aos gráficos na televisão.

Era por volta de seis da tarde, ele havia acabado de chegar do trabalho e como não tinha mais nada a fazer, foi tentar recuperar seu antigo recorde perdido.

Caçou mais um dos salgadinhos espalhados, enchendo a boca enquanto havia tido um pequeno intervalo e logo voltou a teclar os botões com precisão. Foi mais ou menos naquele minuto que a porta da frente abriu e Taehyung entrou com diversas sacolas abaixo do braço, dando um oi simples ao seu companheiro entretido, antes de ir a cozinha.

Jeongguk registrou aquilo em uma parte do cérebro, mas só se ligou de que seu ômega estava em casa, quando um barulho de panelas caindo ecoou pelo apartamento. Ele pausou o jogo, um pouco assustado, e seguiu para o lugar, parando ao batente com uma séria dúvida sobre o que estava se passando.

— Amor, o que está tentando fazer? — Perguntou confuso, ao mesmo tempo que tentava conter o sorriso por ver que seu companheiro já havia chegado.

Taehyung levantou a cabeça, terminando de catar a panela do chão e olhou por cima do ombro com os lábios apertados e os olhos brilhando com determinação.

— Eu vou fazer o jantar hoje, Jeongguk.

A sentença não deveria ser tão estranha, mas o alfa abriu a boca surpreso e bastante curioso. Ele tentou perguntar alguma coisa, mas Taehyung se virou e resolveu o ignorar, focado em uma receita que havia visto naquele dia, um pouco mais cedo.

Ele iria fazer algo para seu alfa! Estava determinado. Era isso que ômegas faziam, né? Eles alimentavam seus alfas e garantiam sua satisfação. Então ele tinha decidido que iria alimentar Jeongguk.

— Porque o repentino interesse, Tae?

Taehyung mordeu o lábio.

— Eu quero poder cozinhar também. Eu sou um ômega, afinal.

— Taehyung–

— Gguk, você quer comer jjajangmyeon? Eu li uma receita hoje e acho que sei fazer, ou melhor, não é tão difícil... — Divagou, mas viu quando o mais novo balançou a cabeça em concordância, então Taehyung sorriu para seu alfa, dando as costas para poder preparar tudo o que precisaria para fazer o prato.

Jeongguk ficou no batente por alguns minutos, os braços cruzados na frente do corpo, observando Taehyung com atenção.

Por fim, voltou para o sofá, teclando uma mensagem em seu celular rapidamente. 

Taehyung está estranho, sabe de alguma coisa?

 Eu não sou babá do seu companheiro não, Jeon

Mas é o melhor amigo dele… infelizmente

Vou ignorar a última parte, seu idiota

Ah, Jimin! Vamos, me ajude com isso!

Tenha mais respeito, moleque! Pra você é Jimin hyung e outra: o companheiro é seu. Nossa, já basta o meu testando cada grama de paciência que eu tenho, aí vem você também…?

Você sabe como o Taehyung é! Ele não vai me falar agora e eu estou quase batendo a cabeça na parede pra entender porque ele está na cozinha tentando fazer jjajangmyeon pro nosso jantar.

Urgh... Francamente, Jeongguk.

O que foi?

Ele está tentando aprender a cozinhar.

Isso eu já entendi, ó grande gênio. Mas quero saber o porquê? Eu sei fazer pra nós dois!

Tsk… Nunca percebeu como é a pressão sobre ômegas? Nunca ouviu ninguém dizer sobre como um ômega deve se comportar?

O que isso tem a ver, Jimin?

Vou ignorar sua insolência, moleque... Enfim. Muitas tradições ainda continuam, tal como a dx ômega cozinhar. Geralmente o pai ou mãe ômega que ensinam essas coisas, mas você sabe que nunca houve essa figura na vida do Taehyung. Ele nunca chegou a aprender isso, porque não teve ninguém lá pra ele.

Mas estamos juntos a tanto tempo e eu gosto de cozinhar pra nós dois!

Fala isso pra ele então! Tem algumas pessoas muito idiotas e presas ao passado que não param de importunar Taehyung com essas coisas, Jeongguk. Acho que ele está ficando um pouco paranóico por causa disso.

 Jeongguk fechou o maxilar mais forte.

Saber que seu companheiro estava sendo tratado desse jeito por algumas pessoas lhe deixava com raiva. Ele deixou o celular no sofá mesmo, não se importando em continuar a conversa com Jimin e foi para a varanda.

