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História Irresignada - Capítulo 4


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Capítulo 4 - Plano


Fanfic / Fanfiction Irresignada - Capítulo 4 - Plano

Depois de se trancarem no banheiro, Julia prendeu a respiração por alguns segundos. Seu coração parecia querer sair no peito. Sentiu o garoto atrás de si lhe segurando firme para que não se mexesse. Qualquer movimento ou barulho naquele momento colocaria tudo a perder.

Ficaram em silencio total, a única coisa que se ouvia eram os passos de alguém do quarto ao lado, passos lentos e cuidadosos, diferente do ritmo cardíaco da garota. Não se deram conta de quanto tempo já estavam ali trancados naquele banheiro, cada segundo parecia infinito. As pernas de Julia já estavam dormentes de tanto tempo sem se mover, se não fosse Lee a segurando já teria caído ao chão.

Seu pescoço escorria gotas de suor frio, e suas mãos tremiam. Parecia que cada dia que se passava, era seu último dia de vida desde que saiu do internato. Após alguns minutos, já não se ouvia mais nenhum barulho de passos, mas mesmo assim esperaram mais alguns torturantes minutos para saírem de lá.

 

- Se alguém ainda estiver lá... Você irá me entregar? – Julia perguntou baixinho enquanto se aproximava da porta. A pergunta pegou Lee de surpresa, não tinha certeza do que aconteceria se alguém pedisse a ele que entregasse a garota, no fundo até queria se livrar dela, mas não poderia fazer aquilo naquele momento. Julia queria acreditar que existisse, nem que fosse um mínimo, de consideração dele para com ela, nem que fosse o fato de que ele prometeu a seus líderes que não deixaria Julia escapar por nada nesse mundo.

- Não. – Ele respondeu finalmente. Ao ouvir isso Julia tomou coragem para finalmente abrir a porta. Quando deu o primeiro passo para dentro do quarto, o mesmo estava vazio, da mesma forma que ela havia deixado anteriormente, sem sinais de que alguém teria revirado, estava tudo no mesmo lugarzinho. Por meio segundo quis acreditar que fora tudo coisa da sua cabeça, ela não estava bem emocionalmente há muito tempo. Mas ao notar a ponta do carpete torcida concretizou que realmente alguém esteve ali.

Talvez o estranho também estivesse com medo de que alguém a visse, e acabou correndo. Talvez não fosse alguém perigoso, quem sabe algum empregado ou algo do tipo? Poderia ser alguém da imprensa, um paparazzi talvez? Alguém que havia descoberto que a filha do coronel Carter estava em casa, eram muitas possibilidades. Em seguida Lee se aproximou de Julia colocando a mão em seu ombro.

Nem precisava dizer nada, estava claro que deviam sair daquela casa o mais rápido possivel e voltar pro subsolo. Desta vez Julia não relutou, abandonaram a casa o mais rápido possível para voltar antes que alguém descobrisse que tinham saído. No caminho não falaram uma palavra, nem comentaram nada a respeito, era como se ambos mutualmente quisessem apagar aquele episódio que quase levou tudo a perder.

 

~ * ~

 

Enquanto isso, no escritório de Thierry, Deborah estava assentada na “cadeira do líder” com os pés sobre a mesa enquanto usava o telefone para fazer uma ligação. Estava nervosa, após oito chamadas seguidas não era atendida. Até finalmente ouvir uma voz de sono do outro lado da linha.

 

- Alo...?

- Joshua? Como vão as coisas? – Ela perguntou impaciente.

- Quantas horas são? – Ele resmungou.

- Não me faça perder a paciência! – Ela esbravejou.

- O que aconteceu? – Ele bufou.

- Fiz o que você me pediu, fui até a casa do coronel Carter. Consegui entrar usando um fio de cabelo que peguei da Julia, vasculhei a casa e não achei merda nenhuma do chip que você me falou! – Ela respondeu revoltada. – Você me garantiu que estava lá!

- Vocês não soltaram a Julia, soltaram? – Joshua perguntou desesperado do outro lado da linha. – Se fizerem isso, o meu plano de conseguir o posto do Coronel Carter e do Thierry conseguir o chip está acabado!

- Claro que não! Acha que sou idiota? Ela está sob os cuidados do Lee no quarto onde a colocamos. – Ela bufou impaciente. – Mas agora que sabemos que provavelmente esse chip não está lá, eu acho que devemos interrogá-la. – Falou firme.

