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História Kurisutaru Sakura - Capítulo 17


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Notas do Autor


Boa leitura

Capítulo 17 - Espelho


    Sentada sobre a mesa de madeira, a bruxa mestiça folheava um de seus livros favoritos. Naruto, munido de toda sua curiosidade, mexia em alguns papéis, sentado no chão. Fazia diversas caretas enquanto tentava ler qualquer um daqueles manuscritos. Eram rabiscos aos olhos do loiro, o que não o impedia de tentar ver significado ali. Ao menos aquilo parecia entretê-lo o suficiente para mantê-lo quieto. Claro que Ino sabia bem que o caçador sempre quis mexer em seu acervo bibliotecário, não que ele fosse inclinado a leitura, longe disso, seria mais para alimentar sua mente fértil. Por birra não o deixava sequer tocar, porém agora soava perda de tempo implicar com ele. Nunca foi de dispensar uma boa briga, todavia naquele momento havia pontos mais importantes para dedicar seu foco. Não conseguiu dormir e, após a meia conversa - pareceu-lhe mais um monólogo - com o caçador, sua insônia se intensificou. Em dado momento, durante a madrugada, chegou a cochilar sentada, o que lhe pareceu ser suficiente. Sua casa tinha dois quartos, um deles improvisado com um colchão e algumas cobertas, o utilizava para as visitas ocasionais. Seu quarto era mais ornamentado, com uma cama de casal que seria suficiente para comportar três pessoas; a dividiu apenas com Sakura. Deixou os dois caçadores no outro cômodo. 

Além do salão de livros - que também era sua recepção e “empório” - a casa contava com uma cozinha, banheiro e um porão. O rito de purificação da sangue puro aconteceu no quarto que os caçadores usaram para passar o resto da noite.

    Como passou a maior parte do tempo acordada, Ino notou que a sangue puro levantou cedo; antes mesmo dos primeiros raios de sol. Naruto foi o segundo a levantar, muitas horas depois. Encheu a barriga, de graça novamente, e passou a ficar olhando tudo o que a Yamanaka fazia.

O tempo estava fresco e o sol se escondia entre nuvens cinzentas, provavelmente choveria até o final do dia.  

- Então - Naruto se deitou no chão, encarava um papel - Quais são os poderes da Sakura-chan? 

Ino ignorou a pergunta, passando o indicador na lateral do livro, fingindo estar compenetrada em sua leitura. A verdade é que não conseguia se concentrar em nada.

- En..? Ela pode - o caçador insistiu - Chamar os mortos? - a loira suspirou pesadamente e quando Naruto percebeu que não obteria resposta alguma, voltou a falar - Como abrir um buraco no chão e trazer fogo e-

- Do que você está falando? - Ino fechou o livro, se dando por vencida

Ainda deitado de costas no chão, o caçador virou o papel na direção da loira, que estreitou o olhar para analisar do que se tratava. Era um desenho feito à carvão e não se tratava exatamente de um papel, mas sim de folha sangue. Conhecia aquela gravura, se tratava de um ritual, proibido na maioria dos países. Um cântico que solicitava a sabedoria dos mortos.

- Ela pode fazer isso - a bruxa híbrida deu um leve sorriso -  Todos os feitiços criados por bruxas podem ser feitos por ela, se ela treinar.

Naruto voltou a olhar o desenho, uma expressão atipicamente estranhamente séria tomou o rosto do caçador;

- E se aquela pessoa voltar? - Ino franziu o cenho, não compreendendo de início do que se tratava - Se voltar e você não estiver por perto pra falar aquelas coisas estranhas? - ele voltou a se sentar, cruzando as pernas

Pela primeira vez Ino não tinha uma resposta para rebater o que Naruto dizia. Talvez fosse porque aquela era a primeira vez que uma conversa séria era iniciada por ele. Esteve tão compenetrada em analisar os sinais entre o Uchiha e a sangue puro que mal notou que o caçador Uzumaki também tinha um apreço por ela. 

- Bem… Acredito que isso não deva acontecer. A purificação deu errado e abriu brechas para um espírito entrar. - uma meia verdade - O que não significa que ela seja um condutor a todo momento - uma mentira completa.

Mas não achou certo, tão pouco proveitoso, explicar todos os nuances dos limites e possibilidades do poder da sangue puro para Naruto. Não acreditava que ele entenderia e, mesmo se por milagre o loiro compreendesse meia frase do que lhe fosse dito, de nada adiantaria. Tais informações só seria proveitosas para a própria sangue puro; e ela às diria. 

    - Mas e se acontecer? - A insistência do Uzumaki parecia dar voz aos pensamentos ansiosos de Ino.     

    A bruxa mestiça não saberia, com sinceridade, responder aquele questionamento. Sequer tinha a  certeza de que aquele perigo realmente não voltaria. 

