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História It's raining somewhere else - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


CULPEM A @GHOSTMEL
EH ISSO
eu descobri através dela que ia ter uma week giyushino e eu, obviamente, surtei pq tava chegando e eu tinha que participar!!!
Rushei com a produção, mas gostei do resultado final!

Espero que gostem <33

Capítulo 1 - Único; Como ele, e como toda chuva que jamais veria.


 

Seu corpo estava dormente. Mesmo sabendo que mexia as pontas dos dedos, esses nem pareciam que eram seus. Havia muito barulho à sua volta, muitas coisas se movendo, e muitas palavras sendo proferidas que, devido ao seu estado, não eram mais que ruídos para aquelas orelhas recém acordadas. Shinobu, aos poucos, começa a tomar consciência do espaço circundante, percebendo certa familiaridade.

Era um dos quartos da Mansão Borboleta. Estava claro, possivelmente era manhã. Na sua direita, um corpo quente e pesado lhe envolveu com carinho exacerbado, seguido por outros quatro. Soube quem era quem apenas pelo cheiro: Inosuke, Kanao e as três menininhas assistentes, exatamente nessa ordem. 

Eles eram barulhentos, porém mais do que o normal. Ao contrário dos gritos de brincadeiras e gargalhadas costumeiras, choravam de dor e de alívio; Shinobu tinha certeza e, com isso, seu coração apertou. A mulher fecha os punhos de inquietação — não devido à algazarra, mas por não conseguir retribuir o carinho das crianças de maneira adequada, por não lhe restar forças para abraçá-los e dizer que estava tudo bem.

Logo a voz imponente de Aoi é escutada reclamando com a falta de delicadeza dos mais jovens. O quarto se esvazia, e os visitantes preocupados se vão, levando o barulho para o outro lado da porta, a qual Aoi fechou atrás de si. A jovem assistente se aproxima da cama centrada no cômodo, carregando uma bandeja fina com um copo e uma chaleira com água fervente.

“Consegue se sentar?” Aoi pergunta, depositando o que segurava sobre uma superfície estável.

“Hmhm” Shinobu consente com um som nasal difícil de escutar, e a assistente começa a ajeitar os travesseiros da Pilar para que essa consiga se posicionar. 

“Como está se sentindo?” Aoi serve a água fervente em um dos copos, mergulhando um saquinho de chá repetidas vezes. 

“Como se tivesse morrido e sido trazida de volta. Por quanto tempo eu dormi?”

“Quase uma semana.” a garota entrega a bebida para a mestra.

“Entendo.” Shinobu segura aquele recipiente firmemente, de modo a não mostrar o quão trêmulas estavam suas mãos. “Eu… Nós conseguimos?”

Com gentileza, os olhos azuis de Aoi brilharam ao mesmo tempo que respondeu sorrindo “Sim.”

Ouvindo a notícia, Shinobu quase derruba o chá de sua pegada frágil. O soluço que escapou da garganta dela era quase uma risada — embora também, de certo modo, pouco faltava para se transformar em um choro profundo de gratidão.

Ela não conseguiu acreditar. Por um momento, duvidou até da realidade e das sensações que sentia no presente. Era confuso, era estranho, diria que estar viva ali e agora era, sem dúvida, impossível — ao menos, de acordo com tais planos que tinha organizado por meses, e que a fizeram aceitar a morte como o fim inevitável.

Mas ela sentiu as lágrimas quentes escorrerem nas suas bochechas. Shinobu sentiu o coração bater aliviado, sentiu o tecido áspero de suas roupas roçando na sua pele rosada de quem tem sangue ainda circulando pelas veias. Estava viva de verdade. Conseguiu sobreviver àquilo que acreditava ser impossível de remediar.

 Aoi agiu rápido para evitar que a bebida se espalhasse pelos lençóis, tomando o recipiente em suas próprias mãos, enquanto assistia à Shinobu enxugar o rosto nas mangas do pijama. A Pilar levou um tempo para se recompor, mas, quando o fez, parecia leve, como se o peso de uma vida fosse arrancado de suas costas batalhadoras.

“Como estão os outros? Me alivia saber que os mais jovens estão bem, mas não posso evitar de me preocupar com os outros pilares…”

“Mestra Kochou…!” Kanzaki travou por um segundo, o qual foi preenchido pelo barulho do copo indo de encontro ao chão. A garota se agacha para limpar a sujeira que fez, negando-se a ter qualquer contato visual com Kochou durante o processo. Da quietude que veio em seguida, foi capaz de ser ouvido um gole seco descer a garganta de Aoi. “Temo que talvez você devesse descansar mais e… Talvez depois possamos conversar sobre isso.”

