História Jardim - Capítulo 1


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Categorias Shingeki no Kyojin (Attack on Titan)
Personagens Levi Ackerman "Rivaille", Mikasa Ackerman
Tags Rivamika
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Palavras 8.688
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo
Avisos: Heterossexualidade, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Parece brincadeira não consigo postar aaaaa
Enfim
É bobinha pq aliviei o estresse ahhahah
Imaginei os animais como espíritos da floresta

Capítulo 1 - Campânulas e girassóis



  - Você sabe que isso é completamente desnecessário, não é? - Ymir falou, escorada no tronco rugoso de uma árvore morta e seca - Não vamos sequer sobreviver por mais tempo.
  Observava Mikasa Ackerman ajoelhada na terra ressequida e quebradiça, suja até a raiz dos cabelos curtos, com os braços arrancando ervas daninhas e raízes mortas.
  A garota tentava cuidar de uma pequena área que mal podia ser chamada de jardim, nos fundos da grande casa de pedra que servia como base da Tropa de Exploração.
  - Isso não é da sua conta, Ymir - respondeu ríspida, limpando o suor da testa e manchando ainda mais a pele clara. 
  A blusa branca e a calça do uniforme estavam irreconhecíveis, praticamente camufladas à terra vermelha, e Mikasa mais parecia um bicho selvagem que uma soldado respeitável.
  - Argh, Mikasa, quem perde tempo é você. - e saiu dali, chutando um graveto e marchando dura até algum lugar qualquer. 
  Realmente era perca de tempo, Mikasa podia muito bem estar gastando energia com algo mais proveitoso, como cuidar do irmão e Armin, até mesmo em atividades da tropa. Mas estava enterrada no meio do mato, em uma tentativa infantil de plantar um jardim nos fundos da base. Não era dada a atividades desnecessárias e irresponsáveis assim, mas estava tão cansada de tudo que vira nessa oportunidade uma rara chance de alívio. 
  Na noite passada sonhara com a família morta, e pela primeira vez acordara com um mínimo sentimento de paz. Colhia ervas no jardim bem cuidado de sua antiga casa, com a mãe, e o pai a observá-las de longe. Acordou com um sentimento no peito, que crescera até se transformar naquele projeto descabido.
  Então em um impulso se dirigira - assim que acordara - até a propriedade coberta de mato nos fundos da casa de pedra. Abandonada e tomada pela natureza selvagem, um pequeno pedaço de terra dentro de um círculo de pedras baixas indicava que há um tempo muito longo aquilo já fora um jardim. Ou tentara ser.
  Mikasa estava determinada a transformar aquilo em um lugar de paz e refúgio, onde o mundo cruel seria apenas uma lembrança assustadora...
  Limpou todo o terreno, arrancando as raízes das pedras redondas, ervas daninhas e plantas mortas. Até a grama ela aparou. 
  Para um primeiro dia era um bom começo. 
  Depois de espantar um esquilo que roubou seu lanche - que a preocupada Christa levou para ela - ser atacada por um gambá revoltado e ainda sendo observada por um cervo muito tímido, Mikasa havia progredido significativamente em seu trabalho auto imposto.
  Seus amigos haviam ido vê-la, alguns soldados que não conhecia também, todos curiosos com a garota que utilizou a folga rara para cuidar de um lugar que provavelmente abandonariam em breve. 
  Eren também fora atacado pelo gambá violento, Armin fora o único que conseguira se aproximar do cervo e Jean se ofereceu para ajudá-la. Mikasa concordou e na próxima folga ele viria.
  Ela mesma estava cinco dias de folga. Há meses não descansava um dia sequer, e com a relativa paz o comandante quase a obrigara a descansar.
  Claro que estava em alerta, mas poderia se dedicar a qualquer atividade que quisesse e quando quisesse.
  A garota fazia o máximo para ficar isolada na maior parte do tempo.
  O sol parcialmente escondido entre montanhas indicava que a hora era avançada, e Mikasa suspirou ao se erguer da terra, pela primeira vez observando o estrago na própria roupa.
  Além da sujeira, um rasgo enorme abria o tecido sobre sua coxa, a pele por baixo salpicada de lama. Bem, ossos do ofício. 
  Limpou - tentou - a palma da mão na blusa e tirou o cabelo do rosto, pegando as ferramentas e guardando na bolsa.
  Com certeza seus amigos estariam curiosos no jantar, e ela riu ao imaginar a reação deles se a vissem nesse momento. A sempre perfeita soldado Ackerman descomposta, suja e rasgada. Mas Mikasa nunca fora orgulhosa e seu objetivo era mais importante que simples deboches.
  Ao terminar, sua família estaria mais próxima, e um pedaço deles e seu viveria naquele jardim.
  Caminhou calmamente dali, pegando a trilha salpicada de miúdas flores violetas até a casa - viu o cervo se aproximar assim que se afastou.
  - Mikasa! - Jean acenava de longe, sorrindo, indo em direção a Mikasa - Minha nossa, aquele gambá fez tudo isso?
  Indicou o rasgo na coxa e os vários arranhões abertos nas pernas. Mikasa riu e balançou a cabeça. 
  - Acho que não se deve subestimar a natureza. 
  Os olhos de Jean brilharam ao vê-la sorrir, o próprio sorriso ficando mais largo.
  - Na minha próxima folga, eu vou te ajudar - Jean estava visivelmente ansioso, e aquilo fizera o riso de Mikasa se transformar em uma gargalhada.
  - Ah, que bom, aquele gambá não perde por esperar! - realmente seu humor havia melhorado demais com o projeto.
  Jean estremeceu e ruborizou, a frase seguinte saindo gaguejada.
  - Se... Se você quiser, não, e-eu vou... Irei amanhã depois do treinamento! - vermelho como um tomate, Mikasa mal compreendeu suas palavras.
  Ela ponderou, Jean queria mesmo ajudá-la, mas provavelmente só atrapalharia estando tão cansado assim.
  - Acho que você precisa descansar depois de treinar, mas podemos discutir algumas ideias - levantou o cabelo da nuca e o segurou com a mão, por causa do calor.
  Jean pareceu levemente desapontado, mas sua expressão se iluminara quando Mikasa sugeriu um encontro depois.
  - Sim! Sim... Po-podemos discutir sim! - sussurrou, atrapalhado novamente. 
  - Quem bom, nos vemos no jantar então - Mikasa acenou e continuou seu caminho até a casa, alheia ao sorriso imenso e o coração acelerado que deixou para trás.
  Assim que pisou na cozinha - entrou pela porta dos fundos - vira Eren sentado na mesa rústica, com Hanji a sua frente anotando respostas em um caderno. 
  Eren a olhara de cenho franzido, como se não a reconhecesse, depois começou a rir como o idiota que era ao reconhecer a irmã.
  - Eren, pare de se sacudir assim! - Hanji o repreendeu, olhando-o pelas lentes grossas.
  - Desculpe, Hanji, mas não é todo dia que minha irmã parece um filhote de urso - apontou para Mikasa e Hanji olhou para trás. 
