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História Karma Konserta: Crepúsculo - Capítulo 5



Capítulo 5 - Apotamkin


Últimos dias do semestre letivo.

Nada de muito estranho aconteceu desde que meu pai me contou que não era meu pai. Infelizmente, isso não me deixou menos preocupada. Como um bom xerife, Charlie me deu um frasco de spray de pimenta, e isso só por não poder me dar uma arma.

Eu estava um pouco mais tranquila e voltei a dormir normalmente, pois comecei a passar as noites assistindo filmes com meu pai. Ele não era a melhor pessoa do mundo para ajudar alguém na minha situação, mas me contou que tinha uma coleção de filmes clássicos da cultura pop. Assistimos várias, como Mad Max, Exterminador do Futuro, Matrix, De Volta Para o Futuro, Star War, Jurassic Park e vários outros. Eu supria a falta de companhia com filmes, séries e livros, e, pelo que parecia, meu pai também tinha esse costume quando era mais jovem.

Surpreendentemente, eu estava me acostumando com Forks, e boa parte disso era graças ao meu pai. As provas finais do semestre foram um pouco desafiadoras, mas nada com o que eu não pudesse lidar. Não era como se eu estivesse tão ocupada tentando ser popular que não tivesse tempo para estudar. Tecnicamente, o semestre letivo tinha terminado, mas ainda haveria mais alguns dias de aula e outros dias de comemoração aos formandos das outras turmas.

E, mais uma vez, lá estava eu, isolada na minha mesa no refeitório, refletindo que, apesar de tudo, não foi um semestre tão desagradável, e foi quando o exemplo vivo da palavra desagradável veio até mim.

- Sozinha de novo, Srta. Carrancuda – Ouvi a voz de Mike, ou como eu costumava chamar, Princesinha.

- Pelo visto não carrancuda o bastante para afastar as visitas.

Ele se sentou perto de mim e colocou sua bandeja sobre a mesa.

- O que posso dizer? Sou um cara corajoso.

- É incrível como coragem e antipatia andam lado a lado hoje em dia.

Ele sorriu com humor, pois até eu falei com humor. Como eu disse antes, não tinha nada contra ele, e com o tempo parei tirar uma com a sua cara. Mike não era realmente uma pessoa tão desagradável, pelo menos quando não estava com a namorada, que fazia e desfazia de tudo com ele.

E falando no Diabo...

- Eu quero morrer – Disse Jessica, a belíssima e decotada namorada de Mike, que chegou e se sentou ao lado dele.

- O que foi desta vez? Seu celular descarregou de novo? – Caçoei, levando uma colher de pudim até a boca.

- Haha, muito engraçado, Bella. Não, é o meu pai. Ele tem uma viagem a trabalho de última hora e isso vai estragar as minhas férias. Eu vou ter de passar o verão todo aqui em Forks.

Ela apoiou os braços sobre a mesa e afundou o rosto neles. Mike passou o braço sobre seu ombro dela e tentou consolá-la.

- Ei, aqui não é tão ruim assim. Sei que vai sobreviver – Disse ele.

- Para você é fácil falar, vai viajar com o time para os amistosos interestaduais – Retrucou ela.

- E eu aqui pensando que era a única que achava este lugar um saco – Comentei, e provei mais uma colher de pudim.

- E para onde você vai, Bella? – Jessica questionou, levantando um dos olhos apenas o bastante para me encarar.

- Vou ficar por aqui mesmo. Minha mãe ainda está viajando com meu padrasto.

- Você poderia ir encontrá-los – Sugeriu Mike.

Pousei a colher sobre o prato.

- Não é como se eu fizesse questão de estar com eles. E não gosto de baseball.

- Para quem odeia tanto Forks, você parece bem tranquila em passar o verão aqui – Disse Jessica.

Refleti um pouco e pensei o que responderia.

- Eu gosto de estar com meu pai – Falei. – Temos gostos em comum, e é a primeira vez em anos que nos aproximamos.

Mike sorriu caridosamente, e seu rosto fez uma expressão tão bonitinha que me lembrei por que o apelidei de Princesinha. Então a mesa ficou um pouco mais cheia. O asiático do jornal, Eric, apareceu e se sentou conosco.

- Pessoal, estou pensando em fazer um ensaio fotográfico na praia este fim de semana para a última matéria do semestre e preciso de modelos.

Claro, a proposta dele encheu os olhos de Jessica de vida novamente.

- Eu super aceito – Disse ela, e seu jeito de falar me deu vontade de vomitar.

- Podemos fazer algumas imagens de casal – Disse Mike.

