História Just another way - Capítulo 45


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Categorias Florence + The Machine, Florence Welch, Lady Gaga
Personagens Florence Welch, Lady Gaga
Tags Florence Welch, Lady Gaga
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Palavras 5.270
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 45 - Encontro duplo


Fanfic / Fanfiction Just another way - Capítulo 45 - Encontro duplo

Ás vezes acho que nasci na época errada porque amo coisas antigas. Estou na cama, folheando um livro que achei lá embaixo, na estante do salão de espera do hotel, chama-se "A história do mundo em 100 objetos", o texto é fácil, interessante, cheio de ilustrações e fotografias. As primeiras páginas são as que mais me chamam atenção, por conta da antiguidade das coisas. Passei por um machado africano de 2 milhões de anos; esfinges egípcias dos mais variados tamanhos; pratos de porcelana do século passado, e agora estou a observar os celulares dessa última geração. Confesso que tenho um pouco de aversão à tecnologia, sou do tipo que gosta de fazer as coisas manualmente, tanto que esses aparelhos não me fazem falta. Não acho que eles cumprem a função de aproximar as pessoas, muito pelo contrário, e eu gosto do contato físico, de matar a saudade de uma vez, sem depender das conexões e algoritmos do cyber universo.

 

Talvez esse apreço por coisa velha tenha vindo de minha mãe, ela sempre colecionou objetos ultrapassados, livros antiquados cheios de ideias arcaicas de autores que pensavam além de seu tempo. Quando fui me despedir dela, antes de viajar para cá, peguei um emprestado de sua pequena biblioteca em casa, não tem capa, se quer sei o nome, mas contém um amontoado de pinturas do século 15, gosto de observá-las e tentar imaginar o que os artistas sentiam enquanto riscavam a obra, é um exercício reflexivo. Nesses últimos dias, durante o meu tempo ocioso, até me arrisquei a copiar alguns desenhos. Fui até a papelaria mais próxima, comprei pincéis, tintas e sujei todo o chão do quarto na tentativa de imitar os quadros de Botticelli, Da Vinci, Michelangelo, o renascentismo é mesmo um período fascinante, se eu pudesse escolher uma época para viver, certamente escolheria essa. 

 

É pena que eu não leve jeito para a pintura, ao menos não tanto quanto para a música, mas serviu para me distrair. Ainda é de manhã, Isabella passou a madrugada no estúdio e até agora não chegou, ela tem trocado o dia pela noite, o que me fez passar tempo demais sozinha, já que durante o dia ela dorme. Gaga também tem trabalhado bastante, sua viagem para Nova York pareceu bem proveitosa, além das horas que ela passou ensaiando. Durante esse tempo nos falamos pouco, eu evito ficar ligando para não distraí-la, pois sei de suas obrigações. Ontem, quando ela chegou eu insisti para que viesse, senti a falta dela, mas também queria conversar, desde aquela situação com Andrea fiquei meio com um pé atrás e quis saber o motivo daquela mentira, o problema foi quando ela chegou... Eu logo percebi algo errado em seu semblante, ela estava triste demais e isso não é normal para alguém que acabou de lançar um álbum. Isso me deixou preocupada, um projeto novo seja ele qual for, sempre nos enche de esperança, ainda mais vendendo bem como ela está. Perguntei o que era e ela desabou a chorar, disse coisas desconexas das quais eu não entendi nada, demorei para conseguir acalmá-la. Precisei pedir um chá na recepção e fiz ela tomar, mesmo contra sua vontade, depois lhe coloquei em meu colo e dei carinho até que o choro desesperado parou e ela me contou sobre os avanços da doença de Sonja. Desde então eu perdi a coragem de lhe questionar sobre qualquer outra coisa.  

