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História I've Got You - Fillie - Capítulo 39


Escrita por:


Notas do Autor


Alô alô!!!

Esse capítulo fecha a primeira parte da fic, então eu recomendo uma leitura em paz kkkkk

Espero que gostem e...

Boa leitura

Capítulo 39 - Líder


Fanfic / Fanfiction I've Got You - Fillie - Capítulo 39 - Líder

Future Stars, Toronto, Ontário, Canadá - Sábado - 20h


Líder

Finn


Assim que saímos do ringue, sou engolido por abraços calorosos e elogios. Se estivesse assistindo da arquibancada ou pela TV, não conseguiria me reconhecer nos último minutos de jogo. Simplesmente  deixei a adrenalina tomar o controle dos meus atos, guiando as jogadas, silenciando as inseguranças. Mesmo extasiado estava ciente de cada passo, cada instrução, cada jogada e de cada ponto marcado. Eu sabia ser líder, afinal. Podia ser líder, se quisesse. Seria líder a partir de agora. 


-Mandou muito, little wolf! - Cody berra. 

- O capitão dos Pinguins deve estar procurando o puck até agora. - Quincy comenta, começando a tirar o uniforme. 

- O orgulho desses meninos. - Joe me abraça.

- E a gente com medo de dar tudo errado. - Cole balança a cabeça negativamente. 

- Foi arriscado, mas conseguimos manter o jogo equilibrado. - Tony diz, se aproximando dos chuveiros.

- Tua namorada estava brava. - Joshua avisa, jogando toalhas limpas a nós. 

- É, vai ter que explicar bonitinho sua estratégia pra ela. - Joe comenta sarcástico. Entro debaixo da água quente confuso, mas não pareceria incerto, não na frente de Quincy. 

- Vou explicar daqui a pouco. - digo, passando shampoo no cabelo.


A equipe ria sem parar, relembrando os lance da partida e provocando uns aos outros. Pela primeira vez assumimos uma postura mais agressiva no ringue, algo que poderia causar efeito rebote nos outros adversários, e principalmente em se tratando dos Pinguins, mas Cole, eu, Joe e o técnico concordamos em arriscar, visto que queríamos assumir a liderança e, cordeirinhos simpáticos não conquistam taça, muito menos sobem ao pódio no topo mais alto.


Me arrumo apressado, colocando a calça verde musgo, com bolsos na coxa, comprada há algumas semanas por Sadie, camiseta de listras horizontais também verdes e uma jaqueta jeans branca larga, provavelmente de Ivan. Divido o secador pequeno com Cole, que estava arrumado, pronto para ouvir a Calpurnia tocar. 


-Onde as princesas do gelo vão? - Cody pergunta, nos analisando. 

- Dar uma volta juntas. - responde o capitão debochado. 

- Vou supervisionar esse role aí. - Joe pisca em nossa direção, fazendo o vestiário cair na risada. 


Nós três caminhamos até o estacionamento da Future conversando baixo, logo vejo meus amigos e minha família conversando ao longe, dava para notar a empolgação à quilômetros. A ansiedade desponta gelada e acusativa, questionando minhas atitudes de forma dura. Engulo em seco, lutando para afastar a sensação de insegurança antes de chegar até eles. 


-Quem são as minhas Barbies patinadoras? - Noah é o primeiro a nos ver. Millie, Ayla, Jack e Malcolm conversavam próximos ao carro da morena.

- São eles! - Joe aponta, rindo alto. 

- O que foi aquele último ponto? - Nick começa. 

- Eu prendi a respiração. - Sadie finge prender a respiração de novo, abraçada a Caleb. 

- O cara novo joga bem. - papai opina. 

- Ele é bom. Vamos tentar colocá-lo mais vezes. - Cole diz.

- Achei ele bem atento. - pontuo, concordando com o capitão. 

- Fiquei com medo de dar mais briga, isso sim. - Maddie me olha ironicamente. 

- Foi tudo planejado. - explico. - Não ia fugir do controle. 

- É, eu estava cuidando das minhas crianças. - Joe se gaba. 

- Os meninos da Fieldstone estão full irritados. - Louis comenta, tirando os olhos do celular. 

- Falaram alguma coisa? - Cole pergunta. 

- Burburinho. Os alunos saíram meio… - mamãe faz careta, levantando as sobrancelhas. 

- Vão ter rivais irritados no próximo jogo. - Gaten, sentado junto de Lizzy, adverte. 

- Vamos dar conta. - Joe soa confiante, mas maneia a cabeça. 

- Vamos de Uber, filhos. - papai joga a chave em minha direção.

- Não precisa pai, nós pedimos um depois. - Nick recusa. 

- Levo eles, Eric. - Millie intervém, sorrindo confiante. 

- Nada disso. - mamãe a encara autoritária. 

- Eles mesmos vão dirigir. O Noah leva depois. - explica doce, jogando seu charme irresistível nos meus pais.

- Promete? - pergunta Mary. Todos em volta fazem cara de emoção e não escondo o constrangimento. 

- Prometo manter seus filhos longe do perigo e levá-los em segurança até Leslieville. - Millie coloca a mão no peito, fazendo o juramento de olhos fechados. O squad gargalha alto, inclusive os mais velhos. 

- Finneas está louco por um perigo do seu lado, Millay! Não frustra o garoto. - Noah provoca, e consegue derrubar a pose séria da amiga, que vira de costas e começa a rir. Ela usava a jaqueta com meu nome bordado. Esqueço da vergonha, rindo alto. Mamãe me chama em um canto, enquanto papai falava com Nick em outro. 

- Você foi ótimo, Finnie. - ela me chama pelo apelido criado por Mills. - Vá e se divirta, mas fique de olho nela. 

- Obrigado, mãe. - o rubor provavelmente me deixa engraçado, porque ela aperta minhas bochechas. - Aconteceu alguma coisa? A Iris estava por aí?

- Sim, falou com a Millie no banheiro, mas não é isso. - seu olhar é preocupado. - Acho que ela está triste. 

- É, ela está. - me balanço desconfortável. - Nick me disse que ela não “confia” - faço aspas com os dedos. - em mim ainda, por mais que tenha contato aquelas coisas sobre o Ivan. 

- Confiança leva tempo, e é em momentos difíceis assim que se sedimenta. - mamãe estava certa, deveria tentar confortá-la mesmo sem saber de tudo. 

- Vou conversar com ela. - afirmo. 

- Horário liberado, mas! Avise se for dormir fora. - pede, bagunçando meu cabelo. 

- Pode deixar. - confirmo. 


Millie continuava junto da banda, mas agora segurava as mãos de Ayla, e Louis havia se juntado a conversa. Coloco minha bolsa em seu carro, sem pedir permissão, voltando ao círculo de bate-papo de Caleb, Sadie, Noah, Gaten, Lizzy, Maddie, Cole, Joe e Nick. 


-Vamos para o Jonn’s? - convido, cortando a conversa deles. 

- Estou ansiosa pelo show. - declara Maddie. 

- Eu estou com o cu na mão, mas acho que vai dar certo. - confesso, olhando para Nick. 

- Vai ser muito bom! O Jonn’s até organizou melhor o salão para que todo mundo consiga assistir. - diz Nick, e minhas pernas vacilam pelo nervosismo. 

- Segura a emoção, lobinho. - Joe caçoa, me segurando pela jaqueta.  

- Depois desse show no ringue ele treme assim. Você não faz sentido nenhum. - Maddie argumenta. 

- É diferente. - rebato. 

- Em que? - todos perguntam ao mesmo tempo. 

- Não sei! Só é. - digo exasperado. 

- Solta o meu homem. - empurrando Joe, Millie se aproxima. O peso do nervosismo sede instantaneamente. Os braços curtos dela contornam minha cintura. 

- Meu HOMEM. Vocês ouviram né? - Lizzy reforça animada, e o squad faz escândalo. 

- Finn é só um neném de três anos, parem! - Joe brinca, tentando me puxar para longe de Millie. Nos apertamos no abraço, fugindo de Keery. 

- Vamos logo para o Jonn’s, estou animado. - Louis grita, chamando o resto do squad para segui-lo. 

- BORA! Estacionem todos juntos. - orienta Nick.

- Nick, vem comigo! Sua vez de dirigir a Lolo. - Louis sorri travesso para meu irmão, que comemora. 

- Malcolm, sua vez de dirigi a… Não tenho um nome ainda. - Millie pondera, mas tira a chave do bolso e arremessa desajeitada ao cacheado. 

- Vamos fazer uma votação para o nome no Twitter. - Noah sugere aos berros. 

- ISSO! - gritamos em resposta. Mills, eu e Jack nos sentamos no banco de trás.

- Meu pai não vai acreditar que estou dirigindo um carro desses. - Malcolm quase não conseguia se conter. 

- Cuidado para não sonhar que está pilotando e cair da cama hoje. - Ayla implica, passando o cinto de segurança pelo tronco. 

- Melhor dormir no chão, amigo. - Millie entra na brincadeira. 

- Boa ideia. - concorda, ligando o veículo. - Posso acelerar? - pede, olhando para Millie pelo retrovisor. 

- Fique a vontade. - diz tranquila, segurando minha mão. 

- Essa noite vai ser TUDO. - grita ele, acelerando e buzinando pelo estacionamento, chamando a atenção dos que estavam por ali. 


Jonn’s, Toronto, Ontário, Canadá - Sábado - 21h


Paramos na praça,  à algumas quadras do Jonn’s, pois na rua principal não haviam vagas disponíveis tamanho o movimento no bar. Meus amigos tremem levemente ao notarem a aglomeração, ficando tão nervosos quanto eu. Malcolm desliga o motor, suspirando pesadamente. 


-Antes de saírem, quero fazer um discurso motivacional. - Millie não separa nosso dedos, mas endireita a postura. - Vocês ensaiam juntos desde crianças,  se conhecem mais do que qualquer um que esteja dentro daquele salão. Cantem com o coração, dando tudo que sabem, mas sem esperar nada em troca. Todas as bandas começaram assim, iguais a vocês e errar faz parte do aprendizado. Tenho certeza que vão se sair bem. 

- Está muito cheio, Millie. - Ayla choraminga. - E se eu cair do palco? 

- Estamos juntos nisso. - garante Jack. 

- Ninguém vai cair. - Malcolm repreende a amiga. 

- Vamos conseguir. - completo decidido. Já havíamos tocado antes ali, para o mesmo público, daria tudo certo. 

- Obrigado, Millie. - Ayla parecia prestes a cair no choro. 

- Não chora, tá bom? Você é a melhor guitarrista dessa cidade. - ainda sem me soltar, ela segura as mãos pálidas de Ayla. - E vocês três também. - Malcolm sorri, colocando sua mão por cima das garotas. Jack estava tremendo, mas imita o ato, seguido por mim. - A Calpurnia está só começando e vai arrasar!


Sorrindo uns para os outros, deixamos o carro, partindo em direção ao Jonn’s. Pelo reflexo deixado ao passarmos pelos veículos e vitrines das lojas, percebi o sorriso largo estampado no meu rosto, apesar da apreensão, e sabia motivo. Millie não havia deixado nossas mãos se desgrudarem em nenhum momento desde o abraço no estacionamento e, só não estava tendo uma convulsão de felicidade por isso, e pelas palavras de minutos atrás, porque seria esquisito demais até pra mim.


-Os instrumentos são de vocês? - pergunta a mais baixa. 

