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História Irresignada - Capítulo 5


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Capítulo 5 - Fugitivos


Lee sabia que poderia fugir daquele lugar com facilidade, Deborah e Thierry não desconfiariam dele jamais, e tinham total confiança nele. Mas ao contrário deles, o Lee havia perdido toda a sua confiança neles. Matar uma garota inocente por causa de um chip que dava acesso a armas nucleares nunca foi seu objetivo. Ele queria justiça, mas não esse tipo de justiça, aquilo seria se tornar pior se que os soldados da capital.

Durante a madrugada, acordou Julia para que saíssem pela porta secreta do quarto. O plano era arriscado, sabiam que no dia seguinte iriam ser caçados até a morte. Mas era melhor arriscar pela liberdade do que continuarem presos a aquele sistema sem esperanças. Agora era cada um por si, não estavam mais de nenhum lado, mas poderia contar com Julia agora que ela sabia de tudo que estava acontecendo na real.

Quando chegaram à cidade da superfície, se abrigaram em um galpão abandonado aonde Lee sabia que seria mais seguro. Ficariam ali até o dia amanhecer.

Enquanto Julia comia algumas barras de cereais que foram compradas no caminho, Lee procurava por algo incessantemente nos estilhaços daquele local, encontrando apenas alguns vestígios de ossos de pessoas que se escondiam ali durante as guerras.

 

- Lee, não está com fome? – Ela perguntou a ele indo ver o que ele procurava. Acabou pisando em um dos crânios que estava no chão. – Que lugar é esse? – Ela engoliu seco sentindo um frio subindo a espinha.

- Era um tipo de esconderijo, muitos indigentes ficaram aqui e morreram. Mas não se preocupe, ninguém vem aqui há anos... – Ele respondeu tentando acalmá-la.

- Todos eles... Esse tempo todo estiveram em guerra por minha causa. – Julia olhou para baixo. – Talvez, eu devesse morrer de uma vez pra ficarem com esse chip e isso tudo acabar.

- Não é culpa sua, implantaram isso em você, a culpa é das pessoas que só querem poder e não se importam com mais nada. – Ele respondeu a olhando. Julia ficou calada fitando o vácuo. Estava tão confusa, mas agora entendia o porquê de seu pai a proteger tanto e deixá-la trancada daquela forma. Era tudo pra o seu bem.

- Você não tá se sentindo mais fraca? – Ele perguntou em seguida.

- Não... Eu comi as barras nutritivas, estou melhor. – Ela respondeu. – E você? Não vai comer nada?

- Não precisa ficar preocupada comigo, assim que seu pai me encontrar, o que eu suponho que seja o primeiro a saber do que aconteceu, ele vai me matar. Mas eu não me arrependo, antes morrer do que continuar naquele ninho de serpentes. – Ele sorriu de lado.

- Mas eu não vou deixar que isso aconteça, eu vou explicar tudo ao meu pai o que aconteceu e que você está me ajudando, eu sei que você só estava cumprindo o que te foi imposto, mas agora você está me ajudando e é o que importa. – Julia falou firme.

- Julia, você é tão ingênua. – Ele riu. – Eu nunca vou ter o perdão do governo, e não é só pelo o que eu fiz com você, mas pelas coisas do passado, a minha sentença não tem outro preço que não seja a execução. E se não for o seu pai a me matar será meu próprio povo. Deborah deve me odiar agora.

- Isso, se nos pegarem! – Julia o interrompeu. – Eles jamais vão nos encontrar. Você é esperto Lee.

- Isso pode durar alguns dias, mas o importante aqui não sou eu, e sim você, é você que tem que se esconder até descobrir uma maneira de eliminar esse chip antes que a Deborah, ou o Thierry te encontrem! – Ele reafirmou. – Vê se entende Julia! Parece que as coisas ainda não entraram claramente na sua cabeça, você não tá num conto de fadas aonde tudo acaba bem no final.

- Por que eu não posso acreditar em um? – Ela o olhou triste.

- Porque... você pode até ser uma princesa, e ter sido criada como uma, mas esse mundo aqui não é o castelo da Barbie e eu não sou seu príncipe encantado. – Ele a olhou sério, sentia a necessidade de ser sincero com ela sempre. Julia ficou em silencio.

- Você me disse que jamais faria algo por mim, e agora está me ajudando. – Julia respondeu como se quisesse mostrar a ele sua contradição.