A sensação de perder alguém deve ser a pior possível, uma amiga então nem se fala, não sei o que faria se perdesse Isabella para sempre, não gosto de pensar sobre isso, é algo que me deprime demais. Por isso que eu não quis prolongar o assunto, só deixei que ela colocasse tudo para fora e chorasse o que tivesse de chorar. Gaga não é uma pessoa que se abre com facilidade e além disso, ela tem uma mania de se fazer de forte, de se achar inatingível, como se nada pudesse lhe abalar, esse tipo de pessoa quando desmorona é de uma só vez. Queria que ela dividisse o que sente comigo, nem tanto por mim, mas para tornas as coisas mais fáceis para ela, se sobrecarregar de emoções não faz bem a ninguém. Conheci muita gente com a personalidade parecida, eles costumam remoer e reprimir a dor, talvez por medo de se expor ou por não saber se expressar; consequentemente acabam estocando magoas e sentimentos ruins que fazem mal, não só para o coração, mas também para a saúde. Nosso organismo não foi feito para acumular sofrimento, sei disso por experiência própria e por isso todas as minhas músicas são tão profundas. Nesse processo de acúmulo, tanto o corpo, quanto a mente carregam um imenso peso emocional que pressiona até esse amontoado de sentimentos transbordar, é uma reação quase que natural do nosso mecanismo de defesa.

Deixo o livro sobre o criado mudo e levanto-me descalça, vou até a sacada, abro as janelas, junto algumas roupas sobre o chão; o quarto está meio desarrumado, nem parece que dei uma boa ajeitada nele ontem enquanto fazia as malas. Volto para minha casa essa madrugada, Isabella quer chegar lá ainda com a luz do dia para terminar de editar o resto de seu trabalho. Diferente da outra vez, não voltarei cheia de dúvidas e incertezas, mas também não vou totalmente tranquila, a instabilidade emocional de Gaga me preocupa e será a primeira vez que ficaremos distantes por um longo tempo depois que começamos algo mais sério. Tentarei atender suas ligações, responder suas mensagens, mas tenho medo de que isso não seja o suficiente para ela, ou que ela não entenda as minhas necessidades. Todavia é melhor esperar o caminhar das coisas, não quero sofrer antes da hora.

Afasto o meu celular na poltrona e deito-me sobre o estofado, apoiando-me sobre o encosto. Ouço o barulho da fechadura e olho em direção a porta. Deve ser Isa. Viro a cabeça para o lado e fecho os olhos rapidamente fingindo dormir.

– Florence? – ela se aproxima – Dormindo uma hora dessas?

 

Eu não a respondo.

 

– Ah para com isso, eu sei que você está acordada.

 

Continuo sem responder.

 

– Será que você está dormindo mesmo? – ela puxa o meu pé – Só tem um jeito de descobrir...

 

Isabella desliza a ponta dos dedos na sola de meus pés, o que me faz sentir cocegas. Tento me conter para continuar a brincadeira, mas ela logo sobe para a minha barriga, fazendo-me esboçar um sorriso nervoso nos lábios.

 

– Ué, você não estava dormindo? – ela puxa as minhas mãos –  E esse sorriso ai?

– O que? – solto um bocejo forçado e escondo o rosto – Não tem sorriso nenhum!

– Ah não? – ela aperta a minha barriga ainda mais, fazendo-me rir – E o que é isso aqui?                                             

 

Solto uma gargalha alta, ainda de olhos fechados. Ela apoia os dois joelhos no braço do sofá e continua a me fazer rir até que eu volte a abrir os olhos.

– Já chega! – lhe peço – Já está bom!

– Acha que eu não conheço quando você está dormindo – ela ri – O que estava fazendo?

– Lendo...

– Lendo o que?

– A história do mundo em 100...

– Ai Florence!– ela me interrompe – Você só lê livro chato.

– Qual é o problema? – olho para ela – Achei que gostasse dos meus livros.

– Ultimamente não – ela solta uma gargalhada – Palavras difíceis demais, eu prefiro os livros populares.

– É que eu achei interessante... Além do mais, eu tenho passado tempo demais sozinha nesse quarto, preciso me distrair com alguma coisa.

– Ah... Então é isso! – ela se joga em cima de mim e me abraça – Você está carente! Vou te dar um pouquinho de carinho...

– Acordou de bom humor, foi? – abro um sorriso – A verdade é que eu não gosto de dormir sozinha, tenho medo de acordar no meio da noite, você sabe...

– Sim, eu sei, também adoro te fazer dormir – ela me beija no rosto – Mas eu ando funcionando melhor de madrugada, talvez seja o fuso horário.

– É, pode ser...

– Eu trouxe o jornal para você – ela me entrega o periódico – L.A Times, é esse que você lê?

