História Kairós - Capítulo 15


Escrita por:

Visualizações 453
Palavras 4.825
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ficção Adolescente, LGBT, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oi! Eu vim aqui avisar que semana que vem nas próximas duas terças férias não terão capítulo, mas é por uma boa causa: a escola voltou e agora eu tenho menos de escrever, e semana que vem é minha semana de provas e eu vou me sentir sobrecarregado. Vou tirar duas terças de férias para voltar e conseguir adiantar alguns capítulos para vocês, obrigado pela compreensão e boa leitura!

Capítulo 15 - I'm sorry to my unknown lover


Eu podia começar a contar essa história de inúmeras maneiras diferentes.

 

Eu poderia começar falando sobre quando a vi pela primeira vez, com os olhos grandes curiosos e o sorriso sem um dente. Poderia começar falando do nosso primeiro beijo, onde eu achei que havia estragado tudo. Eu poderia contar sobre a nossa primeira vez, ou então… Poderia contar do casamento. Qualquer coisa que envolvia ela era complicado demais para explicar - e de entender - porque quando se trata dela as coisas nunca são fáceis. Por muitas vezes me vi confusa se devia falar sobre ela porque tinha medo de que as pessoas pudessem se apaixonar também e eu nem sabia como falar. Na longa lista de adjetivos sobre ela, fácil era o único que não se encontrava. Acho que eu deveria começar a contar isso do início.

 

Meu nome é Manoela. Manoela Aliperti França Domingues. Eu tenho 26 anos, mas essa história começou quando eu tinha oito. Meu pai teve uma transferência no trabalho e tivemos que nos mudar para o lugar onde passei toda minha adolescência: O Condomínio Montanari. Lá conheci amigos, aprendi coisas importantes, vivi momentos importantes e… Lá que eu a conheci. Desde do momento que ela se arriscou a tentar falar comigo eu sabia que tinha algo diferente nela. Essa garota se chama Giovanna. Sim, com dois N. Eu não sei nem exatamente por onde eu começo a falar sobre ela. O cabelo dela costumava ser cacheadinho, mas eles se desfizeram sozinho ao longo do tempo. Ela tem fobia de elevadores, gosta de iogurte, ama usar roupas coloridas (o que sempre teve um grande contraste com meu guarda roupa monocrático de branco e preto), ela gosta de animais, todos eles, mas odeia zoológicos. Gosta, tambem, de todo tipo de música e adora dançar, e cantar. Ela raramente acorda de mau humor, mas fica chata quando passa muito tempo sem comer. Giovanna é a mistura perfeita de “Noite Estrelada” de Van Gogh e “Für Elise” de Beethoven.

 

Hipnotizante como o céu vibrante da pintura, e delicada como as notas de piano. Duas obras extremamente famosas em estilo de arte diferentes. Apesar de conhecida e popular, ambas não perdem seu valor. Reproduzir elas não é uma tarefa fácil, eu levei três meses para aprender a tocar no piano e mais dois de treino aperfeiçoando para apresentar numa peça na época de escola. Nem se eu treinasse a vida inteira eu aprenderia a lidar com Giovanna. Ah, mas se Drummond a tivesse visto teria a feito um livro. Não duvido que Vinícius de Moraes escreveu “Onde Anda Você” ao conhecer uma Giovanna daquela época. Quem sabe talvez seja a própria Capitu de Dom Casmurro, ou então a Julieta de Romeu, ou Beatriz de Dante… Eu poderia acha-lá em qualquer lugar. Giovanna era arte: eterna e mutável. É a musa perfeita para qualquer obra.

 

Consigo facilmente a vê-la na Grécia, como uma mistura mística de Afrodite e Atenas. Embaixadora de um povo, liderando seu governo e ensinando crianças a ler as escrituras antigas dos pergaminhos que ela não deveria mostrar aos pobres. Ela poderia ser uma Cleópatra do Egito em sua era de ouro, com a maquiagem colorida e extravagante que usa até hoje, que eu gosto de pensar que é uma pintura de guerra. Talvez fosse também uma imperatriz de Roma (Avé Cezarina!) e tenha vingado a morte de Júlio, talvez tenha sido líder da revolução na França. Giovanna era complexa demais para ter uma vida só, escolheu ela ter todas. Talvez eu seja Miles que John Green escreveu e só queira entender minha Alasca. Eu poderia passar todos os dias da minha vida falando sobre tudo que eu imaginei sobre - e com - Giovanna em todas as noites que fiquei olhando o teto do meu quarto.

