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História Kyungsoose - Capítulo 5


Escrita por: Prolyxa

Notas do Autor


hellooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooous!

Gente, nem acredito que estou atualizando a fic, sério. Faz bastante tempo, não é? rsrsrsrs Então, a guria aqui estava perdida nesses lances da faculdade - vida difícil essa de universitário -, e bateu o famoso desânimo de existência, por isso atrasei muito na atualização. E olha, nem ia sair hoje também, mas graças à menina Adria (love u, caranga) que me ajudou bastante, cá estamos com Kyungsoose. Além disso, este cap seria o final, sabe? Ia colocar o final feliz aqui, mas Adria me auxiliou e estendi mais um capítulo na história \o/ CALMA QUE É FINAL FELIZ, TÁ BOM?

Então, gurias, me perdoem pelo atraso e é claro, agradeço por todo o carinho e paciência que tiveram comigo, obrigada mesmo ♥ (e calma que logo vou responder os comentários do capítulo passado). Espero que gostem desse capítulo e...

BOA LEITURA!!!

Capítulo 5 - Como talvez quase parti um coração


 

4. não deverás jamais partir o coração de alguém, Jongin, principalmente daquela pessoa que você gosta e que mal se dá conta disso, porque corações uma hora ou outra se consertam.

 

 

Nunca tive o costume de ficar relembrando o passado.

Especialmente daquela época em que a gente é banguelo, miúdo e que mal sabe ir no banheiro sem sair dali com a bunda limpa. E na moral, eu também nunca senti ou alimentei a necessidade de me lembrar desses períodos de guri chorão, porque sempre achei uma tremenda baboseira esse negócio de vamos voltar às origens do nosso existir, retroceder em nós mesmos para só assim encontrar a felicidade; buscar a resposta do futuro escondida nas memórias do passado; trazer de volta os anos de ouro da nossa infância pra sermos jovens de novo e um blá-blá-blá saído dos livros de uma seção de autoajuda ou do pessoal fumado de psicologia.

Por uma simples razão que aprendi na cadeia, lugar este onde tive como melhores mentores o sofrimento e a vergonha na cara – que não prestou pra merda nenhuma, meio que reprovei na matéria –, o ideal se baseava em manter o foco no presente, porque o passado era passado, ou seja, aquela uva passa do arroz de domingo, a cerveja que chocou, o leite da geladeira que deu seu prazo de validade, a conta de luz que venceu, o rio no fim da curva e já Elvis.

Então não havia motivo ou necessidade de ficar relembrando dessa época de criança barra adolescência que aconteceu lá no tempo onde o Judas perdeu as botas, pois eu não era nenhum museu de quinquilharia antiga, livro de história ou o Exterminador do futuro pra ficar voltando no passado e recapitulando coisa velha.

No entanto, a situação me fez saudosista, lê-se otário que observava Do Kyungsoo dormir em meus braços naquela noite, e sem querer, talvez por culpa da sensação de lar que Kyungsoo passava pra mim, acabei fuxicando numas memórias de criança de quando fui morar com minha avó após ter me tornado o enésimo órfão do mundo.

Lembro que conheci Baekhyun aí na casa da vovó, porque ele também era outro miúdo chutado pelos pais e pela vida. Logo ficamos amigos, do tipo que juravam lealdade nas bagunças em frente aos santinhos da avó, mas que acabavam deixando as lombrigas da época do feijão com arroz e abobrinha da horta falarem mais alto assim que fossem coagidos com um pão com ovo ou picolé de groselha.

Era normal que enquanto nossa vó fizesse seus crochês da vida e assistisse ao programa de culinária, a gente trepasse nos pés de jabuticabeira que tinha no fundo do quintal de casa pra matar o tempo. Eu e Baekhyun ficávamos ali de bobeira, só acabando com as frutas ou tacando pedra em quem passava na rua, bem coisa de criança.

E foi em um desses dias, quando um garoto e uma garota passavam de mãos dadas cheios de sorrisos na nossa calçada, que Baekhyun olhou pra mim e disse que odiava aquela cena, porque ela o lembrava de felicidade e dos seus pais que não puderam ser felizes como os namoradinhos da calçada. Lembro que eu dei uso ao meu estilingue novinho em folha e detonei um saquinho de pedras nos dois beijoqueiros de boca suja.   

− A gente não vai pro inferno, né, Nini? – um Baekhyun banguelo perguntou. – Por tacar pedra neles.

− A vó disse que pra lá só meninos maus podem ir – respondi. – Então eu acho que a gente vai.

− Mas isso é meio injusto, sabe?

− O que que é injusto, Hyun?

− Eu ir pro inferno também – falou. – Porque foi você que tacou pedrinha neles.

− Nem vem com essa, seu cabeçudo. Se eu vou pra lá, puxo seu pé junto.

− Du-vi-do.

O mais importante nessa lembrança foi a pergunta que Baekhyun fez pra mim um pouco mais tarde, depois que a chinela velha da nossa vó tinha comido a bunda de cada um. Meu primo chorão me olhou e soltou um: “O que é o amor, Nini?”. Naquela época eu não passava de uma criança e respondi que amor nada mais era do que sapinho por conta dos beijos na boca.

Anos mais tarde, Baekhyun repetiu a mesma pergunta. Nossa avó se encontrava adoentada e a adolescência acabava com a mentalidade de cada um. Eu era um vida louca, não nego, e até tinha uma gangue no colégio e fazia bullying de vez em quando, já Baekhyun, um nerd veado que tinha tentado me beijar uma vez e que eu ainda fazia bullying com ele por querer dar a bunda pra alguém, mas que ficava muito puto quando alguém além de mim mexia com o moleque. Daí bancava de primo retardado que vivia na diretoria por defender o garoto que tinha a tendência a se apaixonar pelos pintos dos outros.

Consigo recordar a noite em que estava na rua pichando paredes e bebendo umas porcarias fortes demais pro meu fígado, e minha avó ligou toda nervosa dizendo que Baekhyun havia chegado em casa bem machucado e que se recusava a falar com ela.