- Não faça isso! Ela deve achar até o último minuto que está sendo mantida aí por um resgate, se ela suspeitar que esse tempo todo estamos atrás do chip ela jamais vai contar aonde ele está, e do jeito que é desequilibrada pode até destruí-lo antes que acabe em nossas mãos, por isso não deixe o Lee tirar os olhos dela por nada nesse mundo. – Thomas deu as ordens. Estava mais a par da situação do que Deborah, então mesmo não gostando de receber ordens, ela resolveu acatar as suas ordens.

- Joshua, você tem certeza que a Julia está com esse chip? – Deborah perguntou novamente. – E se ela não estiver fazendo papel de sonsa? E se ela nem se quer souber sobre esse chip realmente?

- Ela está e ela sabe! Eu sempre ouvi o coronel Carter dizendo que o chip estava com a Julia, e ele nunca mentiu pra mim. Desde quando ela chegou do internato eu olhei em todas as coisas dela, malas e pertences, verifiquei tudo minunciosamente e não encontrei nada, então só poderia estar na casa dela, ou está lá em algum lugar secreto do qual ela sabe. Mas nem sonhe em questioná-la sobre isso, isso pode estragar o meu plano se souber que é isso que procuramos. – Joshua decretou. – Agora é só uma questão de tempo até o Coronel Carter voltar da missão e quando souber que sua querida filha foi sequestrada ele irá renunciar a corporação pelo livramento da filha, e também a convencerá a entregar o chip, só ele poderá fazer isso, e eu assumirei o seu lugar e de brinde, e todos sairemos ganhando nessa, então colabore Deborah.

- Tudo bem Joshua, mas eu ainda assim não acho que a sonsa da Julia saiba sobre esse chip. – Deborah bufou.

- Não a subestime! E mantenha-a presa, ela é chave para conseguirmos o chip, é só questão de tempo. Enquanto ela achar que se trata apenas do pai dela, ela irá colaborar com a gente. Você não faz ideia do quanto esse chip é importante. – Joshua respondeu.

Em seguida ele desligou o telefone antes que Deborah pudesse protestar qualquer coisa. Jogou o telefone com força no gancho e cruzou os braços bufando, odiava quando lhe davam ordens, mas eles estavam no mesmo barco, ambos queriam o poder, e fariam qualquer coisa para conseguir isso.

 

~ * ~

 

Quando chegaram ao quarto, Julia suspirou de alivio pelo passeio arriscado não ter terminado de uma forma pior, ninguém os viu saindo, e ninguém acabou ferido. Julia deitou em sua cama e Lee se assentou no chão ao lado da mesma. Ambos estavam cansados, e milhões de pensamentos subiam a cabeça da garota, mesmo apavorada com tudo que acontecia, estranhamente ela se sentia segura ao lado de Lee, mesmo que não gostasse de admitir aquilo, afinal mal o conhecia.

 

- Eu... Estou com cólica de novo... – Ela gemeu envolvendo as mãos sobre a cintura magra.

- Isso vai passar. – Ele respondeu a olhando.

- Não é tão simples, eu não tenho nenhum remédio aqui. – Ela sorriu cansada.

- Não estou falando sobre isso. Estou falando que logo seu pai vem te resgatar, e te levar pra um lugar bem longe daqui. – Ele sorriu de lado.

- Ele não vai fugir comigo pra um lugar bem longe, não sou mais criança, ele vai ficar aqui e restaurar a capital e todos irão viver bem. – Ela respondeu convicta. O garoto apenas sorriu irônico sem responder nada. Ele nunca acreditaria no coronel Carter.

Ficarem em silencio.

- Eu sou a prisioneira aqui, e você parece ter menos esperança do que eu... – Julia suspirou.

- Sou realista. – Ele respondeu escorando a cabeça na beira da cama onde ela estava.

- Quer saber, quero tentar dormir agora. O dia está quase amanhecendo. – Ela se virou na cama ficando de testa com a parede. Em seguida Lee se levantou indo até a porta sem dizer nada.

- Aonde você vai? – Ela se virou na mesma hora.

- Trancar... a porta? – Ele revirou os olhos.

- Tudo bem... Achei que...

- Que eu ia te deixar sozinha? – Ele riu.

- Não é isso! E só que se eu passar mal eu posso avisar alguém... Nem que seja você. Estou com cólica! – Ela reafirmou.

- Se quiser eu posso arrancar seu útero pra você nunca mais sentir cólica na sua vida! Resolvo seu problema. – Ele sorriu. Julia franziu o cenho arrependida de ter comentado com ele como surgiam as cólicas nas meninas. Será que ele não conseguia ter pelo menos um pingo de sensibilidade uma vez?

