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História Irresignada - Capítulo 7


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Capítulo 7 - Vida nova


Alguns dias depois de tudo esclarecido, Henry convidou Lee para morar com eles, mesmo relutante e se sentindo totalmente constrangido com tal gentileza e amabilidade da parte dele, aceitou o convite. E o mesmo fora feito para Julia, de forma alguma seus sentimentos mudara pela filha, que apesar de adotada e de origem desconhecida ele não se importava, nunca deixaria de amá-la, e mesmo conhecendo seu filho legitimo há poucas semanas, ele já o amava na mesma intensidade que sempre amou Julia.

 Lee pode compreender através do amor demonstrado pelo coronel que Julia tinha razão em admirá-lo tanto, ele realmente era um homem de bom coração.

Quanto a Joshua, recebeu o perdão por ter ajudado Julia, mas ainda cumpria pena em regime semi aberto, um privilégio e tanto comparado com a gravidade do crime que cometera, mas ele não podia estar mais feliz, e decidido a seguir sua vida dessa vez de forma mais justa.

Ao contrário de Thierry e Deborah, que agora estavam mais escondidos do que nunca, porém mil vezes mais irados do que da primeira vez. Tudo indicavam que tinham abandonado Londres, mas ainda assimilavam tudo que tinha acontecido, e como a situação tinha saído fora de controle, estavam completamente sozinhos, seus seguidores haviam ficado do lado de Lee, graças a eles viram que tipo de pessoas seus lideres adorados eram, foram saindo um por um do subsolo e voltando a superfície da cidade, Henry para a surpresa de todos, juntamente com o presidente lhes deu abrigo, uma casa para que pudessem recomeçar suas vidas, e desta vez de forma digna, e isso para eles não tinha preço.

 Thierry e Deborah não tinham mais credibilidade com ninguém dali. Perderam tudo, estavam sozinhos, sem o chip e sem seus aliados. Mas estavam bem longe de desistir de sua vingança, que agora havia se tornado pessoal.

Mas enquanto planejavam o ato, Lee e Julia aproveitavam seu momento de paz e tranquilidade que agora usufruíam sem preocupações. Quando a capital ficou sabendo do caso do sequestro de Julia e de tudo que se sucedeu, agora não tinha mais duvidas que o coronel Carter era um homem correto, e que podiam confiar totalmente nele para reerguer Londres.

Ele tinha muitos planos, e os realizaria assim que se recuperasse, ainda teria de ficar em repouso por alguns dias, quase morreu envenenado, e sua imunidade ainda estava fraca, mas ao menos agora estava em casa, e apesar de terem empregados, Julia ofereceu-se voluntariamente para cuidar de seu pai, preparava sua comida e dava-lhe os remédios na hora certa, que eram diários. Henry não podia estar mais contente, seus filhos estavam a salvo, ele estava a salvo, e Londres em breve seria restaurada. Podia pela primeira vez em anos dormir tranquilamente.

 

Alguns dias depois Henry já se sentia apto a sair da cama, estava louco para caminhar e sentir um pouco do ar fresco de seu jardim. Sorriu enquanto levantava-se da cama e procurava por seus chinelos e em contrapartida achando um par de pantufas de pelúcia que Julia havia lhe dado de presente, ela era realmente uma menininha, delicada nos mínimos detalhes, e mesmo pantufas azuis não sendo sapatos compatíveis para um coronel, calçou-as de bom grado por ser um presente da filha.

Caminhou com passos lentos até o jardim da casa, e viu Julia sentada em um dos bancos de madeira enquanto conversava com Lee, ela parecia contar-lhe algo, e ele apenas balançando a cabeça enquanto ele apenas parecia ouvir. Julia quando começava a falar e se empolgar não parava mais, Henry a conhecia, e provavelmente ela estaria contando uma história pela qual ele não estava interessado. Sorriu imaginando que perfeitos irmãos estavam sendo, eram naturais. Aproximou-se deles sem que o percebessem e Julia encerrou o assunto com Lee e olhou surpresa para o pai ao vê-lo caminhando.

