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História Jeitinho brasileiro - Capítulo 1


Escrita por: e krishoflowers


Notas do Autor


Olá nenis! Voltei com mais uma fic pro krishoflowers e eu tô meio nervosa pra saber se vocês vão gostar. Escrevi cada frase com muito carinho e me esforcei muito, mas além disso, também me diverti um monte escrevendo toda a história, por isso, espero que vocês também possam desfrutar de uma boa leitura.
Antes de mais nada, muito obrigada à @herchan pela ajuda com a betagem e à @suhoney pela capinha linda e dengosa pela qual eu tô toda derretida e sorry pela descrição tosca na hora do pedido. Espero não ter dado muito trabalho /^^/
Boa leitura!

Capítulo 1 - Capítulo Único


Aquele não era um de seus melhores dias.

A primavera chegava sutilmente e as ruas lá fora começavam a ganhar cor graças às árvores carregadas de flores, e as cafeterias enchiam-se de clientes.

Pela porta do elevador, atrasado pela primeira vez, ele saiu, ocupando uma das mãos com um copo de americano gelado e despertando a atenção da secretária até então distraída com um livro de romance sem graça. O perfume masculino e amadeirado deixava rastros por onde ele passava, tornando óbvia sua presença na empresa, e o barulho alto do copo sendo lançado com mais força que o habitual na lixeira de metal foi o único aviso de que não queria ser incomodado, antes de se trancar no escritório. Sentou-se na poltrona de couro escuro e debruçou-se sobre a mesa abarrotada de papéis, deixando evidente sua frustração pela noite de sono perdida.

Na noite anterior, dormir não lhe fora exatamente uma opção já que o vizinho ao lado parecia pensar que era o único morador da rua, soltando o som no último volume como se uma simples suspensão do serviço militar obrigatório fosse motivo suficiente para comemoração; para alguém como Yifan, que apreciava o silêncio, parecia mais falta do que fazer. Aparentemente, nem o exército foi capaz de dar jeito no irresponsável filho dos Jung, o que já era de se esperar, levando em consideração o número de queixas que ele sozinho já havia feito aos pais do moleque.

Soube que precisava se recompor quando o telefone em cima da mesa tocou, o som estridente ecoando pela sala e o relembrando das inúmeras tarefas que teria naquele dia, mesmo que os olhos inchados indicassem o quanto estava cansado. Lembrou-se de que Jongdae havia pedido para conversarem antes que a primeira reunião com a direção fosse iniciada, ainda naquela manhã.

Claramente havia algo acontecendo, ainda mais depois de notar Sehun correndo de um lado para o outro com pilhas de papéis nas mãos em direção à sala de reuniões, o rosto em um misto de desespero e cansaço evidente por causa das olheiras escuras. E mesmo que não fosse muito profissional da sua parte dar atenção àqueles detalhes, o Oh continuava irrefutavelmente bonito.

― Senhor Wu, o Diretor Kim Jongdae solicita uma reunião urgente. Ele estará em seu escritório em cinco minutos.

Foi o que a secretária Park disse antes que ele desligasse o telefone, interrompendo qualquer que fosse a frase posterior, e alguns segundos depois sua atenção foi tomada pela porta se abrindo e Jongdae entrando depressa, sem se importar com formalidades.

― Pela sua cara, eu com certeza estou certo em dizer que não leu nenhuma matéria esse fim de semana, não estou? ― O Kim indagou com um sorriso meio abespinhado.

― Era minha folga. Pelo menos no fim de semana eu deveria tentar ter um pouco de paz. É tão injusto assim?

Jongdae suspirou longamente vendo o amigo com o queixo fino apontado para as garrafas alinhadas no adega bar, os rótulos com nomes chiques indicando o valor absurdo de cada um dos licores açucarados e vinhos suaves, cujas cores vivas reviviam a transparência do vidro. Lançou um rápido olhar para o relógio prateado no pulso, apenas para verificar as horas e ter certeza de que teria um bom argumento para negar servir alguma bebida ao chefe que ainda aguardava ter sua ordem subentendida acatada pelo Diretor, que também era seu melhor amigo.

― Yifan, não são mais que oito e meia da manhã. Quer tornar seu dia ainda mais ruim e arriscar o emprego chegando bêbado à reunião?