– Sim – esfrego os olhos – Mas só gosto da parte de entretenimento.

 

Passo minhas mãos por trás de seu pescoço e ela se ajeita deitando a cabeça em meu ombro. Abro o jornal folheando-o rapidamente até chegar na sessão de diversão.

 

– Não tem nenhum filme bom em cartaz – lhe digo – Faz muito tempo que não vou ao cinema...

 

– Esses dias eu fui com a Ashley...

– No cinema? – olho para ela – E assistiu o que?

– Ah eu não lembro, eu dormi o filme inteiro.

– Insensível! – solto uma gargalhada – E ela não achou ruim? 

– Acredita que eu não sei? – ela ri – Eu estava casada demais para perceber qualquer coisa. 

            –  Eu ficaria com raiva... – viro a página – Olha só, horóscopo, vamos ler o seu?

 

Desço os dedos para o final da página até chegar no signo de Isabella e leio em voz alta.

 

– Escorpião... – encaro-a – “A Lua continua seu ciclo e entra na fase Minguante em Leão indicando a necessidade da diminuição do ritmo de trabalho. A concretização de um projeto importante para sua carreira pode ser adiada alguns dias. Relaxe." Viu? Precisa parar de trabalhar tanto.

– Hmm... – ela puxa o jornal de minha mão – Vejamos o que diz o seu: “Essa fase pede mais atenção ao seu corpo, cuide da saúde e da alimentação. No amor, pode estar surgindo uma nova paixão. Deixe acontecer, mas tome cuidado, não se entregue de uma vez."

– Tarde demais! – sorrio – Será que Virgem combina com Áries?

– Depende do ponto de vista – Isa se levanta – Gaga é de Áries? É a cara dela mesmo. Arianos são glamorosos, extravagantes e extremamente controladores. Já vocês, de virgem, são reservados demais, não gostam de quase nada, é um signo muito metódico, eu nem preciso dizer, não é?

– Se for para acabar comigo, não mesmo – sento-me na poltrona – Ás vezes eu acho difícil lidar com ela, principalmente nos aspectos emocionais... Ela me deixa preocupada... Vez ou outra desconfiada, não sei explicar muito bem.

– Ainda está com aquela história da mentira na cabeça? Por que você já não perguntou, Florence? 

– Eu ia perguntar, mas ontem ela chegou tão triste por causa de Sonja, eu não tive coragem. 

– Eu encontrei com ela ontem também – Isa diz – Mas não sabia que ela estava...

– Aonde foi isso?

– Na mesma rua do estúdio, saindo de um bar.

– Um bar? – digo em tom duvidoso –  Estranho, ela disse que ia ensaiar com a banda.

– Ah eu não sei Flo, não falei com ela – Isa desconversa – Esquece isso, vai!

 

Esquecer... Ela pede como se fosse fácil, agora isso vai ficar martelando em minha cabeça como da outra vez. Eu sei que a desconfiança é algo prejudicial demais para qualquer relacionamento, mas Gaga tem me dado motivo e isso não é de hoje. É o jeito de falar, são essas mentiras bobas, tenho medo de estar sendo paranoica, mas essas coisas me incomodam.

– Eu vou perguntar para ela hoje – levanto-me – Não posso viajar com isso. 

– É bom, porque além de enlouquecer com essa história, você vai querer tirar o meu juízo também – ela ri –  Que horas nós vamos para lá? Quero conhecer a casa dela, você diz tanto.

Acabei me esquecendo do horário. Combinamos de almoçar juntas; nós quatro, eu, Isa, Gaga e Ash; iremos para o aeroporto de lá. Fiquei de arrumar nossas malas e fechar a conta do hotel, mas me distrai com o livro e perdi a noção da hora. O quarto ainda está daquele jeito, eu observo o cômodo, termino de dobrar as roupas que havia juntado do chão a pouco, mas me sento outra vez.

 

– Esqueci da hora – pego o meu celular – Quase meio-dia já? Achei que ainda fosse de manhã.

– Eu vou descer lá para fazer check-out enquanto você termina aqui, pode ser?

– Claro, eu vou ser rápida.

