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História Kaleidoscope - Capítulo 1


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Notas do Autor


Olá!

Essa encantadora história teve inicio em 2018, quando tive a ideia de começar a escrever. Ocorre que, por algumas questões, não consegui dar o andamento merecido.

Portanto, resolvi retornar com o mesmo objetivo, após assistir a obra maravilhosa Retrato de uma jovem em chamas, onde percebi que poderia reiniciar a história com uma pegada diferente e desafiadora, em um século que, particularmente, não possuo grandes conhecimentos, mas que me deixou encantada com o pouco que li, querendo prosseguir com esse conto.

Espero que vocês gostem o tanto que eu já gosto.

Até breve!

Capítulo 1 - Prólogo


Fanfic / Fanfiction Kaleidoscope - Capítulo 1 - Prólogo

"Não se luta contra o destino; o melhor é deixar que nos pegue pelos cabelos e nos arraste até onde queira alçar-nos ou despenhar-nos."

Machado de Assis

 

Irlanda, século XVIII

O sol invadiu o cômodo de paredes claras. Tudo era delicado em demasiado. Os móveis, nada modestos e muito bem planejados, recheavam o ambiente com toda classe que a situação exigia.

O belíssimo vestido claro sobre sua cama, exibia um decote discreto para enfeitar o seu busto, com curvas de dar inveja a qualquer atriz de Hollywood. Lauren contava com seus imperceptíveis 22 anos. Esbanjava uma inteligência surpreendente e uma enorme gula para a literatura e piano, herdada de sua avó.

Na janela do quarto, inteiramente nua, totalmente dispersa do mundo atrás de si, Lauren fitava a água cristalina do mar. Seus pés descalços tocando o taco gélido de madeira estavam sedentos para tocar a areia fina da praia de águas serenas que fazia quintal para o enorme castelo. Aprendeu a amar intensamente à simplicidade da vida e os poucos momentos de paz.

Uma brisa leve bagunçou seus longos cabelos lustrosos, que quase nunca se mantinham soltos, fazendo com que sua visão fosse afetada por conta dos fios rebeldes em seu rosto. O vento gelado cortando sua espinha, os pelos do seu corpo totalmente eriçados. Suspirou nostálgica.

"Sou tão privilegiada por essa visão", pensou. 

Virou-se vagarosamente, relutante demais em desgrudar os olhos daquela vastidão azul, ficando de costas para o parapeito, passando as mãos levemente tremulas pelos cabelos, em busca de sanar a rebeldia dos fios negros. Com os olhos marejados, encarou as paredes claras do quarto, descendo os olhos, especificadamente para o seu vestido do jantar de noivado sobre a cama, costurado exclusivamente para ela, um modelo apertado do melhor tecido de seda.

Não queria pensar. Não queria lembrar. Lembrar era doloroso demais e ela não suportaria. A verdade doía imensamente, cortava o peito sem piedade. Mas tudo a fazia lembrar. O céu, o mar, cada gota de chuva que caia nessa terra, cada simplicidade despercebida por quem enxergava o mundo depressa demais. O perfume. Deus! O perfume doce e a voz sussurrada em seu ouvido nos momentos mais íntimos, nos momentos em que ela era somente uma mulher amando outra mulher e não precisava esconder suas transparências, ela era aceita e desejada genuinamente.

Balançou a cabeça como quem tenta afastar os pensamentos. Era o seu jantar de noivado. Era o seu passo para o futuro e para ser quem ela, infelizmente, havia nascido para ser. Andou até o enorme espelho que cobria a parede ao lado da cama, limpou com a palma da mão às lagrimas insistentes. Sabia que precisava arrumar sua aparência tristonha e desgastada por coisas que nem mesmo ela saberia descrever, visto que a dor dilacerante espremia seu coração cansado, fazendo com que nada, absolutamente nada fosse capaz de descrever a situação.

A sua vida estava destinada em manter as aparências. Estava prestes a se casar com um homem que mal conhecia e jamais amou, precisava demonstrar uma força que não habitava mais em sua essência e, principalmente, estaria fechando a porta para uma das poucas coisas verdadeiras em sua vida. Como se manter intacta a isso? 

Depois de se lavar com uma delonga angustiante, vestir-se adequadamente para a ocasião, caminhou graciosamente até a porta de entrada do quarto, dando uma lufada antes de sair com o resto de força que mantinha.

O pequeno corredor cheio de portas marrons dava para o começo de uma escada de madeira rústica. Lauren não podia ver, mas sentia em seu íntimo que todos ansiavam por sua presença. Seus amigos e familiares estariam ali, participando de sua mentira.

Na medida em que se aproximava, a morena podia escutar o som das taças e das risadas. Era uma noite feliz. Por que ela não poderia se sentir assim? Comemorar e honrar a oportunidade que muitas moças gostariam de ter?