 

Eu queria ter o poder de voltar no tempo, para naquela tarde que ela me mandou embora, eu ter dito algo. Acho que talvez ela não saiba muitas coisas que eu nunca tive a chance, e a coragem, de falar. Acho que nunca contei para ela que eu gostava de como o cabelo dela ficava quando ela saia do banho e deixava secar sozinho, ou que realmente aquela camiseta do The Smiths (que eu perdi em algum lugar) fica melhor nela do que em mim. Talvez se eu tivesse tido antes que aquela foi a minha primeira vez, e que nunca teve outro na minha cama. Ela não sabia, mas aquela foi a minha primeira vez também, e tudo não passou de um grande mal entendido. Mas, ela não me deixou explicar, eu congelei, eu não sabia o que estava acontecendo. Eu me senti em queda livre: o chão do paraíso se abriu aos meus pés e eu caí.

 

Eu acho que preciso começar a contar isso de algum ponto na história. Vou, então, contar da minha apresentação do nono ano, quando eu tinha quatorze anos e ela doze. Era uma grande noite para mim, já que eu iria apresentar para todos os pais dos alunos da minha escola a música que ensaiei o semestre todo. Beethoven, o meu gatinho branco listrado, provavelmente não me aguentava mais ouvir tocar Für Elise. Mas lá estava eu, vestindo roupa social e me olhando no espelho do camarim ansiosa para o que viria a seguir. Já havia performado em frente a pessoas antes, mas nunca um público tão grande. Não podia dizer que não estava com medo, porque estava. Se tinha uma coisa que eu estava, essa coisa era com medo. Eu sentia que podia vomitar a qualquer instante.

 

— Precisa de algo, Manu? — Juan, que tinha bolsa de música no meu colégio, entrou no camarim usando seu terno e segurando uma garrafinha de água.

 

Juan Paiva era um garoto com mais ou menos a idade de Giovanna. Tinha os cabelos crespos em degradê nas laterais e bem cheio em cima. Era bem alto para a idade, com um estilo bem particular. Na orelha, um brinco dourado. Apaixonado por jazz e pela cultura afro-americana que tinha orgulho de fazer parte. Por esse motivo, era saxofonista da escola e flautista reserva. A maioria das pessoas da banda ou orquestra tinha sua função principal e a secundária, para ter alguma substituição em casos de emergência. Por exemplo: Juan era saxofonista na banda de blues, e também era flautista da orquestra de metais. Eu era pianista, mas podia ser violonista ou guitarrista para a banda.

 

— Acho que preciso daquelas suas frases inspiradoras e motivacionais. — Admiti, me levantando e vendo ele por as mãos no bolso.

 

— Ninguém aqui está mais preparada que você para apresentar essa canção. — Juan se aproximou, pegando as minhas mãos. — E que Beethoven abençoe essa pianista que prefere Tchaikovsky, Pachelbel e Bach, mas que hoje ele esteja aqui e te faça sentir o que ele sentiu ao compôr para Elisa essa música. — Revirei os olhos, ele amava Beethoven e Mozart. — Mas sério, Manu, ninguém está mais preparada que você. Você é a pessoa mais qualificada para essa noite. Eu acredite em você. — Ele me abraçou, apertado. — E agora eu preciso ir, eu sou um dos flautistas reservas e preciso ver se o menino do sétimo realmente desistiu.

 

E saiu da sala. Nesse momento, levei minha mão ao bolso, ao terço todo em preto que Vinícius havia me dado. Enrolei ele na mão e respirei fundo.

 

— Pai. — Comecei a minha oração. — Esta é uma noite importante para mim. Que flua em mim Tua vontade e que seja feito da Tua maneira. Sou instrumento do Teu amor, só preciso sentir a benção das tuas mãos para me dar boa sorte. Quero que seja feita o Seus planos em mim. Não te peço nada, pois já me deu tudo. Amém. — Respirei fundo, guardando o terço no bolso e saindo do camarim. O primeiro ritual já havia sido feito.