- Sim e não. - Jack começa. - A bateria está no Jonn’s há, sei lá, duas eras. As guitarras e o baixo a gente deixou aqui mais cedo. 

- Entendi. - concorda ela.

- Estamos ensaiando com o teclado. - solto sua mão para passá-la pelo seus ombros. 

- É, eu estou aprendendo a tocar. Está ficando bom, Ayla até escreveu umas coisas. - Jack conta empolgado, fazendo loira o olhar feio.

- Isso é ótimo! Eu amo piano e teclado. - diz a morena.

- Finn toca piano. - Malcolm diz. O dourado cintila animado em minha direção. 

- Não sou bom. Sei só algumas coisas. - explico, fingindo casualidade. 

- Odeio quando o Finn se faz.- Ayla retruca.

- Quietinha. - peço, sorrindo falsamente. 


Acenamos para o segurança, que já sabia sobre nossa chegada, adentrando o salão movimentado. Tudo estava diferente, me paralisando por segundos. As mesas de sinuca desapareceram do local onde costumavam ficar, junto dos computadores, mesas e outros acentos. Sinto minha respiração acelerar, acompanhando as batidas frenéticas do coração. Sou o mais alto do grupo e tive dificuldade em ver o bar, pelo número de pessoas amontoadas no espaço.


-Ei, psiu. Tudo bem. - Millie fica na ponta dos pés, alcançando meu rosto. 

- É, tudo bem. - confirmo, respirando fundo. 

- Vamos lá para os fundos, Finn. - Ayla chama, andando apressada até o camarim improvisado. 

- Isso. Vão lá. Vamos estar na primeira fila. - motiva ela. 


Chegamos aos fundos do palco, vendo nossos instrumentos em pedestais, refrigerantes e uma porção de batata frita na mesa. O local era minúsculo e mal iluminado, mas ótimo para descansar antes de passar pela montanha russa de emoções que nos aguardava do outro lado da parede falsa. 


-Vamos repassar. - Jack pede após tomar meia lata de coca-cola. - Oh Mama. 

- É a primeira. - engulo a batata, relembrando os acordes da canção. 

- American Idiot. - Malcolm girava as baquetas, empoleirado no braço do sofá. 

- I’ve Got You. - Ayla estava de olhos fechados, tocando a guitarra imaginária. 

- Summer of 69. - relembro. 

- Oh Love. - Jack pontua. 

- e Stray Heart, no final. - Malcolm salta de seu lugar, animado. 

- Vai ser muito louco. - completo, massageando as têmporas. 

- Estou a beira de um ataque histérico, mas animado pra cacete. - Jack piscava os olhos rapidamente, me dando agonia. 

- Eu estou com tanto medo. Vou precisar de calmante. - Ayla faz careta. 

- Não quero ver a guitarra durante todo o fim de semana. - aviso, estalando os dedos da mão. 

- Está na hora meus bebês. - Nick invade o espaço. - Estão bem? Precisam de alguma coisa?

- Estamos ótimos, Wolf. - Malcolm abraça meu irmão, que se assusta, mas retribui o gesto de afeto. 

- Está mesmo na hora? - pergunta Ayla ofegante. A olhamos preocupados. 

- Aylão, você toca com a gente desde sempre. Tocou perfeitamente bem da outra vez. - digo, segurando seus ombros que subiam de desciam. 

- Lembra do que a Millie te falou. - Malcolm pede. 

- Você vai ir bem, Aylão. Te ouço tocar desde os 8 anos. - Nick a encoraja.

- Vamos acabar logo com isso. - ela levanta, quase pisando em mim, pegando a guitarra verde oliva. 

- Bom, vamos né. - Jack alcança seu baixo. 

- Boa sorte. - deseja Nicolas. 

- Obrigada. - agradecemos, deixando a sala. 

*


-Pela segunda vez no palco do Jonn’s, com vocês, Calpurnia. - anuncia o dono do estabelecimento. Eu e o resto da banda entramos no palco aos som de palmas e assovios. 

- Boa noite. - desejo, e escuto um sonoro “boa noite”, do público. - Como o Jonn disse, essa é nossa segunda vez aqui, então, peguem leve e aproveitem as músicas. - estava suando, com os joelhos fracos e o coração disparado. Me viro de costas para a platéia, respirando fundo, encaro Malcolm, que sorri.

 -woo. - canto, fechando os olhos e dedilhando as cordas da guitarra. Ao primeiro sinal de reconhecimento, metade do bar grita, aprovando.


*


See how we say it is

Veja como dizemos que é

 How the moon hit the sand

Como a lua bate na areia

See how we say it is

Veja como dizemos que é

I hold a wand in my hand

Eu seguro uma varinha na minha mão

Don't wanna lose it

Não quero perdê-lo

Oh mama, that's how you love

Oh mamãe, é assim que você ama


Cantamos junto da galera, recebendo o apoio de desconhecidos e amigos. De todas as vezes em que estive nos palcos, mesmo sem coragem de encarar ninguém, essa estava sendo a melhor. Ayla ainda se encontrava trêmula, mas a voz saia firme, o mesmo acontecia com Jack. 


- Caramba! Vocês cantam muito bem. - Malcolm elogia o público, que bate palmas e ri. Nós três nos abaixamos em busca dos copos de água que estavam próximos às caixas de som. - A próxima é um clássico, então gostaria de pedir a ajuda de vocês. - sorrio ao ouvir todos vibrarem. - É com você little wolf. 


Don't wanna be an American Idiot

Não queira ser um idiota americano

Don't want a nation under the new media

Não quero uma nação governada pela nova mídia

Can you hear the sound of hysteria?

Você pode ouvir o som da histeria?

The subliminal mind Fuck America

A mente subliminar fode a América



Assim que toco os primeiros acordes, os jovens explodem em gritaria. Finalmente olho para baixo, vendo meus amigos pularem animados, dançando, berrando a letra conosco e balançando suas cabeças no ritmo dos instrumentos. 


Welcome to a new kind of tension

Bem-vindo a uma nova forma de tensão

All across the alienation

Por toda parte na alienação

Where everything isn't meant to be ok

O que eu quero dizer é que nada está bem

Television dreams of tomorrow

a televisão sonha com o amanhã

We're not the ones meant to follow

Nós não somos aqueles que parecem seguir

For that's enough to argue

Para isso o suficiente é argumentar



No refrão, nossas vozes se confundem à dos espectadores. A onda de adolescentes pulava eufórica. De relance, vejo Ayla sorrir de leve, ainda nervosa e concentrada nos detalhes dos acordes. Millie dançava junto Nat e Maya, gritando a letra da canção. 


-Querem mais nostalgia? - pergunto, sentindo o suor grudar minha camiseta na pele. 

-SIM! - respondem em uníssono. 


Ayla começa, seguida por Malcolm, depois por Jack. A plateia reconhece as notas, e se agita em resposta. O grito de Millie e Louis chegam ao meus ouvidos e comemorei internamente o acerto na escolha. Secretamente, a música me lembrava a morena.


The world would be a lonely place 

O mundo seria um lugar solitário

Without the one that puts a smile on your face

Sem aquela que põe um sorriso em seu rosto

So hold me 'til the sun burns out

Então me abrace até o sol se apagar

I won't be lonely when I'm down

Eu não vou estar sozinho quando estiver para baixo

'Cause I've got you

Porque eu tenho você

to make me feel stronger

Para me fazer me sentir mais forte

when the days are rough

Quando os dias são duros

and an hour seems much longer

E uma hora parece muito mais longa


Jack canta as primeiras estrofes timidamente, inseguro da própria voz, mas logo muda a postura, cantando muito mais animado. Brownie se balançava ao som da música. Não sabia se teria coragem de cantar a minha parte olhando em seus olhos, mas queria ter, como da outra vez. Ela merecia isso. Tomo coragem, faria isso. Millie precisava saber que se ela precisasse conversar, ou só comer chocolate no banco de trás em seu carro conversível sem falar nada sério, eu estaria ali. 


I never doubted you at all

Eu nunca duvidei de você de forma alguma

The stars collide, will you stand by and watch them

As estrelas colidem, você estará presente e assistirá

fall? [by and watch them fall]

elas caírem? [presente e assistirá elas caírem?

So hold me 'til the sky is clear

Então me abrace até o céu ficar limpo

And whisper words of love right into my ear

E sussurre palavras de amor bem no meu ouvido


Canto, encarando as orbes douradas como o pôr do sol visto da janela do meu quarto no verão. Millie cantava os trechos também, sorrindo pra mim radiante, sendo empurrada de leve por Noah e Lizzy.


Cause I've got you

Porque eu tenho você

to make me feel stronger

Para me fazer me sentir mais forte

When the days are rough

Quando os dias são duros

and an hour seems much longer

E uma hora parece muito mais longa

Yeah when I got you

Yeah, quando eu tiver você

Oh to make me feel better

Para me fazer me sentir melhor

When the nights are long they'll be easier together

Quando as noites são longas elas serão mais fáceis juntos


Looking in your eyes

Olhando em seus olhos

Hopping they won't cry

Esperando que eles não chorem

And even if you do

E mesmo se você chorar

I'll be in bed so close to you

Eu vou estar na cama bem perto de você

Hold you through the night

Para te abraçar pela noite

And you'll be unaware

E você vai estar inconsciente

That if you need me I'll be there

E se precisar de mim eu estarei lá



Preso a ela de uma forma diferente, mais intensa se comparada as demais vezes que nossos olhares se encontraram, o mundo some ao meu redor. A letra estava falando ao íntimo da mesma, podia sentir as palavras de Tom Fletcher e Danny Jones atingirem seu pequeno, ou melhor, grande coração cansado e ferido. Ali, cantando exclusivamente para a garota, tive a oportunidade de implorar pela chance de ajudá-la, de lhe estender a mão em meio ao caos da vida bilionária e solitária. 


Estávamos conectados. Seja pelo acaso do destino, ou qual fosse a explicação cósmica ou cristã para tal, mas aqui estavam Finn e Millie, frente a frente. Somos o oposto, não só no quesito financeiro ou na nacionalidade, mas ao mesmo tempo tão parecidos. Acreditava ser algo de alma, ou aquele conto de “almas gêmeas”, e até mesmo o famoso “amor à primeira vista”. 


Terminamos a canção sincronizados, iguais aos ensaios, e somos ovacionados pelo público. Me atrevo a desviar o olhar dos de brownie quando ela me incentiva. A experiência de se estar no palco é inebriante, pois tudo se transforma. Nenhuma preparação física, ou psicológica, prepara para a tempestade de satisfação e apreensão  que descem pelo sistema nervoso ao se ouvir as palmas. 


Seguimos com a setlist, muito mais confiantes e calmos se comparado as duas primeiras canções. Ao fim de “Summer of’69”, arrasto meu olhar até a porta do bar, sofrendo em deixar o conforto dos olhares orgulhosos dos nossos amigos, e me arrependo no ato. Iris, acompanhada de sua turma de babacas, avaliava o palco, porém, ao contrário dos amigos, ela não parecia se divertir, pelo contrário, a expressão raivosa denunciava os sentimentos que queimavam o interior da loira. Ciúmes. Irracional, um arrepio de medo transpassa meu corpo, abaixo a procura de água, fechando os olhos, grato por ser a última música. 


-Foi um prazer tocar pra vocês hoje. - agradece Jack. Corro os olhos até Millie, que batia palmas. “Está tudo bem, Finn”, digo a mim mesmo. 