 

Isa deixa o quarto e eu volto a juntar o resto de nossas coisas. Separei uma sacola ontem com as coisas de Gaga, toda vez que ela vinha até aqui esquecia alguma coisa, camiseta, boné, jaqueta, não sei se ela esquecia mesmo, ou fazia de propósito para que eu ligasse para ela minutos depois que ela saia. Confesso que disso eu gosto, essas artimanhas que ela tem para mostrar que está sempre por perto, outro dia ela me ligou e não falou nada, quando eu retornei ela disse que foi sem querer, mas não deixou de perguntar como eu estava, o que eu estava fazendo... É perceptível o quanto ela tem medo de me sufocar e se esforça para não deixar isso acontecer. Ela está tentando se adequar a mim e eu acho isso admirável, nunca namorei alguém tão disposto a me entender, sempre precisei ceder muito mais do que deveria; ceder até chegar a um ponto insuportável. Talvez seja exatamente por isso que os relacionamentos acabam, falta compreensão nas pessoas, a intolerância é algo extremamente desgastante e um dos maiores erros das relações amorosas é não se colocar no lugar do outro. Pela primeira vez eu tenho algo do tipo, Gaga sabe das coisas que preciso e respeita as nossas diferenças, mesmo que seja difícil para ela, isso é uma das qualidades que eu mais admiro em sua personalidade. 

Termino de ajeitar as malas e vou para o banho. Isabella demora, mas volta antes que eu termine. 

 

– Florence – ela entra no banheiro – Gastamos só 3 mil dólares em bebida, acredita?

– Se fosse outra época gastaríamos o dobro em uma só noite. 

– Não é? – ela diz impressionada – Faz tempo que não encho a cara!

– Melhor assim, não? – desligo o chuveiro – Estávamos dependentes demais,

– Tem razão – ela observa a nota do hotel – Você já sabe o que vai vestir?

– O vestido azul – enrolo-me na toalha – Stef gosta daquele. 

– Você já usou esse vestido umas 5 vezes, desde que ela deu para você – Isa solta uma gargalhada alta – Quando você cisma com uma roupa, não tira mais. 

– Exagerada! – deixo o banheiro – Você tem mania de perseguição com os meus vestidos.

– Tira alguma roupa da mala para mim! – ela grita – Vou me molhar rapidinho.

 

Volto para o quarto. Sento-me na cama, passo as mãos no lençol... Me sinto triste toda vez que eu vou embora daqui, é um lugar do qual eu me acostumo muito fácil, ainda mais agora que tenho Gaga. Ser artista é difícil porque não dá para construir raízes em canto nenhum, namorar alguém do mesmo ramo é pior ainda porque os encontros ficam incertos no meio de tanto compromisso de trabalho. Eu até consigo lidar bem com isso, mas ela já demonstrou que a distância é um problema significante.

 

Depois que me visto, mexo na mala de Isa, tiro algumas peças e ajeito o resto. Ela logo sai do banho e se arruma com rapidez, sempre foi muito mais prática do que eu. Chamamos um taxi e em seguida damos uma geral no quarto para ver se não estávamos esquecendo de nada. Também dou uma passada no espelho, arrumo os cabelos, coloco os meus anéis e o colar de búzios que Gaga me dera.

– Estou pronta! – viro-me para Isa –  Vamos?

– Sim.

 

Puxamos as malas, trancamos o quarto e descemos as escadas. Isabella vai até o balcão da recepção entregar as chaves, sento-me em um dos sofás e cruzo as pernas a esperar pelo taxi. Edward está sentado em minha frente, como de costume.

– Boa viagem! – ele diz – Acho que nos veremos novamente...

 

Não o respondo. O taxi chega. Isabella me ajuda a colocar nossa bagagem no porta-malas e seguimos para a casa de Gaga. Ao chegar, somos recebidas pelos cachorros no enorme portão de sua fazenda. Tudo está silencioso. Toco a campainha cerca de três vezes até que vejo a silhueta de alguém no meio do jardim e os portões destravam-se sozinhos.

 

– VOCÊS DEMORARAM – Ashley grita – PRECISAM DE AJUDA COM AS MALAS?

– NÃO – grito de volta – ESTÁ TUDO BEM.