- Perfeito – Comemorou Eric, e se virou para mim, todos se viraram para mim. – E você, Bella?

Levantei os olhos para ele.

- Eu passo.

- Qual é, Bella? Por favor.

- Passo.

- Vai ser bom para guardarmos memórias – Disse Jessica. – No final do curso, vai agradecer por ter tirado essas fotos.

- Passo.

- Você é a segunda garota mais linda da escola – Disse Mike, cuidadosamente segurando a mão da namorada para amenizar seu elogio. – O jornal vai ganhar muito com a sua imagem.

- Passo.

- Ah, vamos. Vai ser legal – Insistiu Eric.

Suspirei, olhando para eles com desânimo e deixando a colher ao lado do pote vazio de pudim.

- Vou ter que usar um biquíni minúsculo e exibir minha bunda para as fotos?

- É claro que não!

- Então eu passo. Não tem por que tirar fotos se não for para exibir cada pedacinho deste meu corpo gostoso e sensual – Comentei, sem levar nada a sério, é claro.

Mike riu, e Jessica bateu nele.

- Eu preciso que você vá, Bella, por favor – Eric tornou a insistir.

- E por que isso?

- O pessoal do jornal disse que seria bom ter fotos de calouros que vieram de outros estados para mostrar o quanto a universidade é cobiçada, e você é a novata mais fotogénica.

- Então você quer que eu vá só por que sou uma espécie rara da longínqua terra de Phoenix? Eu me sinto lisonjeada.

Ele juntou as palmas das mãos e sorriu pateticamente. Suspirei de novo, estendi a mão até a bandeja dele e peguei seu pudim.

- Tudo bem, eu vou, mas vou querer todo o seu pudim até o final do semestre – Cedi.

- Ora, ora, Srta. Swan, você é jogo duro, mas eu sabia que poderia convencê-la.

Abri o pudim e levei uma colherada até a boca.

- Tanto faz.

* * *

A primeira coisa que se pensa quando alguém fala em praia é um lugar de areia queimada, sol forte, garotas de biquíni e caras loiros com pranchas de surf. Forks nunca me desaposta, pois a praia mais próxima, La Push, ficava 16 milhas de distância e estava sob a mesma nuvem de chuva que a cidade. Fomos no furgão de Mike, e fiz questão de chutar a lataria do carro antes de entrar.

Quando chegamos lá, Mike, Jessica e Eric vestiram suas roupas de surfistas e caíram na água. Sim, estava um frio de doer, mas meus sensatíssimos novos colegas concluíram que “ah, já viemos até aqui mesmo”.

Havia mais alguns alunos, o que me fez menos ainda querer interagir. Fiquei sentada no vão da porta do furgão enquanto via os patetas tremendo de frio enquanto entravam no gelo que era a água de lá. Meu sentido aranha apitou e notei uma menina franzina vindo até mim. Ela se sentou comigo e começou a puxar assunto.

- Não vai nadar, Bella?

Eu me segurei para não soltar um suspiro. Eu já sabia o que ela queria.

- Estou bem aqui. E você?

Ela olhou o próprio corpo com um pouco de insatisfação.

- Eu não trouxe minha roupa de banho.

- E eu só vim porque o Eric me prometeu pudim em troca de ser modelo para as fotos.

Ela sorriu meio sem jeito e desviou o olhar por um segundo.

- Mas, e então? O Eric já convidou você para a despedida do semestre?

Olhei para ela e forcei um sorriso o máximo que pude.

- Angela, se você quer ir com ele, não é comigo que tem que falar. Você é uma mulher forte e estamos no século XXI, tome você a iniciativa.

Fiquei me perguntando se ela realmente achava que ninguém percebia que ela era completamente apaixonada pelo asiático. Ela passou a mão no cabelo e alisou a trança meio constrangida. Sempre que ela alisava a trança, era sinal de que ela estava nervosa.

- Alguém, por favor, tem uma toalha à mão? – Disse Jessica, vindo até nós abraçando o próprio corpo.

Puxei uma toalha de uma bolsa no furgão e joguei para ela.

- Jes, por que não vai com a Angela tirar algumas fotos dos rapazes? – Perguntei.

Nós nos olhamos, e acenei com a cabeça na direção de Eric, que estava na areia tirando todos. Jessica fez uma expressão de compreensão antes de sorrir, agarrar o braço de Angela e puxá-la para lá.

- Vamos, Angela.

- Mas o Eric já está tirando as fotos.

- E quem seria ele sem você para ajudar? Todo mundo sabe que suas fotos que vendem o jornal.

