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História Jack Izente (Reinos Cruzados) - Capítulo 10


Escrita por: Izente

Notas do Autor


Depois irei editar direitinho, gente!! MAS OBRIGADO POR LEREM!!! AMO DE VERDADE ESCREVER!!

— Olhem, pelo excesso de palavrões, pela violência mais explícita e pelos inúmeros delitos criminais cometidos pelos personagens, achei legal aumentar a classificação indicativa!

— Esse capítulo é o que mais tá repleto dessas coisas, além de referências de filmes relativamente antigos, já que a história se passa em 2005... Até exagerei um pouco, gente. Desculpe!

Capítulo 10 - "O velho oeste" de Chicago


Fanfic / Fanfiction Jack Izente (Reinos Cruzados) - Capítulo 10 - "O velho oeste" de Chicago

 

"O destino é uma dádiva. Nunca se esqueça de que o medo, é aquilo que precede a coragem, de resistir e triunfar diante do medo, é o que significa ser um herói. Não pense, se transforme!"

— Caçadores de Trolls

 

Já não sabia há quantas horas estava naquele carro, mas o tédio começava a me matar aos poucos. Talvez eu estivesse me acostumando mal a ter que salvar minha vida de 10 em 10 minutos. 

Estar em completa calmaria, era estranho...

E pensar que há nove capítulos atrás, eu estava reclamando por ter que trabalhar no verão... 

Estava engolindo minhas palavras, quando podia tá só varrendo folhas, passeando com cachorros e recolhendo o lixo da vizinhança. Mas pelo temporal que estava, eu poderia tá em casa mesmo, jogando "Resident Evil" escondido no video game do meu irmão, tomando chocolate quente e comendo uma porção de besteiras...

Talvez tentasse finalmente fazer às pazes com a minha ex-melhor amiga... 

E ela me deixasse voltar a visitar a nossa casinha da Árvore que ficava no quintal dela. Era muito injusto, só era lá, porquê eu morava em apartamento. E depois que parou de falar comigo, eu nem podia me aproximar, sem levar uma chuva de pedradas.

...

Considerava todas essas coisas, com a minha testa encostada no vidro da janela. 

Assistia as gotas apostarem corrida até caírem da porta e outras tomarem os seus lugares. 

Lá fora, o tráfego passou a ser a coisa mais interessante do mundo.

Embora algumas vezes um carro, ou outro fosse arrastado por uma onda de lama.

Devíamos usar o tempo pra conversar sobre coisas importantes na missão, mas combinamos de deixar isso tudo pra quando chegássemos. 

Todos nós queríamos e precisávamos descansar um pouco da última batalha. 

...

De um dos meus lados, Thoddy que já havia cochilado algumas vezes, timha perdido o sono e tentava passar o tempo desenhando algum tipo de macaco gigante, que talvez fosse pra parecer o "King Kong", mas mais parecia com o "Chewbacca" de "Star Wars" ou com o "Garibaldo" da "Vila Césamo", escalando um prédio… Que acho que devia parecer com o edifício Empire States, mas mais parecia um caixão mutante.

Mesmo sendo apenas um garrancho tão feioso, quanto o desenhista, Thoddy o tratava como se fosse uma obra de arte da época da renascença. Se irritando toda vez que o carro trombava em uma lombada e borrava o seu "Chewbaldo Kong".

Pra passar o tédio, achei que iria ser muito engraçado pedir o caderno e o lápis emprestados pra ele, e desenhar Isabel sendo mordida pelo macaco do desenho.

Aquilo nos fez sufocar muitas risadas.

Falando dela, Isabel lia aquele seu livro com o auxílio de uma lanterninha prateada. 

Estava usando óculos reservas, e disse que eles não eram muito bons. 

Isso ficava mais evidente, cada vez que tinha que praticamente colar o livro nos olhos, para poder ler direito.

Patrick tinha pulado para o banco do passageiro pra poder dormir um pouco. 

Disse que estava morto de cansado e pediu educadamente pra que nós não o acordássemos, até chegar no nosso destino... Prometeu que responderia todas as nossas perguntas sobre sua vida como herói espião, depois.

Álice se ofereceu para dirigir, e mesmo sendo uma maluca, não tínhamos um outro piloto. 

Até pedi pra Thoddy, mas ele disse que só sabia dirigir veículos guiados por animais.

...

Bom, Álice não tinha uma carteira de motorista, e por isso, quando fomos parados pela blitz, Patrick teve que acordar pra criar uma falsa pra ela. 

O policial revistou o carro e o bafo dela... Para a minha surpresa, ignorou todas armas. 

Isabel explicou que isso acontecia toda vez que um humano normal topava conosco. 

Um tipo de "névoa" mágica escondia tudo o que não fosse considerado normal. Disse também, que essa era a explicação mais rasa para  um iniciante poder entender.

...

Voltando o foco pra Capitã... 

A lunática tinha aparecido do nada, se oferecendo pra ajudar na missão, depois de negar nos ajudar no "Lar", ainda sim, Patrick deixou. 

Eu sinceramente não entendia nem o porquê DELE, ter se auto escalado pra nossa jornada, imagina pra Álice… 

Porém, pela experiência, paciência e educação, acho que ele até virou nosso líder.

Já Álice, quando perguntei, respondeu que queria descobrir mais sobre o motivo de Tyr ter enviado o globo de neve. 

Perguntei o que aquele globo significava pra ela, e respondeu que era uma bússola pro passado. 

Um problema que precisava resolver, senão nunca mais conseguiria dormir.

Então não a contrariei.

Mas isso não significa que a gente não tenha se sentido desconfortável e ameaçado com a presença dela.

...

Notei que Álice não parecia bem, desde que aquele globo parou no seu bolso. O quão um enfeite de natal poderia mexer com uma pessoa, ao ponto de tirar a pose sádica de uma lunática? 

 

Até eu estava começando a sentir pena dela.

...

Falando nisso, assim que paramos para que a mesma pudesse entrar, ela se despediu do gato gigante...

Que na verdade era uma fêmea filhote, com o nome de Jully... 

Deu um abraço tão apertado nela, que parecia que seria a última vez que iriam se ver. 

 

Então, com um miado que mais se pareceu com um rosnado de guerra mais fofo do mundo, Jully contorceu o ar na sua frente e voltou em disparada para o "Lar", numa velocidade tão normal, quanto um gato filhote gigante, feito de sombra.

...

Sei que tô falando muito dela, mas era difícil não prestar a atenção... 

A última interação normal de Álice, foi antes de entrar no carro!

Pelo o que me recordo, foi algo assim:

"— Por quê dirige essa carroça velha, "Sir" Patrick? — questionou, quando a porta do DeLorean se levantou para ela. — É um mago poderoso. Pode transformar essa porcaria em qualquer coisa que desejar.

"Porcaria"? Essa belezinha, aquié um CLÁSSICO! Antigamente, todos os jovens  da idade de vocês, queriam ter um desses. 

— Hoje em dia, é porcaria. — respondeu. — Aliás, quantos anos você tem? 

— Respeite a carruagem de um homem — murmurou Thoddy. E rezei pra que ele não começasse a fazer um discurso, que nos resultasse em um tiro.

— Isso mesmo, garoto fósforo — Grunhiu Patrick, fazendo uma pequena pausa pra bocejar. Aquele apelido que a Capitã dera pra Thoddy, estava começando a pegar. — Esse carro é do filme: "DE VOLTA PRO FUTURO", fiz questão de roubar o original da produção do  primeiro filme e alterar algumas poucas coisas com magia. Dei o nome de: "Christa", porquê tudo que há significado, merece um nome. — Ótimo, ele era louco igual ao Thoddy — Além de todo respeito, quanto uma dama humana. 

Revirei os olhos. O que me rendeu em um soco no ombro por parte de Thoddy.

— E, ... É melhor nem entrarmos nesse assunto de idade, senhorita… Vai te dar uma dor de cabeça tão grande que vai preferir ter arrancado os ouvidos, antes de ouvir.

Álice deu de ombros, como se tivesse perdido o interesse, e enquanto colocava sua arma em cima do painel, ela disse:

 

'Christa', conheça a 'Dorothy Gale'."

 

Achei engraçado a garota que parecia com a "Bruxa malvada do oeste'', dar o nome de uma personagem fofa de o "Mágico de Oz'', para o fuzil que estourou um pedaço do meu cérebro. 

 

Naquele ponto, eu não só queria, mas precisava ter alguma arma ameaçadora com um nome idiota, pra enfrentar monstros. Desde que me descobri como um semideus, o mais próximo de arma que tinha tido até então, era um café e um vídeo game. 

Isso, sem contar aquela barra de ferro que Thoddy me deu pra explodir o Ciclope… Eu não gostava nem de pensar naquela coisa… Ela quase me matou também... e a última vez que a vi, não foi algo muito bom.

...

De toda forma, minha noite começou a dar errado, quando Álice desligou o carro e anunciou:

 

— Chegamos. 

 

— Beleza, mas "Chegamos" aonde? — questionou Thoddy, subindo com o joelho por cima da coxa de Isabel e pondo a cara pra fora do carro. 

A doutora gritou de dor e estapeou as costas do irmão, até ele voltar a se sentar corretamente. Depois o fuzilou com os olhos.

 

Estávamos numa estrada tão escura e sinistra, quanto a do posto de gasolina em Ohio. Parece que não existia lugares normais no GPS da missão...

Sinceramente, não achei que depois de tantos lugares "boa pinta" em que passamos, teríamos que passar a noite em outro "Paraíso pra sequestradores".

 

— Onde o nosso informante vive. —  respondeu, tirando o cinto.

 

— Mas estamos no meio do nada... — disse Isabel, enquanto fechava seu livro e esfregava as coxas, ainda sentindo dor.

