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História Just Another Way - Terceira temporada - Capítulo 7


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Capítulo 7 - O peso da culpa


Fanfic / Fanfiction Just Another Way - Terceira temporada - Capítulo 7 - O peso da culpa

 

Entrei no palco trinta minutos depois daquela ligação. Não havia muito o que fazer, as pessoas compraram o ingresso, estavam todas aguardando-me, a casa de show estava lotada, não tínhamos tempo hábil para cancelar nada. Eu estava destruída, mas parte de mim ainda não havia entendido o que estava acontecendo. As primeiras notas não saíram durante a minha preparação vocal. Tive de ir ao banheiro. Chorei para que isso me aliviasse e passei um bom tempo sozinha, concentrando-me. O show atrasou mais de uma hora, e foi um dos piores de minha vida. Minha garganta travou, as notas altas não saiam completamente limpas, eu passei a noite toda com um nó em minha garganta. Aquilo parecia uma tortura.

 

            Talvez as pessoas tenham percebido. Acabei me emocionando demais, me expus demais falando algumas coisas, mesmo que subentendidas. Naquele dia o meu sentimento falou mais alto. Deixei o palco aos prantos, sem explicar nada a ninguém. Hannah ficou sem entender o meu desespero, tentou falar comigo, mas eu a ignorei. Ao chegar em meu quarto no hotel eu me isolei dos outros. Isabella insistiu para dormi comigo, mas não havia cabimento, ela estava com a namorada, eu não queria atrapalha-la. Acabei ficando em meu canto, completamente sozinha e num choro desconsolado, enquanto observava uma garrafa de champagne mandada pelo hotel, a chamada "cortesia da casa".

 

Ouvir as palavras de Gaga me doeu. É impressionante como o seu modo de dizer consegue me atingir profundamente, e dói ainda mais porque sei que tenho culpa. Eu mereci ouvir aquilo tudo. Eu sei que mereci. E talvez mereça até mais diante dessa situação. É provável que eu tenha a traído, eu não posso negar essa possibilidade, não tenho certeza das coisas, tudo parece confuso para mim e eu simplesmente não me lembro do que aconteceu naquela noite. Ter saído naquele dia foi um erro, ter ficado fora de mim também e caso eu tenha feito algo com Lillie... Não posso nem considerar esse fato como falha, seria algo realmente imperdoável. 

 

Mas o que faço? Invento uma verdade para conseguir conviver comigo mesma? Digo que não a trai, que me lembrei de tudo e que isso não passou de um engano? Ou talvez eu deveria assumir a culpa de algo que não sei se fiz? Assumo a infidelidade, peço perdão a ela e espero que um dia ela consiga me perdoar... Eu não sei o que faço. Nem o que penso. Muito menos a atitude que devo tomar. Eu liguei para ela naquele dia, insisti em seu telefone, mas deu caixa postal, ou ela desligou, ou bloqueou o meu número. Também tentei ligar em sua casa. Uma das assistentes dela, Boo O'Connor, me atendeu, disse que eu não deveria ligar mais e desligou em minha cara, sem dizer muita coisa. 

 

Ainda não faz nem uma semana desde o ocorrido. A banda fez dois shows, duas apresentações que eu não sei de onde tirei forças para fazer. Passo boa parte de meus dias namorando garrafas, quase cedendo ao álcool e a cada dia que resisto durmo um pouco mais aliviada. As coisas não estão fáceis aqui dentro de meu coração e de minha mente. É como se eu tivesse em uma guerra comigo mesma e toda dose que não bebo é uma batalha vencida. O problema é que as minhas forças estão se acabando... Sempre que lembro de sua voz dizendo-me aquelas coisas... Tenho tido pensamentos ruins, devaneios dos quais eu não gosto de pronunciar e eu não sei até quando serei capaz de resistir a eles.

 

Estou sozinha nesse momento. Sentada na ponta de minha cama, no quarto do hotel. Tudo está escuro, apesar do dia parecer bonito pela janela... Eu estou sem roupa. Tomei banho agora pouco e estou naquele estágio de paralisia, sem saber o que faço da vida. Estamos na Espanha, para um festival em Madri. A banda foi conhecer a cidade, mas eu não tenho animo e nem vontade para isso. Queria que todos esquecessem de mim, os amigos, minha família, os meus fãs... Queria não existir, somente por uma fração de tempo, assim eu não causaria mais dor na vida de ninguém.

