História It's destiny, my love! - merthur - - Capítulo 3


Escrita por:

Postado
Categorias Merlin
Personagens Arthur Pendragon, Gaius, Guinevere "Gwen", Merlin, Morgana Pendragon, Morgause, Rei Arthur, Uther Pendragon
Tags Arthur, Bradley James, Camelot, Colin Morgan, Lgbtq, Merlin, Merthur, Mordred, Morgana, Morgause, Rei Arthur
Visualizações 3
Palavras 3.668
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Ficção Científica, LGBT, Mistério, Suspense, Yaoi (Gay)
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 3 - O machado.


Antes que Merlin pudesse falar qualquer coisa, Arthur seguiu os cavaleiros que haviam carregado sir Mordred para trás do tablado. Os aldeões deixaram clara a desaprovação por meio de murmúrios e olhares furiosos enquanto ele passava. Soltando um grande suspiro, o rei saiu do tablado para acompanhar o príncipe.

- Perdoem meu irmão - disse a princesa, sem graça, enquanto também abandonava o tablado. - Ele não está se sentindo bem.

As pessoas encararam em silêncio quando a família real partiu, deixando Merlin encarando a multidão. O clima alegre estava inquestionavelmente morto; o festival havia acabado. Ele ficou sozinho, perplexo, o olho latejando, tudo porque o garoto mais encantador que ele já vira tinha decidido fazer um espetáculo público às suas custas. Mas o que realmente o surpreendeu foi perceber que ele se importava. Viera ao festival para ser cavaleiro, não para ser humilhado por um príncipe mimado.

Mesmo assim sentia-se atraído por ele e queria que ele o tivesse beijado. Merlin desceu do tablado e olhou em volta, procurando o velho que havia iniciado aquele fiasco.

Mas não havia sinal do alfaiate.

- Aonde ele foi?

Gwen correu até Merlin e lhe entregou a camisa sem dizer uma palavra - pela primeira vez na vida. Will também não falou nada. Ele ia abrir a boca, mas Elyan puxou-o de lado para ajudar a limpar a praça. Ninguém pediu a Merlin que fizesse nada, dando-lhe espaço e tentando não piorar a situação.

Uma mercadora ruiva usando uma capa bem-feita se aproximou de repente.

- Você é um tremendo lutador, rapaz - disse ela. - Venha, você merece um prêmio.

Não se sentindo merecedor de prêmio nenhum, Merlin acompanhou a estranha. A mercadora o levou até uma carroça coberta por uma grossa lona listrada de vermelho e lilás. A carroça continha arcos, espadas, adegas e uns poucos machados, mas, por conta do mau estado em que estavam - enferrujados e com furos -, não passavam de lixo inútil, não que Merlin estivesse particularmente fascinado com a oferta da estranha, para começo de conversa.

- Bom - disse a mercadora. - Do que você gosta?

Merlin forçou um sorriso, avaliando as lâminas velhas e com mossas.

- Não tenha pressa. Escolha o que preferir.

Apesar de não estar interessado em remexer uma pilha de armas baratas, Merlin viu um machado sem uso por baixo de um par de maças cheias de crostas de ferrugem. Tinha um braço comprido, bem-acabado, feito de carvalho, e a cabeça forjada brilhava como obsidana. Ele pegou o machado novo e reluzente e avaliou o peso com as mãos. Olhando de novo as espadas decrépitas, a escolha era óbvia. Ele precisava de um machado novo, de qualquer modo.

- Ah - disse a mulher, franzindo a testa. - Eu esqueci que isso estava aí.

Merlin levantou-o de volta para a carroça.

- Se a senhora prefere não...

- Não! - a mercadora ergueu a mão e soltou uma gargalhada espalhafatosa. - Por favor, fique com ele, meu jovem amigo. Assim você vai sempre se lembrar do dia em que o príncipe Arthur lhe deu um be... belo machado!