  - Uau, Ackerman, espero que Levi não te veja assim - sorriu ao encarar a subordinada.
  Mikasa ruborizou e encarou o irmão com raiva. Teria de conversar com ele depois, estava morrendo de vergonha por ter uma superior vendo-a nesse estado de descompostura.
  Eren pareceu perceber o que o aguardava, pois voltou a capturar a atenção de Hanji com o assunto preferido dela: titãs. 
  Aparentemente eles estavam discutindo novamente sobre a transformação dele em titã, e passavam cada vez mais tempo juntos. Até viravam algumas noites conversando, já vira o irmão sair do quarto de Hanji de manhã e com olheiras imensas.
  Saiu dali a passos leves, tentando não ser notada - e muito menos encontrar alguém - pelos corredores. 
  Estava realmente parecendo um filhote de urso.
  Subiu as escadas espalhando terra por onde pisava - a lama já começara a endurecer em suas pernas, restringindo seus movimentos. Não queria nem imaginar como a próxima equipe de limpeza reagiria ao ver aquela bagunça toda.
  Deu um sorrisinho e abriu a porta de seu quarto, cantarolando uma música da infância remota, encontrando Sasha encolhida de medo, Christa protetora na frente dela e Ymir balançando uma batata meio mordida e meio purê entre seus dedos fortes.
  Gritavam qualquer coisa inteligível, a qual Mikasa não deu a mínima, continuando a cantar e pegando uma troca de roupa qualquer. 
  Dirigiu-se ao vestiário feminino e fechou a porta calmamente, estranhamente feliz como em anos nunca esteve. 
  Estava sendo muito bom cuidar do jardim, seu humor já havia melhorado e ainda era só o primeiro dia.
  Despiu-se se frente para o espelho, vendo a pele marcada de hematomas, arranhões - gambá maluco e violento - e sujeira. A terra caía no chão conforme a roupa era tirada.
  Nua e suja, parecia uma personagem de algum conto encantado que sua mãe contava. Sorriu um pouco ao se imaginar como um duende que habitava as profundezas da terra.
  Moro nas cavernas e danço ao som de flautas de bambu, e tenho o maior jardim do mundo...
  Virou-se e caminhou até a banheira, resmungando sobre ter de trocar a água até ficar limpa. Mas valeu a pena, o lugar estava quase decente. Mais um ou dois dias de limpeza e já poderia procurar mudas e sementes.
  A água quente relaxava seus músculos, e um suspiro de contentamento deixou seus lábios enquanto a sujeira coloria a água de um marrom avermelhado. 
  Na terceira troca de água, já se sentia mais limpa. Correu os dedos pelos cabelos, tirando as mechas do rosto e apoiando a cabeça na borda da banheira. 
  Ouviu os passos dos soldados no corredor, deveriam estar descendo para o jantar. Ergueu o corpo dolorido da água, com preguiça de ir mas morrendo de fome para ignorar.
  Ainda tinha sol, e o jantar só era servido na escuridão completa, portanto não teve pressa ao se trocar. Sua última troca do uniforme estava suja e rasgada, então colocou a calça padrão e uma blusa que deixava os ombros de fora, as mangas levemente soltas e azul escura como o céu.
  O cabelo ainda pingava quando desceu as escadas, a expressão tão leve como nunca estivera.
  - Jean - cumprimentou o amigo, quando cruzara sem querer com ele na entrada do salão comum.
  Jean também havia tomado banho, mas diferente dela vestia o uniforme completo.
  - Mikasa - levou a mão à nuca, desviando o olhar para o chão - Está bem bonita. 
  O amigo corou e Mikasa pensou que ele era mesmo muito tímido, parecia encontrar coragem somente quando brigava com Eren.
  - Obrigada, Jean - respondeu.
  Caminharam juntos até a mesa principal, o amigo gaguejando sobre como estava ansioso para arrumar o jardim junto com ela, e Mikasa animada contando sobre as flores que gostaria de plantar.
  Ela não era à única a se vestir fora do uniforme. Petra, sentada a sua frente na longa mesa, também estava de folga e usava um delicado vestido verde que favoreceu muito seu cabelo ruivo.
  - Esse tom ficou muito bonito em sua pele, Mikasa - a veterana sussurrou baixo, elogiando a soldado.
  - Ficou mesmo - Jean concordou prontamente - Mikasa é mesmo muito bonita.
  Petra deu uma risadinha cúmplice e olhara de Jean para Mikasa com um olhar analítico. 
  - Oh - a garota estava constrangida e corada - Obrigada.
  Se Mikasa não estivesse tão envergonhada e com a atenção presa a Jean - que a distraía com uma conversa qualquer novamente - teria reparado na expressão de pura maquinação diabólica da ruiva a sua frente. 
  Petra assegurou-se de que Mikasa estava distraída, colocara o cabelo atrás da orelha e discretamente virara a cabeça para encarar a figura sombria e taciturna sentada ligeiramente afastada, no canto da mesa, com a expressão entediada de sempre.
  Os olhares se encontraram - o castanho incisivo que parecia forçá-lo a tomar uma decisão e o cinza desinteressado que sufocava as próprias vontades - e Levi fingiu que nada estava acontecendo.
  Insatisfeita com a reação do amigo, Petra se dirigiu novamente à moça a sua frente.
  - Então, Mikasa - os olhos negros pousaram na figura pequena - Soube que está plantando um jardim. 
  Eren riu e se intrometeu na conversa, inclinando-se do canto oposto a irmã. 
  - Na verdade ela está quase sendo engolida pela selva.
  - Eren! - Armin repreendeu o amigo, a discussão que eles iniciaram logo sendo esquecida na roda.
  - Estou sim, senhora - ela respondeu, corada pela interrupção do irmão.
  Petra soube que o capitão prestava atenção pela mínima inclinada de sua cabeça em direção a moça. 
  - Não precisa me chamar de senhora - sorriu para ela e Mikasa retribuiu.
  Uau, era raro vê-la sorrir. Todos da mesa pareceram parar um minuo e admirar discretamente a beleza que era Mikasa sorrindo. 
  - Me conte sobre isso. - Petra pediu docemente e a soldado atendeu, a animação contida em sua voz.
  - Quando eu era criança, minha mãe tinha um jardim...
  O que começara como uma forma de tentar ajudar o amigo antissocial a se aproximar de alguém que poderia interessa-lo, se tornou um assunto realmente interessante para Petra, e para todos que ouviam na mesa também.
  Talvez fosse o feitiço do sorriso de Mikasa aliado aos ombros pálidos naquela blusa que a deixava mais bonita. 
  O fato é que o capitão Rivaille prestou atenção, e até se interessou pelo projeto descabido da garota que sua amiga jurava ser perfeita para ele. 
  Depois de um tempo, o jantar terminou e lentamente os soldados se retiraram. 
  Mikasa foi um dos primeiros a subir, estava exausta e a cabeça doía levemente. Os arranhões na pele ardiam e ela jurou fazer um cachecol para Christa da pele daquele gambá. 