Voltei correndo, já xingando de tudo é quanto nome o filho de uma perdida que ousou fazer aquilo que tivesse feito com Byun. Foi aí que ele, enquanto eu o consolava, perguntou o que era o amor de novo e eu respondi do meu jeito afetado pelo gueto que amor nada mais era do que aquilo que eu e vovó sentíamos por ele, não saiu exatamente com essas palavras, e sim algo mais puxado para o “a gente gosta de você mesmo sendo veado e no futuro uma criatura de cu largo, tá bom?”.

Quando nossa avó morreu, eu já estava meio perdido na vida, sabe? E no instante em que Baekhyun fez essa pergunta de novo, explodi, mandei tudo pro inferno e pro caralho a quatro. Disse a ele que o amor não existia. Aí ele inventou de me chutar no saco e eu inventei de revidar e acabei quebrando um dente dele; ficamos nós dois ferrados por um bom tempo, eu com o saco roxo e um Baekhyun banguelo naquela idade. Enfim, fizemos as pazes logo depois, fui preso várias vezes e somos bons primos até agora. Uma história mais bonita que aquelas que passam de tarde na versão coreana sem muita polêmica dos Casos de Família.

Contudo, mano, parando um pouquinho pra pensar aqui com meus culhões, essa pergunta do que diabos é o amor me deixa bem curioso. Não tenho muita base pra responder essa questão, visto que a coisa mais próxima que cheguei de um lance romântico com alguém se resume nas ficadas que tive ao cair na gandaia com as cocotinhas depois que saía do xilindró e nada mais do que isso.

Porque, é claro, não dá pra contar e tirar algum conceito de amor do tanto de vez que assisti um doido querendo se casar com a descabelada da Julia Roberts vestida de noiva que fugia em um cavalo pelo matagal, ou de um cara com nome de mulher, um tal de Darcy, que usava uma calça feia pra caramba e que se declarava pra uma mal-amada do século passado bem no meio da chuva pra levar um fora no duro; de um cara que foi pago pra seduzir uma menina problemática que no final fala as dez coisas que mais odeia nele, lavando a roupa suja bem no meio da sala de aula – processava por difamação pública –; ou de um velho casado que começa a fazer aula de dança com a Jennifer Lopez, mano, a Jennifer Lopez bunda de tambor!, e que não trai a esposa; ou da guria doida que ainda quer casar com o cara depois da sogra com o rosto cheio de botox e de nome de viola quase mandá-la pra cova. 

Olha que me disseram que esses filmes eram de amor, nem vou dizer o que achei da vez que assisti Diários de uma Paixão ou P.S. Eu te amo. Por favor, de amor aí não tem nada, só dá gente trouxa nessas produções, velho.

Daí me questiono novamente o que droga é esse treco de amor. E nem venha me dizer que talvez seja um anjo descido do céu e encarnado em uma pessoa destinada à nossa vida que trará alegria, prosperidade, sonhos e aspirações, uma família, uma casa grande com três filhos e um cachorro chamado paçoca. Ou que talvez esse amor seja um demônio maléfico recém-saído do inferno, destinado a encontrar uma presa e devorá-la aos poucos, começando por seu coração e então por seu corpo para, depois de tanto roê-lo até a alma, jogá-lo a sangue frio nas guias da desolação.

Renego essas definições saídas de livros, mano, ainda mais se forem livros escritos pelos amigos com S de sofrimento, Shakespeare ou Sparks, porque de desgraça já basta a realidade; fiquem aí com essas histórias pra gente doente que não tem muito o que fazer na vida.

No fim, não consegui chegar a uma conclusão exata do sentimento que causava uma comoção em muitas pessoas e que dava o sustento para outras através de livros cheios de bobagem. Ficar pensando só me fez perder umas boas horas de sono naquela noite, onde fiquei grande parte do tempo olhando pra Do Kyungsoo, este que dormia como uma pedra deitado em meus braços.

Mas da única coisa que eu tinha absoluta certeza naquele instante enquanto via o menino dormir de jeito profundo, era que daquela boca avermelhada eu gostaria de provar por muito mais tempo e que, sinceramente, não ia me importar de ser um veado meio apaixonado pelos beiços em formato de coração.

Na manhã seguinte, nem bem esperando o sol dominar o céu com o ar da sua graça amarela, Kyungsoo se colocou de pé. Eu estava em um estado semidesperto e o assisti levantar-se com cuidado, saindo do meu aperto com delicadeza. Graças a Deus que ele não ficou em um desses momentos de vou-admirar-meu-homem-adormecido, como Baekhyun tinha o costume de fazer com Luhan.

A primeira coisa que Kyungsoo pensava antes de abrir aquelas suas burcas gigantes se resumia em tomar banho, tirar os germes e bactérias do corpo o mais que depressa. Certo que houve uma exceção no dia anterior, onde a primeira coisa que ele pensou ao despertar foi o meu nome por não me encontrar esparramado na cama junto de si, coisa que o levou a sair de pijama e tudo pela casa à minha procura. Porém, ali deitado no colchão fofo estava Kim Jongin sem camisa, de um jeito quase vivo, quase morto de cansaço − eu já não tinha mais idade pra varar a noite ou perder horas de descanso em festinhas de buffet ruim, cara.

Levantei em seguida por conta da bexiga explodindo e fui ao banheiro, fechando a cara ao encontrar a porta trancada sem mais nem menos e me xinguei mentalmente por não ter levantando primeiro.

− Kyungsoo! – chamei. – Abre essa porra da porta, quero mijar!

− Eu estou usando! – respondeu.

− Tá usando o chuveiro, não a privada. Abre aí ou vou mijar nas calças.

− Estou usando! – repetiu.

− Kyungsoo, eu só quero mijar.

− Mas eu estou pelado!

− O banheiro tem cortina, sua anta – falei. – E eu tenho tudo o que você tem, e duas vezes maior. Abre essa bosta logo.

− Jongin!