- Obrigada por serem a melhor plateia de todas. - falo, sorrindo para os rostos. Eles assobiam. Malcolm deixa a bateria e, abraçados, nos curvamos em agradecimento. Mills grita “CALPURNIA”, e todos repetem, se tornando um coro. Eu poderia chorar, na verdade, já estava chorando. 


Corremos de volta ao camarim improvisado, limpando os rostos molhados pelas lágrimas de felicidade.


-Deu tudo certo! - Jack comemora. 

- Vocês ouviram? Eles cantaram todas com a gente! - Ayla estava elétrica. 

- Todo mundo gostou! Eu não errei nada na guitarra, achei que ia por causa do suor. - digo, feliz de mais para me conter. Me jogo no sofá, podendo finalmente relaxar. 

- FOI DO CARALHO! - Nick grita ao nos encontrar. Millie e Caleb adentram o espaço segurando garrafas de coca-cola com fogos de artifícios na boca. 

- CALPURNIA! - os dois berram, entregando as garrafas a nós. Minha garota entrega uma das bebidas a Malcolm, e me adianto apressado, segurando os dois lados de seu rosto o mais delicadamente que consegui, unindo nossa bocas. Ouço os outros zoarem, mas os silêncio da mente, focando apenas nos doces lábios de Millie. A pequena sobe na ponta dos pés,usando o antebraço, pois nas mãos ainda segurava a garrafa, para me abraçar e reduzir a distância entre nossos corpos. Ela aprofunda o beijo, causando o um sobre salto nos meus sentidos. A aperto, levando os dedos até sua nuca e a outra mão até a cintura fina. 


-Finnie, foi incrível. Você. - ela deixa a garrafa na mesa, mas interrompo seu discurso, a beijando novamente. A banda, e meu irmão, tinham deixado o espaço, nos deixando sozinhos. Agora, sem nada em mãos, ela aproveita para agarrar meus cabelos e me trazer para ainda mais perto. Millie apoia seu corpo na mesa, onde se senta, facilitando as coisas. Precisava desesperadamente dela. Sua língua explorava minha boca curiosa, mas lenta, seu gosto estava misturado a álcool, o juízo vacila, querendo me abandonar. Os dedo gelados dela deixam o fios, descendo até a barra da minha camiseta incertos, pedindo permissão para invadir, balanço a cabeça de leve, prendendo seu lábio inferior nos meus, o puxando.


Quando as unhas passam devagar por minha pele, a sensação pode ser comparada ao rastro de fogo deixado pela motocicleta de Johnny Blaze, o Motoqueiro Fantasma, no asfalto. Aperto sua cintura em resposta, acelerando o beijo, cessando sua exploração no céu da minha boca. Nos beijávamos urgentes, mas notei, em meio à nuvem de desejo, que seus dedos passam devagar pelos músculos, enviando arrepios irregulares ao meu sistema nervoso.


-Precisam de camisinha? - alguém grita, mas em meio aos carinhos e beijos, não fiz questão de reconhecer. Millie ri na minha boca. 

- Vai procurar o que fazer! - respondo de volta. Sem abrir os olhos, encostamos nossas testas, tentando regular a respiração. 

- Libera o little wolf, Millay! - Nat pede divertida, tirando sarro.

- Ele está comemorando! - Joe debocha. 

- Estava! Acabaram de brochar ele. - Millie lamenta, segurando o riso. A encaro ofendido. Nat, Joe, Nick e Noah riam histericamente. 

- Acabaram com o quinto gol dele hoje. - Noah comenta, me fazendo gargalhar alto e abraçar Millie, que mantinha a mão dentro da minha blusa. 

- Eu já vou. - respondo, apenas para afastá-los dali. E resolve. 

- Se eu soubesse que depois jogar e tocar o little wolf ficava assim, animado, teria colocado outra roupa. - diz a garota. Estava sensível à ela, então o calafrio é inevitável. Millie ri em resposta, se afastando. 

- É novidade, porque nunca tinha feito as duas coisas. - confesso, alcançando a garrafa de refrigerante. 

- Melhor se acostumar, porque do jeito que isso aqui está lotado, o Jonn vai querer a Calpurnia tocando mais vezes. - ela pisca. É a marca registrada dela. 

- Espero não trazer problemas para o Nick. - digo, sentando no braço do sofá, que estava quase encostado na mesa. Me perguntei o que teria acontecido se Joe não tivesse vindo estragar nosso momento. A ideia me assusta e tento disfarçar o rubor bebericando o refrigerante. 

- Claro que não vai. Ele adorou na real. - afirma ela, analisando cada movimento meu. 

- Gostou mesmo? Digo, você… É que. - me enrolo ao tentar explicar. 

- Eu amei! A Calpurnia toca com amor, e tem talento de sobra, personalidade, carisma. - elogia. Vindo dela tinha um peso diferente. - Sei no que está pensando, e pare já. Está vendo algum velho engravatado na sua frente? - ela estufa o peito, fingindo olhar de tédio. 

- Não. - rio em resposta, entrelaçando nosso dedos. - Tento não parecer idiota, ignorar que você já deve ter ouvido um milhão de bandas melhores, e consigo na maior parte do tempo, mas às vezes. 

- Mas as vezes não consegue, eu sei. Fica escrito nessa sua carinha bonitinha, cheia de estrelinhas douradas. - envergonhado, tentei desviar o olhar, mas ela impede. - Nem eu consigo ignorar as vezes. Tudo bem, Finnie. 

- Vou tentar mais, prometo. - digo, vendo o dourado de sua íris se tornar opaca, como durante a manhã, na Future. “Os olhos são janelas da alma”, diz o ditado. Ele cabia perfeitamente na descrição sobre os olhos de Millie, pois neles se encontrava todas as respostas, bastava ter tempo suficiente para se desvendar os mistérios. Há horas atrás, quando voltei minha atenção à ela no estádio, de cara notei a diferença, tinha alguma coisa errada. 

- Não. Não quero que crie uma Millie imaginária aí, que não tem um pai rico ou que não viveu nada antes de te conhecer. Isso vai só te magoar quando começar a desmoronar, porque eu sou o que sou. - explica, mirando meu colar. - Só… Seja o Finnie, tá? Toque suas músicas sem esperar por aprovação de ninguém, muito menos minha. 

- Prometo tentar, Mi. - imito Ava propositalmente. Ela ri, se jogando nos meus braços. Como já era de se esperar, derrubei toda a bebida no chão, só não foi na roupa porque Millie afastou meu braço. 

- Você não existe, Finnie Wolfhard. - em um selinho demorado, a deixo afagar meus cachos, acariciando suas costas devagar, querendo memorizar o calor vindo de sua pele, as curvas e o cheiro de cerejas vindo dela. 

- Vamos, antes que eles derrubem a porta. - anuncia, se levantando. 

- Vou fazer um grupo e colocar o nome de “os impata foda”, não que a gente fosse, é claro, até porque que descrição horrível. Você é uma garota especial, e te respeito. - vejo o cenho de Millie franzir, só então noto que estou tagarelando, igual a ela quando está nervosa. 

- Gosto que as vezes não temos nada a ver, mas do nada parecemos gêmeos. - ela diz, encantada. 

- Pensei o mesmo hoje. - confirmo, colocando a jaqueta e tomando sua mão. 


O fim da noite foi ainda mais animada que as horas anteriores. Meus amigos tornaram o Jonn’s pequeno e, mesmo com a fiscalização dos funcionários, algumas bebidas contrabandeadas fizeram os jovens da Bruce, e de outros colégios da região, darem trabalho. Millie estava alta, assim como Louis e eu. Nick ria sem parar, mas não o vi beber nada, por conta do expediente. Maddie e Malcolm eram quem estavam mais pra lá do que pra cá, sem contar Maya e Dacre, que subiram no palco e protagonizaram a cena de dança mais bizarra da história da dança. 


Eu e brownie não nos soltamos, apenas em raras idas ao banheiro. Trocamos beijos e carinhos a todo instante e, na hora de ir para casa, a californiana cumpriu sua promessa a minha mãe, pelo menos em partes. 


-Nouahhh, leva eles. - a voz arrastada e o corpo mole denunciavam o exagero no álcool. - Quem leva o Louliiii? 

- Eu levo. Relaxa tampinha. - Caleb bate na testa dela, que ri alto. - Boa sorte com ela. - Deseja a mim. Quando bebia, tendia a ficar mais lento que o normal. 

- Aham. - confirmo, segurando a menina. 

- Isso vai ser um desastre! Se alguém morrer eu não quero a polícia na minha casa. - Schnapp reclama, recebendo uma encarada debochada de Sadie em resposta. Nós encontrávamos próximos a praça, onde todos tinham estacionado os carros. 

- Faça-me o favor. Sem drama. - a ruiva revirou os olhos, se encostando na caminhonete dos pais de Caleb. Louis ria alto, abraçado à Gaten e Cole. O capitão também parecia alterado, mas como eu, controlado.

- Quem está bem e pode dirigir? - Lizzy pergunta, tomando água da garrafa recém comprada no bar. 

- Estou 100%. - a voz grogue de Louis faz todos rirem. 

- 100% acabado, Louliiii? - Millie pergunta, seu tom estava estridente, deixando o sotaque londrino carregado é bonitinho. Presa nos meus braços, a aperto, escondendo o riso escandaloso na nuca da garota. 

- Eu me sinto supimpa. - Louis fecha os olhos e abre os braços. Ignoramos o menino, sem entender nada. 

- Eu não deixei uma gota de álcool encostar em meus lábios castos! Levo o tico e teco, Aylão e Nick. 

- Posso levar o Cole, a Maddie e a Lizzy no carro do Louis. - Gaten se oferece, observando Sparrow, que havia sentado no meio fio. 

- Tá, está faltando gente. - digo. Meu subconsciente alertava para algo, mas não conseguia lembrar o que, por estar sob o efeito da proximidade de Mills e da bebida fermentando meus neurônios. 

- Sem chance de encontrar todo mundo. - Caleb rebate. - Malcolm e Jack! Cadê? E a própria Maddie! 

- Odeio jovens. - Ayla e Nick balbuciam, escorados um no outro.

- Vamos separar por bairros, ok? - Sadie, sempre racional, começa a organizar. 

- Sadie salva o dia. Tututu. - a morena dança, me desequilibrando pelos movimentos repentinos.

- Leslieville. Finn, Nick, Ayla e Malcolm. Eles vão com o Noah. - diz Sadie. 

- Leslieville é um nome tão engraçado! - Millie completa, e Noah revira os olhos.

- Rosadale. Noah, Millie,Louis e eu. - a ruiva procura uma saída. - Sem chance. Todos vão dormir na casa dos Wolfhard, porque vou precisar levar o carro da Maddie. 

- Centro. Eu, Cole, Lizzy e Gaten. - Caleb tira a chave do bolso. - Dirige com cuidado, tá? - pede ele a ruiva antes de trocarem um selinho. 

- Deixo a Maddie, Malcolm e o Jack quando achar eles. - explica, voltando a caminhar até o bar. 

- Será que eles foram sequestrados? - Louis pergunta alarmado. Ninguém responde a pergunta do mauricinho.

- Por ET’S? - Cole completa. Gargalho ao lado de Millie. 

- Vamos, antes que ele surte. - Gaten ri, empurrando o mais alto. - Esperamos o resto, Sadie.

- O Finneas vai avisar os pais de todo mundo. - Noah me olha torto, e volto a rir, sem entender nada. - Deixa pra lá. 