 

Em momentos importantes, eu tinha uma ordem de fatos que me deixavam mais a vontade e confiante. Uma série de rituais que construía uma espécie de mantra não-totalmente-falado. Eu fazia uma oração, eu escutava uma música, eu fazia uma rápida meditação e comia um chiclete de menta. Era sempre assim, e nunca deu errado. Caminhei pelos corredores do teatro atrás de um local mais deserto e menos acessível que o camarim, eu precisava escutar uma música. A minha canção secreta era “Tempo de Pipa”, do Cícero. Achei a saída dos fundos do teatro com um estacionamento não usado para esta noite. Peguei os fones do meu bolso e dei play na música. A melodia, a letra, a voz, o timbre e as notas: eram uma perfeita obra de arte sonora. Eu precisava relaxar.

 

Peguei meu colar de lua no pescoço e segurei forte, sabendo que na platéia Giovanna fazia o mesmo. Respirei fundo, como quem quer encher os pulmões ao máximo. Soltei lentamente pela boca, sentindo que o nervosismo ia junto ao ar. Abri os olhos quando a música acabou e guardei os fones e voltei para o teatro. Vindo até mim com uma garrafa com água e limão estava Guilherme.

 

Guilherme Prates era baterista da banda de rock e contrabaixista da orquestra das cordas. Outra sistema interessante que você poderia escolher ficar no catálogo até achar uma banda fixa. O grupo musical tinha duas vertentes: a clássica e a moderna. Eu era classicista, minha função primária era na orquestra. A orquestra não tem “bandas”, tinha a orquestra da família de instrumentos que você tocava e ao montar um concerto grande o maestro escolhia os que tinha maior desempenho nas músicas selecionadas. Guilherme, por exemplo, hoje estava convocado para tocar nas duas funções por nenhum outro contrabaixista ter consigo efetuar as músicas da noite como ele. Ele sorriu pra mim, me entregando a água.

 

— Você entra no próximo ato, eu tenho que ir agora. — Avisou.

 

Essa noite, eu não faria parte da orquestra. Eu tinha um solo. Sem maestro, sem outro pianista acompanhando, era eu e eu. Sem partituras, sem instrução. O semestre inteiro treinando para esse momento. Quando me sentei naquele piano solitário no meio do palco, eu já estava num estado de transe. Não olhei para a plateia, quando me sentei e posicionei meus dedos, eu sabia exatamente o que fazer. Quando comecei a tocar, meus dedos tocavam as teclas como quem fez isso a vida toda. Porque estou contando essa história? A sensação que eu tive nesse momento em que solei Für Elise foi a mesma sensação que tive quatro anos depois, quando toquei o roupa nú de Giovanna: Como se minhas mãos fossem feitas para aquele momento.

 

Acho que essa é uma das coisas que eu preciso contar: a minha primeira vez com Giovanna. Ainda lembro de quando subi a escada com ela nos braços e fomos cambaleando até o quarto dela. Eu conhecia aquela casa tão bem, aquele quarto… Não sei quantas vezes eu e ela se deitou ali para ver algum filme ou simplesmente curtir a presença uma da outra. Nós sempre fomos mais que apenas beijos e abraços. Éramos conversas, risadas, lanches compartilhados, mas naquele momento, éramos dias adolescentes cheias de desejo. Giovanna cheirava a flor mais doce do jardim. Ao encarar ela enquanto puxava minha camiseta, eu cheguei a conclusão que ela era como um anjo, que poderia fazer qualquer outro ser celestial cair na tentação humana que é amar. Qualquer um desistiria da vida eterna para ter doze horas mundanas com ela. De que adianta o paraíso, o céu todo, o reino eterno, se não puder provar do mel divino que Giovanna tinha no corpo.

 

Quando joguei a camiseta no chão e a olhei deitada apoiada nos cotovelos me encarando com olhos selvagens, meu coração falhou a batida. Eu poderia parar e só a ficar olhando pelo resto da minha existência. Os cabelos preso em coque e usando aquela camiseta preta “keep kissing”. E eu realmente a continuei beijando. Se eu fosse explicar como era a sensação de beijar Giovanna, todas as pessoas do mundo iam querer um beijo dela. Ela tem um jeito de… se entregar. É como ter Afrodite te beijando e mostrando que está entregue àquilo, entregue àquele momento. Me falta palavras para explicar Giovanna, talvez nem eu a entenda direito. A encarei, puxando meu top e o jogando no chão. Ela soltou o ar num suspiro pesado, que me causou um arrepio. Me aproximei dela, a beijando de novo. “Keep Kissing”. Ela segurava minha nuca, suas mãos quentes presas em mim. Desci os beijos pelo seu pescoço, seu perfume cítrico-floral invadindo meu corpo. Seus dedos agora estavam agarrados ao travesseiro enquanto eu puxava a sua camiseta e beijava sua barriga. Suas costas se arquearam, toquei sua cintura nua com os dedos e ela se sentou, me deixando puxar sua blusa para cima, lentamente. Não era a primeira vez que a via sem camiseta, mas agora era diferente: Agora seu corpo estava quente e querendo o meu.

