História Just Another Way - Segunda temporada - Capítulo 1


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Categorias Florence + The Machine, Florence Welch, Lady Gaga
Personagens Florence Welch, Lady Gaga
Tags Florence Welch, Lady Gaga
Visualizações 93
Palavras 4.600
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 1 - A cor favorita


Fanfic / Fanfiction Just Another Way - Segunda temporada - Capítulo 1 - A cor favorita

É verão em Londres. Mesmo nessa época do ano a temperatura não costuma subir muito como nos países tropicais, mas em agosto os termômetros costumam chegar aos seus 25 graus, o que é suficiente para se ouvir reclamações sobre o clima quente demais. Nesse período a cidade fica um pouco mais convidativa, as pessoas costumam visitar os parques, frequentar as praças, ou até mesmo se sentar em suas calçadas para contemplar os dias ensolarados. Nós não temos praias por aqui, mas temos um jeito próprio de aproveitar o verão com o que chamamos de Rooftops. Se trata de um espaço aberto no alto dos prédios, onde funcionam bares e baladas, com muita bebida, DJs e pista de dança.

Eu me lembro de frequentar esses lugares em minha adolescência, passávamos o dia na cobertura de um dos edifícios e depois corríamos para as margens do rio Tamisa, onde músicos se juntavam para embalar os encontros entre jovens antes dos grandes festivais começarem. Acabo de passar em frente a um deles, o Frank’s Café, na rua Bold Tendencie e é possível ouvir a música alta que vem do terraço. 

Vim de táxi até o escritório de meu editor, no bairro Peckham, para assinar alguns contratos de concessão de direitos autorais porque colocarei as letras de minhas músicas em meu livro. Sinto-me mais confiante para publicá-las e o editor gostou da ideia. Decidi voltar caminhando para esticar as pernas e agora estou indo para metrô, num trajeto de cerca de dez minutos. Pegarei a linha Overgrounde irei me encontrar com Emile Haynie num pub do centro, ele veio passar um tempo por aqui depois de sua viagem pela Grécia e eu quero que ele me ajude a produzir o meu próximo álbum, pois estou pronta para trabalhar nisso. 

 

Minha banda ainda não sabe dos meus planos e nem Mairead, minha empresária.  Quero marcar uma reunião com todos eles para deixá-los a par de minhas coisas na próxima semana, mas acho que todos ficarão felizes de voltar. Temos uma boa sintonia, adoramos trabalhar juntos e eu não vejo a hora de cair na estrada com eles outra vez, turnês e festivais são as melhores partes de minha carreira, é sempre muito divertido tocar para multidões e poder fazer parte dessa plateia em seguida. Lembro-me de minha primeira vez no Glastonbury, no Coachella, Orange Warsaw, estou animada para fazer isso de novo.

 

Desço as escadas rolantes, entro-me em um vagão do metrô e me acomodo num dos acentos próximo a porta. Tiro o meu telefone do bolso ao senti-lo vibrar e checo a caixa de entrada. Há uma mensagem de Gaga: “Estou no jardim de meu hotel e lembrei de você. O que você está fazendo agora?” Demoro para respondê-la. Não gosto de aparentar um certo desespero, ainda mais se tratando dela... É assim que nós geralmente nos falamos, por mensagens de texto. Ela já está em turnê e eu não gosto de ficar ligando porque sei que a atrapalho. 

 

Não nos vemos há 3 semanas, mas não houve um só dia em fiquei sem notícias dela. Sempre recebo os seus vídeos, áudios, fotografias, ela sempre arruma um tempo para manda-los para mim, e ultimamente eu até tenho me esforçado para mandar alguns para ela também. As vezes ela me liga durante a madrugada para me contar sobre o show. Foi assim na noite de estreia, ficamos até o amanhecer no telefone, ela me contou cada detalhe do palco, dos fãs e dividiu a sua felicidade em estar de volta comigo. Sua animação foi contagiante. Ela chorou ao me dizer que as vendas estavam esgotadas, cantou para mim durante a ligação e por fim me disse que estava com saudades. Eu quis estar lá com ela naquele momento, iria lhe aplaudir como ela merecia e acalmar sua ansiedade no final de tudo. Eu a acompanhei de perto, sei como voltar aos palcos é importante para ela e me enche de alegria saber que tudo está dando certo, exatamente do jeito que ela planejou. 