 

— Escuta, quando invadiram o meu "Lar'', viram alguma coisa nas proximidades? Se sentiram numa "Times Square 2", onde não conseguimos nem andar direito de tanta gente? — perguntou seriamente, olhando pelo retrovisor. Seus olhos de cores diferentes assumiram uma faceta sombria, em meio às trovoadas.

— Não… — admitiu a doutora

— Mas estava cheio de criatura querendo nos matar... — Acrescentou Thoddy, passando as pontas dos dedos pelas suas cicatrizes no rosto, como se mesmo depois da bebida mágica curativa, ainda doessem, toda vez que lembrava.

Ela bufou e revirou os olhos.

 — No mundo nórdico, os lugares que parecem mais vazios, geralmente são o "X" do mapa.

O Acampamento Meio-Sangue, que era de deuses gregos, também ficava no meio do nada e tinha pessoas mais simpáticas, então os nórdicos não estavam lançando nenhuma moda. Mas ela falava tão sério, que senti que não era a melhor hora pra fazer piadas.

 

— E depois... este não é o lugar de verdade. Parei apenas pra podermos discutir um plano, sem sermos vistos. — disse, se virando para nós. 

Assentimos.

Álice deu tapinhas em uma bochecha de Patrick, até ele acordar e antes que ele pudesse reclamar, explicou que já tínhamos chegado.

— Onde…? — perguntou Patrick

Ela coçou o nariz com o canto do punho e apontou.

— Há um bar a alguns metros daqui... Hoje é noite de jogo de basquete... O povoado daqui é muito fã do esporte. Então vai estar lotado. Passaremos pelo matagal na nossa frente e seguiremos separados, andando em duplas. Alguma dúvida?

 

— Eu tenho… — Thoddy levantou a mão —  Estamos em 5. Eu posso não ser tão bom em matemática, mas sei que um vai ficar em trio ou sozinho.

— Exato. Esse vou ser eu. Preciso ser a isca. Quero que cerquem toda e qualquer saída e se eu for assassinada, antes do informante dar às caras, fujam. Ele não vai querer conversar. 

 

— Não é lá uma mensagem muito otimista pra um grupo que acabou de se unir, minha senhorita… — Patrick murmurou, enquanto se espreguiçava.

 

— É, eu sei. 

 

— Então… Qual é o sentido de cobrirmos a saída, se vamos fugir depois? — perguntou, Isabel.

 

— Porquê só há duas pessoas que realmente podem mesmo me matar. Se virem vocês, vão pro saco junto, por isso, fiquem atentos. — ela falou tudo isso, pondo mais munição em "Dorothy". — Vocês são muito sentimentais, então não importa o que me virem fazendo, se eu enfiar bala na bunda de alguém, peço que segurem o choro. 

 

Engoli em seco.

 

— Quem são esses?

 

— Garota ruiva, minha idade. E homem forte, com chapéu de xerife.

 

— Xerife? — perguntou Thoddy, mesmo no escuro, foi possível ver suas pupilas dilatarem. 

Ele, que era o mais distraído do grupo, parecia muito interessado no tal cowboy. 

Devia estar distraído também, quando ela disse isso no "Lar". 

E Álice ignorou a pergunta dele.

 

— Se me virem fazendo essas coisas que eu falei, entendam como um sinal: Esses dois não estão lá. Então vou dar meu jeito de chamá-los. Mas não saiam de suas posições.

Engoli ainda mais em seco. 

Aquele plano parecia que daria errado desde o início.

 

— Mas e se a polícia aparecer? — perguntou Isabel.

 

— Então o plano terá dado certo. Aqui, o Xerife é a polícia.

 

A doutora assentiu com uma sacudida de cabeça positiva.

 

— No mais, tentem ser o mais furtivos possível. — pediu.

 

"Furtivos"? — perguntei, fazendo uma careta.

 

— Significa; Na encolha. Sorrateiro como um ladrão. — sussurrou Thoddy, e eu agradeci silenciosamente.

 

— Tomem muito cuidado, tá bom? Nada e ninguém aqui, é o que parece. Nos próximos minutos, estão sozinhos. Eu não quero que os 9 mundos acabem por um erro nosso. Não antes de eu conhecer os outros 8. 

Assentimos.

Apesar de estar morrendo de medo, fui o terceiro a sair do carro, depois de Thoddy e Álice. 

Isabel guardou o livro, pegou um guarda chuva, seu arco, aljava e saiu também. 

 

O último foi o Patrick, que se arrastou, e se juntou à nós.

 

Álice entrou na mata e seguiu em frente.

 

— Muito bem… — Isabel, chamou nossa atenção — Thoddy, vem comigo. Cobrimos a direita dela, vocês vão pelo outro lado. 

Patrick assentiu. 

E mesmo tendo combinado que iriam pela direita, foram pela esquerda.

Algo que eu só percebi, porque Patrick a chamou de "tresloucada" —, nem me pergunte o que é isso.

Assim que sumiram também, o cetro do mago voou pela janela do DeLorean, até sua mão. E ele o pegou com o maior estilo... 

Deu uma pirueta no ar por cima do cetro e o segurou com uma mão, pousando com o punho no chão. 

Depois dessa firula desnecessária, nós seguimos em frente. 

...

Após passarmos por um milharal, por um pântano, por matagal cheio de aranhas e sairmos fedendo a cocô, com milho e teias até em partes que eu não posso falar aqui, encontramos o bar.

...

Enquanto nos aproximávamos, Patrick usou magia pra nos secar, mas eu continuava me sentindo molhado, sujo e fedendo a cocô.

O bar era feito de madeira, num estilo retrô. Bonito e bem iluminado. 

Nem parecia que ficava depois de um matagal, em um vilarejo que copiava o velho oeste do Texas... 

Na real, antes de vê-lo, me sentia em mais um filme de "Sexta-feira 13". 

Não tô falando dos últimos, como o "JASON X", que são uma bosta. 

Tô falando do primeiro, que é bom e assustador... 

Pelo menos eu, me cago assistindo..

...

De longe, conseguimos vê-lo, e de perto, parecia que nossas retinas iriam queimar. Era como se o bar fosse um tipo de organismo vivo, que queria a atenção de todos.

E vou te contar, estava dando super certo.

Álice tinha razão, parecia que o vilarejo inteiro estava lá pra assistir o jogo. 

 Pela janela, vimos que todas as pessoas de lá, tinham a mesma descrição do tal homem que a Capitã mencionara. 

Altas e de chapéu. O que facilitava e muito pra mim. 

Afinal, se nós víssemos ele, ou uma garota ruiva, tínhamos sido aconselhados a fugir e era tudo o que eu mais queria, desde que saí da escola.

...

Um deles, estava em cima de um pequeno palco redondo, tocando o hino do Chicago Bulls em uma gaita de fole. Ao lado dele, uma mulher velha o acompanhava na mesma melodia, tocando um acordeão. 

E também tinha um garotinho cantando e tocando alaúde.

 Todos em volta desses três, cantavam e dançavam com a blusa do time, inclusive crianças. O que era meio engraçado, se novamente pensasse que eles eram pessoas que copiavam o estilo velho oeste do Texas.

 Mas não os julgava. 

Na verdade, fiquei até tentado a me juntar a eles. A única coisa que me impedia, era lembrar que Álice disse que poderia meter bala em alguém... E eu não queria ser esse sortudo de novo.

O Bulls era o melhor time de todos... 

Ainda que eu morasse em Nova York há uns anos, não conseguia mudar.

E torcer pro New York Knicks, o time da minha ex melhor amiga Trina Clifford, nunca foi uma opção, fala sério!

...

Voltando ao foco da história, lembrei que toda essa diversão e festejo iria ser interrompida, quando vi a Capitã saindo do matagal, comendo milho.

Ela caminhou cautelosamente, olhando para todos os lados, como se esperasse o trem, mas assim como o policial da blitz, todas as pessoas que passavam pela rua, não pareciam prestar atenção nela e no fuzil que carregava. 

E se prestaram atenção, simplesmente não demonstraram.

Na frente da dupla portas de madeira, a Capitã jogou seu milho pras trás por cima do ombro e entrou no lugar, de maneira totalmente furtiva e sutil…

 Chutando as portas e fuzilando todo mundo, sem conversa. 

 A gritaria e correria começou… 

As pessoas largavam tudo e até passavam por cima umas das outras, pra poderem tentar escapar das balas. Alguns tentavam sacar armas, mas eram alvejados, antes que pudessem fazer alguma coisa.

 

Outros escorregavam em poças de sangue e eram pisoteados até a morte. 

 

CADÊ VOCÊ, CADÊ VOCÊ? — gritava Álice, enquanto pegava mais munição no bolso do colete. — APAREÇA, XERIFE!

Um menino que devia ter uns 7 anos, tropeçou e quase foi pisoteado também. Mas achou a pistola de um dos mortos no chão, se virou e ainda deitado e aos prantos, começou a atirar nas pessoas que se aproximavam.

Demorou um pouquinho, até que Álice percebesse que alguns dos tiros não estavam partindo dela, e quando percebeu, uma bala acertou o seu colete. 

Ela quase foi assassinada.

Assim que achou o menino, as balas da pistola dele haviam acabado. 

E no desespero, ele tentou arremessar a arma contra ela, mas não chegou nem perto de acertar. 

O menino começou a transpirar e a implorar por sua vida e as das pessoas que ainda estavam vivas, escondidas atrás do balcão e debaixo de mesas, mas ela não hesitou em atirar na cabeça dele e continuar sua chacina.

 E de repente, meu mundo havia caído outra vez...

Fiquei tão perturbado e tão aterrorizado com aquilo, que simplesmente congelei...

Meus únicos movimentos, eram os de ranger de dentes, e de espasmos musculares das minhas pernas bambas.

