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História Irresignada - Capítulo 8


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Capítulo 8 - Sentimento


Depois do jantar, Lee subiu pro seu quarto, e Julia o seguiu sem que ele a visse. Ele sentou-se de costas sobre a cama e pegou uma um livro qualquer que estava no criado mudo, seu quarto foi todo decorado a seu gosto a pedido de Henry, queria que ele se sentisse em casa, à vontade, e ele não tinha do que reclamar: o quarto estava perfeito, e mesmo que ainda não se sentisse preparando para corresponder aos sentimentos paternos do coronel, não porque o odiava, mas ele ainda se sentia estranho com tudo isso, sempre fora criado como um lobo solitário, Lee no fundo de seu coração sentia uma imensa gratidão por tudo que fizeram por ele, e pela paciência de seu pai.

 Começou a ler a primeira página do livro que era de ficção cientifica, seu gênero favorito, Lee amava tudo relacionado à ciência e astronomia, viajava nas histórias e se sentia parte dela quando lia, era a única coisa que despertava sua paixão, e agora tinha tempo suficiente para poder terminar um livro, no subsolo não era uma tarefa fácil ler sempre que quisesse, as vezes passavam meses sem ler. Mas seu largo sorriso se desfez quando abaixou o livro e viu a irmã postiça parada de costas para a porta, com um olhar perdido, tentando disfarçar seu nervosismo. Como não tinha a visto entrar? Estava realmente concentrado.

- Que foi? – Perguntou impaciente e um pouco surpreso pela interrupção.

- Nada... Só queria saber se não quer fazer alguma coisa... Ainda está cedo, são dez e meia. Não podemos dormir depois do jantar, faz mal. – Explicou timidamente enquanto passeava pelo quarto em passos lentos.

- Eu já estou fazendo alguma coisa. Estou lendo. – Ele sacudiu o livro como se fosse o obvio. – Há muitos anos eu não lia porque estava cheio de coisas pra fazer no subsolo, mas agora eu posso aproveitar o tempo perdido. – Ele sorriu rapidamente e logo voltou a fechar a cara.

 Mas será possível? Pensava Julia inconformada com a falta de atenção que recebia. Depois de “tudo” ele estava agindo daquela forma tão “desinteressado”. Ficaram em silencio e aquilo estava matando Lee, o irritando na verdade. Julia parecia uma criança, se assentou na beira de sua cama e começou a balançar as pernas, como se esperasse por uma mudança de planos da parte dele.

- O que você quer? – Ele falou num tom baixo, porém irritado e fechou o livro de forma brusca.

- Quero te beijar... – Ela respondeu como se as palavras tivessem saído involuntariamente de sua boca, e logo olhou para baixo envergonhada e com os olhos arregalados como se não devesse ter dito aquilo, mas já era. Lee permaneceu sem reação, como se aquela revelação não o tivesse impactado de nenhuma maneira, mesmo ele achando que aquela seria a última coisa que ela falaria.

E o silencio prevaleceu por mais alguns segundos, Julia estava prestes a se levantar e sair do quarto quando ele segurou em seu pulso. Ele a encarou sério. Mas nada do que ele falasse agora iria acabar com a vergonha que Julia sentiu, sem responder nada ela apenas puxou seu braço se soltando e saiu do quarto correndo. Estava evidente para ela a indiferença dele para com ela e com tudo o que tinha acontecido. Porque falou aquilo? Se sentia tão estupida.

 

Em seu quarto Julia entrou e trancou a porta dando várias voltas na chave, certificando-se que ninguém mesmo entraria ali naquele momento. Ele não podia vir atrás dela. Não! Seu coração estava tão acelerado que mal podia respirar regularmente. Aquilo era normal? Sua inexperiência em relacionamentos amorosos era deficitária. Tudo que ela sabia sobre romance era o que via nas séries, mas a vida real não era uma série.

 Porque algo tão simples para alguns era tão difícil para ela? Porque saiu correndo daquela forma? Sem ao mesmo esperar o que ele iria dizer... Ela apenas disse que o queria beijar! Não disse nada indecente ou ofensivo, então porque se sentiu daquela forma? Como se estivesse cometendo um cimo? Maldita ansiedade, maldito medo, maldita insegurança!