Merlin inclinou a cabeça e olhou carrancudo para ela. Depois pegou o machado, apertou o cabo com força e se afastou, o maxilar trincando por causa da brincadeira da mercadora. Já era bastante ruim que o príncipe o tivesse humilhado na frente dos aldeões; agora uma completa estranha precisava colocar sal na ferida recente. As emoções de Merlin chegaram ao auge, fazendo seus olhos arderem. A luz forte do sol do fim de tarde não ajudava, nem a dor na lateral do corpo ou a sujeira de terra no rosto.

Alguém puxou sua blusa.

- Anime-se, Merlin. Achei você brilhante!

O nó na garganta de Merlin tornava impossível falar com Guinevere.

- Por que você pegou um machado? Por que não uma espada? Ela tinha umas boas.

Umas boas? Merlin não sabia como responder. Todas as espadas velhas que ele havia inspecionado naquela carroça teriam se partido ao meio no primeiro golpe. Precisou de toda a força de vontade para não levar o machado de volta e ver como ele despedaçaria a carroça velha da mercadora, mas as palavras de Gwen o contiveram.

- Como está sua cabeça? - perguntou ela. - Nossa... O seu olho!

Ele não queria ouvir isso, mas ela estava certa. A área em volta do olho direito havia inchado como uma ameixa madura, e a cada segundo ficava mais difícil enxergar.

- Você está bem arrebentado. Como vai explicar isso à sua mãe?

O choque da situação o havia feito esquecer isso. As tarefas terminadas não explicariam suas péssimas condições físicas. Merlin suspirou e sua cabeça começou a girar.

- O Velho Castanho! - disse Gwen. - Você já culpa mesmo aquele cavalo por tudo o que acontece.

Merlin trincou os dedos. A voz dela o irritava.

- Fico feliz por não ter beijado aquele príncipe. Ele é um bruxo.

- Me deixe em paz!

- M-Merlin - gaguejou Gwen. - Eu... eu não quis...

Ele respirou fundo e irrompeu com um olhar, esforçando-se ao máximo para manter a expressão calma.

- Não deixe que ele aborreça você - continuou Guinevere, hesitante. - Nem aquela porcaria de cavaleiro, ou aquela mercadora velha e miserável.

- Não são eles, Gwen. - Merlin pegou o machado - Nunca vou ser um cavaleiro.

- Vai sim. A Morgana disse que precisavam de você!

- Não, Gwen. Eu não quero mais ser cavaleiro!

A voz da garota embargou na garganta.

- Você não pode estar falando sério!

Mas estava. Merlin olhou as ruas vazias, agora sem a música festiva e a alegria que haviam ocupado o lugar. Até a mercadora de armas tinha arrumado a carroça precária e ido para o oeste. Merlin não conseguia sequer encarar Gwen. Nunca um silêncio havia durado tanto entre os dois.

- Você não pode abandonar seu sonho. É o meu sonho, também!

Merlin encarou-a com a expressão mais séria que conseguiu adotar.

- Então é melhor você acordar.

O lábio de Guinevere estremeceu enquanto ela o encarava furiosa.

- Então vá! Vá para casa e desista... seu frouxo!

Ela deu-lhe um soco no braço e saiu correndo. Depois de uma breve chance de esfriar a cabeça, Gwen ficaria bem. Ignorando a bronca da garota, Merlin deixou o machado pousar no ombro enquanto se virava para ir embora. Mal havia passado pela oficina do sapateiro quando Will bloqueou seu caminho e o encarou com raiva.

- Se você já não tivesse todo arrebentando eu esmagaria seu outro olho - disse ele.

Will foi atrás de Gwen, trombando no outro ao passar.

Então Merlin saiu da cidade, sem ligar para os que tinham ouvido sua declaração de derrota. Alguns gesticulavam balançando a cabeça, desapontados. Ele não se importava; estava farto. Podiam pensar o que quisessem.

Cavaleiro de Ealdor. Outra pessoa poderia ficar com aquele título insignificante.

Eu não quero. Nunca quis.