Tenho quase certeza de que Patrick me gritou várias vezes, mas eu não conseguia reagir…

Só pensava em todas aquelas pessoas mortas… Em tudo o que tinha acabado de ver. 

E em tudo o que ainda ouvia...

Os sons de tiros... Eles sacolejavam o meu crânio outra vez… 

Me vi de joelhos, diante dos pés de Álice, enquanto ela se aproximava em câmera lenta pra me executar. 

Um infeliz replay...

No "Lar", meus amigos lutaram junto com a Capitã, mesmo depois de tudo o que ela fez… Mesmo depois de me matar.

Quando vi ela fazendo isso com aqueles monstros de gelo, não achei de todo mal. 

Eram invasores como nós, mas queriam matá-la, sem pestanejar… 

 No entanto, aquelas pessoas no bar, não eram monstros. 

Eram pessoas comuns. 

Pessoas que em sua grande maioria, nem tentaram atacar de volta pra se defender, apenas tentaram fugir, ou entraram na frente das balas pra salvar crianças.

 

"Vocês são muito sentimentais, então não importa o que me virem fazendo, se eu enfiar bala na bunda de alguém, peço que segurem o choro."

 

De repente, essa fala dela, nunca fizera tanto sentido... Ela estava realmente disposta à passar por cima de qualquer um, pra atingir seus objetivos pessoais.

 Eu não aguentei e comecei a chorar. 

Não de tristeza, mas de desespero. 

Eu tava sendo cúmplice do assassinato de inocentes… Era isso que Tyr queria, quando me pediu pra chamá-la pra ajudar na missão? Não podia ser…

 Mas eu já não duvidava… 

Já tinha parado de confiar em qualquer interpretação em que os deuses, eram seres  bondosos. 

Pelo menos, os nórdicos não pareciam serem completamente do bem. 

 E Tyr estava preso há anos… 

 Podia ter enlouquecido...

E como em "Jogos Mortais", já estava disposto a qualquer coisa pra escapar… 

 

Até mesmo ser o causador indireto da morte de inocentes.

 

ÔÔCRIANÇA!! — Berrou Patrick, me trazendo de volta pra realidade. 

O mago tentava segurar as portas com a magia da fumaça, nuvem, sei lá... Mas a magia estava fraca, dissipando e abaixando toda hora… 

Tão fraca que em vários momentos, o mesmo era empurrado pra trás, e as pessoas desesperadas em busca de escapar do bar, quase conseguiam abrir as portas de vez.

 

O-o quê? — funguei, para impedir que o catarro de choro vazasse. — O que foi?

 

A Lixeira… Você precisa me ajudar a empurrar pra tapar as portas, senão eles… — O mago não conseguiu terminar a frase, pois foi empurrado para trás com um pouco mais de violência, por pouco não se desequilibrou e caiu no chão.

 

Isso porquê as pessoas começaram a bater com mesas e outros objetos contra as portas. Dali pra frente, só ficaria mais difícil de contê-las. E eu ainda estava paralisado, não conseguia fazer nada, pensava que se eu fizesse o que ele estava mandando, os que sobreviveram também seriam assassinados…

Não podia  ajudar a fazerem algo assim... Independentemente do critério

Não... — balbuciei. — Não vou.

O QUÊ?

EU DISSE: NÃO!  — Gritei — A gente… N-não pode fazer isso... Não somos do mal, certo? Então não faremos NADA! Você é um herói, eu sou... um herói… Temos que salvar o mundo e não torná-lo pior…

Aquela palavra: "Herói", saiu como se eu tivesse engolido uma caixa de parafusos. Não me sentia um herói. Eu não tinha feito nada de útil pra me considerar um.

 

Nesse momento, algumas dezenas de pessoas abriram a porta e tentaram escapar, mas Patrick foi mais rápido e começou a disparar suas últimas energias pelo cetro.

 Metade delas foram transformadas em fumaça... Algumas viraram mosquitos, outras se transforam em sapos e engoliram quem tinha sido transformado em mosquito.

 E quando ele não parecia mais aguentar usar a sua magia feita de nuvens pra fazer aqueles truques, o mago lançou uma grande e última rajada pra empurrá-las de volta para dentro, fechando a porta logo depois e tombando de exaustão.

— Acabou pra mim... — Grunhiu. Sua voz quase já não saía mais. A sua testa e a sua blusa estavam encharcadas de suor. — Se eu tentar usar mais um pouco de magia de Pareidolia, eu literalmente morro. Preciso hibernar.

Aquilo me deixou pior.

Percebendo como eu estava, o mago se forçou a ficar de pé e à vir até mim.

Então pousou sua mão sobre o meu ombro e deu algumas palmadinhas nele.

— Bem, sei que é novo nisso, então me sinto obrigado a falar algo. Por favor, não veja como um sermão e sim como um conselho, tudo bem? É só pra coisas assim não acontecerem mais. A vida de um semideus, é... complicada. Não é só se aventurar rumo ao desconhecido, como um pirata aloucado. É mais como um tabuleiro de xadrez…. Terão horas, que a única maneira de completar a missão, será sacrificando peças… No caso, mortais inocentes... Isso é horrível de se dizer pra uma criança, eu sei bem disso. Mas esse é o universo cruel que vive, menino. E você não é uma criança normal. É uma peça "X", que pode mudar o rumo das coisas para o bem ou para o mal. Sua responsabilidade é bem maior, assim como o seu propósito. Está aqui hoje, para salvar muitas bilhões de vidas, jovem Jack, de vários planetas. E apesar de eu saber tanto quanto você sobre eles, entendo mais sobre sacrifícios. Trazendo pra uma língua de um garoto da sua idade... é igual "Star Wars", não deixe seu lado emocional interferir em suas decisões e em seus caminhos. Pense nessas coisas, toda vez que nos ver fazer algo extremo, tá certo? Deve ter o sangue frio e a mão de ferro, até o fim da missão. Quando chegar no final... só e apenas quando chegar… Você se lamenta por seus atos. 

Suspirei.

— Tem razão... — Balbuciei, encarando o chão — É algo horrível de se dizer.

— É, sim. Mas tenta pensar assim, pelo menos um pouco. Eu era assim, como você. E aí, eu descobri que se eu não tivesse o sangue frio na hora das tomadas de decisões, ficaria com o sangue frio de qualquer maneira, porquê quem vai parar numa geladeira de necrotério, é você. E nesta missão, também envolve a vida de outras bilhões de pessoas. 

Eu não concordei. 

Sabia muito bem que ele tinha alguma parcela de razão, mas nada daquilo deixava de ser errado… 

E não me fazia me sentir melhor. No entanto, eu tinha jurado pra mim mesmo, que não voltaria a ser a "donzela em perigo" e que faria o que tivesse que ser feito. Mesmo assim, isso ainda era muito difícil de se fazer na prática...

 

— E, hã… Se servir de consolo, esse não é o caso. Pessoas normais não têm sangue de cor azul, eu acho. — Ele apontou para as poças no chão. — Ou têm? Faz muito tempo que eu não vejo um mortal, realmente não sei.

 

Não, elas não têm. — Suspirei aliviado, isso pra não confessar que até chorei um pouco — Cara, eu sinto muito. Não tinha ideia de que eram monstros... É que eu não consigo pensar dessa maneira! Não consigo enfrentar decisões assim, sem pirar...

 

— Tá tudo bem. Parcela da culpa disso, é da "Névoa"… Vai aprender a ver através dela, com o devido tempo, claro. — disse ele, se esforçando pra se manter de pé. — Tem um coração bom, jovem Jack, e isso é muito legal. Mas nunca se esqueça do que te falei.

Anuí

— Agora, vê se me ajuda de uma vez com essa lixeira.

Ainda meio incomodado, me levantei e o ajudei. 

Continuamos segurando a lixeira por um bom tempo, porquê as pessoas… 

Hã…. OS MONSTROS!

Estavam quase destruindo as portas. De repente, um banco de madeira atravessou a janela por onde eu espiava, voando lá de dentro. Demorou, mas eles repararam que ela existia.

Então a pressão nas portas diminuiu e os monstros começaram a tentar escapar por ela.

O problema, é que a janela era um único retângulo de uns 45 centímetros… Então só conseguiriam se arrastar pra fora um de cada vez… o que era excelente pra nós.

Um velho gorducho, com uma pinta de caminhoneiro foi o primeiro a tentar. Mas logo ficou entalado e tapou a passagem. O que era ainda mais perfeito!

 

Quando ele nos viu, rugiu como um urso enfurecido e tentou esfaquear meu pescoço. Cara, eu teria perdido a cabeça se não tivesse me jogado no chão e chutado sua faca pra longe.

Aquilo era uma distração e só percebemos isso quando do nada, a primeira porta tombou por cima da lixeira e a multidão começou a passar por cima dela, da lixeira e também por cima da cabeça de Patrick, que  desabou no chão. Na hora, pensei que ele tivesse morrido, mas o mago se arrastou para o lado pra se livrar dos pisões que recebia. 

Enquanto a maioria preferiu aproveitar a oportunidade pra fugir, o caminhoneiro que ficou entalado, decidiu que queria nos matar. Ele havia conseguido se desentalar, arrancando um pedaço da parede apenas com a coluna e em vez de continuar passando pela janela ou passar por cima da lixeira, como os outros, ele se agachou, pegou por baixo dela e a virou em cima do mago.

Um mar de entulho e ratos assustados caíram por cima dele, que apesar de ainda não ter desmaiado, se já não conseguia fazer muita coisa antes… Agora tinha praticamente virado um segundo eu.

— Jovem Jack... — gemeu ele, esticando a mão e tropeçando em seu sotaque alemão. — F-faz alguma coisa… Nos salve...