- Isso, ele avisa porque é bonzinho e tem todos os números né, vida? - indaga Millie. 

- Meu pai. - Lizzy debocha, ajudando Gaten a levantar Cole. 

- Eu que lute. - Noah empurra nos dois nos bancos. O carro passa a se movimentar, e Nick, eu acho, coloca música alta no rádio. Ayla canta junto, seguida por Noah. Louis estava espremido, mas levantou as mãos, como se estive num concerto, às balançando de um lado para o outro. Demorei para reconhecer a canção, mas Millie não.


O bipe, que avisava sobre o uso do cinto pelos passageiros foi silenciado pelos cinco, que no refrão, gritam as letras apontando uns para os outros, fingindo estarem no clipe. 


Whoa, well, I never meant to brag

Bem, eu nunca quis me gabar

But I got him where I want him now

Mas eu tenho ele onde eu o quero agora

Whoa, it was never my intention to brag

Nunca foi minha intenção me gabar

To steal it all away from you now

De roubar tudo de você agora

But, God, does it feel so good

Mas, Deus, isso é tão bom

'Cause I got him, where I want him now

Porque eu tenho ele onde eu o quero agora

And if you could, then you know you would

E se você pudesse, você sabe que você faria o mesmo

'Cause, God, it just feels so

Porque, Deus, isso é tão

It just feels so good 

Isso é tão bom


- AHHH, EU AMO ESSA MÚSICA! - digo aos gritos, por cima das vozes, que riam descontroladamente do meu atraso. Me junto a eles na cantoria, interpretando a letra, me divertido com o momento.


Leslieville, Toronto, Ontário, Canadá - Domingo - 02h - Casa dos Wolfhard


-Nicolas, você tem que tirar o carro do Eric, deixar ele atravessado, ai coloco o da Millie e o de vocês fica pra fora, caso seu pai queira usar. - paramos de cantar, porém a agitação ainda se fazia presente no ambiente apertado. 

- De boa. - Nick salta. O som ainda estava ligado, mas ninguém se importava muito, ou eu achei isso. Sem aviso, Ayla e Louis abrem a porta, assustando Noah, e começam a dançar pelo jardim. Millie se empolga, juntando-se a eles. Estava tarde. 

- Voltem aqui seus filhos da mãe! - Noah sussurrou. Rio do desespero do loiro. - Vai buscar sua namorada, demente. 

- Tô indo, calma. - levanto os braços, me arrastando para fora do veículo. 

- Nessa lentidão a polícia chega antes de você. - Schnapp debocha. Nick consegue tirar o carro. Tudo parecia em câmera lenta. Precisava dormir. 

- Ei, um gatinho! PSI PSI PSI. - Millie para a dança desengonçada, encontrando o gato da senhora Davis. Ele não era bonzinho, iria arranhar os braços dela sem dó. Isso me acorda. 

- Millie, Louis, Ayla. - chamo. A voz estava grave e quase achei que fosse a do meu pai. Os três me encaram alarmados. Ri internamente. - Chega, pra dentro. - aponto para a casa. - Millie e Louis fazem bico, mas Ayla obedece, tropeçando nos próprios pés até a varanda. 

- Mas o gatinho? - Millie, com seu sotaque, pergunta. 

- Isso aí é o demônio, não um gato, anjo. - a chamo com a mão, e ela corre para me abraçar. 

- Tio Finn brigou com o neném Louis? - Nick imitou meu gesto a Millie, chamando Louis para um abraço, que sacana, pula em cima de Nick, que cambaleia, mas consegue segurar. Rimos alto, esquecendo de onde estávamos. Mamãe abre a janela, e no mesmo instante ficamos sérios. 

- Mas o que diabos? - ela pergunta, sem entender nada. 

- Trouxe eles, sogra linda. - Mills faz sinal de positivo, e então todos riem mais ainda, até mesmo a mais velha. 

- Entrem logo seus bebuns. - pede ela, acendendo a luz. 


Arrumamos camas extras para as visitas. Noah dormiria sozinho na cama reserva de Nick, uma vez que Louis estava agitado demais, por isso ficaria no meu colchão de ar.  Ayla e Millie esticaram o colchão velho dos meus pais sob o tapete no chão do meu quarto. Papai se divertia com Partridge bêbado na cozinha, enquanto preparava chá de erva cidreira para todos nós. 


-Seu Eric, tinha uns quatro metros de altura. Juro. - contava o moreno, jogado na cadeira ao lado do armário. 

- Eu acredito! - papai concordou, servindo ao garoto o líquido quente. 

- Tu… Tudo pronto lá. - aviso sonolento. 

- FINNIE! VEM CANTAR PRA EU DORMIR. - Millie gritou do andar de cima. Ri, ela é linda, divertida e tem o sotaque mais fofo desse universo. 

- Vai lá, Finnie. - meu pai acena, segurando o riso. 

- Toma banho antes viu, vai desmaiar minha irmã com essa catinga aí. - Louis estava começando a falar mais corretamente, contudo, ainda estava fora de si. 

- Até porque o senhor está muito cheiroso né. - pego a xícara de sua mão, tomando o chá. 

- Eu não fedo. Sou um princípe. - diz tranquilamente. Quase me afogo com a bebida, ouvindo a risada de Nick e Noah na sala. 

- Cala a boquinha, gatinho. - Noah pede, usando moletom e camiseta larga. Nick também estava de pijama. 

- Andem os dois para o chuveiro. - manda papai. Eu e Louis trocamos olhares cumplicesses, e saimos correndo escada acima, apostando corrida. 

- Vão se matar! - Nick avisa quando tropeçamos nos degraus, por pouco não derrubando os quadros da mamãe.


Tomo banho no quarto de Nick, vendo as roupas das duas meninas dentro do cesto. A embriaguez desce pelo ralo, junto do suor, deixando apenas a felicidade como prova de que tudo nesse dia tinha sido real, até as partes não tão boas assim. 


- Elas estão agitadas, mas logo dormem. Você está bem? - encontro mamãe no corredor, segurando duas canecas de plástico vazias nas mãos. 

- Estou. Só tomei um copo. O resto é cansaço e felicidade. - explico tranquilamente. 

- Eu sei, já te vi bêbado e é bem pior que o Louis, cantando Freddy Mercury no meu banheiro. - Mary ri, arrumando os óculos. 

- Ela vai acordar querendo se desculpar, provavelmente vai querer comprar flores, não negue, se não a menina fica sentida. - explico, já imaginando onde a levaríamos para treinar baliza.

- Entendido. - confirma orgulhosa. - Ela te faz bem. - não era uma pergunta. 

- Faz. Eu gosto muito dela. - mesmo não sendo, decidi responder. 

- E ela de você. Te elogiou tanto durante o banho que pense estar ouvindo a Dona Trish na sua formatura no middle. - mamãe compara e não deixo de rir.

- Isso é bom? - pergunto. 

- É ótimo! Posso dormir em paz. O coração do meu menino está em boas mãos. - completa, descendo as escadas. Dou pulinhos de alegria quando ela desaparece. 

- Você é patético, Finnie. Mas eu gosto. - Louis me assusta. - Me dá um abraço, cunhadinho. - ele se joga em mim, que consigo o segurar e abraçar. - Ela adora que cantem pra ela dormir. Faça isso, ou te quebro em dois amanhã. 

- Eu já ia fazer, mas sua ameaça ajudou na decisão final. - brinco, o conduzindo até sua cama no quarto de Nicolas. - Durma com os anjos, príncipe. 

- Durma com a minha irmã, Anna. - não entendo, e ele ri. - Você canta, patina, adora abraços, se apaixonou igual um patinho e agora tem o cabelo quase ruivo.  É  a Anna. Nick é a Elsa, mas sensato. 

- Dorme, Louis. Dorme. - incentivo, cobrindo o corpo magro com o cobertor grosso. 

- Mandou muito, Anna. Parabéns. - diz sonolento. 

- Valeu. Você também. - digo, deixando o quarto. 


Ayla estava apagada, esparramada pelo colchão. Millie admirava o teto, segurando a coberta, as íris estavam brilhantes, mas não pelos motivos certos. Sem nenhuma maquiagem, brownie parecia uns três anos mais nova, a pele lisa mostra o quanto a mesma é refinada, porém uma cicatriz pequena, quase no meio da testa, a torna real. 


-O que foi? - sento no chão, acariciando o rostos macio. 

- Bebi para ter uma desculpa para não ir pra casa. Acabei de mentir dizendo a Paige que Ayla bebeu e precisava de ajuda. Não sou mentirosa. - esses não eram os reais problemas, mas me contentaria por hora. 

- Pensa que foi meia mentira e, bebeu por estar animada, não só para fugir. - a tranquilizo, vendo um pequeno sorriso surgir no canto dos lábios. - Dorme agora, tá? Está segura aqui, comigo… Pode fugir pra cá sempre que precisar.

- Obrigada, Finnie. - Millie acaricia meu rosto, contornando as sardas com a ponta dos dedos. Fecho os olhos, grato pelo carinho. - Ainda vai cantar pra mim? 

- Vou. - confirmo. A garota prensa Ayla contra a parede, abrindo espaço no colchão. Deitar ao lado da morena me deixa momentaneamente nervoso, mas não recusaria o convite. Me equilibro na beira do colchão, e ela logo se aninhou em meus braços e, o encaixe é simples, como se tivéssemos feito isso a vida toda. Suspiro baixo, acariciando as madeixas úmidas. Vasculho a mente a procura da música perfeita, e encontro mais rápido do que pensei. 


I got a girl crush

Eu tenho uma queda por uma garota

Hate to admit it but

Odeio admitir isso, mas

I got a heart rush

Eu tenho um coração acelerado

It ain't slowing down

Que não reduz sua velocidade

I got it real bad

Eu tenho uma queda séria

Want everything she has

Eu quero tudo que ela tem

That smile and that midnight laugh

Aquele sorriso e aquela risada da meia-noite

She's giving you now

Que ela está te dando agora


Meu anjo sorri, se aconchegando ainda mais em mim. Não sabia se minha voz estava saindo afinada, ou sedutora o suficiente, mas ela parecia estar gostando, então continuo. 


I want to taste her lips

Eu quero provar os lábios dela

Yeah, 'cause they taste like you

Sim, porque eles têm o seu gosto

I want to drown myself

Eu quero me afogar

In a bottle of her perfume

Em uma garrafa do perfume dela

I want her long blonde hair

Eu quero seu longo cabelo loiro

I want her magic touch

Eu quero seu toque mágico

Yeah, 'cause maybe then

Sim, porque talvez então

You'd want me just as much

Você me queira tanto quanto eu te quero

And I've got a girl crush

E eu tenho uma queda por uma garota

I've got a girl crush

Eu tenho uma queda por uma garota


O corpo pequeno da menina vai relaxando aos poucos. Ela dormiria em breve aqui, comigo, nos meus braços, ouvindo minha voz sussurrar músicas ao pé do ouvido. 


I don't get no sleep

Não consigo dormir

I don't get no peace

Eu não tenho paz

Thinking about her

Pensando nela

Under your bed sheets

Sob os lençóis da sua cama

The way that she's whispering

A forma com a qual ela está sussurrando no seu ouvido

The way that she's pulling you in

A maneira como ela está te puxando para perto

Lord knows I've tried

Deus sabe que eu tentei

I can't get her off my mind

Eu não consigo tirá-la da minha cabeça



Brownie adormece, segurando minha blusa. A respiração quente e regular, batendo na pele do meu pescoço, eternizam o momento. Fico ali por alguns minutos, ou horas, não sei bem, observando cada detalhe no rosto sereno, zelando seu sono até o meu chegar. A deixo na companhia de Ayla, seguindo até a cama. Agora ela parecia muito maior, desconfortável e gelada que em todos os anos anteriores. O motivo era óbvio. Millie não estava deitada nela comigo.