 

— Manu? — Chamou, numa voz manhosa. A encarei, seu corpo estremeceu no meu olhar. — Me beija. — Me aproximei, a beijando de novo, agora com mais calma e delicadeza. Ela foi em empurrando, me fazendo sentar na cama e subindo no meu colo. Abraçou meu pescoço com seu toque de quem quer o mundo todo nos braços e arranhou minha nuca.

 

Giovanna tinha um jeito dela demais. Ela ficava irritada por eu nunca dizer nada, sobre ela ou sobre nós. A verdade é que eu nem sabia como explicar, ou o que explicar, e tinha medo de explicar e ela não entender. Afinal, como eu poderia pôr em palavras a revirada que meu estômago dá toda vez que ela me beija? Como eu poderia dizer em voz alto o tanto que meu coração acelera no peito só de ver ela chegar? Medo que talvez eu diga porque me apaixonei por ela e tirar a venda dos olhos das pessoas que não enxergam a jóia rara que ela é. Como eu iria dizer a ela que não conseguia desviar meus olhos dela porque em alguns momentos eu estava, sem querer, a despindo mentalmente?

 

Abracei seu corpo e subi as mãos, indo abrir sua sutiã. Ela não resistiu, ou impediu, mas eu notei que se sentiu tímida. Quando as alças caiam pelos seus ombros e ela o soltou na cama, ela ficou com os braços ao redor do meu pescoço, ela estava com vergonha, era nítido. Meu rosto estava na curva do seu pescoço, sua mão fazia carinho no meu cabelo. Minha pele formigava, a dela também. Por um momento, ficamos só ali, curtindo o calor uma da outra. O cabelo de giovanna havia se soltado, o cheiro doce do creme de pentear misturado com o perfurme cítrico: o paraíso tem cheiro de campos de morango perto ao mar e limonada.

 

Beijei o ombro dela, com calma. Ela suspirou, apertando os fios do meu cabelo. Desceu uma mão para minhas costas nuas, arranhando levemente enquanto eu mordisquei a base de seu pescoço. Comecei a espalhar beijos pelo seu pescoço, ela murmurava coisas que eu não conseguia decifrar. Empurrei o corpo dela para a cama, a fazendo deitar. Ela escondeu o rosto com as mãos.

 

— O que foi? — Perguntei. Meu timbre estava rouco.

 

— Eu estou com vergonha. — Ela falou, sua voz estava uns tons mais graves.

 

— Do que? — Perguntei, desabotoando minha calça.

 

— Você, me olhando. — Ela se virou, escondeu o rosto no travesseiro.

 

— É que você é linda. — Falei. Me aproximando dela e tocando suas costas. Me deitei, a abraçando por trás e beijando sua nuca. — Linda demais.

 

— Porra, Manoela… — Gi murmurou, se virando e segurando meu rosto, me dando beijos demorados. — Você que é linda.

 

— Ah, se eu te contasse o quão linda você é… — Ri, vendo ela abrir o botão do próprio short. — Você iria se apaixonar por você.

 

Ela me beijou, feroz. Como quem precisava disso pra respirar, como quem precisava viver aquilo agora. Em pouco tempo, minha calça e o short dela se juntou ao tapete no chão. Seu corpo já suava e tinha marcas de chupão e mordida no pescoço e no seio. Giovanna já tinha a boca inchada e avermelhada, que agora beijava meu corpo. Arfei, sentindo as mãos dela entrarem na minha cueca e seus dentes morderem meu pescoço. Os dedos dela começaram a acariciar meu ponto mais sensível e eu arqueei as costas. De relance, vi a outra mão dela encontrar a própria intimidade.

 

— Tá gostoso, Manu? — Ela perguntou, me olhando.

 

— Uhum… — Respondi, mordendo a boca. Ela puxou minha cueca, a jogando no chão e beijando minha barriga. Fechei os olhos, sentindo as mãos dela abrir minhas pernas. Senti a boca dela me tocar, soltei um gemido alto com a língua dela chupando lentamente. — Sem colocar os dedos. — Pedi, antes que ela tentasse. Meu corpo se contorcia embaixo dela.