― Eu tenho uma ideia sobre o assunto que você veio tratar. Me parece certo ter alguma distração enquanto ouço algo entediante.

Jongdae o encarou por alguns segundos, o rosto inexpressivo revelava o óbvio. Yifan o conhecia muito bem e sabia que, sendo um homem cheio de princípios e ética profissional, estaria pensando nos prós e contras, porém, gostava de fazê-lo dar uns passos fora do trilho de vez em quando e era quase palpável a vontade que ele sentia de se render e também aproveitar um pouco da bebida ― infelizmente ele nunca compartilhou de suas segundas intenções, quando ainda existiam. De toda forma, não faltava quem fizesse o trabalho em seu lugar. Sorriu sutilmente quando ele pegou dois copos e encheu-os pela metade com o Whisky escocês, acenando um agradecimento com a cabeça quando lhe entregou um deles.

Habitualmente, Yifan não era a pessoa mais silenciosa do mundo, e o fato de seu estado atual ser contrastante à sua personalidade divertida e espalhafatosa ― mesmo que tal lado não fosse revelado no trabalho devido aquilo que chamava de profissionalismo ― deixava bem explicito o quanto estava estressado e a possibilidade de explodir com um mínimo vacilo, levando Jongdae a pensar mais uma vez se aquele seria um bom momento; por mais que tivesse certeza que não poderia rodear a situação tão facilmente, uma vez que já estava ali. O olhar lançado por cima do copo transparente pelos olhos negros de Yifan era um pedido silencioso para que ele iniciasse o assunto.

― Qual notícia você quer primeiro? ― Indagou, observando os dedos longos de Yifan escorregarem sorrateiros pela boca do copo.

― Que tal a pior?

― Já que insiste... As ações da empresa despencaram significativamente, cerca de 7,3% nesse fim de semana, e o Sr. Byun não vai nos deixar em paz até recuperarmos o dobro desse valor ― Jongdae esperava ver uma reação mais exagerada, entretanto viu Yifan apenas menear com a cabeça como se já tivesse previsto aquilo, tranquilo até demais para estar em seu estado normal. ― Surgiu mais uma especulação sobre o Byun e há muita atenção voltada para ele. Dessa vez as coisas foram mais além e-

― Não me interessa o que ele fez, mas é óbvio que ele está adorando a situação ― interrompeu o Kim antes mesmo que ele tivesse tempo de lhe estender o tablet com a possível imagem do tal irresponsável exibicionista de costas, revelando indecentemente a cintura fina e o bumbum redondo, completamente inconfundível. Diferente de Baekhyun, Yifan tinha noção de responsabilidade e tratava com seriedade qualquer assunto que relacionasse a empresa, principalmente aqueles que indicavam algum risco à sua reputação e estabilidade no mercado.

Apenas ouvir o nome de Byun Baekhyun já era o suficiente para lhe causar dores de cabeça e, se era citado em conferências e reuniões importantes com investidores, era suficiente para causar um grande burburinho. Havia cerca de dois anos desde que fora nomeado como CEO da empresa dos Byun, assim como o próprio Baekhyun planejou depois de acabar a faculdade, e foi o suficiente para que ele desse no pé, jogando as próprias responsabilidades sobre Yifan enquanto vagava mundo afora, viajando, bebendo e transando como se não houvesse um amanhã cheio de consequências.

Entretanto, não deveria lhe interessar visto que não lidaria com nenhuma delas, e muito menos lhe surgiria alguma consciência na cabeça impenetrável quando se tratava de coisas úteis a menos que acontecesse um milagre ― e Yifan não acreditava neles. Então nem adiantaria bloquear os cartões de crédito, porque o Byun era bom na malandragem e sempre tinha cartas na manga.

― E como pretende lidar com isso? ― A expressão era de quem fazia total descaso da situação, porém Jongdae estava longe de ser uma cópia de Baekhyun. Ao menos era o que Yifan esperava diante dos anos de amizade sincera.

― Sinceramente? ― Recostou-se na poltrona e observou o teto distraidamente, relaxando os braços compridos em ambos os lados do corpo magro. ― Antes eu pensava em uma forma de jogá-lo pra alguém. Não qualquer um, é claro, mas alguém que estivesse disposto a colocá-lo nas rédeas, ao mesmo tempo que pudesse nutrir sentimentos sinceros por ele. Mas acho que gostar de alguém não deve ser coisa que acontece de uma hora para outra.

