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História Kurushimi: A Gueixa e o Samurai - Capítulo 20


Escrita por:


Notas do Autor


Ikigai - "Razão de viver", é uma filosofia que busca encontrar o propósito de vida de um indivíduo. Para isso une-se o conceito de paixão, missão, vocação e profissão (o que você ama, em que você é bom, pelo que você pode ser pago e o que o mundo precisa de você). Após encontrar essas respostas, acredita-se que uma pessoa possa ser plenamente feliz pelo resto de sua vida.


Nota da autora:

-Como prometido, à partir desse capítulo retomarei as histórias de personagens secundários, alternando com a história do Sasuke e da Sakura.
Sei que muitos de vocês acabam só comentando nos capítulos em que rola uma cena entre os dois, mas gostaria de dizer que a interação de vocês e a opinião de cada leitor é muito importante para incentivar a continuidade dessa história, sobretudo porque ela vai ser MUITO longa (rapaz, pode acrescentar +30 capítulos depois desse) e ela exige toda uma pesquisa e um roteiro de desenvolvimento de trama para ser postada e não se resume somente a um romance (isso nunca foi a proposta de Kurushimi).


-Agradeço a todos que estão lendo e comentando, amo o carinho de cada um de vocês e também desejo boas-vindas aos leitores novos!

-Um agradecimento especial para a @MrDecim pela paciência e pelos conselhos em cada capítulo.

-O festival vai ser uma peça importante da história, por isso a primeira parte foi dedicada à ele. Se quiserem se aprofundar mais nas informações desse capítulo, leiam as minhas notas finais, deixei o nome de dois vídeos sobre "kabuki" e a dança tradicional do karyukai.


Boa leitura!

Capítulo 20 - Ikigai


 

Em comemoração ao fim das revoluções internas e ao rápido avanço econômico do país, o imperador decretou que um Gion Matsuri – um festival originalmente realizado em Kyoto no meio de julho – fosse reproduzido em Tokyo com o intuito de exibir as extravagâncias da capital aos turistas estrangeiros.

A repentina notícia agitou o karyukai, especialmente as escolas, que agora precisavam trabalhar em um ritmo quase industrial para atender aos okiyas intimados. Consequentemente, fornecedores triplicaram o preço e era praticamente impossível conseguir um especialista com agenda vazia.

Em Lótus Celeste a expectativa era quase sufocante. Diretamente ligado ao general, a obrigação em ser impecável pairava sobre todas as moradoras do okiya, sobretudo na atotori. Junto do convite, viera também uma carta com o selo imperial, pedindo para que Sakura se apresentasse no palco principal.

Acompanhada de centenas de subalternos, Mamãe decidira reviver o Kabuki* para impressionar o imperador e destacar-se entre os demais; uma perigosa extravagância cujo sucesso residiria na perfeição de sua herdeira.

Desta forma, professores de teatro, músicos, dançarinos, cenógrafos, maquiadores, cabeleireiros e fabricantes de kimono auxiliavam neste marco histórico, entrando e saindo de Lótus Celeste, carregados de objetos decorativos, tecidos, desenhos, amostras e sugestões.

Na escola de maikos, a Grande Mestra fechara o andar de cima para ensaiar a peça. Sendo essa a primeira vez em que o número seria apresentado ao público desde a proibição do governo Tokugawa, o sigilo da escola e do grupo artístico referente à natureza da dança havia se tornado uma parte fundamental do processo.

Usufruindo da fortuna do general, Mamãe contratou Kawatake Mokuami* e Onoe Kikugorō* para participarem do projeto.

Ninguém, no Japão ou no Ocidente, seria capaz de coordenar uma peça tão majestosa quanto Mokuami, um exímio escritor e dramaturgo responsável por centenas de memoráveis apresentações no passado.

Ao conhecer Lótus Celeste, inspirou-se na beleza da herdeira para produzir uma peça sobre o amor entre Sakuya-hime e Ninigi-no-Mikoto. A ideia sempre estivera ali, circundando sua mente criativa, mas jamais tivera uma atriz principal, até conhecê-la; afinal, tudo sobre a existência de Sakura – da cor de seus cabelos ao próprio nome – exalava a essência da princesa do mito.

Por sua vez, Kikugorō era um famoso ator do gênero e um habilidoso dançarino que, ao lado de Sakura, protagonizaria o casal de amantes.

Sabendo que qualquer protesto seu seria em vão, pois suas próprias vontades eram tão insignificantes quanto a existência de uma formiga, a herdeira apenas aceitou o fardo e empenhou-se para realizá-lo da melhor forma possível. 

Na escola, sua antiga professora segurava-se ao máximo para não perder a calma. Conhecida por seu gênio difícil e por ser escrupulosamente disciplinada com todos os seus números de dança, a herdeira imaginou o quanto ela também estava sofrendo com aquela estranha situação, sobretudo porque um homem invadira seu estabelecimento para dar-lhe ordens.

-Você precisa esquecer o que aprendeu nessa escola, senhorita Yaeko – Kikugorō sorriu gentilmente para ela enquanto descansavam lado a lado – O kabuki não é sobre controle e precisão, mas sobre deixar-se levar por seu personagem.

Ao longo de seu aprendizado, fora repreendida incontáveis vezes pelos detalhes mais ínfimos que passariam despercebidos a um ser humano comum. A dança no karyukai era sempre milimetricamente calculada e planejada ao ponto de alcançar a perfeição, díspar a essa arte tão solta e emocional.  

A repentina ideia de que deveria se esquecer dos meticulosos regimentos e, de repente, entregar-se de corpo e alma a um papel parecia muito simples e atrativo – pois, de fato, quisera fazê-lo diversas vezes –, mas que se provara tão complexo e exaustivo quanto a cerimônia de abertura de porta.

-Do começo – Mokuami pediu, fazendo a Grande Mestre mirá-lo, impaciente, com o canto dos olhos – Senhorita Yaeko, não se esqueça de soltar o corpo e sorrir, pelos deuses, não estamos em um funeral! – O dramaturgo acenou para os músicos. – Comecem!

Como tambores de guerra, os taikos* soaram grave na sala de ensaio, criando uma atmosfera dramática e imponente que fizera o chão e as paredes balançarem. Sem roubar seu protagonismo – mas quase tão presente e majestoso quanto – o shamisen fez-se gradativamente presente, sendo acompanhado por um cantor cuja voz parecia provir da própria fúria dos deuses.

Sendo aquela uma repercussão tipicamente masculina, Kikugorō fez sua entrada como o corajoso neto de Amaterasu, brandindo e girando sua espada como o mais habilidoso dos espadachins. Cada movimento tão preciso e veloz que fora somente possível ter um vislumbre do brilho do aço sob as lamparinas.

Quando os dançarinos figurantes – que representavam os inimigos de Ninigi – encenaram uma batalha e entregaram-se à morte, a música encerrou e Kikugorō congelara em sua pose de guerreiro.

Minutos depois, o som melódico e delicado do shakuhachi* indicara a entrada de Sakuya-hime. A Grande Mestra lhe dissera que, no palco, haveria um grande cenário com uma gigantesca árvore de cerejeira sobre uma colina. Em sua ausência, Sakura precisou simular que espalhava pétalas de flores ao vento, rodopiando as longas mangas de seu kimono e dançando ao longo do caminho até que encontrasse Ninigi.

Ao vê-lo, simulou timidez e escondeu o rosto entre as mãos. Kikugorō, notando sua presença, deu um pulo imponente, marchando em direção a ela como um soldado. Como parte do papel, deveria afastar as mãos de Sakuya-hime e ter um vislumbre de seu rosto, sendo imediatamente seduzido por sua beleza – sentimento demonstrado através de cenas dramáticas onde caminharia para trás e cairia sobre os próprios joelhos.