Ela correu até o banheiro de seu quarto e jogou água no rosto e o enxugou em seguida com uma toalha de rosto branca que estava ao lado. Notou que o espelho que tinha lá era como aqueles da sede da corporação: espelho com inteligência artificial que prescrevia o humor fazendo uma leitura no rosto de quem quer que olhe nele, humano. Clicou no botam e o espelho começou o escaneamento, em poucos segundos ele já tinha a análise:

 

Julia Carter

Humor: apaixonada

 

Apaixonada? Como tão rápido? Perguntava-se enquanto desligava o espelho sem querer saber de mais detalhes que foram analisados. Estava apaixonada por aquele garoto? E porque a paixão tinha que doer tanto seu estomago? Não era tão agradável quanto parecia da série, lá as pessoas pareciam felizes e radiantes quando diziam-se apaixonadas. Mas a realidade era que Julia sentia vontade de vomitar seus órgãos e tudo que tinha dentro. Talvez era pelo fato de ter passado a vida toda isolada de qualquer presença masculina e agora que estava tendo contado com um se sentia daquela forma, devia ser normal. Logo ia passar. Não era nada que ela precisava se preocupar. E o que um espelho saberia a respeito de sua vida? Aquilo era idiotice.

Respirou fundo voltando para o quarto com um sorriso um tanto psicótico no rosto e se jogou na cama deitando de costas. Amanhã aquilo tudo iria passar e ela voltaria a enxergar Lee como o viu a primeira vez: um garoto sujo, mal-educado, sem escrúpulos, sem classe de olhos puxados, e que apesar de beijar bem não era o tipo dela! Não, não era.

 

Com a porta trancada, Julia adormeceu e só acordou no dia seguinte com o som do alarme que era embutido na cama, mais uma das tecnologias contemporâneas que ela não sabia se amava ou odiava, preferia ter ficado mais tempo na cama. Ficou sentando alguns minutos sobre o colchão tentando colocar a cabeça no lugar, parecia zonza e sonolenta, quando viu que conseguia caminhar sem parecer uma bêbada se dirigiu até o banheiro e tomou um banho. Depois vestiu uma roupa confortável e desceu as escadas para o andar de baixo. A casa parecia vazia. Se assustou quando deu de testa com uma empregada-robô que rondava pela casa fazendo seu trabalho rotineiro.

 

- Srta. Carter, deseja algo? – A voz robótica de mulher perguntou instantaneamente quando reconheceu a presença da filha do chefe.

- Aonde está meu pai e o Lee? – Ela perguntou colocando a mão sobre a cabeça sentindo-a dolorida. – E eu gostaria de um analgésico.

- O Sr. Carter e Lee saíram hoje cedo para uma visita a corporação militar. – Ela respondeu em seguida. – Vou providenciar seu analgésico imediatamente. – E em seguida foi até a cozinha e Julia a acompanhou.

Ela se assentou na cadeira do balcão enquanto observava o robô vasculhando as prateleiras de um dos armários da cozinha em busca de algum remédio para dor, ela mesma poderia fazer isso, mas ainda não estava habituada com a casa e havia muitas coisas que somente os robôs sabiam aonde estavam guardados.

Enquanto procurava, Julia coçou a cabeça não acreditando que estava prestes a desabafar com um robô, não que aquilo fosse algo estranho ou bizarro nos dias em que vivia, algumas pessoas até compravam robôs para serem seus melhores amigos, ou para ajuda-los com trabalhos de escola, de escritórios e etc, e até mesmo para coisas bem piores, mas agora se tratava de desabafar algo particular, e algo que Julia sentia-se constrangida no fundo. Mas aquilo iria sufoca-la se não contasse a alguém, nem que fosse um de seus robôs empregados.

- Posso lhe pedir um conselho? – Tentou falar naturalmente como se estivesse conversando com uma pessoa de verdade, ou uma amiga de verdade que ela nunca teve a vida toda. O robô piscou os olhos vermelhos algumas vezes e respondeu automaticamente um “como desejar”, e em seguida entregou o comprimido para Julia, ela engoliu seguido de um gole de água, para enfim começar o desabafo.

- Vou te chamar de Emily, era o nome da minha... digamos, amiga, do internato. – Ela fez um bico desanimada. E o robô piscou mais uma vez os olhos como se absorvesse e guardasse todas as informações em seu banco de memória. – Emily... Estou me sentindo muito estranha desde ontem, e tem a ver com o Lee.