- Eu não achei engraçado isso! Suas piadinhas não tem graça nenhuma Lee! – Ela bufou se assentando sobre a cama.

- Eu não achei engraçado Lee. – Ele deu de ombros imitando-a de forma irritante.

- Você me dá medo quando fala essas coisas. – Julia arregalou os olhos. – Você tem não tem sentimentos, não tem empatia por ninguém garoto, você é o próprio demônio!

- E você está me cansando! Vai dormir. – Ele revirou os olhos. – Você acha que eu gosto de ficar vigiando você? De aguentar seus ataques de histeria? Por mim a gente te jogava numa cela e deixava você lá vivendo a pão e água! Mas por algum motivo você é tão especial que eu preciso ficar colado em você. – Ele retrucou ficando ofegante de raiva.

- Quer saber? O único motivo pelo qual eu tentei ser educada com você até agora é pra tentar ganhar sua confiança e tentar fugir, mas eu já cansei disso! Não dá pra conviver com você, não dá pra te suportar, você é um monstro! Vocês todos são! Vocês mantem uma pessoa inocente presa, vocês me torturam psicologicamente. – Lee viu Julia passar de branca para vermelha enquanto falava, e ao invés de ficar irritado ele começou a gargalhar descontroladamente.

- Nossos métodos podem ser bárbaros para a senhorita, mas não temos escolha. Seu pai não nos deu. – Ele falou brevemente. – Mas então, dizer que agora você não vai mais ser educada? vai se relevar e mostrar seu lado verdadeiro? Não te ensinaram no internato a ser uma dama com todo mundo? Que decepção senhorita Carter. – Ele falou fazendo uma falsa expressão de surpresa.

- Eu não quero mais nem falar com você! Se não vou acabar proferindo um palavrão que não acho bonito. – Ela se virou na cama colocando a almofada sobre a cabeça como se bloqueasse qualquer som ou coisa que pudesse incomodá-la. Era tão menininha, pensava Lee

- As minhas preces foram finalmente ouvidas! Chega de ouvir a voz aguda da senhorita Carter! Ela nunca mais falará comigo, amém senhor. – Ele se jogou na cama junto a ela apenas pra irritá-la, e em seguida sentiu ela tentando empurrá-lo com os pés, ele apenas ria ainda mais alto.

- Mas que modos são esses milady. – Ele falou irônico enquanto a empurrava contra parede, com suas costas contra as dela. – Não sabe pedir licença?

- Não encosta em mim! – Ela murmurou irritada.

- Não encoste em mim... Não se preocupe, tomei banho hoje, você mesma me ajudou, lembra? – Ele sorriu. Julia sentiu seu rosto arder de vergonha, não acreditava que tinha feito aquilo por ele, lavou seus cabelos e com satisfação, naquele momento não estava sendo educada por conveniência. Não respondeu nada, apenas continuou a empurrá-lo, apoiando suas mãos e pés na parede e fazendo força para trás inutilmente, colando suas costas na dele, algo que não achou muito apropriado, aquele tipo de aproximação estava deixando-a constrangida, mas ele parecia não se importar, o que não era surpresa alguma.

Até finalmente ele ceder de proposito e deixou-se ser empurrado para fora, caindo no chão enquanto ria, rolava de rir, e Julia o encarou com os olhos cerrados tentando respirar fundo para não rir também, mas de ódio.

- Ai que inferno, me deixa ir embora! diz pros seus amiguinhos que eu consegui fugir eles não vão ficar bravos com você, eu transfiro o dinheiro que eles quiserem pra conta deles, você é mais forte que todos aqui, ninguém vai ficar contra você. – Julia se levantou da cama indo até ele ficando frente a frente. Olho no olho. Forte? Ela acreditava nele?

- Acha que eu sou o mais forte daqui? – Ele riu num misto de ironia e confusão.

- Bom, sim. Você não tem medo de nada, pelo menos é o que demonstra. – Ela falou embaraçada. O elogio agradou Lee, ninguém nunca tinha dito a ele essas palavras, mesmo que pra Julia aquilo não fosse exatamente uma qualidade.

- Escuta bem senhorita Carter, não sei se está falando isso pra puxar saco novamente, ou se realmente é tão ingênua assim, bem não importa, mas saiba que eu odeio traição, odeio com todas as minhas forças, então não me peça pra fazer isso. Me xingue o quanto quiser, mas não me peça isso novamente. – Ele segurou-a pelo braço colando suas testas. – Eu nunca trairia a minha gente... e muito menos faria algo por você. Tá me entendendo? Eu não sou os soldados do seu pai, nem suas coleguinhas de orfanato que fazem sua vontade por ser filha de Coronel. Cai na realidade e para de ser ingênua menina. – Julia engoliu seco, nunca ninguém fora tão direto com ela desta forma.