- Pai! O que está fazendo fora da cama? O senhor tem que repousa! – Ela arregalou os olhos, mas Henry parecia tranquilo e sereno. Assentou-se em seguida juntos aos dois no banco antes de responder, e respirou profundamente se importando apenas com os raios solares e o vento fresco daquele local, tão diferente de seu escritório e aquele ar condicionado artificial.

- O Sr. Carter parece bem, já tem cinco dias que esteve em repouso. Não se preocupe Julia. – Lee sorriu despreocupado. Henry odiava que ele ainda não o chamasse de “pai”, mas sabia que tudo era questão de tempo e não iria forçá-lo.

- Sobre o que estavam conversando? – Henry perguntou descontraído. – Quando eu cheguei vi vocês dois conversando tão amistosamente que quase chorei... Parecem irmãos de sangue, criados juntos desde a infância. – Ele disse orgulhoso. Lee deu uma risada. Poderiam não ter sido criados juntos, mas depois de passarem pela quase morte juntos, se podia dizer que tinham uma forte ligação para sempre.

- Julia estava me enchendo o saco sobre a série que assistiu ontem à noite. Mas infelizmente não acompanho esse tipo de entretenimento. – Lee sorriu de lado. O que fez Julia corar de vergonha.

- O que quer que eu faça? Não tenho amigas pra contar nada, quer que eu fale com os androides daqui de casa? – Ela cruzou os braços fazendo um bico.

- Você me disse um dia vez por mensagem quando estava no internato que tinha uma melhor amiga chamada Emily, aonde está essa menina agora? Ela vive aqui em Londres? Devia visitá-la. – Henry sugeriu, mas Julia torceu ainda mais o bico nos lábios, e resolveu falar a verdade.

- Eu inventei isso, fiquei com vergonha de falar que não tinha nenhuma melhor amiga naquele internato. Emily era apenas minha colega de quarto, mas não era nem de longe minha amiga.  – Ela confessou, porém agora sentia como se um peso tivesse sido tirado.

- Quem perdeu foi ela. – Henry a olhou amorosamente. – Você continua a mesma garota doce e sensível que sempre fora. E você devia sair, ficou todos esses dias aqui presa nesta casa cuidando de mim, mas agora me sinto bem. – Ele a incentivou, sabiam que agora não havia mais perigo em Julia sair as ruas, ninguém iria fazer mal a ela.

- Eu vou com você Julia, se quiser. – Lee se ofereceu. Mas ela parecia insegura.

- Não se preocupe comigo, eu vou ficar bem, você precisa sair um pouco, Riley vai com você, se divirtam, façam coisas de irmãos juntos... – Ele disse empolgado, Lee sorriu sem jeito ao ser chamado pelo primeiro nome, estava tão acostumado com seu sobrenome que toda vez que era chamado por “Riley” ficava sem reação. Ambos achavam aquela ideia um tanto engraçada, serem irmãos era estranho, mas entendiam o lado de Henry e sua empolgação.

- Se importa de ir comigo? – Julia olhou rapidamente para o irmão postiço esperando uma confirmação positiva.

- Claro que não, eu estava mesmo querendo sair também. – Ele afirmou. A verdade é que a tempos queria sair daquela mansão, ainda estava se acostumando com a nova casa.

 

Sem mais resistência ao pedido de Henry, ambos saíram sendo conduzidos pelo carro automático que ele dera de presente para ambos; foram no de Julia. O carro tinha inteligência artificial era todo blindado e não precisava de motorista, apenas de uma localização acionada por um comando de voz e os levaria aonde quisessem em Londres ou em qualquer outro lugar. Uma invenção de quatorze anos atrás que nunca saia de moda, principalmente para quem ia trabalhar e estudava durante o percurso dentro do carro.

Durante a viagem Julia e Lee quase não trocavam meias palavras, parecia que agora que eram livres conversavam menos do que quando estava em cativeiro. Julia queria saber o que incomodava Lee, porque ele não parecia estar radiante como ela, se agora tinha tudo: dinheiro, um lar, e amor.