Leslieville, Toronto, Ontário, Canadá - Domingo - 11h


O cheiro de ovos, bacon e café invadiram meu quarto. Os sentidos ainda bagunçados pelo sono perguntam se a noite de ontem foi sonho, então levanto o tronco, sorrindo abobado ao confirmar que não, não havia sido sonho nenhum. Millie e Ayla dormiam quase abraçadas ali no chão. Alcanço o telefone, que carregava ao lado dos das duas garotas, notando que estava quase na hora do almoço. Vou até o banheiro na ponta do pé, sem fazer barulho, colocando calça jeans, uma camisa de botões azul de listras brancas, vans colorido, perfume, escapando do quarto sem acordá-las, o que podia ser considerado um milagre. Antes de terminar o trajeto até a cozinha, de onde o aroma dos alimentos faziam meu estômago implorar por comida, escuto o som familiar da picape do vovô. 


-Bom dia. - desejo, chegando ao cômodo.

- Bom dia, belo adormecido. - papai debocha. Ele estava usando o avental da mamãe, junto do pijama e pantufas. 

- Achei que teria de derrubar aquela porta. - Noah estava totalmente desperto e sem as roupas de dormir. 

- Onde você foi? - pergunto, coçando os olhos. 

- No mercado com o Nick. - ele dá de ombros. 

- Dormiu bem? - pergunta mamãe, me oferecendo café. 

- Sim. - confirmo, aceitando. 

- Bom dia, família. - vovó deseja, acompanhada por Nicolas, que trazia sua bolsa e segurava as mãos de Brook.

- Bom dia. - respondemos contentes. 

- Noah! Quanto tempo. - Diana captura o loiro em um abraço, fazendo o mesmo sorrir radiante. 

- É mesmo. Finn me atropelou daqui, sabe? - mente, fazendo-se de vítima. 

- Fiz o meu melhor, vovó, mas ele sempre volta. - digo, abraçando a mais velha, que ri. 

- Estou com fome, tia Mary. O Nick não quis parar para me comprar rosquinhas. - Brook reclama, chutando a canela de Nicolas. 

- Garotinha mal agradecida. - rebate, passando a mão pelo lugar da agressão. Brook foge, antecipando a vingança.

- Como foi o jogo? - pergunta a mais velha. 

- Bom. Ganhamos. - conto, recebendo os parabéns em mais um abraço apertado.

- Finn está jogando tão bem, Diana. - elogia mamãe. 

- Também! Olha o professor dele. - Nick se gaba. 

- 11h da manhã, Nicolas. - Noah o encara estupefato. 

- Porque não joga mais, Nick? - vovó pergunta a ele. 

- Não tenho mais tempo. - desconversa, distribuindo xícaras pela mesa. 

- Ele está treinando a equipe de novatos da Bruce, vó. - conto, colocando café na xícara dela. 

- Vai ser professor! Eu sempre disse que meu neto seria professor, Eric. - ela se anima. 

- Disse mesmo. - papai relembra, coçando a barba. 

- Desde de quando a senhora é vidente, dona Diana? - Nick pergunta bem humorado. 

- Sua avó já previu várias coisas. - mamãe termina de preparar tudo, colocando as delícias na mesa, afastando as mãos de Noah, que tentavam roubar um pedaço de bacon, no tapa.

- Tipo o que? - questiono. 

- Previu que vocês dois eram meninos antes do teste. - relembra saudosa. 

- Previu que eu ia ser a Bela Adormecida na peça da escola. -  intervém Brook. 

- Essas coisas não são premonições. - Nick rebate. 

- Lá vem ele. - Noah revira os olhos. 

- Schnapp, vai chamar o Louis e fica na sua. - Nicolas manda, tentando soar bravo. 

- Se eu subir acordo aquele panaca no chute. - o garoto cruzou os braços. - Vai você, Finnie. 

- Finnie? - Brook pergunta, com a boca suja de gordura. 

- É, aproveita e chama sua namorada e a Ayla. Vamos só terminar de arrumar tudo. - papai orienta. 

- Namorada? - a pequena volta a questionar. -Como assim você tem namorada agora? 

- Ciúmes? - pergunto debochado, levantando da mesa. 

- Se ela for má igual a aquela de olhos verdes, eu bato nela. - a pequena ameaça. 


Começo a subir as escadas distraído, cantarolando “Candyman”. Iria acordar Partridge jogando água gelada nas cobertas e Ayla com cócegas. Pensando no plano, sou pego por uma das milhares de pegadinha da Brook. Minhas canelas esbarram no barbante amarrado por ela nas pilastras de madeira entre a escada e os degraus, algo pegajoso gruda na sola do tênis e meu corpo tombou para frente, dando tempo apenas de levar as mãos ao rosto. Rolo degraus abaixo, chegando à sala aos berros. Brooklynn ria sem parar, no passo que o resto da família corria para me socorrer. 


-Você caiu como um patinho! - ironiza. 

- Finn? Tá legal? - Nick tenta não rir, fazendo careta. 

- Essa menina é genial! - Noah gargalha. As portas  dos quartos se abrem e uma Millie descabelada, junto de um Louis amassado, segurando um par de tênis, surgem. 

-Finnie? - perguntam juntos.

- Eu estou bem. - levanto as mãos, ainda no chão. - Vai ter volta, Brook! - digo, aceitando a mão estendida da mamãe. 

- A gente nem viu ela fazendo. - papai estava chocado, querendo rir. 

- Essa menina tem uma mente criminosa. - vovó afirma, se rendendo ao riso. 

- Se prepare, Prince. - arremesso o barbante em sua direção. 

- Cuidado não cair de novo! - grita ela. Os olhos de vovó estavam fixos no topo da escada.

- Vovó ess. - ia apresentar, mas Millie me interrompe. 

- Não! Eu preciso estar bonita. - grita, correndo de volta ao quarto. 

- E lá vamos nós. - Noah e Louis dizem juntos. 

- Ela quer impressionar, Diana. Finja que ela é a mulher mais linda que a senhora já viu. - Nick passa o braço pelos ombros da matriarca, que ainda encarava o lugar onde Millie estava há segundos atrás. 

- Eu já acho que ela é a mulher mais linda do mundo. - Brook comenta, voltando a sentar na mesa. 

- Vou lá ver se ela precisa de alguma coisa. - anúncio, correndo escada acima. 


Estava dolorido pelo tombo, mas não tinha tempo para pensar nos hematomas. Minha garota estava a beira de um surto fashion, e precisava interceder, ou comeríamos apenas no Natal. 


-Toc, toc. Licença. - entro no cômodo, vendo Louis, Noah e Ayla deitados na minha cama e Millie se encarando na frente do espelho, usando pijama azul e branco, com sol, luas e nuvens estampados.  

- O que eu visto? Preciso parecer sofisticada, mas nem tanto. - diz olhando pra mim. 

- Veste o que você quiser, anjo. - digo suavemente. 

- O que a Iris usava? - pergunta. A encaramos confusos. 

- Você não quer se parecer com a cobra perto da Brook. - Ayla avisa. 

- Não importa o que ela usava, anjo. Você é a Millie. - explico, sentando no colchão. 

- Tá. Preciso de 15 minutos. - ela pega sua bolsa incrivelmente grande e parte até o banheiro. Quando escuto o som do registro, resolvo perguntar. 

- Porque ela perguntou isso? - questiono aos amigos mais próximos. 

- Millay sabe que somos religiosos. Está cheia de noias, pensando que sua avó vai à excomungar por usar minisaia. - explica a loira. 

- De onde ela tirou isso? - estava surpreso. 

- Você deve ter comentado que é coroinha, sei lá. - Louis, sem pudor algum, tira a camiseta, buscando outra na mochila. Ayla passa a admirar as unhas, ficando corada.

- Nunca falei sobre religião com ela. - explico, e o bonitão continua o streptease. 

- Não sei se é perseguição, mas eu aposto meu Spyro remaster, que tem dedo da Iris nisso. - Noah observava Louis descaradamente.

- Se eu pego essa bitolada, não sei nem o que eu faço. - Ayla pragueja, amarrando o cabelo. 

- O que eu preciso fazer pra ela me deixar em paz? - pergunto a eles. 

- Novena. - sugere Noah. 

- Surra. - sugere Ayla. 

- Encontrar alguém pra ela sentar. - sugere Louis, agora usando moletom branco, com as iniciais da Calvin Klein, calça jeans e tênis da Nike. 

- Essa é uma boa. - Noah concorda. Realmente, se ela encontrasse alguém para mandar e desmandar, talvez se esquecesse de mim. 

- Como vou fazer isso? - precisava de ajuda. 

- Vou pensar em alguma coisa. - Partridge garante. A porta do banheiro se abre e Millie, trajando uma blusa de tricô, nas cores rosa e amarelo,sobrepondo a uma camisa de gola alta branca por baixo, saia verde musgo justa até o meio das coxas, cobertas por meia calça e botas de salto brancas, sai. 

- Está linda, anjo. - linda é eufemismo. Bateria palmas se pudesse. 

- Falta só a maquiagem, é rapidinho. - ela sorri confiante, sentando na cadeira do computador, usando a tela escura na falta do espelho. 

- Vou trocar de roupa. Ninguém desce sem mim. - pede Ayla, abrindo meu guarda-roupa e pegando a primeira calça de moletom ao alcance das mãos. 


Millie passava os produtos na pele habilidosamente, encarando o reflexo decidida a dar o se melhor, dentro do tempo curto. Queria dizer a ela que o trabalho era inútil, uma vez que vovó nunca se importou com a aparência de quem quer que fosse, mas pareceria idiota discursar sobre isso a californiana, ou londrina. Brown foi criada no mundo das aparências, onde pouco importa quem se é, mas sim o que se tem e velhos hábitos não mudam da noite para o dia, levava tempo, assim como a confiança. 


-Lou, o que acha? - pergunta ao melhor amigo. Presto atenção no garoto, afim de aprender. 

- Hidratante de morango e só. - instrui. 

- Tá. - acata a jovem, passando o batom nos lábios. - Estou pronta. 

- Eu também. - Aylão sai do banheiro e então, finalmente, descemos para comer. 


Millie agarra minha mão, a apertando. Faço carinho nos dedos da mesma, passando o máximo de confiança possível. Compreendia sua aflição, pois sou especialista em nervosismo, e outro ponto interessante era de que se algum dia precisasse conhecer de verdade Robert ou o resto da família da mesma, certamente teria uma síncope, morrendo antes mesmo de chegar ao local do encontro. 


A conversa alta entre meus familiares poderia ser ouvida à quarteirões de distância. Ayla e Noah são os primeiros a entrar no espaço apertado, sendo recepcionados por alvoroço. 


-Tesler! Você já é uma moça. - vovó sempre dizia isso à Ayla. As mãos da morena passam a suar. 

- Relaxa, anjo. - digo, soltando sua mão, colocando seu corpo a frente do meu. Ela não responde. Louis entra e escuto algo quebrar. 