O mais intrigante é que no fundo Julia não se sentia desprotegida ao lado dele mesmo com tudo que ele dizia. Ele parecia ser a única pessoa sincera que não fora falso com ela em toda sua vida, tirando seu pai, enquanto as pessoas que eram próximas de si e que ela considerava de confiança haviam a apunhalado pelas costas, desde o internato até o momento. Ficou em silencio por alguns instantes até finalmente tomar coragem para dizer.

- Lee... Obrigado. – Ela murmurou.

- Hã? – Ele a encarou pendendo a cabeça para o lado.

- Por ser o único que não mente pra mim. Apesar de ser tão frio e insensível comigo. Pelo menos foi o único que não mentiu pra mim até agora. – Ela sorriu sem jeito. Lee não respondeu nada, apenas trancou a porta e voltou a se assentar no chão, não sabendo com responder aquilo.

 

~ * ~

 

No dia seguinte, Julia acordou sentindo suas pálpebras doloridas estavam inchadas pelo choro da madrugada, sonhou a noite toda com seu pai. Não teve tempo nem de lavar seu rosto, alguns homens entraram no quarto a carregando dali, ainda estava sonolenta e confusa, mas sem relutar, parecia que já estava acostumada a ser levada a força pra lugares que não queria. Olhou para os lados procurando Lee e nenhum sinal do garoto, ela não estava entendendo o que se passava por ali, mas estava sem forças para questionar qualquer coisa naquele momento.

Fora levada até uma sala de escritório, a mesma sala que esteve no primeiro dia que chegou ali. Vários homens e mulheres dali estavam em volta, dentre eles Thierry o líder, Deborah e Lee. Julia fora colocada numa cadeira e teve suas mãos e seus pés amarrados. Ninguém dizia nada, e ela começou a sentir sua respiração falhar, parecia que todos esperavam por algo importante que iria ocorrer em segundos.

Um notebook foi colocado em sua frente enquanto era conectado. Julia engoliu seco, sentiu que seria forçada a falar coisas que talvez não quisesse, ou que não fossem verdadeiras. Não demorou muito e o sinal foi retomado e a imagem de seu pai surgiu na tela fazendo-a se debater na cadeira, era a primeira vez que o via em seis anos, e não conseguia não expressar a angustia que sentia de estar naquela situação.

 

- PAI! ELES ME SEQUESTRARAM! JOSHUA ME ENGANOU, PAI ME AJUDA! – Ela gritava o mais rápido possível enquanto a imagem na tela se normalizava, tinha medo de que eles não a deixassem falar mais que aquilo, então foi a primeira coisa que lhe veio à mente pra dizer, mas ninguém a reprovou por isso.

- Julia, você está bem? Eles machucaram você? – Seu pai falou se aproximando da tela ao ver sua filha amarrada naquela cadeira. Parecia em choque.

- Não machucamos sua filha coronel Carter, mantemos nossa palavra, e está na hora de manter a sua! O senhor tem até amanhã ao meio dia para fazer um pronunciamento formal anunciando sua saída e nomeando Joshua como seu substituto. E claro, não se esqueça de pedir a Julia para que nos entregue o que precisamos. – Thierry falou ficando do lado da garota, como se quisesse ressaltar que ela estava sob seu poder, e mesmo com todo poder nada o coronel podia fazer para resgatar sua filha se não cumprisse o que lhe foi determinado.

- Por favor, me deem mais tempo, não machuquem minha filha! – Ele falava desesperado, estava implorando, um coronel sem saber o que fazer para salvar sua única filha das mãos de rebeldes. E enquanto isso Julia parecia confusa quanto ao pedido de Thierry, o que mais ela teria que dar a eles?

- Pai! O que eles querem? Me diga! – Ela perguntou sem se importar se estaria atrapalhando a conversa ou não entre os dois. Mas o coronel Carter se fez de desentendido e não a respondeu, enquanto Julia imaginava ser uma falha no sinal.

- Como somos muito misericordiosos, vamos dar até amanhã ao meio dia. Sabemos que acabou de chegar de uma viagem importante, está bom pro senhor? – Deborah falou de forma cínica e cruzou os braços. Olhou para Thierry e ele fez um sinal com a cabeça concordando.

