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História Kiss me, Mors - Capítulo 26


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Capítulo 26 - Culpa


Fanfic / Fanfiction Kiss me, Mors - Capítulo 26 - Culpa

TAEHYUNG

Abri meus olhos, me sentia completamente desorientado. Eu nem mesmo sabia onde estava; não era a casa de Nahee – eu não pisava lá há semanas – muito menos o meu apartamento, ao qual fui obrigado a voltar, já que não tinha onde ficar. Sem meus móveis, tive de comprar um colchão inflável para dormir, e a comida de todo dia passou a ser macarrão instantâneo.

Trinquei os dentes ao sentir um leve ardor em meu braço esquerdo, virando o rosto, vi que estava enfaixado. Memórias do que havia acontecido começaram a invadir minha mente aos poucos, mas antes que pudesse recobrar tudo, outra sensação me chamou a atenção; meu braço direito estava dormente.

Além do soro em minha veia, Nahee se encontrava em um sono profundo recostada sobre meu braço, sua mão segurava a minha. Meu coração pulou um batimento.

Seu queixo tinha um curativo e seus longos cílios negros brilhavam como se ela tivesse chorado há pouco. Estalei a língua. Aquele covarde do Jimin...

Como eu havia chegado ao hospital? Chamaram uma ambulância? Foi aí que um pensamento me ocorreu: não, Jungkook devia ter me trazido, afinal, como a própria Nahee havia afirmado, ela agora ajudava a ele.

Eu ainda não havia conseguido digerir essa informação. Quando Yoongi surgiu do nada – como sempre fazia – dizendo que Nahee e Jungkook estavam, de fato, planejando algo, não acreditei. Mas ele me deu informações detalhadas demais, local em que se encontrariam para pegar o documento, hora, quem estaria lá... E tive a decepção de comprovar que me dizia a verdade.

Ela disse que iria embora, por que ainda não havia partido? Não queria pensar na possibilidade da resposta para minha pergunta ser Jungkook.

Nahee suspirou profundamente e, lentamente, começou a se movimentar, coçou os olhos e levantou a cabeça. Havia acordado, virei o rosto na direção contrária.

“Ah, você acordou.” Ela murmurou com um tom de voz sonolento. Ao ver que ainda segurava minha mão, imediatamente soltou e fingiu esticar o lençol sobre a cama enquanto suas bochechas coravam. Tive de conter um sorriso. “Como se sente?”

“Morri, mas passo bem.” Disse em tom de ironia. Nahee sorriu, suas bochechas vermelhas e seu curativo no queixo a fizeram parecer uma criança, mas seus olhos destoavam; jurei ver melancolia neles. Franzi a testa. “O que houve?”

“Nada.” Ela respondeu, balançando a cabeça fervorosamente como se quisesse afastar algum tipo de pensamento. “A bala, por sorte, não ficou alojada em seu braço. Ela atravessou.” Ela me informou, como se aquela fosse a resposta à minha pergunta. Mas não era. Eu sabia o que tinha acontecido comigo, mas agora queria saber o que se passava dentro dela. “Você precisou de uma pequena transfusão de sangue,” ela continuou, “mas assim que amanhecer estará liberado.”

“Hum.” Murmurei. “Onde está Jungkook?” Esforcei-me para que meu tom de voz soasse mais sério, pois eu sabia que ele poderia estar ali por perto.

“Ele...” Meus olhos se fixaram nas mãos de Nahee; ela mexia com seus dedos nervosamente. Também mordeu o lábio inferior. “Ele foi pra casa. Não estava se sentindo muito bem.”

Fiquei mais aliviado, pelo menos ele não estava mais ali. Entretanto, logo em seguida me lembrei de algo. Meus olhos se arregalaram.

“O documento ficou com ele?” Perguntei afobado, erguendo meu tronco de qualquer maneira para me sentar na cama, mas ao sentir dor, voltei a deitar.

Sem dizer nada, Nahee ergueu uma pasta - um pouco surrada - mas que reconheci na hora. Imediatamente, me inclinei sobre ela para tê-la em mãos.

“Como você...?” Comecei, ainda sem acreditar que tinha o tal documento em mãos agora. “Não me diga que mordeu ele também?” Lembrei-me de seu ato selvagem ao notar minha mão enfaixada enquanto tentava abrir a pasta. Nahee revirou os olhos com preguiça.

“Não... Ele pediu que deixasse com você.”

O quê?

Franzi a testa.

“Como assim comigo?” Perguntei, confuso por sua atitude. Aquele documento era um trunfo, Jungkook jamais deixaria comigo. A não ser que... “Ah, não me diga que essa merda de documento não tem importância alguma.” Continuei, cheio de receio enquanto a olhava de esguelha.

A boca de Nahee tomou a forma de um ‘O’, e ela a abriu e fechou diversas vezes, de vez em quando, sons indecifráveis eram emitidos enquanto ela evitava que meu olhar encontrasse o seu a qualquer custo. Lá vinha problema.

“Bem, não... Na verdade...” Ela começou, claramente tendo dificuldades para encontrar as palavras com as quais gostaria de se expressar. Eu a olhava com os olhos semicerrados. “Ele acha que, talvez, seja mais relevante para você.”

Impaciente, abri logo a pasta. Assim que tirei o papel de dentro, olhei Nahee de relance; esperava encontrá-la me fitando com ansiedade, mas seu rosto foi tomado por uma sombra enquanto ela desviava seu olhar de mim. Engoli em seco.

