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História Irresignada - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Prisioneira


Fanfic / Fanfiction Irresignada - Capítulo 3 - Prisioneira

Enquanto Lee acompanhava Julia até seu “quarto especial”, ela já imaginava que ficaria presa num quarto estranho como um passarinho numa gaiola. Eles já tinham premeditado tudo, até um quarto já haviam preparado pra ela.

Jurou por tudo que era mais sagrado que se encontrasse algum objeto que ela pudesse usar para acabar com aquele garoto ela usaria, mesmo sendo inexperiente no quesito machucar pessoas. Naquele momento não tinha mais nada a perder, e nem esperanças de que alguém a poderia salvar, Joshua foi o único que tinha visto seu sequestro e o único que poderia resgatá-la, mas ele sendo o culpado e mandante por tal acontecimento, tirou todas as expectativas iniciais de Julia e seu bom senso para permanecer calma diante daquela situação perigosa.

 Seu pai provavelmente ainda não fazia ideia do que estava acontecendo com ela, e se fosse verdade o que Joshua disse a seu respeito, ele devia demorar a voltar de viagem, e como confiava cegamente em seu soldado, não devia ter pressa em voltar, com a certeza de que Julia estava protegida com Joshua e o resto da corporação.

Mas logo sua mente a alertava de que atacar alguém ali não era uma boa ideia. Apesar de não ter ninguém a recorrer era melhor preservar a sua frágil vida até os últimos minutos e não arriscar nenhuma “gracinha”. Apenas obedeceu.

Era questão de dias até seu pai ficar sabendo do que acontecera e pagar o resgate, seja o que for que pedirem ele iria pagar, era a única coisa que a confortava. Pararam em frente a uma porta de ferro maciço muito grossa, quase semelhante à da entrada, e Lee a abriu com certa dificuldade logo depois de ter acesso passando um cartão eletromagnético na entrada, em seguida puxou Julia pelo braço adentrando o quarto com ela em seguida.

Ele destravou as algemas eletromagnéticas que prendiam o pulso de ambos e cruzou os braços ficando em silencio, escorado na parede, enquanto Julia olhava para o local um pouco incomoda, era um quarto simples, tão diferente do seu quarto no internato que era tão iluminado, cheiroso e aconchegante.

Mas o que se esperar? Que iria ser sequestrada e mantida em cativeiro em um quarto de luxo? Suspirou pesadamente.  Aquilo ali mais parecia com uma cadeia como ela imaginou. Uma cama simples com lençóis azuis, uma mesa no canto e uma janela que estava fechada, a claridade da lâmpada era escassa e mal iluminava aquele local pequeno.

 Mas aquilo não era o pior de tudo, e sim o que aconteceria com ela ali naquele local... E se aquele garoto resolvesse tortura-la? Se fizesse dela seu brinquedinho, seu passatempo por pura diversão? Engoliu seco tentando não chorar, sabia que se fizesse isso provavelmente seria um incentivo para ele querer perturbá-la.

- Onde fica o banheiro? – Foi a primeira coisa que perguntou depois de escanear o ambiente, olhava por todos os lados daquele quarto minúsculo, torceu pra ter uma porta mágica ali. Não era possível que nem banheiro tinha.

- Que banheiro? – Ela rebateu de forma cínica.

- Vocês só podem estar brincando com a minha cara... – Ela lhe lançou um olhar de desanimo com um misto de desespero profundo entonados numa voz embargada de choro.

- Você tá muito exigente pra uma prisioneira. – Ele riu com sarcasmo. Estava se divertindo vendo-a quase surtar ali como uma criança mimada.

- Acontece que... Vocês precisam de mim viva, não é? Então não podem me deixar ficar doente aqui sem higiene nesse local horrível! – Ela contestou. Em sua cabeça era a lógica, mas Lee apenas sorriu mostrando o contrário. Ainda não tinha se acostumado como o fato de que aquele garoto parecia não dar a mínima pra absolutamente nada.

- Você está com medo, não está? – Lee sorriu mostrando que estava se divertindo com o pavor que Julia estava sentindo. Ele era a pessoa mais sádica e sarcástica que Julia conheceu em toda a sua vida, e olha que tinha apenas algumas horas que o conhecia, talvez ainda não tinha dado tempo de ver coisas pior, e pensar que ela achava que algumas meninas do internato eram cobras venenosas... Aquele garoto era bem pior, apesar de ter feições jovens e até mesmo frágil, e um sorriso bonito, ele era a crueldade em pessoa.

- Você ainda pergunta... – Ela respondeu fracamente depois de alguns segundos engolindo seco. Lee se aproximou dela, parecia que queria ver ainda mais de perto o terror nos olhos dela que ela sentia.

- Não estou nem aí que você morra ou viva. A gente pode muito bem criar um clone seu usando um pedacinho de pele sua, e eu sei como fazer isso. – Ele respondeu. Era cruel, porém não burro como ela pensou. E pelo o que parecia aquele povo que morava no subsolo tinha tanta tecnologia quando a própria corporação de seu pai.

- Esses clones de laboratório vivem apenas algumas semanas, isso não vai funcionar! E nunca são 100% idênticos. Você acha que meu pai não vai reconhecer a própria filha? – Ela respondeu firme, tinha estudado sobre clonagem humana no internato, será que ele imaginava que ela não saberia a respeito disto? Mas ambos sabiam que ele tinha comentado a ideia do clone apenas apara atazaná-la, mas mesmo assim ela ainda respondia aos ataques dele, não conseguia ficar calada, parecia divertido para ele irritá-la.