- PAPAI EU TE AMO! – Julia gritou, e logo em seguida fora acertada por um tapa no rosto provocado por Deborah.

- NÃO INTERROMPA QUANDO NÃO FOR SUA HORA DE FALAR! – Ela olhou irritada para a garota. Ao ver a cena pelo seu Notebook o coronel Carter chorou de angustia, ver sua filha naquela situação era a pior coisa que ele podia sofrer, preferia mil vezes estar no lugar dela.

- Eu também te amo filha... – Ele respondeu com os olhos avermelhados.

- Recado dado! Nos vemos amanhã Coronel. – Ela desligou o notebook em seguida encerrando a transmissão.

Julia ficou de cabeça baixa, apesar do medo estava feliz por ter conseguido ver seu pai depois de tantos anos, mesmo que tenha sido daquela forma e na situação em que estava. E estranhamente ela sentia que ele também escondia algo dela, mas não queria pensar naquilo naquele momento.

Em seguida foram saindo um por um daquela sala, todos satisfeitos por mostrar ao coronel quem estava por cima agora, era o momento de se prepararem para o tão aguardado dia de confrontar o coronel Carter, apenas Lee permaneceu na sala para soltar as mãos e os pés de Julia daquela cadeira que mais parecia de tortura.

Ela não fez nenhum movimento brusco, ele notou que os pulsos estavam vermelhos assim como seu rosto por causa do tapa de Deborah, o olhar dela parecia distante, como se apenas seu corpo estivesse naquela cadeira e seus pensamentos em outro mundo.

 - Meu pai tá vivo... – Ela sussurrou falando consigo mesma. – Meu pai... eu o vi...

- Amanhã isso acaba. Não se preocupe. – Ele respondeu a olhando sério. Em seguida a ajudou a se levantar da cadeira. Julia estava fraca, não havia comido bem durante esses dias, e se continuasse dessa forma iria ficar doente fácil.

- Eu sei que meu pai vai dar a eles tudo que pedirem... – Ela respondeu olhando para o garoto. – Mas parece que eles querem muito mais do que meu pai pode dar... Ele parecia tão amedrontado, eu nunca o vi assim... – Julia questionou. Seu pai parecia preocupado naquela transmissão. Julia sentiu que não se trava apenas de tomarem o poder da capital, havia algo além disso. O que estavam escondendo?

- Do que está falando? Tudo que queremos é tirar seu pai do poder e Joshua irá assumir a liderança da capital, e você será solta. – Lee respondeu em seguida.

- Eu conheço o meu pai! Se fosse apenas isso ele teria entregado tudo a vocês na mesma hora, tem algo que vocês querem do meu pai que ele não pode dar... – Julia olhou para Lee engolindo seco.

- Eu não sei do que você está falando... – Ele a olhou intrigado.

- Por que não pergunta a Deborah, ou ao Thierry do que se trata? Eles não te contam tudo? Você não faz parte do grupo íntimo deles? – Julia o encarou. Lee teve que admitir que pela primeira vez algo estranho estivesse acontecendo ali. Não queria admitir que estivessem escondendo algo dele, mas se estivesse ele iria descobrir.

- Você precisa voltar pro quarto... – Ele encerrou o assunto a escoltando de volta para o quarto de onde ela saiu mais cedo.

 

~ * ~

 

Mais tarde naquele dia, após pensar incessantemente no que Julia havia lhe dito, Lee resolveu que tiraria aquela história a limpo, o que os líderes do subsolo realmente queriam? E porque sempre o deixavam de fora quando tinham suas reuniões secretas? Estava cansado de ser visto como inútil por ele e obedecer a tudo que lhe diziam, Lee sempre fora leal a eles e estava provando aquilo quando se ofereceu para sequestrar Julia quando ainda estavam planejando o ato, se achava no direito de estar informando sobre as decisões que tomariam.

Não iria se importar de levar uma bronca, entrou na sala onde estavam conversando a vários minutos, abriu a porta sem bater e assim que adentrou o recinto todos se calaram. Joshua, Deborah e Thierry com a mesma expressão de assustados.

 

- Lee... Onde está a Julia? Devia estar vigiando ela. – Deborah ordenou um pouco assustada pela aparição repentina do garoto.

- Ela está trancada. Está tão fraca que não conseguiria abrir a porta mesmo que estivesse destrancada. – Ele suspirou. Em seguida se assentou em uma das cadeiras da mesa de reunião. – Eu quero saber, exatamente o que está se passando aqui. – Ele os olhou sério. Thierry sabia que ter aquele garoto contra eles seria um grande problema.