“Blábláblá...” Murmurei com deboche enquanto lia os primeiros parágrafos; nenhuma informação de fato relevante, apenas os nomes dos presentes afirmando que se comprometiam em manter o acordo ali fechado em total sigilo. Pela visão periférica vi que Nahee ainda mantinha seus olhos fixos na ponta de seus sapatos enquanto, ainda sentada, mexia seus pés nervosamente. Virei a página. “...contrato firmado com Hanoi Hotels...” Murmurei ao continuar a leitura, franzi minha testa ao me deparar com esta frase em específico. “O que a Hanoi Hotels tem a ver com a SM Regency?” Perguntei em voz alta para mim mesmo, mas no fundo tinha a esperança de que Nahee começasse a interagir comigo, mas ela continuava imóvel.

Hanoi Hotels era a rede de hotéis concorrente direta da SM Regency, as disputas iam desde as ações na bolsa de valores até a quantidade de países em que haviam se estabelecido, então era no mínimo estranho ver o nome das duas em um papel que parecia se tratar de um acordo. A leitura então começou a ficar mais do que confusa; valores começaram a ser tratados, bilhões de dólares oferecidos ao Sr. Jeon e aos outros envolvidos em troca de... “Mas que merda é essa...?”

Meus olhos se arregalavam mais e mais a cada linha lida na tentativa de me certificar de que aquilo era mesmo real, reli o mesmo parágrafo umas três vezes antes de voltar à primeira página para ter certeza de que aquele documento era autêntico; o conteúdo era tão surreal que aquilo mais parecia uma brincadeira de péssimo gosto, meu braço doía com os movimentos bruscos que fazia, mas essa era a menor das minhas preocupações agora. Voltei a ler o parágrafo, pulei até a última página com as assinaturas de todos os envolvidos naquela atrocidade. Meus olhos correram em busca de Nahee, finalmente ela também tinha os dela sobre mim, provavelmente na expectativa de ver qual seria a minha reação.

“Isso aqui não pode ser verdade.” Concluí, apontando para os papéis em minhas mãos. Na verdade, eram nessas palavras que eu queria acreditar, e em minha mente fértil imaginei Nahee dizendo que eu tinha razão, que aquilo era um plano ridículo de Jungkook para tentar mais uma vez nos desestabilizar. Mas Nahee mordeu o lábio e contorceu as sobrancelhas como se não soubesse bem o que dizer. Joguei minha cabeça pesadamente sobre o travesseiro e encarei a iluminação branca e fria do teto hospitalar. Eu ainda não conseguia processar o que havia lido em um mísero pedaço de papel.

“O acidente do hotel...” Pude ouvir Nahee começar a falar com sua voz vacilante. “Não pode mais ser chamado de ‘acidente’. Aquilo foi planejado. Um assassinato em massa.”

Mordi minhas bochechas internamente e fechei o punho com força. Eu queria estraçalhar o documento que tinha em mãos, mas antes de agir por impulso, eu deveria parar e pensar no que fazer a partir deste ponto.

Nahee tinha razão. O documento deixava implícito que o desabamento do hotel em que eu e ela estávamos – o incidente em que perdi meu irmão – não era um mero erro de engenharia como todos acusaram na época, mas sim um acidente minuciosamente arquitetado.

Irritado – e ainda um pouco incrédulo – voltei a reler o documento, mas não havia erro.

“O Sr. Jeon fez um acordo com a Hanoi Hotels; a intenção era afundar a SM Regency para que a Hanoi monopolizasse o mercado hoteleiro principalmente aqui na Ásia...” Nahee disse em voz alta o que eu acabara de ler.

Trinquei os dentes.

“Pra isso ele precisava acabar com a imagem da SM Regency de uma vez por todas. Nada melhor do que uma catástrofe envolvendo centenas de mortes, não?” Completei a frase de Nahee, minha voz carregava um tom amargo enquanto eu ainda não conseguia desviar meus olhos do documento em minhas mãos.

Mais do que ódio ou indignação, neste momento eu sentia nojo. Completo nojo pelo Sr. Jeon e por todos os envolvidos nessa insanidade.

Tudo ficava mais do que claro. A Hanoi Hotel ofereceu bilhões de dólares para que o Sr. Jeon desaparecesse com o nome da SM Regency, ele e mais alguns comparsas aceitaram a proposta, tiveram a brilhante ideia de causar o desabamento de um dos maiores hotéis já construídos bem no dia de sua inauguração; um prato cheio para a mídia cair em cima. E foi o que aconteceu. Foi aí que colocaram a culpa em meu pai, o engenheiro responsável pela obra. Aguardaram então a justiça e a opinião pública fazerem o seu trabalho e desgraçarem a imagem da SM Regency, só não esperavam que o pai de Irene, o Sr. Bae, fosse capaz de reerguer sua rede de hotéis das cinzas e ressurgir tão forte como antes, dessa vez com o nome de Bae Shidae. Com sua missão falha e sem os bilhões prometidos, o Sr. Jeon foi obrigado a se manter calado ainda na posição de vice-presidente da companhia. Enquanto isso, trabalhava para calar também aqueles à sua volta que sabiam do ocorrido.

“O que você vai fazer?” A voz cheia de receio de Nahee interrompeu meus pensamentos.

“Eu não sei.” Respondi com simplicidade. E eu genuinamente não sabia. Aquilo era muito – muito mesmo – maior do que eu esperava. Eu imaginava que o Sr. Jeon escondia repasses de dinheiro não autorizados, ou qualquer coisa do tipo, mas jamais passou por minha mente um crime tão hediondo quanto este. Ele era um assassino.

“Talvez... fosse melhor não fazer nada.”

Pisquei um par de vezes antes de virar o rosto para encarar Nahee. Eu não acreditei no que ouvi sair de sua boca.

“O quê?” Perguntei para me certificar de que havia ouvido errado. Nahee abriu e fechou a boca como um peixe fora d’água enquanto parecia escolher qual palavra usar.

“Acho melhor não fazer nada.” Ela repetiu.