Tocando na face dele para, enfim, erguê-lo, Sakura enlaçou um de seus braços ao redor dos ombros de Kikugorō e ambos rodopiaram lentamente, juntos, sem tirar os olhos do outro.

A música lenta e romântica mudou, introduzindo o taiko novamente – dessa vez, em um ritmo lento e compassado. Haveria uma pausa de segundos em que deveriam aproximar o rosto e, então, o ator encaixaria as mãos em sua cintura para erguê-la do chão, simulando que o casal havia, enfim, se apaixonado.

Presa às estritas amarras do karyukai, ainda era difícil sentir-se completamente confortável naquele papel. Como maiko, cada movimento era realizado com sutileza. Tudo em sua vida deveria ser sempre comedido, gracioso e formal, díspar à princesa escrita por Mokuami que representava a sensualidade, grandiosidade e imponência de uma deusa, exigindo-lhe dramaticidade e agilidade para rodopiar, contorcer, balançar os braços e se expressar com mil faces diferentes.   

Além dos óbvios desafios, o personagem também exigia que ela não se importasse com os toques de Kikugorō. Embora o ator fosse um cavalheiro nato e Sakura compreendesse que se tratava apenas de uma peça, sequer convivera o suficiente com o sexo oposto; ser tocada tão intimamente parecia uma transgressão.

Não era como se nunca houvesse pensado em ser. Gostaria muito que, um dia, fosse devidamente acariciada como uma mulher, mas não por ele, nem por Orochimaru, mas por um homem a quem amasse e confiasse a própria vida.

Sentiu as mãos fortes do ator segurá-la gentilmente pela cintura e erguê-la do chão. Se realizado perfeitamente, Mokuami tinha certeza de que o gesto causaria um grandioso impacto na plateia, mas não fora o caso.

A sensação de ser segurada há um metro do chão, ao mesmo tempo em que deveria sorrir e inclinar o corpo para trás, fez Sakura tremer e jogar-se com mais força do que deveria e, consequentemente, levara ambos para o chão.

-Pare a música! – Mokuami ordenou, caminhando, furioso, em direção à dupla – Senhorita Yaeko...

-Me perdoe, eu-

-Sem desculpas – vociferou – Estamos há um mês da apresentação mais importante de minha carreira e Otsu-sama garantiu que você seria perfeita. Está se mostrando o oposto.

-Ora, escute aqui! – a Grande Mestra urrou, colocando-se entre os dois – Yaeko Sakura é minha aluna mais brilhante e não ousarei esse desrespeito em minha escola! Minhas meninas não estão acostumadas com essa... Essa... Vulgaridade!

-Não estou pedindo que seja uma maiko brilhante, Senhorita Yaeko – O dramaturgo ignorou o escândalo da Grande Mestra. – Desejo apenas a interpretação de uma mulher perdidamente apaixonada, consegue me dar isso?

-Acho que sei qual é o problema, mestre Mokuami – Kikugorō se intrometeu, ajustando a coluna – A senhorita Yaeko nunca esteve apaixonada e tenho minhas dúvidas se já conversou com um homem sem supervisão.

Kawatake Mokuami suspirou, coçando o topo de sua cabeça grisalha.

Os ensaios começaram ao início da manhã, quando o sol acabara de se pôr e, agora, ao fim da tarde, sequer haviam progredido muito. Os figurantes da companhia de teatro de Kikugorō e o próprio ator eram impressionantemente talentosos e não cometeram um erro sequer ao longo do ensaio. Sakura notou os olhares decepcionados e cansados direcionados a ela.

-Eu vou ensaiar mais – Sakura pronunciou, levantando-se – Prometo que estarei pronta.

-Iie – O ator limpou o suor com a manga da camisa. – Não estou tentando ofendê-la, mas isso não é uma simples dança do leque ou... – Limpou a garganta ao notar-se observado pela Grande Mestra. – O que quero dizer é que você precisa usar da emoção para dançar o kabuki, mas parece estar sempre calculando cada gesto.

-Diga-me, senhorita Yaeko, quantos anos têm exatamente? – Mokuami questionou.

-Dezesseis.

-O que comprova minha teoria – o ator concluiu.

-Tolice, já trabalhei com meninas mais novas e nunca tive um problema.

-Mas nunca com uma otome*, posso lhe garantir.

Ambos trocaram olhares cheios de significado.

-Bem, será realmente um problema se o papel de Sakuya-hime for interpretado por uma mulher inexperiente – Mokuami lamentou.

-Farei o necessário para provar ao senhor de que estou preparada – Sakura garantiu, sentindo-se um pouco envergonhada por ter a (ausente) vida amorosa tão analisada por dois desconhecidos.

-Fará – o dramaturgo concordou, incisivo – Temos apenas um mês para esse espetáculo e não é somente o nome de Lótus Celeste que está em jogo. Sou conhecido como o maior escritor do país e não deixarei uma virgem estragar tudo, sobretudo, não na frente do imperador.

Sakura piscou, lívida. Suas bochechas se tornaram escarlates.

Era a primeira vez que ouvira a palavra “virgem” ser usado como uma ofensa. Em seu mundo – e em todos os outros que conhecia, até então – era um sinal de orgulho e honra, virtudes que, aparentemente, não era bem aceitos no mundo do teatro e denotavam uma atriz sem alma e expressão*. Enquanto esforçava-se para digerir aquela nova (e cômica) informação, ouvira a voz da Grande Mestra romper o silêncio da sala, tão potente e grandiosa quanto qualquer tambor.  

-O que sugere, então? – a professora vociferou, vermelha como sangue – Se Sakura não deve praticar para essa dança ridícula e certamente não pode... Fazer nenhuma indecência para agradar a vocês dois, o que deveríamos fazer?

-Viver um pouco – o escritor sugeriu – Você parece tão... – Indicou o corpo de Sakura com uma das mãos. – Dura. Quando foi a última que respirou sem que uma dessas lhe dissesse como fazer? – questionou, indicando a professora com o polegar.

Sakura mordeu os lábios, velando um sorriso.

Gostaria de ter respondido àquela pergunta, mas não queria enfrentar a fúria da Grande Mestra ou de Mamãe, sabendo que ambas eram árduas defensoras da rígida criação do karyukai e esperavam que ela acoitasse aquele estilo de vida.  

Ora, parecia ser muito fácil a qualquer pessoa, alheia àquelas tradições, dizer-lhe para apenas relaxar. Tudo sobre ela, como caminhava, comia, dormia e respirava, sempre fora ensaiado e planejado aos ínfimos detalhes.

Embora a herdeira, díspar às suas consortes de profissão, possuísse vestígios de rebeldia e insubordinação, parecia-lhes que, como atores e escritores, – acostumados com a liberdade de um mundo sem regras – era difícil enxergá-la dessa forma, pois comparada a eles, era apenas uma santa.

Os ensaios foram encerrados após uma longa discussão entre a professora e o escritor, e apesar de discordarem de absolutamente tudo, chegaram à conclusão de que mais algumas horas de prática seria infrutífero para a saúde física e mental de todos.

Apesar de Sakura ser a grande culpada do desastre daquele longo dia, Kikugorō não parecia ofendido ou irritado com a incapacidade da maiko de entregar-se ao papel, pelo contrário, tomou um lugar ao lado dela e de Mokuami na volta para casa, parecendo aliviado por finalmente estar longe dos olhares hostis da Grande Mestra.