“Não seja assim, senhorita Kanzaki! Acho que uma semana já foi suficiente, não concorda?” Apesar de seu estado debilitado, Shinobu continuava a promover aquela persona alegre e acolhedora, ainda mais depois de descobrir a vitória da humanidade na batalha secular e cruel contra os demônios. Por outro lado, Aoi parecia mais desconfortável do que nunca. “Oh, Tomioka já acordou? Eu gostaria de vê-lo.”

“Mestra… O senhor Tomioka…!” Ela se levantou bruscamente, continuando de costas para Kochou. Os punhos apertaram.  “O Pilar da Água… está morto.”

“O… O quê?”


[...]

 

“Está chovendo de novo, huh?” A Pilar do Inseto apontou naquela tarde, como se a tormenta que os rodeava não fosse óbvia para a percepção do seu parceiro.  “Espero que o tempo não atrapalhe essa missão, certo?”

O mais velho não respondeu. Continuou imóvel fitando a paisagem ofuscada pela água que caía do céu, ouvidos atentos à melodia única que era feita quando as gotas beijavam o solo. Seu semblante era sereno, sua postura admirável, e seus olhos… Ah, aqueles olhos azuis profundos, na qual imensidão Shinobu adorava se perder. 

“Ara, ara” Ela o cutucou. “Por que assiste tão apaixonado àquilo que atrapalha nosso serviço?”

“Eu… gosto da chuva”

“Como é de se esperar do Pilar da Água, talvez?”

“Existe algo que me encanta sobre ela.” Foi estranho ouvir um tom poético vindo de Giyuu, mesmo que o timbre fosse o aquele de sempre. “Não importa o que aconteça, sempre estará chovendo em algum lugar. E são essas chuvas que acabam com secas, que revivem colheitas, que salvam vilarejos da fome. São manifestações da natureza que representam a própria esperança, ainda que nem todos percebam isso.”

“Ou também causam inundações, desastres e destroem tudo.” Ela ironiza num tom sério.

“Talvez esteja certa.” Suspirando pelo nariz, o rapaz voltou à parceira. “Mas a chuva me lembra você, Kochou.”

“Isso se torna bem rude depois do que eu acabei de dizer.”

“Uma coisa de beleza incompreensível.” E a voz do mais velho a calou e ecoou, fazendo Shinobu congelar. “Existe um lado lindo… e um lado sombrio que me custa a entender.”

Acelerado. Seu coração havia ficado, de repente, muito acelerado. Não era a primeira vez que a Pilar, conhecida por sua delicadeza remetente à borboletas, sentia-nas na própria barriga por conta de Giyuu e sua espontaneidade tão típica. De certo modo, estava feliz e foi incapaz de dizer qualquer coisa para refutá-lo.

Poderiam ter continuado assim, só os dois, guarnecidos pelas luzes do pôr do sol e o som incessante da chuva. Um segundo, um minuto, uma hora, tanto faz; Ela estaria satisfeita de passar quanto tempo fosse necessário apenas na presença dele e da ausência de palavras com obrigações. Um momento de paz e mais nada.

Entretanto… 

“Kochou, tem uma coisa que eu queria lhe dizer…”

Tomioka — justo quem nunca tomava iniciativa — abriu a boca e começou a falar. Quanto mais as sílabas escapavam dos lábios dele, mais o sorriso da Pilar do Inseto se desfazia. A respiração de Shinobu falhou quando percebeu o que aquele rapaz estava revelando, e seu coração, antes animado, lamentou.

Ela não ouviu mais. Ela não quis ouvir. Não tinha forças para raciocinar aqueles sentimentos traduzidos em palavras desajeitadas. Tornou-se surda por mero egoísmo, mera covardia — escondendo-se por trás da tempestade que soou mais intensa que o timbre do seu companheiro.

Shinobu não se permitiria hesitar, pois sabia que seu tempo era escasso e já tinha aceitado seu fim. Mas, de algum modo, sabia mais que tudo que, acaso deixasse sua ignorância de lado e abrisse seu coração para o discurso de Tomioka, a dúvida existiria.

Estava cansada disso tudo. Por pouco não chorou por pena — talvez dele, talvez de si mesma —, mas seu orgulho falou mais alto e, com ele, sorriu.

