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História Kaleidoscope - Capítulo 2


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Notas do Autor


Olá, boa noite!

É com muito carinho que venho postar mais um capítulo.

Até breve!

Capítulo 2 - Um conto shakespeariano


Fanfic / Fanfiction Kaleidoscope - Capítulo 2 - Um conto shakespeariano

França, 1719

        Camila amava o silêncio, isso era um fato indubitável. Depois de andar por aproximadamente dez minutos, sendo seguida por alunos curiosos e entusiasmados, finalmente havia encontrado o lugar ideal. Suspirou extasiada, encantada demais com o verde diante dos seus olhos. O jardim era o seu lugar preferido, gostava de como sua imaginação era instigada naquele lugar, uma vez que o ambiente era rodeado por uma diversidade de flores, sendo o paraíso para qualquer artista que tivesse a imaginação expansiva.

        O sol estava sendo gentil naquele começo de tarde, brilhando em pontos específicos, realçando a beleza do local. Ela sorriu de forma tímida, fechando os olhos para apreciar o calor atingir o seu rosto moreno e corado pela caminhada. Estava grata por tanta beleza. O céu azul sobre sua cabeça, a grama verde sob seus pés e as flores trazendo ternura. Mesmo que por diversas vezes sentisse saudade de afetos, de alegria, que nem sempre conseguia identificar em seu cotidiano, Camila era grata.

       Era a sua última aula de pintura na França. Embora sentisse medo das mudanças, confiava na vida com todo o seu coração gentil. Amava aquele lugar, sentia-se abraçada pelas grandes oportunidades, por todo conhecimento compartilhado, pela oportunidade de ensinar. Ensinar.  Camila enxergava isso como um dom. A chance de mostrar para seus alunos a importância das cores criando vida sobre a tela, mostrar-lhes as belezas do conhecimento, tudo aquilo que fora passado a ela ainda em idade juvenil.

Deixou que os alunos escolhessem os lugares que mais gostassem no jardim, tentando assim criar uma atmosfera amigável entre eles. Ela sabia bem que ninguém conseguia se deixar fluir sob pressão. Depois de ver todos acomodados em seus lugares, cavaletes ajeitados e pincéis em mãos, decidiu começar.

- Muito bem. – puxou para cima as mangas do vestido azul claro que moldavam o seu corpo jovem e belo – Na aula de hoje, digamos que quero algo relativamente simples. – os alunos sorriram – Mas antes de começar, peço que todos vocês respirem fundo, sintam o ar úmido preencher os pulmões.

          Saiu de trás de sua tela, ficando exposta de corpo e alma. Desejava com intensidade que todos pudessem se conectar naquele momento brilhante. Queria ensinar não só a arte que sabia e estudava, mas despertar seus espíritos para o bem.

- Observem tanta beleza e pensem se a infelicidade não parece ser tão injusta diante de tantas oportunidades para se sentir feliz? A beleza está em tudo, em cada centímetro dessa enorme elipse, basta saber identificar, cultivar e amar. Eu quero que vocês me mostrem a grandeza de tudo isso que estão vendo nesse jardim, esse privilégio de beleza cultivada sob os nossos olhos.

Sorriu doce, alegre, emocionada.

- Com o pincel e a tela, mostrem seus interesses mais profundos por essa vastidão verde que chamamos de natureza. O mundo está tão mergulhado nessa inversão de valores, gastam tempo demais e muita energia com tamanha incapacidade de enxergar a simplicidade da vida, a perfeição do universo. Com toda a delicadeza que um artista plástico possui, desejo que me mostrem a beleza do mundo através da pureza dos olhos de um pintor.

       Pôs-se a andar entre seus alunos, gesticulando com carisma e animação, encorajando a delicadeza que existia dentro de cada um.

          - Esqueçam o lado materialista. – asseverou um pouco mais alto, sorrindo de forma divertida – Eu quero a mais pura arte, o verdadeiro encontro de vocês com a tela, sentimento, amor, paixão em forma de tinta. Estou sendo clara?

Todos concordaram, começando os trabalhos em meio a burburinhos risonhos.

- Muito bem! Sempre com suavidade, de cima para baixo, do lado para o outro...

[...]