― Sua ideia é um pouco exagerada, na minha opinião. Mas de qualquer forma, quem em sã consciência aceitaria casar o filho com Byun Baekhyun?

― Por isso eu desisti da ideia. Por ora, vamos controlar a mídia e garantir que as notícias continuem sendo meras especulações ― levantou-se preguiçosamente e encostou o quadril na mesa, voltando a encarar o Kim. Seus instintos diziam que talvez não ficasse muito contente com a segunda notícia. ― E então, qual é a menos pior?

― Viagem de negócios ― o Wu torceu o rosto em uma careta automática. ― Seus compromissos na empresa serão cancelados pelo resto da semana e você deverá passar alguns poucos dias no Brasil para participar de conferências com empresários internacionais. O que quero dizer é que você precisa conseguir novos investidores.

― E por que eu tenho que fazer isso? Porra, você sabe que eu odeio viajar e tenho pavor de aviões!

― Antes de choramingar, lembre-se que graças a mim você não passará mais de uma semana dormindo em um hotel de luxo e bebendo vinho caro sem o seu gato, porque, acredite em mim, era isso que o Minseok queria só pra poder sentir o gostinho de como é liderar uma empresa. Aliás, você tem a sorte grande de ter um amigo maravilhoso que se disponibiliza a cuidar do Sirius, mesmo que ele seja um gato estranho.

― Quem seria esse? Não confio a vida do meu gato a qualquer um. Sou incapaz de viver sem ele.

― Eu, seu idiota! Além disso, você não tem opção ― gritou, apontando para si mesmo, como se fosse motivo suficiente para o Wu acreditar que Sirius estaria em boas mãos. Pelo menos Jongdae era o menos pior. ― Não se preocupe com nada. Apenas me dê a senha da sua porta que eu ficarei na sua casa enquanto você estiver fora, assim eu não tenho que gastar dinheiro com almofadas novas porque as suas serão as únicas a serem destruídas.

O celular em seu bolso vibrou insistentemente, interrompendo a conversa dos dois. Minseok acabava de lhe ligar para avisar que a reunião estava prestes a começar e que mais um minuto de conversa jogada fora seria suficiente para que chegassem atrasados.

― Melhor resolver isso depois ou o Minseok vai ter um motivo de verdade para roubar a minha posição.

 

· · • ✤ • · ·


O zíper da mala mal fechava, não importava o quão persistente Jongdae fosse. Enquanto isso, Yifan conversa com o gato preto parado à sua frente, tentando decidir se levava a cueca de florzinhas ou a preta de coraçõezinhos vermelhos, porém Sirius demonstrou total desinteresse enquanto mordia o ratinho de borracha. No fim das contas, apenas enfiou ambas na mala e se jogou sobre a cama, enterrando o rosto no travesseiro e soltando um suspiro abafado como se acabasse de terminar um trabalho pesado.

Jongdae tentou arrastá-lo para fora das fronhas enquanto depositava tapinhas em seu bumbum, mas a vontade do Kim era puxá-lo pelas orelhas. Precisavam se apressar, pois o caminho até o aeroporto de Gimpo durava cerca de uma hora ― se tivessem a sorte de não se meterem em um engarrafamento, já que as terças-feiras eram os dias mais movimentados por causa dos voos internacionais.

O avião sairia em algumas horas e a vontade de Yifan era de escapar da viagem, porém nada do que fizesse mudaria o fato de que aquela era a sua responsabilidade. Diante de toda a bagunça causada por Baekhyun ― que, aliás, nem se importou em dar as caras ―, a empresa perdeu investidores importantes, e como consequência as ações caíam a cada minuto, tornando urgente a necessidade de pôr-se em prática um plano a fim de recuperar a perda antes que o senhor Byun enchesse sua paciência com reclamações, como se cuidar dos problemas da empresa fosse unicamente responsabilidade sua e não do filho que nem mesmo sabia por qual rumo do planeta andava ou se ainda estava nele.