 

Ouço alguém bater na porta. Mas finjo que não escuto.

 

– Eu sei que você está ai! – é a voz de Isabella – Abre, Flo, só um minutinho.

 

 Levanto-me para abrir para ela 

               

                – Oi... – ela sorri, entrando – Está um pouco bagunçado por aqui, não?

           

            Dou de ombros.

           

            – Por que você está sem roupa? – ela pergunta – A janela está aberta, alguém pode ver você.

            – Eu não sei... – volto a me sentar – Não sei, Isa...

            – Florence, eu não vou mais viajar com a Ash – ela diz – Não vou deixar você assim.

            – Que? – encaro-a – Não... Não, Isabella, você vai sim, não é justo que você perca a viagem que você está há anos planejando por causa de mim.

            – Você é minha amiga, eu fico preocupada – ela pega uma de minhas camisas – Vamos vestir isso, ok?

            – Acho que vou me deitar um pouco – jogo-me na cama – E olha, se você não for nessa viagem, eu vou me sentir pior do que eu já estou.

            – Flo? – ela se deita ao meu lado – Eu sei que é difícil para você, que você está chateada com essa situação, mas sabe, eu tenho certeza que tudo vai se ajeitar. Vai dar tudo certo. Ela vai perdoar você.

            – Isa, eu... – digo em voz trêmula – Ela disse com tanta magoa... Parece que deletou assim, tudo o que a gente viveu, todo o nosso amor...

            – Ela está chateada, é normal – ela toca em meu ombro – Ela está chateada, deve estar achando que você não a ama, que a traiu, mas vai passar.

            – E se não passar, Isabella? – olho para ela – E se eu a tiver traído mesmo? Eu vou ter de me conformar, não só por tê-la perdido, mas por ter sido infiel com a pessoa que eu mais amei nesse mundo... As vezes eu fico aqui pensando... Em que tipo de ser humano eu sou.

            – Já te disse que você é uma pessoa incrível – ela segura o meu rosto – E tem milhares de fãs lá fora que comprovam isso.

            – Como? Como eu posso ser essa pessoa tão boa e que ajuda tanta gente se eu fui capaz de fazer uma coisa dessas com ela? – fecho os olhos – Eu não passo de uma hipócrita.

            – Também não seja exagerada – ela ri – Florence, todo mundo comete um deslize ou outro.

            – Isa, não precisa relativizar traição, eu sei que fui errada.

            – É que... Você... – ela se deita ao meu lado – A gente nem sabe o que aconteceu naquele dia, talvez a gente tenha só dormido.

            – É, talvez sim, mas talvez não.

            – Eu também estou com medo – ela suspira – Por acaso, assim, você vai dizer para ela que...

 

            – Stef se quer atendeu as minhas ligações, Isa – viro-me para o outro lado – Mas eu não vou dizer que você estava comigo, você está tão feliz, não seria justo de minha parte te envolver nisso, já basta uma de nós duas sofrendo, até porque eu acho que Ash teria uma reação parecida... Mas mudando de assunto, vocês estão ansiosas com a viagem?

            – Muito! – ela abre um sorriso – Mas a Ash está preocupada com a Gaga, ela também sugeriu que desistíssemos de tudo, ligou para ela e tentou convencê-la de que isso era o melhor a ser feito, mas Gaga também não quis, ela é teimosa demais, igual a você.

            – Isso é coisa nossa, Isa – digo a ela – Não faz sentido interromper a viagem de vocês por causa... Por causa disso. Mas, por acaso você sabe como ela está? A Ash disse alguma coisa? Fico tão preocupada com ela. Ela já não estava bem. Não sei se comentei com você, mas há pouco tempo ela andou tendo algumas quase recaídas com as drogas, o psicológico dela não estava cem por cento.

            – Ela está bem sim – Isa me faz carinho – Com a Ash de férias e a Mariah afastada, ela está com uma assistente nova, é amiga delas também.

            – Boo? – indago-a – Ela atendeu uma ligação minha outro dia.

            – Ela mesma! Ash confia muito nela.

            – Isso é bom, é bom saber que ela tem alguém por ela...

            – Ei! – Isa joga as pernas em cima da minha – Eu estou aqui por você também...

            – Eu sei! – suspiro – Mas acho que eu quero ficar sozinha.

            – Você sabe quem está aqui? – ela se levanta – E vai quer falar com você, não vai demorar muito. Eu tentei segurá-la, mas...