− Não me faça repetir, Do Kyungsoo.

A porta foi aberta segundos depois e um punhado de vapor quente saiu dali. Em seguida, uma cabeça molhada apareceu meio tímida para me dar as boas-vindas e dizer uma das coisas que achei muito idiota à primeira vista, visto que o lugar possuía uma banheira com chuveiro sobre si, enquanto uma cortina protegia e dava privacidade ao banho num todo, e eu já tinha visto a criatura parcialmente pelada na noite anterior.

− Promete que não vai olhar?

Revirei os olhos e concordei a contragosto, não acreditando na baboseira que havia acabado de ouvir. Entrei no banheiro úmido e vi Kyungsoo enrolado em um roupão de bichinhos ao canto, sem a mínima intenção de arredar o pé dali.

− Você pediu pra eu não olhar, mas vai ficar aí no canto me agourando enquanto faço xixi?

− Só vou esperar você terminar – respondeu.

− Pode esperar tomando banho – resmunguei ao Kyungsoo, sentindo seu par de olhos imensos em mim. – Já falei que não vou olhar, criatura, e tem uma droga de uma cortina pra manter sua pureza longe dos meus olhos.

− Sério que não vai olhar, Jongin?

− É.

− De verdade que não vai olhar?

− Se você não entrar logo debaixo desse chuveiro, sua coisinha, eu vou aí e te coloco a força, tá entendendo?

E sem abrir a boca num pio, Kyungsoo tirou o roupão e voltou para debaixo do chuveiro.

Entretanto, já falei um monte de vez que eu não presto, que não valho um centavo ou o ar que eu respiro, não falei? Falei, e torno a repetir tudo isso aqui de novo: Kim. Jongin. Não. Presta. Mano. Pois veja bem, é normal que se você for um alguém não correlacionado com o lado maligno do reino de baixo, mesmo que esteja curioso a respeito, mesmo que sinta uma vontade desesperada de olhar ou coisa similar, obedeça ao pedido de que em hipótese alguma, sob a força do céu, não irá dar uma espiadinha sequer seja no que for. Porém, a vibe aqui é outra e convenhamos que ir contra as regras é mais gostoso. Principalmente pra mim.

Mal terminei de esvaziar a bexiga e de escovar os dentes e me peguei encarando a cortina bege com grande atenção, assistindo a vaga sombra de um corpo esguio debaixo da água. Kyungsoo estava ali dentro, todo molhado e com cheiro de sabonete antibacteriano, isso me deixava curioso, sabe? Precisava saber se aquele meu lado enrustido recém-descoberto não só ficava meio balançado com a boca do Kyungsoo; era preciso fazer uns testes com ele nu, tirar as dúvidas em uma prova real toda molhada, algo mais do que justo, não é mesmo? Justíssimo.  

Revestido por esse argumento irrefutável, tirei a calça e entrei com tudo para junto de Kyungsoo. Ele ficou assustado e quase escorregou de bunda no chão da banheira, mas o segurei firme prensando seu corpo a mim. Tinha que ver a cara dele, meu. O menino não sabia se gritava por socorro devido ao susto ou por desespero por estar em contato tão profundo comigo no lance de pele com pele, germes e mais germes fazendo interação logo de manhã e justo em seu banho pra se desinfetar das sujeiras. Ainda bem que Kyungsoo não era asmático, ou já teria perdido o ar dos pulmões ali mesmo. E acho que ele chegou a cogitar vagamente em se suicidar com a mangueirinha do chuveiro tamanho o seu desespero pela situação.

Esperei que a respiração dele voltasse ao normal, vendo seus lábios moverem-se naqueles números ímpares que eu o via resmungar para si mesmo nos corredores do colégio. 1. 3. 5. 7. 9. 11. 13. 15. 17. 19. 21. 23. 25. 27. 29. 31... 75. 79. 81... 99. 101. Kyungsoo terminou sua contagem e respirou fundo, fitando meus olhos e murmurando meu nome como um alívio. 

− Você tá bem? – perguntei. Ele aquiesceu fracamente.

− Só fiquei assustado – falou. – Me pegou de surpresa.

– Posso te soltar?  − continuei. – Você não vai cair se eu te soltar, vai?

Ainda assim, não o soltei. Ele tinha um leve tremelique nas mãos e as pernas pareciam meio bambas, por isso me sentei na borda da banheira encostado à parede e o fiz se sentar sobre meus joelhos. No decorrer de alguns longos minutos, a gente ficou em silêncio. Eu não sabia bem o que falar; queria pedir desculpas esperando que isso o fizesse voltar ao normal, queria perguntar por que é que tinha ficado tão assustado àquele ponto, porém, só me mantive de bico calado pra não fazer outra merda.

− Viu a piscina que tem lá fora? – Kyungsoo finalmente falou, não olhando diretamente pra mim. Tinha, de fato, reparado na piscina e reparado também que ele não gostava muito do lugar. Não perguntei o motivo por presumir ser mais uma de suas maluquices relacionadas aos germes da vida. – Quando eu era mais novo, alguns dos meus primos invadiram o banheiro em que eu estava e me levaram nu pra lá – contou. − Não que eu tivesse medo de água, mas não sabia e ainda não sei nadar. Então fico assustado quando algo assim acontece. – Riu baixinho. – Pensei que quase fosse morrer de novo.

Fiquei tentado a pedir nomes para anotações futuras, sabe, pra bater um papo mais tarde, trocar umas ideias, dar uns toques e uns avisos, mas vendo o jeito que ele estava, preferi suspirar de alívio. A vingança ficava pra depois.

− Pensei que estivesse assustado por causa dos germes, com a gente tão próximos assim.

Kyungsoo negou.

− Não fico tão paranoico pensando em germes ou que preciso me limpar quando você me toca – confessou baixo, evitando meu olhar. – Você é a única pessoa que deixa minha cabeça assim, Jongin, meio nas nuvens.