Não era grande, mas cabia duas cadeiras de madeira que colocavam para sentar nos meses de calor. Não era verão, mas Jeongguk não se incomodou com o vento de outono, enquanto tentava se acalmar.

Ele ficou observando a vista da cidade, prédios se estendendo por vários lugares, casas residenciais pequenas daquela distância. O sol já havia abaixado e agora a escuridão trazia as luzes fluorescentes dos postes, a lua e as estrelas.

— Droga! — Resmungou o alfa, apertando mais forte o ferro da grade que protegia, sentindo-se culpado e triste.

Se ele tivesse prestado mais atenção… se ele tivesse protegido mais seu hyung…

Ele não queria que Taehyung mudasse e não se importava em fazer as coisas para ambos, não apenas no âmbito alimentício, mas em todas as áreas que um ômega “deveria” fazer. Era um pensamento ultrapassado, os papéis hoje em dia eram mais *bagunçados*, como sempre deveria ter sido, e não deveriam ter um tipo de rótulo ou lista específica para cada.

Alguns minutos depois, a porta de correr voltou a se abrir e o cheiro gostoso de chocolate e amêndoas se misturou a brisa.

Mesmo assim, Jeongguk sentiu e respirou fundo, tentando obter mais daquela combinação que fazia seu corpo esquentar de todas as maneiras.

— Jeongguk-ah… eu terminei. Você não quer experimentar?

A voz suave e rouca de Taehyung acertou-lhe a audição e Jeongguk se permitiu virar o corpo de lado, inclinando a cabeça até conseguir mirar o mais velho parado na porta. Os ombros dele estavam tensos e Jeongguk chegou a pensar no quanto aquilo significava para o seu companheiro, o quanto ele se importava e queria melhorar por ele, mesmo não precisando.

Respirou mais uma vez, mais calmamente dessa, enchendo o pulmão com ar para depois soltá-lo no mesmo ritmo. Funcionou em conter seus sentimentos negativos e ele conseguiu responder sem tremer:

— Claro, amor! Deve estar delicioso, vamos? — Deu um sorriso de encorajamento e Taehyung sentiu a bochecha um pouco mais quente, as mãos suando de nervoso por não saber se o seu companheiro gostaria.

— É minha primeira vez, Gguk. — comentou. — Eu não acho que esteja bom.

A confissão fez o mais novo sorrir mais amplo, dessa vez sendo mais verdadeiro e mais descontraído.

— Eu sei, amor. — Ele se aproximou, ficando de frente com o ômega. Suas alturas eram parecidas, portanto não teve dificuldades ao levantar seu rosto, os olhos ficando na mesma altura praticamente e o polegar que havia repousado em sua bochecha, começou a acariciar a pele macia com leveza. — Eu vou levar isso em consideração ao avaliar e dar uma nota.

Taehyung piscou, mas sorriu um pouco quando ouviu o som divertido do seu alfa, claramente lhe atiçando em uma brincadeira. Inclinou a cabeça para o lado do polegar, sentindo o lugar onde suas peles se tocavam ficando mais quente e seu coração falhando umas batidas.

Era sempre assim quando ficavam perto um do outro, mas daquela vez ele sentiu que era um pouco diferente. Talvez o cuidado que Jeongguk o estava tratando ou a forma que tentava animá-lo fez seu coração se apertar mais com amor.

— Mesmo se a nota for 1, você vai comer até o final, Gguk?

Taehyung sorriu maior agora, e Jeongguk ficou ainda mais calmo, afinal, se havia uma provocação como aquela, já mostrava que as coisas poderiam ser trabalhadas e Taehyung ficaria bem.

— Claro! Foi meu companheiro quem fez, eu não vou desperdiçar.

— Bajulador. — Acusou, mas o mais novo negou em um movimento fluído de cabeça.

— Só muito apaixonado mesmo. — Soltou brincalhão e viu as bochechas de Taehyung se avermelharem, rindo um pouco enquanto seguia para a cozinha.

 

 

 

 

 

 

 

Era notável para Jeongguk que a comida de Taehyung não estava tão boa. Não era nem de longe daquelas que se pediam por telefone, por exemplo.

Os legumes estavam um pouco crus, o macarrão cozido demais e havia muito molho de soja preto, deixando tudo um pouco mais forte do que deveria. No entanto, também era nítido que Taehyung se esforçara. Para quem não sabia fazer nada antes, Jeongguk reconhecia sua tentativa.