  Mal deitou na cama e o dia já nascia novamente. 
  Um dia preguiçoso, frio e úmido. A chuva mansa escorrendo nas vidraças, encharcando o solo e prejudicando os treinos da tropa. Mikasa se permitiu ficar mais um pouco na cama.
  - Mikasa! - batidas incessantes na porta e gritos agudos a despertaram totalmente. 
  Tropeçando nos próprios pés, abriu a porta e encontrou os olhos alucinados de Hanji. 
  - Hanji - sua voz estava rouca - Bom dia.
  A cientista sorriu, gesticulando com as mãos. 
  - Bom dia - um trovão soou bem longe dali - Desculpa interromper sua folga, mas precisamos de ajuda com alguns papéis. 
  A expressão dela estava estranha. Claro que Hanji era estranha sempre, mas dessa vez estava pior. Não parecia nada incomodada em interromper o descanso da soldado.
  Mikasa pensou, olhou de relance para a janela e para a chuva que caía pacificamente. É, não daria para trabalhar no jardim, então o que custava ajudar os superiores? Não gostava de ficar parada, de qualquer forma. 
  - Claro, Hanji - respondeu por fim - Só me dê um segundo - apontou para o pijama que uava.
  Hanji deu um pulinho bem animado e bateu palmas.
  - Vá à sala do comandante em uma hora - e ela sumiu pelos corredores, saltitando.
  A jovem soldado não viu o sorriso satisfeito que surgiu no rosto de Hanji conforme ela se afastava. 
  Vestiu a mesma calça que usara no jantar, roubando uma blusa branca do uniforme limpo de Sasha. Olhou no espelho e resolveu prender o cabelo, sempre o usava solto e como lidaria com papéis o dia a inteiro deveria tirá-los do rosto. Fez um coque, alguns fios curtos escapando, e até penteou a franja. Enrolou o inseparável cachecol no pescoço.
  Mikasa sentia o próprio humor mais leve, e até uma mínima felicidade despontava em seu peito. Achou que deveria ter cuidado de um jardim há tempos.
  Ainda tinha tempo até o horário marcado por Hanji, então desceu até a cozinha e procurou algo para comer.
  - Bom dia, Armin - surpreendeu o amigo, que estava de costas, com um mínimo abraço surpresa que durou dois segundos. 
  - Oh! - o loiro deu um pulo de susto - Bom dia, Mika!
  Ele sorriu e ela sentiu muita vontade de sorrir também. E o fez.
  - Como vão as atividades da tropa? - puxou assunto enquanto comia uma maçã meio verde. 
  Armin sentou em uma cadeira, o corpo visivelmente exausto.
  - O de sempre, estamos exaustos física e mentalmente - suspirou - Mas eu percebi que tem alguma estranha...
  - Ymir, não! - Christa entrou na cozinha, tentando conter uma Ymir furiosa - Ele só escorregou!
  O lábio inferior da loira estava cortado e manchado de sangue, Ymir estava uma fera e Connie surgiu pela entrada principal, correndo desesperadamente escada acima.
  - Ninguém machuca a minha Christa! - e partiu atrás no pobre garoto, sendo seguida de perto por Christa, que tentava acalmá-la.
  Mikasa terminou de comer calmamente, jogando os restos da fruta no lixo.
  - Então, o que está estranho? - perguntou para Armin.
  O loiro já havia levantado e tomava coragem de voltar para o treinamento. 
  - Ah, não é nada, nos vemos mais tarde. - e saiu caminhando.
  Mikasa deu de ombros e se espreguiçou, afastando qualquer traço de sono que residisse em seu corpo. 
  O som da chuva acompanhava os passos da garota, que ao virar um corredor se deparara com Ymir espancando Connie. Mikasa não deu a mínima atenção, apenas desviou levemente para a esquerda, evitando se chocar com a confusão. 
  Parou em frente a porta do comandante, alisou a blusa - deu uma leve ajeitada no coque - e tocou levemente na madeira. 
  A porta fora aberta e ela piscou, tonta, por um momento. O comandante Erwin a olhava do alto de toda aquela beleza desumana, e Mikasa sentiu as bochechas arderem.
  - Olá, Ackerman - inclinou suavemente a cabeça - Espero que não nos odeie por dar tanto trabalho na sua folga. 
  Ele sorriu e gesticulou para ela entrar, saindo dali e fechando a porta logo em seguida. Mikasa entranhou, mas talvez Smith tivesse assuntos para resolver em outro lugar.
  A sala estava iluminada por várias velas, completamente vazia, e somente o capitão Rivaille - com uma cara muito mais fechada que o normal - estava inclinado sobre a mesa, analisando uns papéis.
  - Ackerman - ele sequer olhara para ela - Separe os relatórios em ordem cronológica. 
  Apontou para uma pilha amarelada, e Mikasa dirigiu-se até ele.
  Olhando os papéis, era um volume muito grande e uma longa amplitude cronológica, então agarrou a pilha e sentou-se no chão, começando a organizar as folhas.
  O trabalho era simples, mas chato, e logo sua mente foi transportada para o jardim. Podia imaginar as flores brotando, as borboletas sendo atraídas e a vida pulsando. Nem percebeu quando um sorriso tímido brincou em seus lábios. 
  A chuva mansa e o crepitar do fogo eram os únicos sons ouvidos na sala, e Mikasa apreciou o silêncio acolhedor. O capitão não era de falar, mas era tranquilo e na dele, a companhia perfeita para uma mente avoada. A soldado estava assim, com a cabeça distante no meio das flores. 
  Mais ou menos duas horas depois, uma batida na porta tirara Mikasa de sua concentração.
  - Entre - o capitão disse, e a porta se abrira para revelar um Jean nervoso que segurava uma coisa com força entre as mãos. 
  - Senhor, eu poderia falar com Mikasa um instante? - perguntou, trêmulo. 
  Rivaille franziu o cenho, lançando o melhor olhar "Eu vou te matar, ressuscitar, e matar de novo" que era capaz, mas permitiu com um aceno duro de cabeça. 
  - Jean? - Mikasa andara até a porta, escorando-se no batente e olhando com devoção o pequeno embrulho nos braços do homem. 
  - E-Eu achei que... Você fosse gostar - estendeu o vaso de campânulas roxas para ela - Você disse que eram suas preferidas, e vão ficar lindas no...
  Ele não conseguira terminar, Mikasa sorriu tão lindamente que o desconcertou. Ela era tão linda sorrindo. Jean se sentiu o homem mais sortudo do mundo ao ser a causa disso, e se prometeu que faria o necessário para vê-la sorrir sempre. 
   Mikasa pegou o vaso com delicadeza, mal reparando que Jean corara quando suas mãos se esbarraram.
  - Kirstein - Levi interrompeu a interação que o deixava ligeiramente desconfortável - Ackerman está ocupada agora.
  Jean olhou para o capitão sobressaltado, como se só agora lembrasse da existência do homem que o fuzilava com o olhar.
