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História Kizuna - Capítulo 34


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Capítulo 34 - Uma vez em um sonho


Quase sempre era Sasuke o primeiro a acordar na casa, seja pela luz que batia diretamente em seu rosto pela janela ou por seu relógio interno, o qual não o deixava dormir além das oito horas, e não foi diferente naquele dia. O sol bateu forte em seu rosto e, grunhindo, e com o cabelo completamente desarrumado, seguiu para o chuveiro. 

Suas pernas tremiam quando tentava ficar em pé, mas ele já estava começando a se acostumar com isso. Afinal, eram a prova, o resquício das noites quentes que passou com o futuro marido.

Um sorriso cresceu em seus lábios ao pensar naquelas duas palavras mágicas. Depois de tantos anos sendo dito como o marido de Sakura, além de pai de Sarada, nunca imaginou que chegaria o dia em que ele acordaria nú ao lado da pessoa que realmente amava e com um anel no dedo anelar da mão esquerda. Era como um de seus sonhos lúdicos, porém ainda melhor, pois este era real.

Ele ia casar com Naruto.

Seu coração palpitava forte ao ouvir aquelas palavras ecoando em sua cabeça. O sonho que ele nunca imaginava que seria real agora estava sendo. De certa forma, era assustador, pois era algo completamente inesperado, que fugia completamente da rotina a qual Sasuke estava acostumado, mas também era incrível, pois ele passaria por uma experiência nova, algo que nunca fez antes, nem mesmo com Sakura.

Ele estava ansioso. Sequer tinham planejado quando seria a cerimônia ou discutido qualquer outra coisa, mas em seu peito, sentia como se fosse amanhã. Era excitante.

Com os pensamentos e sentimentos frescos em sua mente, Sasuke se dirigiu ao banheiro para tomar um banho rápido antes de fazer o café. As gotas geladas caíam em sua pele como verdadeiras gotas de chuva, lavando seu suor e cansaço para longe. Suas forças foram rapidamente renovadas e ele estava mais disposto a começar o dia do que anteriormente. 

Sem mais delongas, o moreno se dirigiu à cozinha para preparar ovos para o café da manhã. Por sorte, já estava tudo organizado quando chegou em casa e ele pôde trabalhar em paz, já estava pensando que Naruto tinha deixado a cozinha uma bagunça de pratos sujos e copos de miojo. O que levantava a pergunta: como ele havia se virado com a comida durante o tempo que ele esteve fora? Ele não era muito bom em cozinhar, então talvez tivesse comido fora, mas há um tempo atrás ele parecia genuinamente interessado em aprender a cozinhar. Sasuke fez uma nota mental de perguntar isso ao loiro depois. Pode não parecer importante, mas se Himawari realmente ficou com ele por todo esse tempo, era seu dever como guardião se certificar de que as crianças tivessem uma refeição decente.

Enquanto ele cozinhava em frente ao fogão, ouviu vagamente o som de uma porta abrindo. Se não fosse Naruto, provavelmente era uma das crianças. No fim, ele estava certo.

- Bom dia, tio Sasuke! - cumprimentou Himawari, correndo para a cozinha e dando um grande abraço no maior, um sorriso em seu rosto.

Sasuke retribuiu o gesto e logo voltou ao fogão.

- Bom dia. Você parece feliz hoje.

- Tô feliz que você e o papai vão cozinhar juntos pra gente mais vezes. - ela disse. - Sua comida é tão gostosa!

De todas as vantagens que a crianças teriam com o casamento dos dois ninjas, ele devia ter previsto que falariam algo sobre sua comida. Era a cara deles.

Após o pedido na noite anterior, embora os dois pequenos já soubessem de tudo por estarem espiando pela janela, o casal ainda assim preferiu contar à eles, com uma clássica reunião de família na sala.

Himawari sorriu e deu um abraço nos dois, enquanto que Boruto teve de ser puxado para o mesmo por querer pagar de machão e apenas cruzar os braços com um sorriso, o que o casal deixou claro que não era necessário.

A alegria no rosto das crianças era contagiante. Ninguém conseguiu parar de sorrir durante todo o tempo em que contaram a notícia, muito menos agora.

- Eu vou ter dois pais! - Himawari cantarolou para si mesma enquanto perambulava pela cozinha para pegar os pratos. - Mas como eu chamo vocês? Chamar os dois de papai vai ficar confuso… 

- Não tem problema se quiser me chamar só pelo nome. - disse o Uchiha, sem tirar os olhos dos ovos.

- Mas não tem graça desse jeito, tio Sasuke! Você agora vai ser meu pai, não meu tio!

Himawari ficava tão fofa quando inflava as bochechas. Qualquer um faria qualquer coisa para apertá-las.

- Mais um velho chato pra reclamar na casa… - uma terceira voz resmungou, se fazendo presente na cozinha e entrando de braços cruzados.

- Bom dia, Boruto. - Sasuke o cumprimentou sem tirar os olhos do fogão.

- Bom dia. O que tem pro café?

- Onii-chan, não seja chato! - a pequena cruzou os braços. - Ele vai ser nosso pai!

- Ovos, panquecas e suco. - Sasuke disse, sem saber se estava sendo ouvido ou não.

Já absorvidas pela pequena conversa, as crianças deixaram o maior para cozinhar em paz.

Pensar que enfim faria parte daquela família tão divertida enchia o coração do Uchiha de borboletas. Ele estava muito ansioso para poder ter um papel mais influente na vida daquelas crianças e poder criá-las junto de Sarada. Ele esperava ser um bom pai para aqueles pequenos, em razão de, assim, talvez compensar a distância entre ele e sua filha desde seu nascimento.

E, pensando em sua filha, ele já tinha terminado de preparar o café quando ouviu o nome dela ser pronunciado por Himawari, que parecia muito empolgada.

- Eu vou ser irmã da Sarada-chan!

Boruto, no entanto, não estava tão empolgado assim.

- Ah, eu vou ter que aguentar ela todos os dias?

- Pelo menos três dias na semana, sim. - respondeu Sasuke ao colocar os pratos de comida no centro da mesa.

- Ah, que chato. - o loiro cruzou os braços e fez beiço.

Ele riu, sabia que Boruto e Sarada tinham o costume de brigar com frequência, mas também sabia que eles se amavam como irmãos, do jeitinho deles.

- Tentem não destruir a casa quando estiverem juntos. - o Uchiha aconselhou. - Não é barato fazer reforma.