- Nisso você tem razão. Achei que não fosse tão inteligente assim. – Ele coçou a cabeça pensativo. – Aliás, o banheiro fica na parede do lado da sua cama, é só bater três vezes contra a parede que um compartimento se abre. – Ele completou rindo.

- Obrigado. – Ela respondeu irônica o encarando com um olhar assassino, queria esganá-lo por mentir.

- Mas não precisa tentar virar uma boquinha aqui, você está no subsolo, Julia. E como uma subcitizen, não precisa se preocupar com a sua aparência. – Ele respondeu reforçando os fatos.

Logo em seguida a porta se abriu e a garota que ela havia visto jogando xadrez anteriormente entrou no quarto. Ela tinha um olhar perverso, sério, caminhava com passos firmes até ela, algo que demonstrava que não era apenas mais uma ali, e sim alguém que possuía autoridade, e não precisava dizer nem uma palavra para deixar claro que ela odiava Julia, seu expressão de nojo expressava tudo.

- Gostou do seu novo quarto, senhorita Carter? – Ela perguntou com um sorriso sádico se aproximando de Julia.

- G-gostei sim. – Ela sorriu tentando agradar inutilmente. A garota era forte, e bem mais alta que ela. Com certeza era a que lhe dava mais medo do que todos os esquisitões dali até o momento.

- Não precisa mentir, eu sei que você está apavorada. Mas pra sua sorte estamos proibidos de matar você. – Ela falou como se aquilo fosse um grande alívio para Julia. – Mas... Estamos autorizados a torturar você caso não colabore conosco. E é por isso que vim aqui esclarecer as coisas pra você. Ah, a propósito, meu nome é Deborah!

- O que vocês querem de mim? – Julia respondeu entre os dentes. – Meu pai nunca me trocaria por poder, vocês venceram ok? O que mais querem de mim? Liguem pro meu pai e me coloquem na linha que eu mesma irei falar com ele, e vamos acabar com isso rápido, garanto que ele dará a vocês tudo que quiserem.

- Você não é apenas uma isca Julia, você é mais do que isso. Tirar seu pai do governo é apenas a primeira etapa. Mas você ainda será útil depois disso... É claro que isso não é um assunto da sua conta. E é por isso que não iremos matá-la, então não se preocupe. Mas ficará conosco por tempo indeterminado, gostando ou não. – Ela respondeu firme. Julia não sabia realmente do que se tratava. Por que ela seria útil depois de...?

Mas sabia que algo bom não era, e provavelmente se perguntasse eles não iriam contar. Mas eles a encaravam como se ela estivesse escondendo um enorme segredo.

Estava tão distraída conversando com a garota que nem percebeu que Lee estava há horas deitado em sua nova cama apenas observando as duas discutirem com uma cara de tédio.

- Ótimo, agora tem mais essa! – Ela bufou. – O que esse garoto tá fazendo na minha cama?

- Não se preocupe com o Lee, aliás, acho melhor ir se acostumando, pois ele irá te vigiar 24 horas. – Ela ordenou.

- Mas por quê? Não tem como eu fugir daqui! vocês sabem disso! – Ela implorou. – Esse garoto me dá medo. – Sussurrou baixinho.

- Que bom. – Ela sorriu como se fosse aquilo que desejava ouvir, em seguida deu de ombros e virou as costas, ia saindo pela porta quando parou de repente parecendo se lembrar de algo. Colocou as mãos dentro de seu bolso retirando um canivete pequeno, mas que parecia bem afiado. Julia afastou-se para trás instintivamente enquanto ela dava meia volta indo de encontro a ela com um sorriso malicioso.

- Sabe senhorita Carter, vou deixar as coisas mais reais pra senhorita. – Ela a puxou pelo braço e em seguida pegou os cabelos negros da garota com a outra mão, segurando-o como um rabo de galo. – De agora em diante a senhorita não precisará se maquiar, ou pentear os cabelos aqui, então, não tem porque continuar com um cabelo desse tamanho apenas para atrasá-la, não acha? – Falou sorrindo irônica enquanto puxava os cabelos lisos de Julia com mais força, ela não relutou, se fizesse algum movimento provavelmente Deborah cortaria sua garganta. Apenas fechou os olhos e ouviu o barulho rangente de seus fios sendo rasgados pela lâmina do canivete com brutalidade, enquanto lágrimas escorriam em seu rosto. Mas não emitiu um som se quer.

Mais da metade de seu cabelo fora cortado e agora o que restou estava um pouco acima do pescoço. O corte apesar de curto demais não ficou totalmente aleijado, mas Julia estava com medo de se olhar no espelho depois. Deborah a empurrou antes de sair do quarto com um sorriso vitorioso enquanto espalhava o cabelo da garota pelo quarto como se fosse algo descartável.

 Fizera aquilo apenas por ódio. De todos ali aquela garota demonstrava ser a que mais a odiava, Lee a observava em silencio sem demonstrar muita surpresa, aquilo provavelmente que ela fez nem comparava com o que ele já poderia ter visto ela fazer com facas e com outras pessoas.

Lee observou-a esperando por talvez algum ataque ou surto da garota, agora que Deborah havia saído do quarto e estava longe, mas ao invés de disso Julia ficou parada ali em pé por alguns minutos, pensando em várias coisas aleatoriamente, mas principalmente que a cada segundo sua situação ali parecia piorar. E aquele era apenas o primeiro dia.