  Saiu dali tropeçando, e Mikasa voltou para seu lugar no chão com o sorriso mais pronunciado. Colocou o vaso ao seu lado, e cada vez que erguia os olhos para fitar as flores com aquele sorriso lindo, Levi queria chutar a planta com toda a força. E chutar Jean Kirstein com sua cara de cavalo.
  Voltou ao trabalho mais mau humorado. 
  Mikasa estava exultante, mal podia acreditar que tinha uma muda maravilhosa de sua planta preferida. Era raro ver campânulas naquela região, e Jean procurara uma de sua cor favorita apenas para seu jardim. Com os dois cuidando juntos daquele pedaço de terra, seria o jardim mais lindo da humanidade inteira em breve. 
  Mal percebeu o tempo passar, então o capitão já a dispensava dali.
  - Ackerman - ele disse quando ela colocou a pilha organizada sobre a mesa - Por que resolveu fazer isso agora?
  Ela sabia que "isso" se referia ao jardim. O capitão, diferente das outras pessoas, perguntara exatamente o objetivo daquela empreitada toda.
  Mikasa olhou para a chuva, caindo atrás dele na janela, lavando a terra.
  - Me resolver comigo mesma - olhou para o capitão - E deixar as flores nascerem. 
  Um olhar tímido dela foi o suficiente para confundir a cabeça já perturbada do capitão. 
  Olharam-se por um longo tempo, ele tentando desesperadamente decifrar a jovem e os próprios sentimentos, ela admirando pela primeira vez as feições do homem a sua frente. 
  No fim se tornaram um pouco mais confortáveis com a presença um do outro.
  Ele abriu a boca e hesitou.
  - Está dispensada.- disse por fim, ainda a analisando com os olhos cinzas. 
  Mikasa saiu de lá sem pressa, a mente reprisando as expressões de seu capitão. Até que ele era bem bonito. Corou por pensar assim de um superior.
  O jantar transcorreu sem nenhum acontecimento especial, exceto Eren ter afirmado que o gambá assassino estava o perseguindo. Mikasa não duvidava, aquele animal dissimulado era bem capaz disso.
  No dia seguinte o sol brilhava, límpido, no céu azul salpicado de nuvens profundas.
  A garota mal parava quieta, arrumando as ferramentas necessárias com rapidez e colocando um vestido velho qualquer - nem ligou para as canelas de fora. Praticamente correu para o jardim, para encontrar as pedras redondas e baixas brilhantes da chuva da véspera, a terra úmida e o cheiro de vida.
  Sorriu, estava perfeito para abrir os sulcos no chão. O vaso precioso de campânulas jazia em seus braços, a primeira planta a habitar o jardim. Se lançou ao trabalho e nem viu o tempo passar.
  Quando juntava terra sobre as raízes da flor, terminando de assentá-la na terra, o cervo tímido de pintinhas claras se aproximou dela pela primeira vez.
  - Olá, amiguinho - sussurrou, imóvel e ajoelhada na terra.
  O animal andou até ela, a postura pronta para correr dali ao menor sinal de perigo. Mikasa olhou encantada dentro dos olhos escuros dele. Só mais um pouco e ele encostaria o focinho na testa dela...
  Som de passos estalando nas pedras assustaram o bicho, que sumira feito um raio. Mikasa suspirou, lá se foi sua oportunidade de amizade com algum animal simpático. 
  - Nunca vi um cervo por aqui - era a voz do capitão Rivaille? 
  Mikasa se levantou, vendo o olhar de desgosto do capitão ao notar a sujeira em seu corpo e vestido claro. Trazia algo nos braços. 
  - Aqui - jogou o pacote para ela - Espero que pegue, é minha erva preferida.
  E sumiu tão rápido quanto havia aparecido. Mortificada, Mikasa abrira o embrulho e se deparara com a raíz de uma erva perfumada, que lembrou-lhe imediatamente o cheiro dos chás do capitão. 
  Riu, voltando ao trabalho e achando que o jardim faria bem não apenas a ela.
  Parada fora do círculo de pedras, Mikasa observou o progresso do seu jardim. Ah, estava bem bonito. A terra bem tratada e úmida, pequenas pedrinhas dividindo os futuros canteiros e no centro do círculo a campânula oscilava na brisa leve, espalhando o odor suave e iluminando o verde ao seu redor. A raíz da erva de Levi fora plantada próxima da flor, e, como ele, esperava que a planta pegasse.
  O sol descera, os raios brilhando uma última vez e tingindo de púrpura o roxo delicado da campânula. Mikasa observou o vestido amarelo todo sujo, suspirou e pôs-se a caminhar até a casa de pedra.
  Estava quente, abafado. Com certeza a chuva do dia anterior voltaria mais tarde.
  - Sobrevivendo a sujeira? - Eren tirou uma folha do cabelo da irmã - Gostei do novo penteado.
  Ele sorriu para ela, apontando para o coque meio destruído.
  - Não é fácil trabalhar com o cabelo na cara - respondeu, sarcástica.
  Seu relacionamento com Eren era na base da super proteção, provocações e ameaças. Ninguém podia negar que se amavam.
  - Pelo menos a terra te deixou mais bonita. 
  Mikasa o encarou, confusa.
  - Assim ninguém vê a sua cara direito. 
  E o desgraçado saiu correndo antes do tapa dela o alcançar. Menino titã imbecil e escandaloso. 
  Olhou para o céu e percebeu que os últimos raios ainda brilhavam, teria mais algum tempo até escurecer totalmente. Na última missão de campo, vira margaridas perto da floresta...
  Tomando cuidado para ninguém ver o que faria - afinal não era natural, e Mikasa duvidava que fosse sequer permitido, sair da base durante a noite. Caminhou até os estábulos, planejando selar um cavalo qualquer e dar uma escapada até as flores.
  Mas ao chegar próxima da estrutura de madeira, se deparou com uma cena surpreendente. O capitão Rivaille estava ao lado de um garanhão negro, penteando sua crina e com os olhos suaves como nunca vira antes. Sem fazer barulho, Mikasa ficara paralisada na entrada, o corpo meio escondido em um monte de feno. Pensou em voltar para a casa antes que ele percebesse que estava ali, pensou em entrar e escovar um cavalo qualquer - afinal ele já deveria ter percebido que ela estava ali.
  No fim optou por sair correndo, evitando uma bronca por quase sair a noite e pela sujeira absurda que incrustava sua pele. Quando deu o primeiro passo, congelou.
  - Como cosegue ficar tão suja, Ackerman? 
  Ele sequer a olhou, mas a garota não duvidava que o capitão sabia exatamente onde ela estava.
  Saiu do esconderijo, algum feno grudado no cabelo e caído sobre a roupa.
  Levi olhou para ela, o descontentamento evidente nos olhos cinzas, e não esperou uma resposta. Voltou a escovar o cavalo tranquilamente. 
  A crina negra estava repleta de nós, e o animal relinchava enfurecido cada vez que o capitão forçava a escova em se pêlo emaranhado. 
  Mikasa se compadeceu do animal embaraçado, pegou ela mesma outra escova e colocou-se ao lado oposto ao capitão, ajudando a escovar o animal.