O caminhoneiro chutou seu rosto logo em seguida, arrancando sangue da boca dele.

— Vocês mataram o meu filhote, seus demônios! — Rosnou. Ele também tinha um sotaque, como o de Patrick e de Álice, mas aquele, com certeza era russo. Não parecia conseguir decidir se limparia às lágrimas dos olhos ou o sangue azul da cabeça. Mas se aproximava de mim, como uma mãe se aproxima do filho, quando precisa lhe dar uma surra. — Nós nunca fizemos nada de errado… Esse lugar é composto de ovelhas negras... Somos monstros bons... Nós nunca matamos ninguém da espécie de vocês… Ele era apenas um filhote, demônios… Um frágil e pequeno filhotinho... E a amiga de vocês estourou a cabeça dele covardemente, com tiros.

Meus olhos saltaram, quando lembrei do garotinho chorando e atirando nos demais, pra impedir que a multidão o pisoteasse até a morte... Atrás dele, aquele velho estava caído, desmaiado... 

— Naquela hora... Ele tava tentando te proteger — Balbuciei — Era o seu filho...

Seu rosto se contraiu com a força que ele fazia pra não chorar mais, no entanto não conseguiu e começou a berrar de tanto chorar.

— Eu sinto muito, senhor... Nós não sabíamos que ela faria isso... Quer dizer... Não desse jeito... — grunhi

— E pra onde a benevolência nos trouxe, hein? — Rosnou, me ignorando — Pro mesmo destino em que a parte ruim da nossa família está condenada à sempre ir... Pro matadoro!

— Foi culpa minha. — murmurou Patrick — Eu mandei a garota fazer aquilo. Deixe esse pobre menino em paz...

O caminhoneiro deu um berro de ódio, arrancou uma árvore e jogou na direção dele. Por pouco não acertou. Por muito pouco, mesmo.

—  Eu sei que não posso com ela... Ela usa ouro vermelho em suas munições, quase me matou também. Mas, vocês? Vocês são pequenos e frágeis filhotes no meu matadouro. E eu, vou devorar suas carcaças, ATÉ A ÚLTIMA CAMADA DE CARBONO!

Em um piscar de olhos, ele perdeu toda a gordura corporal e virou uma montanha de músculos. 

Com exceção da calça, todas as suas roupas foram rasgadas. E assim como elas, suas costas foram rasgadas do nada, 7 vezes. Dos 7 furos, saíram 6 patas e uma pinça enorme, como se na verdade, ele fosse o tempo todo uma espécie de escorpião.

Seus olhos perderam qualquer traço da visão de um humano comum, e viraram apenas buracos fundos e escuros.

Sobre as patas, ele agarrou a lixeira com a pinça e arremessou na minha direção.

Eu nem tive pra onde fugir, fui atropelado com tudo.

Caí de costas na areia fofinha, o que salvou a minha vida, sem me machucar nenhum pouco… O que de certa forma, me deixou feliz...

Exceto, pelo resto de comida de um saco de lixo rasgado que caiu na minha boca. Sabe aquelas engasgadas, que parece que vamos vomitar também? Foi essa a sensação que tive, até eu conseguir limpar minha língua no chão. Fiz isso porquê ele parecia mais limpo que ela.

...

Enquanto ainda lambia a areia, levantei os olhos e tive uma visão horrenda que me fez parar na hora. 

O caminhoneiro escorpião, estava de pé na parede do bar, como uma barata. 

8 patas de pelugem amareladas, muito maiores do que às de escorpião, haviam saltado de suas costas. Ele também tinha ganhado mais oito olhos fundos e presas tão grandes, que podiam facilmente destruir um carro…

E isso por si só, já era motivo o suficiente pra eu querer sair correndo… Mas ele tinha 15 pernas a mais que eu, eu iria correr pra onde?

O pior de tudo, é que segurava Patrick desacordado, com sua pinça. Uma das mãos do mago, estava no meio de suas presas e ele começou a devorá-la na minha frente.

 Sangue explodia pra tudo o que é lado, enquanto suas presas avançavam pelo braço de Patrick, como uma trituradora de papéis, que berrava por socorro. 

Berrava pelo meu socorro...

Apesar disso, a única coisa que consegui fazer, foi berrar pra que o monstro parasse… Mas obviamente ele não obedeceu. Então implorei pra que Álice, Thoddy ou Isabel nos ajudasse, mas ninguém apareceu.

 O mago tentou usar sua única mão pra chamar seu cetro, mas o monstro abriu as garras da sua pinça, então passou a segurar pelos cabelos.

Quando o cetro se aproximou, ele usou a pinça pra rebater a arma no ar, que quicou na lixeira e caiu no chão, ela que representava a última esperança do mago. Então, a pinça de escorpião girou em 270 graus, como o pescoço de uma coruja e perfurou o peito dele.

NÃOOOOOOOO!!! — Berrei, com os olhos tão arregalados, quanto os do mago...

Mas diferente dos meus, os dele não ficaram abertos por muito tempo.

Não conseguia acreditar no que tinha acabado de ver...

Aquilo tinha que ser um sonho... Tinha que ser ilusão... Devia ser mais um truque do mago... Só podia ser isso... 

Em um instante minhas teorias foram quebradas e até virei o meu rosto pro lado, pra não ver, quando o monstro arrancou os órgãos internos de Patrick e os enfiou em suas presas.

 

Meus olhos se encheram de lágrima, ao contrário do meu peito, que se encheu de fúria. 

 

Se eu tivesse matado aqueles monstros, ao invés de sentir pena… Se eu não tivesse ficado parado… Me lamentando...

Eu jurei… Eu jurei e não cumpri… 

E uma pessoa morreu!

Uma pessoa que salvou a minha vida e implorou pra que eu salvasse à dela...

Mas eu era um inútil... Um medroso... Um fraco e um fardo de merda!

Quando olhei de volta para o monstro, a única coisa que havia sobrado do único cara que era realmente um herói por ali, eram as suas pernas, que já estavam por entre as presas do monstro. 

 

Seu… — resmunguei, me levantando muito atrasado e ainda chorando. Mas era de pura raiva... Não sabia diferenciar se era de mim, ou dele. Mas era apenas raiva — SEU DESGRAÇADO!!!

 

Corri na direção do cetro, mas antes que eu pudesse pegá-lo, o monstro engoliu as pernas do mago e pulou sobre a lata de lixo. Só o peso do seu pouso, a esmagou. Diante dele, ela parecia ser feita de isopor.

O que EU poderia fazer?

Ele tentou agarrar meu rosto com a pinça e se tivesse conseguido, teria esmagado a minha cabeça, mas eu me esquivei, me jogando de costas no chão, então tudo o que conseguiu, foi arrancar poucos fios de cabelo da minha cabeça.

Deslizei pela a areia e me arrastei sobre a areia, até alcançar o cetro.

Infelizmente, quando peguei, não sabia o que fazer… Eu não era um mágico... 

Não tinha a mínima ideia de como Thoddy e Isabel, sem manual de instruções, conseguiram fazer o cetro disparar aquelas rajadas de energia, quando nós estávamos sendo perseguidos pelos mercenários... 

Talvez porquê o mago deu permissão... Não sei. As únicas referência que tinha tido sobre magia, era de "Magico de Oz", também dos filmes do "Senhor Dos Anéis", que meu irmão adorava e a minha mãe o forçava a me levar junto, sempre que lançava um filme da franquia... E o primeiro livro de "Harry Potter", que fui forçado a ler pra fazer uma redação na 5° série.

Fora isso e ver o que o mago fazia, mais nada!

A única coisa que consegui, foi rebater a pinça de escorpião por algum tempo. 

Porém, o monstro logo conseguiu agarrar o cetro e como eu não o quis soltar, já que não teria outra arma pra me defender, fui erguido junto até a altura do rosto dele. 

 

Tentei chutá-lo várias vezes, mas seu peito parecia feito de concreto. Então, eu o vi seu rosto horroroso, lambuzado de sangue e simplesmente parei. Precisava me soltar ou morreria ali mesmo. Mas um orgulho burro que nunca tive antes, segurou as minhas mãos.

 

Eu vou… TE MATAR! ENTENDEU? — Prometi, tentando o olhar nos olhos. Mas eram apenas imensidões escuras. Era como tentar intimidar caçapas de sinuca. — MESMO QUE ME MATE AQUI E AGORA, EU AINDA VOU DAR UM JEITO DE ARRANCAR A PORRA DA TUA CABEÇA!

 

— Faça isso. — murmurou, nada intimidado — Depois de pedir perdão pro meu filho, em Hel!

 

Sua boca se abriu e vi uma dupla língua, que mais pareciam serpentes. Também vi tantos dentes grandes, afiados e podres, que parei de contar no 159… Me mataria em segundos...

 

E quando eu já estava prestes a morrer pela vigésima vez, uma flecha em chamas atravessou o pescoço dele. 

 

O monstro não pareceu sentir dor alguma.

Bom, pra não ser exagerado, talvez tenha tido um pouquinho de torcicolo...

Então ele quebrou um pedaço dela com uma das mãos humanas e cuspiu a outra metade que tinha lhe atravessado o pescoço. 

Seus olhos começaram a se agitar loucamente, como bolinhas de chocalhos, tentando olhar pra todas as direções ao mesmo tempo, procurando onde estava a criatura ousada que ousou atrapalhar o seu segundo banquete humano da vida.

E assim que achou, outra flecha flamejante zuniu do arco de Isabel e perfurou sua testa.

SE NÃO QUISER IR PRO INFERNO, LARGA O MEU AMIGO! — Gritou em ameaça. Aquilo me fez chorar ainda mais, pois ela sim, cumpriu sua promessa de jamais abandonar alguém...