Franzi a testa e me afastei um pouco dela.

“Do que você tá falando? Você só pode estar brincando.” A olhei de cima abaixo como se não a reconhecesse mais; a Nahee que eu conhecia jamais deixaria uma injustiça dessas passar sem que fosse corrigida, agora ela queria simplesmente... deixar pra lá?

“Acho que já fomos longe demais nos envolvendo nessa história. É só isso.” Ela tentou se explicar, mas não me convenceu.

“Nós nos envolvemos nela sem sequer escolhermos, Nahee. Ou será que você esqueceu que os seus pais morreram nessa merda também?” Ao me ouvir, Nahee arregalou os olhos ligeiramente. “Nós descobrimos o culpado pela morte deles e você quer ficar calada?”

Nahee fechou os olhos com força e apertou os lábios em uma fina linha como se tentasse segurar o que queria dizer. Mas eu queria que ela desembuchasse tudo. Absolutamente tudo. Antes de falar, engoliu em seco.

“Taehyung, o Sr. Jeon teve sangue frio o suficiente para planejar um desabamento que tirou a vida de centenas de pessoas. O que você acha que ele faria com a gente? Nós não somos nada para ele.” Ela falou lentamente como se quisesse tentar me fazer entender cada uma de suas palavras.

“E por medo nós não vamos fazer nada? Você acha mesmo que o destino nos colocou juntos exatamente no mesmo lugar em que tudo começou para escolhermos simplesmente deixar pra lá?” Cada vez mais o meu discurso ganhava força, quanto a Nahee, nada do que me dizia parecia fazer um sentido lógico. Parecendo cansada, ela jogou seu corpo para trás, se recostando sobre sua cadeira.

“Eu não vou te ajudar.” Nahee declarou, seus olhos perdidos em algum ponto do lençol de minha maca.

Estalei a língua com raiva.

“Ok. Não faz diferença. Assim que Irene chegar aqui eu vou contar tudo o que aconteceu, mostrar o documento e-.”

“Irene não vem. Ninguém sabe que você está aqui.” Fui interrompido pela voz estranhamente fria de Nahee. Franzi a testa. “Jungkook subornou os médicos para que não contassem a ninguém, muito menos que comunicassem à polícia sobre o ocorrido.”

Olhei Nahee por alguns segundos analizando-a; aquela nem mesmo parecia a garota com quem eu havia convivido durante todo esse tempo.

“Jungkook te convenceu disso?”

Nahee girou os olhos.

“Ele não me convenceu de nada. Ele tomou essa decisão sozinho e me comunicou, mas, no final, não achei tão ruim.”

Contorci o rosto em uma careta e me inclinei para me aproximar mais dela.

“Você consegue se escutar agora? Você tá mesmo insinuando que quer deixar tudo o que aconteceu esta noite só entre a gente?” Mordi minha língua acidentalmente quando Nahee descaradamente afirmou que sim com um aceno de cabeça. Soquei o colchão da maca com raiva. Nahee se encolheu. “Você só pode estar de brincadeira! Eu devo estar dopado ainda, não tem outra explicação pras asneiras que você tá me dizendo!” Exclamei, puxando o soro para verificar se havia outra medicação sendo injetada ali.

Nahee soltou um pesado suspiro enquanto me observava me movimentar enlouquecidamente sobre a maca.

“Será que dá pra sossegar pra gente continuar conversando?” Ela questionou, parecendo começar a ficar impaciente.

“Não, não dá.” Disse, colocando o soro no lugar após confirmar que não havia nada demais ali. “Eu não tô te reconhecendo. Você sempre foi a certinha, eu sempre fui o errado. Agora que nós temos que fazer a coisa certa, você quer deixar tudo por baixo dos panos? Isso não faz sentido algum.” Jungkook. Só podia ser o Jungkook. Ele estava fazendo a cabeça dela. “Liga pro Jungkook, eu quero falar com ele. Agora.” Eu ordenei, voltando a me movimentar à procura do meu celular ou do dela.

Nahee girou os olhos mais uma vez enquanto me olhava como se eu fosse a coisa mais patética do mundo. No fundo, eu me sentia mesmo assim.

“Chega, chega!” Ela exclamou, finalmente explodindo, se levantou e me segurou pelos pulsos para que eu parasse de me mexer tomando cuidado para não tocar em nenhum dos ferimentos. “Você tá surtando.” Ela terminou sua fala com ar de reprovação.

“Óbvio!” Aproximei meu rosto do dela para ter certeza de que aquele não era um clone substituindo a Nahee. “Você tem noção do que o Jimin poderia ter te feito hoje? Mas não, você prefere ficar quieta e seguir as ideias do Jungkook, ele, no fundo, quer proteger o amiguinho. Se eu não tivesse chegado na hora, você poderia estar morta a essa altura.”

“Você também. Você poderia ter morrido.” Nahee repentinamente me soltou e se afastou bruscamente, voltando a se sentar na cadeira. Seu olhar voltou a se perder como se – estranhamente – estivesse se lembrando de algo.

Bufei.

“E é por isso que nós temos que fazer algo. Jimin não pode sair impune. O Sr. Jeon não pode sair impune disso!” Terminei, pegando novamente o contrato em mãos e sacudindo-o em frente ao rosto de Nahee. Ela simplesmente soltou um pesado e longo suspiro e me olhou com uma expressão que não pude decifrar bem o que dizia.

“Eles podem sim. E vão. O Sr. Jeon tem poder e influência o suficiente pra isso. É por isso que não devemos enfrentá-lo, ou então sofreremos consequências.” Ela disse calmamente. Eu poderia chegar à conclusão que Nahee havia se acovardado, mas sua fala só me fez ter uma certeza.