- Sentir-se estranha faz parte de uma das reações humanas em que a pessoa... – O Robô já ia dar a resposta automática como uma pesquisa no google mas Julia a interrompeu.

- Não, me escute primeiro e depois me dê sua opinião. – “Opinião” pensou rindo. – Emily, estou apaixonada por Lee, não consigo para de pensar nele, mas ao mesmo tempo não quero vê-lo pois sinto que vou vomitar de tanto nervosismo. Nunca me senti assim antes, ontem nos beijamos, e eu nunca imaginei que em algum dia da minha vida eu fosse gostar de alguém como ele, e ainda mais agora que todos nos enxergam como irmãos... E eu que o julguei tanto por parecer frio e sem sentimentos, como se fosse uma pessoa anormal, quando na verdade a anormal aqui sou eu, sou eu que tenho sentimentos demais, eu sou a louca da história e não ele...

Julia ficou em silencio esperando uma resposta da robô que também estava em silencio, até que se lembrou que devia dar o comando.

- Pode responder agora. – Ela falou rindo de si mesma.

- Apaixonar-se por um irmão é considerado crime de incesto em alguns estados, de acordo com a constituição...

- Quer saber, vá varrer a casa. – Interrompeu a robô vendo que era inútil, aonde estava com a cabeça pra conversar com uma máquina.

- Como desejar Sr. Carter. – Ela saiu rapidamente começando a limpar a casa, que aliás já estava limpa, mas Julia apenas deu de ombros e ia subindo novamente para seu quarto quando escutou a porta principal sendo destrancada, ela se abaixou como se alguém estivesse prestes a atirar uma granada, e viu seu pai e Lee entrando pela mesma. Pensou em correr, mas era tarde demais, ela já a haviam visto.

- Pai, está tudo bem? A empregada disse que foram a corporação, aconteceu alguma coisa? – Julia perguntou apenas por cautela, mas esperando que não fosse nada.

- Não houve nada filha, não se preocupe, foi apenas uma visita, levei seu irmão para que ele visse como é a corporação, acredito que naquele dia em que estavam no hospital não tiveram a oportunidade de conhecer realmente toda a nossa organização. – Seu pai respondeu com um sorriso orgulhoso. Lee estava até o momento calado, e passou pelos dois indo até a cozinha tomar algum refresco.

- Você está bem filha? Lee me disse que ontem você estava estranha? – Ele perguntou em seguida a olhando preocupado. Julia odiava o fato de deixar tão na cara e evidente suas mudanças de humor. – Se quiser ir ao médico, ou a psicóloga pode me falar... Sei que tudo que passou pode tê-la deixado com traumas, ou talvez medos, eu entendo, e não quero que sofra calada.

As declarações de seu pai fizeram os olhos de Julia se encherem de lágrimas, ele realmente a amava e se preocupava com ela, e o fato de ter descobrindo tão recentemente que ela não era sua filha de sangue não havia mudado em absolutamente nada no amor de fraterno que ele sentia por ela. Mas o que a estava incomodando era algo que ela teria de resolver consigo mesma.

- Obrigado pai, mas eu estou bem, de verdade, não quero que se preocupe comigo. – Ela foi até ele lhe dando um abraço.

- É o chip que está te preocupando? Pode me falar. – Ele a olhou preocupado.

- Não, não é isso eu...

- Julia, eu preciso te confessar uma coisa filha... Está entalado a muitos dias, por favor me escute... – Ele parecia envergonhado. Julia ficou em silencio o olhando um pouco tensa. – Quando implantaram em você, eu não estava presente no momento, eu fui te buscar no hospital depois de dois dias, nessa época as coisas aqui no país estavam muito difíceis e eu sempre me ausentava, e apesar de você ter ficado nas mãos da equipe médica da corporação da qual eu confiava plenamente, eu me senti muito irresponsável por não estar com você no momento... – Ele olhava para baixo envergonhado. Desde que Julia e Lee foram morar com ele, todos haviam deixado um pouco esquecida a história do chip, talvez pra não estragar o momento de felicidade única que estavam tendo e de paz, mas a verdade é que Henry nunca deixou de se preocupar com esse detalhe.