Camila suspirou nostálgica quando empacotou a última caixa sobre a modesta mesa de madeira que ficava no centro da sala na casa de seu pai, Alejandro Cabello, um pintor de renome na França. Olhou em volta, uma sensação agradável de recomeço transbordava dentro de si. Estaria fazendo a coisa certa? Não sabia. Acreditava fielmente no percurso natural da vida.

Lembrou-se de sua infância, quando descia e subia rapidamente pelas escadas de madeira antiga, tropeçando desastrosamente em seus pés, para chegar a tempo de admirar o pai pintando enormes telas. E agora lá estava ela, uma mulher de 21 anos, completamente independente e dona de si, um espirito livre e desprendido, sedento para conhecer o mundo e abusar de suas belezas.

- Eu nem acredito que vamos para a Irlanda. – constatou Dinah, sorridente.

Camila sorriu divertida e balançou a cabeça em negação. 

-Pois é, Dinah Jane! Mudanças são mesmo muito necessárias.

Conferiu todas as caixas antes de ter certeza de que poderia tranca-las. Conhecia Dinah desde tenra idade, sabia bem dos medos e receios da melhor amiga. Ela foi sua família, seu colo e consolo durante todos aqueles anos de amizade. Ela era uma irmã, uma mãe, sua melhor amiga, alguém com quem sentia uma ligação inexplicável e leve.

- Eu sei, eu sei. Quem diria? Um dia alunas, depois professoras e agora viajantes. – pegou as últimas caixas sobre a mesa – Quer dizer, você sabe que pode...

- Dinah! – falou em tom de reprovação, lançando um olhar de ternura logo em seguida - A vida é isso, esse mar imenso, nossa função é nos jogar sem saber a profundidade.  Eu quero que não tenha medo, sim? Caso nada ocorra como o esperado, sempre teremos forças para recomeçar e nos reinventar. Sempre tenha fé na vida, minha amiga.

      Dinah revirou os olhos, detestava o fato da amiga sempre saber o que dizer.

        - Ok, Sra. Cabello.

 Após terminarem de embrulhar algumas roupas e preparar os materiais que seriam utilizados no trabalho, foram ao encontro do senhor que lhes levaria até a Irlanda, em seu barco, por um preço deveras generoso.

Deixe-me explicar: Camila havia recebido uma carta do Duque da Irlanda, convidando-a para um trabalho generoso em seu pagamento. Mas, explicaria tudo detalhadamente quando a senhora desembarcasse na praia do país, que fazia quintal para o castelo.

Talvez fosse um trabalho perigoso para uma jovem dama, mas sabia se defender como ninguém. No mais, levaria sua ajudante, Dinah, para caso houvesse grandes necessidades.

Nunca houvera de estar na Irlanda. Por tais motivos, sua curiosidade frente ao país era maior que o medo de emboscadas.

Enquanto o barco se aproximava num ritmo tranquilo da ilha em que estava o seu destino final, Camila ia cantarolando uma canção que havia escutado em uma das orquestras que esteve em Milão, que narrava de forma instrumental os horrores de uma grande tempestade, mas que tinha sido superada.

Estava feliz, diante do sol bonito que fazia, apesar do frio que judiava de suas mãos finas e descobertas. A ilha era rodeada por um mar extremamente azul, com águas cristalinas, onde Camila enxergava de forma nítida a vegetação no fundo do oceano, bem como os peixes coloridos que jamais havia visto em outro lugar.

Sentia-se levemente enjoada pelo balançar sereno do barco. Entretanto, nem mesmo este incômodo conseguiu fazer com que desanimasse de sua escolha. Gostava de viver, explorar e conhecer o mundo. Dançava entre as flores dos campos, após desenha-las nas bordas dos livros que gostava de ler escondida entre o colorido, onde ninguém jamais poderia importuna-la. Camila gostava de viver, mas mais do que isso, gostava de sentir-se viva.

- Senhoras – chamou o marinheiro, desviando a atenção de Camila – peço que as senhoras juntem suas bagagens, pois irei preparar o bote para desembarca-las na praia.

Dinah e Camila olharam-se de forma cumplice, segurando os sorrisos ansiosos entre os lábios rosados, ansiando pelas aventurais que haveriam de chegar a partir dali.