“Você fala sobre isso com muita propriedade. O que você sabe que eu não sei?” Ao ouvir minha pergunta, os lábios de Nahee se entreabriram e seus olhos se abriram ainda mais; eu estava certo, ela sabia mesmo de algo além do meu conhecimento. Provavelmente a convivência com Jungkook havia lhe trazido mais vantagens do que eu imaginava.

Nahee fechou os olhos momentaneamente e sacudiu a cabeça, as pontas das mechas de seu cabelo esbarraram suavemente sobre seus ombros.

Antes de falar, engoliu em seco.

“O que... você acha que aconteceu com o seu pai?”

Franzi a testa.

“O que você está insinuando?”

“Eu não estou insinuando nada, só estou fazendo uma pergunta.”

Eu nunca mais vi meu pai desde o dia em que ele saiu da prisão. Minha mãe dizia que ele se recusava a voltar para casa sem provar sua inocência. Eu não acreditava nisso. Para mim, ele estava apenas fugindo da responsabilidade que seria encarar a sua família após perder um filho graças a uma falha dele. Eu realmente acreditava que ele era o culpado pela tragédia. Mas agora...

Um nó se formou em minha garganta.

Merda.

“Eu não sei... Pode ser que ele ainda esteja por aí tentando encontrar esse documento.” Supus, levantando o contrato mais uma vez. Os olhos de Nahee refletiram um estranho brilho, e eu posso jurar ter visto pena neles.

Após segundos que, na verdade, pareceram minutos em que Nahee apenas contemplava o meu rosto, ela voltou a falar. “Talvez.” Ela se limitou a dizer, mas seu tom de voz denotava mais um ‘espero que sim’. O que se passava na mente dela? Ela temia que meu pai estivesse morto? Impossível.

“Eu preciso fazer algo. Não vai acontecer nada comigo, pode ficar tranquila.” Afirmei, e eu realmente acreditava nisso; tudo ficaria bem no final, mas eu não podia seguir inerte diante dos últimos acontecimentos.

Ao me ouvir, Nahee soltou uma esquisita risada abafada enquanto mexia nervosamente com suas mãos, então, me olhou com uma expressão pesarosa, mas ainda assim parecia resignada.

“Tudo bem.” Seus lábios se curvaram em um meio sorriso. E eu ainda sentia que ela me escondia algo. “Preciso ir.” Ela anunciou, levantando-se e sacudindo a poeira imaginária da sua calça de moletom surrada. Sua vestimenta desta noite ainda era uma incógnita para mim.

“Pra casa ou pra longe?” Antes que pudesse pensar, a pergunta presa em minha garganta escapou; mordi minhas bochechas internamente, tanto como repreensão por minha estupidez, quanto por receio de qual seria a resposta.

No fundo, por mais que eu odiasse admitir, eu queria que ela tivesse se arrependido da decisão de ir embora. Mesmo que não soubesse mais como lidar com ela, eu queria que Nahee ficasse.

Interrompida por mim, ela parou na porta, sua mão sobre a maçaneta.

“Você sabe a resposta.” Foi o que ela se limitou a dizer, antes de se virar para me olhar com mais um de seus misteriosos sorrisos – que estavam irritantemente se tornando um hábito – e me dar as costas.

Cerrei os punhos assim que a porta se fechou.

_______________

“Qual o cereal favorito do vampiro? Aveia!” Jin terminou mais uma de suas espetaculares piadas – note o sarcasmo – com uma risada escandalosa; a única, por sinal, o resto apenas se esforçou em dar sorrisos amarelos para que ele não se sentisse mal. Eu apenas revirei meus olhos e os fixei na gigantesca árvore iluminada por diversas luzes coloridas e enfeitada por espalhafatosas fitas vermelhas e douradas.

Véspera de Natal. A família Bae dava mais uma de suas extravagantes festas; a primeira natalina em que eu participava. Um antigo salão arquitetado com pilares de inspiração grega havia sido alugado, e os gastos não haviam sido poucos: a ostentação ia desde o piano de calda sendo tocado por um renomado musicista à mesa de comida constantemente reabastecida por um dos mais famosos chefs de Seul.

“Onde o Jungkook está?” Seulgi, de repente, levantou o questionamento ao notar que seu amigo não se encontrava dentre o grupo de pessoas sentadas em poltronas e sofás de veludos.

“Eu não sei...” Irene, ao meu lado, espichou a cabeça tentativa de buscá-lo com seus olhos que, neste momento, mais pareciam radares escaneando a área. “Eu cheguei a vê-lo logo que chegamos.”

“Ele tá muito estranho. Tem nos evitado a todo custo.” Wendy comentou, em um rápido movimento, fisgou uma taça de champanhe de cima da bandeja que um dos garçons segurava enquanto passava.

“Não acho que esteja nos evitando, na verdade, ele parece estar desligado, em outro mundo.” Irene disse, defendendo o idiota.

“E Jimin? Não o vi hoje.” Sooyoung falou enquanto, ao mesmo tempo, enfiava deselegantemente um espetinho de queijo e azeitona na boca. “Ele não veio?”

Os olhos de todos ali presentes na conversa, de repente, se arregalarem ao se darem conta desta constatação. Tive de me conter para não rir diante da cena; aquele babaca do Jimin era tão irrelevante que nem mesmo haviam se dado conta de sua ausência.

“Yah!” Jin, de repente, gritou e bateu uma palma como se tivesse descoberto algo realmente brilhante. “Jimin e Jungkook estão estranhos! Não se dão conta?” Todos continuaram encarando-o esperando uma explicação mais plausível para sua teoria. “Eles só podem estar tendo um caso! Eu sempre desconfiei disso!”