E não havia um plano tão bem elaborado diante do pouco período de tempo em que o problema surgiu mas, como Ceo da empresa, fazia parte do seu trabalho arriscar-se, não importava o tamanho do perigo que correria com um projeto arquivado tirado da gaveta na última hora. Ao menos sabia falar muito bem e, sendo um tanto persuasivo, talvez não fosse tão complicado chamar a atenção de alguns empresários, além de que a equipe responsável fora competente o suficiente para fazer o projeto de um produto que, ao menos, não era estúpido.

Antes de embarcar no voo, abraçou Jongdae por longos minutos como se não fosse vê-lo nunca mais e choramingou manhoso já sentindo a falta de Sirius que foi deixado sozinho em casa.

― Por favor, cuide bem do meu gato e não mexa nas minhas coisas, ou eu te mato.

― Não é como se eu fosse roubar sua cueca de oncinha cheia de buracos que você só não joga fora porque é da Gucci.

 

· · • ✤ • · ·

 

Fortaleza, Brasil

Tirou do bolso da bermuda uma nota de cinco reais amassada ― o último tostão que lhe havia sobrado depois de pagar o aluguel do casebre em que morava ―, entregando-o relutante à atendente do balcão que estendia a mão impaciente, antes de apanhar de lá o copo de café e um pão francês com manteiga, lançando um olhar de desgosto à comida simples e que não agradava seu apetite exigente demais para a situação em que se encontrava, consolando-se com o pensamento de que pelo menos não ficaria de barriga vazia.

Sentou em um canto mais recluso da lanchonete, comendo o que talvez seria a única refeição do dia, quando Jongin apareceu em sua frente. A mochila nas costas denunciava que estava indo para a faculdade, lembrando-o que não havia pontuado no vestibular o suficiente para conseguir entrar no curso de contabilidade. A vida nunca o permitia seguir em frente com seus planos e tudo costumava dar errado com frequência, então, para ele, viver era um tanto frustrante.

― Eu estava indo deixar um lanche na sua casa e acabei te encontrando aqui. ‘Tá tudo bem?

― Um cara que perde o emprego e não tem um único centavo ‘pra comprar comida e provavelmente vai começar a dormir na rua deveria estar bem? Para de ser besta, Jongin!

― Jun, por que porra você não me contou o que tá rolando? Eu pensei que a gente era tipo tapioca e leite condensado! ― Perguntou irritado depois de alguns segundos em silêncio.

Talvez fosse justamente aquele motivo que fazia com que Junmyeon quisesse esconder a própria situação. Olhando para Jongin, o fato de ser um derrotado se tornava ainda mais dolorosamente óbvio e fazia-o ver a realidade com mais clareza, onde ele e o melhor amigo eram pessoas completamente contrastantes, destinados a viverem em mundos diferentes.

Jongin não era rico, mas também estava longe de viver a mesma vida lamentável que Junmyeon. Tinha pessoas ao seu redor que apoiavam suas escolhas, além de sempre ter se destacado na escola. Se pelo menos tivesse sido mais dedicado aos estudos, sua vida não estaria tão na merda quanto agora.

Junmyeon sentia vergonha de si mesmo. O olhar oscilante que tentou omitir não passou despercebido por Jongin, e Junmyeon odiava que ele fosse atencioso e bondoso demais, porque fazia com que se sentisse ainda mais estúpido. Ter os braços quentes do amigo o protegendo do mundo era confortável ao mesmo nível que o odiava por sentir-se fraco, pois sabia que Jongin, por mais que quisesse, não poderia estar ao seu lado para sempre. Era por isso que precisava encontrar seu próprio lugar no mundo, por mais que não tivesse muita fé de que existia um reservado para si.

― Não se preocupa comigo, Nini. Sossega o facho que eu vou cuidar dos meus próprios problemas ― sorriu quase imperceptivelmente, sem muita emoção.

― E o que vai fazer?

Afogar-se em trabalho era uma tendência masoquista, porém, para Junmyeon poderia funcionar como uma forma de relaxar a própria mente. Ter algo para lidar fazia com que esquecesse temporariamente o cenário abstrato e desalinhado dos próprios problemas. Mas agora que havia perdido o emprego, parecia estar prestes a concretizar o ditado “mente vazia, oficina do diabo” na vida real.