Algo que nunca teve antes. Mesmo com isso tudo ainda vestia suas roupas simples, apesar de que agora a higiene pessoal era outra, tomar banho e pentear o cabelo não era algo que ele desprezava. Mas em seu interior, parecia não ter mudado nada, ao menos era esse o diagnóstico que Julia tinha a respeito dele e de suas ações. Tinha medo de perguntar e receber uma resposta negativa, esperou até que chegassem ao shopping center; foram para a praça de alimentação, pediram sua comida através do cardápio eletrônico, no qual Julia ajudou Lee, pois ele nunca tinha comido em um shopping antes, após realizarem o pedido estavam aguardando pela comida.

- Depois que comermos, o que acha de irmos a uma loja de roupas comprar algumas? Quero dar um terno novo pro nosso pai. – Ela falou tentando fazer a ideia parecer o mais agradável possível para Lee, mas ele continuava sem expressão.

- Ele não é nosso pai, e não somos irmãos Julia. Ele não está por perto agora, não precisamos continuar com isso. – Lee bufou. Julia abaixou a cabeça tentando entender o que havia de errado com aquilo.

- Por que você é assim Riley? Achei que estivesse feliz... – Ela engoliu seco. E ele desfiou o olhar. Deu uma pausa e continuou a falar. – Você é o filho legítimo do meu pai, não tem sentido se sentir assim, sendo que era eu que devia estar desconfortável com isso tudo.

- Julia, eu não odeio o seu pai. Jamais disse isso. – Ele retrucou levemente irritado. Mas logo respirou fundo e voltou a falar com mais calma. – Você ainda não entendeu que não se trata de uma questão familiar. Mesmo eu não sendo tão atencioso como você eu reconheço todo o esforço e o caráter do Henry, e tudo que vocês fizeram por mim e estão fazendo. Estou sendo tratado como um príncipe, e mesmo não ligando pra todo esse luxo eu agradeço muito... A questão é que...

- A questão é que o que?... – Julia se inclinou na mesa para ficar mais perto do garoto, como se ele estivesse prestes a lhe revelar um segredo. Ele comprimiu os lábios e cruzou os braços a olhando com reprovação, então ela se afastou assentando-se novamente na cadeira com a mesma postura anterior.

- Ele quer que eu governe daqui a alguns anos, e eu definitivamente não quero! – Lee falou como se estivesse tirando um peso de si, sua voz saiu embargada, pela primeira vez estava falando abertamente sobre seus sentimentos sem sarcasmos. Julia imaginou ser algo pior, não imaginava que governar fosse algo tão repugnante para Lee.

- Ainda é cedo pra pensar nisso Riley, papai tem apenas cinquenta e dois anos. – Julia sorriu tentando parecer positiva.

- Quando você estava preparando chá, o remédio do seu pai, lembra? – Ele perguntou a encarando, Julia fez que sim com a cabeça. – Ficamos conversando no quarto dele, e ele me disse que quer me preparar pra ser um soldado, e mais tarde pra ser um coronel. Eu não fui feito pra isso, essa não é a vida que eu quero, governar não é pra mim. Você deveria governar Julia, o chip está em você, não em mim. Lidar com pessoas... com uma nação pra piorar, não é pra mim! Mas ele falou com tanta vivacidade que eu fiquei com medo de decepcioná-lo e a saúde dele piorar. Eu sei que pra ele ser um soldado em Seul é uma honra, mas, eu não quero isso. Porém se eu me rebelar a capital inteira vai descreditar no seu pai, o próprio filho bastardo não lhe obedecendo, que escândalo seria. E seu pai acredita em mim, tem fé que eu um dia possa governar como ele, e eu entendo a empolgação.

Antes que Julia pudesse pensar numa forma para resolver aquela situação, seus lanches chegaram; começaram a comer como se nada daquilo tivesse sido comentando anteriormente. Agora entendia porque ele queria tanto sair, mas ficou aliviada por ele confiar nela para desabafar.

Após o lanche foram a loja onde Julia queria comprar algumas roupas e o terno para seu pai, viu uma camisa social azul claro e sorriu empolgada imaginando o quanto ficaria bonita em Lee, ele era um garoto bonito. Porém ele logo a reprovou, não era seu estilo. Mesmo assim ajudou a garota a escolher algumas roupas para ela dando sua sincera opinião sobre a cada peça. No final do dia, saíram do Shopping e voltaram para o carro, um pouco atrasados devido a algumas pessoas que os reconheceram no estacionamento e pediram para tirar foto, não que aquilo incomodasse-os.