Na real, cara, o porquê de eu me sentir ao mesmo tempo tão bem e tão mal depois de ouvir uma coisa dessas eu não sabia, no entanto, gostei de ver o sorriso bobo cheio de dentes de Kyungsoo quando lhe dei um carinho nos cabelos molhados. Gostei também de ouvir o seu suspiro de prazer quando apertei as carnes dos seus quadris e mordisquei sua boca de leve, indo para um beijo demorado logo em seguida. De novo, fui correspondido e de novo, com direito a aprofundar as coisas.

Eu até queria aprofundar minhas coisas nele, mano. Embora Kyungsoo estivesse pelado, eu só de cueca, a gente num banheiro sozinhos, um clima mais quente que o verão inteiro, tudo colaborando pra isso, parei por motivos desconhecidos. Não deveria ter parado, porque parar significava refletir e foi isso que Kyungsoo fez assim que nos separamos; o menino botou aquela cabeça grande pra pensar.

 − Por que fez isso, Jongin? – ele perguntou. – Por que me deu carinho ontem, por que me beijou, por que me chup– Kyungsoo parou de falar abruptamente. – Enfim, por que fez todas essas coisas?

Dei de ombros pensativo, enquanto buscava mentalmente uma resposta pra ele e pra mim mesmo. Eu também queria saber, irmão. Queria saber por que diabos eu tinha feito essas coisas que nunca sequer pensei que faria na vida inteira. Olha que fiquei preso com um bando de homem por bastante tempo e sob o risco de quase perder a dignidade de existir com o parceiro de cela maluco. Contudo, nunca, jamais, em nome do céu inteiro, senti vontade de me correlacionar com os irmãos do xadrez. Aquilo era só com Kyungsoo.

Francamente, eu precisava de um help através de um manual bem detalhado pra quando se descobria que a gente tem umas tendências veadas no sangue.    

− Porque somos namorados? – sugeri.

− De mentira – ele enfatizou.

Suspirei derrotado.

− Olha – comecei −, eu nunca gostei de outro homem, e muito menos quis beijar um, mas ficando esses dias com você... – deixei a voz morrer. – Tenho sentido umas vontades estranhas.

− Que tipo de vontade?

− Vontade de te tocar – falei. – De te beijar. – Passei um dedo úmido por sua boca, ouvindo sua respiração descompassada. – De te foder.

As bochechas do garoto ficaram meio rosadas e ele finalmente se deu conta da real situação. Ele pelado, eu de cueca dura, ele sentado sobre minhas pernas apertando minha cueca dura, eu aliciando sua bunda, ele fazendo um tipo de carinho com a mão que estava em meu pescoço, eu beijando de vez em quando seu pescoço. Resumidamente, era preciso que os senhores do saber dessem uma nova definição pra mentirinha, porque daquele jeito que a gente se encontrava não tinha maneira de alegar que era um namoro falso. Sei que produtores de filmes pornô pagariam bastante pela interação química que rolava violenta entre o miúdo e eu.  

Kyungsoo até tentou se separar.

− Não seja tímido. – Segurei seu corpo bem forte no meu colo. − Ontem à noite eu te vi praticamente pelado.

− É diferente, Jongin.

Arqueei uma sobrancelha.

− Eu te chupei, Kyungsoo – disse. – E apesar de você ter dado um ataque de esquisito depois, sei que gostou daquilo.

− J-jongin.

− E eu sei que você gosta do jeito que a gente tá agora.

Mano, se o Kyungsoo não me desse um chance naquele instante, eu ia reclamar e apelar pra um processo mais tarde contra essa sociedade dos veados de nascença, cara, porque até eu tinha ficado seduzido comigo mesmo. Sério. Quer dizer, se fosse eu no lugar do Kyungsoo que tem essas tendências fortes por meninos, e uma criatura meio parecida com a minha pessoa viesse com um papinho do tipo cheio da sedução na fuça, não pensaria duas vezes antes de pegar o sujeito pelo pescoço e mamar a existência dele sem deixar uma gota escapar.

− Só vamos curtir, Soo – apelei.

Cara, eu apelei. Kim Jongin apelou pra Do Kyungsoo, aquela criatura esquisita. Justamente pra ele. É, irmão, essa vida de rapidinha com a mão direita no banheiro não tava sendo fácil. Até os mais fortes caíam, pessoal. E também não dava pra se fazer muita coisa com o autocontrole da gente quando se tinha um Kyungsoo pelado e de bônus, molhado e um extra bônus, sentado no colo alheio.

Curtir, que vem do verbo “vou beijar Kyungsoo ao ponto de deixá-lo com os lábios roxos”, dava para ser conjugado de muitas outras maneiras. Colocando o curtir na primeira pessoa do singular, eu não dei tempo pro Kyungsoo responder minha apelação e beijei a criatura. Na segunda e na terceira pessoa, a coisa só rolou e virou o nós dois debaixo do chuveiro com água quente da primeira pessoa do plural.

Depois, o curtir deu espaço pra outro verbo, o tal de perdido, que poderia ser aplicado em uma frase da seguinte maneira: “eu perdido em Kyungsoo”. O resto, cara, o resto se baseou comigo pagando outro boquete nele. Infelizmente, não tive essa mesma sorte, faltava muito ainda pro Kyungsoo ter coragem de me chupar, mas ele me ajudou bastante com sua mão.

Por fim, nossa curtição no banheiro chegou aos lençóis da cama que dividíamos. Deitei Kyungsoo lá – antes tive que esperar que ele se secasse, só que o miúdo demorava uma eternidade pra passar a toalha no corpo, daí fiz isso pra ele como um favor – e me coloquei sobre si. Nem preciso dizer qual minha vontade pro momento; afinal, ele estava só de cueca samba-canção, e eu com uma mísera toalha amarrada na cintura.

Porém, a gente não faria aquilo. É sério. Eu pelo menos não... Como explicar? Apenas não queria fazer uma coisa daquelas em plena sete da manhã e em um lugar que não passasse aquele clima de fodinha por conta de uns pirralhos que ficavam gritando em frente ao corredor do quarto.