            – Quero saber como isso aconteceu – olho para ela – Nós estávamos tão bem, nós iriamos morar juntas, tínhamos planos, eu mudei todo meu estilo de vida, tudo o que eu pensei para o meu futuro eu estava deixando de lado para que pudéssemos construir as coisas juntas e aí do nada... Do nada eu me vejo sem perspectiva do que vai ser de mim amanhã.

            – Florence, você tem uma banda, tem amigos, família, fãs – ela segura o meu queixo, levantando-o – Uma agenda de shows e eventos para cumprir. Você não pode viver em função de alguém.

            – Eu sei, mas o que posso fazer? – dou de ombros – Eu sou assim Isabella, não sei separar as coisas, sou intensa, dramática demais e estou sofrendo. Ou eu lido com isso dessa maneira, ou eu vou acabar tomando uma garrafa de vodka inteira e eu realmente não quero isso.

            – Tem bebida aqui? Você trouxe álcool para o quarto?

 

            Não a respondo.

 

            – Florence? – ela segura em meus ombros com força – Não faça isso com você, me fale onde está.

            – No banheiro – aponto – De cinco em cinco minutos eu vou até lá e passo alguns minutos observando a garrafa, lembrando-me do gosto...

 

            Isa vai até o banheiro rapidamente e joga fora as garrafas que eu trouxe para o quarto. Parte de mim se arrepende de ter lhe dito, e se as coisas ficarem dolorosas demais e eu precisar de cada gota de álcool que ela desperdiçou? Ao mesmo tempo, algo aqui dentro estava pedindo socorro. Não duraria muito até que eu tivesse uma recaída, e para quem já teve problemas com álcool, os momentos difíceis são como uma faísca capaz de incendiar tudo.

 

                – Você já comeu? – ela me indaga – Tomou banho? Eu vou sair agora, mas se eu voltar e você ainda estiver assim, eu vou ligar para a sua irmã.

            – Eu estou bem, estou ótima – forço um sorriso – Não está vendo essa alegria no meu rosto?

            – Florence, você acha que...

 

            Somos interrompidas pelo barulho da porta. É Lillie, meio sem jeito de dizer qualquer coisa e evitando olhar para mim. Ela coloca o rosto para dentro do cômodo e olha para Isa, virando-se para mim em seguida:

 

            – Licença... Eu posso falar com você por um momento, Florence?

            – Lillie, agora não é a hora – Isa toma a minha frente – Eu não te falei para esperar? Na verdade, eu acho que você nem deveria ter vindo para cá, é...

            – Isa, nos deixe a sós – interrompo-a – Por favor!

            – Não, Flo, eu não acho que isso é uma boa ide...

            – Isabella, nos deixe a sós – encaro-a – Da licença, por favor.

 

            Isa reluta, mas acaba saindo, sem se despedir. Lillie entra em meu quarto. Ela olha para mim, repara em minha bagunça e depois se apoia a parede, sem dizer nada.

 

            – Senta! – aponto para o sofá – Sei que está tudo meio bagunçado, mas...

           

            Ela me obedece.

 

            – Eu nem sei por onde começar... – ela abaixa a cabeça – Eu estava com vergonha de mim e dessa situação, pensei bem antes de viajar, mas acho que eu te devo isso, seria uma covardia se eu não viesse aqui me explicar.

            – Você se lembrou? – olho para ela – Se lembrou de tudo o que aconteceu naquele dia? Ficamos mesmo juntas?

            – Não... Eu não... – ela ergue a cabeça – Eu não sei, Florence. Eu não sei.

            – Prometemos que aquilo ficaria entre nós três – levanto-me – Como ela foi descobrir isso?

            – Eu vou te explicar – ela esfrega o rosto – Era sábado, eu estava escolhendo uma roupa para ir ao Grammy e como a casa da Andrea fica perto do Staples Center, eu iria dormir lá. Eu estava olhando as roupas dela, somente para ver se algo me agradava, juro que não estava procurando nada, mas acabei encontrando uma serie de contas em nome de outra mulher nas coisas dela. Eu preferi deixar isso para lá, poderia ser só uma amiga, alguém da família, eu não queria bancar a maluca, então eu guardei no mesmo lugar que achei. Ela chegou, passamos o resto daquele dia juntas, ela estava trabalhando bastante com a equipe da Gaga, de dia, de noite, em casa... Não havia muito tempo para estarmos juntas. Nos preparamos para deitar e ela acabou pegando no sono com o celular em mãos, eu queria tirar a dúvida que estava dentro de mim e peguei o aparelho afim de procurar o nome daquela mulher... Mas eu nem precisei... Ela dormiu falando com ela, falando coisas que eu acho que ela nunca nem pensou em falar para mim...