 

Ao retornarem para a mansão, notaram uma conversação que vinha do escritório de Henry, Julia se aproximou da porta que estava entreaberta e viu alguns homens de terno assentados a mesa redonda discutindo sobre algum assunto que parecia de extrema importância, um dos homens de terno era o próprio presidente da Inglaterra, os demais deviam ser seus assessores.

 Apenas bufou insatisfeita por seu pai mal recuperado da cirurgia já estar trabalhando, mesmo que em sua casa, problemas da capital poderiam atingir sua saúde, apenas torcia para ser uma visita formal do presidente e não assuntos sérios. Não iria se intrometer, foi até a cozinha e viu Lee encarando a geladeira com um olhar apreensivo, como se estivesse analisando como aquela enorme caixa metálica funcionava, e ele era só queria um pouco de refrigerante. Julia já imaginava que ele estava perdido, e sorriu ficando ao lado dele esperando que ele pedisse sua ajuda, mas como era orgulho não o fez, então decidiu se intrometer mesmo assim.

- Acione o painel eletrônico no botão vermelho e aparecerá o que tem na geladeira, em seguida é só escolher o que quer clicando no ícone desejado. – Ela explicou delicadamente. Lee revirou os olhos, parecia tão simples, ele devia saber aquelas coisas.

Ele fez o procedimento que Julia havia explicado e pegou uma lata de refrigerante cola, abriu-a ouvindo o barulho satisfatório do ar saindo pela fresta da latinha. Deu alguns goles engolindo o liquido gelado com satisfação. Quando estava no subsolo não tinha acesso a essas coisas tão facilmente, refrigerante era luxo para eles, mesmo se tratando de algo tão comum, e Julia havia notado isso.

- Quem são aqueles homens de ternos que entraram aqui? – Perguntou depois de um gole.

- O Sr. Presidente e seus assessores. – Respondeu ela se escorando no balcão enquanto observava Lee tomando o refrigerante, era satisfatório para ela ver que agora ele poderia usufruir daquilo que era seu por direito, mesmo se tratando de coisas tão simples como uma lata de refrigerante. Lee apenas deu de ombros não se importando com o que quer que seja que o presidente estivesse discutindo com Henry. Uma figura tão importante como aquela, o próprio presidente, mas para Lee era apenas uma... Pessoa.

Com seu pai ocupado, e sem nada para fazerem naquele resto de dia, Julia teve uma ideia: assistir a reprise do capitulo final de sua série favorita que seria exibido hoje, as dezenove e meia, chamou Lee para assistir com ela, e mesmo não sendo fã dessas novelas dramáticas, resolveu fazer companhia a ela enquanto assistiam. Seu pai ficaria ocupado por algumas horas, imaginavam, e seria injusto deixa-la assistindo sozinha naquela sala gigantesca.

Quando começou, Julia pôs-se assentada no sofá-cama com as pernas encolhidas e abraçava o travesseiro, enquanto Lee estava sentado no carpete escorado no sofá, a mesma posição de quando estavam naquele quarto presos. A cada cena dramática da mocinha da série sofrendo pelo mocinho Julia encolhia-se, as vezes envergonhada pela cena, ora, tinha quase dezenove anos e nunca havia namorado, nem se quer beijado alguém, sentia-a seu rosto corar, e era isso que a atraia nas séries, levava-a a se colocar no lugar da mocinha, como seria incrível viver aquilo, Pensava a cada olhar dos protagonistas um para o outro.