 

Sua vontade também era a de que eu fosse junto, que viajasse com ela para onde ela fosse, mas eu não poderia deixar as minhas coisas de lado, preciso ser responsável e cuidar da minha carreira. Nessas três semanas que estou em casa tenho organizado a minha vida, passado mais tempo com minha família e já comecei a compor. Obvio que tenho saudade dela, mas para mim isso não chega a ser um problema porque eu até gosto de sentir. Às vezes me pego olhando para o meu par do anel que dei a ela e acabo sorrindo sozinha lembrando-me de nossos momentos. Finalmente eu consegui colocá-lo em seu dedo e pude falar o que estava preso dentro de mim. Fiquei procurando a hora certa, mas no final eu mesma criei uma oportunidade e acho que foi a ocasião ideal. Os olhos dela brilharam quando eu lhe mostrei o anel e a gente se beijou como na primeira vez, numa típica cena de um filme romântico.

 

Depois ela fez questão de mostrar a todos e não me deixou sozinha um minuto se quer, ficava segurando a minha mão, tirando fotos nossas e me enchendo de carinho. Foi um alívio para ela quando todas aquelas pessoas foram embora, pois ela estava louca para que ficássemos sozinhas. Não demorou para que ela me arrastasse para o quarto e fizemos amor em sua banheira... Às vezes acho que nosso relacionamento amadureceu durante esse quase um ano de namoro, mas em outras sinto-me uma boba apaixonada, como no começo. Ela ainda me tira suspiros e sorrisos involuntários. Ouvir sua voz ainda me causa uma certa euforia e as vezes sinto aquele mesmo frio na barriga inicial. Será que isso é normal? Deve ser só o meu jeito de lidar com a distância.

 

Ela está no Canadá agora para o terceiro ou quarto show da turnê. Deve ser de manhã por lá já que passa das quatro da tarde aqui. Decido lhe responder e começamos uma conversa:

 

F: Estou no metrô. Talvez as mensagens demorem a chegar... Como foi em Tacoma?

G: O show de ontem? Foi ótimo! Só atrasou um pouco, tivemos alguns problemas com o trânsito e para validar os tickets, mas nada de mais.

F: E as suas medicações? Está fazendo tudo certinho, não está? 

G: Sim, mas eu mudei os horários e diminui a dosagem. Não posso tomar um relaxante muscular minutos antes de um show, vai me dar um sono absurdo e prejudicar no meu desempenho. 

F: Você conversou com o seu médico para decidir isso? 

G: Não... Mas eu falei com Bobby e ele também acha que não teremos problemas já que eu estou bem. Tenho bastante energia para isso, eu posso aguentar, sempre foi assim.

F: Bobby não é médico, Stefani e muito menos você.

G: Florence, não se preocupe! Está tudo sob controle. Se eu sentir alguma coisa voltarei com os remédios, é simples. Mas me fala de você, para onde está indo? 

F: Vou me encontrar com o Emile, para falar sobre o álbum, quero mostrar algumas coisas que já fiz. 

G: Ah... E o livro?

F: Assinei alguns papeis hoje, está tudo correndo bem! Amor, eu vou descer, depois a gente conversa.

G: Ok, diga ao Emile que eu mandei um beijo!

 

Guardo o meu celular na bolsa novamente e faço baldeação na linha central, onde desço três estações depois. Sigo sem pressa pela Carnaby Street, uma rua conhecida pela grande variedade de lojas e artigos para presente, gosto de caminhar por aqui vez ou outra e olhar as novidades. Paro quando algo em uma das vitrines me chama atenção: um vestido cheio de estampas florais, muito semelhante ao que Irina usava na festa que demos na casa de Gaga. Olho para cima, vejo o letreiro da Liberty London e decido entrar, combinei com Emile às seis e meia da tarde, tenho tempo o suficiente. Os vestidos são realmente muito bonitos e se parecem comigo, lembram-me as flores de meu jardim, as borboletas de Pismo Beach... Passo por um manequim e outro até ser abordada por uma das vendedoras no início do corredor.