- Eu não to fazendo isso apenas por você, eu estou fazendo por mim também! – Ele respondeu grosso.

- Mas se fosse só por você já teria me matado pegado o chip e destruído ele! Eu sei que tem coragem pra fazer isso, e não fez! – Julia aumentou o tom de voz, aquele garoto era tão... Complicado.

- E o que você quer dizer com isso garota? Que eu estou poupando sua vida por motivos específicos? – Lee bufou. – Eu não estou apaixonado por você, se é o que pensa.

- Eu não disse que estava! – Julia respondeu eufórica sentindo o rosto arder.

- Não misture as coisas. – Ele a avisou apontando o dedo indicador. – Você não tá numa aventura romântica, isso pode acabar mal pra nós dois. – Riu irônico por fim.

- Ah se enxerga menino, eu jamais gostaria de ter um namorado como você, sem educação, grosso, sujo. Você é o garoto mais esquisito e anormal que eu já conheci! – Ela respondeu revoltada se virando de costas para ele enquanto procurava por mais adjetivos ofensivos, mas infelizmente pela educação que recebera no internato seu vocabulário pejorativo era limitado.

- Isso não significa nada, porque, pensa só, você deve ter conhecido uns dois garotos na sua vida inteira. – Ele riu. Julia bufou abaixando a cabeça, ele tinha razão desta vez.

- Olha, não importa, você pra mim é um demônio! E um demônio que me dá medo! – Ela o encarou. – E nem que fosse o ultimo homem da face da terra eu ia querer você.

- Ai que alivio hein. – Ele riu. – Você jura?

Julia saiu pisando duro até se sentar numa poltrona velha que havia ali, estava sem saber como reagir, nunca havia confrontado um garoto antes, e sentia raiva por seu coração estar disparado apenas de mencionar a palavra “namorado”. Talvez ficar naquele internato tenha a feito não saber mais como é se relacionar, levando em conta que ela já tinha 18 anos e nunca namorou na vida, nem se quer sabia como era dar um beijo, só via em séries. E nem sabia se um dia iria namorar, do jeito que o mundo estava caminhando, poderia morrer assim mesmo.

- Escuta Julia, não adianta ficar emburrada aí. Amanhã temos que sair cedo você gostando ou não. A não ser que queira morrer! – Ele se aproximou dela.

- Eu já sei disso, não precisa ficar repetindo! – Ela fez um bico virando a cara para ele. – Já disse que estamos juntos nessa, agora querendo ou não.

- Parece uma pirralha mesmo. – Ele bufou.

- Ai para de falar de mim! – Ela se irritou.

- Uau, a princesa tá perdendo a linha e os modos de etiqueta! – Ele falou apenas para provocá-la.

- Não sou princesa sou uma garota normal. PARA DE REPETIR ISSO. – Ela respondeu emburrada. Aquele papo de princesa já estava a tirando do sério. – Voce diz isso porque deve ter inveja que eu tive um pai que sempre cuidou de mim, e você nunca teve.

- Sim, que bom que não sou normal, nunca quis ser mesmo. – Ele deu de ombros. – E inveja de você? Sobre isso eu prefiro nem comentar.

- Olha só, a gente ficar brigando não vai resolver nada! Estamos no mesmo barco agora Lee! – Ela bufou o encarando. E ficaram em silencio.

Lee permaneceu ali no mesmo local enquanto Julia tentava pegar no sono naquela poltrona. Por mais grosso que ele fosse às vezes Julia tinha que reconhecer que tudo que ele estava fazendo era para protegê-la, e de certa forma aquilo fez com que ela se sentisse apegada ao garoto, não queria que ele morresse, não queria se separar dele, não iria conseguir enfrentar o mundo lá fora sem ajuda dele. Ele era a única pessoa que ela tinha no momento.

Não conseguiu mais ficar com aquilo dentro de si e se levantou indo até ele. Estava deitado sobre o chão, parecia não se importar com aquilo, era como sempre viveu a vida toda, e Julia achava aquilo tão injusto. Tocou em seu ombro fazendo com que ele olhasse para ela no mesmo instante.

 

- Me desculpa Lee... Eu não queria ter dito aquelas coisas, apesar de que não sei que nada te magoa. – Ela falou baixo, ele riu com a parte do “nada te magoa”. Ele colocou as mãos sobre seu ombro apertando-o de leve seus dedos finos. Ele apenas ficou escutando. – Eu preciso que me prometa uma coisa... – Ela respirou limpando as narinas.