 

Não demorou muito para eu me sentar na cama e soltar um gemido longo, arrastado. Respirando fundo e pesado, com dificuldade, Giovanna veio me beijar sorrindo, me fazendo sentir meu próprio sabor. Ela sorria, o sorriso de uma criança travessa, ela era tão… ela. Nem parecia que tinha acabado de me fazer gozar. Durante o beijo, inverti nossas posições, ficando por cima dela e puxando sua calcinha.

 

— Já se recuperou? — Ela perguntou, rindo.

 

— Você não faz ideia da vontade que tô de você… — Murmurei, fazendo o rosto dela se desmanchar numa expressão de puro tesão.

 

Desci os beijos pelo corpo dela, chegando ao ponto que ela - já impaciente - tanto queria. Sabe, quando fui para Bordéus, na França, comi o melhor petit gâteau da minha vida, mas nem ele superou o sabor que eu senti ao tocar minha boca na intimidade de Giovanna. A cada segundo que passa eu sinto que ela era uma deusa reencarnada ou um anjo caído na terra, porque pecado maior para ela era não poder amar. Giovanna tinha sabor de ambrósia e néctar, que os deuses gregos esbanjavam nos jantares e que poderia ser fatal a qualquer mortal se ingerido sem cuidado. Eu me via embriagada por ela.

 

As mãos dela se juntaram ao meu cabelo, puxando e arfando enquanto arqueava as costas. Ela continuava murmurando coisas indecifráveis que agora eu queria ter entendido, e decorado, talvez fosse uma espécie de mantra sagrado que poderia ter mudado tudo. Lentamente, ergui meu olhar, e Giovanna o acompanhou. Nossos olhares se encontraram enquanto eu passava a língua por toda a extensão de seu sexo. Enquanto os olhos dela estavam fixos aos meus, toquei um dedo em sua entrada. Os olhos dela arregalaram antes de se fechar e ela jogar a cabeça para trás, sentindo meu dedo entrar lentamente, sem pressa. A respiração de Giovanna acelerou, como se aquilo fosse algo que ela já tinha pensado antes. Me peguei me perguntando se ela já havia feito aquilo sozinho imaginando esse momento. Meu estômago revirou com a possibilidade. Sua boca parecia acostumada a chamar meu nome, que entre as palavras resmungadas e sem sentido era o que eu conseguia compreender.

 

Comecei a mexer meu dedo, indo e vindo, mas concentrada em decorar cada traço do seu rosto. Os olhos fechados quando eu fui para o lado dela, fazendo movimentos lentos. Mordi a boca, me senti então como um poeta do romantismo: idealizando a mulher amada como se ela fosse um anjo. Mas eu duvido que seres celestiais não sejam iguais a ela. O rosto delicado, mas parecia ser esculpido no mármore. Como as incríveis obras de Michelangelo, que esculpia tecidos finos e delicados em pedras enormes e difíceis de manusear. Essa era Giovanna agora, deitada na cama se mexendo reagindo ao meu toque. “Sol e Ítalo; óleo sobre a tela. 2018.” eu chamaria. Eu sabia que ia me queimar em breve, mas, naquele segundo, naquele exato segundo, eu não me importava.

 

Beijei o pescoço dela e coloquei o segundo dedo, sentindo ela abraçar meu corpo e arfar, tentando pronunciar meu nome. Parei, por um segundo, com os dois dedos dentro dela a vendo revirar os olhos e suspirar pesado.

 

— Tá tudo bem? — Perguntei, baixinho.

 

— Me fode, Manoela. — Ela pediu, mas em tom de ordem do que de pedido. — Me fode com força.

 

Gemi alto ao ouvir isso e sentir as unhas dela nas minhas costas, voltando a mexer meus dedos dentro dela, agora mais rápidos. Ficamos assim até eu começar a sentir o corpo dela tremer. Ela estava quase lá. Me afastei, eu precisava decorar essa cena. Agarrada ao meu braço e murmurando algo que eu acho ser “mais”, Giovanna então se sentou quase num pulo fechando as pernas contra minha mão e jogando a cabeça pra trás depois da contratação involuntária. Seu gemido veio rápido, rouco, alto. “Manoela” tinha dito entre um e outro durante seu orgasmo. Deitada, me puxou para um abraço dengoso.