- Então deixe eu pegar a minha câmera.

- Não precisa, a gente usa a do Eric mesmo.

Sutileza, meu nome é Jessica. Balancei a cabeça em desaprovação, mas confesso que senti vontade de rir. Olhei ao longe Jessica jogando a coitada para cima do Eric, e me senti aliviado por finalmente estar em paz.

- Bella? – Ouvi uma voz se aproximando.

Revirei os olhos quando vi quem era.

- Jacob. Está me seguindo?

Ele riu.

- Bom, é você que está na minha reserva.

- Então sou a cara-pálida invasora. Por favor, não tire meu escalpo.

Ele riu de novo.

- Não se preocupe, deixei meu arco e minha machadinha em casa.

- Sorte a minha.

Ele olhou para o resto do pessoal na praia. Eric e Angela tiravam fotos, Mike assustava Jessica com uma alga que parecia uma cobra e alguns outros alunos surfavam ou só estavam de bobeira, conversando.

- Seu pessoal parece estar se divertindo. Por que está aqui sozinha?

- Só por que estou aqui sozinha não quer dizer que não estou me divertindo.

Ele riu mais uma vez, e a cada risada que ele dava parecia mais ainda um pateta.

- Então esta é basicamente a terra da sua família, certo? – Comentei.

- Meio que isso.

- Já viu alguma coisa estranha aqui perto?

- Como assim estranha?

Encarei seus olhos com curiosidade disfarçada de desinteresse.

- Me falaram que seu povo caçava nestas terras há muito tempo, tanto que hoje é difícil ver algo maior que um esquilo rondando por aqui, mas recentemente houve duas mortes relacionadas a ataques de animais.

Ele ficou um pouco desconsertado.

- Está me perguntando se meu povo não viu um urso por aqui?

- Viram?

- Não, tudo normal - Seus olhos esquivaram, como se ele refletisse sobre outra coisa. – Por que o interesse?

- Achei ter visto uma criança com olhos vermelhos comendo os dedos de uma mão decepada uns dias atrás.

- Uma criança?!

Ele se virou para mim tão rápido que pareceu ter ouvido que sua mãe morreu. Um segundo depois, ele me viu rindo e percebeu que eu não falava sério.

- Maricas – Caçoei.

- Você me pegou, tenho um fraco por histórias assustadoras.

E foi o bastante para tirar minhas conclusões. Ele se sentou comigo e conversamos um pouco mais, até que Jessica e Angela aparecessem tão animadas quando crianças em uma loja de doces.

- Bella, eu convidei o Eric, e ele aceitou! Eu tomei o controla da situação como você sugeriu!

- Parabéns – Falei, mas realmente pouco me importava. O bom era que o asiático iria sair do meu pé. – Meninas, este é o Jacob. Jacob, Angela e Jessica.

Jessica o olhou de cima a baixo e me encarou com um sorriso malicioso.

- Bella... – Ela começou a dizer.

- Não – Interrompi.

Jacob sorriu com desconforto. Coitadinho, devo ter magoado seus sentimentos.

* * *

Eu estava na livraria fuçando a sessão de lendas locais. Quem diria que Forks tinha um acervo tão rico em cultura nativo-americana? O dono da livraria era um homem moreno com cabelo grande amarrado para trás. Com uma pena na cabeça e um cachimbo na boca, ele poderia segurar uma placa escrita “eu sou um índio” para ficar mais óbvio.

Pedi a ele algumas indicações e levei para casa alguns exemplares com os quais eu flertaria por um bom tempo. Não fui direto ao ponto com ele por causa da reação de Jacob. Quando mencionei uma criança de olhos vermelhos comento uma mão, a coisa que ele gritou de surpresa foi “criança”, e não pude deixar de pensar que isso não era o que mais chamava atenção na descrição. Parecia que ele sabia que havia algo nas florestas que cercavam Forks, e como não saberia? O povo dele vivia na reserva, no meio da mata. Para ele, foi aceitável a ideia dos olhos vermelhos e da fome por carne. Se ele sabia algo a respeito, o povo dele também sabia. E se eles não iam me dizer, eu pesquisaria por mim mesma.

Desde meu incidente com o cara de olhos vermelhos eu vinha fazendo algumas pesquisas, mas existem muitas histórias mundo afora sobre qualquer coisa, e é difícil saber qual é mais original e verdadeira. Ainda assim, guardei tudo de útil que pude encontrar nesses meses e comecei a montar o quebra-cabeça. Os livros que comprei eram de um tema bem específico, lendas locais de uma cidade isolada que ninguém gostava, por isso pouco sobre eles estava na internet.

