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História Karma Konserta: Crepúsculo - Capítulo 7



Capítulo 7 - Edward


Lavar o cabelo no frio era um saco.

Nunca fui o tipo de garota que fica animada para sair com um cara e passa horas em frente a um espelho se arrumando, mas aquela ocasião merecia. Eu não era muito por dentro da moda, principalmente por não ter o costume de usar roupas de frio, então me peguei passando muito tempo escolhendo o que usar. Nunca fui boa em vestimentas, e até mesmo nos livros eu nunca prestei muita atenção nas descrições físicas dos personagens. Nos filmes eu definia como “está bonito” ou “não está bonito”, e muito raramente eu me questionava o motivo de classificar em uma dessas categorias.

Naquele momento, eu não conseguia me decidir bem, e tomando para mim as palavras do sábio mestre jedi Obi-Wan Kenobi, “você se tornou aquilo que jurou destruir, Bella”, uma menininha boba que fica horas se arrumando para o primeiro encontro com o cara bonitinho que a chamou para sair e provavelmente só quer comê-la. Infelizmente para mim, esse “comer” era no sentido literal. Não que eu estivesse mirando no outro sentido de comer, mas você entendeu o que eu quis dizer.

Lá estava eu, dirigindo minha querida abóbora rumo ao local de encontro. Fiquei imaginando que não seria o melhor veículo para uma fuga dramática, mas eu poderia matar o Apotamkin de tétano se o atropelasse com o carro.

Fiquei refletindo sobre a merda que eu estava fazendo. Ir direto para o cara que falou que iria me matar se eu não o deixasse em paz. Muito esperto da sua parte, Isabella. De uma forma ou de outra, eu precisava fazer aquilo, pois nunca mais teria uma noite de sono tranquila se não resolvesse aquele assunto.

Adentrei a mata e fui ao local de encontro.

- Olá! – Falei.

Esperei um segundo, mas não tive resposta.

- Não é educado deixar uma garota esperando, sabia? – Reclamei.

- Cheguei antes de você – Ouvi sua voz atrás de mim.

Meu coração quase saiu pela boca. Eu me virei de sobressalto e levei a mão ao peito.

- Cara, você precisa parar de fazer isso... – Comentei.

Ele me olhou com uma indiferença fria e caminhou até um tronco de árvore caído. Voltou seus olhos para mim como se me esperasse, e fui até ele e me sentei ao seu lado. Ficamos um tempo desconfortavelmente longo em silêncio até que eu decidi quebrá-lo.

- Então... Dia lindo, não?

- É o melhor que consegue fazer?

Fiquei um pouco irritada com seu comentário, mas deixei passar.

- Então vou direto ao assunto. Por que quer me matar mesmo? – Indaguei.

- Não se trata de querer, é algo que eu preciso fazer.

- Mas está hesitando.

- Correto.

- Porque você é o clássico caso do monstro que não quer ser monstro.

- Sim.

- Que clichê.

- Prefere que eu seja mais original e mate você?

- Só falei que é clichê, não estou reclamando.

Fui tão espontânea na resposta que consegui arrancar dele um leve sorriso. Foi só por um segundo, mas vi o traço de seus lábios formando um arco.

- O quanto você sabe sobre os apotamkins? – Ele questionou.

- Só o que eu li nos livros locais dos quileute. Espíritos famintos por almas e essas coisas. Isso é literal ou metafórico?

- Literal. Devoramos as almas das nossas vítimas para nos mantermos jovens e belos. As almas que consumimos são dilaceradas e condenadas ao sofrimento eterno de uma inexistência de lamentações e dor, sem nunca ser livre para ir para o céu ou para o inferno.

Meus ombros estremeceram um pouco, mas consegui me manter calma.

- Legal – Falei.

Ele me olhou com o canto do olho.

- Bebemos sangue para sobreviver – Comentou. – Não é exatamente comer, mas você pode entender assim. Tiro vidas para sobreviver, então é fácil de se pensar que as pessoas antigamente viam isso como consumir almas.

- Sangue? Então...

- Sim. Apotamkin é a forma como os quileute se referem a nós, mas somos mais conhecidos por outra definição.