Foi nesse momento em que o grupo se dissolveu; após revirarem os olhos, alguns bufarem, ou apenas desviarem o olhar para fingir que não escutaram aquilo. Eu apenas joguei minha cabeça para trás, cansado de escutar Jin falar. Wendy puxou Seulgi para irem atrás de mais bebidas, Sooyoung voltou para a mesa de comidas, e Jin, sem perceber que o motivo da dissipação da conversa havia sido ele, correu para outro grupo de amigos que se encontrava próximo a uma extravagante fonte em um dos cantos do salão. De longe, pude ouvir que contava novamente a piada do vampiro.

“Você também está estranho.” Pisquei um par de vezes, só então me dando conta que Irene se dirigia a mim.

“Eu?”

“Quem mais?” Ela perguntou dando uma risada contida, em seguida, desviou o olhar para a barra de seu vestido longo vermelho. “Desde o dia em que Nahee decidiu sair da empresa, você não é mais o mesmo.”

Engoli em seco, mas me forcei a soltar uma risada de incredulidade enquanto meu olhar se fixava em qualquer lugar do salão que não fossem os olhos de Irene.

“Besteira.” Foi o que me limitei a responder para que ela não se aprofundasse mais nesse assunto. Mas não adiantou.

“Faltam poucos dias para a festa do nosso noivado e você não fez questão de me ajudar com os preparativos. Você nem mesmo faz ideia de como será a decoração, não é mesmo?” Ela reclamou, mas ainda mantinha a voz doce como só ela sabia fazer.

“Eu deixei por sua conta porque achei que fosse algo que você quisesse fazer. Eu não me importo com a decoração.” Respondi, encolhendo os ombros em minha defesa. Mas Irene mantinha seu olhar firme sobre mim.

“Não se importa com a decoração porque sua mente está ocupada demais com a Nahee.” Ela afirmou, fazendo questão de se inclinar para frente para me olhar bem nos olhos. Bufei e revirei os olhos. Mas que merda, obviamente Nahee não era o maior de meus problemas. Não era. Não era? “Onde ela está? Ela devia estar aqui conosco.”

“Eu não sei.” Disse impacientemente, voltando a encarar Irene. Não demorou muito para que ela estreitasse os olhos.

“Vocês brigaram, não é? Vocês viviam implicando um com o outro, mas nunca chegaram a esse ponto de se evitarem completamente.” Comecei a bater os dedos nervosamente sobre meus joelhos, um garçom apareceu nos oferecendo bebidas. Irene, educadamente, recusou, mas eu fiz questão de pegar duas taças de vinho. Quando o garçom se afastou, Irene franziu a testa. “Eu disse que não queria, porque você pegou...” Mas antes que terminasse de falar, ela entendeu que a segunda taça não havia sido para ela. Em um gole só, derramei o líquido doce e ardente que desceu facilmente por minha garganta.

“Sim, nós brigamos.” Respondi, colocando a taça vazia sonoramente sobre a mesa ao lado de nossa poltrona. Quanto à outra taça, bebi esta mais pacientemente, mas talvez a segurasse com força demais. Irene me olhava como se me desconhecesse e, pela décima vez naquela noite, fixou os olhos no curativo em minha mão; a mordida de Nahee já estava cicatrizando, mas seria difícil explicar as marcas de dentes, por isso, quando me perguntou sobre o ferimento, expliquei à Irene que havia me cortado com a lâmina de barbear e mantive a área enfaixada. Ela pareceu acreditar. “Ela decidiu ir embora.”

“Embora?” Irene perguntou; eu não sabia se ela estava confusa por não entender o motivo de Nahee ir embora ou por, finalmente, eu estar abrindo a minha boca em relação ao que havia acontecido.

“Isso. Pra outra cidade.” Mais um gole de vinho.

“Mas por quê?” Irene perguntou, passei minha língua entre os lábios. Boa pergunta, Irene. Por quê? Porque ela é irritantemente petulante. Era essa a resposta que eu queria dar, mas não podia. Além de não poder, no fundo, eu sabia a resposta, mas não queria admiti-la.

Respirei profundamente. Mais um gole de vinho.

“Eu não sei.” Respondi secamente, terminando de beber o que restava na taça e colocando-a ao lado da outra sobre a mesa. “Vou buscar um pouco de água.” Disse, levantando-me e ajeitando o paletó sobre os ombros. Mentira. Eu iria pegar uma bebida mais forte. Os anos de bebedeira em que trabalhei como host me fizeram mais resistente do que eu queria ao álcool.

“Espera.” Ouvi a voz de Irene novamente, em seguida, uma dor aguda em meu braço que me fez me encolher e contorcer meu rosto em uma angustiante careta. Na tentativa de me fazer parar, Irene havia me segurado bem em meu recém feito ferimento. “O que houve?” Ela perguntou quase em desespero, levando uma mão à boca devido ao susto.

“Distendi o músculo enquanto jogava tênis.” Menti. Nahee tinha razão; ninguém soube do acontecido naquela noite, tampouco souberam do tiro que levei. Por sorte, Irene ainda não havia visto meu braço enfaixado, e eu esperava escondê-lo pelo máximo de tempo possível. Ou pelo menos até decidir qual seria o próximo passo a dar.

Irene parou por um momento, e eu temi que tivesse percebido algo, mas logo seu rosto expressou preocupação.

“Fique inteiro até o casamento pelo menos, ok?” Ela disse em tom de brincadeira, e eu forcei um sorriso. “E, por favor, pare de se preocupar tanto com a Nahee. Sei que é sua irmã, mas ela já é grandinha o suficiente para tomar as decisões dela. Além disso, de verdade, eu acredito que isso deve ser só uma fase. Logo as coisas voltarão a ser como antes para vocês, tá bem?”