- Mas o que eu quero dizer é... Quando eu cheguei pra te buscar no hospital o cirurgião que havia implantado o chip em você tinha viajado, e ninguém mais além dele sabia aonde ele tinha implantado, nem mesmo as enfermeiras, então... Enquanto não criarem um detector pra rastrear esse chip não será possível você remove-lo, não deixarei que se machuque como fizeram com o Lee para descobri aonde ele está... – Apesar de um pouco chocada com a história, Julia não sentiu raiva e muito menos achou que o pai tinha sido irresponsável, na verdade o chip não lhe incomodava mais, pois ainda não era o momento para ela usá-lo, no momento a paz reinava em Londres, com os rebeldes praticamente extintos, o governo tinha controle e ordem sob a capital.

- Pai, não se preocupe, eu entendo os motivos que levaram cada ato seu... o senhor sempre foi um bom pai, e sempre será. O que eu tenho são apenas, coisas de menina. – Ela sorriu tentando quebrar o clima tenso e trazer um pouco de leveza. Henry suspirou aliviado.

- De qualquer forma sinto que tirei um peso das costas agora... – Ele confessou.

 

Mais tarde Julia encontrou Lee na sala enquanto lia algum livro, Julia achava o habito do garoto bem curioso, nunca imaginou que ele se interessasse por leitura, e achava aquilo admirável, mas desta vez decidiu não interrompê-lo, tinha passado o dia todo um pouco distante dele, e pra não parecer que o estava ignorando se assentou no outro sofá da sala e ligou a TV holográfica colocando num volume bem baixinho para não atrapalhá-lo, seu pai estava no escritório resolvendo algumas pendências, e apenas os dois estavam ali agora. Depois de alguns minutos quando o viu fechar o livro e colocá-lo em cima do tórax Julia finalmente criou coragem para falar algo.

- Como foi à visita à corporação? – Ela falou tentando parecer o mais natural possível, e Lee suspirou.

- Até que não foi das piores, Henry é muito respeitado por lá. – Ele sorriu de leve, parecia estar orgulhoso. – Eu não sei ainda se o que eu quero pra minha vida é ser um soldado, porém depois de tudo que vi na corporação eu me surpreendi, não é tão ruim quanto eu imaginava... mas eu ainda tenho tempo para pensar, e espero que essa Era de paz em Londres dure por muitos anos.

- Eu também espero. – Julia sorriu e abaixou a cabeça. Ficaram em silencio.

- Lee, porque disse ao meu pai que eu estava estranha ontem? – Ela perguntou com certo nervosismo e insegurança na voz. Mas precisava saber se ele entendia seus sentimentos.

- Ora, por que... – Ele deu de ombros e acomodou mais no sofá e deu um sorriso irônico antes de continuar. – Você tava agindo de forma estranha, parecia um gato assustado, se trancou no quarto, não falou comigo o dia todo... Eu pensei que estava preocupada com o chip, então contei pro Henry, acho que fiz o certo.

- Então era com isso que você achou que eu estava preocupada? – Ela perguntou sentindo as maçãs do rosto esquentarem, mas sabia que ele sabia o real motivo, mas estava sendo sarcástico de novo.

- Se é isso, então o que era? – Ele rebateu sorrindo de lado. Julia engoliu seco tentando formular algo inteligente em sua mente para responder, mas a verdade é que ela não sabia o que responder, e sentia que se abrisse a boca iria falar algo constrangedor, e seus batimentos cardíacos só iam acelerando gradativamente a cada segundo que passava e ela olhava para os olhos dele que esperavam por uma resposta.

- Fiquei assim por causa do... Do nosso beijo. – Ela falou quase num sussurro e abaixou a cabeça.

- Você realmente queria outro beijo então? – Ele perguntou fingindo surpreso, lembrando-se do que ela tinha falado na noite anterior, antes de sair correndo de seu quarto.

- N-não, não é isso, eu só não sei o que me deu ontem, acontece que foi o meu primeiro, e eu acho que isso está me fazendo confundir as coisas, sabe... – Ela tentava explicar.

- Não, não sei. – Ele respondeu arqueando uma sobrancelha.