Mas ao contrário dela, Lee estava quase adormecendo no carpete, os olhos já pesavam e por vezes os fechava, mas devido ao som alto da tv imensa e as luzes que dela era refletida em seu rosto naquela sala escura, era impossível tirar um cochilo. A trama estava na reta final, Julia roía as unhas, e até mesmo Lee começou a prestar  atenção, pois por mais que não se interessasse pela história, queria ver se o final fazia sentido; os protagonistas se encontraram no meio da chuva numa noite escura, e os olhos da mocinha estava cheios de lágrimas, assim como do mocinho, e Julia sentiu seu rosto corar e arder ao ver a cena, eles se aproximavam um do outro, até seus lábios se tocarem da forma mais singela possível, e por menos de três segundos se afastaram um do outro e se abraçaram jurando amor eterno um ao outro.

Então era assim um beijo? Parecia mais simples do que Julia imaginou, e mais simples do que as meninas do internato comentavam.

O dorama chegou ao fim, e os créditos começaram a serem exibidos com uma musica de fundo, a música era You Are Not Alone de um antigo grupo chamado Gfriend. Julia estava estática, ainda assimilando tudo que viu, até ser despertado de seus pensamentos com um bocejo de Lee enquanto se espreguiçava.

- Essa série é mais falso que o Joshua. – Lee riu balançando a cabeça.

- Por que? Você não acredita no amor Lee? – Julia já perguntou imaginando a resposta dele. Lee se levantou se assentando no sofá ao lado de Julia.

- Eu estou falando sobre o beijo. Com dez anos eu fazia melhor que aquilo. – Ele respondeu rindo, e Julia corou violentamente com a declaração. Depravado!

- Tá me dizendo que você já beijou? – A pergunta saiu surpresa, e num tom até engraçado, e Lee não entendeu qual o espanto.

- Sim, a Deborah. – Ele respondeu naturalmente. Naquele instante o sangue de Julia ferveu, tanto pela raiva de Deborah quanto pelo descaramento de Lee falar aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo.

 No internato aprendera que aquilo era depravado, a não ser que fosse casada. Ela realmente viveu numa bolha parada no tempo durante esses anos todos e não sabia, mas Lee sabia que ela não tinha culpa. Ficou calada em seguida, não queria saber mais detalhes do tipo de relacionamento que ele teve com Deborah, se é que teve, mesmo imaginando que não fora nada sério, não queria saber, apenas murmurou um “hum”, e ficou calada.

- Você nunca beijou ninguém não é mesmo? – Ele perguntou de forma retórica. Julia abaixou a cabeça constrangida. – É claro que não, é por isso que você ama essas séries de gente fresca, deve imaginar-se vivendo essas histórias bobas. – Ele sorriu de lado.

- São histórias bonitas. E era a única coisa que deixavam a gente assistir no internato, então eu aprendi a gostar. – Julia confessou. – E não, eu nunca beijei ninguém, pode rir, eu sei que é ridículo.

- Julia, não acho ridículo, cada um tem seu tempo. – Ele a olhou em seguida.

E ficaram em silencio por alguns instantes. Julia se perguntava pra que foi abrir a boca!?

- Você namorou com a Deborah? – Ela perguntou em seguida tentando de alguma forma intimidá-lo, mas Lee riu divertido.

- Não, a Deborah nunca gostou de mim, sempre disse que eu era muito novo pra ela. Foi um beijo de criança, apenas isso, depois ela me empurrou e disse que eu era idiota. E foi essa a história do meu primeiro e único beijo. – Ele contou em seguida. Depois disso ele não parecia mais tão intimidador para ela, e Julia não tinha do que se envergonhar ali por nunca ter beijado, ele não estava superior a ela. Nem de longe.

- Mas... ao menos você sabe a sensação. – Ela respondeu corada. Que droga estava dizendo? Porque estava estendendo aquele assunto com ele que a constrangia?

- A sensação? Hm... Não é grande coisa. É apenas... boca. – Ele tentava descrever, mas era o máximo que conseguia. Porém aquilo só deixava Julia mais curiosa. Maldita curiosidade.

- Acredito que seja mais do que isso... Bom, pelo menos na série parece algo incrível. – Ela respondeu com um leve suspiro.

- Quer saber como é? – Ele perguntou naturalmente. O coração de Julia disparou de forma incontrolável, como ele ousava perguntar aquilo assim tão...?

- Saber? – Ela fez-se de desentendida para que ele confirmasse se era aquilo mesmo que tinha dito.