Parei por um instante. Eu não sabia se eu queria que as coisas voltassem a ser como antes entre eu e Nahee. Franzi a testa quando me dei conta deste pensamento. Nem eu mesmo sabia o que queria dizer, e temia descobrir.

Voltando a forçar um sorriso, acenei positivamente com a cabeça. Para tranquilizar Irene, me inclinei e lhe dei um rápido beijo nos lábios. Era tão estranho beijá-la sem me preocupar em voltar ao passado. Engoli em seco.

Antes de virar e me afastar, Irene disse que iria começar a organizar as coisas para a ceia natalina. Já havia passado das onze da noite.

O plano de pegar mais bebida foi sabotado; assim que me virei, ao longe vi o Sr. Jeon próximo ao bar conversando com um grupo de investidores. Aquele crápula. Já era difícil engoli-lo antes, agora eu tinha ânsia de pular em seu pescoço e sufocá-lo até a morte. Dando meia volta, ainda com os punhos cerrados e a mandíbula tensionada, passei por um dos corredores quase que sombrios, mas inegavelmente elegantes do local. Uma rajada de vento praticamente me convidou a ir espairecer minha mente.

Ao final do corredor de piso de mármore, uma porta aberta para uma romântica sacada que parecia ter sido tirada da história de Romeu e Julieta; algo bem do tipo que Nahee gosta, mas negaria até a morte. Eu já a havia visto ler romances parecidos, fora os mangás shoujos que eu havia encontrado escondidos embaixo de sua cama. Aproximei-me da beirada, me apoiando sobre o balaústre, admirei a vista do bem cuidado jardim da residência e, então, fechei meus olhos ao sentir novamente o vento de inverno soprando em meu rosto. Eu não aguentaria muito tempo aqui fora sem meu sobretudo.

Em breve seria oficialmente dia de Natal. O que Nahee estava fazendo?

Pegando meu celular, me deparei com uma mensagem. Minha mãe. Soltei um desapontado suspiro.

Na mensagem de texto, ela me desejava um feliz Natal e discretamente – só que não – insinuava que eu deveria voltar ao apartamento de Nahee para lhe ajudar com as decorações de fim de ano que não haviam sido colocadas ainda. Aparentemente ela já estava ciente de nossa briga. Girei os olhos.

“Ela não vem.”

Sobressaltei-me ao ouvir uma voz masculina atrás de mim. Virando-me rapidamente, encontrei Jungkook sentado em um banco próximo à gigantesca janela que dava para o corredor. Em sua mão, uma garrafa de champanhe. Ele só podia estar se referindo à Nahee.

“Como sabe?” Foi minha pergunta ao dar dois passos em sua direção, meus olhos se estreitando.

“Tentei convencê-la a vir, mas, como pode perceber, ela não está aqui.” Ele explicou o óbvio, erguendo a garrafa e bebendo seu conteúdo pelo gargalo. Deus, ele parecia tão miserável.

“Você não deveria se preocupar com ela.” Adverti, tomando a decisão de sair dali o quanto antes.

“Você sim, não é mesmo? Mas você é incompetente até nisso, não consegue dar atenção à Irene, que dirá à Nahee.”

Girei os olhos.

Notando que o grau alcoólico de Jungkook estava consideravelmente elevado lhe dei as costas, mas antes de passar pela porta, parei em meus calcanhares quando me lembrei de algo.

“Por que você fez aquilo?” Perguntei, dando um passo atrás para olhá-lo com atenção. Jungkook, com seus cotovelos apoiados sobre os joelhos e a garrafa pendendo de uma de suas mãos, apenas levantou vagarosamente o rosto para me contemplar com uma expressão interrogativa.

“Aquilo o quê?”

“O documento. Por que deixou comigo?”

Após uma longa pausa em que ele parecia fascinado pelos musgos que cresciam entre os pisos da sacada, ele voltou a me olhar.

“Eu não tinha motivo para ficar com ele. Mas você sim.” Ele respondeu, encolheu os ombros e tomou um gole da bebida. Imaginei que estivesse se referindo ao fato de que, agora, eu sabia que meu pai não havia sido o responsável pelo acidente. Ele mesmo já havia jogado isso em minha cara antes. Aquilo era um pedido de desculpas velado, talvez?

“Você sabe que eu posso arruinar seu pai, não é?” Ameacei-o esperando que ele tivesse uma reação que me mostrasse suas verdadeiras intenções, mas ele voltou a encolher os ombros.

“Nada mais justo, certo?” Ele disse despreocupadamente. Ou pelo menos era isso o que parecia. Franzi minha testa. Minha vez de ficar em silêncio por um momento para digerir tudo o que estava acontecendo.

“Você tem noção do que está dizendo? Você é o filho dele.” Comentei, incrédulo com sua postura; jamais imaginei vê-lo proferir tais palavras. Dei um passo à frente.

“Eu sei muito bem disso, mas isso não quer dizer que ele não tem de pagar pelo o que fez. Você também pensava assim a respeito do seu pai, não é?”

Ele tinha razão. Mas eu também guardava um profundo ressentimento dele. Jungkook sentia o mesmo? Eu ainda não acreditava nisso.

“Eu vou tirá-lo da jogada e vou tomar a presidência para mim. Você está ciente disso, certo?” Provoquei.

“Vá em frente, Taehyung. Você e Nahee já tinham a vitória, chegar à presidência era só questão de tempo. Literalmente.” Ele terminou com uma risada amarga. Franzi a testa, confuso com sua afirmação. Ele não poderia... poderia? “Só espero que calcule muito bem seus passos; se decidir mesmo afrontar meu pai, também deve estar pronto para as consequências.” Girei os olhos ao me lembrar do mesmo discurso vindo de Nahee. Fechei o punho com força ao sentir raiva; esses dois pareciam cada vez mais compartilhar similaridades.