Além do mais, segundo os sussurros do Kyungsoo, ele era virgem. Disso eu já sabia, porque só vendo pelo seu jeitinho dava pra perceber que a criança era imaculada dos pés à cabeça. E bom, posso ser um canalha, aquele que não presta e que nunca vai prestar no futuro contínuo, mas nunca tratei mal os virgens, e é justo que a primeira vez dele seja pelo menos um pouco especial; suponha-se que dar a bunda doa muito.

A única coisa que fiz naquele instante se resumiu em beijar a pele do pescoço de Kyungsoo. Aí, assim que fui seduzido por seus beiços vermelhos, pedi que ele esperasse um pouco e corri para o banheiro. Voltei dois minutos depois e o encontrei com os olhos voltados pro teto, totalmente fissurado com uma rachadura que havia ali. Demorou para que ele me notasse e quando o fez, sentou-se como um indiozinho na cama à minha espera. Me aproximei também e fiz o mesmo, apenas buscando seus dedos pra que pudesse entrelaçar nos meus.

− Escovei os dentes, Soo, agora a gente pode se beijar – falei.

A reação do Kyungsoo foi bonitinha. Primeiro, ele me encarou não entendendo bulhufas, em seguida, pude ouvir seus neurônios fervilharem e então seus olhos tomaram um tamanho maior do que eu poderia imaginar; ele finalmente se lembrou da noite anterior onde deu um piti depois que o chupei e fui trocar um beijo consigo com a boca repleta do sabor da sua porra, onde mais tarde a criatura teve a ousadia de dizer que eu deveria pelo menos escovar os dentes.

A última coisa que Kyungsoo fez naquele momento foi o de me dar em acréscimo um sorriso de orelha a orelha igualzinho ao de uma criança quando ganha um filhotinho de cachorro.

− Sério que você escovou os dentes só pra me beijar? – perguntou.

− Ou eu escovava essa droga, ou você ficaria cricri não querendo trocar uns carinhos comigo por ter te chupado de novo.

Kyungsoo riu e engatinhou até o meu colo sentando ali, mas ficou incomodado com a toalha e puxou com tudo, revelando um Jongin semidesperto novamente. Com as bochechas coradas devido ao “danadinho” que soltei, ele tapou o lugar com a toalha e ajeitou-se em meu colo de modo que ficasse confortável. Não demorando demais, sua boca veio de encontro a minha, suspirando assim que teve contato com meus lábios ardidos pelo mentolado da pasta de dente.

Kyungsoo deu fim na ação pra me olhar mais uma vez e sorriu de novo à toa, meio que todo bobinho, fazendo com que os olhos redondos sumissem no gesto. E murmurando meu nome, ele me beijou outra vez de um jeito tímido que, após minha resposta, se transformou num beijo cheio de dengo.

Através disso e de outras coisas que tive a chance de observar e de vivenciar com o miúdo, descobri que para deixá-lo contente não precisava de muito. Bastava o simples ato de lavar as mãos antes de tocá-lo, de amarrar os sapatos com o laço que não o fazia ficar neurótico ao ponto de se ajoelhar e refazer o nó; de dobrar as roupas, quer dizer, de pelo menos esconder as ditas cujas dentro da mala bem escondido, e de escovar os dentes pra trocar uns carinhos com direito a mão boba.

Era preciso apenas sacrificar alguns hábitos pela sua felicidade, nada de mais. E sinceramente, quando Kyungsoo exibia suas esquisitices regadas de certos encantos por meio de um sorriso de olhos fechadinhos ou falando aquela sua língua afetada por uma penca de números, aquela droga do meu coração ficava desnorteado.

Velho, esse garoto acabou se tornando, mesmo que eu não quisesse, uma das coisas que eu mais achava adorável no mundo todo. O único porém que me fazia sentir um pouco de medo era de que talvez Kyungsoo se tornasse algo que eu quisesse para sempre ao meu lado.

E todo mundo sabe que o tal de para sempre não existe, principalmente se vier antecedido do felizes. 

 

*

 

Das coisas boas que fiz ou que vivi na vida, o que dá uma listinha humilde pra não dizer vergonhosa, parte daquele domingo na casa da família Do entrou para o ranking em primeiro lugar. Embora minha família fosse constituída por Baekhyun e Luhan, as duas pessoas que eu mais amava no universo e que agradecia por ter como parente, o sentimento de estar rodeado de tantas pessoas tagarelas com os mais variados jeitos, uma gentinha que gostava muito de um leve e trás e a cia da fofoca – com a exceção de uns cidadãos que não me desciam −, era estranhamente bom. Em especial pra rir da desgraça alheia, porque aí não se riria sozinho, teria companhia na causa.

Além do mais, a avó do Kyungsoo podia ser uma velha coroca que inspirava um sentimento de ódio no coração em certos momentos, mas a versão simpatia do Matusalém me trazia lembranças da minha senhora Kim. Resumidamente, eu desgostava daquela gente por não compreender o miúdo, isso não dava pra negar, mas curtia alguns momentos com a família de coelhos.

Após nossa brincadeira no quarto de manhã, obriguei Kyungsoo a me seguir pra que eu e ele pudéssemos perambular juntos pelo resto do domingo de um lado a outro.

− Não quero ir – ele protestou na varanda da casa, se recusando a dar mais um passo sequer para fora.

− Para de ser fresco e bota a cara no sol, Kyungsoo.

Fazendo um beiço maior que a sua existência inteira, ele saiu e parou ao meu lado. Ri do jeito que a criatura estava vestida parecendo uma criança saída do maternal com aquele chapéu de pescador, o macacão jeans e uma camiseta branca por baixo – e só vestiu isso por causa da minha insistência em sair do preto da vida. Nas costas, Kyungsoo levava uma mochilinha cheia de coisas para sua salvação caso se perdesse – a gente só ia dar uma volta por aí, veja bem. Desde repelentes à caixinha de primeiro socorros, aquela mochila era a versão compacta de Nárnia.