Junmyeon apenas deu de ombros, engolindo o último gole de café e pretendendo finalizar aquele assunto. Afinal, mesmo com as ideias indo um pouco além do que deveriam, nem ele sabia que decisão tomaria a seguir, mas faria o possível para não cair nas garras do famoso jeitinho brasileiro de se resolver as coisas.

 

· · • ✤ • · ·

 

Foi às duas horas que aquela tarde calorenta e os dias que se seguiram ficaram marcados para o resto de sua vida. Debaixo do sol sem misericórdia que queimava sua pele pálida, Yifan se encontrava sentado sobre uma cadeira de praia quando um sujeito estranho lhe abordou repentinamente; um sorriso largo e um tanto suspeito enfeitando o rosto redondo, dando destaque às bochechas naturalmente volumosas e rosadas e transformando os olhos em dois pequenos risquinhos. Perguntava se não queria ajuda para espalhar o protetor solar nas costas, como se já estivesse observando há um tempo sua tentativa de esticar os braços por detrás do corpo. Um bocado suspeito.

― Não é uma tentativa de se aproveitar do meu corpo, certo? ― Perguntou cerrando os olhos, depois de analisar de cima a baixo o rapaz à sua frente que vestia nada além de uma sunga preta estampada com flores que ia até um pouco acima da metade das coxas, tentando inutilmente não prestar muita atenção na pele bronzeada e o abdômen bem definido.

O menor sorriu divertido e sua gargalhada se fez audível, um tanto gostosa de se ouvir por mais que Yifan não tivesse coragem de admitir em voz alta. Ele era um estranho, afinal. E ainda suspeito. Seus movimentos pareciam naturais, mas havia um reflexo esquisito nos olhos redondos que por nenhum segundo desviaram dos seus.

― Me desculpe, mas você que parecia bem arretado pro meu lado ― Yifan sentiu-se patético depois de corar diante do comentário alheio descontraído, nem parecia o homem de vinte e sete anos que geralmente era quem fazia as brincadeiras mais constrangedoras. E agora se via acanhado diante de um sujeito sorridente (e suspeito) que não parecia ter mais que vinte e dois anos. ― Não se preocupe, quero apenas dar uma mãozinha.

Yifan meio relutante lhe entregou a embalagem do protetor solar e, exatamente como não queria, seu corpo reagiu quando as mãos levemente ásperas deslizaram lentamente por suas costas largas. Ficou tenso quase que imediatamente e, por mais que esperasse o contrário, sabia que era improvável que o outro tivesse deixado passar despercebido seu desconforto.

Esperava que ele fosse embora depois de terminar de oferecer o favor que foi aceito após a insistência, e ele até sumiu por um momento depois de conversar todo sorridente com um rapaz branquelo, perto de uma barraquinha que vendia água de coco. Entretanto, poucos minutos depois, lá vinha ele com o mesmo sorriso exagerado no rosto e dois sorvetes de casquinha na mão. Yifan revirou os olhos, talvez na tentativa de disfarçar a surpresa pelo interesse do rapaz em fazê-lo companhia.

― Você gosta de sorvete de morango? ― Indagou com o sorvete estendido em sua direção. O chinês não conseguiu disfarçar a cara de surpresa.

― Como sabia disso? Você é um stalker?

― Cada dia é uma oportunidade pra deixar de ser abestado! Eu nem sabia que você existia há uns minutos, macho. Como ia saber o que você gosta de comer?

A última frase soou um tanto ambígua, mas Yifan imaginou que fosse apenas na sua cabeça. Convenceu-se de que estava aceitando o sorvete apenas por educação quando o pegou da mão alheia, porém, quando estava prestes a levar aos lábios, parou subitamente, olhando para o indivíduo que já estava sentado ao seu lado.

― Por que diabos eu deveria comer isso? Você não acha que é estranho oferecer comida para alguém que não conhece? Que porra você colocou no sorvete?

― Homem, mas tu é fresco que só a gota! O que eu teria botado nesse sorvete?

― Então lambe primeiro.

Esticou a mão com a casquinha. O sorvete derretia ligeiro por causa do calor e sua mão estava toda melada. Se queria comer o sorvete? Com certeza, mas ele não se arriscaria a menos que o carinha esquisito provasse que não estava mal intencionado. Contudo, não esperava que ele fosse aceitar tão fácil, pois acima de tudo, ele era suspeito.