 

Isabella e eu arrastamos nossas coisas com dificuldade pelo matagal do começo da propriedade. Isa observa o lugar admirada. O calor é quase insuportável, o sol da uma da tarde é o mais quente da Califórnia, ainda mais para nós, acostumadas com os rigorosos invernos londrinos. Ashley corre até nós e pula no colo de Isa que continua boquiaberta conforme passamos pelo jardim.

 

– Uau! – ela diz – Quantas pessoas moram aqui?

– Depende da época – Ash lhe dá um beijo na boca e me cumprimenta em seguida  – Hoje, por exemplo, estamos sozinhas. Stefani deu folga para o resto da equipe.

– O que tem para lá? – Isa aponta para os fundos.

– Cavalos. A gente pode ir lá depois.

– Eu vou adorar – Isa a abraça por trás – Sentiu a minha falta?

 

Ash balança a cabeça, meio tímida. As duas caminham sentido a sala e me deixam para trás com o resto das malas. Esforço-me para colocar tudo para dentro e me sento no sofá. Isa ainda observa os móveis e parece encantada com o piano branco em um dos cantos do cômodo.

– É lindo! – ela passa as mãos no instrumento.

– Você toca, não toca? – Ash a puxa – Eu adoraria ouvir.

– Ah não... Eu acho que ela não gostaria se...

– Vai Isa, Stef não liga – ela se senta – Vem aqui do meu lado!

 

Depois de alguns segundos Isabella acaba sentando-se ao lado dela e bate alguns acordes, ainda com receio. Ashley lhe conta sobre a casa, entre um beijo e outro, as duas trocam olhares, carinhos, esquecem totalmente de que eu ainda estou ali, em silêncio, desviando o olhar. É uma situação um tanto quanto constrangedora, mesmo se tratando de Isa. Ash deita no colo dela, bagunça os seus cabelos, lhe beija outra vez e ela parece gostar porque retribui. Eu continuo calada, apenas deixo a minha bolsa cair propositalmente para que ao menos Isa se toque de que eu ainda estou ali, mas é em vão. Depois de um tempo Ashley se levanta direcionando-se ao corredor.

– Vou na cozinha, deixei as panelas no fogo – ela diz – Vocês devem em estar com fome!

Tomo folego para dizer algo a Isabella, mas antes que eu pudesse abrir a boca ela corre atrás de Ashley, deixando-me sozinha na sala. Seria engraçado se não fosse comigo. De todo jeito ainda bem que elas foram para outro lugar, odeio ficar de vela, é desconfortável demais. Os cachorros correm pelo corredor, pulam em meu colo no sofá e eu os acaricio. A casa está silenciosa demais e não ouço a voz de Gaga em canto nenhum. Pego Gustav no colo e decido procurá-la em seu quarto: 

 – Stefani! – bato na porta – Você está aí? 

 

Não há resposta. A porta está entreaberta. Entro no cômodo em silêncio e ouço um barulho que vem do banheiro. Aproximo-me e a vejo. Gaga está enrolada em uma toalha branca, de frente para o espelho, penteando os cabelos. Ela se assusta ao me ver pelo reflexo e exclama: 

– Meu Deus! Quer me Matar do coração?

– Desculpa, não quis te assustar. É que está tudo tão calmo por aqui.

– Porque eu dei folga para todo mundo – ela se vira para mim e abre um sorriso – Onde está Ash que não me avisou que você já tinha chegado?

– Com Isa em algum lugar daqui... Você cortou o cabelo? – indago-a. 

– Sim, você gostou? – ela envolve os braços em meu pescoço – Acha que ficou bom? 

– Claro! – lhe dou um beijo estalado – Você fica bem de qualquer jeito, eu já te disse.

 

Ela se inclina para me beijar, mas Gustav a impede latindo sem parar. 

 

– Shhhh – Gaga passa as mãos no animal – Que escândalo, querido!

– Acho que ele tem ciúmes de você – solto-o no chão – Acontece comigo as vezes.

– Você com ciúmes de mim? Quando foi isso? 

– Lá vem você com essas perguntas – afasto-me – Eu não lembro.

– Calma, eu só perguntei.  