 O lado bom é que por algum motivo ela não seria morta, pelo menos era o que dizia a valentona, que no fundo parecia contrariada com a ideia, sentia que ela tinha um ódio imenso, e se dependesse unicamente da opinião dela, Julia seria morta naquele instante.

A cada segundo que se passava parecia um inferno. Sentou-se no chão de costas para a cama segurando seus próprios joelhos contra o estomago e começou tremer com um olhar fixo naquela porta. Lee ainda estava calado apenas observando aquela cena com os cotovelos apoiados sobre a cama, já tinha sacado o comportamento da senhorita Carter, parecia frágil, dramática e naturalmente esperava que todos se curvassem perante ela com elegância e delicadeza, o que literalmente não era o caso de Lee, ele sabia que ela não iria protestar se ele ficasse sobre a cama que era de direito dela, provavelmente pela extrema educação na qual foi criada, ou simplesmente medo, por mais que ela estivesse indignada, e ele fazia aquilo apenas para implicá-la e mostrar que as coisas ali não eram como ela esperou a vida toda ser tratada como uma princesinha mimada. Ficaram assim por longas horas até Julia resolver que precisava conversar, mesmo que fosse com aquele estranho, pois o silencio parecia gritar em sua mente.

 

- Aquela garota... Por que ela me odeia tanto? – Julia perguntou ainda sentada no mesmo local enquanto Lee se levantou da cama e caminhava pelo quarto estreito enquanto bocejava de tédio.

- A Deborah? – Ele a fitou em seguida. – Ela odeia tudo. – Ele riu.

- Entendi. – Julia abaixou a cabeça com a resposta rápida e eficaz dele.

- Cabelo cresce rápido. – Ele respondeu a encarando. Ela não sabia se ele tinha falado aquilo por pena dela ou por deboche, não dava pra decifrar naquele momento que sua mente trabalhava a mil por hora pensando em tantas coisas.

E o silencio voltou. Julia se levantou do chão e estava indo em direção ao banheiro. Sentia toda sua barriga doer, e conhecia aquela dor, era uma dor familiar. Não, não era possível que ela iria menstruar justo naquele dia, e naquele local, mas pelo nervosismo altíssimo que passou, e a ansiedade, não seria surpresa que seu período se adiantasse. Olhou sem graça para Lee enquanto tentava abrir a porta da forma que ele havia lhe explicado.

- Não consigo abrir! – Ela exclamou dando socos na parede. – Me ajuda, por favor. – Pediu bufando. Era horrível ter que depender dele até pra isso.

O garoto revirou os olhos e foi até ela com passos lentos, parecia que fazia de propósito para demorar, não perdia uma única oportunidade de tortura-la. Deu apenas uma batidinha de leve e o compartimento se abriu. Para a surpresa de Julia o banheiro parecia limpo, primeira coisa boa que aconteceu com ela até aquele momento. Ela entrou em seguida sendo acompanhada do garoto. Parecia que ele tinha levado ao pé da letra as ordens de Deborah sobre vigia-la vinte e quatro horas por dia.

- Eu não vou fugir, eu preciso de privacidade! – Ela pediu com educação. Mas ele não se moveu um centímetro. Julia ficou o encarando com a sua melhor carinha de cachorrinho de pidão, mas ele nem ao menos sorria.

- Tá bom, tá bom. – Ela bufou. – Mas, por favor, vire-se de costas.

Ele não respondeu nada, mas fez o que ela pediu, honestamente não fazia o tipo dele estar ali para espioná-la nua, era apenas para verificar se não tentaria nada para escapar, havia uma pequena janelinha ali do lado. Julia rapidamente se assentou sobre o vaso e puxou sua roupa intima até os tornozelos com cuidado, seu coração estava acelerado. Usou a saia rodada para cobrir suas partes intimas, mesmo que ele se atrevesse a virar, não iria ver nada. Nunca se sabia, afinal.

- Já acabou? – Ele perguntou virando o pescoço e dando uma rápida espiada por cima dos ombros.

- NÃO! – Ela gritou levando um susto com o olhar dele. – Ah meu Deus... – Ela resmungou chorosa. – Eu preciso de absorvente!

- Precisa do que? – Ela se virou para ela.

- EU DISSE PRA NÃO OLHAR! – Ela gritou. Mas ele parecia indiferente. – Por favor, precisa achar alguns e trazer pra mim agora! – Ela pediu aflita, como se sua vida dependesse daquilo. Realmente agora ela não parecia atuar, ou estar fazendo drama, seu grito fora mais que claro, e até ele se espantou com a reação dela, e pela primeira vez até o momento achou prudente ajudá-la.

- Eu não sei do que você tá falando! Precisa me explicar melhor. – Ele falou tão sarcástico num tom de inocência quanto ela enquanto gesticulava com as mãos. Julia o olhou confusa, ele só podia tá brincando.

- Apenas, avise a Deborah, ela vai saber o que é! – Julia pediu novamente, era a única mulher dali infelizmente. Não estava acreditando que aquele era o momento mais constrangedor de sua vida. Lee não iria obedecê-la, mas pela cara de desespero que ela fazia, decidiu ajudá-la.

 

( ... )

 

Depois de toda aquela confusão, Julia se deitou na cama após tomar um banho e Lee a observava sentado em frente a ela numa cadeira, com as mãos apoiadas contra o rosto. Ela observava o teto daquele quarto em silencio até ouvir a voz dele acordando-a de seus pensamentos.