Ele tinha perdido a conta de quantas vezes ele e sua equipe saíram perdendo na época de Genin por conta de Sakura destruir algo que não devia em um ataque de raiva. Bons tempos.

Terminando de arrumar a mesa e já com as crianças presentes, faltava apenas uma pessoa para completar o café da manhã.

- Alguém pode acordar o Naruto pra mim, por favor? O café já está pronto.

- Eu vou, tio Sasuke! - Boruto exclamou, correndo para o quarto antes que o moreno tivesse a oportunidade de dizer qualquer outra coisa.

- Só tente não matar ele de falta de ar dessa vez. - brincou, recebendo um joinha de Boruto.

Enquanto ele não voltava, Himawari e Sasuke terminaram de embelezar a mesa, colocando algumas flores do jardim no vaso do centro e dobrando os guardanapos em pequenos triângulos. Aquele era o café da manhã mais chique que já tinham feito.

- Tio Sasuke, o pai tá fazendo corpo mole! - Boruto reclamou ao voltar pelo corredor.

O Uchiha soltou um suspiro pesado e, acariciando os cabelos loiros de Boruto, entrou no quarto. Ele não ficou nem um pouco surpreso ao ver Naruto completamente largado na cama, morto para tudo que podia estar acontecendo à sua volta. 

Revirando os olhos, ele se sentou à beira da cama e cutucou o couro cabeludo do loiro com a ponta da unha, recebendo um grunhido em resposta.

- Acorda, Usuratonkachi. O café vai esfriar.

Mais um grunhido e ele finalmente abriu os olhos. Esboçou um sorriso cansado ao ver Sasuke sentado ao seu lado e se permitiu repousar a cabeça na mão que acariciava seus cabelos.

- Bom dia.

Sasuke deu um riso anasalado.

- Bom dia. Você tá um bagaço.

- Culpa sua.

Ele arqueou uma sobrancelha, sorrindo de canto.

- Culpa minha?

Naruto fez que sim com a cabeça.

- Eu não consegui dormir direito com alguém tão maravilhoso do meu lado. - murmurou e entrelaçou seus dedos. Puxou a costa da mão do Uchiha aos lábios, dando um beijo em seu dedo anelar. - Esse anel ficou perfeito em você. Só não vai ficar tão perfeito quanto o que eu vou colocar quando me casar com você.

Sasuke não se conteve em se inclinar sobre a cama e beijar os lábios de seu noivo, deslizando a mão pela dele e a prendendo ao lado de sua cabeça. Foi algo rápido, pois não podiam se dar ao luxo de demorar demais ou as crianças perceberiam que algo mais estava acontecendo. Seus lábios apartaram com um pequeno estalo e ambos trocaram sorrisos enquanto se encaravam e se perdiam em meio ao brilho que refletia em suas órbitas pela janela.

- Eu te amo tanto, Sasuke. - o loiro murmurou ao afagar a testa do Uchiha.

- Também te amo. - retribuiu com uma trilha de beijos, desde seu pescoço até seus lábios, transbordando toda sua paixão por aquele homem com simples gestos. - Seu cabelo já está comprido. - ele apontou e prendeu uma pequena mecha entre o polegar e o indicador. - Tá bem melhor assim.

- Você acha?

Sasuke assentiu.

- Tem mais a sua cara do que aquele cabelo curto. - ao perceber o olhar atravessado de seu noivo, Sasuke conteve um riso. - Não me olhe assim! Você sabe que eu gosto de cabelo comprido.

- Mas você fica melhor sem a franja. - ele retribuiu. Seus olhos visivelmente adquiriram mais brilho ao prender uma mecha de cabelo do moreno atrás da orelha, aquela coloração roxa e as espirais hipnóticas atraindo completamente seu olhar, assim como foram feitas para fazer. - Seu Rinnegan é tão lindo.

Sasuke corou e desviou o olhar. Ele não pensava assim com tanta frequência. Quando saiu da vila pela segunda vez, seu Rinnegan era apenas um chamariz para sua figura e uma placa luminosa indicando que ele estava ali e era Uchiha Sasuke. Naquela época principalmente, ser reconhecido como Uchiha Sasuke não era a melhor das coisas. Em poucas palavras, ele não era muito chegado em seu Rinnegan.

Beijando-se lábios do noivo como um agradecimento pelo elogio, Sasuke se afastou e sentou na beira da cama, estendendo uma das mãos para puxar Naruto a fazer o mesmo.

- O café tá esfriando. - ele disse, erguendo-se da cama e observando o loiro de soslaio enquanto ele fazia o mesmo. Ele ainda estava sem suas roupas, nenhum deles tendo realmente se importado em colocar alguma peça de volta após tirá-las.

- Vou só tomar um banho e já vou. - Naruto respondeu, beijando a bochecha do noivo e indo à porta ao lado.

Enquanto Naruto tomava banho, o moreno julgou melhor ir checar como estavam as crianças, visto que eles haviam tardado mais do que elas eram capazes de esperar.

 Ele não ficou nem um pouco surpreso ao encontrá-las espiando da porta do quarto.

Elas abriram sorrisos nervosos e saíram correndo de uma vez para a sala, ao que Sasuke logo foi atrás. Boruto estava se escondendo atrás do sofá e Himawari ao lado da estante de livros.

Sasuke conteve um sorriso.

- Vocês sabem que não é educado ficar espiando as pessoas pela porta. - repreendeu. - Têm que respeitar a privacidade dos mais velhos.

- Mas vocês são tão fofinhos juntos. - a pequena cantarolou, encantada. - O papai fica sempre tão feliz quando tá perto de você, tio Sasuke.

Embora lisonjeado pelo elogio e a admiração das crianças por verem Naruto feliz. Sasuke continuou o sermão.

- Mesmo assim, não é legal ficar espiando o quarto das outras pessoas quando elas estão ocupadas. Batam na porta caso queiram entrar.

- Hai. - responderam em uníssono, sorrisos de exuberante beleza nos rostos.

Os três já estavam sentados à mesa quando Naruto finalmente saiu do banho, já com sua roupa cotidiana.

- Bom dia, crianças. - ele cumprimentou, tomando seu lugar ao lado de Sasuke.

- Bom dia! - elas responderam com animação enquanto se preparavam para atacar a comida.