- Quando você deu seu primeiro beijo, acredito que por algum tempinho pensou que estivesse apaixonado, não é mesmo? – Ela agora o encarou, e começou a mexer as pernas de nervosismo. – Mas acredito que depois viu que aquilo foi apenas coisa de momento, e que na verdade você tinha apenas se iludido. – Ela deu uma risada forçada no final pra parecer estar “tranquila”.

- Você acha que está apaixonada por mim? – Ele a encarou como se tivesse certeza da resposta positiva dela.

- Não! – Ela quase gritou. – Não quero que tire palavras da minha boca, apenas responda o que eu perguntei. – Ela sorriu nervosa mais uma vez.

- Mas eu não sei o que te responder, eu não me lembro como eu me senti quando dei meu primeiro beijo. – Ele respondeu, estava mentindo, Julia sentiu isso.

- Tá bom, era só isso que eu queria saber. Bem, eu já vou indo pro meu quarto. – Ela se levantou do sofá bufando, ele só estava brincando e sendo irônico com ela de novo, mas ele imediatamente se levantou também e foi atrás dela se arrependendo do que fez.

- Julia! – Ele a chamou e ela olhou para trás sentindo um nó na garganta e suas pernas tremerem.

- Não fique apavorada com medo de estar apaixonada por mim, eu sei que não está. – Ele sorriu. – Bom você pode pensar que está, mas isso vai passar... Eu sinto muito, mas, eu não sou seu príncipe, como eu já disse.

- Obrigada Lee, que bom que podemos conversar sobre isso numa boa, e sermos sinceros. – Ela engoliu seco tentando parecer indiferente, mas a verdade é cada palavra daquela dilacerou seu coração em pedaços.

- Não é nada... – Ele colocou a mão sobre os ombros dela como se estivesse se despedindo. – Boa noite.

Julia acenou de volta um “Boa noite” e em seguida subiu para o seu quarto. Estava claro para ela que aquilo tinha sido um fora, foi à maneira mais educada dele dizer que não sentia o mesmo e esperava que ela se desse conta que também não sentisse para não ser magoada mais tarde. De qualquer forma Julia estava decidida a esquecer aquilo a partir daquele dia, nem que tivesse que fingir que não sentia nada por ele, pois parecia que a cada palavra negativa a paixão dela por ele só aumentava.

Antes de dormir, Julia se olhou novamente no espelho inteligente para analisar seu humor na esperança de alguma mudança boa, já se esquecendo de que anteriormente tinha se achado uma idiota por confiar no que um espelho diz, mas no fundo sabia que o maldito espelho tinha razão. Ela estava apaixonada por Lee, talvez não quisesse reconhecer por achar tudo aquilo vergonhoso demais para ela. Estar apaixonada por um garoto que ela a princípio teve nojo e pena era um tanto irônico agora. Assim que o escaneamento terminou, apareceram alguns dados diferentes no espelho dos quais ela não sabia se eram bons ou ruins.

Kim Julia

Humor: ansiedade elevada, febre alta, corpo estranho detectado.

 

Sobre a ansiedade ela achou um exagero, já a febre ela teve que concordar, principalmente porque suas orelhas estavam vermelhas e quentes. Porém como assim um corpo estranho detectado? Seu coração bateu forte imaginando inúmeras coisas, estava com algum vírus ou algo assim? começou a tremer de frente ao espelho e suas pequenas orelhas ficaram mais vermelhas ainda, parecendo pequenas pimentinhas na ponta. Colocou as mãos geladas apertando o lóbulo de ambas e sentiu algo estranho na orelha esquerda. Algo que já sentiu antes, parecia um carocinho, mas nunca tinha dado importância, poderia ser apenas uma deformaçãozinha de nascença. Mas devido a febre alta e a vermelhidão aquele pequeno caroço parecia estar mais alto. Preocupada Julia começou a apalpá-lo e aquilo a estava deixando aflita, talvez fosse uma bolhinha de febre.

Em seguida abriu a gaveta que ficava em baixo do espelho e lá tinha alguns itens de manicure: algodão, agulha, álcool, pomadas e etc. pegou a agulha prata que reluzia, e levou até a orelha na intenção de furar a bolhinha. Sabia que aquilo poderia infeccionar, mas a ansiedade não a deixaria dormir com aquilo a incomodando. Assim que cutucou com a agulha algumas gotinhas de sangue minaram, apesar de não ter doído. Julia pegou o algodão e escancarou o sangue, sentindo agora seu lóbulo votar ao “normal”. Suspirou dando uma última olhadinha no algodão antes de jogá-lo no lixo. Mas havia algo ali. Julia ficou paralisada tentando entender o que poderia ser aquele minúsculo grão de arroz de dor dourada, parecia um pequeno grão de ouro. Por um minuto sua mente parecia perdida, mas em sequência sentiu como se uma luz tivesse aberto sobre sua mente: O chip!