- Por que tinha sangue no banheiro? – Ele perguntou de forma espontânea.

- Pode parar de ser cínico por favor? – Ela respondeu gemendo de dor com um misto de vergonha. Aquela cólica a estava matando.

- Deixa eu pensar... – Ele colocou o polegar sobre os lábios fazendo uma pose pensativa. – Será que eu paro de cinismo? Hm...

- É sério? Precisa disso?  – Ela o olhou desacreditada. – Você não tem o mínimo respeito pelas pessoas? Principalmente pelas meninas, que pelo jeito você não entende nada, e que ainda por cima estão morrendo de... Cólica. – Julia apertou a cintura com os braços sentindo uma pontada.

- Claro que tenho respeito, aliás, se não notou a Déborah é uma garota, e eu a respeito muito. – Ele falou irônico. – E o que sabe sobre meninos? Viveu num internato feminino rodeada apenas por mulheres. – Ele respondeu em seguida mudando o foco.

Aquelas pessoas realmente sabiam muito da vida dela, o que lhe dava mais medo.

- Sei que você é bobo, além de não ter um pingo de higiene e senso do certo e errado! – Ela falou eufórica, cansada de manter a postura educada. Lee deu uma gargalhada.

- “Bobo”, agora estou realmente ofendido. Ah, isso vai ser divertido. – Ele riu irônico.

– Ai... – Sua barriga doeu em seguida a interrompendo.

- Tá com dor? – Ele sorriu sarcástico.

- Eu... – Ela a olhou com raiva, sua voz saia apertada da garganta. – Nem vou te responder mais.

- Eu nunca vi uma garota sofrendo assim na minha frente. – Ele falou como se tivesse feito uma descoberta exclusiva, mas para Julia aquilo pareceu sádico, como se ele estivesse admirando ao invés de sentir pena, mas não sabia ao certo o que se passava na cabeça dele.

- Posso te fazer umas perguntas? – Ela o olhou intrigada.

- Pode, vai. – Ele deu de ombros.

- Por que você está aqui? Onde estão seus pais? Por que você é manipulado por essa gente? – Ela se assentou sobre a cama colocando um travesseiro contra a barriga.

- Eu nasci aqui. – Ele respondeu espontaneamente, ignorando o amontado de perguntas. – E “manipulado” é o caralho.

- Você já pensou em como é o mundo fora daqui? Já pensou em tudo que você perdeu todos esses anos trancado aqui? Você devia estar na escola! – Ela começou a persuadi-lo. – Ou eles não te deixam sair? Não te dão escolha?

- Eu não ligo pro mundo lá fora. Eu raramente vou lá pra cima, a não ser por algo muito importante. – Ele respondeu com um sorriso irônico. – Como por exemplo, sequestrar a filha do Coronel Carter.

- E se orgulha disso? – Ela o olhou incrédula. Ele apenas sorriu de lado. Ao mesmo tempo que ele expunha com facilidade seus pensamentos, ele também era uma incógnita. Mas Julia teria de ganhar a confiança dele, ele era o único ali que ela podia ao menos conversar, e apesar dele lhe causar um certo medo, ele nunca discutia suas opiniões e parecia até respeitá-las, por incrível que pareça. Uma virtude de poucos.

 

Os dias de Julia naquele “cativeiro” dependia da volta de seu pai a Londres, não fazia ideia de onde ele poderia estar desde o dia que saiu do internato, e também não sabia o nível de conhecimento, força ou influencia que aquele povo podia apresentar, nem se quer sabia que tipo de tecnologia avançada eles possuíam, mas pelas portas reforçadas de aço maciço já imaginava que apesar do lugar sujo eles tinham poder aquisitivo.

O regresso de seu pai para estar demorando dessa maneira, só tinha uma explicação; talvez estivesse em outro país, ou talvez numa viagem espacial. Lembra-se de quando era criança e começaram a surgir as primeiras excursões espaciais com capacidade de ir até marte, mas era algo apenas para cientistas ou pessoas extremamente ricas que se davam ao luxo de conhecer algo além da velha terra devastada. Milhões investidos em um capricho que de modo geral não acrescentaria nada na vida de alguém, enquanto se tinha tanta desigualdade naquele local.

 

~ * ~

 

Passaram-se 5 dias e nada.

 A única pessoa que viu durante esse período era seu “vigiante”, Lee. Ele não saia de perto dela para nada, era realmente eficiente em cumprir ordens pelo visto, até demais.

Passavam a maior parte do tempo no quarto, algo que já estava causando claustrofobia em Julia, levando-a a um estado crítico, que por decisão de Thierry, permitiu que ela pudesse caminhar alguns minutinhos no lado de fora, era como se tivesse sido condenada por um crime em regime semi-aberto, a diferença é que ela não cometera crime nenhum.

O passeio por aquele povoado não era dos mais agradáveis, era tudo iluminado com luzes artificiais, sentia a falta da claridade da luz do dia, do sol... E as pessoas ficavam em sua maioria escondida a olhando por cima dos ombros eram tenebrosas, pareciam psicopatas, bárbaros do século passado, as ruas eram lamacentas na maior parte, e Lee não dizia nada a ela, apenas a escoltava, mas logo isso tudo terminava e ela voltava para seu quarto, ou prisão como era mais parecido.