A família sentou-se unida à mesa, cada um pegando o que mais gostava da mesa e enchendo os copos com suco de laranja. Sentar assim era uma sensação boa, como se fossem uma verdadeira família apesar de Naruto e Sasuke terem noivado apenas no dia anterior. Se conseguissem trazer Hinata, Sakura, Karin e Sarada, seria o momento perfeito. Tudo estaria bem com o mundo e eles seriam uma grande família.

O pensamento puxou um sorriso aos lábios de Naruto, que estava mais do que contente com a ideia. Depois dos últimos acontecimentos, ele não queria nada além de paz em sua vila novamente, e isso inclui paz em seu lar também. As coisas ainda precisavam esfriar com Hinata e o terreno onde pisavam com Sakura ainda estava um tanto relativo, mas ele tinha fé de que conseguiriam ultrapassar qualquer obstáculo e unirem suas famílias de uma maneira harmoniosa.

- Quando vocês vão contar pra mamãe? - Boruto perguntou em relação ao casamento.

- Hoje à tarde. - Naruto respondeu. - Nós todos vamos sair pra almoçar junto com nossos amigos. Não se preocupe, Shikadai e Inojin vão também. E eu ouvi que o filho do Gaara veio com ele na viagem.

- O Kazekage tem um filho? Eu não sabia… - o menor divagou. Aquilo sim parecia interessante.

- Você vai conhecê-lo hoje à tarde, não vai ter que ficar na curiosidade por muito tempo.

- Quando vai ser o casamento? - Himawari perguntou.

Com uma troca de olhares, Sasuke tomou a dianteira.

- Precisamos resolver os problemas do trabalho primeiro. Seria muito triste que planejássemos uma cerimônia tão bonita pra estragarem com alguma invasão.

- Eu não reclamaria de ver uma luta durante a recepção. - Boruto deu de ombros. - Casamentos são chatos.

- São nada! - a pequena bateu o pé. - Todo mundo vem com roupas tão bonitas e com o cabelo tão arrumado… Eu quero um vestido roxo!

- Tenho certeza de que você vai ficar linda, Himawari.

Eles finalizaram o café assim, contando histórias da viagem, comentando o futuro casamento e tudo que acontecia ao redor.

Concluído, cada membro da família seguiu para um canto da casa para fazer suas próprias coisas. Entretanto, antes que Naruto pudesse fazer o mesmo, Boruto o chamou de canto.

- Pai, eu tenho que te contar uma coisa…

Ao começar a falar daquela forma, o pai imediatamente suspeitou.

- O que você fez agora, Boruto?

- Eu não fiz nada! - ele bradou, insultado, temperamento o qual desapareceu em menos de um segundo. - É só que… Sabe o Mitsuki? Eu meio que me confessei pra ele durante a viagem.

Os olhos azuis do Nanadaime se arregalaram em surpresa. Essa era uma notícia que ele não esperava ouvir pela manhã. Porém, não era nada grave, nada com que ele não pudesse lidar. Mitsuki era um bom garoto, tinha notas altas na escola, era dedicado, habilidoso e um grande amigo de seu filho. Ele jamais se oporia a uma união assim.

- Ah, estão namorando? Parabéns, filho. - deu um tapinha de leve em suas costas e o puxou para um abraço, chocando-o. - Mas espero que não levem essa experiência para um lado pesado, hein. Só quando forem maiores de idade.

- Eu sei, eu sei! - Boruto rapidamente rebateu, vermelho. - Nós não somos assim. O máximo é um beijinho na bochecha. Tipo o Shikadai e o Inojin, só que menos nojento.

Sem resistir muito mais, o loiro começou a rir. Seu filho era uma verdadeira peça.

- Fico mais aliviado então. Por que não vai trocar de roupa e aproveita pra contar pra Himawari a novidade? Tenho certeza de que ela vai ficar muito feliz com a notícia.

Boruto assentiu e fez conforme a sugestão, disparando para o quarto e fechando a porta atrás de si.

Pelo sorriso de orelha à orelha que Himawari manteve por todo o caminho até o restaurante, a previsão de Naruto estava mais que correta.

Quando o restante da família Uzumaki chegou ao local combinado, a maioria das pessoas já estava lá, faltando apenas Sakura e Karin, que, junto a elas, trariam Sarada.

Todos se cumprimentaram com alegria, já sentiram falta de reunirem-se todos juntos. Com tantas pessoas ocupadas, aquilo não era muito fácil de combinar, pois precisavam sempre verificar se todos podiam, e sempre tinha um ou outro que tinha compromisso. Felizmente, não foi o caso naquele dia, e todos puderam comparecer junto de suas crianças.

A conversa rapidamente tomou o lugar na mesa. Cada um contava sobre a própria vida, o que tinha de novo e o que tinha de velho, e se entretida com as histórias dos demais. Até mesmo as crianças participaram vez ou outra, embora na maior parte do tempo permanecessem reclusas na outra ponta da mesa.

Naruto ficou feliz de ver o filho de Gaara se dando bem com as outras crianças, apesar de manter uma expressão neutra na maior parte do tempo. Vez ou outra, ele conseguia ver o que seria o esboço de um sorriso em seus lábios, puxando-os para cima. Era bom que ele se sentisse incluso, significava que ele e seus amigos não tinham falhado miseravelmente como pais.

- E está quase pronta? - perguntou Tenten, inconscientemente puxando a concentração de Naruto de volta para a conversa de adultos.

Ino assentiu vigorosamente.

- Sim, sim, logo vamos parar de incomodar a Temari o dia todo, haha.

- Imagina! - a loira de Suna gesticulou com a mão. - É um prazer ter vocês em casa, são excelente companhia, e tenho certeza de que o Shikadai e o Inojin estão adorando passar esse tempo a mais juntos.

Se perguntassem ao loiro, ele diria que estão atrasando as reformas de propósito. Quem, ele não sabia, mas se tratando daquelas duas, que se tornaram tão próximas pela relação de alguns meses dos filhos, ele não ficaria surpreso se fossem elas.

De repente, a porta do restaurante abriu, e três mulheres apressadas entraram correndo, completamente encharcadas.

- Desculpa, estamos atrasadas! - Sakura ofegou, correndo para dentro do estabelecimento ao lado de Karin e Sarada, ambas ensopadas. - Começou a chover e tivemos que pegar um caminho diferente.

- O tempo fechou tão rápido assim? Eu nem tinha reparado. - Shikamaru ponderou. 