 

— Manoela… — Chamou, a respiração descompasada. — Eu amo você. Eu amo muito você.

 

— Eu amo você, Giovanna. — Respondi, procurando os olhos delas. O rosto dela estava vermelho e ela parecia estar segurando a respiração. — Que foi?

 

— Nad… — Disse ela, virando o rosto e… espirrando. Espera, espirrando?

 

— Saúde. — Sorri, vendo ela esconder o rosto.

 

— Acontece sempre depois de ter um… você sabe. — Giovanna coçou no nariz.

 

— Ah, então você já sabia como?

 

— Segredo… — Disse ela, sorrindo travessa e se aproximando de mim. — Você foi minha primeira. Eu estou feliz de verdade que tenha sido com você.

 

— Primeiro beijo, primeira vez… — Falei, como se anotasse mentalmente.

 

— Primeiro amor. — Disse ela.

 

— Primeiro amor. — Respondi. Ela me abraçou e faz carinho nas minhas costas. Eu queria poder morar naquele abraço, naquela cama, naqueles lençóis bagunçados e cabelos com cheiro de creme para pentear.

 

Ela caiu num sono, como criança cansada depois de brincar a tarde toda. Os olhos fechados e a boca semiaberta, me permiti encara-la. Os traços, a pele, os fios de cabelo… Eu estava apaixonada por tudo nela. Depois disso, as coisas cairam como areia entre e meus dedos, ela me mandou embora. Quando sai do banheiro, Giovanna segurava meu celular. Eu não sei exatamente o que ela leu, ou até quanto ela conseguiu ler. Giovanna entendeu tudo errado. Ela havia visto minha conversa com a Gabriela, onde ela me mandou a sinopse da peça que ia apresentar no outro dia. A sinopse contava em forma de carta sobre um amor impossível entre duas meninas na época da segunda guerra, já que uma delas era judéia e esse o grande problema da história. Ela estava me convidando para ir, a entrada era gratuita. Acho que o real problema foi Giovanna não ter lido tudo e ter se deixado levar com o “amor” que Gabi me mandou. Era raro achar alguém que Gabi não chamava de amor, mas óbvio, Gi não ligava pra isso.

 

Eu podia ter explicado, mas… Não era a hora. Giovanna não estava pronta para ter um relacionamento. Ela não conseguia confiar em mim, e eu não posso querer construir algo com quem não tem confiança. Naquele momento eu aceitei que, apesar de querer muito, não era para ser. Não naquele dia, naquela fase, naquela época. Ao sair daquela casa eu sabia que ela era a pessoa certa, na hora errada. Eu queria ter ligado para Tia Jane e contado que não fiquei pro jantar. Eu sabia que aconteceu o que tinha de acontecer, mas isso não me impediu de ficar triste.

 

Eu me perdi por muito tempo. Me vi me destruindo em festas com músicas que eram mais altas que meu coração que gritava por ela, me vi embriagando minha mente para não pensar nela, e drogando meu corpo para não sentir falta. Me vi bebendo todas as garrafas de vodkas das mais diversas marcas, viciando em remédios para dormir e em energético para assistir algumas aulas. Eu acabei comigo mesmo tentando acabar com um sentimento porque… Tudo em mim amava Giovanna. Tentar destruir isso era tentar destruir a mim mesma. Lembro de um dia ter me olhado no espelho, vendo meu corpo mais magro do que deveria com olheiras fundas. Me sentei no chão do quarto, me encarando e sabendo que já fazia 8 meses desde a briga. Peguei os remédios para dormir e coloquei todos em minha mão. Encarei cada comprimido. Tomei um e engoli no seco, joguei o rosto dentro do vaso e dei descarga. Dormi o final de semana inteiro, querendo renovar meu corpo e mente. Eu decidi que pararia de me destruir porque minha vida era bem mais que uma garota. Em poucos meses me recuperei. Voltei a ir a faculdade e cuidar da minha vida acadêmica e pessoal. Eu me curei.