Eu me senti um pouco idiota por não ter feito essa ligação logo de cara. Quando vemos algo em uma obra de ficção, sempre matamos a charada bem rápido. Vemos cabras mortas no México e sabemos que foi um chupa-cabra. Vemos luzes estranhas no céu em Nova York e sabemos que há uma invasão alienígena acontecendo. Vemos um rugido vindo do mar em Tokyo e sabemos que o Godzilla vai atacar. De novo. Mas quando vivemos essas situações, quando olhamos para as cartas na nossa própria mesa, não conseguimos juntar todos os pontos, pois tudo é muito irreal.

- Vampiro – Experimentei a palavra em meus lábios.

Ele assentiu. O olhei com sentimentos que não consegui descrever, mas ele permaneceu impassível.

- Está de dia – Comentei. – Você não deveria queimar ou... Sei lá, derreter?

- Não é assim que funciona. Vampiros morrem sob o sol, mas não é a luz que nos mata.

- E o que é?

- Confie em mim, você não quer saber.

- Mas algumas coisas das lendas são verdades, certo? Tipo, eu acho que você já foi humano.

- Por que acha isso?

- Seu jeito de falar. “Confie em mim”, “juro por Deus”. Parecem gírias. Não acho que um vampiro usaria o nome de Deus assim.

- Esperta – Suspirou. – Sim, já fui humano um dia.

- Quantos anos você tem?

- 20 anos.

- Há quanto tempo tem 20 anos?

Seu peito subiu e desceu em um suspiro.

- Há muito tempo.

- Então... Você é vampiro tipo Drácula de Bram Stoker?

- E como é o Drácula de Bram Stoker?

- Sei lá. Dorme em caixão, tem várias esposas.

- Não dormimos e nem precisamos de um caixão de terra. Não temos problemas em atravessar água parada e não é preciso encher nossa boca com serragem depois de cortar nossas cabeças.

- Você conhece o livro.

- Tenho bastante tempo para ler.

- Já leu Moby Dick?

- Já.

- Jurassic Park?

- Já.

- O Senhor dos Anéis?

- Todos os livros de Tolkien.

- Diários de um vampiro?

- Está me sacaneando?

Ele me olhou com desprezo, como se eu tivesse pisado em algum calo ou cutucado alguma ferida.

- Você é bem mais normal que eu esperava.

- E o que esperava? Pensava que eu fosse mais firme e sedutor? Que eu falasse sussurrando e usasse uma capa vermelha e preta? Que eu sorrisse a cada 5 minutos para mostrar as presas?

- Está abrindo o coração para uma desconhecida que precisa matar.

E então vi seu rosto impassível tomar traços mais mundanos. Ele parecia triste.

- Minha família quer você morta, e a culpa é minha. Eu preciso fazer isso, ou eles farão.

- Por que eu descobri?

- Porque você me viu.

Olhei para meus próprios pés, pensativa.

- Então é isso. Se você não me matar, eles vão, e você me chamou aqui para terminar o serviço.

Bem, era o fim. Nunca pensei muito em como iria morrer, mas se fizesse uma lista, aquela situação estaria bem abaixo do topo.

- Eu não quero fazer isso... – Ele confessou. – Eu não escolhi isso para mim, e por isso vivo isolado neste fim de mundo. Eu não quero ter de matar ninguém.

- Por isso estava caçando o veado naquele dia? Ia beber o sangue dele?

- É o equivalente vampírico de ser vegetariano.

- E o que comeria um vampiro vegano?

Seus olhos viajaram até os meus com interesse?

- Não está com medo?

- Estou apavorada.

Ele riu com desdém.

- Você não é daqui, é?

- De Phoenix, um lugar bem mais agradável que Forks. Devia visitar algum dia.

- Muito sol.

- Você disse que o sol não te mata.

- Eu disse que não é bem assim. Está de dia, mas Forks é sempre nublada, e estamos nas sombras das árvores.

- Foge um pouco do esteriótipo noturno dos vampiros, mas até que faz sentido.

- Mais que o filme do Blade, onde os vampiros usam protetor solar.