- Estamos discutindo sobre amanhã! Vamos até a capital nos encontrar com o coronel Carter, agora que ele já sabe que estamos com a filhinha dele, temos todo o poder. – Thierry respondeu com um sorriso ameno demonstrando total credibilidade e confiança no que iriam fazer.

- Por que o Coronel Carter parecia um tanto amedrontado e relutante quando disseram a ele pra pedir a Julia que lhe entregasse algo que queriam? Achei que ele se importasse com a filha dele. – Lee respondeu irônico.

- Mas é exatamente por se importar com ela que ele está adiando. – Joshua sorriu. Agora mesmo que Lee não estava entendendo nada.

- Vocês, por favor, me contem de uma vez o que está acontecendo! – Ele falou entre os dentes, já estava começando a ficar irritado, odiava rodeios.

- Tudo bem, não se estressa Lee. – A garota sorriu para ele como se tentasse passar confiança. – Além de tomarmos a capital e ocuparmos o lugar do Coronel Carter, descobrimos que ele é o tutor do chip alfa, o chip que controla os demais chips implantados nas pessoas há anos atrás, os chip beta e gama, muitos achavam que era só um mito, mas esse chip realmente existe, e se deixarmos nas mãos do coronel Carter ele futuramente usará para controlar cada um de nós, principalmente nós que somos minoria, e você sabe que esse chip uma vez implantado em cada pessoa, é impossível de ser retirado. – Deborah falou. – Mas ele diz que o chip está perdido, e ele vive pedindo tempo para encontrá-lo, por isso ainda não soltamos a princesinha, só ele pode convence-la de entregar a nós, do contrário, ela já poderia tê-lo destruído apenas para não entregar. Sabemos que o chip está com ela, só precisamos que ele confirme isso. – Ela revirou os olhos.

- Ah meu Deus... Eu acabei de me lembrar de algo que o Coronel Carter sempre me dizia quando estávamos em combate. – Joshua esboçou um sorriso malicioso interrompendo a conversa.

- O que é? – Thierry olhou curioso.

- Ele sempre me dizia que Julia era seu maior tesouro, e sua maior arma. – Ele falou se recordando.

- E o que isso quer dizer? Que ele era um puxa saco de marca maior da filha? – Lee perguntou o encarando.

- Não é obvio Lee? – Deborah deu uma gargalhada. – O chip está com a Julia! Mas disso você já tinha me falado. – Deborah encarou Thomas cruzando os braços.

- Mas se estivesse com a Julia ele iria pedir a ela imediatamente para nos entregar! – Deborah respondeu cruzando os braços. – Isso não tá fazendo sentindo algum, tem alguma coisa errada gente.

- Faria sentido, mas não é isso, é quase isso. – Joshua sorriu. – O chip não está com a Julia, o chip está NA Julia.

E um silencio se formou entre os três que pareciam estar conectando suas mentes aos poucos até chegarem a mesma conclusão e se olharam com espanto, e Lee mais espantado ainda por eles terem escondido isso dele.

- Então é isso... Esse tempo todo o chip esteve dentro dessa garota! – Deborah ficou de boca aberta. – Claro, que ideia mais engenhosa do coronel, colocar o chip no corpo dela, um lugar obvio demais para ser levado em conta, jamais seria encontrado. Ele está nos enrolando porque está pensando numa maneira de livrar a filhinha dele da morte certa.

- Vamos ter que matá-la pra tirar o chip? – Joshua falou assustado. Sobre essa parte ele ainda não tinha pensado.

- Não sabemos em que parte do corpo dela está, e ela não vai nos contar, então, o jeito é matá-la e... Procurar... – Deborah sorriu de lado, mesmo com a ideia macabra e cruel. – O chip alfa não é detectado por nenhum rastreador como os chips beta e gama, nem pelos mais avançados. Não temos escolha.

- Não queria ter que chegar a esse ponto. – Joshua falou olhando para ambos. – Nosso acordo foi apenas assustá-la e usá-la como isca, mas não matá-la. Isso poderia causar uma revolta na população se descobrissem.

- Eu entendo você... Mas não temos outra escolha. –Thierry respondeu olhando para baixo. Sempre ficava do lado de Deborah. Lee ouvia tudo calado. – E ninguém irá descobrir, eu já sei o que vamos fazer.