Ele olhou para seu ômega do outro lado da mesa, mastigando com os olhos baixos como o mais novo não tinha visto muitas vezes antes. Parecia que sua animação anterior havia se esvaído por completo. De repente, como se soubesse que tinha os olhos do alfa em si, Taehyung o encarou de volta:

— Não ficou bom, não é? Desculpa, Gguk.

— Não está de todo ruim. Para uma primeira tentativa, está bom. Isso é um cinco.

— Mentiroso… — Taehyung murmurou e deixou os chopstick na mesa. — Não precisa comer, vou pedir alguma coisa.

— Eu não menti, Tae. — Se defendeu, mas Taehyung nem mesmo o olhou enquanto se levantava e jogava a comida de seu prato no lixo.

— Taehyung, vem cá.

Não era bem uma ordem, mas a dureza na voz do alfa não passou despercebido e Taehyung se retesou por um momento. Sua natureza omega dizia para ele abaixar a cabeça e acatar, mas ele não o fez, preferindo caminhar até seu companheiro com raiva. Não de Jeongguk, mas de si mesmo por não saber fazer algo tão simples como fazer o jantar de ambos. Se sentia inferior e ele odiava aquilo.

Parou ao lado do alfa e Jeongguk virou sua cadeira em sua direção e abriu um pouco as pernas, batendo nas próprias coxas para que o mais velho se sentasse. Taehyung mordeu o lábio, mas foi, seu lobo ficando menos agitado em seu interior pelo contato com o companheiro, mas ainda tinha um beicinho irritado que era adorável na opinião de Jeongguk.

Ele circulou os braços na cintura de seu ômega, tentando escolher as melhores palavras para abordá-lo.

— Meu amor, você sabe que eu te amo, né? — Questionou Jeongguk, olhando para os olhos bonitos do ômega.

Taehyung balançou a cabeça, franzindo levemente as sobrancelhas sem saber onde o Jeon queria chegar.

— Eu te amo. Minha parte humana e meu lobo escolheram você.

— Eu também te amo, Gguk. — Taehyung respondeu.

— Eu sei. Eu sinto pela nossa marca o quanto te afeto, amor. — Confessou e tomou um tempo para pensar no que dizer a seguir. — Mas algumas coisas eu não consigo descobrir. Eu preciso que você me fale, Tae.

Taehyung balançou a cabeça, dizendo que tinha entendido, mas conforme o tempo passava, Jeongguk sabia que ele não diria nada, então continuou:

— Me diz porque estava triste a semana inteira. Eu preciso saber pra tentar consertar isso.

— Não é nada, Gguk. Bobagem minha…

Jeongguk suspirou e seus braços apertaram mais os lados do mais velho.

— Está escondendo as coisas de mim novamente, mas isso não vai te fazer bem ou poupar minha preocupação, Taehyung. — Argumentou, já tendo ideia do que se passava na cabeça de seu companheiro. Ele sempre tinha essa tendência de esconder o que acontecia com medo de preocupá-lo. De uns tempos para cá não tinha mais feito isso e Jeongguk achou que estava tudo bem, mas agora sabia que não. Isso deixou-o frustrado e chateado.

Os segundos foram se estendendo silenciosos um com o outro. Taehyung não fez nenhum movimento como se quisesse falar, embora sentisse a garganta apertada e amarga. Ele só não conseguia se expressar, já que seu interior e lobo, pareciam feridos.

Inferior.

Abaixou a cabeça para o chão, escondendo os olhos e Jeongguk tomou isso como um sinal para não empurrá-lo mais. Soltou os braços que o seguravam e deixou-o livre, murmurando que estaria no quarto quando quisesse conversar, depois que o ômega se levantou relutante do colo dele.

Sem mais nada a dizer, Jeongguk saiu da cozinha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jeongguk claramente não era um dos maiores leitores. Raramente se interessava por livros além dos que lia na faculdade, que na verdade era mais obrigado a ler para ganhar nota. Mas agora, quando viu o livro na cabeceira da cama, seu interesse por clarear a mente pareceu lhe impulsionar para pegá-lo e folheá-lo.

Durante algum tempo, conseguiu entrar de cabeça no assunto. Era um livro de Taehyung, que provavelmente estava terminando se o marcador não tivesse sido colocado lá aleatoriamente, e falava sobre arte. Ele era um admirador nato pelas formas e movimentos artísticos que dominava o tempo, apreciava ir a exposições e andar por entre as obras observando atentamente, estudando sua história e tentando compreender os sentimentos do autor. Jeongguk confessava que não era um dos mais fascinados por isso antes, mas desde que conhecera seu companheiro, viu-se acompanhando-o e até gostando de algumas obras consagradas e também alguns artistas mais desconhecidos. Gostava de ouvir Taehyung falar sobre as peças e quadros e, acima de tudo, estava aprendendo aos poucos a observa-los atentamente também.