  Tocou levemente no cavalo, ambos os olhos negros se conectando. O garanhão era bem agitado e desconfiado, mas fora se acalmando progressivamente com o toque de Mikasa. 
  Levi a olhou intrigado assim que escorregara os dedos sobre o pêlo do cavalo.
  - O que foi? - perguntou ao capitão, desconfortável.
  - Ele é violento - franziu as sobrancelhas - Não aceita a aproximação de ninguém. 
  Mikasa olhou para o cavalo que ainda a mirava desconfiado. Mas parecia se acostumar com ela e relaxava lentamente. 
  - Talvez ele só precise se acostumar - respondeu, seguindo com suas carícias. 
  Não viu o olhar confuso que Levi dirigira a ela, logo o desviando para o cavalo. 
  - Talvez - concordou em um fio de voz. 
  A sujeira parecia tatuada em sua pele, não importava o quanto esfregasse, ainda estava imunda. Até galhos secos estavam emaranhados nos cabelos. 
  Mikasa gemeu e esfregou a pele com mais força, impaciente. 
  O jantar deveria ter começado há tampos, não queria ficar com fome. A chuva caía tranquilamente, o barulho calmante sobre as telhas. Avermelhando consideravelmente a pele clara, arrancara a sujeira na base da violência, desfazendo os nós do cabelo da mesma forma. Mal se vestira adequadamente, desceu apenas de regata branca, a camisa padrão esquecida em algum lugar.
  Quando chegou no grande salão, não havia ninguém lá. Girou o corpo, procurando por algum sinal de vida. Não poderia acreditar que perdera o jantar justo no dia que estava com fome. Teria que apelar para Sasha, e rezar para a garota dividir a comida reserva. 
  Aproveitando o raro momento de solidão, apoiou o corpo na mesa e deixou a mente vagar. Podia sentir os pingos de água caírem dos cabelos, escorrendo pelo fino tecido de suas costas.
  Realmente imaginou que levaria uma bronca do capitão, no estábulo. E não apenas isso a surpreendera, mas a tranquilidade dele ao escovar o cavalo. Não que Rivaille não fosse calmo, mas Mikasa sabia que por trás da expressão vazia dele havia uma mente furiosa e estrategista. Naquela tarde vira uma face dele que nunca pensou ser a pessoa permitida a ver. 
  Suspirou. 
  Por que o capitão estava em seus pensamentos dessa forma? 
  Deveria procurar Sasha, depois Eren, e ver se o irmão estava bem. Sim, faria isso e tentaria ignorar o calor no peito que surgira quando Rivaille se preocupara em dar uma raíz para seu jardim. O homem mais forte da humanidade, que não se preocupava com nada e ninguém além de seu objetivo militar, de alguma forma encontrara uma planta especial para o jardim. 
  Aquilo a deixava nervosa e estranhamente emocionada nas mesmas proporções. 
  Estremeceu, cortando as emoções absurdas e tentando trazer a razão de volta.
  Claro que ele fizera aquilo por que esperava ter uma fonte mais acessível para seu chá. Não fora pelo jardim. Não fora por ela. O que Mikasa estava pensando? O cansaço já deveria estar danificando seu raciocínio. 
  O aroma a atingiu antes de qualquer coisa. Amargo, forte e quente. Mais afastava do que atraia, e Mikasa se perguntou por que ele gostava daquilo.
  - É visível que o cheiro te incomoda. - ele sorriu de canto, surgindo ao lado dela.
  Ele sorriu.
  Talvez a garota estivesse sonhando.
  - Parece ser bem amargo.
  - E é - Levi levou a xícara aos lábios, alheio ao calor extremo que avermelhou a pele.
  Mikasa não conseguia tirar os olhos de lá. 
  Levi a encarou por meio segundo, o ambiente tenso ao redor do casal inusitado.
  - Quer provar? - ofereceu o líquido quente, a porcelana na direção dela.
  Aquilo era muito, muito estranho. Levi Rivaille, o homem mais obcecado por limpeza de toda a humanidade, oferecendo chá da própria xícara? 
  Mikasa se perguntou se não havia pego uma insolação e alucinado.
  - O quê? - perguntou, consternada.
 Ele rira novamente. 
  - O chá - a olhava divertido - Você quer? 
  Pensou e repensou, e no final concluiu que estava realmente curiosa com o tal chá. 
  Envolveu a porcelana com os dedos, sem querer esbarrando na mão dele e corando feito um tomate. Aproximou a xícara do rosto e cheirou o conteúdo. 
  Ugh, extremamente forte.
  Mas os olhos dele pareciam desafiá-la, então Mikasa juntou coragem e deu um gole pequenino.
  Queimou a língua e os lábios, e afastou a xícara, arfando e praguejando.
  Levi tomou o chá de volta, levando a porcelana branca a boca e olhando-a de um jeito muito estranho.
  - O que achou? - perguntou. 
  A cada arfar da garota, a parte queimada da língua parecia arder em chamas.
  - Me queimei - a voz dela saiu enrolada. 
  Ele se aproximou e tocou seu queixo com delicadeza, virando o rosto dela no ângulo correto. O polegar acariciou o lábio ferido e Mikasa tremeu, mas não de dor.
   - Está vermelho, mas não vai sair bolha - a voz dele estava rouca.
  Levi estava perto demais, a luz das velas iluminando de uma forma tênue as feições masculinas. Uma força invisível a atraía para ele. 
  De repente toda a fome desaparecera, pois seu estômago estava repleto de borboletas. 
  - Eu... Vou subir - Mikasa quebrou o clima completamente, dando uma desculpa qualquer para apenas sair dali.
  Se afastou do toque dele, subiu as escadas feito um foguete e ficou no corredor, o coração acelerado e ofegante. 
  Levou uma mão ao peito, sentindo o órgão disparado. Ah, se pudesse sentir os dedos dele sobre os lábios novamente...
  Inconscientemente, levou os próprios dedos ao lábio ferido, em uma tentativa inútil de sentir o toque dele novamente.
  Por Deus, ele era o capitão, seu superior! 
  Não um soldado comum, um garoto qualquer que poderia povoar suas fantasias. Sequer a mesma idade possuíam, era ridículo pensar nele assim. 
  Nunca, em sua vida inteira, nunca se interessou por ninguém. Vivia apenas para o restante de sua família, sua promessa para com Carla. Não imaginava que iria se aproximar emocionalmente de outro alguém - os amigos que fizera já foram surpresa o suficiente - mesmo que fosse uma via de mão única. 
  Que Deus nunca permitisse que o capitão Rivaille sequer desconfiasse da atração ínfima de sua soldado mais competente. 
  Nem Mikasa sabia direito o que sentia, só queria o toque dele novamente. Nos lábios ou em qualquer outro lugar.
  Gemendo desesperada, escorregou as costas pela parede e sentou no chão, envolvendo as pernas com os braços. 
  Estava se sentindo tão bem ultimamente, não queria o sentimento de impotência e obscuridade de volta, mesmo que fosse por uma nova razão. Não quando o jardim a fazia esquecer de todo mal...