 

Sento-me em sua cama e cruzo as pernas. Ela volta para o espelho e termina de ajeitar os cabelos enquanto eu fico lhe observando. Ela está diferente, parece distante, se quer notou o vestido que estou usando. Novamente aquelas dúvidas começam a perambular pela minha cabeça, a história de Andrea, o que Isa contou... Preciso dar um jeito de perguntar, ou ao menos entrar neste assunto.

 

– Stef, como foi o ensaio? – indago-a – A gente quase não conversou sobre isso.

– Foi tudo certo.

– Tem certeza?

– Obvio – ela se vira – Por que?

– É que... Você estava ensaiando mesmo? 

– Sim, Florence – ela responde rapidamente – Que pergunta é essa?

– Porque Isa disse que te viu pouco antes da gente se encontrar – encaro-a – Na porta de um bar, no centro da cidade 

– Ah claro! Eu me lembro – ela olha para mim e caminha em minha direção – Todos os shows da turnê que estou fazendo são em bares, é mais do que o normal que os meus ensaios sejam lá, você não acha? 

– Ah sim... 

– Mais alguma coisa? – Ela se põe séria em minha frente

– Por que me disse que contou para Andrea sobre nós? – olho para ela – Nos encontramos outro dia na praia e ela disse que você não contou nada sobre mim.

– Bem... Eu achei... Que...

– Detesto quando você faz isso – cruzo os braços – Fica gaguejando, querendo mudar de assunto. Parece que está querendo me esconder algo. 

– Eu? – ela passa as mãos no rosto – Eu não quero esconder nada, Florence. Achei que Andrea tivesse entendido depois de nossa última conversa, eu comentei com ela sobre você.

– Sei... – suspiro – E a mensagem quem foi que mandou? 

 

Ela muda de expressão, parece irritada, se senta do meu lado e olha para mim desviando o olhar.

– Meu Deus, quanta desconfiança! Eu não sei quem foi que mandou, muito menos se era sobre você, deve ter sido um engano. Você quer mesmo brigar horas antes de ir viajar? 

– Eu não quero brigar, Stefani – seguro a sua mão – Só estou perguntando, numa boa. 

– Numa boa? – ela franzi a sobrancelha – Está dando a entender que eu estou mentindo. Não sei para que veio se a intenção era brigar.

– Eu não quero brigar, de jeito nenhum. Senta aqui... – puxo o seu braço, colocando-a em meu colo – Olha aqui para mim.

 

Ela obedece.

 

– Não estou te chamando de mentirosa – seguro o seu rosto – Só não quero que minta para mim. Eu nunca viria aqui para brigar com você, sabe disso.

– Não é o que parece – ela abaixa a cabeça – Tem mais alguma coisa que você queira saber?

– Não! – lhe beijo na testa – Deixa isso para lá... Esquece!

 

Suas mãos se entrelaçam às minhas e ela me abraça com força. Acho que errei na maneira como falei, talvez ela tenha se ofendido. Ao menos eu tirei algumas de minhas dúvidas. Não quero que ela pense que estou desconfiada, ela anda cheia de coisas na cabeça, eu não preciso ser mais uma de suas preocupações, acho que é melhor deixar essa discussão para uma outra hora.  

 

– Você não vai se trocar? – mudo de assunto – Ainda está molhada.

– Não – ela esfrega os olhos, ainda parece triste. 

– Tudo bem? – ergo a sua cabeça – Não ficou chateada, ficou?

– Não... – ela sussurra - Não se você me der um beijo. 

 

Nossos lábios se chocam e ela me beija devagar, quase parando. Sua língua se arrasta em minha boca enquanto suas mãos ainda me abraçam, mas sem muita força agora. Depois ela abre um sorriso, meio de canto, gosto quando ela me beija sorrindo, acho bonito, é sempre tão sincero. Ela se prepara para aumentar o ritmo, mas Ashley nos interrompe, batendo na porta:

 

– Stef, o almoço está pronto!

            – Já estamos indo! – Gaga a responde e desce do meu colo despindo-se em minha frente – Está com fome, Flo?

 

            Balanço a cabeça em sinal de não. Engraçado, mas eu ainda fico meio paralisada quando a vejo nua em minha frente, gosto do corpo dela e toda vez reparo em algo diferente das tantas outras que já vi. Ela não se importa muito com isso, vai de um lado para o outro no quarto, entra em seu closet e sai de lá vestida apenas com uma calcinha de renda e uma camiseta amarela da banda Queen.