“Muito amável de sua parte, Jungkook, mas, como você mesmo disse, seu pai tem que pagar pelo que fez. Você deixou o documento na minha mão, a partir daqui quem toma as decisões de como prosseguir sou eu.” Informei secamente, voltando a caminhar para dentro do casarão.

“Então, pelo menos, deixe a Nahee fora disso. Ela já foi embora, mas quanto mais longe estiver, melhor.” Estreitei meus olhos e parei o passo quando voltei a ouvir sua irritante voz.

Impossível ela já ter ido. Eu não esperava que se despedisse de mim – não mesmo – mas ela teria, pelo menos, pedido que eu aparecesse em seu apartamento para pegar minhas coisas, não é? Bem, pelo menos era isso o que eu esperava. Mas, até o momento, nada. Nenhum tipo de mensagem ou sinal de vida.

“Como você...?” Comecei, mas logo interrompi minha fala ao me dar conta do óbvio; claro, Nahee e ele estavam tão próximos que, muito provavelmente, esse babaca devia até mesmo estar lhe ajudando com a mudança. Eu nem mesmo sabia para onde ela ia. Mordi minha língua. A essa altura, ele já devia saber mais sobre a Nahee do que eu. Ao ver minha expressão, Jungkook nem mesmo se deu ao trabalho de me responder, me lançou apenas um sorriso cheio de sarcasmo e ergueu sua garrafa como se me oferecesse um brinde. Idiota.

Dei-lhe as costas, dessa vez dando passos mais firmes para me distanciar o mais rápido possível de Jungkook.

“Sabe, cada vez mais eu tenho certeza de que Nahee deveria mesmo ter ido embora enquanto você estava morto.”

Parei em meus calcanhares novamente; o sapato de couro fez um guincho estridente sobre o piso. Trinquei os dentes.

“Do que você tá falando?” Perguntei, lentamente, voltei a olhá-lo.

“Você entendeu bem. Ela deveria ter te deixado morto. Seria menos um peso na vida dela. Na vida de todos.” Jungkook disse, seu tom de voz carregava sarcasmo e ele – torpemente – levantou-se do banco para ficar à minha altura.

Mordi a língua, desviei o olhar, respirei fundo. Eu queria tanto – mas tanto – enfiar a mão na cara dele.

“Você tá louco.” Afirmei, soltando uma debochada risada e sacudindo as mãos para aliviar a tensão que havia se acumulado em meus músculos. “Eu só não te meto a porrada agora porque você claramente está bêbado. Ah, e claro, é noite de Natal.”

Jungkook, de repente, soltou uma audível gargalhada. Franzi a testa; ele estava mesmo fora de si.

“Engraçado você dizer isso, pois, por incrível que pareça,” ele ergueu a garrafa e, com a outra mão, apontou, “foi isso aqui que me deu mais clareza. Estando sóbrio, é meio difícil entender como alguém, com um beijo, consegue voltar ao passado.”

Prendi o ar.

Meu rosto, aos poucos, começou a se contorcer até eu fechar a cara de vez. Nahee havia ido longe demais.

“Ela te contou isso?” Dei um passo à frente com a intenção de ver a cara daquele idiota de perto; ele só podia estar blefando. Mas, no fundo, eu sabia que esse era apenas um desejo meu. Ele havia sido direto demais para ser uma mentira.

Olhei à minha volta, cogitei ligar imediatamente para Nahee para lhe gritar umas boas verdades; como ela teve coragem de contar algo tão... tão nosso? E para esse idiota? O que ele havia lhe feito de tão importante para lhe dar essa confiança toda de revelar algo que ela nem mesmo sentia orgulho?

Era difícil admitir e até mesmo entender o porquê, mas eu me sentia... traído.

“Você acha que ela me contou?” Ele questionou, me olhando com descrença. “Eu não acreditaria nessa merda nem se o Papa me explicasse com uma apresentação de slides. Eu tive de viver pra crer. Ou... seria morrer pra crer?” Ele terminou, tomando uma postura pensativa ao colocar uma mão sobre o queixo.

Senti o sangue ferver em minhas veias, minha respiração se acelerou, meus olhos o fuzilaram e, antes que pudesse me controlar, quando dei por mim, já tinha meus punhos agarrados ao colarinho de Jungkook após empurrá-lo contra a parede às suas costas.

Apesar de minha evidente raiva, ele pareceu não se sentir afetado ou ameaçado. Isso me descontrolou ainda mais.

“Seu mentiroso!” Bradei a centímetros de seu rosto. O sorriso de Jungkook, aos poucos, foi se apagando. “Você acha que vou acreditar nessa merda que você tá dizendo, seu filho da puta!”

Ele estava mentindo. Não havia lógica para isso. Não havia. Não era possível.

Era isso o que eu repetia incessantemente para mim mesmo na tentativa de mascarar o óbvio: a verdade.

“Você caiu morto do meu lado, seu merda! E se não fosse por ela, teria continuado assim! E quer saber? Eu tenho certeza que teria sido melhor!” Ele gritou, empurrando-me com um soco em meu peito. Mas ele nem precisava de tanto, somente suas palavras já haviam sido capazes de me desarmar; como se fosse em câmera lenta, meus dedos afrouxaram e soltaram seu colarinho. Sua garrafa, ao cair no chão, soou como um distante eco.

Perplexo, eu agora apenas o olhava, sem palavras. Perdido.

Perdido em pensamentos.

Ainda me era inconcebível a ideia de que, em alguma linha do tempo, eu havia, de fato, morrido. A possibilidade de usar Nahee para voltar ao passado sempre que me fosse conveniente havia me dado a ilusória sensação de invencibilidade. Eu era praticamente imortal. Tolo engano meu.