- Daqui a pouco começa a estação fria em Konoha. - disse Sasuke. - Não deveria estar chovendo, mas não chega a ser incomum.

Ignorando a água que escorria de seus corpos, Sakura dispensou Sarada para a mesa das crianças e se sentou ao lado de Karin à frente de Naruto.

A conversa logo voltou a dissipar, cada um tomando outra pessoa da mesa para focar em algo diferente. Dentre elas, a mais importante estava entre Sakura, Karin e Naruto.

- Começou a tomar sua medicação? - perguntou a ruiva, balançando seu copo de sakê.

Ele fez que sim com a cabeça. Tinha até colocado na gaveta do criado-mudo, para sempre ter um suprimento reserva.

- Que bom. - Sakura suspiro. - Você também vai precisar sair mais do escritório, Naruto. Vitamina B-12 e D não se consegue ficando enfurnado num cubículo o dia todo. Além de que há muitos outros riscos em viver uma vida sedentária. Você precisa sair mais, socializar, passar um tempo com a família e fazer exercícios!

O loiro sorriu de canto.

- Não se preocupe, eu vou começar a me cuidar.

Sakura suspirou após tomar um gole de seu sakê. Aquela situação estava cutucando sua cabeça já há muito tempo: a preocupação sobre Naruto passar tempo demais no escritório. Era bom que ele saísse e pegasse sol, justamente para prevenir doenças e manter uma rotina saudável, não sedentária.

Ele não era médico, não fazia a menor ideia do verdadeiro mal que uma simples postura torta na cadeira podia causar. Mas Sakura sabia, e estava preocupada com o amigo.

- Quando os remédios acabarem, fale conosco e providenciaremos mais imediatamente.

Naruto sorriu.

- Sim, senhora!

Por mais que a situação fosse algo sério, Naruto se alegrava por ter pessoas maravilhosas do seu lado que se preocupavam com sua saúde e bem-estar. Sakura e Karin ficaram muito nervosas com sua presença no hospital e fizeram questão de acelerar os exames, e Sasuke o apoiou com todo seu afeto em seu tratamento após lhe contar sobre sua deficiência de vitaminas.

É claro que ele deixaria muito bem anotado a sugestão de sair mais de casa e tomar sol. Também seria uma boa oportunidade de sair com as crianças e passarem um tempo em família. Ele adoraria poder conectar com todas as partes da família; desde compensar Boruto e Himawari pelo tempo que perdeu com noites em claro no escritório, à conhecer mais sobre sua nova futura filha e suas duas mães. 

Era como um sonho virando realidade: uma grande família unida. Naruto tinha ajuda no escritório para terminar seus relatórios e papeladas mais rápido, poderia se retirar daquela sala apertada por indicação médica e aproveitaria tempo com suas três crianças maravilhosas. Ele mal podia esperar para ensinar Boruto e Sarada técnicas para usarem na academia e em suas missões. Himawari certamente adoraria a companhia durante os dias solitários, quando Naruto e Hinata não podiam passar tempo com ela por estarem muito ocupados. Ela agora teria duas pessoas para lhe fazer companhia; três se Mitsuki resolvesse passar um tempo em sua casa. 

Aquelas imagens eram maravilhosas em sua cabeça, trazendo um sorriso aos seus lábios. Ele mal podia esperar.

Sua respiração travou na garganta ao ser cutucado pro Sasuke com o cotovelo.

- Por que está sorrindo? - ele perguntou ao seu ouvido.

Naruto sorriu e balançou a cabeça.

- Nada. Eu só estou feliz. - entrelaçou seus dedos e encostou sua cabeça na dele. - Estou feliz de poder formar uma família com você.

O moreno sorriu de canto, discretamente, e deu um curto beijo na bochecha do noivo, voltando rapidamente a atenção para a mesa a fim de não incomodar seus amigos. 

Porém, já era um tanto tarde para isso. Quando se viraram, todos os olhos já estavam neles; alguns curiosos, outros contentes. 

Mesmo com todos os problemas que rondavam aqueles dois, estavam felizes por tudo estar acabando bem. Eles até estavam tentando ser discretos para não incomodar ninguém, o que era uma surpresa já que, desde o início do relacionamento deles, eles nem sequer tentaram. Todos já sabiam a esse ponto que aquilo era para o bem de Hinata, mas, considerando que a morena estava demasiadamente ocupada conversando com Toneri e sorrindo de orelha à orelha em sua direção, julgaram que aquilo não a incomodava.

E, de fato, não a incomodava. Ainda doía um pouco, sim, afinal, Naruto foi seu primeiro amor; ela não podia simplesmente esquecê-lo de um dia para o outro, mas estava começando a dar os primeiros passos para seguir em frente. Os últimos dias em que esteve sozinha lhe fizeram muito bem; foram um bom contraste para sua vida agitada. Ela pôde cuidar de assuntos na casa que já queria há tempos, socializar mais com suas amigas e até se abrir com Toneri, conhecendo aos poucos mais e mais sobre o albino. Ela realmente se sentia renovada. E, no fim do dia, ela só queria o que era melhor para Naruto: que ele fosse feliz ao lado de alguém que ele amasse e que pudesse o amar com a mesma intensidade em retorno. E se Sasuke era aquela pessoa, ela estava mais do que feliz em dar-lhe boas vindas à família.

Foi ao perceber o olhar espantado de Sakura ao encarar a mão de Sasuke que Hinata suspirou. Finalmente ela não era mais a única que havia notado.

- Ne, Sasuke-kun, eu quis perguntar desde que entrei, o que é esse anel no seu dedo? - a rosada perguntou, curiosa, embora a resposta para aquilo já fosse óbvia.

Poucos haviam percebido devido às mangas longas, porém, agora que Sakura apontara o fato, ninguém conseguia tirar os olhos da mão esquerda do Uchiha. 

Era um tanto desconfortável, pois ele não estava acostumado - tampouco gostava - a ter tantos olhos voltados a si, especialmente quando não eram com ar de ódio. Simplesmente parecia errado, como se tivesse uma pedra em seu sapato. Mas talvez ele apenas precisasse de tempo para se acostumar àquilo, especialmente agora que ele e Naruto finalmente iam se juntar para sempre. Seu rosto seria conhecido como o marido do Hokage e qualquer coisa que não chegasse a seu marido acabaria em suas mãos. Ele precisava se preparar.

Por debaixo da mesa, entrelaçou seus dedos com os de Naruto, deixando a maciez e o calor de sua pele o confortar e assegurar sua companhia. Eles estavam nessa juntos, como uma dupla.