No dia seguinte que saiu para fazer o mesmo passeio monótono com Lee, notou que Deborah e Thierry chamaram o garoto para lhe contar algo e parecia importante pela cara séria de ambos, ele se afastou dela para conversarem, mas ainda assim ela tinha seus pulsos presos a uma algema eletromagnética da qual ele tinha a outra ponta segura em suas mãos, então, sem chance de tentar fugir. Em seguida ao final da conversa rápida, ambos saíram e Lee voltou ao lado de Julia.

- Vamos voltar. Seu passeio já acabou. – Ele respondeu a puxando, estava com uma cara de desanimo, e ela o olhou confusa. O que aqueles dois teriam dito a Lee?

- Mas... Thierry disse que eu teria todos os dias quinze minutos de passeio, você sabe que eu posso surtar naquele quarto, não sabe? E vocês precisam de mim, se eu morrer vocês não vão conseguir o que querem... – Falou dramaticamente, mas Lee já conhecia aquele discurso de “precisam de mim viva”, na verdade ela só queria que isso servisse de gatilho pra ele a contar o que tinham dito a ele.

- Deborah e Thierry vão sair, eles vão lá pra cima. E pediram pra que você voltasse pro quarto. – “Pra cima”, significava pra cidade, ele respondeu com uma cara séria. Alguma coisa estava errada ali, até o presente momento que conheceu aquele garoto ele só tinha expressões de deboche vinte e quatro horas por dia, mas agora parecia chateado e queria saber o motivo, afinal, tudo aquilo tinha algo a ver com ela em questão.

- Lee... Por que você parece chateado? – Ela perguntou com sinceridade. Ele ficou em silencio, parecia querer formular o que iria dizer, era evidente que ele não era bom em se expressar, ainda mais pra uma estranha, e que na verdade não devia satisfações alguma.

- Não é nada. – Finalmente falou depois de todo o suspense. – Vamos. – Voltou a escolta-la e levou Julia de volta para o quarto.

Chegando ao recinto, ele ainda continuava com a mesma cara séria. Mas algo alegrou Julia, os mandantes daquele local tinham saído, e deixaram-na apenas sobre a vigia de Lee, um ponto positivo, escapar de um poderia ser mais fácil do que escapar de três. Mas precisava pensar em como faria aquilo. Primeiramente começou a puxar assunto com ele, assuntos não pretenciosos, e aos poucos ele ia respondendo. Quem sabe se criassem uma espécie de amizade, ele poderia considerar o fato de deixa-la ir, ou fingir que ela escapou e que ele não teve culpa de nada para não se prejudicar com seus líderes. Seria um bom plano também, afinal, todo homem tinha um preço.

Mais a noite, Thierry e Deborah ainda não tinham voltado, e pelo o que ouviu Lee comentando com um homem do lado de fora do quarto, eles não iriam voltar tão cedo, iriam passar o outro dia inteiro lá em cima. Então resolveu tentar uma nova tática, quebrou o silencio e fez uma pergunta aleatória ao mesmo.

 

- Você gostaria de conhecer a minha casa Lee? – Ela perguntou com um pouco de medo, mas torcendo pra fazer a cabeça dele. Aquele garoto não parecia tão inteligente quanto ela imaginava. Era um misto de ignorância ingenuidade e crueldade.

- Que tipo de pergunta sem noção é essa? Não vou deixar você sair. – Ele riu.

- M-mas eu não estou pedindo pra sair sozinha, você vai comigo. Eu não vou fugir, só quero que conheça a minha casa. E depois voltamos pra cá. Ninguém vai ficar sabendo! – Ela o olhou empolgada.

- Não posso deixar você sair daqui! – Ele repetiu.

- Vai ser rápido, eu prometo! Prometo que não vou tentar fugir, usaremos as algemas eletromagnéticas. Só queria... Sentir um pouco como é ter um lar, algo que eu não tive durante seis anos da minha vida... – Ela pediu novamente. Mas ele apenas balançou a cabeça negativamente demonstrando que não se comovia nem um pouco.

- Por favor, Lee... – Ela desceu da cama se ajoelhando sobre o chão. – Está de madrugada. Thierry e Deborah saíram, e não vão voltar hoje, você sabe disso, quando eles voltarem já vamos estar aqui de novo. Considere isso com o meu passeio que você interrompeu, e eu tinha o direito de sair todos os dias por quinze minutos. Meu pai não está na capital, nem se eu quisesse poderia avisá-lo, vai ser como se nunca tivéssemos saído daqui...

Ele ficou em silencio tentando analisar minunciosamente aquela situação, o plano poderia dar certo, Lee sabia várias passagens secretas para saírem daquele lugar até o solo superior da cidade, e por mais que não quisesse admitir, estava chateado com seus superiores pelas palavras duras que eles haviam dito a ele, que “ele devia tomar cuidado com Julia pois ela podia enganá-lo”, mas ninguém era capaz de enganá-lo assim, e ele iria provar. Iria aceitar o convite da garota sair com ela mesmo contra as ordens de Thierry e iria voltar e nada iria dar errado. Queria provar aquilo pra eles inconscientemente.

 

- Tudo bem... – Ele bufou. – Mas sabe o que eu vou fazer se você tentar fugir?

- O que? – Ela engoliu seco perguntando.

- Vou arrancar suas lindas unhas... Uma por uma... – Ele avisou. Julia respirou fundo.

- Eu não vou. Eu te prometo. – Ela se ajoelhou abraçando-o pelos joelhos.