Mas quase no mesmo instante ele segurou seu pulso com firmeza e lambeu o sorvete de morango, e como se o sol torrando acima deles não fosse suficientemente quente, o rapaz ainda fez uma ceninha desnecessária movendo a língua de um jeito indecente e fazendo questão de dar fim aos vestígios do sorvete derretido em seus dedos. Foi impossível não sentir uma pontada no pé da barriga.

― Satisfeito agora? ― Yifan apenas deu de ombros, fingindo indiferença e comeu o sorvete antes que não pudesse aproveitar mais nada dele.

Reparou por um instante, enquanto analisava o sujeito discretamente pelo canto do olho, que este lhe encarava com atenção, porém talvez percebeu que estava sendo vigiado e coçou a garganta com um pigarreio meio rouco, remexendo-se um pouco demais, aparentemente desconfortável ao seu lado. Entretanto, foi uma reação repentina que Yifan não deixaria passar tão fácil. Aquele fuinha não parecia ser boa peça, e enquanto insistisse em ficar na sua cola, estaria sendo marcado, pois Yifan era muito bom em descobrir as coisas apenas por instinto.

― Ô, moço bonito, qual é o seu nome? ― Sentiu o braço se apoiar em seu ombro nu de repente. Revirou os olhos de novo. O bronzeado não lhe deixaria em paz tão cedo, sabia disso só de olhar para o rosto dele, mas também não se faria de fácil só porque ele tinha um charmezinho peculiar.

Só por isso se negou a dizer seu nome e voltou a enfiar o rosto na revista numa tentativa de parecer ocupado, mas na verdade não lia matérias sobre economia fora do trabalho.

― Para de ser borocochô*. Não é fácil ver um estrangeiro tão bonito por aqui, sabia? Parece até que você veio do céu.

― Se você veio me perturbar, faça isso de forma educada e pelo menos se apresente.

― Oxente, se era meu nome que você queria saber, era só ter perguntado, macho. Me chamo Kim Junmyeon. Se quiser, eu passo meu número também ― o sujeitinho enxerido beliscou sua bochecha, todo animado.

Yifan não viu o tempo passar e muito menos percebeu quando havia começado a conversar com Junmyeon como se fossem amigos de longa data ― por alguns instantes até esquecendo que ainda precisava ficar de olho nele, pois o cara claramente tinha ar de malandro. Só percebeu o tanto de tempo que havia passado com o moreno, apenas jogando conversa fora, quando o sol estava quase se pondo e a praia quase vazia.

Não queria se despedir primeiro. Apesar da desconfiança em relação ao outro, fora graças a ele que teve um dia divertido e longe de ser solitário, e gostaria de voltar ao lugar em que morava apenas para falar para Jongdae que havia feito um novo amigo. Entretanto, já não podia mais negar que tinha outros interesses em relação a Junmyeon. No fim das contas, não importava o quão esquisito fosse, Yifan não resistia a um homem bonito; e o corpinho de Junmyeon era tudo de bom. Não queria ir embora sem antes dar pelo menos uma bitoquinha na boquinha rosada.

Só não esperava que Junmyeon pudesse desejar a mesma coisa, e por isso surpreendeu-se quando ele se aproximou primeiro, acariciando seu rosto com a mão e puxando levemente seu lábio inferior com o polegar. Encostou os lábios nos seus, e sem vergonha nenhuma já foi enfiando a língua na sua boca, dando maior intensidade ao beijo. Naquele ritmo poderia morrer de falta de ar, mas jamais reclamaria se pudesse aproveitar um pouquinho do gosto do Kim.

Nunca tinha visto alguém com tanto fogo quanto Junmyeon e tal fato deixava seu amigo lá em baixo um tanto animado. Àquela altura o moreno já havia passado a mão em cada canto do seu corpo, inclusive descobrindo novos lugares sensíveis que nem mesmo Yifan conhecia. Mas de todos os toques, o que ele mais gostou foi da mão pequena puxando os cabelos da sua nuca de um jeito único, que arrepiava todos os pelos do corpo.