O sol caiu depressa em direção ao oeste enquanto ele subia a colina íngreme da pedreira. Tinha perdição a noção do tempo. Sua mãe chegaria logo, se é que já não havia chegado. Ele deveria ter dado ouvidos a ela. O festival e a família real eram mesmo apenas uma dor de cabeça, e aqueles cavaleiros... eram os piores.

Que pessoa sensata iria querer ficar perto de gente tão egoísta?

Merlin, não. Não mais.

Tentando afastar o príncipe da mente, correu de volta para a floresta.

{♡}


Um esquilo velho desceu depressa por um galho enquanto Merlin diminuía o ritmo e passava a caminhar. Seguiu desanimado pela floresta, olhando o sol da tarde através das folhas dos carvalhos. Remoer o que havia acontecido no festival só o fazia ficar mais lento, os pensamentos ocupados pelo rei pomposo, o príncipe frio e os párias druidas. Mas o que o assombrava mais era o alerta daquela garota druida.

Você não deveria estar aqui...

- Será que ela sabia que meu dia acabaria assim?

Havia uma luz na janela da choupana. Sua mãe estava em casa.

Fantástico. Ela jamais vai me perdoar por isso...

Diminuiu o passo, não vendo mais a necessidade de retornar tão depressa quanto havia planejado. Mas então, à medida que se aproximava, parou, boquiaberto, e baixou o machado perto da plantação. Espiou com o olho bom a cerca inacabada, o celeiro por varrer, a plantação totalmente seca e as ferramentas caídas de qualquer jeito na terra. Afora o campo plantado, ele não havia terminado as tarefas.

Enfiou a mão no bolso. O dedal da sorte roçou contra os dedos. O instrumento de costura mágico o havia ajudado a derrotar o cavaleiro, mas agora isso não importava.

- Sorte - zombou. - Aquele alfaiate fez isso...

Nesse momento o velho era a menor de suas preocupações. O fato de ter ido ao festival deixaria sua mãe com raiva, mas ter ido sem terminar as tarefas iria deixá-la furiosa.

Respirando fundo, Merlin pegou o machado e foi em direção ao inevitável.

O piso gemeu quando ele entrou, mas o ruído foi abafado pelos estalos do tear da mãe. Ele fechou a porta e parou junto a mesa. O carretel de linha trazido pelo alfaiate ainda estava na bancada, intocado. Não havia comida cozinhando nem fogo acesso. Ele colocou o machado novo na mesa e esperou que a mulher lhe desse a bronca. Mas ela não disse nada. Nenhuma palavra.

A tensão preenchia o cômodo enquanto os minutos se passavam. A nova toalha de mesa que a mãe estava fazendo era bastante refinada.

- Não temos lenha para fazer fogo - disse ela. - Quer cortar um pouco?

Merlin estivera esperando a maior reprimenda de sua vida, mas agora presumiu que ela estivesse deixando para mais tarde, quando tivesse acabado de tecer e pudesse se concentrar no castigo. Pegou o machado e foi para os fundos de sua casa. Suas costelas doíam por causa dos chutes de Mordred. Esperava que nada tivesse quebrado; descobriria com certeza quando desse o primeiro golpe com o machado. Golpeou uma árvore derrubada e partiu algumas toras decentes na metade do tempo que normalmente levava. A nova lâmina era afiada. Ainda que o festival tivesse sido um pesadelo, pelo menos o prêmio de consolação era útil. Levantou o machado acima da cabeça e cravou a lâmina no cepo antes de pegar a lenha e entrar em casa.

A mãe não disse nada enquanto ele acendia o fogo. As chamas subiram altas e quentes, lançando sombras pelo cômodo. Se ela se recusava a falar, ele teria que fazer isso.

- Desculpe, mãe. 

Ela terminou de fazer o acabamento.

- Como foi o festival?

Merlin sentou-se ereto, chocado com a voz agradável da mãe. Ela piscou ao ver os hematomas em seu rosto, porém não havia raiva nos olhos. Ele tampouco viu um sorriso em seus lábios.