- Não. – Joshua protestou. – Amanhã iremos interrogá-la e ela certamente irá nos contar onde está o chip, vamos retirar do corpo dela sem matá-la. Fizemos um acordo: ela em troca do chip. Nós sempre honramos o que prometemos, é isso que nos faz diferentes do povo da capital. – Deborah arqueou a sobrancelha ficando muda, mas no fundo não iria acatar as ordens dele, e Lee sabia disso.

- Tem certeza que isso vai dar certo? – Thierry olhou preocupado, mas seu tom era mais de duvida do que seu falso olhar expressava. – Se ela tem consciência do chip, deve saber o quanto é poderoso para se desfazer dele...

- Está decidido. Está bem pra vocês? Fim do mistério. – Joshua olhou diretamente para Deborah. A garota abaixou a cabeça concordando. – Depois de tudo, vamos devolve-la ao coronel como tínhamos prometido. Eles não vão nos representar nenhuma ameaça sem o chip, se matarmos a Julia o povo terá motivos para duvidar do nosso caráter, e eu não quero sofrer um Impeachment

 

Depois que Joshua saiu, ficaram apenas os três na sala de reunião. Deborah estava calada pensando no que iria fazer, não achava que a ideia dele fosse a melhor, e Thierry concordava com ela. O silencio se fez presente por vários minutos, e muitos pensamentos se passavam pela cabeça de Lee, eles sempre foram unidos e agora estavam passando por aquela decisão difícil sem união como sempre eram. Ele não sabia de que lado ficar, a verdade é que ele não estava do lado de nenhum agora. Estava confuso.

 

- Joshua está equivocado, essa garota jamais vai contar aonde está o chip, e mesmo que conte, deve estar em algum lugar do corpo dela que cirurgia nenhuma vai conseguir salvá-la! – Deborah falou se levantando em seguida.

- Acha que eu não sei? Enquanto damos tempo ao coronel Carter ele pode muito bem estar planejando algo contra nós. Joshua levou a sério demais essa coisa de “sequestro justo”. – Thierry falou convicto. – O que você acha Lee? – Perguntou ao garoto que até o momento estava calado apenas analisando tudo.

- Eu não sei. – Respondeu apenas aquilo, pois ainda não queria relevar sua verdadeira opinião, queria ver quais seriam as estratégias de cada um.

- Eu tenho uma ideia... – Deborah sorriu.

- Conte-nos. – Thierry a olhou curioso. Ela correu rapidamente até a janela da sala olhando para ver se não tinha mais ninguém por ali.

- O Lee mesmo disse que a Julia está muito fraca, ela é uma garotinha fresca mimada princesinha que não sobreviveria aqui por muito tempo... Então, hoje à noite, você, Lee... Mate a Julia, mas faça de uma jeito que pareça que ela morreu por fraqueza ou desnutrição, temos alguns remédios pra isso, basta colocarmos na comida dela, assim, Joshua não vai ter mais um peso na consciência, e poderemos esquartejá-las e procurar por esse maldito chip! Essa coisa é micro, só matando ela poderemos achar. – Ela contou seu plano com tanto entusiasmo que parecia não ter erros.

- Você é um gênio Deborah. – Thierry sorriu para ela.

- E então Lee? Vai nos ajudar? – Deborah se aproximou dele sorrindo de lado. Com a plena certeza de que poderia contar com o garoto. – Não será a primeira pessoa que você mata na sua vida, e nem a última... – Há algum tempo atrás Lee iria obedecer sem pensar duas vezes, Deborah sempre teve um efeito forte sobre ele, mas naquele momento, parecia que as coisas não estavam sendo justas.

Lee sabia dos motivos que o levaram a matar pessoas em sua vida, e foram coisas das quais ele não se orgulhava, mas que fora preciso. Mas aquele pedido o incomodou mais do que ele esperava.

- Claro, eu a mato. – Ele sorriu confirmando após pensar alguns segundos.

 

~ * ~

 

Ao retornar para o quarto onde estava Julia, Lee viu a garota deitada sobre a cama, ela não estava dormindo apesar do horário. Não disse nada quando o viu entrar, parecia que estava com a cabeça no espaço. O garoto se assentou no chão ao lado da cama e ficou a observando.

 

- Julia... Você está na terra? – Ele a chamou. Ela olhou para ele em seguida despertando.

- Sabe... Viviam dizendo isso pra mim no internato... – Ela sorriu. – Eu estava... Pensando no meu pai. – Ela respondeu em seguida e se assentou na cama com as pernas em posição de borboleta.

- Espera... a gente não tinha combinado de não se falar mais? – Ela lançou um olhar e uma cara emburrada para ele como se estivesse acabado de se lembrar.

- Não temos escolha. – Lee sorriu.