 

( ... )

 

 

Saíram por uma passagem secreta que ficava ali no quarto mesmo, atravessaram o esgoto como da primeira vez até chegarem ao solo superior. Julia respirou fundo o ar da cidade que apesar da fumaça era melhor que daquele esgoto abafado. Caminharam longas quadras daquela cidade Julia e Lee usavam máscaras que cobriam seus rostos, por questões de segurança, e só tirariam quando chegassem a casa de Julia.

Quando chegaram à mansão, ela colocou a mão sobre o detector e os portões se abriram. Era uma casa enorme e luxuosa, seu pai havia deixado como presente para ela ficar ali até que ele retornasse, e era pra lá que ela iria se não tivesse passado mal no dia que saiu do internato, se bem que com Joshua tramando pra cima dela, de qualquer forma não deixaria que ela fosse para sua casa, seria mais difícil para se aproximar dela.

A casa era muito segura, e apenas ela podia entrar ali e ter acesso. Quando abriu a porta entrou junto com Lee, estava em perfeito estado, robôs domésticos existiam ali para deixá-la impecável. Mas estava completamente fazia, ecos se formavam no salão principal a cada passo que ela dava, o piso era de cerâmica branca, impecável e branco como gelo.

Lee nunca havia visto um local tão “diferente” como aquele, sua mente não conseguia formular uma palavra para descrever o que via diante de si, parecia até mesmo estar tonto com tanta coisa nova que durante toda a sua vida nunca tinha presenciado. Sua visão parecia absorver cada imagem como uma dose de adrenalina. Caminharam até chegar à cozinha da casa e a primeira coisa que Julia fez foi correr até a geladeira e pegou um pote de iogurte, estava com fome e com saudade de alguma comida decente. Ofereceu para o Lee que não fazia ideia do que era aquilo. Só tinha ouvido falar.

- Já disse que prefiro comer rato. – Ele respondeu se negando, mas no fundo foi apenas uma desculpa para não comer e ser obrigado a admitir que aquilo era bom. Porém Julia melou a ponta do dedo com o iogurte cremoso e passou sobre os lábios do garoto que fez uma careta sentindo-o gelado nos lábios, e Julia começou a rir. Ele passou a língua instintivamente em seguida limpando seus lábios e pela primeira vez sentindo o sabor daquele iogurte. Tentou disfarçar fingido que não achara nada demais, mas a verdade é que pareciam morangos frescos em sua boca, aquilo era bom demais.

- Você já viu a sua casa, é pra cá que vai voltar quando seu pai aceitar nossos termos, tá feliz? agora vamos! – Ele disse impaciente.

- Por favor, me deixa descansar um pouco. – Ela se assentou sobre uma cadeira em seguida e se debruçou no balcão da cozinha.

- Lembra do que eu te falei sobre as unhas? Isso também vale caso não me obedeça. – Ele respondeu sério. Imediatamente Julia se levantou.

- Tá bem, só preciso ir no meu quarto. Preciso fazer algo que to com vontade a dias! Prometo que será meu último desejo nesta noite. – Ela respondeu sorrindo quadrado. E então subiram para o andar de cima da casa.

Quando Julia abriu a porta de seu quarto, sentiu um nó na garganta, seu quarto estava todo reformado, a última vez que esteve ali foi quando tinha 12 anos, agora seu quarto não parecia mais de uma criancinha, seu pai provavelmente havia mandado reformá-lo todo para a chegada dela do internato. Estava perfeito. E ela não iria poder desfrutar dele. Caminhou em direção à cama se assentando sobre ela e passando as mãos na cocha macia.

- Era aqui que eu devia estar... – Ela sentiu ódio. Sentia mais ódio de Joshua do que de Lee, afinal estava fazendo o que lhe foi ordenado, já Joshua além de trair seu pai, ainda a enganou ganhando sua confiança de que era um homem digno.

- Eu não vou deixar você ficar aqui e inventar uma desculpa que você fugiu, por mais que seja tedioso vigiar você senhorita Carter. – Ele repetiu.

- Por que é tão leal a aquela gente? O que eles te dão em troca? O que você vai ganhar conspirando contra o governo do meu pai? Vocês me parecem obcecados. – Julia falava irritada. Só queria entender quem era aquele garoto. – Sabe o que eu acho? Que você não ganha nada ali além de migalhas de uma gente rancorosa que no fundo só te usa porque sabem que você é capaz até de matar por eles.

- Não é questão de ser leal a eles, e sim aos seus ideais. Somos minoria, eu sei disso, é mais um motivo pra nos unirmos. – Ele respondeu sério. – Sabe por que o mundo está esse caos? Porque homens como o seu pai são capazes de construir uma casa dessas super luxuosas e enormes para uma só pessoa morar, enquanto várias famílias passam fome, e sim, senhorita Carter, se for preciso matar pelo o que acredito eu farei, seu pai já fez o mesmo e ninguém o julgou, e várias vezes.

 

Naquele momento Julia se calou. Ele tinha razão de pensar dessa forma, mas seu pai não era um corrupto, e as pessoas eram rebeldes por mais que precisassem de ajuda, eram ingratas, terroristas e por isso nem sempre recebiam apoio do governo. Além do mais, ninguém melhor do que Julia para saber que seu pai era um homem bom, nunca lhe deu mal exemplo em nada, e não seria no governo que ele daria, mas sabia que era impossível mudar a cabeça de Lee, ele foi criado daquela maneira por aquele povo e aprendeu desde criança a odiar o governo e as forças armadas. Ao invés de vê-los como heróis, os viam como inimigos.