 

– Posso ajudar? 

– Ah claro! – aponto para uma das peças – Eu gostaria de ver aquele ali!

– Aguarde um minutinho – ela pede num tom simpático – Vou buscar para a senhora experimentar. 

 

A loja é enorme. Quatro andares divididos por setores, sendo o primeiro voltado para moda feminina, o forte da empresa. Continuo andando entre as araras até chegar a sessão de pijamas e moda íntima. Há lingeries, baby-dolls e camisolas de todas as cores, para todos os gostos. Irina me disse aquele dia que eles estão com uma coleção nova de lingeries e as poucas que vi eram realmente uma graça. Esse fato me faz recordar de que Gaga havia me pedido uma depois que eu acabei rasgando, sem querer e de maneira desastrosa, a que ela vestia na noite de nossa reconciliação... Além disso, eu ainda não pensei no que dar a ela em nosso aniversário de namoro.  Será que ela gostaria de receber uma dessas, ou acharia clichê demais? Para mim seria um belo de um presente porque eu adoraria vê-la vestida assim. 

 

– Gostou de alguma? – a vendedora volta com o vestido em mãos e repara em mim – São todas da nova coleção de verão.

– É, uma amiga me disse e... São muito bonitas. 

– Você quer dar uma olhada? – ela se aproxima – Procura uma para você mesma? Que estilo você gosta... Desculpa, qual o seu nome mesmo?

– Florence! – sorrio sem graça – Mas não é para mim não, é para a minha namorada... Eu não sei como presenteá-la, pensei que talvez uma peça dessas seria uma boa.

– Lingerie é sempre uma boa, Florence! – ela mexe nos cabides – Eu adoraria se o meu marido me desse um presente desses, isso daqui levanta a autoestima de qualquer mulher... Eu posso ajudá-la a escolher. Como ela é? Alta? Magra? Parece com você?

– Nem um pouco – dou risada – Ela bate no meu ombro, mais ou menos e tem um corpo mais curvilíneo, eu acho.

– Hm, vamos ver... – ela puxa uma das peças mais simples mostrando-me – O que acha dessa? Ela gosta de algo mais clássico? 

– Não, acho que isso é mais a minha cara... Ela gosta de algo mais... – solto um riso envergonhado – Talvez algo mais ousado.

– Ah claro... – a mulher parece pensativa – Algo mais sexy, então? Mais para o lado sensual?  Acho que entendi o que você quer. 

– Sim, ela gosta de uma extravagância – continuo a rir – E eu também gosto disso nela, de certa forma.

– Nós temos esse conjunto com espartilho na cor branca – ela me mostra – Ou um babydoll na cor violeta. Você tem preferência de cor? Qual é a cor favorita dela? 

 

Boa pergunta. Boa pergunta da qual eu não sei responder pois nunca a questionei sobre isso. Também nunca a ajudei a escolher nada do tipo e talvez não entenda o seu gosto, o que me deixa pensativa porque ela sabe todos os meus. Deve ser muito difícil agradá-la com isso afinal ela ainda é a Lady Gaga e mesmo depois de todos esses meses, esse fato ainda me assusta um pouco. Eu me lembro de quando passava horas olhando as suas revistas e imaginando como ela conseguia vestir tudo aquilo... Agora eu passo as mesmas horas pensando em como aquela garota tão cheia de excentricidades pode ser a mesma que dorme ao meu lado, vestida numa camiseta velha do Ramones. É engraçado pensar nisso porque eu gosto de ambas as suas versões e as vezes tenho a sensação de estar apaixonada por mais de uma pessoa, ao mesmo tempo; talvez apaixonada por suas múltiplas personalidades seja o termo mais correto para explicar.   