 

Lauren POV

Lauren jogava impacientemente seus cabelos lustrosos e negros para um único lado do ombro. Suspirou extremamente encantada. Sentia o pescoço suar, escorrendo para o vão entre seus seios. Embora estivesse frio lá fora, onde o vento batia violentamente na janela da torre, a biblioteca de seu pai costumava ser um lugar abafado. Seu cérebro trabalhando rapidamente, absorvendo o máximo de informações e descartando automaticamente o que achava desnecessário na leitura que prendia a sua atenção desde os primeiros raios solares.

Sorriu extasiada, os olhos marejados pelo texto que lhe aquecia de forma densa o coração. Passava os dedos pelas letras, como se pelo toque, pudesse atenuar os sentidos que a leitura lhe trazia. Parecia, ao certo, que Lauren devoraria o objeto em suas mãos.

Era um livro de um poeta Irlandês, que sustentava com ternura a sensação de amar alguém perdidamente e as belezas em ser correspondido.

Perdeu a mãe quando ainda era uma criança, sendo criada pelo pai, que jamais se casou novamente, voltando seus cuidados de forma exclusiva para Lauren. A sua avó materna, Katharine, tinha adoração pela neta, via nela uma pureza extraordinária e gula pelos livros. Sustentava, longe dos ouvidos do pai de Lauren, que se a época lhe permitisse, a garota seria uma grande escritora, uma vez que essa tinha um potencial para a escrita.  

- Minha senhora? – Lauren se assustou, fechando o livro com certa rispidez. Sabia do descontentamento do pai quando perdia horas do dia trancada na torre, apreciando os livros velhos que ele adquiria nas viagens. Era a cozinheira. Odiava quando Allyson lhe tratava com tanta cordialidade.

Allyson trabalhava no casarão havia 4 anos, desde que a família resolveu se mudar para o centro da Irlanda, em busca de oportunidade de sobrevivência, visto que às vezes o mal tempo dificultava as colheitas de comida, o que por muitas vezes fazia a população passar fome. Pelo menos no castelo, sabia que jamais passaria por tais dificuldades.

Ela era tão bonita quanto Lauren. Baixa, com um rosto alegre e corado, sempre esboçando um sorriso de dentes alinhados e extremamente acolhedor. Por tais motivos, não demorou tanto para cair nos encantos da família Jauregui, que acolheu a menor de braços abertos, fazendo questão de sempre manter seus serviços.

E foi nessas ocasiões em que foi se aproximando de Lauren, criando um laço afetivo que jamais poderia ser desfeito. Preocupava-se com Lauren da mesma forma que se preocupava com os seus irmãos.  

- Você me assustou – levantou-se do chão, batendo no vestido verde agarrado em sua cintura, que denunciava um corpo jovem e bonito, em busca de limpar o pó que deixava evidente o que estava fazendo.

- Perdoe-me – disse de forma doce, fitando-a com ternura – Seu pai solicita a sua presença, precisa lhe tratar.

Lauren franziu o cenho em curiosidade. O que poderia ser? Ponderou a ideia de ser a mesma conversa de sempre, sobre um nobre desejar desposa-la. Repudiava a ideia com todas as forças. Sentia como se suas decisões estivessem sendo reprimidas, coisa que jamais, apesar dos costumes, conseguiu suportar.

- Pois diga ao meu pai que estou dispensando conversas inconvenientes – disse, por fim, deixando transparecer em seu semblante toda a sua irritação, fitando Allyson com os olhos verde musgo.

A menor sorriu, soltando ar pelas narinas. Conhecia o temperamento indomável da senhorinha, que apesar disso, era sua melhor amiga, mantendo todas as discrições para que não achassem que estava tentando escapar do seu lugar naquela casa, sendo somente uma cozinheira.

- Creio que não seja isso – adiantou-se, em um sussurro quase que impossível de ser escutado, caso não houvesse o silêncio absoluto da torre em que estavam – ouvi um murmurinho hoje mais cedo, que o Sr. Jauregui está lhe trazendo uma companhia, visto que anda deveras preocupado com o seu isolamento nessa torre mórbida. – sorriu de forma doce, lançando uma piscadela para a amiga.

- Como? – indagou Lauren, surpreendida pela atitude. Comprimiu os lábios, como quem se questionava. O que será que o pai pensava dela para ter tomado essa atitude? Certamente não entendia que esse era o jeito que a morena gostava de passar os dias, no meio das letras.