Ainda parecia uma mentira quando pensava que logo se casaria com o homem que amou desde que tinha cinco anos.

Seus olhos ônix encararam o acessório brilhante com afeto enlaçado em suas pupilas. Seu coração batia forte e um sorriso cresceu em seus lábios, já dedurando a verdade a todos os outros presentes na mesa.

Alguns ficaram espantados, outros exibiram sorrisos, mas todos, sem exceção, ergueram-se das cadeiras para se aproximar do casal, curiosidade e empolgação borbulhando em seus peitos.

- Finalmente pediu a mão dele, hein, Naruto?

- Já tava mais do que na hora, né? 

- Omedetou!

- Mais de dez anos nesse vai e vem já tava demorando.

- Agora só precisam atar o nó de vez.

- Nós vamos ser convidados, né?

- Vai ter comida boa?

- Omedetou, Naruto-kun, Sasuke-kun. Espero que tudo dê certo pra vocês.

- Já começaram a pensar na cerimônia?

Mil e uma perguntas encheram a mesa de uma vez. O casal estavam sem reação alguma, ainda presos em tentar processar tanta informação de uma vez só. Naruto já estava um tanto quanto acostumado com tanta atenção de uma única vez, mas para Sasuke era algo novo. Ele era sempre o que viajava pelas sombras, sem ser percebido por ninguém. Mesmo que fossem seus amigos, ainda era muita informação para sua cabeça.

- Oi! Oi! Se acalmem! - o moreno esbravejou. - Nós noivamos ontem! Ainda tem muito tempo até planejar tudo!

Os amigos do casal continuavam enchendo-os de perguntas e comentários com relação à cerimônia, todos muito ansiosos por saber de cada detalhe recém pensado. Hinata ouvia vagamente aos ditos detalhes, espairecendo mais do que de costume. 

Aquilo não a surpreendia, tampouco a incomodava. Aconteceria mais cedo ou mais tarde e ela sabia disso com toda a certeza do mundo. Aqueles dois jamais ficariam longe um do outro por muito tempo. E estava tudo bem. Ela estava feliz por eles. Só ainda era difícil seguir em frente depois de mais de vinte anos amando a mesma pessoa.

Um toque em suas costas foi o que a tirou do transe, levando-a a virar-se na direção do filho de Gaara, que a esperava com um punho fechado.

- Com licença, Hinata-san, mas eu acredito que isso seja seu. - Shinki estendeu a mão, colocando o anel na palma da dela. - Talvez seja melhor levar de volta ao joalheiro caso não use mais. Algo tão bonito ainda pode ser reaproveitado com um pouco de cuidado.

Os olhos da Hyuuga se arregalaram ao ver seu anel de casamento em sua mão, o anel que havia atirado pela janela no dia em que decidiu deixar Naruto ir.

De todas as coisas que Shinki podia tê-la entregado, aquela era a última que ela esperava.

Seus olhos encaravam aquele objeto com um certo brilho. Como algo tão pequeno podia carregar um peso tão grande? Como um brilho tão singelo podia significar tantas coisas ao mesmo tempo? Aquele pequeno anel, cujo ouro estava gravado com o nome de seu ex-marido, era o símbolo de seu amor por Naruto, entregue à ela no dia em que selaram seu amor perpetuamente, ou era isso que ela pensava na época. Ela imaginava que andaria para sempre com aquilo em seus dedos, que estariam juntos até o dia de sua morte. Bom, de certa forma, ela estava certa, mas não da maneira que ela esperava. 

O anel já não encaixava mais em seu dedo.

Ela podia ver Naruto e Sasuke sorrindo, de mãos dadas, enquanto respondiam às perguntas de seus amigos. O sorriso no rosto dele era tão lindo, um dos mais lindos que ela já havia visto. Ela jamais poderia fazê-lo sorrir da forma que ele fazia. Porém, encarando aquele pequeno objeto agora, com seus novos olhos, ela também podia sorrir. 

Hinata desviou o olhar para Toneri, que retribuiu o olhar e sorriu para ela com ternura.

Seu coração pulsou forte.

Já não doía mais.

- Você está certo, Shinki-kun. - ela sorriu para o filho de Gaara. - Arigatou. Tenho certeza de que a próxima pessoa que escolher amá-lo vai ser muito feliz.

O moreno assentiu e voltou ao seu lugar, entretendo-se com as conversas paralelas das outras crianças.

Hinata observava a cena com um sorriso no rosto. Pela primeira vez em muito tempo, ela se sentia leve, como se pudesse encarar o mundo de uma vez só.

Um toque suave repousou em seu ombro, e seu olhar foi atraído ao de Toneri, que sorriu em sua direção.

Ela retribuiu com sinceridade. 

Já estava na hora de ela seguir em frente, e encaixar seu anel no dedo de outra pessoa.

(...)

Já estava quase escurecendo quando Naruto e Sasuke voltaram para casa, desacompanhados das crianças por oferta de Temari, que sugeriu que eles fizessem uma festa do pijama em sua casa, uma forma de dar um pouco de privacidade ao casal recém-noivado.

Eles agradeciam ao mesmo tempo que não; gostavam de passar momentos a sós, mas também gostariam de ouvir mais da opinião das crianças sobre tudo que estava acontecendo ao redor delas. Afinal, elas foram as mais afetadas pelo término de Sasuke e Sakura e o divórcio de Naruto e Hinata; era importante que elas se sentissem acolhidas naquela nova dinâmica de relacionamentos.

O moreno bateu a porta e soltou um suspiro. Era realmente quieto sem os pequenos para fazer bagunça, quase um cenário de outro mundo. O único barulho que ecoava entre as paredes era o som de seus pés pelo piso escorregadio, e nem era tão alto assim.

Enquanto Sasuke tardava contra a porta já fechada, Naruto se sentou no sofá e pegou alguns papéis que o esperavam na mesa de centro. Ele podia estar fora do trabalho, mas ainda havia coisas pequenas das quais ele podia dar conta nas poucas horas até o fim do dia. Com uma ameaça iminente, cujas fontes eles ainda não tinham completo conhecimento sobre, era importante que o Hokage organizasse o máximo de trabalho que conseguisse, para que, caso o pior ocorra, a vila esteja organizada o suficiente para repelirem uma invasão ou um ataque.