- Olá, sou Louis e isso é estranho. - diz o moreno, causando uma explosão de risos. Millie e eu adentramos a sala de jantar e, todos soltam assobios. Rio desacreditado da recepção exagerada. 

- Oi, eu sou a Millie e desculpa aparecer descabelada na escada. - diz, soando despreocupada e divertida.

- Desculpa ter feito o Finneas cair e acordar você. - pede Brook, sorrindo angelicalmente. 

- Nem tenta fazer a educada. - aponto o dedo, acusatório. 

- É, todo mundo aqui te conhece, pestinha. - Nick ajuda. 

- Ela não! Parem de queimar meu filme. - diz, levantando as mãos. 

- Vó, essa é a Millie…. Nós… - perco as palavras, sentindo Millie começar a rir, mas era de desespero, podia sentir. - Esquece essa parte. 

- Estão dando beijinhos? Na minha época não vinha tanta gente junto pra noitada. - diz, fazendo meu pai a encarar perplexo. Meus amigos explodem em gargalhadas, enquanto eu provavelmente estava parecido com umas das maçãs expostas na fruteira. 

- Finn estava inseguro, vó. Disse que só faria se todos nós orássemos na porta do quarto. - Nicolas debocha, e pego o rolo de papel-toalha para atingi-lo. 

- É um prazer te conhecer, Millie. - Diana se levanta, me afastando da garota para abraçá-la. - Está linda e muito cheirosa. Tomará que ensine aos irmãos wolf o caminho do chuveiro, e do shopping também. 

- O Nick eu não garanto, mas o Finni.. Finn com certeza. - indecisa entre soltar o apelido ou não, ela opta pela segunda. 

- Venham comer antes que esfrie, ou que o Noah coma tudo. - mamãe avisa.


Comemos tranquilamente, conversando sobre as obras no bairro que estavam estranhamente lentas. Sartorius pai buscava a reeleição, portanto, a campanha precisava começar rapidamente ou a vaga do mesmo poderia ser rapidamente substituída por outro político da região, mas especificamente pelo seu maior rival nas urnas, o senhor Jones. Para ele os jogos já haviam começado, e o sumiço de Rolf era suspeito, suspeito até demais. 


-Eu ajudo na louça. Finn, Nick e Millie, já para as ruas. - comanda Louis. Brook estava encantada pela beleza do garoto, o que era pra lá de engraçado. 

- Sim, neném. - Nick responde ao amigo, limpando as mãos no pano de prato. Nossos pais já sabiam das aulas, então não precisamos explicar muito. Millie agradece, levando seu prato, e a xícara lascada e simples, até à pia. 

- Sua mãe não surtou? - pergunta ao melhor amigo. 

- Não, a Mary ligou ontem mesmo. Aliás, muito obrigada. - agradece. 

- O pagamento é a louça limpa. - mamãe ri, tirando à mesa. 


Nós três caminhamos até o carro da morena, estacionado à frente da caixa de correio. Os vizinhos nos saúdam alegres e curiosos, encarando a garota que estava agarrada a mim e, obviamente, o carro extravagante, na cor vermelho vivo, estacionado ali.


-Imagina a fofoca no culto de hoje sobre isso? - Nick provoca ao entrar no carro. 

- Não sei como a bruxa da senhora Davis não bateu na porta ainda. - comento, puxando o cinto.


Eu levaria o carro até a área mais calma do bairro, onde Nick passaria todas as regras de trânsito do Canadá ao meu anjo. Após alguns dias de estudo, eu e ele traçamos os possíveis caminhos feitos pela instrutora no dia do teste da morena, então a levaríamos pelas ruas, avisando sobre as armadilhas e mostrando como não se desesperar ao cruzar com animais no meio da estrada.


-A Brook é uma gracinha! - elogia Millie. 

- Ela é, mas morre de ciúmes do Finneas. - avisa Nick. - Não atraia a ira de uma criança de sete anos. 

- Todas as mulheres da sua vida tem sentimentos intensos assim por você? - pergunta sagaz. Reviro os olhos a Nicolas, por ter tocado no assunto. 

- Aparentemente, sim. - soo convencido propositalmente. 

- É o jeitinho dele. - Nick empurra minha cabeça. 

- Onde é que eu estou querendo acampar, meu pai. - brinca a mesma. 


Ao chegarmos ao local combinado, deixamos o carro e começamos a aula. Millie estava atenta a cada palavra de Nicolas, confirmando ao entender e questionando ao ficar em dúvida. Eu estava ocupado, escrevendo a função de cada botão no painel em post-its, para ela não apertar nada que causasse problemas durante a prova. Assim que completei a missão, dou lugar a garota no volante. Ela suspira, regula o banco, checa os retrovisores, põe o cinto e liga o carro. 


-Muito bem. - parabenizo, e entramos novamente no veículo.

- É essa atitude mesmo. - Nick também incentiva. 

- É como entrar no palco do KCA sem texto. - comparou por alto. Não fazia ideia ao que ela se referia, nem Nicolas, mas concordamos. 

- Lembra da Don Valley Parkway. Dirige devagar, sem pressa. - instrui o mais velho. 

- Ok. - Millie parecia mais à vontade ao pilotar. Faz todo o trajeto sem erros, sorrindo ao notar os acertos. Ela passaria, não tinha dúvidas.

- A carteira vem! - digo ao terminarmos à baliza, que ela acertou na sexta tentativa. 

- Habilitada, ricaça e motorizada. - Nick recolhe os cones, rindo baixo. Millie gargalha em resposta, abraçando nós dois calorosamente. 

- Obrigada mesmo por isso. Podem me pedir qualquer coisa. - diz ela.

- Da minha parte é levar a gente na viagem. - Nick dá de ombros, guardando os objetos usados no porta-malas do conversível. 

- Quando vai ser? - pergunta, novamente me abraçando. Eu só podia estar em um sonho. 

- Depois do acampamento da igreja e antes do jogo contra Riverdale. - faço as contas, encostando no carro. Nick senta no banco do carona, abrindo o calendário no celular. 

- É, temos tempo. Eu não vou nessa viagem dos Levy não. - avisa. Millie parece ter notado algo, pois seu corpo tenciona. 

- Levy? - pergunta. Praguejo Iris mentalmente. Nick solta uma risada nasalada, pegando no ar a situação. 

- É, Shawn Levy é o pastor da nossa igreja. Um cara legal. A filha dele está na banda, a Sophie. - Millie estava parecida com o meme “explodidor de cabeças”, unindo peças invisíveis do quebra-cabeça.  - Eu já tive um rolo com a irmã dela, a Tess. A Iris deve ter te contado. 

- É, contou sim.- a morena mordia o interior das bochechas.

- Quero deixar claro que nunca, em nenhum momento da minha breve história, tive qualquer interesse amoroso ou qualquer outra coisa com  a Sophie. - digo calmamente. 

- Isso não impede que ela. - Nick começa, mas piso no seu pé, o calando no ato. 

- E não teria problema se tivesse tido, lobinho. - completa rindo da careta de dor de Nick. 

- O que a naja te falou? Estou curioso. - o mais velho questiona, pulando para o banco do motorista. Entramos no carro, prontos para partimos até Rosadele. 

- Provocações, no geral. Mas falou sobre os Levy. Não dei importância, porque quem o Finn beijou atrás da escolinha dominical depois da santa ceia é irrelevante. - diz ela, e bufo descontente. Iris precisava urgentemente de alguém para sentar. 

- Ela te contou isso? - pergunto incrédulo. 

- É. Obcecada por cada passo seu, Finnie. - a preocupação estava clara no rosto do dois.

- Apatow precisa de terapia. - Nicolas completa. - De qualquer forma, eu não vou. 

- Ayla vai ficar chateada. - aviso. 

- É dois trabalhos, ela ficar e deixar de ficar. - responde despreocupado. 

- O que é a viagem mesmo? - pergunta a morena. 

- Um acampamento no meio do nada. - Nick crítica. 

- Se chama retiro, anjo. Acontece todo ano. - explico.

- É legal, Nick. Um momento de paz. De onde eu venho normalmente isso acontece na reabilitação, depois de alguém surtar e se afundar em heroína. - diz divertida, nos levando ao riso. 

- Queria passar algumas horas na sua vida, Millay. - Nicolas propõe. 

- Perdoa ele, senhor! Ele não sabe o que diz. - Millie levanta os braços, zombando do mais velho. 

- Nick seria como aqueles caras que quebram a camera dos paparazzis. - afirmo. 

- É o meu sonho atacar as pessoas com um guarda-chuva! - argumenta, e Millie grita, rindo alto. 

- Imaginei a cena. - finjo gravar o rosto pálido do meu irmão. 

- Quando a Calpurnia estiver em turnê, podemos imitar em algum posto de gasolina. - propõe a menina. 

- Turnê, tipo… - não conseguia imaginar algo tão grande. 

- É, tipo shows em várias cidades, palcos enormes, muita gente pra lá e pra. - explica a morena. - Ou você não quer isso? 

- Quero…. Bom… - adoraria, mas isso levava tempo. 

- Finn é todo bitolado em relação a Calpurnia, Mileide. - Nick avisa, e ele não estava errado. 

- Porque? - pergunta confusa. 

- Bandas são delicadas e somos muito jovens. Ser reconhecido e tudo que vem disso me deixa nervoso. - explico meu ponto de vista. 

- Ainda não entendi. - brownie franze o cenho, se virando pra mim. 

- Amo cantar, compor, tocar e estar no palco, mas não quero correr em relação à banda porque não vejo motivo. Estamos apreendendo, como você disse ontem. Imagino a turnê,muita música, dinheiro e fãs gritando nossos nomes, só não quero perder minha adolescência, nem nenhuma  outra coisa, para que isso aconteça. - sou mais claro. Nicolas revira os olhos, discordando. Millie sorri melancolia. 

- Posso ser… Sincera? - pergunta, e confirmo. - A indústria musical é cruel, Finnie. Não se compara à cinematográfica, é claro, mas chega bem perto. Esconder seus talentos, ou ir adiando o sucesso, não vai amadurecer a Calpurnia, sinto muito. Bandas acabam todo dia, por tantos motivos que de cabeça nem consigo lembrar os quais. As oportunidades nesse ramo são escassas, e não levam desaforo pra casa, lembre-se disso. Sempre que começamos uma nova etapa, seja na música ou na mecânica, coisas precisam ser reorganizadas, questão de prioridade. Perder sua adolescência, ou sei lá, o contato com o irmão mais velho, são efeitos colaterais de se buscar um sonho, Finnie. Pode fugir agora, mas não pra sempre. - suas palavras são duras, mesmo sem a intenção de soltá-las nesse sentido. - Olhe pra mim. Minhas prioridades eram outras. Namorava o filho de uma lenda esportiva, capitã da animação e todas as coisas que muitas meninas da Bruce morreriam para ter. Tudo evaporou. As prioridades mudaram. A vida muda, Finnie. Não tenha medo de arriscar se for o que você quer de verdade. 

- Eu já te falei que você não merece esse anjo, né? - Nicolas  provoca. 

- Claro que mereço, bastardo. - dou um selinho na morena, que ri. - Vou pensar nisso quando o Jonn vir me oferecer hambúrgueres em troca de apresentações aos sábados. 

- Escute seu anjo! - instrui, me olhando profundamente. Sabia o que ele queria dizer. 


Rosadele, Toronto, Ontário, Canadá - Domingo - 14h30


-Entregue, senhorita Brown. - diz Nick, tirando o cinto. Imitei o gesto.