- Onde ela está? - a voz de Sasuke despertou ambos

Ino não saberia dizer se a conversa foi ouvida pelo outro. Não haviam segredos ali, pelo menos não ditos em voz alta. Ainda sim a bruxa sentiu certo incômodo. Naruto apontou para a porta, Ino limitou-se a encará-lo por alguns momentos. Parte dos seus pensamentos noturnos se direcionaram a ele. Começava a pesar a possibilidade do caçador não ser uma boa influência. Poderia soar de extremo egoísmo pensar que o melhor para Sakura seria ficar ao seu lado. Não conseguia afastar de si a ideia de que apenas ela poderia prover conhecimento para a sangue puro poder se aflorar. Afinal ali tinha a mais bela das cerejeiras, que cresceu sendo podada de forma indevida. Ela precisava se fortalecer e Ino tinha conhecimento apropriado para propiciar seu crescimento. Porém não podia negar que a ajuda dos caçadores poderia ser útil, a seu modo. 

 

Do lado de fora Sakura estava sentada na grama baixa, as pernas cruzadas, as mãos tocando o solo semi úmido. Respirava de forma lenta, permitindo se entregar às sensações que sentia; por mais efêmeras que fossem. Sua respiração estava lenta, mantinha os olhos fechados, as mechas rosas vez ou outra se moviam com a brisa. Sentiu um arrepio correr seu corpo, a começar pela nuca. Sabia que era o foco daquele par de olhos sangrentos antes mesmo de sentir a presença total dele. E naquele mar de calmaria, Sakura pode perceber cada mudança; o coração se acelerar, os pelos do braço se eriçarem, a sudorese nas mãos. E tudo por sentir aqueles olhos sobre si. 

- O que quer? - perguntou, soando mais ríspida do que planejou.

Não conseguia nomear aquele sentimento que tinha, era estranho e incômodo para ser sincera, pensou ser esse o motivo que trazia a si esse mal humor tão incomum. Ah sim, ele trazia sensações incomuns a ela. Certos sentimentos se esvaíram depois da purificação, não podia negar, todavia podia jurar que ainda carregava algo de Sasuke em si. 

- Quero que me leve até meu irmão.

A frase frase sem devaneios fez Sakura abrir os olhos e virar o rosto, encarando o caçador sobre o ombro. Não que esperasse alguma brincadeira vinda dele, o que não tirava a parcela de descrença que corroeu a sangue puro ao ouvir um pedido tão direto. Ponderando mais um momento também podia concluir que não se tratava exatamente de um pedido. Sua postura e tom transpareciam uma ordem, o que era mais condizente com a personalidade do caçador.

- Itachi… - murmurou o nome dele, quase como uma maldição, sem perceber. 

A parte de Sasuke que insistiu em ficar. Ódio, medo e solidão, perfeitamente balanceados. Era como se aquele mesmo homem atormentasse seus sonhos desde sempre, como se o crime cometido por ele também tivesse lhe ferido. Como se o conhecesse intimamente ao passo que nada sabia dele. 

Sakura pensou muito nisso, mais do que deveria. Aquele fantasma era mais amedrontador do que aquele que tomou seu corpo. Não tinha lógica atribuir um peso tão grande à ele, principalmente depois do últimos acontecimentos. Além do espírito intruso, tinha que se preocupar com a víbora que tinha a si mesma em seus planos. Duas sombras mais urgentes que pareciam ter pouca importância se comparadas à imagem do Uchiha. Tinha tantas consequências para lidar que se preocupar com um problema que sequer lhe pertencia parecia uma tolice. E mesmo assim não se livrava de tais devaneios. 

- E se eu não puder levá-lo até seu irmão? - se levantou, batendo a grama grudada em suas pernas. 

O silêncio por parte do caçador fez Sakura arrepender-se, por um momento, da pergunta que havia feito. Tinha métodos próprios para rastreio, porém estes eram voltados à pessoas que já tivera contato, sentir a energia de seu alvo era a chave para tal. Quanto mais recente e intenso, maior a precisão. Todavia não seria sincera se dissesse com total certeza que o encontraria. De certo o potencial de seus dons era algo que não tinha pleno conhecimento, o que a fazia por diversas vezes duvidar da figura majestosa na qual era pintada; seja pro bem ou pro mal. Notou o caçador se aproximar e, por defensiva, deu um passo para trás. 

- Tente - mais um pedido com tom de ordem. 

- Olha eu… - desviou o olhar, cruzando os braços.

Quando foi que passou a ficar tão nervosa com a presença dele? Quando foi que os assuntos dele passaram enevoar os seus? E quais seriam os seus? 