- Muita coisa pra fazer? - perguntou o moreno, aproximando-se do noivo.

- Sim, muita. - ele folheou alguns papéis e jogou as costas no sofá. - Mandei alguns shinobi investigarem a acusação contra a companhia Kaminarimon para ter certeza de que as acusações de trabalho escravo não poderiam ser verdadeiras no fim das contas. É muito bom se prevenir. Também tenho que organizar a próxima reunião com o conselho e verificar o desenvolvimento das mudanças que foram feitas com a reforma do sistema shinobi.

Sempre um homem tão ocupado. Agora com as reformas, a mesa de Naruto lotaria de relatórios sobre as instituições e status de toda a vila. Muita papelada para ele e todos os seus subordinados.

- Mais alguma notícia sobre as buscas?

Naruto negou com a cabeça.

- Eu já avisei aos outros Kages e eles estão mandando seus homens para investigar também. Estamos todos em estado de alerta.

- Já sabemos que eles são uma organização de criminosos. Talvez estejam tentando chamar nossa atenção de alguma forma. Tudo que fizeram até hoje foi bem escandaloso. Talvez queiram alguma coisa. - especulou Sasuke. Desde a época da Akatsuki, eles tinham um objetivo em mente com as coisas que faziam, o objetivos além da sobrevivência. Não seria nada difícil que aquele grupo tivesse a mesma ideia em mente.

- Acabamos de reformar o sistema. Vai levar um tempo até que as coisas caiam em seu devido lugar. Talvez nós nem vivamos para ver. Se for algo relacionado a isso e eles estiverem sendo impaciente, acho difícil conseguir um diálogo. Mas não seria impossível.

Sasuke deixou escapar um sorriso. Nada com Naruto por perto era impossível. Ele fazia até com que os piores vilões mudassem de lado, tudo na base do diálogo. Se a situação for lidada de forma cuidadosa, ele não tinha a menor dúvida de que ele poderia resolver isso.

Ele sentou ao lado de Naruto no sofá, dando-lhe um delicado beijo na bochecha antes de pegar uma das pastas jogadas na mesa.

O loiro sorriu, sua bochecha formigando não região beijada por seu amado. Seu coração batia em um ritmo estável, êxtase correndo por suas veias.

Ele tinha a sensação de que aquela papelada desapareceria de sua mesa rapidinho.

(...)

No dia seguinte, Toneri e as meninas passaram a manhã treinando e testando suas habilidades com o que já sabiam que ele podia fazer. Entretanto, estava claro desde que começaram que aquele não seria um bom dia para fazê-lo. O albino estava mais desleixado em seus movimentos, não prestava atenção direito nos ataques que vinham por ele e, no geral, tomou mais golpes do que estavam acostumados durante aqueles momentos que passavam juntos.

A princípio, deixaram aquilo passar como apenas ele estando cansado de passarem o dia inteiro conversando no restaurante; sabiam como socializar devia estar sendo desgastante para ele, principalmente pelo sentimento de estar em algum lugar totalmente novo. Porém, conforme as horas foram passando e ele começou a soltar gemidos de dor sem ao menos receber algum golpe, pararam.

- Está tudo bem, Toneri-kun? - perguntou Tenten.

- Eu não acho que estou muito bem. - ele respondeu com uma mão na cabeça. - Acho que vou encerrar mais cedo hoje. Perdão.

- Está tudo bem, eu te acompanho. - disse Hinata e passou uma mão pelas costas do albino.

- Precisam de ajuda? - Sakura ofereceu.

- Está tudo bem. Ele só está se sentindo um pouco mal. Eu te mando uma mensagem quando chegarmos em casa, está bem?

Ela concordou e observou a morena deixar o campo de treinamento com uma mão nas costas do albino, que por sua vez tinha a sua na testa.

Ela estava começando a ficar preocupada. Principalmente por não conhecerem Toneri tão bem quanto os demais que frequentavam aquela vila, ele era a peça mais enigmática naquele quebra-cabeça que se mostrava à sua frente.

A passos lentos, os dois enfim chegaram à casa da Hyuuga, a qual o levou para o quarto de hóspedes e o deitou na cama.

- O que você tá sentindo? - ela perguntou enquanto acariciava seus cabelos com doçura.

- Uma dor de cabeça. Quase como se eu estivesse com câimbra.

Hinata suspirou e encarou o teto, repassando o nome de remédios para a dor em sua cabeça neste meio-tempo.

- Deita um pouco, Toneri-kun. Vou preparar um chá pra você.

Hinata saiu do quarto com o coração apertado, preocupada com Toneri. Ela nunca tinha visto um caso de câimbra na cabeça. Aquilo era muito estranho. Talvez algo relacionado às memórias de Toneri estivesse acontecendo. Quem sabe ele se lembrasse de algo sobre seu passado sombrio, isso explicaria as dores.

Ela passou todo o tempo fazendo o chá com preocupação acompanhando os batimentos de seu coração. Ela odiaria que algo de ruim acontecesse à Toneri. Ele fora tão legal com ela, mesmo sem a conhecer direito ou saber de onde sabia seu nome. Ele a tratou de forma tão cavalheiresca, diferente de todos os outros homens que conheceu em sua vida, até mesmo de Naruto. Embora o loiro a tivesse feito muito bem durante sua vida, nunca foi nada de forma direta. Toneri era alguém que podia dizer seus sentimentos olhando diretamente em seus olhos, sincero, honesto, sem nada a esconder. Era algo raro de se encontrar entre os homens. Ela gostaria muito de poder retribuí-lo de alguma forma se tiver a chance. Mas, por hora, tudo que podia fazer é chá.

Colocando a chaleira no fogo, Hinata não podia evitar de desejar que Toneri estivesse tendo um sonho muito bom agora.

(...)

Tudo era escuro ao seu redor, de uma forma que nem se ele estreitasse os olhos conseguiria enxergar. Sua única fonte de luz eram os pequenos pontos brancos à sua volta, a luz de dentro de sua casa, aquela que refletia no solo e a que refletia no enorme planeta à sua frente.

Ele encarava tranquilamente aquela bola verde e azul, com alguns toques de branco, que ele imaginava serem as nuvens, das quais ele tanto ouvira falar. Não havia ninguém lá além dele, ou pelo menos era o que ele esperava. Naquele dia tão silencioso, ele não queria nada mais que apenas fazer seu trabalho em paz, poder observar a Terra e descobrir o que seus habitantes planejavam naquele belo dia.