- Querem ir com o carro? O Noah traz de volta depois. - ela batia a sola da bota no carpete do carro.

- Ele está morando aqui? - estava desconfiado disso, mas não houve tempo para perguntar diretamente ao menino. 

- Sim. Não conta para todo mundo ainda. - pede. 

- Sem problemas. - afirma Nick. Ele olha pelo retrovisor, se curvando meio surpreso. Vejo Ava correr pela calçada sozinha, segurando algum brinquedo nas mãos. Millie pula do banco, abrindo a porta de uma só vez. 

- Está fazendo o que sozinha na rua, Ava. - pergunta sobressaltada. A menininha empurra Millie de volta ao carro. Ao longe é possível ouvir berros irritados. Nick me encara pelo retrovisor engolindo em seco. 

- Vai, Mi. Vai com o lobo lá pra longe. Leva ela tio Nick. - pedia desesperada. Millie não entendia, imersa no pedido da irmã. 

- Ava, vamos pra casa. A Paige não viu você saindo? - ela tenta pegar a pequena no colo, mas Ava nega. A cena me deixa emocionado. 

- Mi, tá muito feio. Volta com o lobinho, Paige deixou. Falou para só vir amanhã, depois da aula. - dizia atropelando as palavras. - A Emy pegou sua bolsa e a do No. Coloquei o brilho de melancia dentro do penal. - Nick fecha o rosto, irritado. Meu irmão era sensível à situações como essas. Tomo coragem e desço do veículo. 

- Quer ir com a gente? - ofereço, me abaixando na altura da miniatura de Millie, pois a garota estava presa num dilema. 

- Não posso menino lobo, minha irmã precisa de mim. - explica, olhando nos meus olhos irredutível, parecida com a mais velha, porém… Diferente, ainda mais inflexível. Ava se tornaria dura como pedra, e isso me partiu o coração. 

- Você é muito forte, Ava. - parabenizo, afastando a vontade de a abraçar e levar a menininha comigo. - Vou ficar com a Millie e prometo buscar você se precisar

- Obrigada, menino lobo. - ela sorri curto, dando uma última olhada em Millie, e saindo correndo de volta para casa. 

- Ava. - Millie sussurra, tremendo da cabeça ao pés. Os gritos de Kelly pareciam ainda mais altos, apesar da distância. 

- QUEM É VOCÊ PARA ME ENSINAR ALGO, ROBERT. - dizia ela. A respiração de Millie se torna um chiado alto. Louis me explicou sobre a síndrome do pânico, e tive medo de que acontecesse ali, diante dos meus olhos, sem ele para me orientar. Fiz o que minha mãe, e meu irmão, faziam em situações como essa. 

- Vem, vamos dar o fora. - digo firme, fechando a porta do passageiro conduzindo meu anjo ao banco do passageiro. Tiro a jaqueta, colocando-a nos ombros da mesma, que estava petrificada, se deixando levar. Nicolas acelera como nunca, fugindo da confusão. 


Leslieville, Toronto, Ontário, Canadá - Domingo - 16h45


- Quer passar na floricultura? - pergunto baixinho. 

- Sim... Qual é a melhor daqui? - confirma ela, no mesmo tom. 

- A Win’s. - digo. - Nick, passa na Win’s.

- Vou usar o GPS. Não lembro como chegar lá. - avisa. O painel acende e nele estava nossa foto na arquibancada. Sorri. Nicolas faz bico, achando adorável, e digita o nome da loja no local. O trajeto é silencioso. Nick e eu respeitamos o momento de reflexão da morena, por talvez estarmos tão presos em nossas próprias conclusões sobre o ocorrido quanto a menina.

- Aqui. - avisa o motorista 

-Já volto. - avisa, descendo do carro.

- Que merda. - pragueja, se recostando no couro macio do banco. 

- A Ava vai ser ainda mais traumatizada que a Millie, e isso é uma puta sacanagem. - minha voz está embargada. 

-Dava para ouvir os berros da esquina. - Nick balança a cabeça consternado. 

- Vamos pra casa da vovó. Ela vai se sentir bem lá. - afirmo convicto.

- Diana gostou dela. Teve aquela coisa de sensação. - diz risonho. 

- Que bom. - suspiro. Millie me chama na porta da loja. A postura durona e ereta, combinado ao sorriso brilhante me dá calafrio, igual ao primeiro dia de aula, quando vi a californiana pela primeira vez. 


Querendo impressionar, mas sendo discreta para não passar a ideia errada, Millie escolhe lírios brancos para Mary e tulipas para Diana. Elas iam amar, principalmente a vovó. A ajudo a carregar os presentes, saindo de perto do balcão no momento do pagamento, temendo saber o valor das flores e ter pesadelos durante a noite. 


-A vovó vai tirar uma 400 fotos dessa flor aí. Haja memória. - caçoa Nick, tentando fazer Millie sorrir de verdade. Ela bate palminhas, feliz por acertar, mas os movimentos são vagarosos. Meu peito pesa na hora. 


Estacionamos na cada da vovó, constatando que nossos pais estavam lá. Já havíamos perdido o culto, o que encarei positivamente pelo clima de fofoca que estaria no local.  Millie e eu seguramos os presentes sorridentes e, ao que parecia, ela estava determinada a ignorar a situação de mais cedo, mas temia o momento onde tudo desmoronaria, torcendo para estar presente e poder ajudar se fosse necessário. 


-Trouxemos presentes.- Nick entrega na voz que algo deu errado, mas apenas nós, da família, poderíamos ter notado. Papai e mamãe confirmam, se esticando para verem a surpresa. 

- Eu queria visitar a casa do Finn, e conhecer à Diana, levando flores. Ontem as coisas aconteceram muito rápido e não pude fazer do jeito certo. Espero que me desculpem. - discursa a menina, entregando os lírios à Mary, que estava encantada. 

-Querida, não precisava! - mamãe pega as flores, abraçando Millie tão forte que temi quebrar alguma costela da pequena. Ao se soltar da mamãe, entrego as tulipas à Millie, que torce os pés, antes de caminhar até a vovó. 

- São as tulipas mais lindas que já recebi, menina. Combinam com você. - sorri, segurando os dedos gelados da mais baixa. Mamãe me abraça também e papai admira a cena meio choroso. - Nicolas me disse que você anda triste, então, para minha nova netinha, fiz os biscoitos favoritos do Finn, e separei um álbum inteiro de fotos engraçados desse magrelo desengonçado para você poder rir. - conta, abraçando a menina. 

- Vou deixar porque ela merece. - concordo, sentando ao lado de Nick no sofá, pronto para ser o alvo das piadas. 


Jantamos sopa, especialidade da vovó, ouvindo suas histórias sobre a época em que frequentava a escola. Millie gargalhava, sem se conter, comendo despreocupada e piscando pra mim vez ou outra. Eric explicava sobre sua experiência trocando a primeira fralda de Nicolas, causando ataques de risos pela mesa. Degustando chá mate e biscoitos de coco, abrimos os álbuns, onde haviam tantas memórias engraçadas. 


-A primeira vez no BK ninguém esquece. - caçoa Mills, ao ver minha foto. 

- Nem pra vocês limparem minha cara! - reclamo, avaliando meu rosto, muito mais jovem que agora, coberto por ketchup e gordura. 

- Olha os cachinhos! - a morena bate as unhas na foto, onde eu e Nicolas estávamos sentados na parte traseira da picape do vovô. 

- Nick caiu o maior tombo da história nesse dia. - papai relembra, rindo com vontade. 

- Meu joelho dói só de lembrar. - choraminga ele, esparramado no tapete, segurando Duquesa. 

- Quem é esse? - pergunta Millie. 

- Michael, meu marido. - Diana diz orgulhosa. 

- Desculpe se for mal educada. - pede me avaliando. - Mas ele era lindo! 

- EU DISSE! - mamãe comemora. - Eu sempre disse que meu sogro era lindo. Diziam que eu era puxa saco, Millie. 

- Nunquinha. Olha esse maxilar! - ela mostra a foto em questão. 

- Não puxei isso. - Eric finge chorar. 

- Você tem outras qualidades dele, filho. - brinca vovó. - Mas só o Finn pegou essa parte do rosto, nem o Nicolas foi agraciado. 

- Onde? - alcanço o celular, ligando a camera. Nunca considerei nada em mim nem levemente parecido com o vovô, a não ser o nome. 

- Finnie! Você está a cara dele nessa foto. - chocada, Millie apresenta outra foto, onde meu avô parecia sério encarando a lente da camera. Analiso o retrato e… Realmente, meu maxilar lembrava o dele, o cabelo também, ainda que o dele fosse mais arrumado, penteado do jeito tradicional para aquele período. 

- É, até que somos parecidos mesmo. - concluo a avaliação, ouvindo a risadinha deles. 

- A senhora precisa me dar dicas de conquista. - pede Millie a vovó. Bato nela com o telefone. Será que não estava claro meus sentimentos?

- Peguei Michael pela teimosia. - confessa a mais velha. 

- O mesmo com o Eric. - Mary diz, e papai ri debochado.  

- Como assim? - Nick pergunta, interessado. 

- Agia sem me importar se ele ia ou não ia gostar. - explica Diana. - Deixava ele maluco quando levava Eric até a avó sem o consultar. 

- Na faculdade, o bonitão ali era cheio de amiguinhos, saia e me deixava lá sozinha. Pois na terceira vez, Maida, eu e uma outra amiga saímos e só voltamos no outro dia. - conta mamãe. 

- Eu liguei uma 30 vezes e nada. Achei que tinha sido sequestrada. - esbraveja, relembrando o caso. 

- Mas acho que com o Finn não funciona, menina. Vamos guardar esse conselho para a futura namorada do Nick. - Diana comenta. 

- Concordo. Eu sou só paz. - abraço a morena, que concorda alegre. 

- Então vão guardar por muito tempo em. - se gaba. 

- O dia que uma mulher te pegar de jeito eu quero rir tanto. - papai diz. 

- Jamais acontecerá, Eric. - volta a afirmar. 

- Finn pode ter ficado com o rosto do Michael e a personalidade dos Jolivet, mas o Nicolas, com certeza é a cara dos Jolivet, mas a personalidade é todinha dos Wolfhard. - mamãe conclui. 

- Isso não é novidade. A namorada dele trouxe flores pra vocês. Eu nunca a trairia alguém assim. - diz ele. Rimos alto e Duquesa pula no colo de Millie, que passa a fazer carinho na gata. 

- Ainda não sou namorada. - diz suavemente.

- Finn Michael Wolfhard, você não pediu a Millie em namoro? - mamãe parecia brava. 

- Tomou no cu. - Nick ria descontroladamente. 

- Olha a boca. - papai repreende, mas ria igual. 

- Finn, que absurdo. - Diana estava impressionada. 

- Eu vou pedir! - respondo. Não sabia que ela queria um pedido! Porque eu sou tão lento? Millie estava controlando o riso. - Vou pedir. 

- É bom ser algo grande em! - mamãe me encara. 

- Sem pressão! - peço. 


Nick e eu levamos Millie até a varanda da casa, onde deitamos na rede, e o mais velho no sofá. Ali podíamos ver as estrelas e ouvir a vitrola do vizinho tocando Elvis. Presa nos meus braços, sinto cada batida do coração da mesma contra o meu. 


-Mileide, posso te fazer uma pergunta chata? - Nick chama nossa atenção. 

- Vá em frente heartbreak boy. - brinca ela, desenhando círculos no meu peito. 