Por via das dúvidas decido perguntar a ela quando a vendedora se afasta para buscar outros modelos. "Stef, qual é a sua cor favorita?", lhe mando a mensagem. Ao contrário das anteriores, Gaga não responde com rapidez e se quer visualiza o que eu mandara. A atendente volta, me entrega as peças e eu acabo por desistir da pergunta, Gaga provavelmente deve estar ocupada e sem tempo para as minhas bobeiras. Opto por olhar as lingeries e decidir por mim mesma, não é possível que depois de todos esses meses eu não tenha conseguido decifrar o seu gosto a ponto de não decidir algo tão simples. Sem falar que já a vi de calcinha e sutiã tantas vezes, escolher não deve ser tão difícil. 

 

Cores frias não combinam muito com ela. Dificilmente a vi abusar de tons esverdeados, ou azulados demais, geralmente ela dá preferência para cores quentes: amarelo, vermelho, rosa, tons vivos, assim como ela. Começo a olhar os conjuntos, mas nenhum me agrada o suficiente; até chegar numa lingerie preta com pingente de strass. Passo as mãos no sutiã e reparo no enchimento, nos detalhes em renda... A calcinha é fio dental e vem acompanhada de uma cinta liga com reguladores e meias 7/8. Ergo o cabide para cima e o observo. Ficaria lindo e extremamente sensual nela. Consigo imagina-la perfeitamente vestida nisso. 

 

– Esse daqui é maravilhoso! – falo para a vendedora – Vai ficar perfeito nela, com certeza preto é a cor que ela mais usa. 

– Ah essa é realmente muito bonita. Ela tem uma pele clara, igual a sua? 

– Não tão clara, mas ela é loira, cheia de tatuagens... – esboço um sorriso bobo – E linda! Nós iremos para o Rio de Janeiro no nosso aniversário de um ano de namoro, eu estou bem ansiosa, sabe? Queria dar algo que ela pudesse usar.

– E essa ansiedade não é para menos, países tropicais parecem lindos pela TV – ela diz admirada – Querida, aproveite isso, viu? Depois de um tempo esse entusiasmo todo acaba e o tédio se instala de tal maneira que fica difícil.

– Eu acho que não com ela. Ela é diferente!

– No começo todos são! – ela ri – Mas isso é depois de anos e anos de casamento, você não tem porque se preocupar com isso, vá curtir a suas férias. E o vestido? Você não quer provar? 

– Claro, onde fica o provador? 

 

Ela me guia até o local e eu o experimento, sem deixar de pensar nas palavras que ela me disse. Será que depois de um tempo acaba mesmo essa vontade toda? E se acabar o que a gente vai fazer? Será que Gaga sabe o que se faz? Melhor não pensar nisso, afinal nem completamos um ano e nada na nossa vida é entediante desse jeito, mais uma vez as minhas paranoias me fazendo confabular suposições inexistentes. Olho no espelho. Gosto do vestido e decido levá-lo. Peço para a vendedora embrulhar a lingerie para presente e me assusto ao olhar no relógio. Quase sete da noite. Estou atrasada. 

 

– Nossa, eu perdi a hora – pego as minhas sacolas – Preciso ir!

– Antes pegue o meu cartão – ela me entrega – Meu nome é Olivia! Aqui tem o telefone da loja, se você precisar de alguma coisa, se quiser saber de uma coleção nova, pode me ligar que vai ser um prazer. 

– Ah eu vou ligar sim – sorrio – Obrigado pela ajuda, Olivia.

 

Deixo a loja apressada e corro para o pub na próxima rua. Ao chegar, vejo Emile de costas, sentado numa das cadeiras do balcão. Aproximo-me dele. 

 

– Emile por favor, me perdoe pelo atraso! – abraço-o por trás e pelo pescoço – Eu passei numa loja e acabei esquecendo da hora.

– Florence! – ele se levanta cumprimentando-me – Você é sempre tão pontual, achei que tivesse desistido.

– Não, de jeito nenhum, eu só perdi a hora com as compras mesmo. 

– Mulheres...  Mas venha, vamos nos sentar ali! – ele me puxa para um dos sofás do restaurante – Como é que você está?

– Ótima! 

 

Nós sentamos num dos cantos, um do lado do outro. O bar é aconchegante, tem uma iluminação baixa, música ambiente e uma decoração clássica, mas por ser meio de semana não está muito cheio. Acomodo minhas sacolas do outro lado e dou uma olhada no cardápio, somente por curiosidade. 