Contudo, seus momentos de silêncio e observação solitários não duraram muito tempo, pois ele acabou por receber uma visita inesperada, para dizer o mínimo.

- Já faz um tempo, não é, Ootsutsuki Toneri? - a voz grave o chamou, colocando-se atrás dele. O albino podia quase sentir o cheiro do sorriso sarcástico e maldoso nos lábios daquele homem.

- Urashiki, não se intrometa. - ele rapidamente rebateu, seque se virando para encarar o outro Ootsutsuki. - Me deixe sozinho. Eles estão em paz, não interfira.

- Você se apegou muito à esses humanos. - Urashiki o repreendeu. - Idiota, não deveria ficar os observando, deveria se juntar aos deveres de seu clã. Humanos são criaturas estúpidas, fracas, não há motivo para que alguém perca tempo com eles. - a julgar pelo barulho dos passos, ele parou ao seu lado, mas Toneri ainda se recusou a encará-lo. Ambos estavam encarando a Terra, seu brilho verde e azul refletindo em seus olhares opacos. - Hum… Quem é Hinata?

- Ninguém importante. - ele respondeu, mas aquilo não podia estar mais longe da verdade.

Urashiki sorriu de canto. Ele não precisava vê-lo para saber o que estava expressando; Ootsutsukis podiam ser tão óbvios às vezes.

- Parece ser se você passa tanto tempo a observando.

- Eu não a observo, eu a vigio. Não sou um stalker, não protejo apenas uma pessoa. Meu dever é vigiar e proteger a Terra.

- E isso inclui Hinata. - o maior acrescentou.

- E isso inclui Hinata.

Urashiki não era um bom elemento. Podia não conhecê-lo, mas, a julgar pelas histórias que correram por sua metade do clã, eles não deviam ser tratados com confiança, não os originais do clã. Eles não tinham propósito maior que explorar quem julgassem mais fracos em função do próprio engrandecimento. Toneri agradecia muito por não ter nascido nesse ramo da família.

Ambos continuaram a observar a Terra em silêncio por alguns segundos até o maior soltar ar pelo nariz. Mau sinal.

- Se ela é tão importante pra você, talvez eu deva fazer uma visita.

Antes que ele pudesse fazer qualquer movimento, Toneri o encarou pela primeira vez naquela noite.

- Fique longe dela.

Assim como pensou, ele tinha um sorriso malicioso em seu rosto. Nenhuma intenção boa.

- Heh, eu estava certo. Ela é alguém importante pra você. Por que? Você nem a conhece.

Toneri franziu o cenho.

- Eu preciso proteger a Terra, não importa se eu conheço quem está lá embaixo ou não. Não posso ir contra as ordens de Hamura.

- Mas Hamura está morto.

Aquilo podia ser verdade, mas não significava que Toneri deveria deixar de cumprir seus deveres como o último membro da linhagem de Hamura. A Terra era seu legado, precisava ser preservada a todo custo.

Ele estava prestes a dizer isso à Urashiki quando algo atravessou seu ombro. Era uma linha de anzol, que a cada segundo que passava tirava mais e mais de seu chakra.

Urashiki abriu um sorriso prazeroso em face da dor de Toneri, o qual não conseguia se mover enquanto seu chakra era drenado.

- É uma pena que você seja tão inocente. Tanto chakra assim é realmente um desperdício. Você poderia ter sido útil ao clã. Mas se apegou às pessoas erradas. - ele puxou a linha, arrancando uma concentração de chakra do corpo do outro Ootsutsuki. Toneri prendeu o ar, seu corpo vindo ao chão, fragilizado. - Parece que vai sobrar pra mim consertar os seus erros.

O azul de seus olhos se arregalaram, desesperados. 

Ele ia descer. Ele ia descer e largá-lo ali para testemunhar a destruição da Terra diante de seus olhos sem poder fazer nada.

Com tudo que pôde, usou as mãos para se erguer. Ele não podia deixar que Urashiki acabasse com todo o trabalho de Hamura, que os machucasse. Ele acabaria com qualquer um que ousasse machucar pessoas inocentes.

- Não! Fique longe deles! - ele gritou ao lançar uma rajada de vento na direção de Urashiki, o qual, sem muito esforço, cortou seu golpe com outro. Ele o agarrou pelo pescoço e ergueu-se do chão, seus olhos o perfurando com maldade.

- Sayonara, Ootsutsuki Toneri. Dê um “oi” à Hinata por mim. Diga que a visitarei em breve.

Ele fechou a mão em sua garganta, pressionando o polegar debaixo de seu queixo.

- Fique longe dela! Para! - ele tentou gritar enquanto arfava por ar.

Com um último sorriso malicioso, Urashiki atirou-o de cima da lua, sua última visão antes de desmaiar por falta de chakra a do Ootsutsuki encarando-o com um olhar satisfeito.

Se lembra agora?

(...)

Seu corpo saltou para a frente, sua garganta se abrindo, arfando por ar. Ao seu lado, Hinata tinha o sacudido para despertá-lo, preocupada com seu sono.

Quando ela entrou em seu quarto naquela manhã, vendo que ele estava demorando mais do que o costume para descer para o café, ela tomou um susto ao encontrá-lo se revirando da cama. Seu rosto se contorcia como se ele estivesse com dor ou alguém o estivesse machucando, o que deixou a morena desesperada. Ela começou a tentar acordá-lo por vários minutos, mas só conseguiu depois de dez.

- Toneri-kun! - no que deveria ser a quinquagésima vez que o chamava, ele despertou com um espasmo.

O Ootsutsuki subiu a mão ao peito, encarando-a com medo ainda evidente em suas pupilas. Seja lá com o que ele tivesse sonhado, não devia ser bom.

- Hinata… - ele chamou por ela, suas mãos agarrando-se ao seu braço como se se segurassem na realidade, consolando-se de que aquilo não era um sonho, era real.

- O que aconteceu? - ela perguntou, aflita. - Eu entrei aqui e você estava tremendo enquanto dormia, se jogava de um lado pro outro…

- Eu lembro de tudo. - ele interrompeu, sua voz soando mais séria que o normal.

Hinata travou no lugar, encarando com olhos vazios para o albino, seu coração pulando em seu peito, assustado. 

Era aquele o momento, a hora de saber o que havia acontecido, as respostas para suas perguntas finalmente estavam a seu alcance. Ela só não sabia se estava pronta para ouvi-las. Aquilo determinaria se Toneri era de fato a pessoa que eles achavam ser ou se estariam lutando contra algo muito mais apavorante.