Quando comecei a ler o sumário do primeiro livro, marquei os capítulos que me interessavam para que eu os lesse. Devorei o livro de uma só vez e anotei tudo o que pudesse ser útil. Ao que parecia, a tribo de Jacob, os quileute, eram descendentes de lobos gigantes. Eles dominavam as terras e mantinham o equilíbrio com a natureza, evitando que os animais predassem mais que o que precisavam. Isso casava bem com a ideia de que não havia grandes predadores na região. Havia muita coisa no livro sobre os quileute, hábitos, costumes, cultura, mas nada que me dissesse o que eu queria saber.

Olhei no relógio. Quase meia-noite. Eu ainda estava sem sono.

Comecei a ler o segundo livro, e esse mostrava mais os quileute como guardiões e guerreiros que como os que mantinham o equilíbrio. Segundo o livro, eles combatiam espíritos malignos imortais com rituais antigos, e bebiam o sangue de oferendas animais sob a luz da lua para libertar o espirito dos lobos adormecidos dentro deles. A lenda diz que essa era a única forma de um guerreiro ser forte o bastante para combater os espíritos imortais.

Peguei o terceiro livro e o dissequei da mesma forma que os outros.

Os quileute não gostavam dos caras-pálidas, pois acreditavam que a presença deles atiçava a sede de sangue dos espíritos imortais. Esses espíritos se fortaleciam consumindo almas humanas para nutrir sua imortalidade.

Peguei o quarto livro.

Os quileute foram quase extintos quando deixaram de caçar os espíritos imortais para serem caçados por eles. A maioria das tribos foi exterminada, e todos culparam os caras-pálidas por estarem fortalecendo os espíritos.

Folheei o resto do livro procurando mais sobre esses espíritos imortais. Não havia muito mais coisa, então olhei os últimos dois livros.

Espíritos imortais de olhos vermelhos. Com suas presas e garras, eles ceifam a vida dos humanos e se alimentam de suas almas.

Espíritos imortais cujo sangue é inexistente, e por isso sua pele é clara como leite e fria como o gelo.

Dentes animalescos saltando para fora da boca.

Força para arrancar a pele de suas presas com as mãos nuas.

Não sangra.

Não morre.

Nunca deixa uma presa fugir.

Fome insaciável.

Uma voz doce que atrai qualquer um que a escuta.

Assumem a forma humana e hipnotizam as vítimas.

Nunca deixa rastros.

Caçadores natos.

Agressivos.

Monstruosos.

Não conhecem o medo.

Pode farejar seu medo a quilômetros de distância.

Seduz a vítima.

Vivem nas sombras.

Extremamente inteligentes.

Caçam a noite.

A luz do sol os mata.

Olhei tudo aquilo e consegui montar uma ideia da coisa toda. Talvez fosse isso, a criatura que vi naquele dia. Talvez fosse um espírito, demônio ou a porra de um monstro assumindo a forma de um humano. Talvez eu estivesse apenas enlouquecendo e tendo alucinações. Talvez eu tenha sido morta quando o furgão de Princesinha derrapou para cima de mim e isto seja uma espécie de vida-pós-morte bizarra.

Refleti um pouco sobre tudo aquilo e me recostei na cabeceira da cama. Deus, que confuso. O relógio marcava quase 4h da manhã e eu ainda não estava com nenhum pingo de sono. Dei uma última olhada em um dos livros e li o nome pelo qual os quileute chamavam esses espíritos.

- Apotamkin.

Não sei por que falei em voz alta. Talvez eu quisesse experimentar o sabor da palavra ou provar que ela realmente existia. Soou estranho por um segundo, mas depois me deu um calafrio. Por que tinha que ser um nome tão bizarro?

- Esqueça tudo isso, ou terei que te matar.

A voz invadiu meus ouvidos e todo meu corpo gelou. Eu me levantei em um salto, vendo aqueles olhos vermelhos que surgiram na minha frente. Eu o encarei, e ele me encarou de volta, mas foi como se ele olhasse no funda da minha alma. Levou alguns instantes, mas quando finalmente consegui me recuperar um pouco do choque, corri até a penteadeira e peguei o spray de pimenta que meu pai me deu. Quando me virei para esguichar nele, não havia mais ninguém ali.

Olhei de um lado a outro, mas não vi ninguém. Ele se foi, mas o medo que eu sentia provava que tudo foi real.

- Apotamkin – Falei, experimentando a palavra de novo.

 


Notas Finais


Demorou, mas saiu.


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