 

            Lillie faz uma pausa melancólica e deixa algumas lagrimas caírem.

 

            – Elas estavam combinando de morar juntas... Andrea ia me trocar por outra, de novo, como ela fez da outra vez.

            – Vocês discutiram? – pergunto.

            – Quebrei alguns aparelhos dela – Lillie solta um riso – Aparelhos de filmagem e sonografia, o notebook eu levei comigo, tinha alguns trabalhos que eu queria guardar. Quando se deu conta do que eu fiz, ela foi atrás de mim, disse que eu era louca, que isso e aquilo... Combinamos em um bar, eu ia devolver tudo, mas enchi a cara antes. Entrei no carro dela, lhe segui até a casa de Gaga e lá a gente terminou de brigar. Nos ofendemos, brigamos uma com a outra e foi quando finalmente ela admitiu que tinha planos com outra pessoa. Eu não sei o porquê, Florence, mas eu quis magoá-la, então eu disse que nós havíamos passado a noite juntas e... A Gaga acabou escutando, mas eu não sabia que ela estava ali naquela hora, não era a minha intenção que ela soubesse, eu só queria que a Andrea sentisse o que eu estava sentindo naquele momento.

 

            Passo alguns minutos em silencio. Não sei o que dizer a Lillie. Há o que dizer? Tenho raiva por ela ter dito o que disse, mas não posso culpa-la por um erro meu.

 

            – Me desculpa... – ela continua – Sei que eu estraguei tudo, eu também sei que vir aqui e dizer tudo isso não vai resolver nada, mas eu estou me sentindo muito mal.

             – Eu liguei para parabeniza-la naquela noite, sabe? – lhe conto – Ela estava linda pela TV, eu a assisti do começo ao fim... Ela me disse muita coisa. Doeu. Doeu e ainda dói. Mas o erro foi meu e demais ninguém.

            – A gente não sabe, Florence – ela olha para mim – Talvez não tenha acontecido nada.

            – Nesse caso a dúvida não é um benefício, Lillie, é uma sentença – apoio-me a janela – Minha avó se jogou da janela de um prédio... Ela tinha transtorno bipolar. Eu morria de medo dela e sempre me afastava. Quando a minha mãe descobriu que ela havia falecido, eu fugi de casa. Durante toda a minha juventude, eu passava de três a cinco dias desaparecida, bebendo e usando todo tipo de droga. Meus pais se separaram. Minha irmã mais nova passou a vida toda tomando conta de mim. Eu me humilhei de todas as formas possíveis para ter o amor de algumas pessoas. Eu quase destruí a minha carreira por conta do álcool. E eu trai a mulher da minha vida. Não posso culpar os outros por tudo o que acontece comigo, a gente colhe o que planta. Uma hora ou outra tudo viria à tona.

            – Mas eu não devia ter falado – Lillie se aproxima de mim – A gente combinou que seria assim e... É melhor você sair de perto dessa janela.

            – Eu estou bem... Estou tentando ficar bem – sento-me na cama – Ela não me atende, eu não posso ir até lá e se eu for, vou dizer o que? Que não sei? Que estou confusa e não sei se dormi com outra mulher? Que droga de situação, Lillie, que droga!

            – Eu posso voltar lá e desmentir tudo! – ela cruza os braços – Digo que não foi bem assim, que eu me lembrei.

            – Não, mentir não é a solução – balanço a cabeça – Eu vou tentar descobrir o que aconteceu. Não sei como, mas eu vou.

            – Você ainda quer que eu trabalhe com você? – ela se senta ao meu lado – Se você preferir que eu me afaste, eu posso me afastar.

            – Eu não posso negar e te dizer que não fiquei chateada, Lillie – seguro a mão dela – Mas eu me vejo muito em você, sabe? Quando eu tinha a sua idade eu cometia loucuras em nome do amor... Ou melhor, em nome do que eu achava que era amor. Fique longe do álcool quando as coisas ficarem feias, isso não faz bem a ninguém.

            – Andrea quase destruiu a minha vida de novo, Flo – ela limpa as lagrimas – E eu ainda a amo, apesar de tudo eu ainda a amo. Mas não vou ficar te enchendo com minhas coisas, eu vou arrumar as câmeras, editar algumas fotos que fizemos na turnê americana.