Era um dia ensolarado e de temperatura propícia a um mergulho no riacho que existia próximo à propriedade, porém, como Kyungsoo não sabia nadar e queria manter distância de lugares com água e que trouxesse de bônus seus primos, a gente ficou por ali mesmo, dando umas voltas pela extensa vinícola da família e roubando uvas de algumas videiras.

Um pouco antes do almoço, paramos debaixo de um salgueiro e estendemos uma toalha pra fazer um lanche, tomar água e descansar. Assim que enganei a fome com algumas barrinhas de cereal nutritivas que prometiam ajudar na flora intestinal, deitei na toalha e peguei um capim pra mastigar a ponta igual se faz naqueles filmes de fazenda. Em determinado momento, cansado de olhar pro céu e ver o formato das nuvens, desviei o olhar para observar Kyungsoo sorrindo para um dente-de-leão que crescia próximo à toalha.

Ele não tinha o costume de sorrir tanto, cara. Sempre sério, de cara fechada, beiço emburrado e preso no próprio mundinho, mas estranhamente, isso mudava enquanto eu estivesse por perto. Pra se ter uma noção, Kyungsoo passou grande parte do passeio sorrindo à toa, como se aquilo fosse a coisa mais divertida pra ele.

– Você parece feliz – comentei em um tom baixo, deslizando os dedos por suas costas. Me surpreendi bastante ao ter uma resposta sua, já que era comum ser ignorado por Kyungsoo quando se encontrava fissurado naqueles seus momentos de tico e teco afetado.  

− E eu estou feliz.

− E será que eu posso saber por quê?

Antes de responder, Kyungsoo se virou pra mim e sorriu. Foi aquele mesmo sorriso que vi na biblioteca, lá na seção do hospício intelectual popularmente conhecido como filosofia que te reprova na escola. Lembro que fiquei assustado com o sorriso, cheguei até a comparar o dito cujo com o Smeagol avistando seu precioso. Mas sei lá, irmão, no domingo foi diferente, porque me senti bem mexido diante da expressão do garoto. Talvez fosse a brisa, o sol ardido ou aquele capim adubado com produto ilícito, só que o sorriso de Kyungsoo nunca pareceu tão bonito pra mim como naquele instante.

− Por sua causa, Jongin.

Nossa, cara.

Chupa isso, Shakespeare.

− Então vem cá, Soo – chamei. – Vem cá dividir essa felicidade me dando um beijo gostoso.

Infelizmente, só rolou uns beijos. Tentei convencer a criatura pra gente brincar como de manhã no quarto, trocar uns carinhos de portas fechadas, mas ele alegou que estávamos a céu aberto, correndo o perigo de não sei quantos porcento em alguma coisa que eu também não sei o quê – ocupado demais chupando o pescoço dele −, e que não faria nada quando tinha um esquilo tarado nos observando. Cogitei na ideia de levá-lo pro matinho, porque o único bicho que ele teria que se preocupar seria eu, mas me calei. Além disso, precisava lembrar de no futuro nunca pedir pro garoto que me deixava duro usar uma porra de macacão.

E entre um beijo e outro, Kyungsoo inventou de pensar no bendito “nós”. Foi o famoso “precisamos conversar a relação” de um namoro ou rabicho dos filmes de terror da vida real. No entanto, achei justo trocar um lero sobre aquilo, já que se precisava firmar o conceito de curtir entre eu e ele.

− Jongin, nós vamos ficar assim amanhã? – perguntou. – Ou... Tudo isso vai acabar junto do fim de semana?

− Eu não sei – respondi sendo verdadeiro. Pensei durante alguns minutos acarinhando o rosto dele e suspirei. – A única coisa que sei, Soo, é que várias semanas se passaram, que ontem foi um dia, hoje foi outro e que em todo esse tempo eu fiquei com você, certo que fui coagido a isso, mas eu gostei apesar de tudo. – Sorri. – Por isso eu acho que enquanto tiver você por perto, vou continuar sentindo essas vontades estranhas.

− Então, se você me ver amanhã – Kyungsoo murmurou –, ainda vai querer me beijar, não é?

− Se eu te ver amanhã, vou querer fazer mais que isso, miúdo.

Porém, como disse antes, apenas parte desse domingo entrou para o ranking de coisas boas que fiz ou que vivi na vida, pois foi à noite que essa possibilidade do amanhã que eu poderia ter com Kyungsoo se tornou tão impossível quanto se poderia imaginar. E tudo por causa de algo, mano, que não passava de uma bobeira sem igual em comparação a problemas mais graves. Tudo por causa de ciúmes, aquele sentimento que torna alguém capaz de qualquer coisa, de inclusive acabar com a tua vida, se estiver com o espírito possuído pelo treco.

Resumidamente, Park Chanyeol fodeu comigo. O cara estava simplesmente enciumado pelo fato de Kyungsoo, o primo que ninguém dava um real, aparecer por lá com um namorado que, por essa eu merecia um Oscar, transparecia tanto carinho por ele. Pra piorar, o cidadão mexia com os lances jurídicos da vida, ia se tornar mais um corrupto de gravata protegido pela lei, vulgo advogado. E que só por causa disso, achou interessante pedir pra uns amiguinhos em pleno fim de semana puxarem meu histórico de existência inteiro.

Olha, irmão, com esses lances de me foder eu já estava acostumado, entendia bem das pirocas do dia a dia, mas me surpreendi muito ao perceber que havia chance da gente encontrar pirocas maiores pelo caminho. Aconteceu isso quando Chanyeol me chamou pra conversar na biblioteca da casa, me dando um xeque-mate definitivo. Primeiro, ele veio com um discurso comovente sobre Kyungsoo que fazia muito sentido, aquilo era verdade.

− Que tipo de futuro você vai dar pra ele? – falou. – Você não tem carreira e nem vai ter, porque ninguém quer contratar ex-presidiário; não tem família influente, não tem dinheiro, não tem absolutamente nada. Além do mais, você é capaz de amar Kyungsoo do jeito que ele é?