Ela abriu a boca tentando assimilar, não sabia o que mais lhe impressionava, se era o lugar obvio que haviam implantado nela, ou pelo tamanho minúsculo daquele objeto tão poderoso. “É por isso que eu sempre sentia dor quando colocava algum brinco” pensou, agora fazia sentido. Retirou o pequeno chip do algodão e o lavou com todo cuidado na pia com água gelada e em seguida o secou com a toalha tomando o maior cuidado para não o deixar cair, seria como procurar agulha no palheiro.

- Você esteve aqui o tempo todo... – Ela falou consigo mesma enquanto segurava a pontinha da orelha entre os dedos. Não pensou duas vezes e correu até a porta para ir ao andar de baixo, precisava avisar seu pai sobre o que havia descoberto.

 

Na manhã seguinte...

Passou pelo salão e quase tropeçando em tudo que estava pela frente, e então bateu na porta do escrito de seu pai, ele analisava alguns documentos no computador holográfico e seu olhar de preocupação, mas assim que viu a filha abriu um sorriso dando total atenção a ela, e acenando com a cabeça para que entrasse. Julia se aproximou do pai com a respiração ofegante e antes de dizer qualquer coisa abriu a mão mostrando o pequenão grão que estava em sua palma. Henry ficou paralisado, seu olhar estava centrado no pequeno chip, como se aquilo fosse a coisa mais gloriosa que ele vira durante toda a sua vida.

- Estava na minha orelha... – Julia falou seguida de um longo suspiro.

- Na sua... Orelha? – Ele perguntou de forma retórica. – Não acredito que achou... Filha... Eu... Não sabe o alivio que me dá ouvir isso. – Ele se levantou da cadeira e ficou de frente para Julia a segurando pelos ombros e uma lágrima correu de seus olhos sem que ele pudesse evitar.

- Passamos todos esses anos aflitos e com medo de que esse chip estivesse preso a mim de uma forma mortal..., mas foi mais simples do que imaginávamos... – Julia sorriu levemente. – Sabe o que isso significa papai? – Ela deu uma pausa. – Chega de ser aquela Julia ingênua e amedrontada que não tem controle sobre o próprio futuro. Eu não terei mais medo, irei me livrar disso, e seguirei minha vida como uma pessoa livre, como uma garota normal como eu sempre quis ser.

- Não sabe como eu me lamentei todos os dias da minha vida por ter colocado isso em você... Julia você não sabe como...

- Não te culpo papai, o passado não me importa mais, só o que me importa é o que acontecerá daqui pra frente. – Julia sorriu e o abraçou.

Em seguida notaram a presença do garoto ruivo entrando no escritório. Ele viu a cena do pai abraçando Julia e já ia se retirando imaginando ser mais uma demonstração de afeto pai e filha que Julia tanto gostava, mas antes de sair Henry o chamou.

- Julia achou o chip! – Anunciou como se estivesse comemorando a chegada de um bebe.

 

[ ... ]

 

- Então... Estava na sua orelha? – Lee perguntou boquiaberto. Depois de toda a euforia ter passado, estavam no jardim de fora da casa conversando, ele a havia chamado para caminharem juntos e conversarem a sós.

- Sim... Eu me sinto tão aliviada. Sempre imaginei que estaria dentro do meu coração... Ou do meu cérebro... – Julia riu dos próprios pensamentos.

- Você vai destruí-lo, não vai? – Lee perguntou esperando por uma resposta positiva.

- A princípio foi a primeira coisa que pensei, mas a verdade é que ainda não sei... – Julia olhou pra baixo.

- Como não sabe? Você precisa destruir esse troço... Não temos muito tempo! – Lee falou aflito, aquilo fez Julia estranha a atitude eufórica de Lee.

- Como assim? – Ela perguntou preocupada e confusa. Ele suspirou.