-Sobre o que eu disse mais cedo – o ator murmurou ao aproximar-se dela, longe dos ouvidos do dramaturgo, que caminhava mais à frente – Desculpe se fui desrespeitoso, estou acostumado a ser sincero com atrizes, mas é a primeira vez que converso com uma mulher como você. Não sei bem como-

-Iie – Sakura sorriu gentilmente – Estava certo em tudo que disse, agradeço por isso.

- Ah, que bom! – sorriu, parecendo genuinamente aliviado – Sabe, parece terrível passar uma juventude inteira trancafiada e então casar-se de repente, sendo que sequer conviveu apropriadamente com um homem.

-Como sabe disso? – Sakura franziu a testa.

-Oh, Otsu-san contou para todos nós, parece se orgulhar muito disso.

-Entendo – Sakura suspirou – Certamente se orgulha.

Minutos mais tarde, ambos se despediram e Kikugorō juntou-se a sua trupe, indo em direção a Yoshiwara para beber e comer após um longo e exaustivo dia. Sakura e o escritor continuaram sua jornada até o okiya, e a maiko sequer tentou interromper o silêncio entre eles, vendo como Mokuami parecia perdido em seus próprios pensamentos.

Quando chegaram em Lótus Celeste, o escritor entrou no escritório de Mamãe para informá-la sobre os acontecimentos do ensaio e, minutos depois, a discussão acalorada soou pelo corredor vazio do primeiro andar.

Acaso fosse outro homem acusando sua filha e herdeira de ser uma péssima atriz, certamente ela teria batido nele sua vara de bambu até que o sujeito ficasse inconsciente. Mas Mokuami era o maior e melhor escritor do Japão desde o período em que samurais ainda reinavam sob o sol, e nada poderia dizer a ele senão: “é um grande absurdo!”, uma expressão que Sakura pôde ouvir ao menos dez vezes.

Era verdade que homens não poderiam se meter no funcionamento daquele universo feminino, assim como as mulheres não poderiam ditar decisões políticas a eles. Ainda assim, Orochimaru enviara uma quantia assombrosa de dinheiro para que Sakura se apresentasse ao imperador e oh, Mamãe escolheria morrer antes de decepcionar o futuro marido de sua atotori e o grande financiador do okiya.

Do lado de fora, a maiko ouviu o senhor Mokuami dizer:

-O grande absurdo dessa história foi você me enganar, dizendo que uma criança poderia assumir o papel da grande Sakuya-hime.

-Sakura não é mais uma criança – Mamãe retrucou – Está prestes a se casar, é uma mulher!

-Oh! Então devo esperar até que se case e se livre dessa prisão para que possa atuar? Estou lhe dizendo, Otsu-san, se essa menina continuar agindo dessa forma, estou fora!

Mamãe protestou, ciciando uma resposta como um gatinho assustado:

­-...O que posso fazer para ajudá-lo, então,  Mokuami-sama?

-Sei que não posso me intrometer nos seus negócios, mas poderia deixá-la ter uma vida normal durante os ensaios? – sugeriu, irritado – Toda essa... Loucura de gueixa, de ser perfeita e cumprir regras a deixou dura como uma pedra, sequer consegue mostrar emoção.

-Ora, Mokuami-sama, não está sugerindo que eu a deixe sair por aí como uma qualquer?! – Mamãe riu, incrédula – Ela é minha herdeira, afinal, isso seria-

­-Por um mês – respondeu, calmo – Uma atriz que se preze deve gostar da vida e não ser sufocada por ela. Deixe que a menina saia daqui e conheça o mundo, um pouco, apenas por um mês. Garanto a você, Otsu-san, por meu nome, o sucesso de minha peça depende disso. Ou então poderemos desistir e fazer uma dança de leques.

Silêncio.

-Ora, o que há de pensar? – insistiu ao não receber uma resposta – O que acha que uma menina como ela seria capaz de fazer? Ver kimonos e joias bonitas nas ruas de Yoshiwara? Comer dango em um restaurante? Nada mais que isso, posso dizer apenas de olhar para ela. Não confia em sua própria filha?  

Sakura pôde sentir as batidas de seu coração agitado.

Jamais, em toda sua vida, imaginaria uma oportunidade como aquela. Sair sozinha? Fizera tal transgressão uma vez, mas jamais pensara em ter a benção para fazê-lo quando bem entendesse. Ter a chave de sua liberdade – ainda que por um tempo limitado – seria tão precioso quanto as joias da família imperial, sobretudo agora que iniciaria seu treino com Sasuke.

Oh, os segundos de hesitação de Mamãe lhe pareceram tão longos quanto uma vida!

A porta do escritório fora arrastada para o lado e Mokuami retornou ao corredor, sorrindo para ela. Ele estendeu a mão, entregando-lhe o conhecido amuleto de Lótus Celeste, do mesmo tipo que roubara de Hinata na noite em que fugiu.

-Viva um pouco – Piscou.

Quis agradecer ao escritor, mas ele aquiesceu e se despediu antes que ela tivesse a oportunidade, sequer compreendendo que aquele gesto – tão pequeno e insignificante para ele – era o maior presente que tivera em toda sua vida.  

-Sakura – a mãe adotiva a chamou de dentro do escritório.

Ela mordeu os lábios, tentando esconder o gostoso sorriso. Surgiu na porta e notou que Mamãe parecia contrariada como uma criança, com braços cruzados e bochechas inchadas.

-Fiz minha promessa a Mokuami, mas não gosto nada disso – Apontou o dedo para a herdeira – Estou confiando em você para que seja responsável, cada decisão que tomar afetará todos nós.

Sakura tentou não revelar a própria felicidade.

-Claro, Mamãe, jamais faria algo imprudente que pudesse desonrá-la.

Mamãe apertou os olhos para ela, como se esperasse flagrar uma mentira.

-...Sei – disse, incerta – Apenas...

-Não se preocupe. São apenas alguns passeios para que eu relaxe para o festival, certo? Gostaria mesmo de ver a nova coleção na loja de kimonos que Hinata gosta.

Desgostosa com a própria decisão, Mamãe mandou-a embora com um gesto; Sakura assentiu, curvando-se para frente antes de fechar a porta.

Oh, se acaso Mamãe soubesse o que estava prestes a fazer, certamente morreria.

 

oOo

3 dias depois

O ensaio daquela manhã havia sido um pouco mais produtivo.

Embora estivesse longe da princesa ideal de Mokuami, ganhar a chave para sua liberdade fizera grande diferença em seu comportamento, o que não passou despercebido a ninguém do grupo e deixara o escritor um pouco mais aliviado.

Ao despedir-se no começo da tarde, Sakura não retornou para Lótus Celeste, mas correu em direção aos portões de Yoshiwara, onde Sasuke estaria esperando-a para que, enfim, pudesse treiná-la.

Ao contrário do dia em que fugira do okiya, desesperada para encontrar o Yakuza e banhada de uma forte chuva, aproveitara a possibilidade de estar dentro das regras de Lótus Celeste para caminhar tranquilamente no bairro. Longe da confusão da vida noturna e há um mês do festival, Yoshiwara estava mergulhada em um estado plácido, sendo a agitação concentrada inteiramente nos bordéis, que recebiam encomendas de kimonos e carregamento de comida.

Chegou aos portões que dividiam o bairro proibido da bela capital e encostou as costas no muro, aguardando pacientemente – mas cheia de expectativa – a chegada de Sasuke. De tempos em tempos, uma caravana de homens adentrava, transportando madeira, ferramentas e tecidos multicoloridos com escritos em branco, Sakura concluiu serem os montadores das yatai* que seriam distribuídas ao longo da capital.