Ri alto.

- Você realmente é um cara culto. Uma pena que vai me matar.

Ele me ofertou um sorriso contido.

- Contou a alguém sobre mim?

- Se contei que vi uma criatura mítica indígena que na verdade é mais conhecido popularmente como vampiro? Não, acho que não. Não que eu lembre.

- Nem para seu pai?

- Nem para ele.

Ele refletiu um pouco e suspirou.

- Vou tentar não matar você.

- Obrigada, eu acho.

Ele se levantou, deu-me um olhar de despedida e começou a caminhar para longe.

- Já vai? – Questionei.

- Sim. Não temos muito mais o que conversar.

- Te vejo amanhã?

Ele sorriu, e, pela primeira vez, soou com uma risada sincera e doce. Seus olhos cintilaram, sua boca me tentou e seu rosto me ofertou o mundo. Olhei instintivamente de cima a baixo o corpo todo, e, por Deus, como ele era gostoso.

- Desde que não veja com uma estaca de madeira e um colar de cabeças de alho, acho que podemos nos encontrar mais vezes.

Ele se virou e foi embora. Meu coração palpitou forte e só voltou ao normal quando o cheiro dele se dissipou. Eu me lembrei de respirar normalmente, e levei a mão até o peito.

Havia algo errado. Aquela não era eu.

* * *

Cheguei em casa e tive uma surpresa. Billy Black resolveu fazer uma visita, e trouxe consigo Jacob.

- Oi, querida. Onde esteve? – Meu pai perguntou.

- Dando uma volta com a abóbora. Se ela ficar muito tempo parada, é difícil de fazer pegar.

- Jacob pode dar uma olhada para você – Disse Billy, olhando para o filho.

- Por mim, tudo bem.

Sorri o menos falsamente que eu pude e assenti com a cabeça. Tentei me livrar das perguntas e consegui alguém para ficar no meu pé.

- Por que não dão uma volta no carro para o Jacob descobrir o problema enquanto Billy e eu resolvemos alguns assuntos? – Sugeriu meu pai.

A sutil arte de empurrar a filha para o rapaz boa-pinta filho do melhor amigo. Olhei um pouco torto, mas assenti. Saí pela porta e fui seguida por Jacob. Entrei no banco do carona e dei as chaves para ele. Jacob era um bom mecânico e entendia bem de carros, ao que parecia, pois fez a abóbora pegar de segunda.

- Precisa trocar o óleo – Ele comentou enquanto olhava a fumaça que saía do escapamento.

- Faço isso amanhã.

- Está aproveitando bastante, não é? Pelo contador, você está dirigindo muito.

- É, acho que fiquei mais extrovertida desde que cheguei, e por mais que eu reclame desta lata-velha, ainda tenho carinho pela minha abóbora.

- Que bom. Eu estava com medo que você não gostasse.

- Eu preferia uma lamborghini, mas isto dá para o gasto.

Jacob riu, mas senti que seu sorriso estava menos patético e mais pesaroso que o de costume.

- Devia me visitar na reserva qualquer dia desses – Sugeriu, mas soou impressionantemente menos sugestivo que eu esperava.

- Vou pensar no seu caso.

Paramos em um sinal vermelho, e ele me olhou com uma seriedade que não combinava com ele.

- Está saindo com alguém esses dias?

- Por que a pergunta?

- Por nada. Só curiosidade.

- Está flertando comigo, Jacob? – Sorri de forma brincalhona. Meu humor deveria estar muito bom para eu fazer esse tipo de comentário com ele.

- Devo estar com ciúmes – Disse ele, e o sinal ficou verde, mas seu olhar se desviou para o tapete do carro.

Ele foi tão fofo que senti vontade de dar um soco nele.

- Que bonitinho – Brinquei. – Não se preocupe, amor. Ainda sou toda sua.

O sinal permanecia aberto, mas ele n acelerou. Seus olhos não eram os de um bobo apaixonado, mas sim de alguém preocupado. Ele não comprou a brincadeira e não demonstrou ficar chateado. Seu rosto estava impassível e indecifrável.

- Jacob? – Questionei, mas com um rosto mais sério.