E continuou:

− Quando digo que conheço Kyunggie desde pequeno, é sério – Chanyeol disse. − Vi muita gente fazendo promessas a ele, mas assim que o conheciam de verdade, não pensavam duas vezes antes de machucar seus sentimentos, de chutá-lo pra longe, ferindo cada parte do coração dele.

− Você foi uma dessas pessoas – joguei a verdade na cara mesmo. – Kyungsoo me contou que eram amigos e que do nada, sem mais nem menos, você passou a maltratá-lo. O que me diz disso, amigo Spock?

O cara se calou e me fuzilou com ódio.

− Para de fingir que se importa com o Kyungsoo – continuei. – Porque se tu se importasse mesmo, não teria deixado o garoto no momento que mais precisava.

Chanyeol riu ironicamente.

− Eu vou só dizer uma vez – falou pausadamente −, se afasta do Kyungsoo.

− Me obrigue.

O filho da mãe ia dar um bom advogado no futuro, e se não desse, a carreira de detetive cairia bem, porque trazendo todo o meu passado à tona, ele ainda tinha conseguido obter de alguma maneira maligna as benditas provas que acabariam com a minha liberdade condicional – as fotos e o vídeo que Kyungsoo havia usado para me obrigar a ser seu namorado de mentirinha − me colocando na cadeia como um xis nove, e ainda tinha uma história sobre o meu pai ter atirado no pai de Kyungsoo pra me ferrar de vez; como será que Kyunggie, palavras dele, reagiria ao saber que o meu pai havia atirado no homem que o garoto mais amava no mundo?

Francamente, eu não sabia disso e foi o segundo momento que mais xinguei a imprestável da criatura que me colocou na barriga da minha mãe. No entanto, de acordo com a história que o Spock me contou, se meu pai não tivesse feito aquilo, hoje eu seria o meio-irmão do Kyungsoo.

Segundo a fofoca, minha mãe trabalhava de secretaria na empresa que distribuía os vinhos do viúvo Do, este que estava com o vagalume aceso pro lado dela há bastante tempo. Os dois tiverem aquele romance safado de chefe-secretária, e terrivelmente apaixonada, minha mãe disse que largaria do traste com quem se casou para se unir à família de coelhos e ser a nova mamãe da parada. Mas aí, dominado por ciúmes, o macho do Kim sentiu o território ameaçado e vestiu a camisa de marido abandonado, corno e possesso fazendo o que fez.

Isso explicava a razão de minha mãe ter feito consigo algo tão Romeu e Julieta ao fim da história. Afinal, o cara que ela amava foi morto pelo cara que só a machucava – mas mãe, não explicava o motivo de ter me deixado sozinho no mundo, a senhora vacilou feio, mulher, onde já se viu sofrer por pinto velho, por favor, né.

Chanyeol teve o descaradamento de acrescentar no final que se eu não fosse embora imediatamente, deixaria que no dia seguinte a família inteira soubesse da mentira do namoro, fazendo Kyungsoo passar vergonha na frente de todos os parentes.

Irmão, eu só não quebrei a cara bonitinha da vara ambulante por forças superiores. Como tive vontade de chutar aquele traseiro branco até ele pedir arrego e gritar pela avó, mano. Nunca senti uma vontade tão grande de matar alguém como naquele instante, meu.  

− Então esse é seu ultimato? – perguntei a Chanyeol. – Tudo bem, eu vou embora. Mas presta bem a atenção nesse recado que vou te mandar. – Aproximei-me dele e puxei o colarinho da sua camisa para que ficasse no mesmo nível que eu. – Nunca fui pra cadeia por machucar alguém, mas se tu tiver feito um isso pro Kyungsoo, Chanyeol, volto pro xadrez com prazer, porque tua cabeça vai descolar do pescoço.

− Isso é uma ameaça?

Eu ri alto; o cara não manjava dos lances da cadeia.

− Isso é um aviso – expliquei. – Ameaça vai ser quando eu te pegar de jeito.

Deixando a biblioteca, subi ao quarto só pra que pudesse pegar minhas trouxas e assim partir de vez. Antes, porém, despedi-me de um Kyungsoo em profundo sono através daquele carinho vagaroso em suas bochechas, e roubei o último beijo doce que teria a chance de provar de seus lábios de formato adorável. Ouvi meu nome ser resmungado de um jeito manhoso – Jongin...−, e sorri por saber que Kyungsoo sonhava comigo. E gravando essa imagem na cabeça, girei a maçaneta da porta e saí.

Depois disso, sumi pra bem longe.

Longe demais de Kyungsoo.

 

*

 

247 dias, 5.928 horas, 355.680 minutos e 21.340.800 segundos.

querido jongin,

não sei onde você está. é frustrante, sabia? tão mais frustrante que as bactérias que as privadas do colégio têm. apesar de baekhyun dizer que você está bem na casa de um amigo chinês do luhan – pensei que fosse aquela tal do yifan das tatuagens (e quantas tatuagens ele tem!, é mais que você, jongin, ele parece um monte de rabisco bonito), e não, eu não banquei de perseguidor, talvez um pouquinho −, eu só queria te ver. por que me deixou daquele jeito, hein? por que foi embora? você disse que a gente ia ficar junto, jongin, eu acreditei nisso. não liga pro chanyeol, ele é o maior bebê chorão, e volta, eu já cuidei do chanyeol, tá bom?

ah... mas...

fiz uns cálculos, tantos números, tantas probabilidades e não sei se um dia você vai voltar ou se pelos menos pensa em mim.

mas eu penso em você.

todo dia.

toda hora.

minuto.

segundo.

eu penso em você nas rachaduras do chão ou do teto que vejo sem querer, penso em você quando paro pra ver os riscos e formatos estranhos das coisas; penso em você enquanto caminho 7.569 passos até o colégio; penso em você quando volto pra casa nos 7.569 passos; penso em você quando olho as estrelas espalhadas no céu; quando me dou conta das bactérias por todo lado; quando vou fechar a porta pela décima vez, ou lavar as mãos pela vigésima vez no dia; quando vejo os livros desorganizados, ou o terceiro botão aberto da camiseta daquele homem do ponto de ônibus; penso em você quando ouço o click-click-click que uma caneta faz; quando assisto as gotas de chuva molharem minha janela (e eu conto todas, todas), ou quando vejo o pitágoras girando e girando na roda dentro da gaiola.

penso em você quando vou dormir e acabo não dormindo, porque tenho a impressão de que você possa aparecer e ir embora de novo.

eu só penso em você, jongin.

você.

você.

você.

você.