- Você tem irmão, não tem? Cadê esse cara? - a raiva contida, ou nem tanto assim, estava presente no tom. 

- Se aconchegue, pois lá vem história. - começa ela. - Famílias como a minha, e a do Louis, tem condutas duvidosas e, normalmente, não são conhecidas por serem bons pais no geral. Charlie Brown é o primogênito, o neto dos sonhos. O Finn dos Jolivet. - me remexi desconfortável ao ver Nick concordar - É ele quem vai levar a empresa ao seu máximo e eternizà-la nessa geração. A questão é, ele não pode fazer tudo isso sozinho, sabe como é. “Um homem de sucesso sempre tem uma grande mulher por trás”. - a menina imita alguém. - Casamentos e namoros falsos acontecem toda hora, o dele estava pré-estabelecido desde sei lá. 

- Como? - Nicolas pula do sofá, sentando para nos ver melhor. Eu estava sem reação. 

- Vou chegar lá. - sua mão apertou minha pele, buscando apoio. Beijo seus cabelos, a incentivando a concluir. - Vamos dizer que contratos de casamento são como areia do deserto na minha família. O relacionamento entre os acionistas, os contatos e tudo isso, é muito mais importante que a vida e os sentimento dos filhos. - a respiração da menina engasga. - Atualmente, quem mais sabe sobre os segredos e negócios dos Brown são os Partridge, dos Busson, e os Clarkson. Lilá Clarkson é a esposa do meu irmão, casaram há um tempo, estão de férias nas Bahamas. Isso estava acertado, essa aliança, desde que os dois fizeram 19 anos. Normalmente um filho só basta, sabe? Mas meu pai é… Um crápula…

- Espera. A Paige? - pergunto. 

- No começo não. Eles tinham uns 14 anos quando começaram a namorar, era algo bobinho, ela estava apaixonada. O avô do Louis adorou a ideia. Maida nem sabia muito disso até essa coisa toda se tornar mercadológica. 

- E agora? - Nick estava enojado, assim como eu. 

- Eu.... Em teoria a coisa já está resolvida, mas meu pai não vai me deixar em paz, sei disso. E antes, na pior das hipóteses, eu teria de ficar com o Louis por algum tempo, o que ia ser bem engraçado… Depois ficou mórbido para nós dois… Mas a coisa com o Ivan não para de piorar, então nem se a gente fizesse uma cerimônia no Palácio de Buckingham iria colar, ou apagar o escândalo. O filho mais velho dos Busson casou há um ano… Só sobrou o Cy boboca, e eu prefiro me jogar de uma ponte, amarrada a numa pedra, a ter que conviver ao lado daquele mauricinho desgraçado e medíocre. - Millie tremia e suava. Era esse o motivo para eles estarem aqui, venderem as filhas como mercadorias para firmar contratos. A raiva queimou minhas veias. Nick estava prestes a explodir. - A Paige não sabe se vai ter que acabar casando com algum velho asqueroso ou se serei obrigada a fechar contratos malucos para manter a figura de mocinha boazinha e trabalhadora. Estamos aqui, literalmente de molho, esperando sabe Deus o que.

- Isso é… - meu irmão está paralisado. - Você não vai casar com ninguém. Eu chamo a polícia. 

- Não vou. Não agora pelo menos. - explica. - Meu pai tem uma política sobre contratos. Só depois da faculdade, ainda mais no meu caso. Sou o “amuleto da sorte”, em tradução, sou o bichinho de estimação dele. Tenho talento e faro na música, a única dos filhos dele até agora. Charlie entende de negócios, Paige de burocracia e eu de música. 

- A equipe perfeita. - consigo dizer. 

- É, é isso que ele diz nas entrevistas. E sei que ele tem planos pra mim. - ela engole em seco. - Romeo não entende o motivo de eu ter decidido não ir para Seattle, mas Jack Dylan descobriu uns papéis e... Não quero ser o que meu pai quer que eu seja, Finnie. Não quero sair do Canadá.

- Você não vai à lugar nenhum, anjo. - confirmo seguro. Robert ia ter que arrancá-la a força dos meus braços. 

- Queria acreditar nisso. - diz baixo. 

- Desculpa aí, mas o Ivan tinha é que ter ferrado com seus pais. - Nicolas diz. 

- Nem pra isso esse idiota serviu. Como diria Lilia, “Esse garoto foi uma total perda de tempo”. - debocha. 

- Você está cercada por idiotas, Mileide. - Nicolas brinca também, apertando o joelho da menina. - Não se preocupe agora, mas se a coisa apertar, contra pra gente. 

- Conto. - diz, sorrindo agradecida. O conversível de Louis estaciona na frente da casa e Noah desce primeiro, seguido pelo moreno. - Achei que estavam vindo montados numa bicicleta. 

- Emy queria sorvete, e se Emy pede. - começa o garoto.

- Emy ganha. Já sei! - Millie se levanta, arrumando a saia. Sou invadido pela mesma sensação do dia da sorveteria. Não queria a deixar ir. 

- Maida fez pizza e está quase pronto. - Noah comemora. Percebo o quanto o loiro estava íntimo das duas famílias. 

- Meu pai adotou esse periquito. Quero quebrar ele, pois sou ciumento. - Louis se direciona ao Nick, que ri do menino.

- Se eles não te quiserem, eu te adoto, neném. - o mais velho diz. 

- Vou mandar o papai bordar seu uniforme da Wolfhard’s. - brinco, me posicionando ao lado da morena. 

- Sou um ótimo filho, podem perguntar. - argumenta o moreno. 

- Sua avó fez biscoito? - Noah cheira de forma exagerada. 

- Fez, vamos lá pegar. - Nick leva os dois até o interior da residência. 

- Não se preocupa com isso, Finnie. Eu nem devia ter contado. - a angústia dominava os olhos dourados, devorando o brilho. 

- Vou te fazer o maior e melhor pedido de namoro. - desconverso. 

- Estava só pegando no seu pé. - volta atrás, mas algo me dizia que ela queria isso.

- Agora não dá mais para desistir. Já imaginei tudo. - mentira, estava em pânico. 

- Não precisa exagerar e… Nessa viagem, sua com seus amigos da igreja, eu quero que você pense. - voz de choro me faz estremecer. - Porque é tudo uma droga, e eu não quero você nisso. Só que não nego o sangue que corre aqui. - ela puxa a blusa, onde as marcas da mutilação saltam e comprovam minha teoria. - Sou egoísta igual ao Charlie, mimada como a Paige e odeio perder, afinal sou filha do Robert. Gosto de você e a esse ponto já vai ser o inferno te afastar. Mas, pensa bem e… Se depois de pensar, conversar com o seu pastor lá e com Jesus, você ainda quiser…. Ai me pede em namoro. 

- Não preciso pensar muito, mas está pedindo isso por querer meu bem e, porque também quer pensar. - seguro seu rosto tristonho. - Seja egoísta, por favor. - sussurro como uma prece. Millie me beija devagar, seu gosto é salgado pelas lágrimas que não deixa cair. - Foge pra mim quando as coisas derem errado. Me liga. Me chama. Sou seu amigo e, mesmo te conhecendo pouco, posso ajudar porque entendo você, e gosto tanto do seu sorriso que faria tudo para devolvê-lo ao seu rosto. 

- Tenho sindrome do pânico. - confessa, de olhos fechados. 

- Eu sei. Sofro com ansiedade. - digo, tentando mostrar que não sou melhor do que ela. - Na minha família também tem problemas, nem sempre foi assim, paz, sopa e biscoitos de coco. Meus avós odeiam o Nick, tratam ele e meu pai como bichos lá em Londres. Michael e meu pai quebravam o pau sempre que se viam, não vejo meus tios há uns dois anos, meus pais quase se separaram uma vez, eu tenho essa cicatriz aqui - abro os botões camisa atrapalhado, mostrando meu ombro. - Iris me mordeu tão forte, porque estava brava e com ciúmes, que ficou essa marca. 

- Finnie. - ela passa o dedo, o pesar na voz me faz sorrir. 

- Só quero que entenda. Não sou melhor que você. Posso aguentar ouvir seus problemas, porque também tenho os meus. Não sou um bonequinho de porcelana ou sei lá… -  explico. 

- Prometo tentar falar mais. - diz, me abraçando.

- Bora, Milley. Chega de Finnley. - Noah arrasta a menina para longe. 

- Tenho um questionamento importante. - Louis estava com a boca cheia de biscoito. - Como é o nome do Finn, dona Diana? - vovó ria dos meninos. 

- NÃO! NEM PENSAR. - grito desesperado. Nicolas berra, rindo tanto que se joga no sofá. 

- É feio. Não sei onde esses dois estavam com a cabeça. - Diana encara meus pais, que se entreolham cúmplices. 

- Eu escolhi o do Nicolas, o do Finn foi o Nicolas quem escolheu. - se defende Eric. 

- Esse bastardo ainda me paga. - ofendo, lembrando da droga que é o meu nome. 

- É super conceito. O irmão da Billie se chama igual e não reclama. - se defende o babaca. 

- É Finneas. - mamãe diz. 

- Puta merda. Achava que era piada com o desenho quando falavam na escola. - solta Louis. 

- Não é feio. - Millie volta correndo até mim, me dando um selinho. 

- Finneas é bacana. -  papai volta a soar positivo. 


Nossos amigos se despedem, acenando e mandando beijos. A noite de Millie seria longa, sabia disso. No silêncio do meu quarto, passo horas acordado pensando em como poderia a merecer. Os acontecimentos e revelações desse fim de semana marcaram um ponto importante em mim. Seja qual fosse o plano de Robert para Millie, coisa boa não devia ser. Não precisava pensar demais, não sobre nós. Eu e Millie ficaríamos juntos, isso estava destinado a acontecer, mas apenas meus sentimentos não seriam suficientes para faze-lá ficar, não sou ingênuo a esse ponto, precisava ser alguém, um líder. 


-Mãe! - chamo, ouvindo os passos da mesma na escada. 

- O que foi, Finnie? - ela abre a porta. 

- Depois do que te contamos, acha que consigo merecer a Millie? Acha que consigo ficar com ela? - perguntei baixinho.

- Se vocês se amarem de verdade, sim. - responde. 

- Não acredito que só o amor consiga fazer milagre nesse caso. - respondo. 

- Elton ligou, quer alguns materiais seus. - ela sussurra, entendo onde queria chegar. 

-Manda algumas coisas, esse de ontem… Marca uma reunião por Skype… - oriento. 

- Tem certeza? Preciso falar. - começa. 

- Nosso segredo, mãe. - imploro. - Promete que vai ser o nosso segredo.

- Prometo. - ela falava a verdade, guardaria segredo.


off


Mary não sabia que naquele momento, na penumbra do quarto apertado do filho mais novo, selava um pacto dolorido, responsável por acontecimentos trágicos em cadeia. A partir daquela noite, do pedido infantil do cacheado, do desejo nobre em proteger sua amada, toda a sua vida viraria de cabeça para baixo. Antes mesmo deles se olharem pela primeira vez, na cantina da Bruce, o destino já havia sido traçado, os corações marcados pelo amor forte e avassalador, que teria força o suficiente para mudar tudo e.... Todos. 

 

Fim da primeira parte








Notas Finais


Gostaram?

Vai ter bastante coisa no tt, bele? Vou tentar postar tudo hoje. (20/05) - Para quem não segue meu tt é o @sthingfillie

A playlist da fanfic está lá também


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