Isso não é do feitio dela. Por que está tão calma?

Ela suspirou fundo e voltou ao trabalhado.

- Vejo que você aprendeu a lição.

A única reação de Merlin foi fitá-la. Era assim? Ela iria deixar que isso passasse tão facilmente?

- Não quero ser cavaleiro - disse ele. - A senhora estava certa. Eu deveria ter ouvido.

- A palavra dos pais não basta. Os filhos precisam aprender por si mesmos. Agora você está em casa e em segurança, e é isso que importa, no fim das contas.

- A senhora não está furiosa comigo?

- Fiquei furiosa. Mas quem pode dizer que não tenho culpa, mantendo você trancado nesta casa? - Ela tocou a mão do filho. - Não quero que se machuque, Merlin. Eu não suportaria perdê-lo.

- Agora entendo - disse ele, apontando para o olho inchado.

- E onde você encontrou esse machado? Comprou?

- Ganhei. Mas tudo bem. Nós precisávamos de um novo.

- Ganhou? Lutando, sem dúvida. Foi assim que ganhou um olho roxo, também?

Merlin assentiu, agradecido porque ela não estava mais com raiva. 

- Vou tomar banho.

- Você precisa terminar as tarefas amanhã. Já está atrasado demais.

Merlin assentiu, esperando que o clima aliviasse. 

Em vez disso, os olhos da mãe se arregalaram de repente.

- O que é isso? - perguntou ela, apontando para o carretel na bancada.

- Deixaram para a senhora.

Ela se levantou e pegou lentamente o carretel.

- Quem deixou?

- Um velho... Gaius. Ele disse que vocês eram amigos.

- O quê? - gritou ela. - Ele sabe que não deveria vir aqui quando eu estivesse fora!

Houve uma batida à porta antes que Merlin pudesse perguntar qualquer coisa. Sua mãe foi atender levando o carretel. Do outro lado da porta estava um rapaz usando o chapéu de aba larga com uma pluma branca. A mãe de Merlin apertou o peito, recuando com um susto.

- Esta é a casa de Hunith, a costureira?

- O que você está fazendo aqui? - perguntou ela.

- Eu, ah, trouxe uma mensagem - disse ele, surpreso com a reação dela. Em seguida desenrolou um pedaço de pergaminho fino e leu. - "Sua Majestade deseja uma audiência com Hunith, a costureira, e seu filho, Merlin, conhecido como cavaleiro de Ealdor. Confirmem sua presença com o mensageiro", que sou eu, "e cheguem ao castelo ao meio-dia de amanhã", assinado, Uther, rei de Camelot.

- Não! - respondeu a mãe sem hesitar. - Nós nunca iremos lá.

O homem apertou o pergaminho com força.

- Como assim?

Merlin sentiu-se como um camundongo acuado. O sujeito já havia falado demais.

- Nós jamais poremos os pés naquele castelo - disse a mãe. - Agora vá! 

- Mas... mas o rei deseja...

- Não me importo com o que ele deseja. Ele não tem o direito de querer nada de mim!

- Minha boa senhora, seja sensata! - implorou o mensageiro. - A senhora deveria ter visto seu filho esta tarde. O cavaleiro favorito de nossa terra não foi páreo para ele. Foi incrível de assistir!

- Diga estas palavras a Sua Majestade - retrucou a mãe. - Eu nunca vou perdoar você!

Ela empurrou o sujeito por cima da soleira, para fora da choupana, batendo a porta enquanto o mensageiro sem fala se afastava rapidamente.

- Mãe? - perguntou o jovem. - A senhora está bem?

- Ah, Merlin! - Ela apoiou as costas na porta. - O que você fez?

Sem esperar resposta, ela passou rapidamente pelo filho, pegou um saco de aniagem e examinou freneticamente a choupana. Merlin não entendeu o que a mãe estava fazendo até que ela começou a atacar a despensa e jogar toda a comida no saco. Estava preparando uma bagagem.