            – Vamos? – ela estende as duas mãos para mim.

            – Claro! – levanto-me.

 

            Seguimos para a cozinha. Isa está ajudando Ash com a as panelas enquanto dividem uma taça de vinho branco. Ela cumprimenta Gaga e depois volta para o fogão, dizendo-me:

 

            – Florence, você precisa comer isso – ela lambe os dedos – Eu nunca comi nada parecido.

            – Que exagero! – Ashley coloca os pratos na mesa.

 

            Sentamos as quatro sobre a mesa. É uma situação engraçada, parecemos aquelas adolescentes apaixonadas em um encontro duplo, com seus respectivos pares. Ashley fez coisas que Isa gosta de comer, assim como Gaga ela gosta de agradar e a todo momento lhe dá alguma demonstração de carinho.

 

            – Ai Ash, por que colocou brócolis na salada? – Gaga reclama – Sabe que eu não como isso.

            – Por que não come? – olho para ela – É vitamina D, faz bem para o coração.

            – Não deixa de ser horrível! – ela continua – Não gosto de comida verde.

            – Se eu te der na boca você come?

            – Não – ela vira o rosto.

            – Só um? – levo o garfo até sua boca – Não seja birrenta!

           

            Ela reluta, mas acaba cedendo e aceita, mastigando o legume com uma cara não muito boa.

 

            – Florence é chata para comer – Isa diz a ela – Precisa se acostumar.

            – Olha quem fala! – solto uma gargalhada – Isa se pudesse viveria de cidra e salada.

            – Vocês comem certo demais – Ashley entra na conversa.

            – São vocês que comem errado – Isa a interrompe – Bacon no café da manhã, isso deve ser horrível.

            – Mas a gente não passa vontade! – Gaga ri – E bacon com ovos é uma das melhores coisas já inventadas.

 

            Isa descorda e conversamos sobre isso durante todo o almoço. Americanos possuem hábitos horríveis, ou talvez sejamos nós, os ingleses que gostamos do politicamente correto até para comer. Depois de alguns minutos Ash convida Isabella para conhecer o resto da casa e me deixa sozinha com Gaga. Ela está em silêncio, com o telefone nas mãos. Eu olho para ela, toco em seu braço, mas ela parece longe.

 

            – O que você tanto vê nesse celular? – indago-a – Você esquece que eu existo quando está com isso.

            – Não é nada não – ela responde sem tirar o olhar do aparelho – Só algumas coisas de trabalho.

            – Que coisas?

            – Nossa Florence, qual é o seu problema comigo hoje?

            – É que você está calada demais – olho para ela – Você não é assim.

            – Eu estou com algumas coisas para resolver – ela aumenta o tom – É só isso!

            – Se você quiser falar sobre...

            – Não, eu não quero – ela se levanta – Você vai embora daqui a algumas horas e eu não sei quando a gente vai voltar a se ver. Quer perder tempo falando de problemas? Vai perder sozinha, porque eu não vou. Eu só quero ter um dia normal com você, é pedir muito? Eu vou até desligar a droga desse celular!

 

            Ela joga o aparelho na mesa, e eu me assusto.

            – Ai desculpa! – ela suspira, colocando a mão em meu ombro – É que eu não quero falar de coisas ruins hoje.

           

            Seu humor temperamental é algo que me irrita, me tira do sério, se fosse em outra ocasião eu não desculparia tão fácil, mas ela pode ter recebido alguma má notícia sobre Sonja e além do mais eu não quero sair daqui brigada. Abaixo a cabeça, conto mentalmente até 10 e olho para ela:

 

            – Tudo bem! Sobre o que quer conversar?

            – Vamos lá para fora? – ela puxa a minha mão – O sol está lindo!

           

            Sento-me na grama debaixo de uma enorme arvore, onde ela costuma sentar quando compõe, ela se apoia nos meus ombros, quase deitada em cima de mim. Daqui é possível ver Ash e Isa se divertirem na piscina. Elas tomam distância, dão as mãos e pulam na água aos gritos.

 

            – Elas parecem crianças – Gaga ri – Será que a gente é assim também?