- O que? – Ele respondeu em seguida.

- Me promete que não vai morrer? Que não vai sair do meu lado? Eu confio em você, eu não saberia enfrentar tudo isso se não tivesse me ajudado. Então por favor... – Ela falava já sentindo as lágrimas descerem sobre seu rosto. – Você deve me achar uma chorona, uma criança, mas... Eu sou assim, eu não sou uma garota forte como a Deborah, não sei por que meu pai deixou esse chip pra mim, se ele queria que eu governasse a capital depois dele, ele se enganou, eu não governo nem a minha vida direito... Eu... eu tenho tantos problemas psicológicos que você não faz ideia...

- Julia escuta. – Lee a interrompeu se assentando no chão de frente para ela. – Nós somos aquilo que acreditamos que somos. Se você continuar achando que é uma fracota é assim que você vai ser e é assim que você vai ser vista pelos outros. Você precisa acreditar em si mesma, Julia. Se eu te ajudei foi porque acreditei em você, e sabe por que acreditei? Porque você transmite a verdade, você é o que você e não finge ser outra pessoa, e eu admiro muito isso, admiro quem é verdadeiro. E a verdade sempre prevalece. Então seja forte e acredite em você.

Julia ficou em silencio analisando cada palavra de Lee. Ela poderia mesmo ser capaz de enfrentar um país inteiro? Se ela acreditasse em si mesma como Lee estava dizendo ao invés de se lamentar poderia ajudá-la. Aquele garoto tinha tudo pra ter sido morto há anos, e mesmo não tendo nada nem mesmo uma identidade ele se tornou forte, ele suportou tudo. Julia sabia que a vida dele não tinha sido fácil pelo pouco que conhecia dele.

- Lee, você tem razão. É louco, mas... Às vezes fala coisas bem sensatas. – Ela sorriu de lado. O garoto apenas sorriu de volta assentindo.

 

~ * ~

Enquanto isso...

 

 

As coisas no subsolo não estavam fáceis, depois do desaparecimento de Lee e Julia, vários rumores tomaram conta, vários boatos e possibilidades. Mas todos estavam tensos, parecia que um divisor de águas estava entre os líderes. Depois de fazerem uma busca pela cidade inteira e não encontrarem os dois, só havia uma certeza: Tudo era questão de tempo, quem encontrasse Julia primeiro seria o vitorioso daquele jogo de xadrez, sim, aquilo agora havia virado um jogo. Um jogo contra o tempo.

 

- Você acha que ela conseguiu enganar o Lee e fugir? – Joshua conversava com Deborah em uma sala particular após encerrarem as buscas.

- Não, o Lee não iria se deixar levar por aquela garota eu o conheço muito bem, ele não é do tipo que se deixa seduzir por garotas, ainda mais aquela. O Lee nos traiu, essa é a verdade! – Deborah falou irritada dando um soco na mesa a sua frente.

- Por quê? Acha que foi pela nossa conversa de ontem? – Joshua respondeu preocupado.

- Mas ele não disse nada. Ele até concordou em nos ajudar, disse que mataria a Julia! – Deborah o bufou cruzando os braços tentando achar alguma explicação pra tudo aquilo. – Ah não ser que...

- Que o que? – Joshua a encarou.

- Se ele achou os registros dele estamos ferrados. – Deborah riu irônica.

- Que registros? Você não disse que ele não tinha? O que os registros do Lee podem ter haver com isso tudo? – Joshua arregalou os olhos.

- Thierry nunca te contou? – Deborah questionou surpresa.

- Me contou o que? O que eu não sei sobre o Lee? – Joshua se aproximou dela cruzando os braços.

- É uma longa história. Depois conversamos. O importante agora é que ele fugiu com a Julia, deve ter ficado irritado porque escondemos a verdade dele, e agora quis se vingar ajudando essa imbecil. Mas ele vai se dar mal, é claro que o coronel Carter vai matá-lo se o encontrar antes de nós. – Deborah riu.

- Espera aí Deborah, que história é essa! Você vai me contar agora. Tudo que eu sei sobre o Lee é que ele era órfã e Thierry o adotou, isso é mentira? – Joshua estava começando a ficar assustado.

- Eu já disse que depois te explico tudo. – Deborah bufou sem paciência.