- O quê está fazendo, mãe? Como assim, nunca vai perdoar o rei?

- Não há tempo para explicações. Precisamos partir rapidamente!

- Partir? - Ela não poderia estar falando sério. - Por quê?

- Maldição, Merlin! - praguejou a mãe. - Eu vim para cá para proteger você! Se o rei sabe onde você está, ela também vai descobrir. - Ela pegou alguns cobertores e embolou-os sob os braços depois de apagar o fogo - Precisamos sair daqui antes que ela encontre você... e o mate, também!

- Me mate? - O terror atravessou o corpo de Merlin, fazendo-o tremer. - O que a senhora está dizendo?

Ela se recusou a falar enquanto carregava o saco para fora de casa.

Merlin a acompanhou até o celeiro, completamente perplexo.

Por que alguém iria querer me matar?

- Vai me contar o que está acontecendo?

- O que houve no festival? Como o rei encontrou você?

- Eu lutei contra o cavaleiro dele e venci - ele respondeu com orgulho. - E o prêmio era um beijo do príncipe, mas ele recusou. Talvez seja por isso que o rei queira nos ver, para pedir desculpas, não é?

- O príncipe recusou você? - A mãe encarou o filho, os lábios apertados com força. - Aquele garoto é louco se acha que pode conseguir alguém melhor. - Ela começou a colocar as coisas na carroça e praguejou de novo. - Agora nem uma costura oculta pode nos salvar.

- Costura oculta? - Merlin não fazia ideia do que ela estava falando. - O que é uma costura oculta?

A mulher se virou e o encarou.

- Não posso explicar agora, meu filho. Você precisa voltar lá para dentro e pegar suas coisas. Só traga o que for absolutamente necessário.

Ela estava falando sério. Merlin podia ver a urgência nos olhos da mãe, mas como ele poderia ir embora sem se despedir de ninguém? Bastava de segredos.

- Primeiro me diga o que está acontecendo.

- Eu perdi seu pai para ela. Não vou perder você também. Agora depressa!

- Não vou a lugar nenhum enquanto a senhora não me contar!

A mãe parou e o encarou de novo.

- Pegue suas coisas.

Com a raiva aumentando, Merlin saiu do celeiro e voltou à choupana.

- Depressa! - gritou a mãe. - Não devemos desperdiçar nenhum segundo!

Merlin abriu a porta com um chute. Nunca havia se sentido tão furioso, tão indigno de confiança. Sua mãe sempre tivera ataques de paranoia no passado, mas desta vez era diferente. Ele não queria deixar sua vida em Ealdor - nem seus amigos - sem saber por quê. Mas o modo como ela estava agindo era motivo suficiente para hesitação; não era hora para se rebelar. Sua mãe nunca havia criado um alarde tão grande, nunca na sua vida. Se ela estava falando a verdade, eles corriam perigo.

Ela podia ter guardado segredos dele, mas nunca mentira.

Alguém pode estar atrás de nós. 

Merlin pegou algumas roupas e umas poucas coisas que poderiam ser úteis na viagem para... onde quer que fossem. Também precisariam de alguma coisa para proteção. O machado. Tinha deixado-o do lado de fora. Abrindo a porta dos fundos outra vez, Merlin foi rapidamente até o cepo, soltou o machado e se virou de volta para a choupana, a fim de juntar o restante de seus pertences. 

- Achou que poderia se esconder de mim, Emrys?

Merlin parou bruscamente. Uma voz de mulher sussurrava ao seu redor, usando o nome pelo qual Gaius o havia chamado antes. Ele se virou e viu uma estranha usando uma capa, encostada no maior carvalho-branco. Ela entrou na clareira. O crepúsculo pálido revelou cabelos loiros e olhos escuros.

Sua mãe estava certa. Alguém estava mesmo atrás deles. E os havia encontrado.

Merlin levantou o machado junto ao peito, pronto para atacar.

- Quem é você?

Sem dizer uma palavra, a mulher ergueu o braço e atirou uma faca.

