1. Spirit Fanfics >
  2. Karma Konserta: Crepúsculo >
  3. Os medos de Bella

História Karma Konserta: Crepúsculo - Capítulo 4



Capítulo 4 - Os medos de Bella


Eu detestava café.

Lá em casa, o tempo costumava ser bem quente, então tomar uma bebida que literalmente está soltando fumaça não era um costume meu. Não é como se eu amasse coisas geladas também, mas quando se está suando de calor e você pode escolher entre milk-shake ou café, a resposta é óbvia.

Forks era um lugar com um frio infernal, chuva o tempo todo, estradas sempre lisas e pouco se via o sol. Desde o primeiro dia em que acordei na minha nova casa, senti uma certa repulsa por coisas frias. Eu sentia como se aquele não fosse meu lugar, um pinguim no deserto ou um camelo no ártico. É tudo mais conceitual que de fato o sabor das coisas.

Café em Phoenix era desagradável, apenas um líquido escuro com espuma marrom, geralmente amargo demais para o meu gosto. O clima e o tempo de lá não ajudavam ninguém a gostar de café, então poucos lugares tinham um café realmente decente, e, portanto, não era tradição tomar uma xícara de café e pouca gente tinha tato para fazer uma boa bebida – eu não era uma dessas pessoas. Dito isso, minha sincera avaliação para o café de Phoenix é: eu não gosto.

Café em Forks era um pouco diferente. Os jovens preferem chocolate-quente, alguns velhos metidos a nobres ingleses preferem chá, mas uma boa parte da “gigantesca” população da cidade amava café. É uma bebida supostamente energética, relaxante e ideal para o clima mais frio. A tradição da bebida estava bem mais presente, então podemos dizer que as pessoas realmente se importavam com a qualidade do produto. Minha avaliação para o café de Forks é: eu até bebo.

Mas... café em Forks depois daquele dia...

Acho que nessas horas as pessoas enfiariam um cigarro na boca ou se afogariam na bebida, mas eu odiava o cheiro de cigarro e pretendia ficar sóbria para garantir que o que eu tinha visto não era uma ilusão, uma miragem ou uma alucinação. Desde que eu o vi - ou talvez tenha imaginado ter visto -, não consigo ficar tranquila à noite. Sinto como se algo estivesse me rondando, observando-me na cama como o monstro dentro do armário.

Uma semana se passou e eu bebi nesses sete dias mais café que eu já tinha bebido à vida inteira. Não se tratava do sabor, da temperatura ou de qualquer outra coisa do tipo, eu só queria me sentir desperta, ter certeza de que tudo aquilo era verdade. Claro, meu objetivo também era relaxar, mas principalmente manter a cafeína em um nível bem alto. Eu tinha medo de dormir, pois sentia como se algo ou alguém estivesse apenas esperando eu perder a consciência para me fazer algum mal. Sempre que eu fechava os olhos, sentia meu coração gritar e me dizer que eu corria perigo. Quando eu os abria, tinha medo de que alguém estivesse na minha frente.

Café estava sendo meu refúgio, a coisa que garantia que eu não fechasse os olhos.

Quando meu pai voltou de viagem, soube do acidente que aconteceu e ficou ainda mais grudento. Sabe quando eu disse que o bom do meu pai era que ele não me rondava? Então... Não mais.

Eu expliquei que estava bem, mas estava bem claro nos meus olhos que eu mentia. Ele estava preocupado, sentia-se culpado por me deixar andar em uma placa de ferrugem com rodas, mas eu não consegui dizer a ele que o acidente foi o menor dos problemas. Ver aquele rapaz na floresta, ver aqueles olhos.... Deus, devo estar enlouquecendo. Mesmo se eu contasse, acho difícil que ele acreditaria em mim assim.

Eu faltei a semana toda, pois não queria sair de casa. Minhas mãos tremiam, e não importava o quanto eu dissesse a mim mesma que era o frio, no fundo eu não conseguia acreditar. Passei boa parte desses dias olhando para a tesoura que eu usei para acertar aquele cara. Ela tinha entrado no peito dele até o cabo, mas mesmo assim a tesoura estava sem uma gota de sangue. Não podia ser real, mas quando você ouve, vê e sente algo, ou foi real, ou todos os seus sentidos estão mentindo e você está enlouquecendo.