- É Julia, a gente se beija pra você não ser mais bv, só isso. Assim você não vai mais passar sua vida toda envergonhada de si mesma por algo tão simples. E vai ver que não é tudo isso que você imagina, as séries mentem muito.  – Ele respondeu. A proposta parecia tão simples e prática, mas ela sentiu suas pernas amolecerem, e provavelmente não conseguiria levanta-se do sofá naquele momento.

- Mas... isso é íntimo, e nós não somos namorados, não somos nada Lee. – Julia gaguejava, e ele bufou impaciente.

- E daí? – Ele deu de ombros. A forma com que foram educados era totalmente divergente, Julia compreendia isso, mas mesmo assim ainda se sentia desconfortável por fazer aquilo, seria errado? Algo dentro dela dizia que sim. Mas ao mesmo tempo já não era mais criança e sentia que devia passar por aquela experiencia.

- Ok... – Com a voz tremula e o rosto corado ela se ajeitou no sofá e arrumou sua saia, e Lee se aproximou dela sentando ao seu lado.

E agora? E agora? O que fazer? Pensava quando sentiu uma mão em sua cintura, e foi aí que resolveu não fazer nada. Apenas iria receber, tinha medo de arriscar e fazer algo errado, algo que talvez parecesse ridículo; ver uma cena de beijo em séries não a tinha deixado capacitada para executar o mesmo na vida real. Apenas sabia de uma coisa: devia fechar os olhos, e assim fez.

De olhos fechados aguardava o que iria acontecer em seguida. Um segundo, dois segundos... cinco segundos e nada! Ele teria corrido e a deixado ali parada que nem idiota? Seria aquilo tudo uma brincadeira? Tinha até receio de abrir os olhos e descobrir que fora enganada.

Mas de surpresa, sentiu algo quente e macio tocar seus lábios. Eram os lábios dele. Ficou parada sentindo as múltiplas sensações que aquele simples toque podia causar, ela sabia! Sabia que era como nas séries. Mas para sua surpresa, as mãos fortes do garoto agarraram sua cintura a jogando para baixo, fazendo-a deitar sobre o sofá, caindo como uma boneca de pano, e não teve forças para relutar, parecia que todas as suas energias estavam sendo sugadas por ele, como se ele fosse um vampiro drenando sua força. Sentiu os lábios que anteriormente estava apenas pressionado contra os seus, agora lhe invadindo a boca com voracidade, porém era ritmado, não era descontrolado, parecia que cada movimento era calculado e executado de forma precisa.

Sentiu o corpo magro, porém pesado do garoto por cima do seu, e seu coração começou a bater tão rápido que ele poderia sentir. Ele sabia conduzir o beijo a sua maneira, como era possível ele saber aquilo de forma tão natural? Ele que parecia ser tão grotesco e rude, a beijava de forma calorosa, bem melhor do que algum dia ela podia imaginar, e mesmo sendo estranho aquele ato quase como um incesto para Julia, ela não poderia mentir que não estava gostando.

E quanto tempo já tinha passado? Treze segundos? Era isso tudo um beijo? O da série havia durado dois segundos. Começou a se preocupar com aquilo como se estivessem fazendo algo errado, o empurrou com a mão sobre o tórax dele e lentamente ele se afastou. Julia então abriu os olhos, mal conseguindo encarar o rosto do garoto, pois estava completamente desnorteada, porém ele tinha uma expressão de confuso no rosto.

- Não passamos do limite do tempo? – Julia perguntou preocupada.

- Não. – Ele respondeu sorrindo de lado. Maldito sorriso. Se antes mesmo sujo e maltrapilho Julia já havia o achado bonito, agora depois do beijo que trocaram ela teve certeza de que ele era o garoto mais lindo que já vira em toda a sua vida, lindo como um diamante bruto, seus olhos marejaram e seu rosto estava quente. Aquilo era normal? Aquelas sensações? Parecia estar numa montanha russa. Mas antes que ele voltasse a unir seus lábios novamente, ouviram uma voz familiar os chamar, era seu pai, e rapidamente se soltaram tomando um susto.