  O jardim.
  Era exatamente dele que precisava, não ficar sentada remoendo os sentimentos e esperando um toque que jamais viria.
  Levantou-se com calma, o corpo apoiado na parede. Evitou os corredores que sabia estarem com gente, rápida e silenciosa, saiu da casa sem que ninguém visse. 
  Só diminuiu o ritmo dos passos ao avistar o jardim, um candelabro roubado reluzindo nas mãos. Apoiou o metal nas pedras, sentando ao lado da campânula e esquecendo que usava calças brancas.
  Ouviu o som de folhas e passos nervosos na mata, e imaginou que os animais fugiam da invasora.
  Até que percebeu que não estava sozinha.
  - Está me perseguindo? - a pergunta aguda saltou de seus lábios.
  Levi estava meio escorado, meio deitado, sobre duas grandes pedras fora do círculo do jardim. 
  Só podia ser brincadeira. 
  - Posso dizer o mesmo, Ackerman - ele sussurrou, sem desviar os olhos das estrelas. 
  Diferente das últimas vezes, seu sobrenome não foi proferido com ironia ou sarcasmo. Parecia uma carícia dito assim, pela voz rouca dele.
  Mas o que estava acontecendo?!
  - Por que está aqui? - você devia controlar a língua, Mikasa. 
  Se repreendeu mentalmente e esperou pelo esporro aterrorizante do capitão. Odiou-se pela pergunta insolente.
  Os olhos dele se estreitaram, mas fora a única reação negativa vinda de Levi. 
  - Pelo mesmo motivo que você - ele retrucou, virando o rosto e a fitando intensamente. 
  Mikasa parou de respirar. 
  - E por que eu estou aqui? - perguntou, a voz fina e fraca.
  O capitão não respondeu imediatamente. Se ajeitou sobre as pedras e respirou fundo.
  - Porque eu atraio você - voltou os olhos para as estrelas - E você me atrai demais para o próprio bem. 
  Ele parecia levemente melancólico ao constatar isso, completamente diferente da garota que a beira de um ataque de nervos a sua frente.
  Mikasa sugou o ar mas não foi o suficiente, o coração galopando no peito e as mãos suadas. 
  Levi suspirou, olhou para ela e abriu os braços. 
  Aquilo estava mesmo acontecendo? 
  Se encararam por um tempo infinito, até que ela andou até ele. Não sabia que força oculta obrigou suas pernas a se moverem, mas de alguma forma se arrumou na pedra ao lado dele, o rosto apoiado em seu peito e completamente envergonhada.
  - O que está acontecendo? - perguntou, ao sentir os braços dele envolverem seu corpo e a pressionarem contra si.
  Ficaram assim, abraçados, olhando as estrelas e perdidos no toque mútuo.
  O cheiro dele era bom, o mesmo do chá, só que sem o exagero da mistura de ervas. Se aconchegou mais no calor dele e Levi acariciou os cabelos negros dela.
  - Não sei - ele estava com os olhos perdidos no brilho dos céus - Mas eu gosto.
  Mikasa suspirou e o apertou levemente, as mãos dele escorregando para a cintura da garota e a puxando para que ficasse em cima dele.
  Encarando aqueles olhos cinzas e frios, Mikasa deu o primeiro passo para o abismo sem volta. 
  - Eu também gosto.
  Então ele rolou sobre a pedra, colocando-se por cima dela. As costas de Mikasa estavam pressionadas conta a pedra fria, a cintura presa por uma mão dele, enquanto a outra acariciava seu rosto.
  Os olhos dele fixos em seus lábios, parecendo apenas esperar autorização para prosseguir. 
  Mikasa fechou os olhos e ergueu o rosto, entregue ao capitão.
  Mal sentiu o roçar de lábios, tão efêmero que fora, e sumindo tão logo quanto a tocara. A emoção, ao contrário, fora forte o suficiente.
  Não sentia os membros, tamanha a adrenalina que corria em suas veias. Levi ainda estava próximo de seu corpo, os olhos fechados e deslizando a língua sobre os lábios, como se sentisse o gosto dela.  
  - Ah - nāo sabia como se referir a ele, "Capitão" e "Senhor" pareciam termos formais demais dado aquilo que acabaram de fazer.
  Ele a fitou com curiosidade, como se fosse a primeira vez que a via. As pupilas dilatadas cravadas nos olhos negros febris.
  - Mikasa.
  Não era a primeira vez que ele falava seu nome, mas parecia a primeira vez que a enxergava. 
  Então ela soube o que falar. 
  - Levi. 
  Imediatamente ele fitou seus lábios, e Mikasa foi ousada o bastante para deslizar os dedos pela nuca dele, surpreendendo os dois ao puxá-lo contra si mesma.
  Ele não estava temeroso dessa vez. Apertou sua cintura, abrindo os lábios e a ensinando a fazer o mesmo. E então se beijavam da forma irrefreável que necessitavam. 
  Mikasa gemeu, e Levi aproveitou para puxar o delicado lábio inferior entre os dentes. Voltou a beijá-la com força.
  Ela o puxou com mais violência contra si, abrindo as pernas para encaixá-lo melhor, o capitão soltando um barulho meio sufocado. 
  E se afastou subitamente, descendo da pedra.
  A visão de Mikasa excitada e descabelada, de pernas abertas e lábios inchados, o encarando com confusão pelo súbito afastamento, era demais para Levi suportar. 
  - Mikasa, eu não... - o capitão começou a falar, sendo interrompido pela moça. 
  - Acho melhor entrarmos. 
  A decepção e alívio se mesclavam na mente dele. Decepção por ela se afastar tão facilmente de si, e alívio por não precisar ficar no limite de corromper a honra dela.
  Mikasa levantou trêmula da pedra, as pernas bambas e uma sensação de úmidade em sua intimidade, pegou na mão dele e caminhou rapidamente até a casa, o arrastando atrás de si. Mal podia assimilar o que havia ocorrido, só sabia que deveriam sair dali antes que alguém os vissem aos beijos.
  Se encaravam, ambos envergonhados, no hall de entrada escuro e frio.
  - Capitão - Mikasa ia iniciar uma frase, porém o olhar ameaçador do homem a calou.
  Ele se aproximou dela, até que o corpo feminino estivesse preso entre a parede e ele. 
  - Me chame de Levi - sussurrou sedutor no ouvido dela, as mãos acariciando seu quadril.
  Mikasa arfou e escorregou os dedos pelo peito dele.
  - Levi - gemeu o nome dele, ao sentir os lábios quentes sobre o pescoço. 
  Ela sabia que ele estava marcando-a, mas era tão bom que deixou para se preocupar depois.
  Ousada, deslizou as mãos até a bunda dele e apertou, recebendo um gemido surpreso meio sufocado em sua pele. Ele apertou seus seios sobre a blusa e Mikasa cogitou tirá-la, quando ele se afastou pela segunda vez. 