- Te chamei aqui porque... Queria falar longe do Henry. Aconteceu uma coisa séria. – Lee a olhou cerrando o olhar.

- O que aconteceu? – Ela o olhou preocupada.

- Deborah e Thierry estão de volta a capital. – Ele falou num tom firme, porém dava pra notar o nervosismo em sua voz. Lee com medo? Aquilo só poderia ser o fim do mundo, pensou Julia.

- Como? – Ela arregalou os olhos. – Mas... Com você sabe? Os soldados do meu pai os monitoraram desde que voltamos pra casa e não encontraram nem rastros deles aqui por perto...

- Provavelmente estão usando identidades falsas, e clonagem. Na verdade, eles são muito bons com isso, quando eu estava com eles aprendi sobre clonagem, os clones estão longe, porém os verdadeiros Deborah e Thierry estão mais perto do nunca. Joshua que me avisou quando fomos visitar a corporação do seu pai... A princípio eu achei que ele estivesse blefando, mas depois vi que era verdade. Eles devem ter alguma carta na manga para terem a audácia de virem sozinhos a capital, agora que não tem mais ninguém do lado deles. – Lee explicou. Julia engoliu seco, mas apesar de tudo lembrou-se de sua promessa de não sentir mais medo.

- Não importam que estejam aqui... Eu não tenho medo deles. – Ela respondeu. – E que bom que não falou perto do meu pai, ele já teve tantos problemas e não quero envolve-lo nisso agora, podemos resolver isso juntos Lee. – Ela completou firme. O garoto se surpreendeu com a determinação da “irmã”, nunca a tinha visto tão segura de si e sentiu um certo orgulho.

- Era exatamente isso que eu queria ouvir, mas não imaginei que aconteceria... – Ele sorriu.

- Não quero ser mais a Julia de antes, muitas pessoas confiavam em mim, e eu preciso confiar também. Mostrarei pra toda a capital que posso ser útil, que não sou apenas a filhinha adotiva do Coronel Henry. – Ela o olhou firme. – E sei que posso contar com você irmão.

- Sem essa de irmão. – Ele riu.

- Riley. – Ela corrigiu. E Lee deu um sorriso.

- Ainda tenho que me acostumar com o nome que minha mãe me deu... – Ele olhou para os lados sorrindo de forma ingênua.

- Sua mãe teria orgulho de você. – Julia sentiu a necessidade de falar aquilo.

- Por que? Tudo que eu fiz na minha vida foi errado, eu matei, eu sequestrei, eu roubei... – Ele citava tentando se lembrar de mais coisas.

- Mas você nunca foi uma pessoa má... No fundo você sempre teve um bom coração. – Julia sorriu colocando sua mão sobre a dele.

- Você sempre tenta achar um lado bom em mim... – Ele sorriu de lado. – Talvez a paixão esteja te cegando. – E logo em seguida Julia retirou sua mão se levantou do banco aonde estava sentada ao lado dele.

- Agora vai ficar curtindo com a minha cara? – Ela o olhou com o rosto rubro.

- Você não consegue esconder seus sentimentos Julia... Sei que está apaixonada por mim. Sei desde muito tempo. Acha que eu não percebo essas coisas...? – Ele sorriu.

- Quer saber Lee? Não tenho mais vergonha dos meus sentimentos, mesmo que sejam sentimentos por alguém tão cruel como você que não os merece. – Ela respondeu firme engolindo seco. Lee jogou a cabeça para trás abrindo um sorriso enquanto o sol daquela manhã batia contra seu rosto. Achava fofo a forma com que a garota falava com bravura seus o que sentia.

 Ele era tão lindo, tão lindo que chegava ser errado, inapropriado um garoto tão frio e sem vaidade alguma ser tão perfeito daquela forma, os fios lisos negros, todos bagunçados, os lábios moderadamente grossos, os olhinhos puxados cor de amêndoa, semelhantes a de um gatinho, a pele levemente bronzeada, o corpo magro porém forte que parecia metal revestido de veludo... Provavelmente nem ele mesmo tinha noção do quanto era lindo. Não, não devia ter certamente, por mais autoconfiante que aparentava ser.

- Fique tranquila, não estou rindo de você... Apenas acho... estranho estar apaixonada por mim. – Ele disse da forma mais natural possível. – Juro que no começo até pensei que estava blefando, mas quando percebi seus olhares, eu tive a certeza.