Aquele livro remontava o modernismo e romantismo. Também tinha uma breve explicação do renascentismo, não sendo o foco, e Jeongguk passou as horas seguintes mergulhado nos fatos que cada um deles demonstrava. Felizmente esqueceu o que atormentava sua mente e também sobre a frustração pelo silêncio do seu companheiro, mas foi lembrado de tudo o que aconteceu quando a porta se abriu silenciosamente e o ômega apareceu já de banho tomado e segurando duas canecas nas mãos. Gelatina. Uma mistura de gelatina com creme e morangos, se o cheiro não estivesse enganando-o.

Ele subiu os olhos das páginas para observar Taehyung caminhando até si. Havia certa hesitação em seus movimentos, como se ele ponderasse se aproximar. Seus olhos se encontraram no meio do caminho e havia uma leve vermelhidão neles que fez Jeongguk quase gemer tristemente. Abriu espaço na cama de casal que compartilhavam e abriu os braços em seguida, chamando silenciosamente seu companheiro para encostar em seu peito.

Taehyung foi, sentindo necessidade em manter contato agora. Não era nem seu lado ômega, era o humano mesmo, que o lembrava que queria o aconchego daquele que detinha os batimentos de seu coração.

Aconchegou-se ainda com as canecas na mão e estendeu uma a Jeongguk.

— É uma receita de gelatina. Eu provei antes, está bom. Acho que encontrei algo no qual sou melhor, Gguk. — Taehyung riu nasalado, mas não parecia divertido realmente.

Jeongguk olhou para o conteúdo e depois para o mais velho, estudando-o em silêncio, antes que um pequeno sorriso surgisse em seu rosto com a maneira pelo qual Taehyung estava tentando pedir desculpas. Mesmo que não houvesse de fato necessidade nisso.

Balançou a cabeça e começou a comer, o sorriso se alargando um pouco mais enquanto provava. Virou o olhar para o topo da cabeça de Taehyung, que também se mantinha comendo silencioso, escorado em seu peito. Jeongguk não quis pensar muito, mas não conseguiu evitar de olhar para os olhos avermelhados que fizeram seu coração bater mais rápido e doloroso e Taehyung escolheu esse momento para olhar para cima também. Ambos se encararam, se avaliando e contemplando os pequenos detalhes que tanto amavam um no outro. Não disseram nada, enquanto voltaram a comer e terminar em seguida. Só quando já estavam cheios, que o mais novo comentara:

— Ficou bom mesmo, Taehyung.

O ômega se virou sorrindo para ele, balançando a cabeça em apreciação. Mas não durou tanto, o sorriso murchando e Jeongguk passou os dedos pelo cabelo de Taehyung, os fios deslizando suavemente conforme o cheiro do shampoo de morango ficava mais forte.

— O que foi, amor?

— Me desculpa, Jeongguk. — Taehyung murmurou baixinho, mas alto o suficiente para o alfa ouvir, tomou um fôlego em seguida, tentando abaixar a tensão que tomou seu corpo de repente. — Eu- eu tenho alguns pensamentos que não me deixam em paz.

Jeongguk poderia ter perguntado quais eram aqueles pensamentos, mas algo em Taehyung lhe dizia para continuar quieto e só ouvir. E enquanto o mais velho não continuava, podia ver que ele lutava consigo mesmo para achar as palavras certas.

Taehyung tinha muito disso. Ele se enrolava frequentemente no que queria dizer, engasgava em um assunto e as vezes não se expressava tão bem, mas Jeongguk gostava da forma encabulada com a qual ele ficava sempre que fechava a boca e ficava pensando. Ele fazia um sutil bico nos lábios também e sempre que isso acontecia, Jeongguk tinha vontade de sorrir e beijá-lo.

Entretanto, ele não fez dessa vez.

— Você sabe que o departamento que eu trabalho é composto por setenta por cento ômegas, não é?

Taehyung perguntou, viu o aceno do mais novo e se ajeitou melhor sobre ele, de modo que seu queixo se apoiou no peito de Jeongguk. De bom grado o alfa deixou-se ser travesseiro, absorvendo a vista bonita do seu ômega daquele ângulo.