“Ora, Tomioka-san, é falta de educação se despedir antes da hora.” A garota se afasta, incapaz de encará-lo nos olhos. Se Tomioka fosse mais atento, seria capaz de ler, através dos pequenos sinais que a linguagem corporal dela deixava no ar, o dilema maquiado por uma atitude autêntica de Shinobu Kochou.

“Então… Quando saberei que é a hora?”

Ele jamais saberia. Nem mesmo ela sabe, aliás. Talvez seja a última vez que se falariam, a última chance que ela teria para aceitar essas sensações que gritavam tanto para sair do peito — mas "certezas" era a última coisa que Kochou tinha.

Shinobu coloca a mão para fora do abrigo. A tempestade havia se tornado uma garoa, e tudo indicava que em breve o céu abriria.

“‘Está sempre chovendo em algum lugar’, huh? Eis uma coisa que me deixou pensativa.” A mulher volta a olhar para o companheiro. No rosto, carregou sinceridade; mas de suas íris transbordavam a tristeza de uma despedida não desejada. “Não importa onde eu esteja, a chuva sempre me lembrará de você também.”

 

[...]


 

“Como que… ele…?”

“Foi bem depois da batalha ter terminado. Parecia que ele estava tendo dificuldade para respirar.” As mãos da jovem permaneciam coladas ao colo, à medida que ela se sentava sobre o colchão que, no momento, parecia não ter espaço suficiente para que as duas conseguissem estar próximas e confortáveis. “No fim, Kanao reconheceu que aquilo era consequência dos danos da Arte Demoníaca da Segunda Lua Superior.” 

“O quê…? Mas eu estava sozinha e…” Shinobu ligou os pontos. “Então… ele apareceu para me ajudar…?”

Aoi assentiu com a cabeça, ainda cabisbaixa. “Kanao e Inosuke disseram também que foi por conta dele que o veneno de seus ataques, Mestra, tiveram tempo para enfraquecer a Lua Superior.”

 “Entendo…” Shinobu estala a língua. “Que idiota…”

Coloca os pés para fora da cama. Sequer deu atenção aos avisos preocupados de Aoi, cambaleou até a parede mais próxima que pudesse se apoiar. Já não ouvia quem quer que cruzasse seu caminho na sua jornada irracional por uma tempestade que nem sabia se existiria. Porém ela continuou. Continuou rumando em busca de uma saída, em busca de um escape daquela realidade. 

Abriu a última porta.

Era uma tarde ensolarada. O céu, quem sabe, o mais límpido que aquelas suas retinas cansadas já haviam presenciado. Era um belo dia, de fato. Ventania ia e vinha, suavemente, dançando com os curtos fios de cabelo da mulher parada na varanda, em sincronia com o jeito que os tecidos da camisola dela também eram perturbados pela brisa. 

Uma manhã perfeita para o início de uma era de paz. Sem mais terror, sem mais perdas desnecessárias ou choros distantes de famílias destruídas pela crueldade daquela raça das trevas. Tempos bons viriam, manhãs tão belas como aquela viriam e, sem dúvida, seriam preenchidas por gargalhadas de pessoas amadas que foram finalmente libertadas daquele medo de viver.

Entretanto… algo estava faltando para Shinobu.

“Mes...Mestra!” Kanzaki chegou ofegante em Kochou, segurando-a pelos ombros. “Mestra, não deveria sair andando desse jeito, poderia ter… Mestra? O que houve?”

Não estava satisfeita, e sentia-se culpada por isso. Odiava estar chorando num dia tão belo, parecia até que era ingrata.

Só que, olhando para a imensidão daquele céu azulado sobre a sua cabeça, era inevitável se lembrar. E Shinobu sabia, sabia que estava chovendo em algum lugar. Uma chuva fria e reconfortante que com certeza ele adoraria.

“Está chovendo em algum outro lugar, Kanzaki-san” Ela soluça, contorcendo-se para a forma mais vulnerável que um ser humano poderia ter num abraço. “Mas eleEle não estará lá  para ver.”



 


Notas Finais


Eu sempre amei o conceito hurt que a maioria das fics de giyushino possuem, mas percebi que sempre seguiam a narrativa da morte da Shino do canon, e quis explorar uma versão diferente do hurt gostaro

Muito obrigada por lerem até aqui,
E muito obrigada a @GhostMel por ter me falado da week, e a @Marhux, que acompanhou minha jornada na escrita e foi minha helper no processo!!



Obs: a fic tbm foi postada no ao3, não esqueçam de dar uma olhada nas fics da Giyushino Week lá!


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