Boatos no karyukai diziam que o imperador ordenara que toda a capital fosse decorada com luzes, comida e atrações – além do gigantesco palco principal em seu palácio –, sendo o maior, mais moderno e belo festival de todo o país, até então.

A maiko se perguntou se acaso, após a apresentação, seria permitido que aproveitasse a festa como uma cidadã comum e um sorriso pueril se formou em seus lábios ao pensar nas inúmeras possibilidades de diversão.

-Por que está com essa cara? – Reconheceu a voz carregada de mau humor.

Sobressaltou, olhando para a sua esquerda e vendo Sasuke encarando-a com indiferença. Perguntou-se a quanto tempo estaria ali e como conseguia ser tão silencioso a ponto de aproximar-se sem dar qualquer sinal.

-Konichiwa, Sasuke-kun – sorriu.

-Aa.

Sakura achou que nunca se acostumaria ao vê-lo, não realmente. Embora não fosse o primeiro homem que estivera em sua presença, pois já esteve rodeada por centenas deles, o Yakuza era... Diferente, de tantas maneiras que sequer sabia numerá-las conscientemente.

Estava acostumada com homens nobres e oficiais da alta casta japonesa, sempre tão iguais em seus ternos elegantes, relógios de ouro, banhados em uma refinada colônia francesa, a tez pálida intocada pelo sol e narizes empinados como se acaso o mundo pertencesse a eles.

Sasuke, embora possuísse características físicas opostas às deles, não deixava de ter uma nobreza inerente da qual não sabia explicar. Se acaso não fosse um burakumin*, certamente seria como todos eles, embora – secretamente – achasse-o insuportavelmente belo da maneira como era agora.

A pele bronzeada de viajante parecia ainda mais dourada sob a luz do entardecer, contrastando com o longo cabelo negro, preso em um rabo de cavalo, e os olhos muito escuros. Sobretudo, possuía uma postura intrínseca de um exímio guerreiro, como os samurais que conhecera em sua infância e se perguntou se acaso ele tinha consciência de como tudo sobre ele exalava uma áurea misteriosa que a fascinava.

Ao saírem de Yoshiwara, caminharam lado a lado pelas ruas de Tokyo.

Não precisava conhecê-lo intimamente para saber que Sasuke prezava pelo silêncio de tal maneira que nunca parecia incomodar-se, sequer tentando quebrá-lo para criar uma atmosfera mais tranquila entre eles.

Ao contrário dele, Sakura gostava de conversar, embora não achasse que seus assuntos seriam de seu interesse e não tivesse experiências emocionantes para compartilhar.

Para controlar a própria língua, Sakura passou a observar os detalhes da maior cidade do país.

Poderia contar nos dedos de uma única mão as vezes em que saíra do bairro proibido, raras ocasiões em que Hinata ou Mamãe a deixava acompanhá-las em simples visitas a fornecedores quando ainda era uma pequena shikomi. Não se lembrava de quase nada daqueles momentos, apenas que a capital em sua lembrança era um feudo construído em palha e barro comparado à cidade que se desenrolava a sua frente.

Suntuosas construções, restaurantes, lojas e casas eram uma mistura do Japão e o Ocidente, madeira e ferro, noren* e letreiros brilhantes, um perfeito equilíbrio entre tradição e modernidade. Sentiu o cheiro das comidas que mais adorava: sopas, grelhados, peixe, carnes, molho de soja e legumes no vapor, também havia outros cuja fragrância era ainda mais deliciosa, mas sequer reconhecia.

Um grupo de crianças – meninos e meninas – uniformizadas e bem comportadas, caminhavam atrás de professores de meia idade trajando ternos femininos, gravatas listradas, chapéus e longas saias, ditando lições como um comando militar. Sakura sorriu, deveras impressionada, em sua infância a educação formal era permitida somente aos meninos, embora as mulheres soubessem ler e escrever*.

No lado externo de algumas lojas, Sakura notara cartazes coloridos anunciando o grande festival.

-Está animado para o festival, Sasuke-kun? – perguntou, sorrindo; feliz por encontrar um assunto que ambos poderiam interagir.

Mirou-a com o canto dos olhos, sem dizer nada.

-Bem, irei dançar no palco principal – anunciou, ignorando o silêncio dele – Seria um bom motivo para ir, não acha? Haverá comida, música e dizem até que a cor dos fogos serão ainda mais vivas graças aos produtos estrangeiros.

-Hm.

Sakura suspirou, derrotada. Seria tão impossível arrancar algo de Sasuke que não fosse seus costumeiros “Aa” e “hm”?

-Não parece bom? – insistiu, tentando não transparecer sua irritação.  

-Creio que sim.  

Contornaram a avenida principal, distanciando-se dos comércios e da multidão.

Um grupo de estrangeiros cruzou o caminho de ambos, dois deles viraram-se para olhá-la e tropeçaram em outro pedestre que fizera questão de ofendê-los pela falta de atenção. Embora estivesse acostumada com a desagradável atenção masculina, começara a perceber um padrão de olhares femininos direcionados a Sasuke.

Olhou-o com o canto dos olhos, notando que por baixo do haori, seu yukata cinza-escuro estava entreaberto, revelando um pouco do torso delineado e a tatuagem. Agora que o olhava apropriadamente, notou que trazia um pacote consigo, mas que não dera muita atenção. Distraída, ela mesma se perdeu por alguns segundos nas linhas dos músculos, ele era mesmo muito-

-Quer me dizer alguma coisa? – Sasuke questionou, olhando-a também.

Ela sentiu o rosto esquentar.

-Queria apenas saber se estamos chegando – mentiu, rezando para que ele não tivesse notado seu comportamento indecente.

-Ainda não.

-Para onde estamos indo, afinal? – lembrou-se – Você apenas me disse que-

O olhar dele foi o bastante para silenciá-la.

Se acaso a mãe estivesse viva ou, até mesmo, se Chiyo ainda fosse presente em sua vida – quiçá, a própria Hinata – certamente a desaconselhariam a confiar nele. Apesar de não ter experiência alguma no mundo fora do karyukai, compreendia a extensão da periculosidade de estar acompanhada de um membro da Yakuza, pois não era segredo algum, ao menos, a nenhum cidadão japonês, que eram um grupo dedicado a trabalhos ilícitos e perigosos.

Ironicamente, sentia-se mais segura ao lado dele que de Orochimaru – um general considerado um exemplo de homem e marido ideal.

Ainda assim, não acreditava que as intenções de Sasuke eram a epítome da bondade e preocupação, nem esperava que fossem. Mais importante que qualquer confiança, possuíam um acordo selado por dinheiro e se acaso planejasse denunciar as intenções dela ao governo, seria condenado e executado por cumplicidade.

Desta forma, não havia nada a temer. Ao menos, nada tão assustador quanto seu próprio destino.  

Afastando-se da cidade, as senhoras de vestidos de gala e kimonos vibrantes, acompanhadas por elegantes maridos de terno e kimono de seda, começaram a desaparecer.

Conforme transpassavam parques e florestas, notara como as pessoas vestiam-se de forma mais simples, com cabelos bagunçados de um dia de trabalho e rostos queimados de sol. Percorreram pontes ladeadas por árvores, arbustos e campos; sobrepondo rios onde havia grupos de pescadores e barquinhos de madeira no qual crianças pequenas, acompanhadas por suas mães, inclinavam-se para tocar na água cristalina.

Uma hora se passou desde que deixaram os portões de Yoshiwara.

Sakura abafou um grande bocejo com as costas de sua mão. Havia ensaiado por horas a fim durante a manhã e sequer imaginava que teria de andar tanto, inocentemente esperando que as lições aconteceriam em um espaço fechado na cidade grande.