“Você se sentia tão poderoso, não é mesmo?” Jungkook provocou, avançando em minha direção ao ver minha súbita vulnerabilidade. “Hoje eu consigo entender como você chegou à posição que tomou tão rápido. Até mesmo entendo como você fez Irene se apaixonar por você; você a manipulou indo do presente ao passado constantemente, viu suas fraquezas, seus anseios, medos, desejos... e aí ficou fácil completar o quebra-cabeça perfeitamente. O que alguns podem levar uma vida inteira, você levou o quê? Meses?” Ele perguntou com asco em sua voz enquanto me olhava com repugnância. “Eu só não entendo a Nahee.” Ergui o rosto quando ele tocou no nome dele, meus olhos ansiando para que continuasse sua fala. “Ela desde o início viu o quão desprezível você é, sabia de todos os seus defeitos, mas, mesmo assim, se apaixonou por você. Eu tenho pena dela.”

Mordi minha língua, meus joelhos cederam. Ele tinha razão. O grande filho da puta do Jungkook tinha razão. Fui um completo idiota do início ao fim.

Fechei meus punhos até os nós de meus dedos se tornarem brancos.

“Quando...?” Comecei, não tendo coragem de terminar. Mas Jungkook sabia que eu me referia ao dia de minha morte.

“Na noite em que você, inconvenientemente, apareceu para pegar o documento no clube de tênis.”

Engoli em seco.

“E o que aconteceu?”

“Você já deveria saber. Como eu te disse, afronte o meu pai, mas arque com as consequências.”

Soquei o chão.

Eu sabia. No fundo eu sabia que havia algo de muito errado. Todos os sinais estavam bem em minha cara e eu, como sempre, escolhi ignorá-los. Naquela noite, apesar de não me lembrar de tudo, me recordo do estranho comportamento de Jungkook. E Nahee também. Desde o clube de tênis até nossa conversa no hospital. Ela havia me dado várias pistas – mesmo que involuntariamente – e eu as havia desprezado.

Nahee havia arriscado a própria vida para me trazer de volta. E eu? Eu fui um completo babaca com uma das pessoas que mais se importava comigo. O que Nahee não seria capaz de fazer por mim? Aquela idiota... Um nó se formou em minha garganta, um filme passou em minha mente me fazendo recordar de todos os momentos em que eu havia lhe feito parecer valer menos do que ela realmente merecia.

Eu me sentia tão culpado.

Quando era pequeno, minha mãe insistia em dizer que, um dia, eu e meu irmão conheceríamos alguém especial, tão especial que não conseguiríamos nos lembrar de como era a vida antes de tê-la conhecido. Uma alma gêmea, ela repetia sonhadoramente, uma alma capaz de te fazer se tornar completo. Eu nunca acreditei nisso. E, agora, posso dizer com toda a certeza do mundo que minha mãe estava errada.

Uma alma gêmea não te completa. Uma alma gêmea, na verdade, é seu espelho. É a pessoa que traz sua sombra à luz, destrói suas barreiras e te sacode violentamente para encarar a realidade, aniquila docemente o seu ego, desvela seus bloqueios, dificuldades e vícios, abre seu coração para que o novo entre, te deixa desesperado, fora de controle, te obriga a transformar sua vida. Completamente.

Encontrar sua alma gêmea, afinal, é doloroso.

E aí, vem uma das piores partes.

Vulnerabilidade. Seu coração fica vulnerável.

Mas, me orgulho em dizer que sempre tive muito controle disso. É fácil: se você quer ter certeza de que ele se manterá intacto, você não deve dá-lo a ninguém. Enrole-o em várias camadas das roupas de marca mais caras e luxuosas; evite nós. Mergulhe-o em uma quantidade de bebida alcoólica proporcional às mágoas que carrega. Tranque-o na segurança de um caixão de egoísmo. Voilá. Dentro dele, na escuridão, sem ar, sem movimento, ele se tornará inquebrável, impenetrável, intocável.

Até, claro, em algum momento, se tornar vulnerável.

Ela chega, abre seu peito - sem que você nem mesmo perceba - e bagunça tudo. E isso acontece da maneira mais estúpida possível.

Depois de construir todas as suas defesas, quando acha que ninguém seria capaz de encontrar seu coração trancafiado em um caixão, uma pessoa estúpida entra na sua vida estúpida... e aí, quando você se dá conta, já era. Já era há muito tempo.

Você já é dela sem que nem mesmo ela peça por isso.

Não sei exatamente quando começou, mas tenho certeza de que foi algo bobo, tipo um sorriso tímido, um tom de voz mais firme, uma mordida no lábio, uma mecha de cabelo sendo colocada atrás da orelha, uma fala inocente, uma expressão engraçada, ou até mesmo um olhar que desejava me matar.

Chegamos então à terceira e última fase desse doloroso processo. Aquela que sempre temi.

Primeiro, a proximidade de sua alma gêmea, segundo, a vulnerabilidade em que ela te coloca. E agora? Agora você se torna um refém.

De repente, sua vida não é mais só sua.

Você já se apaixonou? Horrível, não é?

Nahee, como eu te odeio.

“Eu menti.”

Pisquei um par de vezes após ter meus pensamentos interrompidos; ergui meus olhos na direção de Jungkook que, agora, se encaminhava até a saída.

“Eu menti.” Ele repetiu, certificando-se de que eu estava prestando atenção. “Ela ainda está em casa.”

_______________

[...]


Notas Finais


Hello!
Dessa vez me lembrei de postar na sexta! :)
Como sempre, obrigada pelos comentários! T-T Estou tentando responder o máximo possível! Mas se sintam todas abraçadas! Eu recebo taaanto amor de vcs! ♥♥♥
E agora eu quero ver quem é NahKook e quem é TaeHee! xD

Saranghae~ ♥♥♥


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