- Lee, as coisas não são bem assim. O mundo está passando por uma crise de rebeliões incontroláveis. – Julia respondeu sem jeito. Também não achava aquilo justo, mas sempre haveria uma saída, pensava ela. – As pessoas não se unem, formam grupos e cada grupo atua individualmente por seus interesses, e tudo o que meu pai está fazendo é tentar acabar com isso e unir as pessoas de novo.

- É muito fácil pensar dessa forma quando se viveu a vida todo num mundinho cor de rosa. – Ele riu com ironia.

 

Julia respirou fundo.

 

- Eu perdi minha mãe assim que nasci ela faleceu durante o parto por causa de uma infecção, fui criada por meu pai até meus 12 anos, depois disso fui morar num internato feminino como uma prisioneira, porque viver aqui era perigoso de mais pra mim sendo filha de um coronel, eu vivi totalmente sozinha rodeada por pessoas falsas e frívolas, sem ter nenhuma única amiga, quase entrando em depressão, e sofrendo vários problemas psicológicos, ansiedade, síndrome do pânico dentre outras coisas das quais eu não me orgulho, e quando eu finalmente sai de lá, eu fui sequestrada por rebeldes a mando de um homem sem escrúpulos que mentiu para o meu pai a vida toda ganhando a confiança dele e a minha, a ponto de deixa-lo encarregando de cuidar de mim na ausência dele. Esse é meu mundinho cor de rosa. – Ela falou o encarando. Cala palavra saiu como espinhos perfurando a pele. Lee realmente não sabia daquela parte, mas mesmo assim ainda não disse nada e sua opinião sobre Julia continuava a mesma. Preferiu o silencio.

- Você age e fala como se só soubesse o lado ruim do mundo, como se apenas um lado da moeda fosse o responsável por tudo. O meu pai não começou esta guerra, ele está tentando acabar com ela! – Julia falou se levantando da cama onde estava sentada. Caminhou em círculos por seu quarto enquanto Lee a observava sem acreditar em uma só palavra.

- Você acha que ele é perfeito porque é seu pai. – Ele deu de ombros.

- E o que o Joshua tem de bom pra oferecer? – Ela deu uma risada irônica.

- Ele sabe como é sofrer por ser minoria. – Ele achava aquele fato mais que o suficiente. – Ele dedicou a vida dele pra ganhar a confiança de seu pai, ele o conhece melhor que você, e sabe todos os planos dele. Mas quer saber, eu não tenho que debater isso com você. Só estou aqui pra te vigiar, e acho que você já viu sua bela casa, tá na hora de voltarmos.

- Acabamos de chegar... – Ela respondeu entre os dentes impaciente. – Você mesmo disse que Deborah e Thierry podem demorar até dias pra voltarem.

- Não era nem pra estarmos aqui. – Ele rebateu.

- Só, me deixe tomar um banho antes de irmos. Eu imploro, vai ser rápido. É tudo que eu mais quero. – Ela juntou as mãos suplicando. Lee revirou os olhos. Por mais que não gostasse dela, não era uma garota orgulhosa.

- Então vai logo. – Ele suspirou de tédio. Odiava ceder.

- Eu não vou fugir. Eu prometo. Não precisa entrar comigo. – Ela pediu.

- Acredito. – Ele debochou.

- Tá bom. Que ódio. – Ela sapateou no chão pisando duro em direção ao banheiro.

O Box era desnecessariamente branco e limpo demais pra uma casa desabitada. Era enorme, e cheirava a lavanda. Havia uma banheira ali, e uma pia de mármore cheia de produtos de beleza: perfumes, cremes e maquiagens em grande variedade, e um espelho gigante na parede. Julia tirou sua roupa rapidamente ficando apenas com suas peças intimas. Nem morta que iria ficar totalmente nua ali. Em seguida abriu o Box onde ficava o chuveiro, era levemente transparente, então Lee podia observá-la sem ter que entrar também ou ver sua nudez, para o alivio da garota, afinal, o limite da pulseira eletromagnética era de alguns metros apenas.

Quando ela sentiu a água quente caindo sobre seu corpo seus músculos relaxaram, era tão bom finalmente se sentir limpa. Usou sabão em abundancia, lavou os cabelos curtos com shampoo e pegou uma tesoura ali tentando consertar o cabelo aleijado. Após o banho, sentiu-se outra pessoa. O que um bom banho não faz...

Em seguida pegou a toalha que estava pendurada na parede do Box e se enxugou, em seguida vestiu um roupão macio. Abriu o box do banheiro e até seu humor parecia estar melhor. Olhou para Lee com um sorriso largo.

- Terminou? Agora vamos! – Ele estalou os dedos ordenando.

- Espera, você não quer tomar um banho também? – Ela perguntou ingenuamente sorrindo. Lee franziu o cenho como se ela tivesse falado a coisa mais estranha do mundo.

- Pra que? – Ele cruzou os braços.

- Garoto, qual foi a última vez que você teve a oportunidade de entrar numa banheira de porcelana? não quer saber uma vez na vida como é estar decente? – Ela colocou as mãos na cintura o encarando. Lee ficou pensativo, não tinha vaidade alguma e pouco lhe importava estar decente ou bem vestido. Mas a forma com que Julia falou lhe despertou uma curiosidade. Não estava acreditando que ia fazer aquilo.

- Anda! Vamos logo! Eu lavo seu cabelo. – Ela sorriu de forma convidativa, então segurou-o pelos ombros o empurrando para dentro do banheiro novamente.