            – Faça isso! – acompanho-a até a porta – Pode não postar por enquanto? Conheço a Stefani, ela vai procurar motivos e... Eu quero que tudo se resolva, não aguento ficar nessa, é ruim.

            – Ela ama você... – ela se apoia no corredor, do lado de fora – Ama tanto que... Por pouco eu não apanhei.

            – Que? – espanto-me – Como assim?

            – Ela ficou realmente nervosa – Lillie ri – Se não fosse a Andrea, ela teria voado em cima de mim, eu fiquei assustada.

            – Nossa... – também dou risada – Eu nem deveria estar rindo disso, mas...

           

            – O que você está fazendo aqui? – Ashley nos interrompe – Caramba, Florence, vocês nem esperaram a poeira baixar.

            – Do que você está falando? – indago-a – Lillie é a fotografa de minha equipe e eu...

            – Fotografa e amante nas horas vagas – ela joga em minha cara – Eu custei a acreditar quando Stefani me contou, eu achei que fosse um mal-entendido, agora vejo vocês de risadinha uma para outra dentro do quarto e estou vendo que faz todo sentido. E eu ainda defendi você, Florence...

            – Ash, não é o que você está pensando, nós só...

            – Ah, faça-me o favor – ela diz irritada – O que estava fazendo com ela dentro desse quarto? Posando para fotos? Vocês deveriam ter vergonha!

            – Eu não... Licença!

 

            Bato a porta em sua cara e a tranco, em seguida me sento no chão e tapo os ouvidos. Não tenho emocional para discutir com ela. Ashley ainda diz mais algumas coisas, mas Isabella a interfere e a confusão se acalma. Meu telefone vibra. Aproximo-me da cama e o pego. É uma mensagem de Irina. Ela tem sido uma ótima miga nesses últimos dias. Não lhe contei sobre nada, mas imagino que ela já saiba, as noticiais correm rápido no mundo dos famosos. “Ei, como você está hoje? Ainda não mandou notícias, estou preocupada.”, leio em voz baixa, a respondo e iniciamos uma conversa:

 

            F: Eu estou bem... Na medida do possível. E você?

            I: Também... Um pouco preocupada com Lea.

            F: Aconteceu alguma coisa?

            I: Ela está dando um certo trabalho na escola, está agressiva com os colegas... A Professora disse que pode ser por conta da separação, eu achava que ela estava lidando bem com isso.

            F: É sempre difícil. Meus pais também se separaram quando eu era criança e bem... Foi bem complicado.

            I: Eu imagino... Está animada para o show de hoje?

            F: Acho que sim...

            I: Se você quiser a gente pode conversar mais tarde, eu ando com insônia ultimamente e acho que...

 

            Irina demora a continuar a mensagem.

 

            I: Algo me diz que talvez você queira conversar e eu estou aqui caso precise, você sabe.

            F: É, talvez eu queira. Mas não se esqueça do fuso horário.

            I: Quando você quiser, me liga, a gente pode fazer uma vídeo chamada e conversar olhando nos olhos... Estou com... Saudades dos seus rs.

            F: Combinado! Eu te ligo depois do show. Beijos Xx.

 

            Olho o resto das mensagens em meu celular e entro em um dos perfis de Gaga nas redes sociais. Ao que parece ela fez duas tatuagens novas e saiu para beber com as amigas. Temos modos diferentes de lidar com as situações, enquanto eu me excluo, fico no meu canto e sofro calada; ela curte a vida, faz o que tiver de fazer para esquecer, ou melhor, para me esquecer. Continuo observando as suas fotos e me lembrando do que Lillie dissera, Gaga deve ter ficado fora de si quando ouviu sobre tudo... Eu queria esquecer um pouco essa história, mas me parece impossível. Não consigo assistir televisão, nem ler. Penso nela. Se está bem, se anda se alimentando e dormindo direito... Ela tem uma saúde tão frágil, eu não me perdoaria se lhe causasse dor.

 

            Tiro um cochilo e espero até o horário do show. Estou aquecendo a voz sozinha, sem o resto da banda, estamos indo para os shows em carros separados, eles estão em um momento diferente do meu e eu não quero estragar a felicidade alheia. A única que ainda converso é a  Hannah, minha empresária e ela se diz preocupada comigo toda vez que vai me buscar e me deixar antes e depois do show. Dessa vez ela demorou um pouco. Disse que estava tentando dispersar alguns jornalistas e paparazzos ao redor do hotel, mas foi impossível. Desço de maneira discreta, mas de nada adianta, uma avalanche de fleshes e pessoas avançam em cima de mim.