 

Ainda lembro da sensação que tive em janeiro, no aniversário dela. Eu decidi passar todo o mês na casa dos meus avós, sem celular ou contato com algo. Eu cresci, também. Me vi deitada na rede enquanto em algum lugar Giovanna fazia dezoito anos. Aquela casa onde passamos férias juntos em um inverno a muito tempo. O tempo era algo engraçado: ela nunca esteve tão distante de mim, mas eu sentia a presença dela em todo lugar. Peguei meu colar, tocando suavemente com as pontas dos dedos. Ela fazia o mesmo. Suspirei, pesado, cansada, talvez. E se eu tivesse a forçado a entender? E se eu não tivesse esperado o tempo dela de crescer? E se eu tivesse parado naquela tarde e dito a verdade e não só ter aceitado que ela não estava pronta para mim? Bufei. É, Giovanna, você é a ferida do meu peito diabético. Você não cicatriza.

 

Lembro, também, da sensação de receber o convite. Ela havia mandado para a casa dos meus pais, que se mudaram para outro condomínio em São Paulo graças ao emprego do meu pai. Quando olhei o convite, eu senti esperança. Esperança de ser a hora certa, de agora ela voltar a ser minha. Mas a ideia logo se desfez. Ela iria se casar. Como poderia ser minha chance? Ela estava noiva. Ela seguiu em frente… Respirei, pesadamente. Eu iria para França no mês seguinte. Depois de pensar muito, decidi ir. Perto da quadra da igreja, desliguei a moto e deixei estacionada numa conveniência ali perto, porque ela iria reconhecer o som do motor.

 

Caminhei, lentamente, até lá. Eu conseguia ouvir o som de movimentos. Cheguei até a porta, olhando o padre terminar a cerimônia e permitir que o noivo beijasse a noiva. Eu cheguei atrasada. Ela estava lá, casada. Giovanna estava maior, o cabelo nos ombros com cachos, como era quando nos conhecemos. É, talvez eu não tenha sido o amor da vida dela. Quem sabe, então, ela nunca se apaixonou por mim. Me permiti só admirar a mulher que ela havia se tornado, sentindo meu peito doer mais uma vez. O tempo pareceu congelar. Como seria se eu estivesse ali? E se fosse eu dizendo “Sim” em frente a igreja lotada? Eu cheguei depois do “cale-se para sempre” e essa agora é minha sina. Eu nunca me atrasei para nada, na minha vida inteira, mas havia uma missão mística em chegar antes do “cale-se para sempre” e poder ter a garota que eu amo de volta. Eu me sentia impotente. Como quem perdia a última chance que teria. Giovanna estava literalmente fora da minha vida. Gabriel se levantou e aplaudiu no fundo da igreja, o tempo voltou a correr. Todos os convidados o acompanhou e ele saiu do local, com cara de quem segurava o choro. Assim que se virou, me viu.

 

— Manoela? — Ele perguntou, os olhos arregalando. O puxei para a lateral, onde não ficaríamos à vista. — O que faz aqui?

 

— Ela me convidou. — Sussurrei. — Cheguei atrasada…. Quero que entregue isso a ela. — Peguei do bolso da minha jaqueta a carta.

 

— Ah… Okay. — Ele falou, guardando a carta no bolso.

 

— Eu preciso ir. Amo você. — Falei, segurando seu rosto e dando um beijo na sua testa. — Não esquece, Gabe, a carta.

 

Me levantei, o deixando ali e pegando minha moto, acelerando e seguindo o curso. Logo depois, fui para Bordéus, estudei por um ano e meio e fiz um mochilão pela europa no último semestre. De todos os países, não conheci Verona. Uma vez, eu e Giovanna estávamos conversando e combinamos de viajar pra lá juntas. É óbvio que não aconteceu, mas eu quis manter a minha promessa como uma esperança tola, como um motivo pra me segurar. Acho que depois de tantos anos, eu deveria ter esquecido, ignorado, deixado de lado, mas como tudo quando o assunto é ela, não é uma missão fácil. Depois do casamento eu resolvi esquecer. Eu finalmente arquivei o assunto Giovanna. Era passado, junto aos meus albuns de figurinhas da copa. Mas, de repente, lá estava ela. Na minha frente, na empresa que eu tinha acabado de ganhar um emprego.

 

Eu pretendia manter em segredo o fato de que estava trabalhando naquela empresa, sem ter contato com ela. Mas, bem, agora está na porta da sala, me olhando como se eu fosse um fantasma. Os olhos fixos em mim, a boca trêmula. Eu sabia que mil palavras passaram pela mente dela antes dela dizer:

 

— Manoela? — Seu tom era incerto, talvez tivesse medo de cair da cama. Bem, eu tinha.

 

— Giovanna?

 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...