-Chegamos – a noticia a despertou.

Longe da fumaça dos restaurantes e fábricas, o céu era nitidamente mais límpido. Ao respirar fundo, sentiu um ar puro e bucólico encher-lhe os pulmões, uma fusão de terra molhada, água fresca e ervas. Ao adentrarem a grande floresta, pôde ouvir o som dos passos dos pequenos animais crepitarem a grama seca e pássaros gorjeando acima dos galhos.

Seguiu-o, fascinada pelas imensas árvores que produziam sombras frescas, carregadas de folhas de diferentes cores e cascos com variadas texturas. Sasuke acompanhou o caminho de terra batida e repleto de curvas, vez ou outra tirando uma folha que despencava em sua cabeça e desviando de galhos no chão.

Ao atravessarem uma ponte velha de madeira, Sakura notou a presença de um casebre pequeno com musgo verde crescendo nas paredes externas. À primeira vista, a maiko pensou estar abandonada, pois, de fato, parecia descuidada e decrépita.

Calou o pensamento quando Sasuke retirou as sandálias para entrar.

Ela o copiou, arregalando os olhos e sequer escondendo a curiosidade ao ver o aconchegante interior esculpido cuidadosamente em madeira. Fechou a porta atrás de si, mas não ousou se mexer, vendo-o sentar-se diante do irori para acendê-lo.

Viu bacias de barro ao redor do fogo onde havia uma grande quantidade de ervas e sementes. Pensou se acaso eram para comer ou se usava com um proposito medicinal já que...Ora, levava uma vida perigosa, em sua opinião.

Atentando-se ao espaço, percebeu que absolutamente tudo naquele lugar fora feito para um morador solitário, denunciando que jamais recebera uma visita ou pretendia nunca ter de fazê-lo.

Mordeu o lábio inferior, sentindo-se uma intrusa. Honestamente, gostaria de perguntar-lhe muitas coisas: onde estavam seus pais? Por que escolhera viver tão longe da cidade? Não se sentia solitário? Mas como não tinha intenção alguma de irritá-lo e, provavelmente, encerrar a possibilidade de uma convivência agradável entre eles, achou apropriado apenas dizer:

-É bonita, Sasuke-kun.

O rapaz sondou-a, intrigado.

-Sua casa – explicou, sorrindo – É muito bonita.

Como esperado, ele não respondeu. Sakura bufou, sentindo a cabeça latejar devido a complexidade de interagir com alguém que transmutava entre monossilábico e tácito.

O Yakuza retirou o haori e dobrou-o impecavelmente, colocando a roupa ao lado do pacote que trouxera consigo ao longo da viagem.

Inquieta com a parcimônia de Sasuke, Sakura cruzou os braços e apertou o bíceps com a mão direita até que os nós de seus dedos estivessem brancos. Não queria parecer impaciente e impulsiva, mas, céus, não estava ali para tomar chá. Certamente era compreensível que pedisse satisfações, não era?

-E agora? – ousou perguntar, tentando controlar o nervosismo na voz.

Sasuke examinou-a com muita atenção, dos pés a cabeça, tomando seu devido tempo para estudá-la. A maiko encolheu os ombros, tentando parecer indiferente àquela estranha situação que o rapaz estava construindo.

Não teria noção de que estava a sós com uma mulher em sua casa? Seria educado que a olhasse de maneira mais graciosa.

-Comece tirando a roupa – ordenou, baixando os olhos para cutucar a lenha no irori como se acaso não tivesse dito o maior dos absurdos.

-O que?

-Tire a roupa, Sakura – repetiu, incisivo, sequer piscando.

O queixo da maiko despencou.

-Ora, como você se atrev-  

-Você disse que estaria disposta a qualquer coisa, não? – indagou, com uma normalidade acima do comum – O que acha que viemos fazer aqui?

-Eu...Eu...Eu...

Sequer conseguira formular seus pensamentos apropriadamente. Estava da mesma cor de seus cabelos. Como se atrevia a desrespeitá-la e humilhá-la daquela maneira? Era um absurdo!

-Quem você pensa que é para falar comigo desse jeito? – esbravejou, marchando até ele – E quem pensa que sou para achar que eu faria algo tão-

-Você é irritante – interrompeu-a, bufando – Tire logo essa roupa ridícula e espalhafatosa. Será impossível treinar com essas mangas e essa... – Apontou para a barra florida sua roupa – Coisa.

O esclarecimento não servira para nada, senão aumentar a intensidade de sua vergonha. Quis cavar um buraco no chão e enterrar-se. Então era isso.

-Ah – Tentou sorrir – Certo, mas... Eu não... Trouxe nada comigo.  

Um silêncio incômodo tomou forma entre eles, quase se materializando; sendo diluído apenas pelo crepitar do fogo.

Sakura estivera tão ocupada com os ensaios e preparativos para o festival que sequer pensara numa vestimenta apropriada. Sendo sincera, não acreditava que possuía algo para aquela situação ou qualquer roupa que não fosse fábrica em seda ornamentada. Seu hadajuban*, talvez? Embora fosse deveras transparente e inapropriado para ser usado na frente de um homem.

Dando de ombros, Sasuke deslizara o pacote até ela. Piscou, confusa, ajoelhando-se para abri-lo. Retirou um tecido preto da embalagem, erguendo-o diante dos olhos. Era um simples yukata feito de algodão maleável, acompanhado de um obi muito fino e uma fita de cabelo da mesma cor.  

Sakura deu um sorriso pequeno, não deixando de imaginar a cena cômica de um rapaz tão mau humorado entrando em uma loja de kimonos e comprando algo para ela. A julgar pela cor atípica – pois um yukata feminino era sempre colorido e florido –, concluiu que ele teria encomendado a roupa especialmente para ela.

-Sasuke-kun, por acaso está me dando um presente?

Ele pareceu muito ofendido com a sugestão.

-Não seja tola, você comprou – retrucou, inflamado – Usei o dinheiro, pois sabia que não teria algo assim.

-Oh... – Mirou-o, muito interessada – E como sabia o tamanho do meu corpo?

Sakura não notara, mas o ronin corou.

-Vista logo ou vá embora!

Quando o rapaz bateu a porta de sua casa, Sakura pôde rir.  

 

...

 

De todas as guinadas que sua vida dera ao longo dos anos, aquela, sem dúvida, era a mais absurda. E de todos os absurdos, destacava-se o fato de ter sido uma escolha sua oferecer-se para ensinar alguém tão irritante e intrometida.

O que diriam seus ancestrais?

Ouviu-a se mexendo do lado de dentro, enquanto a aguardava pacientemente – na medida do possível – fora de sua própria casa. Era ridículo que tivesse de sair do conforto de seu próprio lar para que ela ganhasse privacidade. Sua privacidade, como se acaso merecesse as rédeas daquela situação.

Não demorou muito até que ela abrisse a porta e surgisse ao seu lado.

Sasuke pedira especificamente por algo discreto e que oferecesse boa mobilidade, sem desenhos, enfeites ou as estranhas feminilidades do qual nada entendia. Ainda assim, a maiko possuía o enorme talento de parecer absolutamente impecável em qualquer vestimenta, como se acaso fosse impossível que se parecesse com um ser humano comum.

Por sua vez, Sakura se sentia quase nua naquela simples vestimenta.

Acostumada com as usuais camadas de roupas e peças para compor o kimono principal, estranhou aquela desconhecida liberdade em usar apenas uma peça sobrepondo sua roupa de baixo. O obi fino e o longo rabo de cavalo que descia até o meio de suas costas eram símbolos tradicionais aos homens, considerado demasiadamente inapropriado para uma mulher.