* * *

Já era segunda-feira, e cá estamos, dirigindo para a universidade novamente. Eu não podia tomar café enquanto dirigia, mas poderia muito bem chupar uma bala de café. O sabor amargo me deixava alerta, e o desconforto de sentir aquilo na minha boca mesmo depois de ter dado fim a bala me fazia sentir um sabor de realidade. Sabe o filme “A Origem”, do DiCaprio? Café passou a ser o meu pião, um jeito de sentir que estava acordada e que tudo era real, e que no mundo real nada daquilo que estava nos meus pesadelos poderia me alcançar. É, eu ainda não gostava de café, mas o sabor que ele deixava na minha boca era útil. Aquilo me mantinha separada dos meus medos.

Quando passei pelo trecho onde a abóbora me deixou na mão uma semana atrás, tive medo de olhar para o lado, para a mata, pois temia que aquele cara estivesse me olhando de volta. Até agora eu não sei dizer o que nele me deixou tão assustada. Senti algo ao seu redor, uma presença, uma aura, havia algo nele. Não era natural, nem há como descrever. Quando você vê um leão pela TV, dificilmente ficará assustado. Quando se vê um leão no zoológico, talvez fique um pouco assustado. Mas quando se está frente à frente com o leão, olhando seu próprio reflexo pateticamente assustado nos olhos dele, há medo, há desespero, há sentimentos tão pesados que impedem suas pernas de se moverem.

É como nadar com um tubarão, ver aqueles olhos negros fitando você, sentir que ele não tem alma, compaixão ou piedade, ver que tudo o que ele quer é tirar um pedaço de você para saciar sua fome... Maldito Spielberg...

É inexplicável. Só quem realmente passa por isso pode entender.

Quando estacionei na frente da universidade, recebi alguns olhares curiosos. Provavelmente a notícia de que abóbora tinha beijado o asfalto tinha chegado a eles, até porque as marcas do evento ainda estavam lá para provar. Apesar disso, eu não esperava preocupação de nenhum deles e não a recebi. Foi só um acidente com a garota que senta sozinha na hora do almoço, ninguém é amigo dela, não há por que se importar.

- Com licença... – Ouvi uma voz atrás de mim, e quando me virei, vi princesinha me olhando de um jeito constrangido.

- Oh, cuidado, saiam da estrada – Falei roboticamente, fazendo um gesto de que me jogaria para o lado.

Ele abaixou a cabeça, notando que eu estava tirando sarro da cara dele.

- Eu sinto muito – Disse ele, dando um passo para trás como se estivesse dizendo que respeitaria meu espaço. – Eu queria me desculpar pelo que aconteceu na semana passada. Eu perdi o controle por causa da pista congelada, não foi minha intenção.

Soltei uma risadinha sem humor.

- Vou sobreviver, mas você ainda me deve o dinheiro do conserto da minha abóbora – Comentei.

- Abóbora? – Ele indagou, formando um breve sorriso em seus lábios ao ver que eu agora falava com mais humor. – Belo nome para o carro.

- Costumo ser bastante criativa com apelidos. Um dia eu te falo o que dei para você.

Não sei bem se a expressão dele foi de quem se ofendeu ou se intimidou, mas o vi assentindo sem graça e andando na minha frente.

- Eu falo com você sobre o conserto do seu carro quando seu humor melhorar – Disse ele, e partiu.

Deixei ele andar até ficar fora de vista, e então eu mesmo me pus a andar. Eu não tinha nada contra ele, de verdade, mas não estava com cabeça para isso, e acho também que as noites em claro à base de café também não estavam ajudando meu humor.

Eu não saberia dizer se a aula daquele dia foi chata ou não, pois eu simplesmente não conseguia me concentrar em nada do que era dito lá. Pouco me importa se uma planária pode se regenerar se for cortada ao meio ou se elas defecavam pelo mesmo orifício pelo qual comiam. Tudo o que passava na minha mente era o sentimento de confusão. Eu deveria estar abalada por quase matar alguém, mas na realidade estava muito mais abalada por não ter matado ele. Isso pode parecer algo pouco importante se visto de fora, mas imagine você nessa situação.

Você, uma pessoa comum, sem graça e desanimada para a vida, chega a uma cidade que é praticamente estranha para você por não tê-la visitado há anos. Pouco depois há um caso de assassinato misterioso, cujo autor é um animal desconhecido, e então você vê um cara que não sangra, tem olhos vermelhos, uma aura diabólica de gelar até a alma, que te dá pesadelos e que desaparece na sua frente.

Eu realmente estava abalada de uma forma que eu não me lembro de ter ficado antes. Sempre fui sozinha e lidava bem com a solidão, mas acho que só se percebe a importância de ter pessoas ao seu lado quando você precisa de alguém.