O Uchiha estalou os lábios, impaciente. Quando a sangue puro voltou a atenção para o caçador, percebeu que ele não olhava para si, mas sim para o céu. A mandíbula estava tensa e podia sentir dele um ruminar de ideias, algo pesado e torturante. Por impulso se pôs na frente dele, levando ambas as mãos em sua direção. O caçador fez menção em se afastar e Sakura parou:

- Se quer que eu tente, tem que fazer o que eu pedir. Fique parado - o repreendeu, dessa vez quis soar ríspida, autoritária, mas as sobrancelhas curvadas e o olhar suplicante formularam uma súplica. 

Acatada pelo Uchiha. A puro sangue respirou fundo, dando continuidade ao gesto. Com demasiado cuidado tocou o rosto do rapaz, a ponta dos dígitos moveram-se lentamente, afastando as mechas negras até sentirem suas orelhas. Odiou-se ao sentir o rosto aquecer, porém não conseguiu manter-se indiferente, dada a proximidade e total atenção por parte dele:

- Quero que pense - não saberia dizer o porque, mas sussurrava as palavras para o caçador - Nele e no que ele fez.

E por mais que aquele contato visual fosse totalmente incômodo e tivesse certeza que seu rosto estaria estupidamente corado, não ousou recuar. Seria mentira se dissesse que não tinha curiosidade de saber o que Itachi havia feito ao caçador, muito embora sentisse medo em vislumbrar a verdade. Já havia experienciado todas as sensações do ocorrido sem imagens, podia imaginar como se sentiria se contemplasse. Porém havia algo em seu poder que poderia dar-lhes uma resposta. Ainda que para isso tivesse que saborear dá amarga fonte.

E pouco a pouco o rosto de Sasuke já não era o foco dos olhos verdes, que deslizaram para cima. A bruxa respirou fundo, como se inspirasse o melhor dos aromas, pendeu a cabeça para trás. E o mundo se tornou aquela casa.

A casa da minha infância? Correndo com os pés descalços, a noite deveria ser silenciosa. Pai? Mãe? Eram corpos agora, caídos em sangue. Aquela era nossa sala, aquele era meu irmão! A sombra de olhos vermelhos que avançou sobre mim e me fez ver o fio de ferro atravessar os pescoços deles, me fez sentir o cheiro da morte e o calor deixar meu corpo. 

    Seu pulso foi segurado com tamanha força. Era ele, não olhando Sasuke, mas olhando-a. 

    “- Não o seu ódio”

    Quando os orbes verdes voltaram a mirar Sasuke, foi como se voltasse a superfície após longos minutos submergida e esquecida. Pesada demais para lutar. Os olhos do caçador despertaram o sharingan, seu pulso de fato fora tomado, os dedos do Uchiha estavam firmes. 

    - Quer o sangue dele - a bruxa afastou a mão livre

    O alto grau da empatia era o espelho e tudo que habitava Sakura, era fruto de Sasuke. O aspecto da dor e dor ódio, da traição e da solidão. 

- Ele vai pagar - Sakura recitava palavras ditas pelo Uchiha - Nem que eu isso custe a minha vida - a promessa que Sasuke confidenciou ao céu negro daquela noite; ela agora sabia.

Lágrimas desciam dos olhos de Sakura, mas seu rosto era mármore sem emoção. Já Sasuke tinha o semblante pesado, o vermelho de seus olhos mais vívido que nunca. A pressão no pulso da bruxa aumentou sem a percepção de ambos. Ela se aproximou, não mais corada com a curta distância entre eles - agora aquele sentimento parecia um devaneio tolo e inútil. 

- Vai me levar até ele? - a pergunta foi dita entre dentes

Sakura se colocou na ponta dos pés: - Acha que seu ódio é suficiente?

A expressão de Sasuke vacilou. Era como se ouvisse seu irmão, ainda que o timbre de voz e a aparência nada fossem semelhantes. 

Os dedos da bruxa deslizaram pela face do caçador, o pulso ainda capturado. A outra mão foi até a testa dele, com o dedo indicador e do meio, tocou-lhe brevemente. O gesto fez Sasuke soltar o pulso da sangue puro. Não sabia dizer se sentia-se mais confuso ou furioso. 

Sakura se afastou, limpando as lágrimas com as costas das mãos. Não deveria ter se passado mais do que poucos minutos, porém para ambos o tempo foi torturantemente lento. Sasuke se distanciou, dando-lhe as costas, se recompondo. Mesmo em anos, já acostumado com as feridas que tinha, jamais pensou que vivenciaria aquilo novamente. Tinha plena certeza de que o momento em que o encontrasse seria o estopim de todo seu rancor, de tudo o que resguardou em si, prestes a estourar. Mas aquilo? Era insano. 

- A direção... - o Uchiha voltou a olhá-la, a bruxa fitava o pulso marcado - Eu sei.

 



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