 

– Quer alguma coisa, Flo? – Emile me indaga – Sei que eles fazem um Crumble muito gostoso aqui.

– Eu agradeço, mas não! – fecho o cardápio – Eu passei alguns meses em Los Angeles com a minha sogra e... Nossa! Me empanturrei de doces e comidas gordurosas, preciso voltar aos meus hábitos naturais. 

– E como estão as coisas por lá? – ele observa o pub – Eu estava numa viagem pela Grécia e pela Croácia, estou fora de casa já tem um certo tempo.

– Ah, é a mesma Los Angeles de sempre! – sorrio.

– E Gaga? Veio com você? 

– Não, ela está em turnê pelo Canadá. Inclusive ela te mandou um beijo.

– Mande outro para ela – ele abre um sorriso – Faz tempo que não nos vemos.

– Vocês se conhecem? – pergunto-o num tom de estranheza – Se conhecem bem? Achei que fosse só de vista.

– E quem é que não conhece a Lady Gaga, Florence? – ele cruza os ombros – Eu a conheci através do Mark, ano retrasado. 

– Ah, claro – balanço a cabeça – E por um acaso... Você sabe qual é a cor favorita dela? 

– O que? – ele solta uma gargalhada alta – Eu não tenho a mínima ideia. Nós não somos tão íntimos a esse ponto, mas por que essa pergunta? 

– Esquece! – também dou risada – Isso é bobagem minha... 

– E o que você tem aí para me mostrar? – ele repara nas minhas sacolas – Já acabou o livro?

– Não, eu ainda estou colocando alguns poemas... – puxo o meu caderno de anotações – Eu tenho tempo, você sabe que eu gosto de ter esse tempo para pensar e tudo mais. Desde que eu cheguei em casa, comecei a compor e... Eu fiz algumas viagens também, sabe? Pela Califórnia. Conheci o Vale da Morte... Emile, aquele lugar é sensacional. 

– Eu nunca tive a oportunidade, mas já ouvi falar. Como é que foi a experiência? 

– Eu nem sei te explicar, mas foi mágico. Eu fui com Gaga. Nós subimos no ponto mais alto do deserto, vimos as dunas – gesticulo para ele – Depois passamos alguns dias numa cidadezinha na Costa do Pacífico... Um charme! Tudo isso me encheu de inspirações, eu encontrei uma paz que nunca tinha achado antes e quero explorar isso.

– Então você já deve estar cheia de planos – ele olha para o meu caderno – O que você tem em mente para o álbum? 

– Como eu disse para você, eu queria participar inteiramente dessa vez – digo a ele – Nas composições, na parte instrumental e...

– Na produção também, não é? Eu sempre achei que você levasse jeito para produção, você sempre deu boas sugestões. 

– Ah eu não sei se confio em mim para fazer isso, mas nós podemos tentar. Eu escrevi algo – passo algumas folhas, mostrando-o – Leia e me diz o que você acha. 

 

Emile analisa o papel e depois o lê num tom não muito alto:

 

“Numa cidade sem estações, continua chovendo em Los Angeles
Eu sinto que estou prestes a cair, o cômodo começa a balançar
E eu posso ouvir as sirenes, mas não consigo ir embora

Pegue-me pelos tornozelos, eu estive voando tempo demais
Eu não pude me esconder do trovão num céu cheio de música
E eu te quero tanto, mas você poderia ser qualquer um
Eu não pude me esconder do trovão num céu cheio de música 

Me segure, estou tão cansada agora”

 

 

– É bem poético! – ele diz com empolgação – Você está numa vibe poética, não está?

– Deu para perceber? – solto um riso – Essa letra, acho que ela caiu do céu. E ela tem um significado tão único e ao mesmo tempo tão amplo... Meio que explica o meu estado de espirito. Eu tenho pensado em algo mais robusto, mais simples, mais feito por mim. Você conhece a Kelsey Lu? Uma musicista da Carolina do Norte que toca violoncelo maravilhosamente bem.

– Ah eu a conheço sim – ele continua a passar as folhas – Continue...

– Ela é minha amiga, aposto que toparia fazer alguns arranjos. 