Eu não queria voltar sozinha para casa, pois eu sabia que não tinha ninguém lá. Meu pai estava muito preocupado comigo, mas ele ainda era o xerife, e como tal, precisava manter a ordem. Ele não achou nenhuma pista relevante em relação ao caso do amigo dele que morreu, mas, ao que parece, outro corpo foi encontrado nas redondezas da cidade, e isso significava mais trabalho. Uma morte é uma lástima, duas podem ser coincidência, mas três seria um assassino em série, e meu pai temia encontrar um terceiro corpo e estava fazendo de tudo para desvendar o caso e evitar mais mortes.

Infelizmente, eu não tinha feito amigos, e isso queria dizer que eu ficaria sozinha. Entrei na minha abóbora e me pus a dirigir de volta para casa. Minhas balas de café tinham acabado, e, por causa disso, o nervosismo estava tomando conta. Comecei a imaginar o cara de olhos vermelhos na beira da estrada, esperando que eu passasse por lá para fazer alguma coisa.

E meus olhos me disseram algo que eu não quis acreditar. Lá estava ele, pálido como um fantasma, alto e inexpressivo. Ele estava literalmente na beira da estrada, como se estivesse me esperando passar. Pisei fundo no acelerador, fazendo-o passar por mim o mais rápido possível. Quando olhei no retrovisor, já não havia mais ninguém onde ele estava. Fiquei sem saber se me desesperava ou se ficava aliviada, se era real ou uma ilusão.

Quando cheguei em casa, tranquei as portas e janelas e corri para meu quarto. Fiquei com medo do que poderia acontecer, do que poderia passar por aquela porta. Olhei pela janela, para garantir que ninguém estava se aproximando, e fiquei algum tempo de vigia até que meu pai finalmente chegou.

Não foi um alívio tão grande, já que ele nem estava ciente da minha situação, mas eu já me sentia mais segura com a presença dele e de sua arma em casa. Eu não almocei naquele dia, pois não estava com cabeça para pensar em comer, mas não pude escapar do meu jantar rotineiro com meu pai. Sim, eu precisava comer algo, estava perdendo peso desde que literalmente vi um fantasma, mas eu me sentei à mesa com ele mais para sentir que ele estava lá por mim do que para ter uma refeição.

- Como foi a aula hoje, querida? – Ele perguntou, levando um pedaço de bife até a boca com um garfo. Estava sentado em uma ponta da mesa enquanto eu estava sentada na outra.

- Legal.

- Algum problema com o carro? O mecânico deu uma garantia de um mês.

- Não, a abóbora está bem.

- Você comeu alguma coisa no almoço hoje?

- Estava sem fome.

Ele olhou para meu prato. Purê de batata, bife, salada, ervilhas, tudo bem organizado no prato, uma refeição balanceada, saudável e deliciosa. Eu não era gorda, mas gostava de comer tanto quanto qualquer um. Ainda assim, não dei nem uma garfada sequer.

- Precisa se alimentar, Isabella – Disse ele, repousando o garfo no prato e me encarando com seriedade. – Você não dorme ou come bem desde o acidente. Como quer que eu acredite que está bem?

- Mas estou bem, só um pouco aérea.

- Aérea é quando você anda distraída e não percebe bem o que acontece à sua volta. Não, Bella, você não está aérea.

- Pai, relaxe.

- Não consigo relaxar sabendo que você não está bem.

Vi seus punhos fecharem com força, como se ele descontasse toda sua frustração em seus próprios dedos. Ele suspirou, olhou para o prato e se lamentou em silêncio.

- Você se parece com sua mãe, sabia? – Disse ele. – Eu a conhecia desde a adolescência. Ela estava sempre guardando tudo para si e carregava seus problemas em segredo. Era difícil saber o que ela estava pensando.

- Conte-me mais – Falei, mexendo o garfo de um lado para o outro no prato com desinteresse.

- Sei que você não sente que pode confiar em mim, querida, e não culpo você por isso. Não sou perfeito, pode-se dizer que estou bem longe disso, mas não posso ignorar o que está acontecendo. Eu não quero me meter na sua vida, mas você é a parte mais importante da minha. Eu não tenho o direito que reclamar por você não se abrir, mas eu não estou fazendo isso para eu me sentir melhor. Bella, entenda, eu estou preocupado com você.

Soltei o garfo e comecei a encarar a comida.

- Eu só não estou com fome – Comentei casualmente.

- Então prefere assim... – Ele lamentou. – Como eu disse, você se parece com a sua mãe. Ela tinha problemas, estava insatisfeita com várias coisas, mas nunca conversava comigo.