Merlin desviou-a com o machado. Quando viu uma segunda faca, derrubou-a também. Ficou surpreso ao ver como aqueles lançamentos eram fortes, e também o fato de que conseguia se livrar com facilidade das facas. Merlin ainda estava com o dedal, então talvez tivesse alguma relação com isso. Uma terceira faca voou para ele. Desta vez ela subiu e oscilou no ar antes de descer para acertá-lo.

Antes que pudesse pensar em como um lançamento daqueles seria possível, ele girou o machado e acertou a lâmina. Seu golpe mandou a faca de volta para a estranha, acertando a árvore atrás dela. O confronto estava num impasse.

- Deixe-nos em paz! - alertou Merlin. - Você está em desvantagem aqui!

A mulher levantou a mão.

Um arrepiou súbito atravessou o corpo de Merlin e ele não conseguiu mais se mexer. Ela sacudiu uma das mãos e ele caiu puxado por alguma coisa invisível. A outra mão da mulher desceu com força para o chão. Merlin queria se levantar e lutar, mas estava deitado imóvel de costas e não conseguia se mexer. O dedal - por vontade própria - deslizou para fora de seu bolso. O objeto de latão brilhante pairou acima de sua cabeça antes de sair de seu alcance e cair no chão ali perto.

- Agora que está sem proteção - disse a estranha -, você vai morrer. 

- Merlin? - gritou a mãe de dentro da choupana. - Onde você está?

Rosnando, a mulher recuou de volta para os limites da floresta, segurou sua faça e a arrancou do carvalho. O tronco explodiu feito um trovão, espalhando lascas.

- Adeus, Emrys.

Com um redemoinho da capa, a mulher sumiu nas sombras.

Incapaz de se mover ou de gritar, Merlin viu o carvalho caindo em sua direção.

{♡}

Uma meia-lua pairava no céu que ia se avermelhando enquanto Merlin se sentava perto da beira do lago, ofegante. Surpreendentemente recuperado, olhou ao redor e procurou a desconhecida sinistra. Era estranho, mas seu rosto estava melhor. Tocou-o, a pele em volta do olho direito parecia normal.

Nada havia acontecido, absolutamente nada. Merlin exalou um longo suspiro de alívio.

O festival, a desconhecida sinistra usando capa, a árvore - era tudo um sonho.

Não acredito que caí no sono aqui...

Ele ficou de pé num salto e correu de volta para a choupana. A porta dos fundos estava aberta e a cozinha, escura, com todos os pratos guardados. A mãe não estava no tear, nem na cama.

- Mãe?

Não houve resposta. 

Por que a porta dos fundos está aberta?

Saiu de volta para o crepúsculo, olhando o vento agitar as copas das árvores.

Estranhamente, ele não conseguia sentir o vento.

Um gemido lamentoso alcançou seus ouvidos, vindo da borda da floresta. Merlin foi investigar. Os gritos se intensificaram enquanto ele se aproximava de um carvalho caído, o mesmo do sonho.

Isso está mesmo acontecendo? Não estou sonhando agora, estou?

Encontrou a mãe junto à base da árvore, o rosto enterrado nas mãos.

- O que aconteceu, mãe? - perguntou. - Estou aqui.

Ela não respondeu. Apenas chorava.

Merlin pulou por cima da árvore caída.

- Mamãe, o que foi?

- Ah, Merlin! - Ela soluçava nas mãos. - É tudo minha culpa.

- O que é sua culpa?

De novo ela não respondeu. Quando Merlin olhou para baixo, entendeu o motivo.

Ao lado dela estava um corpo pálido, esmagado sob o carvalho. Ela pegou o dedal caído ali perto e o colocou cuidadosamente na palma da mão do corpo sem vida.

- Meu filho perfeito...

Merlin olhou seu próprio corpo no chão. Tremeu e estendeu a mão para colocar no ombro da mãe e consolá-la, mas a mão passou direto, através dela.

A mulher se estremeceu enquanto ele recuava.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...