Ele rosnou pra Thoddy e Isabel, e consegui vê-los quase dentro do matagal.

Depois se virou na minha direção e cuspiu um tipo de rede de fios dourados, que cobriu toda a minha cabeça e se esticou como uma teia, até a janela mais próxima… que ficava no segundo andar do bar... Por onde eu fiquei pendurado.

 

O monstro disparou na direção dos dois e pude ver as folhas do matagal se mexer, indicando que eles haviam começado a correr.

 

Tentei me soltar, mas assim que me balancei muito, olhei para baixo… Estava muito, muito alto. E se eu caísse lá embaixo…

Era morte certa, independente da areia ser fofa ou não.

 

Foi então que o mundo ao meu redor, ficou em câmera lenta até congelar de vez. Eu não sabia ao certo o que estava acontecendo, mas após congelar, tudo começou a se acinzentar e a rachar, como um copo de vidro.

A única coisa que não era cinza, eram os fios dourados enrolados como um casulo na minha cabeça.

Eles brilhavam de forma que pareciam que atraíam os meus olhos…

E eu não conseguia mais me mexer, como se estivesse se enrolado em meu corpo inteiro.

De repente, através das aberturas da rede, me vi me esforçando pra caminhar em um lugar extremamente frio e completamente congelado. Eu tinha certeza que nunca tinha estado lá também... Pode apostar que eu lembraria se tivesse visitado o Polo Norte. 

Vestia minha armadura negra do sonho anterior, que tive na biga de Thoddy.. Pra me aquecer, usava um casaco, feito com a pele de um lobo tão grande, que Tyr teria roubado pra colocar como tapete em seu escritório.

Atrás de mim, estava um verdadeiro exército de monstros me acompanhando. Inclusive aquele Ciclope que matei, antes de conseguir chegar no acampamento.

Mas não parecia que eu tinha sido preso, capturado e forçado à estar ali, ou algo assim...

Parecia que eu estava os liderando. 

Nós entramos em uma geada enorme em formato de palácio celestial tão esbelto, que o gelo que parecia ser feito de cristal… Acho que era a coisa mais linda que eu já tinha visto na minha vida inteira.

Na parte de dentro, vi todas aquelas criaturas de gelo que atacaram o "Lar" de Àlice, mas nenhuma delas pareciam querer me matar. Eu até apertei a mão do líder daquela invasão, como se fôssemos amigões, e ele nos escoltou até um salão com um único trono formado por esqueletos congelados e cristais, com uma menina que devia ter a minha idade, de cabelos esverdeados e camisa de botão azul florida, debruçada sobre os braços em um dos braços de cristal do trono. 

Fui o primeiro a tirar o elmo, fazer uma reverência, colocá-lo no chão e me ajoelhar diante dela. Depois de mim, uma fileira de monstro cada foi se ajoelhando também.

— Demoraram… — Murmurou ela, entediada, levantando o rosto, só o suficiente pra que pudéssemos ver um de seus olhos. Ele era verde, como a relva de um pântano. — Ficaram jogando "UNO'', bebendo cerveja e aproveitando a companhia uns dos outros, em vez de fazer o que deviam?

— Não, senhora. — Quando falei, vazou vapor da minha boca. Então me levantei apressadamente, pegando o elmo, pondo ele debaixo do braço e ainda tentando manter a reverência, declarei: — Estávamos atrás da espada…

Ela voltou a enterrar a cabeça por completo.

— Já te avisei que se não a encontrou, eu não quero ver você e nenhum dos cupinchas do meu pai.

— E é por isso que vim. Eu a encontrei, majestade… — Murmurei — E esses, não são "cupinchas". São os donos dos tremores que a marcha contra Asgard, vai provocar.

A menina deu um salto do seu trono, revelando seu rosto por completo. E era assustador…

Uma parte dele, era uma caveira… Não me refiro à uma tatuagem. Estou dizendo literalmente

Não havia pele, nem um segundo olho… Era apenas um crânio com um buraco escuro no lugar de um dos olhos.

Assim como uma metade de seu corpo inteiro… Não tinha pele ou órgãos, era apenas um monte de ossos colados.

Já a outra metade, era ainda mais assustadora. Porquê era o corpo de Álice…

Era a própria, só que de cabelo verde, pele pálida, tipo... PURAMENTE CINZA e magra, como se não faltasse muito tempo pra ficar igual à sua parte esqueleto e claro, usando roupas havaianas.

Eu poderia imaginar aquela maluca em forma de esqueleto e até com anemia... Mas nunca imaginaria ela de roupa de praia. NUNCA!

Sumarbrander? — Gritou. Seu interesse pareceu finalmente ser desperto. E eu entendi o porquê de não ter percebido logo pela voz. Ela não tinha o forte sotaque Alemão. Seu inglês era tão perfeito quanto o de qualquer norte-americano.

 

— Não, majestade… Sinto muito. Encontramos a Skofnung.

 

Ela pareceu perder 50% da empolgação e voltou a se sentar. Cruzou as pernas e olhou para mim, arqueando uma das sobrancelhas.

 

— E onde ela está?

 

Antes de eu poder falar, o Palácio começou a tremer. 

Atrás de mim, meus amigos monstros começaram a ser dizimados.

Uns 100 de cada vez. Tão rápido que não dava tempo deles conseguirem oferecer qualquer tipo de resistência ou até mesmo de fugir.

Apenas o ciclope conseguiu empurrar uns monstros da sua frente e escapar por pouco. Quase foi atingido, quando o teto se partiu com um raio imenso que também destruiu o chão e desintegrou a última fileira de monstros atrás de mim.

Em um súbito, já não havia mais raio, monstros ou tremores. Apenas um homem forte de cabelo e barba ruiva, segurando um martelo.

— Foi uma ótima tentativa, Hel. — murmurou o homem, se aproximando de mim de maneira imponente — Pra ser honesto, eu te julgaria, se não tentasse. Mas nada de libertar Loki ou de iniciar um Ragnarök, antes de lançar o terceiro filme do "Homem-aranha".

 

— Oi. — Ela suspirou e jogou as pernas por cima do braço do trono — Então, creio que o braço direito do meu pai o traiu? 

 

Eu não conseguia nem olhá-la nos olhos 

 

— Exatamente! Ele é uma criança, sabe? — o cara apertou meu ombro, em conforto. — Elas têm sentimentos. Não curtem essa parada de destruição global. Não importa o quão forte são.

 

Álice se levantou do trono cautelosamente e o homem já preparou o seu martelo pra um confronto.

 

— Olha, tem uma carruagem cerca de uns 5 quilômetros daqui. Vaza daqui. — sussurrou ele.

 

— Vikings não recuam, senhor. O único caminho que existe, é o que está diante dos nossos olhos. Se é terra firme ou um maremoto, não interessa. O destino decide nossa vida na moeda. 

 

— Esquece tudo que o Loki te ensinou, garoto. Hel é muito pior que um maremoto. Não tem nem comparação. 

Lembrei do monstro me dizendo pra pedir perdão pra seu filho em "Hel"... E naquele momento eu me vi confuso... "Hel" era um lugar ou era aquela sósia da Álice? Independente do que fosse, pela descrição do cara do martelo, eu tive um pressentimento ruim de que era um verdadeiro pesadelo.

 

Um machado preto surgiu na minha mão, como as armas mágicas dos meus amigos.

 

E avancei, na velocidade de um trem… Embora não soubesse como aquilo poderia ser possível!

 

O machado girou na direção da cabeça de Álice, como se ele e meu braço fossem um só. 

 

Mas a mesma se inclinou para trás, quase até tocar sua nuca no chão. Meu segundo ataque não esperou até que ela se levantasse e a mesma precisou deslizar para o lado pra se esquivar.

 

O martelo foi voando em sua direção, extremamente mais rápido do que eu. E aproveitei que ela estava se preparando pra se esquivar dele e tentei cravar o machado em sua cintura. No entanto, ela se arremessou no ar e se esquivou de ambos com graciosidade…  Como se aquilo fosse só uma dança pra ela.

 

O martelo retornou pra mão dele, como um bumerangue e quase me atingiu no processo.

 

Foi então que consegui atingi-la. 

 

Em uma machadada no calcanhar, arranquei seu pé e Álice tombou de joelho, agonizando de dor. 

 

Quando fui matá-la, ela ergueu o punho pra cima.

 

É UMA EMBOSCADA! — Gritou o homem. 

 

Tarde demais. 

 

O Palácio inteiro desmoronou sobre nossas cabeças.

 

Tudo ficou cinza mais uma vez e o tempo parou e começou a voltar como se fosse tudo um filme em um DVD…

 

Eu entrei novamente no Palácio, com aquele exército de monstros. Mas antes que pudesse acontecer tudo de novo, o Ciclope me puxou e começou a sacudir meus ombros.

 

JAAAAAAAAAACKKK! — gritava de cuspir em meu rosto.

 

Mas minha boca parecia ter sido costurada. 

 

ARRANCA LOGO ISSO! — Gritou um lobo. — FICAR GRITANDO NÃO VAI ADIANTAR!

 

ENTÃO, POR QUÊ VOCÊ TÁ GRITANDO COMIGO? — gritou de volta.

 

— Desculpa. — murmurou — MAS FAZ LOGO!

 

Comecei a ouvir um som de serra elétrica no pé do ouvido.

 

E em menos de um segundo, eu estava de volta em Chicago.

 

Não estava mais preso no terceiro andar, estava de joelhos com Thoddy e Isabel no meio do pantanal. 

 

— O que… O que aconteceu? — Murmurei

 

— V-Você não lembra? — Questionou Thoddy, com a espada em uma mão e a rede dourada na outra. Suas narinas e olhos sangravam, sinal de que aquele fogo nas flechas de Isabel, eram o poder dele.