Ela rezava com todas as suas forças para que fosse o primeiro caso.

- Toneri… - ela abriu a boca para continuar, mas escolheu calar-se e dar a palavra ao Ootsutsuki, que ainda parecia bem abalado. Não devia ser fácil, afinal, lidar com todo o peso de uma vida inteira de memórias caindo com força em seus ombros.

- Eu era um guardião - ele disse em voz baixa. -, meu dever como sucessor da linhagem de Hamura era vigiar e proteger este mundo… Mas eu fui empurrado. - a morena arregalou os olhos e, instintivamente, tomou as mãos de Toneri nas suas. - Ele me empurrou para a terra para que eu morresse e ele tomasse tudo para si. Sua maldita linhagem acredita que o chakra devia ser apenas deles, para que eles controlassem o universo. - os anos passaram diante de seus olhos. Todo o tempo de sofrimento e solidão que usou em prol de um mundo com o qual seus ancestrais sonharam em manter seguro, seres vivos de todos os tipos que mereciam a oportunidade de viver e aproveitar a luz do sol. Tudo seria jogado no lixo. - Ele quer destruir a criação de Hamura, tudo pelo que minha família passou para manter o planeta a salvo terá valido de nada. Eu terei valido de nada. Todos os anos que eu passei sozinho naquele castelo serão nada além de uma lembrança distante de um mundo que não existirá mais.

- Ei, ei, ei, se acalme, Toneri-kun! - Hinata se apressou em pará-lo ao sentir o estresse consumir seus ombros e sua respiração acelerar. - Eu não consigo acompanhar se você falar tudo de uma vez! Por favor, comece do começo.

Ele ergueu o olhar, tentando concentrar-se no brilho dos olhos perolados da Hyuuga. Pouco a pouco retomando seu fôlego e a calmaria em sua voz, Toneri se fez ouvido.

- Eu sou descendente da linhagem secundária do clã de Ootsutsuki Hamura, cujo dever era observar e guardar a Terra, garantir que o mundo que Hamura e Hagoromo criaram viveria saudável, sem a interferência ou ameaça de qualquer outro Ootsutsuki como aconteceu com Kaguya. Eu sou o único que resta dessa linhagem. Eu vivia em um palácio vazio na lua com algumas marionetes como criados; marionetes especiais. Não é exatamente a vida mais confortável e não o que eu esperava me lembrar, mas ainda assim foi a minha vida.

- E o que aconteceu? - ela perguntou após um murmúrio de compreensão.

- Eu fui empurrado por Ootsutsuki Urashiki. Ele e um pequeno grupo do clã ficaram responsáveis por trazer algo chamado de fruto do chakra de volta para o clã, mas Kaguya falhou em sua missão. Ele veio para coletar o fruto, mas o que encontrou foi algo ainda mais fascinante: um mundo em que usam chakra como armas.

- Tem algum problema com usar o chakra dessa forma?

- Eu não conheço muito sobre o clã original, de onde vêm ou sua história, mas, se tivesse que criar uma hipótese, diria que para eles é uma ofensa usar o chakra dessa forma. Um tanto irônico considerando que eles próprios usam chakra como armas. Talvez sejam apenas egoístas.

Aquilo era tudo tão complicado. De um dia para o outro, uma bomba de informação estava sendo despejada sobre eles. Saber como lidar com isso era algo que eles deveriam aprender a lidar, mas com tanta coisa assim, além da possibilidade de uma invasão, é difícil processar tudo.

Hinata inspirou fundo, tentando esfriar a cabeça e se acalmar. Aquela história a estava deixando nervosa, o que não era muito bom para sua saúde. Porém, para a segurança de Konoha e toda sua família, ela precisava ouvir.

- Quais as chances de eles tentarem uma invasão? O clã Ootsutsuki, eu quero dizer.

O aperto das mãos de Toneri nas suas não passou muito conforto para a morena.

- A esse ponto, eu não me surpreenderia se eles já estivessem planejando uma maneira de descer aqui e tomar o que creem ser deles.

Isso era ruim, muito ruim. Com as condições atuais de Konoha, do mundo ninja em geral, eles não estavam em condições de combater sabe se lá quantos inimigos mais fortes do que eles de uma só vez.

- E o que podemos fazer? 

Toneri inspirou, seus olhos desviando para a janela aberta, onde as nuvens cobriam o céu.

- Precisamos ir pra lua.

A Hyuuga, após piscar algumas vezes, arregalou os olhos.

- Pra lua? Por que?

O albino entrelaçou seus dedos ao dela e abaixou a cabeça.

- Eu não sei… Só tenho o pressentimento que tem algo me esperando lá. Talvez ele ainda esteja lá. Mas, independentemente disso, lá é meu posto, eu preciso voltar. Nem que seja para conseguir algum tipo de finalização.

Ela compreendia. Compreendia perfeitamente. Toneri tinha passado por muita coisa, desde a sua queda na Terra até tudo voltando de uma vez para sua cabeça. O mínimo que ele merecia era um fim para sua história solitária.

- Mas como chegamos lá?

- Para isso, creio que precisarei falar com Naruto. Ele é o Hokage e o líder de Konoha, seria o mais certo a fazer. - ele pausou um pouco e, erguendo uma mão para o rosto de Hinata, acariciou sua bochecha. - Eu sei que vocês não estão exatamente nos melhores termos agora, estão um tanto afastados, então talvez possamos encontrar uma outra forma de resolver a situação, caso queira.

- Não, tudo bem. - ela balançou a cabeça. - Terei que lidar com isso uma hora ou outra, e sempre fui uma mulher de me adaptar rapidamente, é um dos recursos para ser um shinobi, afinal. Mas, primeiro, descanse. Falaremos com ele pela manhã.

A de olhos perolados voltou a deitar o albino na cama, dando um suave beijo sobre sua testa enquanto este voltava a dormir.

Amanhã seria um longo dia.


Notas Finais


Não se esqueçam de comentar e favoritar pra continuar me incentivando a escrever essa história

Estamos entrando na reta final, pessoal! Só mais alguns capítulos e finalmente chegaremos ao fim dessa história!
Estou muito ansiosa pra finalmente concluir essa jornada, vocês não têm noção <3
Espero que estejam tão ansiosos quanto eu

See Ya~


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