No entanto, Sasuke não parecera sequer incomodado com a maneira que estava vestida, dando-lhe os ombros e contornando sua casa. Sua indiferença – ou seu exímio talento para disfarçar – causou um certo alívio em Sakura e ela o acompanhou de bom grado, relaxando conforme os minutos passaram.

Andaram aos fundos da casa, seguindo o fluxo contrário do rio até chegarem próximos da cachoeira margeada por pedras, árvores e uma colina. Satisfeito com o local, Sasuke parou de andar e virou-se para encará-la.

Honestamente, nenhum dos dois sabia ao certo o que esperar. Era a primeira vez que Sasuke precisava ensinar algo a alguém, sendo ele mesmo um exímio aluno ao longo dos anos. Díspar a ele, nascido com o brilhantismo dos Uchiha, Sakura sequer parecia ter segurado uma arma em toda sua vida, o que dificultava tudo.   

Ponderou a falta de habilidades da mulher, estudando suas explícitas fraquezas. Era vinte centímetros mais baixa que ele, com um par de braços finos e mãos pequenas como a de uma criança. Tudo sobre ela transbordava uma irritante fragilidade e era patético esperar que ela enfrentasse um homem frente a frente.

Pensou em seu próprio mestre, imaginando o que faria caso fosse encarregado de ensiná-la.

Lembrou-se de sua primeira lição: “caia sete vezes, levante-se na oitava”, ensinando-o a jamais desistir após cometer um erro, suportar a dor do fracasso e persistir até vencer. Mesmo sendo previamente treinado em Kutsuu, fora arremessado tantas vezes que achou que morreria; então como poderia fazer isso com ela?

Ao contrário dele, que fora treinado para enfrentar um campo de batalha, eliminar dezenas de homens de uma só vez, infiltrar-se em território inimigo e matar sem produzir qualquer som, Sakura precisaria apenas eliminar um homem e proteger-se, caso fosse necessário.

Oh, mas matar um general armado e cercado de soldados seria difícil até mesmo para ele, como esperaria que ela o fizesse? O pensamento fora interrompido por outro que lhe parecera mais lógico e condizente com a situação: Orochimaru a tomaria como esposa e jamais, nem em seus momentos mais irracionais, esperaria que a noiva frágil, delicada e inocente fosse capaz de planejar seu assassinato.

-Sakura. Qual seria o melhor momento para atacar Orochimaru?

A maiko colocou o dedo indicador nos lábios, olhando para cima, vasculhando sua própria mente.

-Em um ochaya, talvez – respondeu, parecendo ter suas dúvidas – É o único momento em que eu o encontro.

-Iie – Sasuke cruzou os braços. – Haveria testemunhas em outras salas ou soldados ao lado dele, seria condenada por assassinato antes que pudesse escapar.

Sakura torceu os lábios, pensativa.

Embora Orochimaru fosse seu futuro marido, era contra as regras de Lótus Celeste que ficassem completamente a sós em qualquer lugar. Encontros entre um danna e sua patrocinada eram permitidos apenas em locais públicos, com Hinata ao seu lado ou um grupo variado de pessoas que os impedisse de infringir as leis do karyukai.

Sem dúvida, nunca pensara naquela situação por completo. O desejo de matá-lo viera antes de qualquer raciocínio lógico. Mamãe o adorava como um deus xintoísta, ainda assim, jamais permitiria que ficasse totalmente sozinho com ela.

A não ser...

Oh, um sórdido pensamento lhe veio à mente.

-Bem – Engoliu a seco e suspirou. – Há apenas um lugar em que ficaríamos sozinhos.

-Então?

Viu-a se encolher um pouquinho e negar com a cabeça. O ronin virou os olhos.

-Você está planejando assassinar um oficial do governo e está me escondendo a informação mais importante? – indagou, áspero.

-Não, Sasuke-kun, – a voz falhou – apenas não gosto de pensar sobre isso.

-Acostume-se a pensar – retrucou – Não há espaço para fraqueza na vingança. Se quer desistir-

-Iie! – negou, dando um suspiro magoado – Haveria um lugar em que ficaríamos a sós.

Sasuke cruzou os braços, irritado pela falta de objetividade de Sakura. Notou-a segurar o tecido da roupa entre os dedos e morder os lábios.

O ronin sequer teria noção de como falar e, até mesmo, pensar sobre Orochimaru era difícil para ela. E como saberia? Era um homem, livre para decidir a própria vida, sequer compreendendo a imensidão do poder do general sobre ela, provavelmente nunca sentindo a dor da antecipação daquele doloroso e humilhante momento em que se deitaria com o futuro marido.

-Sakura.

-E-Em minha cerimônia de mizuage – gaguejou.

-Eu deveria saber o que é isso? – questionou – Seja objetiva, não tenho tempo para brincar com você.

-Oh, céus – bufou, pensando em como a situação seria mais fácil se ele chegasse àquela conclusão sozinho – Você é tão... – emendou num suspiro – Haverá um momento em que Orochimaru e eu. Para que eu me torne uma gueixa oficial. Você sabe. Preciso mesmo explicar? Você...É um homem, deveria saber.  

Sasuke continuou indiferente.

-Pelos deuses, nós iremos fazer sexo! – gritou, perdendo toda sua paciência. Sua voz ecoou através da floresta.

Ao compreender, o ronin fingiu a mesma indiferença de antes, embora agora estivesse inquieto e irritado. O inevitável pensamento de Orochimaru consumando o ato com a mulher sob seu corpo fora o bastante para deixá-lo impaciente e desconfortável. Sentiu-se tão perturbado ao vê-la dançar àquela noite que apenas o conceito de que tal coisa pudesse acontecer o deixou...Oh.

Precisou concentrar-se nas atuais circunstâncias para não se deixar levar.

Abstraindo-se dos próprios sentimentos – ainda confusos e abstrusos – e levando apenas o plano de ambos em consideração, Sasuke admitira que o momento era mais ideal do que imaginara. Sozinho e rendido ao... Ato, Orochimaru estaria ocupado demais para sequer raciocinar sobre a situação. Se fosse rápida e precisa, Sakura não teria que se defender, eliminando-o imediatamente.

No entanto, a vida sempre o ensinara a esperar o pior cenário e deveria, igualmente, prepará-la para uma possível realidade onde o general reagiria com sua típica violência. Sendo assim, puxou a wakizashi do cinto, ainda presa à saya, e equilibrou-a em dois dedos. Sakura piscou.

-Começaremos com a espada? – perguntou, se aproximando alguns passos.  

-Apenas se deseja arrancar a própria cabeça – retrucou – Começaremos pelo básico e veremos como você se sai.

-Que seria?

-Tente tirar a espada de mim – pronunciou.

Sakura riu.

-Acha que não vou conseguir tirar a espada do seu dedo? – perguntou, cheia de desdém – Você não me leva a sério mesmo, não é?

-Prove o contrário – sorriu de canto.

Sakura odiava ser desafiada. Quando pequena era constantemente descredibilizada por outras aprendizes, sendo chamada de incapaz e mimada por ter nascido em um berço samurai e ao tornar-se uma atotori. Com a força do ódio, provou-se ainda mais talentosa e empenhada que qualquer outra, e provaria a ele também, o rei do universo, que suas habilidades estavam além de dançar e girar um leque.

Sasuke vira aquele mesmo olhar confiante em seus inimigos. De fato, ela nada sabia sobre ele e de seu clã, tomando-o como um homem qualquer. Parecia-lhe realmente um absurdo que não fosse capaz de tirar a wakizashi equilibrada em seus dois dedos sem que, ao menos, ele a deixasse cair.  