 

Isabel clicou sua lanterna prateada e iluminou algo atrás de mim.

 

Me virei e me deparei com o monstro Caminhoneiro totalmente petrificado. 

 

Quando o vi, pensei que ainda estava vivo e tombei pra trás de susto. Mas Thoddy me disse que eu podia ficar tranquilo.

 

Sua cara feiosa estava endurecida em raiva. Ele já não tinha mais pernas humanas, mas havia ganhado um novo par de patas pontudas de crustáceo. 

Seus braços estavam jogados para trás e as patas dianteiras estavam erguidas para cima, como as de um cavalo. 

 

— Como fizeram isso? — Murmurei, usando os ombros deles pra me levantar. 

— Fizemos o quê? — perguntou Isabel.

— Isso aí... — Grunhi, enquanto apontava pra estátua — Como mataram ele?

— Não fomos nós. — disse Thoddy.

Isabel apontou a lanterna pro pescoço do monstro, que tinha sido atravessado pela metade do cetro de Patrick.

— Foi você. 

E-Eu? — perguntei. 

Eles assentiram, um pouco receosos.

 

Lembrei da promessa que fiz para o monstro... A promessa de que arrancaria sua cabeça. Lembrei também daquilo… Que tinha acabado de ver. De eu lutando na geada e tentando arrancar a cabeça de Álice.

Era tudo uma alucinação pra o que estava realmente acontecendo na vida real…

 

Peguei a rede das mãos de Thoddy e a olhei, tentando a entender de alguma forma. Mas, tudo o que via, eram vários reflexos do meu rosto.

 

— Como eu fiz isso? Como diabos eu fiz isso?

 

— Não sabemos, véi. Vimos muita pouca coisa, porquê estávamos fugindo dele… — Disse Thoddy. — O infeliz parecia imortal.

 

— Então você caiu e depois arremessou essa varinha mágica de Patrick... Quando o monstro desviou e tentou nos atacar… Você o segurou  pelas patas por tempo suficiente até que eu a jogasse de volta pras suas mãos… Então arrancou fora a goela dele, cravando-a... — Explicou Isabel — Foi impressionante...

Engoli em seco.

— Eu nem me imagino fazendo essas coisas… Ele não era alguém ruim... Só pirou depois da Álice fazer tudo o que fez... Eu teria feito a mesma coisa.

— Você fez. — Acusou Thoddy. 

Ele tinha razão... O matei por ter matado um cara que eu mal conhecia. 

Encarei a estátua por um longo tempo, pensando novamente que se eu tivesse agido antes, ou se não tivéssemos trago Álice, nada daquilo teria acontecido... Patrick e aqueles monstros, estariam bem...

E mesmo tendo jurado que o mataria, não sentia nenhum orgulho daquilo... 

Também não me sentia tão mal por ter o matado. Me sentia pior, por ele ter devorado uma pessoa e ter me feito assistir tudo... Aquela imagem macabra, aquele pesadelo jamais sairia da minha cabeça...

— Espero que reencontre seu filho... — sussurrei. — Prometo sobre o seu túmulo que à partir de hoje, tentarei impedir que coisas assim aconteçam... Pra você também, Tyr... Eu fracassei de novo... De novo, mas isso não vai mais se repetir.

— Falou alguma coisa? — perguntou, Isabel.

— Não... Hã... — Enxuguei as lágrimas do meu rosto — Como é que ele congelou?

— Isso deve ser a magia de Patrick. Mesmo morto, ela funcionou… Eu não sei explicar exatamente, não manjo muito... — a última frase dela, saiu desconjuntada e Isabel se segurou pra não começar a chorar. 

 

Era o sentimento de nós três. Nós mal conhecíamos aquele mago maluco, mas vê-lo morrendo daquele jeito… Nos afetou demais.

Pra sempre...

 

Principalmente à mim, que nunca tinha visto a morte de um ser humano de tão perto… Só dos monstros que pareciam humanos, o que já tinha sido traumatizante demais. Ainda por cima, ele foi devorado daquele jeito…

 

Definitivamente eu não seria mais o mesmo moleque que tinha começado aquela missão.

 

Nunca mais.

 

Usei os ombros deles como um apoio pra me ajudar a levantar.

 

— Como é que eu consegui fazer tudo isso, sem morrer? 

 

— Você… é forte, cara… — Murmurou Thoddy. — Eu não acreditei, quando vi… Mas, é...

 

— Aquele negócio da cobra não era mentira, era? — Questionou Isabel, olhando pra queimadura em meu braço.

 

Balancei a cabeça negativamente.

 

— Os genes da deusa Atena, devem tá finalmente despertando em seu corpo.

 

Engoli em seco.

 

Olhei pras minhas mãos novamente, tentando achar algo de incomum… Mas, pareciam tão normais quanto sempre, além de estarem trêmulas, cheias de calos, com alguns cortes e uma delas ter uma queimadura de veneno.

 

— E a Álice? — Perguntei, lembrando da alucinação. — Ela disse pra esperarmos um sinal… Que sinal é esse? Parece tudo tão quieto no bar.

 

Thoddy e Isabel não pareciam confusos quanto a isso. Estavam sérios, trocando olhares, como se conversassem mentalmente… O que considerando tudo o que eu já tinha visto, nem conseguia pensar na hipótese de eles não poderem fazer aquilo.

 

— O que foi? — perguntei olhando pra um de cada vez.

 

A Doutora suspirou e cruzou os braços, apertando os cotovelos em busca de se aquecer e encarando o chão. Já Thoddy, resfolegou com as mãos na cintura.

 

— Isabel acha que ela nos trouxe pra uma emboscada… — disse Thoddy.

 

Esfreguei o rosto.

 

— Não duvido. — grunhi. — Se o Patrick morreu…  Nós seríamos os próximos. 

 

— É...

 

— O que não faz sentido é, se ela queria nos matar, por quê não fez isso no "Lar" ou no carro, sei lá…? 

 

— Ela fuzilou a cabeça do Jack, ela nos derrubou de uma ponte. — Disse Isabel. — Só não nos matou, porquê não conseguiu… — Ela olhou pra mim de relance — Pelo menos na maioria das vezes. Agora fez um monstro jantar o Patrick, porquê sabia que ele tava fraco demais pra lidar com ele.

 

— Mas ela também disse que tinham apenas duas pesspas que poderiam matá-la… — disse Thoddy — E se essa coisa aí, fosse uma delas.

 

— Eu não sei. Mas vou tirar essa história a limpo. — Isabel tirou a tiara da cabeça e voltou a transformá-la em seu arco. Puxou uma flecha e pôs por cima e começou a caminhar pra sair do matagal.

 

— Pode ficar aqui se quiser. — Disse Thoddy, pressionando o cabo da espada. — Já passou por coisas demais pra um dia.

 

Lembrei do último conselho de Patrick. Não importava o que eu visse ou o que decidisse, haveria consequências ruins… Mas se eu não fizesse nada, se eu escolhesse ficar com medo de agir, coisas ainda piores poderiam acontecer. E eu me recusava a deixar que eles dois e o mundo inteiro morressem.

 

— Tá tranquilo, cara. — respondi, embora não sentisse isso.

 

 

De volta ao bar, nos deparamos com uma Álice totalmente calma. Sentada em algumas mesas de costas pra gente e tomando uma garrafa de cerveja, enquanto olhava pro nada.

 

Isabel disparou sua flecha, que fez uma curva como o martelo bumerangue da minha alucinação e explodiu a garrafa ainda na boca de Álice, em mil cacos.

 

— Qual é, não precisava fazer isso… — Disse, suspirando. 

 

— Joga a arma no chão! — ordenou.

 

— Por quê, Bela Adormecida, eu… — Dizia, quando foi interrompida por uma bola de fogo atirada por Thoddy em direção da mesa, que por causa do álcool da cerveja, causou uma pequena explosão na mesa e derrubou a cadeira da Capitã pra trás.

 

— larga. — mandou.

 

Ela obedeceu, jogando a arma nos pés de Isabel.

 

— O colete e as facas nos seus calcanhares, também. — disse Isabel 

 

Olha só… — Debochou, com um sorriso malicioso — Pensei que você e o "Zumbizinho", tivessem algum lance, depois que ele se matou por você. Mas, acho que tava enganada, tá querendo me ver sem colete, é "Bela Adormecida"?

 

— Larga de ser idiota. — rosnou.

 

Álice obedeceu. Ela tava de blusa por baixo do colete, sim. E Isabel me disse pra ficar com as facas.

 

— Por quê tão fazendo isso? — questionou 

 

— E ainda pergunta? — rosnou de novo, Isabel. — Nos abandonou com aquele monstro! 

 

Ué? Eu enfrentei vários aqui dentro, tá esquecida? E vocês tem o Mestre dos Magos pra ajudar vocês, pra quê precisariam de mim? Além disso, tenho certeza de que o lugar de onde saíram, os treinou muito bem. Menos ao maluco do Jack.

 

— É? Pelo fato de você não ter saído pra ajudar, o Patrick morreu! Ele tava cansado pelo excesso de magia que usou no "Lar", e você sabia disso! Aquele monstro devorou ele até os ossos...

 

Álice finalmente parou de gracinha. Ficou em silêncio por um tempo e bufou de um jeito pesado.

 

Ah, porra… Eu realmente não pensei que isso pudesse acontecer… Não considerei, eu sinto muito de verdade..

 

— Para de ser cínica! — gritou a Doutora, se aproximando e apontando a flecha pro rosto dela. — Por quê nos trouxe pra cá, hein? 