— A maioria fica conversando e fofocando durante o serviço e mesmo eu não dando muita confiança, as vezes me arrastam para isso. Eles zombam da maneira como nosso relacionamento é. De como eu deveria ser a pessoa que alimentaria você, garantiria que estivesse tudo bem. Eles podem até não dizer explicitamente, mas sinto quando são cínicos ou querem me atingir. — Taehyung explicou melancólico.

Não olhava diretamente para Jeongguk, seus olhos agora permaneciam na pele pálida da clavícula dele.

Jeongguk sentiu pela ligação o que Taehyung estava sentindo, sobretudo, a angustia, e seus braços o apertaram mais.

— Eu aguento isso desde que comecei a trabalhar lá. No começo não tinham tanta intimidade, mas depois de algum tempo, começaram a fazer perguntas e mais perguntas.

— Espera, Tae. Você aguenta tudo isso por três anos?

Taehyung balançou a cabeça, ainda não conseguindo dirigir seu olhar para o mais jovem. Jeongguk, no entanto, rosnou, mas Taehyung não se assustou com a agressividade que ele tinha expressado. Ele sabia que não era para ele, Jeongguk nunca rosnaria para si, era uma promessa que ele lhe fez.

— Eu não acredito que esse bando de merda tem te incomodado, Taehyung.

A voz mais áspera de Jeongguk arrepiou-o um pouco, entretanto. Ainda era novo quando via o alfa perdendo o controle da própria voz. Taehyung deu de ombros.

— Não era grande coisa. — Se defendeu. — No começo, pelo menos.

— Mas e agora? É por isso que você continua tentando me agradar e aprender a cozinhar?

Timidamente, o Kim acenou.

— Eu não me acho o suficiente para você, Jeongguk. — O sussurro baixinho poderia passar despercebido, mas Jeongguk ouviu e também sentiu uma estranha pontada dolorida no coração. Não sabia se era no seu próprio ou apenas a sua marca transparecendo a dor de Taehyung, mas não importava descobrir isso agora. Não quando via seu ômega tão vulnerável.

— Na maioria das vezes me sinto um ômega incompleto. — Continuou ele. — Geralmente os pais que nos ensinam como tratar seu companheiro e a se portar. Eu não tive isso e ninguém no orfanato ligou. Eles não se importavam com a gente realmente, só cuidavam para que não morressemos de fome ou sermos analfabetos. Quando saí de lá, foi totalmente novo e havia tantas regras estúpidas da sociedade que eu nunca tinha percebido até aquele momento. Mas então te conheci e você nunca reclamou da maneira diferente como eu me comportava, então fui deixando isso de lado. Mas quando consegui o emprego no departamento, todas as coisas pelas quais tinha esquecido, foram sendo jogadas na minha cara. A forma como as outras pessoas julgam o nosso relacionamento por estar fora dos padrões mexe comigo e eu quero ser melhor.

O rosto bonito do ômega estava manchado de lágrimas. Elas caiam sem permissão, Taehyung não queria estar chorando naquele momento, mas não podia controla-las. Seu lobo choramingava dentro de si e ele sentia agora os efeitos de suas palavras sendo vocalizadas para seu companheiro.

Aquilo tornava tudo pior. Por todo o tempo ignorara falar sobre o que sentia, mas a porta havia sido aberta e tudo o que lhe passava pela mente saiu.

Ele levantou os olhos pela primeira vez, Jeongguk parecendo atordoado tomando seu tempo para pensar. Ele estava tão quieto e concentrado que Taehyung se encolheu levemente, sem saber como se sentir sob seu olhar.

As lágrimas caíram mais fortes quando Jeongguk ficou mais um tempo sem falar nada, embaçando sua visão. Taehyung quis se levantar, mas sabia que suas pernas não estavam estabilizadas. Merda! Exclamou ele em pensamento. Se mova.

No entanto, ele não pensou mais nisso depois quando foi pego de surpresa e virado ao contrário na cama. Agora era ele por baixo de seu alfa, Jeongguk parecendo muito maior ou talvez fosse impressão sua e do desfoque que o choro causou.

Ele soltou uma exclamação assustada enquanto suas costas tocavam o lençol e ele olhou para cima no rosto do seu alfa.