E não conseguiu.

Fazendo jus a sua inexperiência, Sakura moveu-se para frente e estendeu a mão, como se acaso estivesse tentando retomar o brinquedo de uma criança.

Mais rápido, Sasuke girou o corpo para o lado, sem sequer mover a espada, fazendo Sakura dar um impulso em sua direção, esticando a mão esquerda para tentar usurpar a arma.

Sasuke segurou seu pulso com a mão livre e com a outra, fechou a wakizashi. Puxou Sakura para perto de si, fazendo-a bater as costas contra seu torso. Baixou o pulso contra sua barriga para impedir que se movimentasse e pressionou a bainha da espada contra seu pescoço.

-Acaba de morrer.

Ela se remexeu em seu abraço, tentando se livrar. Sem sucesso – pois Sasuke era muito mais forte – ocorreu-lhe de que, apesar de mais treinado que ela, ainda era um humano e sentia as mesmas dores de qualquer outro homem.

Ergueu seu pé, pisando com toda sua força no dele.

Sasuke sobressaltou ao vê-la usar de golpes sujos para se livrar de seu enlaço, mas divertiu-se ao perceber que estava se dedicando.

Sua surpresa fora o bastante para que ela usasse o próprio corpo para empurrá-lo para trás e erguer o braço, conseguindo roçar a ponta do dedo indicador na mão que segurava a espada.

 No entanto, o ronin pulou para trás, afastando-se rapidamente.

Sakura correu em sua direção, descobrindo-se mais rápida que jamais imaginara ser. Ao aproximar-se de Sasuke e tentar alcançar a espada, viu-o arremessá-la por cima de sua cabeça, agarrando-a com a outra mão.

Atenta a impressionante desenvoltura do Yakuza, Sakura não notara que a mão – agora livre – tocou em seu peito, empurrando-a para longe com certa força. Quando deu-se por si, estava caída de costas no chão, fitando o céu azulado.

Tornou a se sentar, um pouco irritada.

-Você é um exibido – bufou.

-E você não está tentando o suficiente – retrucou – Precisa tentar me matar por essa espada, não apenas arrancá-la de mim.

Sakura levantou-se, limpando a grama do cabelo. Viu o ronin cruzar os braços e apoiar as costas na pequena colina de terra que acimava sua cabeça.

-Facilitarei para você, então. Permanecerei parado.

Em seu treinamento com o mestre, Sasuke sofrera tantas lesões que era um milagre terminar o dia vivo. Fora arremessado, espancado, cortado, perfurado e quase queimado. Certamente, a dor era um grande aprendizado a qualquer guerreiro, mas não teria coragem de reproduzi-las em Sakura, escolhendo apenas empurrá-la caso se aproximasse perigosamente.  

Ao pôr-do-sol, ela já havia tentado desarmá-lo tantas vezes quanto achara possível. Costumava não desistir de quase nada, mas parecia simplesmente impossível derrotá-lo, como se acaso soubesse ler todos os seus ataques e pensamentos, prevendo-a como um dia de chuva.

Tentara se aproximar pelos lados, de cima, de baixo, pela esquerda e pela direita, mas nada parecia fazer efeito. Todas as vezes em que acreditara estar perto o bastante, chegando até mesmo a relar na mão da espada, era empurrada para longe e começava da estaca zero.  

Quando o fugidio sol ameaçou se esconder atrás da montanha, Sakura – coberta de terra e grama – decidiu tentar uma última vez. Cada músculo de seu corpo doía e já não tinha mais fôlego para correr e atacar alguém tão mais rápido e experiente que ela.

Inspirou o mais profundo que pôde e voou até ele, desta vez, desistindo da arma e focando-se em atacar seu alvo.

Um lampejo de tenacidade arrebatou o tom esmeralda de seus olhos, deixando-os cheios de uma surpreendente determinação. Aquele olhar. Sasuke jamais vira aquela expressão na mulher antes, mas o deixou deveras intrigado. Era como... Olhar-se num espelho, embora estivesse repleto com doses de candura que ele jamais possuíra.

Sakura focou na wakizashi, sabendo que ele já esperava por sua tentativa de tomá-la. Manteve os olhos ali, erguendo a mão esquerda naquela direção. Viu-o deslizar a mão para o outro lado, abrindo um espaço desprotegido em seu peito.

Fechou a mão direita em um punho e, ao estar perto o bastante, impulsionou o braço para trás e mirou bem ali. Nos milésimos de segundo em que a mão de Sakura vacilou no ar e quase o atingiu em cheio, Sasuke compreendeu suas verdadeiras intenções e desviou, lançando-se até ficar em suas costas, empurrando-a em direção à colina.

Sakura precisou colocar ambas as mãos na frente para não chocar contra a parede de terra. Ali, tossiu e tentou recuperar o fôlego, sentindo um filete de suor cair de sua testa e pingar no gramado.

Em um último suspiro, caiu sentada.

-Desistiu?

-Me dê um tempo – pediu, a voz entrecortada de cansaço.

Sasuke mirou-a com o canto dos olhos.

Jamais diria em voz alta, mas para alguém que nunca havia treinado antes, Sakura certamente havia se saído melhor que o esperado. Levaria um tempo até que estivesse realmente preparada, mas pareciam estar no caminho certo. Um sorriso pequeno tomou-lhe o lábio.

Por fim, ela tentou se levantar, sequer tendo força para colocar-se de pé apropriadamente, mas insistindo que estava pronta para tentar de novo.

-Está anoitecendo – Sasuke anunciou – Continuaremos outro dia.

-Iie – A maiko olhou para trás, dando-lhe um sorriso pequeno – Eu posso continuar.

Ignorando seu pedido, Sasuke guardara a wakizashi no obi.

Poderia continuar a treiná-la por dias e certamente Sho fizera o mesmo com ele, mas não parecia certo submetê-la a esse tipo de tratamento, sobretudo porque, ao contrário dele, Sakura não merecia ser levada a tais extremos.

-Vamos embora – insistiu.

Ao dar-lhe as costas e ouvi-a gemer:

-...Sasuke-kun.

Olhou para trás.

Sakura estava sentada, com uma expressão dolorosa no rosto bonito. Ele franziu o cenho, traçando os olhos ao longo dos cabelos róseos jogados acima do ombro direito, descendo pelo braço esticado e a mão apoiada sobre o tornozelo.

O tornozelo.

O tornozelo.

Uma de suas longas pernas sutilmente postava-se para fora do yukata, expondo a pele leitosa até um palmo do joelho. Ele engoliu a seco. A mente retornando àquele estado instintivo que ela conseguia ativar.  

-Eu acho que torci meu pé – reclamou, fazendo algo engraçado com a boca, como uma criança prestes a chorar – Pode me ajudar?

Suspirou, derrotado. Com qualquer outra pessoa, responderia com seu típico mau humor e daria às costas, pois não era de sua vontade se meter nos problemas alheios. Mas ali estava ele, mergulhado de cabeça nos problemas de Sakura. O que era um tornozelo machucado para alguém que se dispôs a fazer tanto por ela? E havia outro motivo, um do qual tentava refrear: ele se preocupava com ela.

Se ajoelhou diante da maiko, pensando se acaso era um desrespeito tocar sua pele por baixo da roupa, apesar de não fazê-lo por maldade. Ora, mas fora ela a causar toda aquela situação e pedir sua ajuda, não?

Trêmulo, colocou o pequeno pé descalço acima de seu joelho, puxando-o para baixo e testando o limite de sua dor.