  - Até amanhã, Mikasa - ele estava longe de corpo dela, como se buscasse controle, respirando pesado e de olhos fechados. 
  Subiu as escadas com a mente em outra dimensão. 
  Pelas Muralhas, ela quase havia ultrapassado os limites com o capitão! 
  Só de lembrar da voz rouca ordenado que o chamassem pelo nome, um calor indecente queimava seu corpo.
  Sasha e Mina Carolina já dormiam quando entrou no dormitório, apenas Ymir e Historia ainda estavam acordadas, mas seria o mesmo que estar sozinha.
  Elas nem olharam em direção a Mikasa, Ymir ocupada demais acariciando os cabelos de Historia, que subira em sua cama, descansando apoiada no peito da morena.
  Mikasa andou nas pontas dos pés, arrancou a roupa e se deitou, observando o teto iluminado fracamente pela luz das estrelas que entravam pela janela. A mente reprisando cada segundo ao lado de Levi. 
  Tateou no criado mudo e puxou o cachecol vermelho, abraçando-o contra o peito e o apertando como gostaria de apertar o capitão. 
  Não dormiu naquela noite. 
  O dia amanheceu normal, as meninas reclamando por acordarem cedo, Sasha encolhida em baixo dos cobertores comendo escondido e Historia cheirando as roupas de Ymir quando achava que ninguém via.
  Só Mikasa estava diferente. Até sua aparência estava refletindo os sentimentos. Maçãs do rosto vermelhas, olhos brilhantes e um ar anormal de ansiedade. 
  - Vamos, Mikasa! - Sasha chamou, apressada - Se já está acordada não vai querer perder o café da manhã.
  Deixou-se ser arrastada, encontrando o irmão e Armin no fim das escadas e não prestando atenção no que falavam.
  O capitão já estava lá, tomando o chá e com a típica carranca mau humorada. Evitou olhar para ele. 
  - Vamos, Eren! Eu prometo que nada de ruim vai acontecer! - Hanji gritava com o garoto, alheia a expressão de desconforto de Armin, ao lado dele.
  Ele não suportava mais dividir Eren com a cientista maluca. 
  - Ah, Hanji, eu não sei não.
  - Nós vamos sim - o fuzilou com os olhos insanos - É a primeira folga do Levi e finalmente poderemos...
  Mikasa parou de processar a fala da superior no "É a primeira folga do Levi". O capitão nunca tirava folga, até tinha mais dias acumulados que ela. E aparentemente Hanji aproveitaria para levar Eren em uma pesquisa de campo que Rivaille provavelmente condenaria, mas não conseguia se preocupar com o irmão, não quando teria um dia inteiro com a possibilidade de Levi...
  Dele...
  Argh!
  Tremeu, corando violentamente. Seguiria seu dia normalmente, trabalhando no jardim, lembrando do toque dele e ardendo de desejo. 
  Engasgou com a saliva, tossindo sem parar.
  - Você está bem, Mikasa? - Jean perguntou preocupado, batendo levemente nas costas da garota.
  Atraindo imediatamente o olhar do capitão. 
  - Ackerman? - a voz baixa e rouca chamou a atenção de todos, as conversas cessando. 
  Mikasa corou até a raíz dos cabelos, afundando o rosto no cachecol. 
  - Estou bem - murmurou, os olhos fixos nas mãos. 
  Podia sentir o olhar preocupado de Eren sobre si, e Armin também, embora o loiro tenha se mostrado particularmente distante, a expressão fechada.
  - Por que não ajuda Mikasa com o jardim?! - Petra falou, animada, fitando o capitão com os olhos castanhos grandes e dissimuladamente inocentes. 
  Mas Levi não ficara incomodado dessa vez, quase poderia agradecer a amiga depois.
  - Precisa de ajuda? - olhou para Mikasa.
  Há essa altura todos prestavam atenção na interação singular entre o capitão e a melhor soldado. 
  - Eu, ah, acho que... - Mikasa se perdera nas palavras, intimidada com os olhos dele e a promessa muda presente ali - Sim.
  Todos os olhos se dirigiram a ela, surpresos. Mikasa Ackerman, precisando de ajuda com algo? 
  Jean parecia levemente incomodado, se remexendo ao lado dela, mas a garota não percebeu. Terminou de comer - sem desviar a atenção do prato nem um segundo - pediu licença e se retirou. 
  Foi direto para o jardim, corando ao olhar a pedra onde se deitou com o capitão na noite passada, pegando o candelabro furtado e o devolvendo a seu lugar antes que alguém visse. 
  Fitou seu trabalho de dias, os canteiros bem divididos e a grama bem aparada, com a campânula a balançar suavemente na brisa matinal. Estava na hora de procurar sementes e mudas, aproveitaria o sol para ir atrás das margaridas. 
  Caminhou até o estábulo, pensando se deveria ou não procurar o capitão. Decidiu que faria suas tarefas normalmente, e se ele quisesse que fosse até ela.
  Não precisou se preocupar com isso, pois assim que pisou no estábulo, Levi terminava de selar dois cavalos - o mesmo garanhão negro que escovara e um dourado brilhante.
  - Imaginei que fôssemos atrás de sementes - dirigiu-lhe o olhar distante - Então me precipitei. 
  Mikasa estava sem fala, pelo choque dele ter deduzido tão facilmente o próximo passo que faria no jardim, e também por estar perto dele novamente. 
  O capitão não dava nenhum indício de uma aproximação mais íntima, porém a garota sentia a tensão quase palpável entre os dois.
  Ele levou os cavalos para fora, sendo seguido por uma Mikasa tímida e nervosa.
  Sem esperar, ela montou no cavalo negro, acariciando-o e murmurando palavras doces para se distrair. O coitado do cavalo não entendia o que estava acontecendo - afinal ninguém além do capitão conseguia montá-lo - mas reagiu muito bem aos carinhos de Mikasa, fechando os olhos e inclinando-se para os dedos dela.
  Foi a vez de Levi ficar sem falar. 
  Sem opções, montou no dourado manso e colocaram-se a galope.
  Mikasa não entendia muito bem a distância imposta pelo capitão, ele mal falara com ela. Teve medo de que ele houvesse se arrependido do que fizeram na noite passada. 
  A garota não falou nada o caminho inteiro, se consumindo internamente e olhando para Levi de vez em quando, o homem de olhos fixos no caminho.
  Era realmente uma menina idiota se achou que poderia ter significado algo...
  - Mikasa - a voz dele a despertou, e ela o encarou esperançosa. 
  Levi apontou adiante, onde três girassóis brilhavam na beira da estrada de terra. 
  - Ah - a decepção se espalhou por seu corpo - Eu vou... Pegar algumas sementes.
  Desceu do cavalo, sem dirigir o olhar para ele, a vontade de chorar sufocando sua voz.
  Se inclinou para pegar as sementes, respirando fundo e rezando para as lágrimas não transbordarem.
  Braços fortes envolveram sua cintura, puxando seu corpo contra si.
  - Capitão, o quê... - os dedos dele acariciaram seus lábios, calando-a.