- Também acho estranho. – Ela repetiu suas palavras pois no momento sentiu que não conseguiria se explicar, por mais que no fundo soubesse que toda aquela frieza a atraia de uma forma incompreensível que não queria admitir.

- Bem..., mas deixa isso pra lá... Voltando ao assunto do Thierry e da Deborah... – Por que Lee? Porque não me diz como se sente também? Julia nem ao menos prestou atenção no que ele dizia, apenas martelava em sua cabeça porque ele não dizia como se sentia, porque não dizia que também gostava dela? Ou porque não dizia que não gostava para que parasse de alimentar novas esperanças em seu coração.

- Lee... – Ela o interrompeu.

- O que foi? – Rebateu.

- Você gosta da Deborah? – Ela perguntou sentindo uma de arama farpado em sua garganta, foi por impulso, mas não queria deixar passar aquele momento, algo dizia a ela bem no fundo de que todo aquele deboche e falta de empatia pelos sentimentos dela, era porque ele já tinha alguém pelo o qual seu coração pertencia, e esse alguém era Deborah.

- Como assim? – Arregalou os olhos. Julia sentiu que sua surpresa fora forçada.

- É por isso que não quer envolver nosso pai, tem medo de que ele e os soldados encontrem a Deborah e a matem, não é isso? Você ama ela... Sempre amou, e nunca deixou de amar... – Julia falou sentindo seus olhos marejarem, não queria que aquilo fosse verdade, não queria. Lee ficou sério, e aquilo a preocupou ainda mais. Ficou em silencio, e aquela conversa estava virando uma câmara de tortura a cada segundo que passava e ela não obtia respostas, porém a ausência delas apenas iam confirmando o que Julia tinha acabado de dizer.

- Julia, eu não estou protegendo ela nem o Thierry. – Foi a única coisa que disse, mas aquilo já dizia muito sobre como Lee se sentia. – Não interessa se eu a ame ou não, o fato é que eu nunca fico do lado de traidores.

- Então você a ama, não é mesmo? Acabou de confessar! – Julia fungou o nariz quando o sentiu arder por causa das lágrimas que estavam se formando. E Lee não respondeu, mas Julia agradeceu por isso, não sabia se conseguiria ouvir aquilo e ainda continuar em pé. – Bem, mas de qualquer modo eu também acho melhor não envolver meu pai dessa vez, isso só traria mais guerras, e agora que ele está voltando a reconquistar a confiança das pessoas da capital não o quero ocupado com esses dois picaretas. Podemos cuidar disso juntos.

- Você quer que mesmo que eu diga a verdade? – Ele a encarou sério. – Eu não queria te falar nada... pra não te magoar, mas se quer a verdade eu falo sem problemas. – Julia engoliu o choro e sorriu tentando parecer indiferente.

- Me magoar, convencido. – Ela revirou os olhos.

- Sim. A resposta é sim. Eu amo a Deborah. – Ele falou e olhou pros lados. Julia sentiu seu coração bater mais forte e dolorido, mas já esperava ouvir aquilo. Arrependia-se de ter deixado que ele a beijasse, maldito dia. E mesmo não querendo sentiu-se totalmente inferior naquele momento, Deborah era a garota forte que ela nunca seria, a garota pela qual Lee se apaixonou, a garota que era o oposto dela.

- Eu já sabia. – Ela riu, sentia-se ridícula naquele momento. Mas também sabia que eles não tinham nada, era impossível, a paixão de Lee por Deborah era tão não reciproca quando a dela por ele.

- Não pense que eu vou ficar do lado dela e de Thierry, eu sei bem separar as coisas. – Ele respondeu em seguida.

- Eu sei que sabe... Você já provou isso. – Julia limpou a garganta. – Acho que eu vou indo lá pra dentro. Vou entrar pelo acesso do meu pai no site de buscas da capital e ver se encontro algo suspeito sobre esses dois, e qualquer coisa eu te aviso... Ok?

- Ok Julia... – Lee acenou com a cabeça. Parecia estar se sentindo tão envergonhado quanto ela por ter falado sobre seus sentimentos, não era algo de que ele parecia ser acostumado a falar, definitivamente não era.

 

 

 

 

 



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