Ficaram em silencio, ele pensando em tudo que Deborah havia dito a ela, enquanto Julia pensava numa forma de puxar assunto.

- Lee... Você não se lembra mesmo dos seus pais? – Ela perguntou em seguida, sempre vinha com assuntos aleatórios como aquele, como se esquecesse as vezes que estava numa prisão com psicopatas que queriam matá-la, as vezes ela só queria conversar, mas infelizmente agora naquele momento ele não podia dar a atenção devida. O garoto apenas balançou a cabeça negativamente.

- Sabe, é bom ter alguém, ser sozinho é horrível. – Julia comentou.

- Eu já me acostumei. – Ele suspirou. – Por que... Você sempre me faz esse tipo de pergunta?

- Por que... No fundo eu vejo que você é um garoto do bem. – Ela sorriu rapidamente. – E eu não to falando isso agora pra tentar ganhar sua confiança como antes, realmente, só acho que você precisa de uma família de verdade. Isso aqui... Aquela garota Deborah, o Thierry e o Joshua... Eles não são sua família de verdade. O Joshua foi capaz de trair meu pai, meu pai que sempre deu tudo a ele e o tratou como um filho, quem garante que ele não trairá vocês? Thierry da mesma forma, só pensa em poder, e a Deborah... Ela parece ser possuída por vários demônios, ela é egoísta, fria, manipuladora... Eu sinto isso. – Lee engoliu seco, até achou as ofensas dela bem delicadas para descrever o caráter daqueles três. Julia estava apenas confirmando o que Lee vinha pensando a algumas horas.

Deborah e Thierry estavam traindo Joshua. Isso estava acontecendo, era inegável, e isso era algo que Lee não suportava, e ele sabia que no fundo não podia continuar com aquilo entalado.

- Julia... – Lee a chamou após alguns segundos que permaneceu calado. Parecia que ele tinha algo a dizer que estava entalado e ela logo percebeu isso.

- Sim...? – Ela olhou para ele.

- Você confia em mim de verdade? Como havia dito antes? – Ele perguntou a olhando sério.

- Do que você tá falando? – Julia começou a suar frio.

- Se eu te pedisse pra fugirmos daqui, mesmo sabendo que você estará condenada a perseguição e morte, junto comigo, você iria? – Lee se levantou do chão ficando de frente para a garota.

- Lee... O que tá acontecendo? Quer fugir “deles?” – Julia arregalou os olhos.

- Hoje eu vi que tipo de pessoas eu vinha servindo desde que nasci... Eu não posso conviver com traição e com coisas que vão contra o que eu acho justo, não quero ferir ninguém daqui, mas também não posso continuar com ele, e isso envolve você, está correndo risco de vida. O chip alfa está dentro de você. Era por isso que seu pai pedia tempo. Ele não sabia que nós sabíamos da existência dele. – Lee resolveu contar tudo a ela. Julia abriu a boca desacreditada. Não tinha ideia do que ele estava falando, mas pelo seu tom parecia sério, e nem tentaria agora entender do que se tratava aquele tal de “Chip Alfa”, primeiro sua liberdade era a maior prioridade ali, depois as perguntas. Ela iria confiar nele.

- Deborah e Thierry vão agir contra a vontade de Joshua e vão matar você. Na verdade, eles me pediram para fazer isso. Mas eu não posso, mesmo que eu tenha dito que mataria, e quando Deborah descobrir que não fiz nada com você, ela mesma irá te matar. Não era esse o planejamos a muitos anos desde que Joshua se infiltrou no exército do seu pai. – Ele desabafou tudo que pensava, algo que até agora Julia nunca havia presenciado. Ficou surpresa com a opinião firme e decidida do garoto.

- Lee... Eu confio em você. – Ela responde se levantando da cama em seguida e ficou de frente para ele. – Sei que juntos vamos conseguir sair daqui você conhece todas as saídas, é esperto, ninguém irá pegar a gente. – Ela o olhou animada e com esperanças, por mais que não fosse de se deixar levar pelas emoções, lamentou profundamente por Julia estar tão esperançosa assim naquele plano suicida, “mas se correr o bicho pega, e se ficar o bicho come.”

- Eu não garanto que esse plano irá funcionar, e que alguém sairá vivo dessa. Os subcitzen irão caçar você, e os soldados do seu pai irão querer minha cabeça... – Ele respondeu rindo soprado.

- Não importa que eu tenha que passar por tudo isso se for pra conseguir a liberdade. – Ela reafirmou. – Nós vamos conseguir.

 



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