  - Me chame - escorregou o nariz pelo pescoço dela, arrancando um gemido sufocado - De Levi.
  A virou em seus braços, uma mão segurando com força seus cabelos e a outra sustentando-a pela cintura. Beijou-a sofregamente. 
  Mikasa podia estar surpresa, mas não deixou de retribuir, os lábios inexperientes aprendendo novamente com ele.
  Levi a prendia contra si, deslizando a língua pelo pescoço dela, provando a pele que ansiava loucamente desde que a deixara subir as escadas para o quarto. Mordeu-a e tremeu quando sentiu as mãos delicadas apertando seu rosto contra o decote modesto. 
  A garota tirou os dedos trêmulos dos cabelos dele e tentou abrir o primeiro botão da camisa, arfante.
  O capitão a deteve. 
  - Mikasa - ele segurava os dedos dela sobre o tecido - Você é muito nova, não podemos...
  Ela colou o corpo no dele, tocando o volume sobre a calça de Levi e vendo-o fechar os olhos com força, reprimindo um gemido. 
  - Eu quero - agora que sabia de sua força sobre ele, iria até o final.
  O capitão frio e calculista se desmanchava sobre seus toques, a confusão explícita nos olhos cinzas. Mikasa o queria desesperadamente. 
  - Por favor - gemeu no ouvido dele, beijando o pescoço em seguida.
  Levi rosnou, puxando a camisa com força e arrebentando os botões, jogando longe o cachecol. Não precisou de incentivo para arrancar a regata branca e atacar a pele sensível dela.
  Ela gemeu e oscilou quando sentiu os lábios quentes se fecharem em um mamilo, o outro seio apertado com força por ele. Mikasa mal possuía equilíbrio, e o capitão também não estava se aguentando em pé. 
  Deitou a garota na relva, sem importar-se com a sujeira. 
  Mikasa o puxou, beijando-o e arrancando seu fôlego. Ele não conseguia entender por que ela o desestabilizava tanto, mas se sentia exatamente como o cavalo arisco que se derreteu sobre o toque dela.
  Puxou a jaqueta do uniforme e a camisa, jogando-as em algum canto da vegetação, e voltando a beijá-la com força. 
  A garota se contorceu e gemeu ao sentir os dedos dele entrarem por sua calça, tocando-a sem pudores e ele rosnando ao sentir a umidade feminina. Mal percebeu quando ele arrancou suas calças. 
  - Levi - gemeu o nome dele, os olhos fechados e agarrando os ombros fortes. 
  Passou as pernas pelo quadril dele, subindo em seu colo e pressionando a intimidade no membro excitado sobre a calça. Levi agarrou suas nádegas e apertou o corpo dela de encontro ao dele, mordendo com força o pescoço pálido. 
  Mikasa ousou desabotoar a calça dele, os dedos envolvendo o membro quente e o apertando, deliciando-se ao ouvir o grito insano de Levi. 
  Então ele a deitara sobre a grama novamente, se livrando das roupas que restavam e tocando seu centro com o membro ereto.
  Somente os instintos e a atração desesperadora moviam Mikasa, e ela ondeou a cintura e aumentou a fricção.
  Levi acariciou o rosto dela com muita delicadeza, olhando-a como se estivesse apaixonado.
  - Mikasa, eu posso? - ele perguntou, embriagado pelo cheiro dela, as peles em contato.
  Ela aumentou a força nas pernas, pressionando-o mais contra si. Os gemidos dele eram como música. 
  - Por favor - respondeu com a voz chorosa.
  Precisava dele dentro de si, o mais rápido possível. 
  Ele fez pressão e Mikasa arqueou a coluna, arfando com a dor súbita. Ignorou o desconforto, concentrada na expressão gloriosa de Levi e na forma que seu corpo o abrigava.
  Levi gemia rouco em seu ouvido, as mãos em seu quadril segurando-a perto e se movimentando vagarosamente. 
  Uma sensação boa e entorpecedora tomava o corpo dela, roubando-lhe o ar a cada investida, obrigando a garota a puxá-lo para mais perto. 
  O capitão entendeu o que ela queria, aumentando a intensidade conforme ele mesmo necessitava. Mikasa inclinou a cabeça para trás, o prazer toldando seus sentidos, e olhando direto para os girassóis que reluziam ao sol.
  Tão lindos.
  Lindos como o homem sobre ela, que a abraçava com força e desespero, reivindicando para si os gemidos mais profundos. 
  Algo forte se formava em seu ventre, a sensação potencializada pela respiração pesada de Levi em seu ouvido.
  - Mais forte - sussurrou para ele, que a olhou febril.
  Levi atendeu seu pedido e ela gritou, ultrapassando a barreira do prazer e sentindo-o desmanchar dentro de si.
  Não se afastaram, Levi ainda a abraçava com força e estava dentro dela. Mikasa não queria abrir os olhos, para o momento durar para sempre.
  Perdeu a noção do tempo que ficaram abraçados. 
  - Está escurecendo - ele sussurrou, o rosto apoiado no peito dela, entre seus seios, as pernas entrelaçadas. 
  - Acha que ainda dá tempo de plantar as sementes? - a voz dela denunciava o quanto estava cansada.
  Levi riu, apertando a cintura da garota e se aconchegando mais em seus seios.
  - Creio que não - sentiu o corpo dela tremer quando deslizou os dedos por sua barriga - O sol está quase posto.
  Ficaram em silêncio, concentrados no toque e na natureza ao redor.
  Mikasa estava nervosa, mas precisava contar a ele, resolver a situação que se encontravam. 
  - Levi - sussurrou, o coração acelerando e o capitão percebendo sei desconforto imediatamente. 
  Ele ergueu o rosto da pele dela, encarando os olhos negros que descobriu gostar tanto. 
  - O que houve? - a voz dele estava ansiosa, temendo que ela houvesse se arrependido. 
  Ela respirou fundo e o fuzilou com o olhar, procurando coragem.
  - Eu gosto de você - Mikasa falou em um impulso, corando e desviando o olhar para as árvores. 
  Levi não respondeu, e o desespero tomou conta da garota. É claro que ele não sentiria o mesmo, o que tiveram fora algo puramente carnal. 
  Se mexeu para sair dali, o ar preso na garganta e as lágrimas nos olhos. 
  Ele não permitiu que ela se afastasse, prendendo os pulsos delicados na grama e aproximando os corpos, os olhares conectados. 
  - Estou apaixonado por você. 
  Eles se olharam por muito tempo, decifrando um ao outro.
  - O que vamos fazer? - Mikasa perguntou.
  Levi apoiou o queixo no vale dos seios dela, aproveitando o carinho que a garota fazia em seu cabelo.
  Pela visão periférica, viu o cervo, o esquilo e o gambá os observando da vegetação. 
  - Plantar algumas flores - ele respondeu, sorrindo torto e subindo o corpo para beijar levemente os lábios dela.
  Mikasa riu, completamente feliz, sentindo que o jardim havia feito muito bem aos dois.
  
  


Notas Finais


Aaaaaa


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