Quando Lauren Jauregui apareceu no topo da escada, os vários convidados que estavam presentes foram ao chão, inclusive Henry. Ela estava dolorosamente deslumbrante. O tecido caindo como pluma em seu corpo, a cor combinando perfeitamente com sua pele leitosa. Era tudo meticulosamente planejado, feito para ela e para aquele momento. Os cabelos negros como a noite enrolados em um penteado magnífico, deixando seus olhos tom verde musgo completamente expostos.

Henry apressou-se entre os convidados, parando perto da escada para receber a amada. Todos sabiam da beleza de Lauren, era algo indiscutível. Mas ela era como uma fênix. Sempre se reinventava e renascia e tornava-se cada vez mais bela.

- Eu queria poder elogia-la – Henry tocou com leveza as mãos de Lauren – Mas não há palavras no mundo para descrever o que você está.

- Você apenas está sendo gentil, Henry – sorriu – Como sempre.

Em questão de segundos os dois já estavam no meio do salão, dando atenção a todos, sorrindo e acenando. Muitas pessoas importantes à época estavam no ambiente, como duques e duquesas. Lauren Jauregui tinha exatamente tudo para ter a atenção em cima de si desde o seu nascimento, quando o presente estava distante demais do seu pensamento. Ela tinha beleza, fortuna e agora estava para se casar com um homem da mesma linhagem.

- “Uma mulher belíssima, de uma família poderosa...”

- “Você herdou os traços da sua mãe...”

- “Todos aqui sabem do caráter do Henry, ninguém melhor do que você para merecer o amor deste homem...”

Agora, a maiorias dos convidados já se encontravam entretidos demais para prestar atenção nos noivos. Henry estava do outro lado do salão, fazendo sala para alguns amigos íntimos. Lauren aproveitou a deixa e foi até a janela mais próxima, sentia-se extremamente sufocada com o ar pesado do ambiente. Embora ela não merecesse, a noite estava sendo generosa. No céu, uma lua brilhava radiante, como se abençoasse sua união.

Puxou o ar com força e suspirou pesadamente. Lágrimas encheram os olhos da morena. Podia escutar a voz de Camila como se ela estivesse ao seu lado naquele momento. Fechou os olhos para lembrar.

“Flashback

- Devo admitir que sou irreversivelmente apaixonada pela mulher mais bela que habita esse planeta. Eu juro que jamais me cansaria de olhar o seu rosto delicado, a curva de sua boca e os seus olhos zangados. – suspirou.

Lauren encontrava-se completamente nua da cintura para cima, apenas um lençol encobrindo a sua modesta protuberância. Os cabelos bagunçados caídos por um ombro só, um sorriso despreocupado fazendo moradia em seus lábios avermelhados de tantos beijos trocados.

- Olhe para mim. – insistiu uma Camila inteiramente nua de joelhos sobre a cama – Eu quero gravar teus olhos na minha memória mais profunda para que seja o meu alento mais íntimo.

Lauren olhou. Verde no castanho. Uma troca de olhares absurdamente íntima, mais antiga que o mundo em que habitavam.

Camila pôs-se a beijar as costas da morena, subindo até a sua nuca exposta. Embriagou-se com o perfume dos cabelos negros, querendo permanecer ali para sempre. Amava Lauren da forma mais profunda que conseguia amar alguma coisa, de corpo e alma, inteiramente, cada centímetro. Um amor ardente, que corroía a alma em uma lentidão eterna, aguçando todos os sentidos, um amor que deixava rastros e uma dor angustiante quando decidia partir.

- Lauren... – chamou com a boca perto do ouvido da morena, causando um tremor involuntário na maior. Os olhos marejados por um sentimento demasiadamente profundo, carregado com uma dor até mesmo física, espremendo seu coração como quem aperta areia molhada, sem piedade.

- Camila...

- Eu sei que certeza é tudo o que menos podemos ter quando se trata de coisas relacionadas à vida, ao coração e tudo o que não podemos controlar. Eu sei - fungou nos cabelos de Lauren - Mas o amor é um sentimento revolucionário e alegre, não é justo não deixá-lo se expandir, privar-se e privar alguém de saber que nutrimos algo tão magnífico quanto ele. Embora digam que o amor e o sofrimento são duas faces da mesma moeda, prefiro acreditar que esse é o pensamento de alguém que sente medo de se jogar desse precipício chamado incerteza. – segurou as mãos da maior por baixo do travesseiro - O verdadeiro amor liberta. O verdadeiro amor se contenta só em existir. Eu não quero que você me ame loucamente com todo o seu restinho de vontade de estar com alguém. Eu quero que você me ame no seu limite e que esse limite seja o suficiente para me transbordar."

- E é, Camila, sempre será – sussurrou Lauren, após voltar para a sua realidade, encarando o céu recheado de estrelas.

 



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