- Depois nada, é melhor ir falando agora! Se não me contar a verdade o próximo a cair fora desse planinho sou eu! Eu te juro! – Joshua falou firme. Deborah rangeu os dentes irritada, mas não poderia mais esconder, não podia deixar que Joshua também a abandonasse.

- Tudo bem, eu vou te contar. Mas saiba que eu também descobri essa história recentemente. – Deborah se assentou sobre uma cadeira próxima ali e bufou cruzando as pernas. – O Lee... Ele... É filho do Coronel Carter.

Joshua riu com um misto de deboche, mas Deborah o encarava séria e logo ele caiu a ficha de que era verdade.

- O QUE? MAS COMO ELE É FILHO DO...

- Ssshi! Fala baixo e ouve! – Deborah tapou a boca do moreno em seguida. Ficaram calados verificando se não tinha ninguém por perto.

 

Ah alguns anos atrás, Thierry conheceu uma mulher que afirmava ter tido um filho com o Coronel Carter, nessa época ele estava iniciando seu governo e muitos não o queriam no poder principalmente nós do subsolo, o nome dessa mulher era Lee Narae, ela era jovem e estava doente, e o Lee tinha apenas 1 ano de idade, ela acabou falecendo e escreveu uma carta que nunca foi entregue para o Coronel Carter, onde ela contava que o filho era dele. Ninguém nunca soube por que ela escondeu isso, talvez porque ela era amante dele, ou talvez porque a família do Carter não a aceitava, e nessa época ele já tinha a Julia, ela tinha a mesma idade do Lee... Mas, o sr. Carter não era casado...  Ele disse que a mãe da Julia faleceu no parto, e ninguém nunca viu essa mulher antes, mas não importa. O que ocorreu em seguida é o ponto principal, Lee foi registrado apenas com o sobrenome da mãe dele, e acabou indo pra adoção depois que ela faleceu, e a carta nunca fora entrega.... Lee foi adotado pelo Thierry que já sabia da origem dele, e acreditava que ele estava com o chip em seu corpo, Thierry sempre desconfiava dessa história do chip, mas todos diziam que ele era louco.

 Ele fez vários procedimentos cirúrgicos no garoto, deixou ele cheio de cicatrizes no corpo, mas nunca encontrou o chip, ele não era detectado por nenhum aparelho, e é muito pequeno, então Thierry dizia ao Lee que as cicatrizes foram ganhas em conflitos com o governo, e como ele era uma criança e não se lembrava de nada, ele acreditou em  tudo, ele fez uma lavagem cerebral no garoto. Ele não sabe sobre seus verdadeiros pais. Depois da decepção do Thierry de não encontrar o chip em Lee, ele passou a acreditar que era apenas um mito essa história, e só voltou acreditar depois do que você disse aquela noite. E é claro que ele fingiu que estava surpreso, porque se não ele teria que contar a verdade pra gente e o Lee estava presente... Bom foi isso que ele me contou. Se é verdade ou não, confirme com ele.

 

Depois de tudo que Joshua ouviu ficou pasmo. E não podia negar que agora tudo estava mais arriscado e perigoso, se Lee descobrisse... Acabariam os planos de Deborah e Thierry. Joshua não disse nada, mas tinha ficado totalmente irritado por terem escondido isso dele. Eram mentiras atrás de mentiras, mas ele iria usar tudo aquilo a seu favor.

- O Lee não vai saber de nada. – Ele sorriu.

- Precisamos nos unir pra pegar os dois... e... eu sinto muito, mas vamos ter que matar os dois. É mais seguro. – Deborah falou como se estivesse os poupando de algo terrível.

- Você tem razão... Eles não podem encontrar o Coronel Carter, precisamos encontrá-los antes. E eu sei como fazer isso. – Joshua sorriu sarcástico.

- Sabe? Como? – Deborah perguntou curiosa.

- A Julia vai voltar pra casa dela pra tentar se comunicar com o pai em segurança, e eu tenho acesso a casa. – Joshua sorriu.

- Eu vou com você. – Deborah respondeu de imediato.

- Não Deborah, você fica de fora pra vigiar as saídas, confia em mim. A casa é restrita só pra quem tem acesso, você só conseguiu entrar aquele dia graças ao DNA da Julia, mas agora é diferente. E com vocês do lado de fora eles não terão saída. – Joshua sorriu. Aquilo parecia um bom plano, e Deborah concordou.

 



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