– Falando em arranjos eu conversei sobre isso com o Kamasi Washington, falei de você e ele também se interessou bastante. 

– O saxofonista? – arregalo os olhos – Falou de mim para ele? 

– Sim, ele está em Los Angeles, eu pensei que pudéssemos começar algo aqui e terminar por lá, o que você acha? 

– Eu acho ótimo! – bato palma – Meu Deus, Kamasi Washington... Eu preciso continuar treinando no piano da casa de minha mãe, não posso passar vergonha.

– Você está se saindo bem pelo que eu tenho escutado, tem uma professora muito boa – ele faz sinal para o garçom, dizendo-o – Um Gin Tônica, por favor. Ou dois... Você quer, Florence?

– Eu quero só um copo d'água – digo ao garçom e volto-me pra Emile – Eu estou evitando álcool, também exagerei nisso, quero explorar a minha criatividade totalmente sóbria. 

– Eu fico feliz por isso – ele passa o braço em meu pescoço – E a sua banda? 

 – Ainda não conversei com eles sobre isso, mas com eles nunca tem problema, está praticamente tudo certo.

– Ótimo! – ele puxa o celular – Eu vou reservar um estúdio aqui em Peckham e já podemos começar a trabalhar, tudo bem para você ser aqui? 

– É perfeito! – seguro a mão dele – Eu estou bem ansiosa.  

 

Mostro a ele alguns de meus poemas e conversamos por mais um tempo. Já escureceu. Emile pede mais um drink e decidimos ir embora. Ele vai de a pé, eu peço um táxi. Estou bem animada para voltar ao estúdio, principalmente desse jeito, tão conectada comigo mesma. Sem falar que terei a honra de conhecer e poder trabalhar com Kamasi Washington, um músico de Jazz americano que admiro muito.

 

 Chego em casa por volta das nove. Sento-me no sofá, coloco as sacolas na mesa de centro e decido ligar para Maire, para que ela marque a reunião com o resto de minha banda, quero que todos saibam. Ela demora e quando me atende é possível ouvir um barulho indecifrável ao fundo.

 

– Maire? Alô?

– Diga, Florence!

– Eu tenho novidades! – sorrio espontaneamente – Estou começando um novo...

– ARLO DESCE DAÍ! – ela grita e volta para o telefone – Florence, eu estou muito ocupada agora, você pode ligar para a Hannah? Ela também tem a agenda de vocês.  

– Mas Maire, eu só queria que você soubesse...

– Arlo, por favor, meu filho! Eu estou no telefone! – ela diz num tom de repreensão e torna a falar comigo – Ligue para a Hannah, Florence!

 

Mairead diz num tom autoritário e eu não insisto novamente. Acho isso um tanto quanto estranho; obvio que Hannah sempre nos ajudou com tudo, mas Maire sempre fez questão de cuidar de nossa agenda pessoalmente. Talvez ela só esteja sobrecarrega. Ligo para Hannah, mas cai na caixa postal e eu não tento novamente. Queria contar a novidade para alguém... Passo pela minha agenda e vejo o número de Isabella. Ela não está em Londres agora, na verdade ela não voltou para casa desde que foi trabalhar na trilha sonora daquele filme em Hollywood. Dias depois da festa, Ashley a convidou para viajar com ela para visitar a sua família em Miami e ela topou. Durante a viagem ela encontrou alguns amigos produtores e decidiu entrar num projeto novo com eles. Como faz alguns dias que não nos falamos, tento falar com ela por vídeo chamada  e para o meu espanto, ela atende prontamente. 

 

– Quando os milagres acontecem! – ela diz – Florence me ligando.

– Olha, você também não anda ligando muito para mim, deixe de fazer essas cobranças – dou de ombros – Onde você está? 

– Na beira da piscina do meu hotel – ela aponta o celular – Aproveitando o fim de tarde.

– Você está num hotel? – posiciono o telefone no braço do sofá – E a família da Ash? Achei que fosse ficar por lá, ou na casa de um amigo.

– Ashley está em turnê com Gaga, o que eu ia ficar fazendo na casa da família dela sozinha? Além do mais, nós nem ficamos lá, a família dela é um pouco... Conservadora demais.