 

              – Florence? – um deles me puxa pelo braço – É verdade que você e a Lady Gaga não estão mais juntas?

 

            Não o respondo, mas ele insiste.

 

            – Ela foi vista sem a aliança, mas você ainda está com a sua. O que aconteceu? É verdade que ela já tem outra pessoa?

            – Licença, por favor – esquivo-me.

           

            Escondo-me atrás de Hannah. Quero correr daqui e ir para bem longe. Mais pessoas perguntam-me sobre ela, fãs carregam cartazes, imploram para que voltemos e eu fico sem entender o que está acontecendo. Entramos no carro e as pessoas se aglomeram em cima do veículo, algumas até choram olhando para mim pelo vidro. Desespero-me, mas Hannah tenta me acalmar, dizendo-me com voz calma.

 

            – São só fãs, nada de mais...

            – Nunca vi assim – olho assustada – Tantas pessoas e desse jeito.

            – Você e Gaga... Vocês formam um dos casais mais famosos do momento – ela diz – Formavam, eu acho... As pessoas ficaram desesperadas com o termino. É só isso.

            – Só isso? – arregalo os olhos – O meu relacionamento desmorona em cima da minha cabeça e são as pessoas que entram em desespero? O mundo é um lugar estranho.

            – Vocês eram um casal bonito, é normal.

            – Acha que ela já tem mesmo outra pessoa? – coço a testa – Ele falou com tanta certeza.

            – Não, é coisa dos tabloides de fofoca – ela tenta me tranquilizar – Inclusive, é bom que você não entre na internet por um bom tempo.

 

            Faço exatamente o contrário do que Hannah me aconselha. Digito os nossos nomes na internet na mesma hora e sou bombardeada por uma serie de notícias, não sei se falsas ou verdadeiras, mas as manchetes mexem comigo: “Lady Gaga tira foto ousada com tatuador”, “Separados, Lady Gaga e Bradley Cooper jantam juntos”, “Lady Gaga curte festa do Grammy em momentos íntimos com a DJ Samantha Ronson”. Jogo o celular para o lado e permaneço imóvel olhando aquelas imagens de Gaga. Chegamos ao ginásio onde irá ocorrer o show. Hannah abre a porta para mim, mas eu não desço, disparo a chorar de uma maneira que respirar torna-se difícil. Estou prestes a ter uma crise de ansiedade e nem sei direito o motivo.

 

            Tento organizar os meus pensamentos para que tudo não piore. Ouço a voz de Hannah de longe, chamando-me. Volto-me ao celular e ligo para Isa, mas ela não atende, tento novamente, mas no auge de meu desespero acabo selecionando o número de Irina em minha lista de contatos, sem querer.

 

            – Caramba, não sabia que o show terminaria tão rápido – ela atende – E ai? Como foi?

            – Eu não sei como eu... – tento dizer, mas a voz quase não sai – É... que...

            – Florence? – ela estranha – O que houve? Respira, ok? Tenta se acalmar.

           

            Sigo a sua voz.

           

            – Você está respirando? – ela me pergunta com uma voz tão doce que me traz certa paz – Um, dois, três e respira. É só fazer isso algumas vezes, a pressão vai passando... Tudo vai diminuindo...

            – Meu coração vai explodir – digo com voz de choro – Desculpa, eu liguei sem querer.

            – Não, está tudo bem – ela ri – Está melhor? Quer conversar um pouquinho?

            – É que eu... – puxo a respiração – Tenho um show para fazer e do nada ficou tão difícil respirara, foi só uma crise de ansiedade, eu acho que já passou.

            – Então toda vez que você sentir essa dificuldade, você me liga e a gente resolve – ela sugere – Eu estou acostumada a sentir isso, as vezes acontece durante os desfiles.  

            – Irina?

            – Oi?

            – Obrigada!

            – Imagina... Agora me conta, o que você vai vestir essa noite?

           

            Eu desci do carro falando com ela e só encerrei a chamada poucos minutos antes de começar o meu show. Fiquei distante de todos, de Isabella mais ainda por conta da Ashley. Irina me fez rir e me fez sentir menos sozinha também. 



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