Jeongguk ainda não tinha dito nada e isso deixava Taehyung meio apreensivo. Felizmente, ele se pronunciou com uma voz solene logo em seguida:

— Kim Taehyung… — Chamou o mais novo, estudando o outro abaixo de si. Sua mão se moveu e seus dedos passaram suavemente pelas bochechas molhadas. Um carinho tão sutil e carinhoso. Quando mais lágrimas vinham e continuavam descendo pelo rosto do ômega, Jeongguk soltou um sorriso curto e triste.

Doía muito ver seu ômega assim. Seu lobo soltava uma mistura de choramingos, lamúrias e rosnados, percebendo a tristeza da sua metade. A parte animalesca queria ir atrás dos idiotas que fizeram mal a ele, mas a parte humana queria ficar e cuidar de Taehyung, porque os pensamentos podres dos outros não podiam ser mudados com violência, tampouco curar o que seu companheiro sentia.

— Você é o meu ômega, meu amigo e aquele que detém meu coração.

Jeongguk disse tudo nivelando os olhares. Havia determinação em cada palavra e também queria passar isso pela sua expressão.

— Eu sempre te amei pelo que é e nunca me arrependi de ter marcado você e deixado você me marcar também. — Continuou ele. — Eu sempre soube de suas limitações e olha, não é grande coisa, Tae. Está tudo bem, todos têm, e isso não lhe faz menos que outra pessoa. Deixe isso para lá, não muda nada o que sinto por você, sabendo ou não fazer uma coisa.

Taehyung exalou alto. Algumas poucas lágrimas ainda caíram, mas ele não deixava de olhar Jeongguk sobre si, avaliando os olhos brilhantes de determinação do seu alfa. Ele quis concordar, mas sua mente continuava pregando peças em si.

— Eu sou realmente bom para você, Gguk? — Perguntou um pouco trêmulo e mordeu o lábio.

Jeongguk então se inclinou e deixou um beijo na bochecha do mais velho. Viu a incerteza nele e queria tanto acalmá-lo.

Queria tanto embalá-lo em seus braços.

— Você é muito melhor do que eu poderia imaginar ter.

— Jura?

— Eu juro. Nunca duvide disso, amor . — Taehyung se inclinou para o toque quando seu dedo deslizou delicadamente pela bochecha dele, apreciando o carinho gostoso que enchia seu coração de sentimentos bons. Jeongguk sentiu essa mudança pela marca e o corpo relaxou visivelmente, arrumando sua posição ao sentar e puxar o mais velho para fazer o mesmo. Ambos ficaram frente a frente.

— Eu nunca perguntei isso mas acho que agora é uma boa hora.

— Perguntar o que?

Jeongguk pigarreou, parecendo um pouco intimidado e desconfortável – algo do tipo –, de repente. Taehyung inclinou a cabeça para o lado, estudando-o.

— Está feliz comigo, Taehyung? — O alfa sentiu a boca secando, temendo a resposta. Mas mesmo que quisesse se calar, ainda continuou um pouco tenso. — Eu só queria saber se não se sente preso e infeliz no nosso relacionamento.

— Estou muito feliz, Jeongguk. — Respondeu sem hesitar. — Eu não poderia pedir outro companheiro também.

Jeongguk sorriu amplo com as palavras. Seu lobo agitando a calda rapidamente em seu interior quando Taehyung sorriu tímido para si. O Kim acabou passando os braços pelos ombros do alfa e o puxou para que eles se encostassem, depositando um beijo em seus lábios e em meio as bocas grudadas, sentiu Jeongguk sorrir e sua mão acariciar sua cintura de leve. Pareceu rápido demais quando o Jeon puxou para trás uns centímetros, somente para olhar seu ômega.

— Pensamentos ultrapassados nunca entenderão nosso relacionamento, Taehyung.

— Eu quero tirar esses pensamentos da cabeça. — Confessou um momento depois.

Queria se sentir bem consigo mesmo e também entender que era completo, assim como seu alfa dissera.

— Então vou te ajudar, amor. Vou fazê-lo perceber que essas regras estúpidas dos subgêneros não importam pra gente.

Taehyung fungou, balançando a cabeça e a deitando no ombro do alfa.

— Obrigado, Jeongguk.

Jeongguk sorriu, mais uma vez beijando Taehyung na boca. O coração estava mais leve, mas sua determinação estava maior também.


Notas Finais


Então, é isso! Espero que tenham gostado e obrigada a quem chegou até aqui.
Só queria dizer que relacionamentos e pessoas podem ser inusuais aos olhos da sociedade, mas isso torna tudo ainda mais perfeito. ♥

OBS: fiquem bem!


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