- O quê?

- O sinal.

Ele olhou para frente e fez uma expressão de compreensão antes de acelerar.

- Desculpe. Estou com a cabeça cheia e ando meio distraído.

Refleti um segundo sobre aquilo.

- O que estavam conversando com meu pai?

- Nada demais.

Franzi o cenho, mas ele estava tão concentrado na estrada que não notou.

- Depois daquele dia na praia eu fiquei bem curiosa sobre a cultura do seu povo e comprei alguns livros sobre os quileute.

- O que está achando da nossa história?

- Bem interessante. Guardiões do equilíbrio natural, hein? Isso é algo a se orgulhar.

- Um conto de fadas para as nossas crianças.

- Não seja modesto, vocês eram os super-heróis de antigamente, lutando contra espíritos malignos que aterrorizavam as pessoas. Como é mesmo que vocês os chamam? Apotamkin?

Percebi as mãos de Jacob apertando com força o volante.

- É só uma história. E nem mesmo gostamos dela.

Seu rosto ficou ainda mais sério, e não é preciso ser um gênio para ver que o nome “apotamkin” tinha mexido com ele. Jacob não disse mais nada até voltarmos para casa.

- Bella, se importa se eu levar sua abóbora? – Jacob perguntou assim que chegamos. – Parece que o carro precisa de uns reparos. Eu posso dar um jeito nele e te devolvo amanhã. Eu cubro os gastos.

- Me lembre de te recompensar depois.

- Não se preocupe, minha recompensa é saber que você está bem.

Aquilo soou estranho.

* * *

Jacob não me devolveu a porcaria do carro no dia seguinte. Tentei ligar para ele, mas só dava ocupado. Não alertei meu pai disso, pois sabia que não era um roubo, mas perdi meu encontro com Edward naquele dia. Era muito distante para ir a pé e eu não poderia pedir carona para alguém dizendo “pode me levar até esse lugar que fica no meio do nada? Ah, e me espere aqui até eu voltar”. Por conta disso, também não fui no dia seguinte.

Fiquei um pouco chateada, mas aquilo pelo menos me deu tempo para organizar meus pensamentos. Jacob escondia alguma coisa, mas eu não conseguia decifrar o que era.

Tomei meu banho rotineiro antes de dormir e praguejei contra o mundo quando saí do chuveiro e senti um frio infernal. Eu gostava de tomar banho, mas em um lugar frio como Forks, isso era um verdadeiro desafio. Eu me enxuguei com a toalha, escovei meu cabelo e fiz todo o ritual normal de qualquer pessoas que tem tempo livre demais antes de dormir. Li um pouco e me deixei pegar no sono.

Meu sono geralmente era pesado, mas eu ainda não conseguia dormir direito. Eram 2h da manhã quando despertei, e meu coração quase parou de susto quando vi Edward em pé no centro do quarto. Abri a boca, mas, por sorte, não gritei.

Eu me reconfortei na cama e suspirei.

- Você realmente precisa parar de fazer essas coisas – Comentei. – Sorte que aqui é frio e eu não durmo mais nua.

Ele me olhou seriamente, mas não respondeu.

- Olha, desculpe ter te dado um bolo – Falei. – Meu carro está no conserto e eu furei contigo, mas isso não te dá o direito de invadir o meu quarto.

Levantei devagar e dei uma boa olhada nele. Eu me assombrei ao perceber que ele segurava uma faca, e instintivamente dei um passo para trás. Meus olhos se arregalaram e meu coração quase saltou pela boca.

- Você não foi por estar sem carro? – Ele indagou, e seus dedos apertaram a faca.

- Sim... – Respondi, colando as costas na parede como se pudesse atravessá-la.

Ele deu alguns passos até quase grudar em mim.

- Está mentindo para mim? – Indagou, e seu rosto se consumiu em fúria.

Abracei a mim mesma e apertei os olhos para não chorar.

- Não, eu não estou mentindo...

Esperei um segundo por sua resposta, mas quando abri os olhos, ele não estava mais lá. Levei um bom tempo para me recompor e não consegui mais dormir naquela noite.

 



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