            – Quando a gente se apaixona a gente fica meio bobo – encosto-me no tronco – Isso é engraçado, não é?

            – O que?

            – Nós quatro. Parece que nós estamos em um daqueles programas de encontro duplo.

            – Deveríamos ter feito isso mais vezes – ela se deita em meus braços – Eu posso dizer que vou sentir sua falta?

            – Pode – sorrio para ela – Eu vou sentir a sua também!

            – Está usando o colar que eu te dei? – ela repara – Você fica linda com ele.

            – Eu tive uma ideia...

           

            Retiro o colar e o puxo com força até que ele se quebra em duas partes.

            – Não faz isso, Florence!

– Me dá o seu braço?

            Ela estica o direito e eu amarro metade do colar em seu punho.

            – Pronto! Agora você tem metade de mim – lhe beijo – Quer amarrar no meu?

           

            Ela balança a cabeça em sinal de sim e se ajeita para dar o nó. Seu olhar está diferente agora, seus olhos mudam de cor com o reflexo do sol e ela nem parece a mesma que gritara comigo na cozinha.

            – Vamos lá no quarto? – ela pede – Eu quero te mostrar uma coisa.

            Ela vai na frente, eu a acompanho. Assim que chegamos no cômodo ela se deita na cama sem dizer nada.

            – O que quer me mostrar? – pergunto.

            – Deita aqui!

            Eu a obedeço. Tiro os meus sapatos e me deito ao seu lado. Ela tira a camiseta, nos cobre dos pés à cabeça com o lençol, sem deixar nenhuma parte de nossos corpos para fora e se deita em cima de mim, com o rosto voltado para o meu.

            – Que horas é o seu voo? – ela pergunta em voz baixa.

            – De madrugada – respondo no mesmo tom – Por que nós estamos aqui?

            – Porque é assim que eu queria ficar para sempre – ela diz – Só olhando para você     

            O calor e o lençol quase me sufocam, mas é bom ficar nessa posição, respirar o mesmo ar, sentir o toque, a pele, o gosto, acho que é disso que eu mais sentirei falta nela, quando nossos corpos estão tão juntos que parecem o mesmo corpo. Ela se esfrega em mim, como se quisesse guardar um pedaço meu em cada sentido, olfato, tato, paladar... Depois se deita novamente, de olhos fechado, respirando devagar... A nossa intimidade é algo que vai extremamente além do sexo, na verdade o sexo é uma consequência banalizada dos nossos momentos íntimos, principalmente durante as despedidas.

            Ouvimos de fundo, o som do piano, Isa toca “ I Don't Want to Miss a Thing” de Aerosmith

Eu poderia ficar acordado

Só pra te ouvir respirar
Te ver sorrir enquanto dorme
Enquanto está longe e sonhando

Eu poderia passar a minha vida
Nesta doce rendição
Eu poderia ficar perdido neste momento pra sempre
Cada instante que passo com você
É um momento que eu valorizo

 

Deitado perto de você, sentindo o seu coração bater
E me perguntando o que você está sonhando
Querendo saber se é a mim que você vê

Eu não quero perder um sorriso,

eu não quero perder um beijo
Eu só quero estar com você
Bem aqui com você, assim desse jeito

Eu só quero te abraçar forte
Sentir seu coração bem perto do meu
E só ficar aqui neste momento
Por todo resto do tempo.

         Ela canta baixo, olhando para mim, seus olhos estão pequenos e lacrimejados. O tipo de olhar que me desmonta, que me faz esquecer qualquer tipo de dúvida. Depois de algum tempo ela me beija, desabotoa o meu vestido e se põe em cima de mim.

         – Eu faria qualquer coisa por você – ela diz – Eu não quero que esqueça isso.

            – Mas eu...

            – Não fala nada! – ela me beija – Deixa eu só te amar por hoje...

 

            Deixo que ela tire a minha roupa da forma como quer. Fazemos amor de um jeito diferente, seus beijos têm gosto de despedida, todos parecem o ultimo. Acho que ela está com medo, de me perder talvez, ou medo de algo que eu ainda não sei...  

          


Notas Finais


Aerosmith - I Don´t Want to Miss a Thing: https://www.youtube.com/watch?v=-Q0eWcOrjik


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