 

*

 

341 dias, 8.184 horas, 491.040 minutos e 29.462.400 segundos

querido jongin,

chanyeol me falou que contou a você sobre nossos pais. eu sabia de tudo. sempre soube, jongin. acabei descobrindo numa vez que fui fuçar nas coisas velhas do meu pai, e achei uma foto dele com uma mulher bonita que se parecia muito com você, daí fui tentar encontrá-la e me falaram que ela... bom, isso me fez saber da sua existência e eu não via a hora de te encontrar. lembra de como fiquei feliz ao te ver no colégio, lá no corredor de filosofia? então.

olha, perder meu pai foi ruim, mas eu era muito pequeno pra poder sentir alguma coisa, só que sabe o que pensei quando parei pra refletir tudo? pensei que se sua mãe e meu pai tivessem ficado juntos, seríamos meio-irmãos. e meio-irmãos não podem se beijar.

eu gosto de te beijar e só você. não ligo para as doenças da boca ou os milhões de germes na saliva quando te beijo, por isso foi bom não sermos meio-irmãos.

pensamento meio egoísta, não é?

você me deixou egoísta.

 

*

 

1095 dias, 26.280 horas, 1.576.800 minutos e 94.608.000 segundos.

querido jongin,

1, 3, 5, 7, 9, 11, 13, 15, 17, 19, 21, 23, 25, 27, 29, 31, 33, 35, 37, 39, 41, 43, 45, 47, 49, 51, 53, 55, 57, 59... 75, 79, 81... 99, 101, 103, 105, 109... 377, 379, 381...895, 897, 899... 3.057... 7.895... 15.453...

e enquanto eu conto, só penso em você. 

 

*

 

1.461 dias, 35.064 horas, 2.103.840 minutos e 126.230.400 segundos.

Querido-não-tão-querido-assim, Jongin,

eu te odeio.

odeio muito, numa proporção gigantesca, jongin.

odeio tanto, tanto, mas tanto que até sinto falta de você me xingando, de me chamando de miúdo. de me mandando voltar pro mar, aquela coisa de oferenda. de me mandando ficar quieto. de revirando os olhos pra mim. sinto falta de você rindo de uma careta minha. de bagunçando meus cabelos. me chamando de “soo “daquele jeito sussurrado. sinto falta e te odeio por me fazer sentir isso.

quatro malditos anos, jongin. quatro porras de ano. sim, porra.

eu fico te procurando na multidão quando vejo alguma tatuagem. te procuro nas bibliotecas da cidade, talvez esperançoso de que você esteja perdido por algum corredor só arrumando os livros. vou todo dia ver o yifan no estúdio, pensando que talvez você esteja lá fazendo uma nova tatuagem. visito baekhyun também, todo dia, querendo saber sobre você.

assisto aos programas que você disse gostar, leio os jornais que você disse ler, uma vez até tentei fumar, sabia? horrível, uma droga, mas fiz isso só porque sentia a tua falta.

quatro anos. 

quatro anos que relembro cada palavra sua. cara. mano. irmão. “sim, eu sou o namorado do kyungsoo”. cada gesto seu, o modo como mexia as mãos ou bagunçava o cabelo; que enfiava as mãos nos bolsos, que segurava um copo; quando umedecia os lábios com a língua, devagarinho. Lembro de cada movimento do seu corpo ao andar, passadas largas, dois passos por segundo. 

mesmo que o índice de criminalidade esteja tão alto, ou que a vizinha do lado tenha sido roubada, são quatro anos que não tranco mais as portas de casa sonhando com o dia de você aparecer por aqui. uma parte da minha cabeça fica “a porta está aberta, aberta, aberta, aberta, aberta, aberta” e a outra fica “jongin vai voltar, jongin vai voltar, jongin vai voltar, jongin vai voltar”. não apago mais as luzes, tento não lavar as mãos tantas vezes e tudo pra que você goste mais de mim.

bobo, não é?

bobo porque é tudo à toa, já que você não vai voltar.

e sabe o que é o pior? se em quatro anos eu não consegui te tirar da minha cabeça, o que vai ser de mim durante o resto da minha vida se você não estiver comigo, jongin?

só desaparece.

some da minha cabeça.

vai embora do meu coração que dói muito.

e sabe o que é pior? ao mesmo tempo que digo pra você sumir do meu coração, ele quer que você continue aqui.

jongin.

jongin.

jongin.

acho você é meu novo transtorno obsessivo-compulsivo, jongin, e se não for isso...

acho que te amo.

e vou desaprender de te amar.

 


Notas Finais


nada a declarar do capítulo, só estou sofrendo sozinha aqui, minha gente (escrevi essa parte do Soo ouvindo o trechinho de Butterfly do BTS, tô na bosta, mano)

MAS ENFIM, agradeço por você que veio ler, viu? Espero que tenha se divertido (e sofrido também, eu sofri aqui, confesso, faz parte da vida de trouxidão de leitor de fanfic T.T ) e nos vemos no próximo e último capítulo (que não vai sair tão já, porque logo começa as provas da faculdade, daí já viu, ou estudo ou meu rabo roda mais que pomba gira). Porém, obrigada por vir ler e por todo carinho ♥

ATÉ MAIS O/

XoXo

Ps.: TEM FINAL FELIZ SIM, CALMA, MINHA GENTE, EU SOU DO MUNDO FLUFFY, TÁ BOM?


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