Entretanto, as coisas ficaram meio estranhas quando percebeu que ele acariciava e apertava sua bunda muito mais do que deveria e não parecia de forma alguma ser um sinal de interesse na carne farta do traseiro avantajado, já que ele, talvez inconscientemente, focava demais na banda direita. Só aí se tocou que aquele era Junmyeon, o carinha enxerido de mais cedo que o abordou de forma estranha e demonstrou um interesse ainda mais esquisito na sua profissão, sem nem ao menos conhecê-lo direito.

E foi só quando sentiu algo ser puxado rapidamente do seu bolso que caiu a ficha de que Junmyeon era um malandro mal-intencionado. Só que também não parecia ter muita experiência na própria "profissão", porque o trabalho foi muito mal feito, visto que não conseguiu escapar da mão grande de Yifan que segurou seu pulso com força quando ia dar no pé.

― Já vai, assim tão rápido? ― Sorriu ironicamente, mas secretamente achava graça da situação. ― Acho que você não terminou seu trabalho com muito sucesso.

Viu quando os olhos dele foram em direção ao meio de suas pernas e, contrastando totalmente da forma como agia todo fogoso anteriormente, o rosto estava corado de vergonha, e Yifan sabia que não era por causa da sua ereção ― nem um pouco discreta, aliás.

― Que é isso, macho? Você 'tá pensando em fazer isso bem aqui? Não é melhor a gente ir num hotel? ― Perguntou nervoso, tentando fugir da situação.

― Claro, mas eu preciso da minha carteira pra pagar um quarto de qualidade. Gosto de deixar uma boa impressão nos meus parceiros, então por que não me devolve?

Junmyeon abriu um sorriso amarelo e olhou para os lados se fazendo de desentendido, mas ele sabia muito bem que era impossível levar aquela ceninha adiante. Pela cara que Yifan fazia, ele parecia saber desde o ínicio suas verdadeiras intenções. Não adiantava correr, mas se continuasse sendo encarado pelo estrangeiro morreria de vergonha, e ele provavelmente informaria à polícia. E aí estaria fodido de verdade, enquanto, se estivesse em outra situação, a palavra poderia ter um sentido muito bom.

Com os olhos fixados no chão, coçou a nuca constrangido, com o rosto quase explodindo de tão vermelho, e esticou o braço para entregar a carteira escondida atrás do próprio corpo. E apesar de não ter nenhuma intenção de pedir desculpas, que outra escolha tinha naquela situação? Era o mínimo que poderia fazer, e ainda assim não garantia que seria perdoado pelo homem à sua frente.

― Desculpa, cara. Eu realmente não queria fazer isso, mas pessoas como eu não tem muita escolha. Você nunca iria entender mesmo, tem um cartão black na sua carteira ― Yifan riu surpreso com a constatação, pois não esperava que ele tivesse tido tempo de espiar, e Junmyeon não esperava ter a mão do moreno acariciando sua bochecha e enxugando o início de uma lágrima fina antes que ela deslizasse pelo seu rosto. ― Não vai chamar a polícia?

― Hum… Acho que eu tenho uma ideia melhor ― agora foi Yifan quem agiu de forma suspeita quando abriu um sorrisinho malicioso como quem planejava algo perigoso, e foi a vez de Junmyeon recuar.

― Que cara macabra é essa, homem? Se avexa que você 'tá me deixando aperreado.

― Eu tenho uma proposta. Eu resolvo seus problemas, e em troca você só precisa sair comigo nos próximos cinco dias e fazer o que eu quiser. O que acha?

Junmyeon não estava em posição de negar alguma coisa e diante daquela sugestão (onde ele sentia um ar de indecência), talvez nem quisesse dizer não. Levaria a proposta como uma oportunidade de se redimir por seus erros, pois com Yifan ele vacilou muito feio. Além do mais, seria apenas por cinco dias, nera? Que mal faria? Mas era aí que o coitado do Junmyeon se enganava, porque seu lugar no mundo havia sido encontrado e era o dono do cartão black bem à sua frente que o manteria agarradinho em seus braços pelo resto de suas vidas. Agora ele não achava o tal do jeitinho brasileiro tão ruim assim.


Notas Finais


Eu sinto que deveria ter explorado mais algumas partes específicas da fanfic, mas no geral, fiquei satisfeita porque evolui um pouco desde a última história que postei. Espero muito que tenham tido uma leitura agradável e sintam-se livres para deixar comentários. Obrigada a quem leu até aqui, beijos 💙


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