Estranhamente, ela não reclamou.  

-Tem certeza de que-

Viu-a sorrir, radiante.

-Eu venci, Sasuke-kun – anunciou.

Levara um segundo para compreender o que ela acabara de fazer, viu-a erguendo a wakizashi na frente do rosto. Sakura riu baixinho ao vê-lo tão irritado. Não duvidando de que ele estava cogitando matá-la ali mesmo.

O ronin bufou.  

-...Tolice.

-É? – riu – Bem, você sabe tudo sobre batalhas, mas eu sou treinada para ser uma gueixa.

-Oh. Então resolva seus próprios problemas com essas táticas idiotas.

-Talvez seja mais rápido – sorriu, vitoriosa.

Envergonhado e contrariado, Sasuke retomou a wakizashi, guardando-a no obi. Sem esperar que a menina o seguisse, marchou de volta para casa, ouvindo-a correr logo atrás, esforçando-se para não rir – ainda mais – de sua patética situação.

...

Quando retornaram a Yoshiwara, Sasuke sentiu-se grato pelo fim do dia.

Não que a presença da mulher lhe fosse desagradável, aliás, não sabia bem como descrevê-la. Era, ao mesmo tempo, um alívio e uma irritação, o preenchendo com sua personalidade luminosa e o desgastando por jamais conseguir ficar completamente calada, sempre tocando em assuntos aleatórios para obrigá-lo a sair de sua introspecção. Mas era o fato de estar desacostumado com toda aquela atenção sufocante que o fizera suspirar, libertado, por se despedirem.   

-Obrigada por hoje, Sasuke-kun. E por me trazer de volta em segurança.

Sasuke a sondou, não parecendo haver vestígios de luta em sua aparência, estando insuportavelmente impecável como antes. Ela sorriu timidamente para ele, parecendo cada vez mais confortável em sua presença, um fato que muito lhe chamou atenção, pois gostava que as pessoas se incomodassem com seu mau humor e, desta forma, se mantivessem distante.   

-Aa.

-Nos vemos em quatro dias, então? – perguntou, ansiosa.

-Aa.

Ela fez uma careta.

-E então conversará mais comigo, certo?

Ele a ignorou. Prestes a dar-lhe as costas e retornar para casa, Sakura o reteve.  

-Sasuke-kun... Você ficará bem naquela casa? – questionou, parecendo genuinamente preocupada – Quero dizer, não se sente solitário naquele lugar?

-Sayonara, Sakura – insistiu, indo embora.  

Ela sorriu, achando-o orgulhoso como uma criança. Quando tomara certa distância, ouvira Sakura gritar ao longe:

-Da próxima vez faça um chá para mim, Sasuke-kun!

Pela primeira vez, Sasuke riu.  

É. Jamais se sentira solitário ao retornar para casa.

Até aquele momento.

 


Notas Finais


Glossário:

-Kabuki: Forma de teatro japonês cantado e dançado, famoso por sua estilização, dramaticidade e maquiagem exagerada, entre os temas estão: mitologia, folclores, contos e sátiras envolvendo figuras religiosas, políticas, samurais e trabalhadores comuns. Essa forma de dança foi proibida no período Tokugawa, por ser encarada como vulgar, erótica e desrespeitosa. Acredita-se que a dramaticidade dos animes surgiu daí.

-Kawatake Mokuami (1816-1893) : O maior e mais famoso escritor de Kabuki do Japão. Escreveu mais de 150 peças ao longo de sua carreira, que variavam entre o gênero de comédia ao drama. No Era Meiji, inspirado por histórias do Oeste Americano, foi o pioneiro em adaptar personagens estrangeiros e introduzi-los ao grande publico japonês.

-Onoe Kikugorō (1844-1903) : Um dos três maiores e mais celebrados atores de Kabuki no Japão. Ao contrário dos atores da época que se especializavam em um tipo específico de personagem, Kikugorō era capaz de adaptar-se a qualquer gênero e papel, interpretando até mesmo protagonistas femininas. Ao lado de Mokuami, foi um dos primeiros atores a interpretar papéis ocidentais no teatro japonês.

-Taiko: Tambor japonês usado para apresentações de música ou para guerra.

-Shakuhachi: Flauta japonesa feita de bambu.

-Otome: No Japão feudal, a vida sexual das mulheres era diferente. Após a puberdade, uma mulher tinha a liberdade para fazer sexo com qualquer homem que desejasse, sem precisar se casar ou ter qualquer compromisso com ele. A gravidez era comum e aceitável, sendo os bebês criados pelos avós. No entanto, as filhas de samurais ou de famílias ricas eram proibidas de fazer sexo fora do casamento ou confraternizar com homens que não fossem de suas familias, sendo seu útero considerado sagrado para gerar herdeiros legítimos. Daí veio o termo "otome", que significa "donzela" ou "menina pura", referindo-se às mulheres que viviam um estilo de vida puritano. Com o início da Era Meiji, a virgindade passou a ser obrigatória para mulheres de todas as castas sociais, como no ocidente.
Em Kurushimi, o termo otome fora utilizado para Sakura, pois maikos são obrigadas a serem virgens para manterem sua "graciosidade" e "ingenuidade", sendo o sexo algo "permitido" somente a gueixas. Lembrando que na época, mesmo uma gueixa não podia ser totalmente livre e deveria abandonar a carreira caso decidisse ter um relacionamento amoroso (então, muitas, faziam escondido). Também, em muitos okiyas (como Lótus Celeste) a virgindade delas era leiloada como um ritual de passagem para a vida adulta. Somente após 1940 que gueixas e maikos adquiriram autonomia e independência para decidirem sobre a própria vida sexual.

-Atuação e virgindade: Atrizes e dançarinas de kabuki eram muito livres e independentes. Como era comum uma trupe de teatro viajar ao redor do país, elas tinham vários parceiros sexuais e namorados, inclusive da própria plateia. Por isso, o samurais - conhecidos por seu extremo conservadorismo - acabaram associando o kabuki feminino à libertinagem e proibiram que mulheres participassem das peças. Daí vem a associação de que uma virgem jamais conseguiria se soltar e dançar de maneira "sensual" e espontânea.

-Yatai: Barraquinhas de comida

-Burakumin: Cidadãos à margem da sociedade, em sua maioria, mendigos e bandidos.

-Noren: Cortinas pequenas e coloridas, típicas de restaurantes japoneses.

-Educação: A educação formal japonesa como conhecemos hoje foi implementada pelo Imperador Meiji após enviar diversas figuras públicas para a Europa e Estados Unidos a fim de recolher informações sobre o sistema de educação e agregá-los ao país, mas adaptando para a filosofia japonesa. Antes disso, apenas a elite masculina tinha acesso à uma educação em matemática, geografia, história, etc. Meninas da elite eram apenas ensinadas a ler, escrever e ter lições sobre cuidados do lar.

Hadajuban - Uma espécie de "camisola" transparente e curta, a roupa íntima tradicional usada por baixo do kimono.

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Nota da autora 2: Para nossos olhos (ainda mais o brasileiro), o Kabuki não tem nada de erótico e absurdo, mas deixarei a sugestão de dois vídeos no youtube de comparação para entenderem um pouco o porquê era visto dessa forma:

Kabuki: "Kabuki Dance Bando Tamasaburo Yamanba" (para quem assistiu Memórias de uma Gueixa, a dança da neve da protagonista é uma forma de kabuki e foi inspirada nessa apresentação).

Gueixa: "Ep. 18 Geishaspotting: Private Geiko and Maiko Performance in Black Kimono"



Um beijão!


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