- Acho melhor “você” ir tratar com o seu pai. – disse, por fim, batendo o pano que carregava no ombro no vestido de Lauren, terminando de tirar o pó escuro que sujava o seu traje.

Pois foi o que a morena decidiu fazer. Correu pelos corredores do castelo, em busca de chegar o mais rápido possível ao escritório do pai. Os criados da casa, já acostumados com o jeito da senhora, apenas abriam espaço para que ela continuasse o seu percurso com maestria.

Ao estar de frente para a enorme porta de madeira maciça, tentou arrumar os cabelos negros e rebeldes da melhor forma que pôde, para não aborrecer ao pai que odiava vê-la desleixada. Embora achasse que todas as cortes e exigências fossem desnecessárias, Lauren não nutria o habito de desagradar ao pai. Amava-o mais do que poderia descrever em palavras. Ele era culto, instruído, gentil, amoroso. Absolutamente tudo o que ela esperava em alguém que, caso um dia viesse acontecer, fosse se apaixonar. Pois sim, apesar do espirito rebelde, Lauren era frágil.

Abriu a porta com sutileza, passando o corpo para dentro da ampla sala de paredes claras, levemente envelhecidas pela maresia do mar que entrava pelas janelas abertas. Sorriu tímida para a figura do homem que fumava um tabaco, mantendo-se sentado atrás de sua grande mesa coberta por papeis amarelados.

- Minha querida – apressou-se em falar, erguendo os braços, fazendo menção para Lauren sentar em sua frente. Esta, por sua vez, não hesitou. Estava curiosa pelo assunto – Chamei-a aqui, pois gostaria de lhe tratar um assunto – começou, sem delongas, da forma que Lauren gostava – Como bem sabe, jamais tentei impedir que você aprendesse e prosseguisse nas leituras. Muito me agrada saber que interessa por coisas além de vestidos e penteados – sorriu divertido. Lauren sequer se interessava por tais coisas – Mas, como bem sei que é de seu conhecimento, preocupo-me em demasiado em saber que passa dias e horas intermináveis enfurnada na torre, sem conversar ou interagir com outras pessoas da casa ou até mesmo da região. – puxou entre os lábios o tabaco em seus dedos, para lufar uma fumaça com cheiro forte.

- O que quer dizer, papai? – indagou curiosa, mas já tendo sido adiantada a respeito das intenções do pai – sabes bem que não me importo em viver assim. Ao revés, é exatamente onde encontro o meu sossego.

Michael balançou a cabeça em completa negação. Sabia da teimosia da filha. Havia puxado para a mãe. Talvez se Clara estivesse ali, soubesse lidar melhor com as necessidades de Lauren. Passou a mão livre pelos cabelos, em busca de uma paciência que só nutria perante a filha.

- Eu sei dos seus hábitos, jamais tentei proibi-la. Contudo, visando o seu bem-estar, chamei a filha de um grande amigo meu para passar uns dias em nossa casa. Gostaria de contar com a sua colaboração para recebe-la e trata-la como se fosse da família. Sabes bem como a hospitalidade é importante para mim.

Lauren resfolegou. Estava tentando não transparecer a ansiedade, para que seu pai não achasse que de fato a solidão às vezes lhe incomodava. Gostava de estar sozinha fazendo suas próprias coisas, mas de vez em quando sentia saudades de conversas. Allyson não tinha tanto tempo como gostaria. Por essa razão, muitas vezes o silêncio era a sua companhia.

- Está bem – concordou por fim – vou receber como se fosse um parente muito próximo. Após a sua partida, o senhor me deixará permanecer com os meus gostos? Sem interferir em minhas escolhas? – perguntou seria, fitando o pai nos olhos, como quem procurava uma certeza não dita pelas palavras.

Michael permaneceu em silêncio por alguns instantes, mas, ao final, deu-se por vencido. No fundo, ele sabia qual seria o destino da filha após a partida de Camila: o casamento.

Após a conversa com o pai, Lauren decidiu permanecer em seus aposentos até o horário do almoço. Subiu as escadarias com pressa, segurando a barra do grosso vestido que trajava, completamente esbaforida. O pai não havia revelado o nome da moça que viria passar uns dias no castelo, mantendo a curiosidade de Lauren, que, apesar de tudo, estava feliz. Seriam bons dias, mas Lauren ainda não sabia. 



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