 

— Eu não tô mentindo… — Declarou, olhando pra ela com as mãos pro alto, em sinal de que não tentaria resistir. — Quer saber por quê eu os trouxe até aqui? Foi por causa dela. — A Capitã apontou para o colar caído do outro lado. — É pela minha irmã que me juntei à vocês. E é por ela que não vou matá-los, ou mentir. Assim como posso afirmar que não tenho nada a ver com a morte do Patrick, porquê eu não esperava por isso, cacete! 

 

Peguei o colar. Apesar de estar fedido com o cheiro de bebida, era um belo colar. Prateado com a forma de uma gatinho sentado numa lua minguante. 

 

— Ela está desaparecida há anos e você voltou dos mortos com o globo de neve dela! — gritou pra mim — Eu achei que pudesse ser a porra de um código de Tyr, que ela ainda poderia estar viva em algum lugar! 

 

— Como podemos saber que não está mentindo? — Perguntou Thoddy.

 

— Eu dei minha palavra de que não haveria mais matanças entre nós. 

 

— Também disse que a única ajuda que poderia oferecer, é nos deixar sair com vida. — Acrescentou Isabel. — No entanto, apareceu um tempinho depois do lado do carro, dizendo que queria ajudar.

 

— Eu tive que mentir pra eles. Os deuses nórdicos não permitem que eu, que tenho parentesco com Loki, saia por aí sem permissão… Principalmente pra uma jornada que envolva ele. Então preferi mentir… Essas horas, eles já devem ter reparado e se não começaram a me caçar, vão começar. Quando me acharem, serei executada. Mas antes que isso aconteça, eu preciso trazer minha caçula pra casa dela. Vocês são a minha última chance… 

 

Isabel olhou pra Thoddy, depois pra mim. Mas de repente pareceu se afastar um pouco da situação.

 

Eu acho que… — Sussurrei, mas a garota fez um "Shii" pra mim, olhando para os lados, como se esperasse o ônibus.

 

— O que foi? — perguntou Thoddy. — Acha que devemos confiar nela?

 

Espera um pouco, garotos… — pediu, olhando para teto, ainda parecia saber de algo, que ninguém mais sabia. — Tão ouvindo isso?

 

— O quê? — Perguntei.

 

Ficamos todos calados por um tempo e comecei a ouvir.

 

Era um tipo de barulho estranho, que incomodava os ouvidos… Como um chiado de panela de pressão… Ou de chaleira.

 

Também parecia o som de um avião estivesse caindo do céu nos filmes... Aquilo imediatamente me fez correr para a janela mais próxima, juntamente com Thoddy.

 

Ainda chovia forte, mas as nuvens começaram a se mover de maneira estranha, concentrando-se acima de nossas cabeças, e formando um espiral. 

 

Começaram a girar um pouco mais rápido do que deveriam, os ventos faziam todo o matagal ser puxado na direção do espiral.

 

— Tem um furacão se aproximando… — Murmurou Thoddy, olhando pro mesmo lugar que eu. — Devemos ter cerca de dois minutos… 



 

— SÃO ELES! — Gritou Álice

 

"ELES" QUEM? — Gritou, Thoddy. 

 

O XERIFE E SEUS AJUDANTES! — Gritou — Sei que nenhum de vocês vai me matar… Mas ele vai, então precisam confiar e mim!

 

— NOS TROUXE PRA VER UM FURACÃO? — Gritou Isabel.

 

NÃO! — Ela exasperou — Eu trouxe vocês pra ver o que vem depois do furacão!

 

VOCÊ É COMPLETAMENTE MALUCA! — gritou a Doutora. 

 

Isabel ameaçou a atirar nela, que encostou a testa no chão e implorou pra que confiássemos nela.

 

— Eu… — tentei falar, mas antes que pudesse completar, as nuvens desceram se dividindo em vários redemoinhos.

 

Tudo ao redor deles foi engolido pelo furacão ou varrido para longe. 

 

A janela de onde estávamos olhando, foi arrancada da parede e sugada para o redemoinho mais próximo. 

 

E fiquei tão assustado com aquilo, que novamente meu corpo me traiu e ficou paralisado. 

 

Só não fui sugado também, porquê Thoddy me puxou e disparamos para os fundos…

 

Ironicamente, dessa vez era a gente que precisava escapar…

 

Isabel ajudou Álice a se levantar e a mesma pegou seu fuzil e o seu colete do chão e começou a correr. 

 

Assim que saímos do bar, o prédio inteiro foi destruído e seus destroços foram arremessados pra todos lados, de forma que um um caco de vidro quase acertou o meu olho e uma chuva de pedaços de tijolos caiu sobre nós.

 

A areia virou nossa pior inimiga. Por causa dela, não conseguíamos ver, nem respirar. 

 

Conseguimos entrar no matagal mas fomos surpreendidos por um novo furacão, que desceu poucos metros da gente.

 

MEUS DEUSES! E AGORA? — Gritou Isabel. 

 

Álice deu a resposta mais desesperada possível. Passou a bandoleira por cima da cabeça, apoiando-a no ombro e começou a atirar contra o redemoinho. 

 

— Ela sabe que é vento? — Murmurei, com a mão na boca pra areia não entrar.

 

NÃO SÃO REDEMOINHOS NORMAIS! — Gritou ela — SÃO ESPÍRITOS DOS VENTOS MANIPULADOS! É UM MEIO DE TRANSPORTE DEVASTADOR PRA INIMIGOS! TEM PESSOAS LÁ DENTRO, SE CONSEGUIRMOS ACERTAR ELAS, OS ESPÍRITOS SE TORNAM LIVRES E VÃO EMBORA!

 

DROGA! — gritou Isabel, parecendo odiar a ideia de confiar nela. Mas também disparou suas flechas.

 

Thoddy tentou acender chamas em suas mãos, mas assim que conseguiu, elas se apagaram no mesmo instante. Tudo o que conseguiu, foi perder ainda mais sangue pelos olhos e caiu de joelhos.

 

O ajudei a se levantar e Isabel pediu pra ele aguentar firme. Quanto mais o tornado se aproximava, as flechas dela conseguiam se aproximar bem menos. Tinham mais chances de acertarem a gente, do que de atravessar a parede de vento e areia.

 

ISSO NÃO TÁ FUNCIONANDO, ÁLICE! —  Gritou Isabel.

— Eu sei. — murmurou Álice.

Ela tirou uma lata de cerveja de um dos seus bolsos, agitou bem e puxou o ferrinho pra abrir.

 

— Não acha que já deu de beber, não? Temos que nos salvar... — murmurei — Aliás, você não tem cara de quem tem idade pra isso… 

 

— Eu dirijo… Eu uso armas e mato… Mas a coisa que mais te deixa nervoso, é o fato de eu ser uma maluca alcoólica, menino? — Ela forçou uma risada… Acho que foi a primeira risada falsa que a vi dar o dia inteiro. Dessa vez, seu deboche soava mais como melancolia… como um pedido de socorro. — Um brinde… Ao nosso fim! — Murmurou, erguendo a latinha e apontando pra cada um de nós. 

 

— É verdade. — dei de ombros.

 

Isabel se sentou no chão, desesperançosa. Enquanto todos nós passamos a encarar aquele cerco de furacões se aproximando mais e mais, como se o único alvo fosse a gente…

 

— Merda… — murmurou a capitã, coçando um dos olhos com a mão livre — Eu nunca tinha chegado tão perto… Minha irmãzinha… Em todos esses anos eu achei que você estava morta. E agora quem vai morrer, sou eu…

 

Entendi em poucos segundos porquê ela tinha coberto um dos olhos, quando lágrimas sobressaltaram sobre as aberturas entre seus dedos.

 

Baixei os olhos pro colar de gatinho espacial em minha mão e o devolvi pra ela, que o encarou por vários segundos.

 

"Estamos livres"… — Choramingou ela, tentando e falhando em secar o rosto pra parar com as lágrimas. — Lembra quando o papai disse isso pra nós três? E eu traí vocês… É por isso… É por isso que fugiu de mim… 

Era tão estranho pra mim vê-la chorando, quanto vê-la em roupa de praia... Se existia algo que podia derrubar aquela garota, nada era impossível. ACREDITE!

 

E então, em vez de beber, Álice deu um berro de raiva e arremessou a cerveja no tornado que vinha pela frente. 

 

A lata explodiu em um jato de chamas, que se expandiram pelo redemoinho inteiro, transformando aqueles ventos em um ventilador de fogo aniquilador. 

 

O matagal foi sua primeira vítima. Inteiramente desintegrado em segundos… 

 

Ainda sim, de algum jeito, aquela maldita estátua do monstro ainda estava de pé, zombando de nós e presenciando de camarote o nosso fim.

 

A segunda vítima seríamos nós. 

 

Se Thoddy não tivesse entrado na frente, teríamos morrido um pouco mais cedo…

 

O garoto fósforo segurou o paredão giratório de fogo com as mãos e isso estava lhe custando a vida.

 

— Mais alguma ideia? — Questionou Isabel, parecendo um pouco mais suplicante do que irritada. — Rápido!

 

— Minha cerveja acabou… — Murmurou Álice, ignorando a situação — Eu preciso de mais.

 

Foi quando Thoddy me olhou por cima ombro e suplicou:

 

— Só tem uma coisa que pode nos salvar agora… Você… 

 

— Do que tá falando? — indaguei. — Se for daquilo que dizem que fiz… E-Eu não sei como fiz eu…

 

NÃO INTERESSA! — Grunhiu, gritando de dor. — Nada mais interessa… Ande, pegue no maior bolso da minha mochila, AGORA!

 

Cambaleei até as costas dele e abri com pressa, como se fosso um pacote de biscoito. Isso fez quase o zíper dela ser zunindo como uma rolha de champanhe.

 

Entre várias porcarias que vi, a que mais me chamou a atenção foi uma cápsula de bronze com uma alça de couro. Aquilo parecia um pouco com a aljava de flechas da doutora Isabel...