– Ela te apresentou como namorada? – dou risada – Eu queria ver a sua cara.

– Obvio que não, ela disse que eu era uma amiga, os pais dela não precisam saber, pelo menos não por agora, primeiro a gente tem que definir o que a gente tem e tudo mais – Isa parece um pouco nervosa – Enfim... Ela está trabalhando longe agora, vamos ver no que dá...

– E quanto tempo você vai ficar por aí?

– Eu não sei, eu estou pensando em dar uma passada em Nova York, Rob está lá.

– Ah é? – levanto a sobrancelha – Eu não sabia que ele estava lá.

– Sim, Dav o convidou...

 

Dav Haynes trabalhava conosco no início da banda, até chegou a fazer parte dela. Os nossos caminhos tomaram rumos diferentes, mas a amizade continuo, principalmente com os meninos. Decido contar sobre o álbum a Isa:

 

– Talvez você e Rob devam voltar antes da hora...

– Por que?

– Nós iremos voltar a trabalhar – digo com empolgação – Todo esse monte de viagens me deu o que eu precisava para criar uma atmosfera de inspirações para um novo álbum, eu falei com o Emile e acertamos tudo.

– UAU! – ela fica boquiaberta – Eu achei que você fosse começar a pensar nisso só no ano que vem.

– E eu iria, mas as coisas tomaram rumos diferentes e eu preciso aproveitar – passo as mãos no cabelo – Você acha que todo mundo vai gostar? Eu estou com saudade de estar com todo mundo, dos meninos... Tom, Rusty, Mark, Chris... Sabe que eu liguei para Maire agora pouco e ela pareceu tão estranha, nem me escutou, me mandou ligar para a Hannah.

– Claro que todo mundo vai adorar, Flo – ela diz com convicção – Talvez Maire estivesse ocupada com algo, liga para a Hannah, tanto faz qualquer uma das duas.

– É foi o que pareceu... Então você vem?

– A hora que você chamar!

– Quero muito voltar aos festivais, a gente sempre se divertiu tanto – sorrio lembrando-me – Eu te contei que Gaga me convidou para ir com ela a um? Vamos ao Rock in Rio em setembro e eu estou tão ansiosa que é a segunda vez que eu conto isso para alguém hoje.

 

Isabella começa a rir sem um motivo aparente, o que me faz questioná-la:

 

– O que foi? Por que está rindo desse jeito debochado?

– Ai Florence... Você lembra daquela vez que fomos perseguidas naquele restaurante no Rio de Janeiro – ela diz aos risos – Eu nunca dei tanta risada da sua cara, é até engraçado a sua empolgação quando eu lembro.

– Aquilo foi assustador de verdade – também dou risada – Havíamos acabado de pedir o jantar e do nada aquele monte de gente apareceu gritando o meu nome, eu fiquei tão apavorada que puxei o seu braço e saímos correndo... Eu tenho absoluta certeza de que Gaga ficaria e atenderia todo mundo, ela sabe lidar com isso, eu não, eu sou desesperada, não sei o que acontece.

– Foi realmente engraçado – ela continua a rir – Olha, eu preciso desligar, mas me avise quando for reunir todo mundo, eu volto para casa.

– Ok! Eu aviso sim.

 

Desligo o telefone. Como está tarde deixo para ligar para Hannah pela manhã e vou para o meu quarto. Tomo um banho, janto, e como de costume leio um de meus livros até que o sono chega. Eu me ajeito no travesseiro e me deito, mas sou interrompida pelo barulho de meu celular vibrando no criando mudo. É uma mensagem de Gaga, respondendo o que eu perguntara mais cedo: “Me desculpe a demora, eu tive um dia cheio. Minha cor favorita? Você deveria saber por instinto, não? Estou brincando... Acho que preto cai bem em mim, assim como azul cai bem em você. O que você acha?”. Sorrio sozinha recordando-me de que foi exatamente assim que aconteceu naquela loja, instintivamente. Desperto-me e início novamente uma troca de mensagens com ela, sem revelar sobre o seu presente.   

  

  

 

      

 

           

 

 


Notas Finais




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