Sem falar uma só palavra ele começou a se despir e Julia se virou de costas. Lee ainda não estava acreditando que estava mesmo fazendo aquilo. Porque estava fazendo aquilo? Nem ele mesmo sabia, podia ser o poder de convencimento da garota que aos poucos parecia ter algum pequeno efeito sobre ele, junto com sua curiosidade por experimentar coisas novas, mesmo se tratando de coisas tão simples como...Um banho?!

- Quando estiver na banheira me avise. – Ela riu.

Após alguns segundos ela sentiu alguns pingos de água a acertando. Se virou prestes a se queixar, mas viu o garoto aparentemente sério e constrangido dentro daquela banheira cheia de espuma. Achou estranhamente fofo. Pegou um shampoo que estava na pia e despejou uma grande quantidade sobre os cabelos negros do garoto. Ele se arrepiou sentindo o produto gelado sobre a cabeça, como uma criança.

- Mergulha. – Ela falou o empurrando para baixo. Ele não estava entendendo o que ela quis dizer, mas foi obrigado mesmo assim. A expressão facial dele após molhar o cabelo foi cômica. Era pior que gato com medo de água.

- Isso arde! Droga! – Ele começou a esfregar os olhos.

- Mas você não fechou os olhos garoto? Ai ai... – Ela suspirou enquanto massageava os cabelos dele com shampoo. Ele ficou imóvel. Aquilo realmente não era ruim, a sensação de ter alguém lavando seus cabelos era boa, estranhamente boa.

 

( ... )

 

Assim que Lee se olhou no espelho não se reconheceu. Estava limpo, os cabelos lisos molhados penteados, e cheirando a perfume feminino, o que Julia usava. Vestiu uma camisa do pai dela que ela achou na casa junto com uma calça. Claro que não se atreveu a comentar que eram do pai dela, ou do contrário ele jamais vestiria, e serviu perfeitamente, como se fosse fabricado pra ele. Mas antes que ele pudesse comentar algo, seu nariz começou a arder e espirrou por causa do cheiro forte do perfume.

- Saúde! – Julia respondeu sorrindo.

- Eu não posso voltar assim. – Ele já começou a tirar a roupa que nem tinha nem 2 minutos que a havia vestido.

- Eu já esperava por isso... – Ela bufou. Enquanto ele tirava a camisa apressado depois de se olhar rapidamente no espelho, Julia notou algumas cicatrizes que ele tinha no corpo, e não eram poucas, várias nas costas, e no tórax apareciam na medida que ele tirava a camisa, ela não sabia se devia perguntar como elas surgiram ali, então ficou calada, mas não parava de olhar. Até que Lee percebeu.

- O que está olhando?... Isso? – Ele apontou para a marca na pele levemente bronzeada. – Sessões de tortura, eu ganhei elas quando era criança, a mais ou menos uns sete anos atrás. – Ele explicou calmamente, como se aquilo não o incomodasse de forma alguma e fosse algo natural, como se ganhar barba ou algo do tipo.

- O que aconteceu? – Ela perguntou intrigada. Ele respirou fundo já imaginando que ela perguntaria em seguida.

- Foi na época que ouve a escassez de água, saímos às ruas pra protestar e um dos soldados do seu pai me... notou, assim dizendo. – Ele sorriu de lado.

- Eu sinto muito... – Ela falou baixinho. – Mas eu tenho certeza que isso não foi a mando do meu pai.

- Não interessa. – Ele a cortou. – Eu não ligo, elas estão comigo pra sempre, mas, pelo menos as ganhei fazendo algo do qual não me arrependo. E isso não é nada comparado ao que eu já vi fazendo a outras pessoas...

- Como não liga? Você era uma criança, devia estar na escola nesse dia, e não nas ruas protestando contra sei lá o que! – Ela replicou. – Por que você enxerga o mundo sem esperanças? Por que sempre vê apenas o lado ruim das pessoas? – Ela insistia em saber.

- Por que é assim que ele é. Cruel, sem piedade. E é assim que eu aprendi a viver. – Ele respondeu firme.

 

O silencio tomou conta do quarto depois daquela resposta. Até um barulho ser ouvido no andar de baixo. Julia sentiu seu coração se acelerar.

- Tem alguém lá em baixo. – Ela se encolheu olhando assustada pra ele.

- Deve ser um dos seus robôs dando defeito. – Ele revirou os olhos. Até barulhos de passos serem ouvindo nas escadas.

- Não é! E está subindo! – Ela sussurrou. Ele também começou a sentir algo estranho.

Alguém estava vindo, e parecia conhecer perfeitamente o caminho. Como aquilo podia ser possível se apenas as digitais de Julia abriam a casa?

- O que vamos fazer? – Ela o olhou assustada.

- Você tem alguma arma aqui? – Ele perguntou.

- Não, claro que não! Quer dizer, eu não sei... A não ser que esteja escondida. – Ela falou confusa e eufórica ao mesmo tempo. Lee deu um tapa na própria testa não acreditando naquilo.

– Vem, vamos nos esconder. – Ele a puxou a levando até o banheiro. E em seguida trancou a porta. Era o plano mais sensato no momento, não poderia saber com o que estariam lidando.

- Meu Deus, e se for que alguém nos viu saindo? vão nos matar... – Julia instintivamente abraçou Lee com seu coração batendo forte. Estava apavorada, que não se importava, só queria abraçar alguém.

- Faz silencio! – Ele sussurrou irritado.

 

E então ouviram alguém tentando destrancar a porta do quarto.

 

( ... )

 



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