 

Retirei de sua mochila e acho que não calculei bem o peso, pois caiu no chão.

 

— O que é isso? — perguntou Isabel, se agachado, curiosa.

 

— Tem um botão… Bem na ponta da capsula — Murmurou, entredentes, soando como porco e apertando os olhos.

 

O encontrei e o apertei.

 

Com um gostoso chiado, ela se abriu. E tive o desprazer de rever uma velha amiga do dia anterior…

 

NÃO! — Gritei, jogando a cápsula no chão e me afastando o máximo que dava, sem ser morto… ou seja, uns dois passos.

 

É preciso…. — murmurou ele.

 

— Esse é o Raio-mestre de Zeus? — sussurrou Isabel, incrédula.

 

Isso… É diamante celestial — Balbuciou Álice, embasbacada.

 

— Essa porcaria quase me matou uma vez… Você não pode tá falando sério… Não está me pedindo...

 

— Vai morrer de qualquer jeito… Mas… É preciso que…. — Ele deu um berro de dor e o fogo consumiu seus braços, Isabel gritou e correu pra salvá-lo, tentando puxá-lo das chamas — Ela está interligada à você, filho de Atena… Só você pode usá-la... Aponte pra onde quer atirar e e abra caminho! Nós contamos com vo... — Antes de Thoddy completar, o tornado o consumiu por inteiro.

 

Isabel ficou ainda mais pálida que o comum, ficou tão chocada com aquilo, que quase foi sugada também… Mas Álice a arrancou de lá.

 

A doutora começou a chorar de desespero, gritando o nome de Thoddy e encarando aquelas cruéis chamas que se aproximavam lentamente de nós…

 

"Quantos mais irão precisar morrer pra você tomar a atitude, antes do pior acontecer, Jack?" Sussurrou a voz de Tyr em minha cabeça.

 

Lembrei do velho deus acorrentado… Lembrei mais uma vez do que Patrick havia falado e dele implorando pra que eu fizesse alguma coisa pra nos salvar...

 Quando eu menos percebi, eu estava empunhando a barra de ferro outra vez. Uma serpente elétrica, super veloz, se esticava de sua ponta e explodia contra o furacão, como um gêiser. 

Álice arrastou Isabel pra trás de mim, em busca de se protegerem.

Eu estava sozinho, pela primeira vez de verdade. Era só eu e aquela fúria da Natureza.

 

— Eu não faço ideia de quem sou… Não faço ideia de que tipo de monstros vocês são… Mas... Mas, MAIS NENHUM DE NÓS, VAI MORRER! NÃO AQUI E NÃO ATÉ ESSA MISSÃO ACABAR! CUSTE O QUE CUSTAR! PODEM TENTAR, PODE CAIR O MUNDO SOBRE NÓS, MAS VAMOS LUTAR! EU NUNCA MAIS VOU HESITAR! NÃO INTERESSA O QUE FOR! VOCÊS TÃO ME OUVINDO, THODDY E PATRICK? NÓS VAMOS IMPEDIR QUE LOKI SE LIBERTE, NÓS VAMOS SALVAR TYR E OS NOVE MUNDOS! 

O gêiser elétrico ficou ainda maior, passando a circular todo o furacão.

— Eles estão. — murmurou Álice, pondo a mão em meu ombro, em busca de me confortar em meios às lágrimas. Mas eu não estava triste, estava com muita raiva e isso não iria se aliviar, até que eu cumprisse tudo o que prometi. — Que as suas almas sejam marcadas pela honra, bravura e coragem... Que as Valquírias do Pai de Todos; Odin, os reconheçam como os guerreiros formidáveis que eram em vida, e os guiem até os portões de Valhalla, onde poderão se juntar aos mais honrados seres que desbravaram esta, ou outras terras... — Ela fez uma pausa em sua prece e respirou fundo. — Se juntem aos meus falecidos amigos, que também caíram em batalha hoje... E que nenhum deles, jamais sejam esquecidos pelos seus.

Só então entendi o que aquela garota sentia o tempo todo, desde que entrou no carro... Ela não fugiu apenas pela missão pessoal de encontrar a irmã perdida... 

Ela também fugiu pra não presenciar o enterro dos amigos. 

O que ela sentia, era uma angústia intragável. Um vazio no peito, impossível de ser preenchido. A sensação de que poderia ter se levantado e salvado à todos, mesmo seu corpo lhe avisando que faltava pouco pra estar morta. E quando percebi isso naquele momento, foi a primeira vez em que eu resolvi apagar tudo o que ela tinha feito, e lhe dirigi um olhar de conforto.

Um olhar que ela se esquivou.

Me voltei para o tornado outra vez, e enquanto berrava em fúria, agitei a arma até que a intensidade dos raios aumentassem.

Em poucos segundos, todo o fogo nele, se extinguiu em uma imensa e quente nuvem de vapor. O furacão voltou a ser apenas de vento e areia, o que não melhorava em nada a nossa a situação, porém foi tudo o que aguentei fazer...

O corpo de Thoddy foi cuspido lá de dentro, assim como outrora foi cuspido da boca daquele gigante. 

 

Perdi as forças pra segurar a pressão da barra de ferro e tombei para trás… Dessa vez, eu não tive convulsões… 

Só coceiras pelo corpo todo, câimbra nos braços e alguns novos machucados por ter caído de cara no chão.

O tornado que enfrentei, pareceu perder o interesse em nós e zuniu em espiral de volta para o céu, nos restando apenas uns 8…

Isabel correu até o corpo do falecido irmão e enquanto fazia massagens cardíacas, aos prantos, implorava por perdão por todas as acusações que fez. 

Confessou que percebeu que aquele não era o tal Raio-mestre de Zeus. E mesmo que fosse, ela só o queria que o irmão ficasse bem.

EU TE AMO MUITO! TE AMO DEMAIS, MEU IRMÃO! Não morre agora, IDIOTA! Não sabe o quanto eu preciso de você na minha vida!! "SOBREVIVEMOS JUNTOS... MORREMOS JUNTOS!", esse era o pacto... Você me prometeu, Thoddy... Prometemos que veríamos às conquistas pessoais um do outro... 

Me sentei e engatinhei rapidamente até eles. 

— Olha... — Murmurei pra ela, tentando me segurar pra não abraçá-la e chorar junto —, sempre achei que o Thoddy fosse só um cara lelé da cuca, que acreditava em monstros... Mas nos dois últimos dias, ele salvou a minha vida de muitas maneiras... E eu nunca vou poder agradecer. Mesmo que vocês dois e até eu às vezes, tivéssemos seguido essa moral distorcida de deixar os outros pra trás, pra tentarmos sobreviver... Sei que bem no fundo, somos pessoas boas... Seu irmão, foi um super-herói de quadrinhos... E achei que ele poderia ser também o amigo que nunca mais tive... Desde que perdi uma das pessoas mais importantes pra minha vida, como sempre por uma idiotice minha. Sei que se eu tivesse agido antes, talvez ele... 

A Doutora não deixou eu completar, pois sem se afastar do irmão, preencheu o vazio no meu peito com o abraço mais apertado e acolhedor do mundo. 

Então, começamos a chorar juntos.

— Já disse que dou minha benção pro namoro de vocês? Eu dou minha benção, só não se peguem quando acharem que eu tô morto... — resmungou o garoto.

Eu não sei explicar o que sentia na hora, se era um alívio ou uma singela felicidade que desprezava o fim que nos aguardava em meio aos carrossel-mortíferos, que continuavam a vir em nossa direção... Mas sei que junto com Isabel, eu o abracei com todas as forças que me restavam.

Thoddy não aguentou retribuir. Apenas sorriu, antes de desmaiar.

— Ei, acabou... — Rosnou, Álice. Não parecendo se referir que irìamos morrer.

Isabel e eu saímos do abraço e nos viramos em sua direção. 

Nos deparamos com ela segurando um garoto ruivo e magricela pelo pescoço em um mata-leão, que já tinha deixado o rosto dele, tão vermelho quanto o cabelo. 

Ele usava roupas maltrapilhas de cowboy. O que me fez pensar que poderia ser o informante... 

Eu não acreditava que um pirralho menor que eu, era o cara mais respeitado e temido por Álice. A Capitã usava uma de suas duas facas, (que deviam estar comigo), pra cutucar a pálpebra dele, em forma de ameaça.

SE RENDAM! — Berrou. — PODEM FICAR COM AS ARMAS E COM OS ESPÍRITOS, MAS SE OS USAREM CONTRA NÓS… IREMOS MATAR VOCÊS! É HORA DA CONVERSA E NÃO TEMOS A NOITE TODA!

Eu sabia muito bem o que era estar diante da ameaça de Álice. 

Lembrava perfeitamente como era a sensação, porquê eu senti ela, no começo daquele dia… Sabia o que era sentir o terror daquelas palavras ressoando nos ouvidos e ter certeza de que eu era incapaz de fazer qualquer coisa pra pará-la.

Era a mesma sensação de ver aqueles tornados se aproximarem...

 Foram eternos segundos, até que todos os furacões parassem. Assim, de repente... e dessem lugar a várias silhuetas sinistras.

Uma verdadeira tropa de cowboys. 

Todos apontando pistolas para nós. 

E o líder deles, havia ultrapassado todos nós em segundos, sem que os nossos olhos pudessem acompanhá-lo. 

Segurava uma arma branca, como suas roupas e chapéu, que tocava a franja azulada da Capitã. 

A outra mão dele, segurava o fuzil dela, impedindo que a mesma o erguesse, porquê por desespero, Álice havia se atrapalhado e soltado tanto a faca, quanto o refém. 

Aquele, era definitivamente o informante... 

O tal do Xerife.

 

O que "cês" querem por essas bandas, demônios?

 

Continua...



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