- Ela é uma vaca – Falei. – Ela me ama, disso não duvido, mas a consideração dela por mim é tão pouca que ela me mandou para longe para aproveitar melhor o tempo com o novo marido. Ela ama o Phil, mas isso não a impede de flertar com outros caras. Ela não o trai, mas não consegue deixar de querer se sentir desejada. Se ela fosse um pouco mais jovem, não duvidaria que tivesse pulado a cerca. Ela era mais jovem quando vocês se casaram, então imagino qual foi o motivo do divórcio.

Os olhos dele perderam o brilho quando falei isso.

- Ela nunca contou a você, não é? O motivo real do nosso divórcio.

- Eu nunca perguntei.

- Eu lutei pela sua guarda quando nos divorciamos, e mesmo eu tendo judicialmente a vantagem de ser mais responsável, ter um emprego fixo, estabilidade e tudo o mais, não pude ficar com você.

- Ela é mulher, afinal. Li em algum lugar que em uns 80% dos casos de divórcio a mãe fica com os filhos.

Ele balançou a cabeça de um lado para o outro como se as memórias estivessem sussurrando coisas ruins em sua mente.

- Você não é minha filha, Bella... – Disse ele, e suas palavras ecoaram pela cozinha e fizeram o mundo silenciar.

Eu me levantei de sobressalto, como se ele tivesse anunciado a morte de alguém que eu amava.

- Não! – Falei como se minhas palavras pudessem mudar as dele.

- É verdade, Isabella. Você não é minha filha de verdade – Senti o lamento em sua voz. – Quando me tornei policial, passei muito tempo trabalhando, e acho que sua mãe se sentiu sozinha. Ela parecia triste na época, mas não me dizia nada. Acho que ela não queria me fazer sentir culpado e nem queria atrapalhar o meu trabalho. Eu, idiota como era, não desconfiei de nada e simplesmente aceitei. Pensei que passaria com o tempo ou que ela em algum momento se abriria comigo, mas...

Eu me sentei novamente, mas foi como se eu estivesse apenas caindo de bunda na cadeira.

- Eu não posso acreditar nisso... – Falei.

- Durante os 9 meses antes de você nascer, nunca vi sua mãe sorrir. Ela já devia saber que o bebê não era meu desde o começo, mas só quando você fez 3 meses que ela não aguentou mais a culpa e me contou tudo. Fizemos o exame de DNA e tivemos a certeza.

- E quem é o meu pai? – Indaguei, incrédula.

- Bella, eu acho melhor não... – Ele tentou falar, mas o interrompi.

- QUEM É O MEU PAI? - Berrei, e sem que eu percebesse, bati forte as duas mãos na mesa.

Ele hesitou, desviou o olhar e suspirou.

- Alguém que entrou no bar quando sua mãe estava bêbada. Ela me contou que não se lembrava do nome ou do rosto, só de ir para o banheiro com ele.

Levei minha mão até o rosto, sem saber o que pensar.

- Então você não é meu pai – Falei, testando o gosto das palavras na minha boca e comprovando que elas eram amargas.

- Eu sinto muito, Isabella... Tudo foi culpa minha e da minha ausência. Eu não fui um bom marido e não fui um bom pai. Foi por isso que tudo acabou assim.

- Você é um bom pai, Charlie – Suspirei. - Não conheço outro cara que amaria o fruto da pior coisa que aconteceu na sua vida como você ama.

Ele sorriu um pouco torto, levantou e ajoelhou do meu lado, segurando minha mão.

- Eu não me importo se você não tem o meu sangue, querida. Depois de segurar você nos braços por 3 meses, fiquei completamente apaixonado por essas mãozinhas. Não importava se você era ou não a minha filha biológica, eu jamais conseguiria olhar para você sem sentir que era parte de mim.

Virei o rosto, tentando esconder a umidade que se formava nos meus olhos.

- Você sempre foi um bom pai. Eu que estou sendo uma péssima filha.

Senti ele apertando minha mão e a levando até seu rosto, e seu bigode fez cócegas nos meus dedos.

- Você é a filha que eu sempre sonhei ter – Disse ele, e sua voz estava chorosa e grave. – Você é a coisa mais importante do mundo para mim, e é por isso que eu tenho tanto medo de ter perder de novo.

Eu me levantei da cadeira e puxei ele para mim. Senti seus braços me acolhendo e recostei meu rosto em seu peito.

- Eu te amo, pai...

Ouvi um soluço saindo da boca dele antes de ele conseguir responder.

- Eu também te amo, querida.

 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...