- Julia, Lee.. Está tudo bem? – Ele perguntou notando a vermelhidão no rosto da filha, e o olhar desviado do garoto para qualquer canto daquela sala.

- Sim pai! – Julia sorriu exageradamente tentando disfarçar, mas era um fracasso total nisso.

- É... eu, vim comunicar que o senhor presidente irá jantar conosco hoje. Por favor estejam prontos as nove. – Ele sorriu para ambos, e Julia balançou a cabeça concordando.

 

~ * ~

 

- Então este é seu filho Carter? Estou honrado em conhece-lo. – O Sr. Presidente comentava amigavelmente na mesa do jantar. Estava assentado ao lado dos dois assessores e de Julia, do outro lado da mesa a sua frente estava Lee e Henry. Estavam na sobremesa, muitas conversas sobre assuntos da capital eram tratadas entre ele e Henry, e Julia e Lee apenas escutavam, mas eram o tipo de assunto que não se interessavam, até finalmente o presidente sentir-se na obrigação de conversar com os dois jovens.

- Sim, e o amo como se tivesse sido criado comigo, tanto quanto amo Julia. – Lee revirou os olhos um pouco envergonhado pela declaração melosa do pai, mesmo que no fundo sentia-se feliz por aquilo.

Enquanto Julia não conseguia nem se quer olhar o irmão postiço nos olhos depois do que tinha feito na sala. Imaginava-se a todo momento sendo descoberta e aquilo a atormentava. Era como se todo mundo ali estivesse consciente do que tinham feito. A famosa “culpa”. Como ele parecia tão normal depois daquilo? Tudo bem que tinha sido combinado, mas era ao menos pra ele estar um pouco envergonhado... As vezes se esquecia que aquele garoto não era bom em absorver sentimentos e mantê-los consigo por muito tempo. Parecia não ter vergonha de nada.

- Tem uma bela família Carter, hoje em dia não é tão comum os filhos serem tão apegados a amáveis com seus pais... Querem sua independência cedo demais. – Ele exclamou com um ar de decepção, como se o exemplo que deu estivesse sentindo na pele.

- Acredito que em tempos difíceis como os nossos a família é o mais precioso que temos. – Julia finalmente se pronunciou de forma confortável. – E também, depois de tudo que passei, aprendi a dar valor ainda mais. – Sorriu por fim.

- Acredito plenamente senhorita Carter. – Respondeu o presidente sorrindo com amabilidade.

- Permita-me acrescentar sr. Presidente, eu sou o homem mais sortudo de toda a Londres, eu quase perdi uma filha, mas se isso não tivesse acontecido, eu não teria tido conhecimento e recuperado o meu filho legitimo que estava perdido no meio daquele povo escarnecedor. – Henry acrescentou de forma orgulhosa.

- Fomos noticiados de todos os fatos, e eu me sinto muito feliz por vocês e por tudo ter se resolvido. – Ele sorriu movendo a cabeça numa demonstração de reverencia. Era estranho para Lee ouvir tudo aquilo, a vida inteira foi ensinado a odiar as autoridades da capital, e agora estava ali numa mesa jantando com o presidente e o coronel, e ambos sendo amáveis e felizes com a presença dele.

- Me perdoem, não quero ser desagradável, mas... – Lee entrou sorrateiramente no meio da conversa, e todos voltaram sua atenção para ele. Então continuou. – Ainda não está tudo resolvido. Eu conheço o Thierry e a Deborah, eles não têm medo de nada, e irão querer se vingar. – Ele os alertou, mas não surpreendeu ninguém.

- Não se preocupe quanto a isso rapaz, “Nós”, – O presidente se referia a ele e todas as forças armadas possíveis. – Não permitiremos que eles façam nenhum mal, além do mais estão sozinhos agora, se se atreverem a alguma gracinha, ou atentado contra alguém, serão executados. É bom ficarem escondidos como estão, pois se forem encontrados, estão acabados.

- Assim eu espero, se tem algo que eu odeio são mentiras e pessoas falsas, e eles são o maior exemplo disso. – Lee respondeu friamente, o tom era amargurado.

- Seu filho será um ótimo coronel futuramente Carter, fala com convicção.

 



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