História La Bruixa de Gel - Capítulo 8


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Notas do Autor


Brotei.
Peguem leve, ok?

Capítulo 8 - À Sombra da Macieira


Eu sentia meu corpo pesado. Custei a abrir os olhos e tentei entender o que era aquele céu azul sobre mim. Tinha a impressão que não era bem isso que eu deveria ver. A sombra havia mudado de lugar, então significava que já havia passado uma hora e eu precisava conquistar minha comida do dia. Aquelas pequenas e raquíticas macieiras eram, junto da única veste que trajava, meus únicos pertences. Vender maçãs para ter o que comer era minha vida.

Senti alguém esbarrar em mim e quando dei por mim um ladrão havia me roubado.

— Minhas maçãs!

Foi quando a vi. Não que ninguém soubesse ou nunca a tivesse visto, mas sempre de longe. A postura altiva, longos cabelos cor de gelo, pele pálida e olhos lilases, trajando sua armadura cristalizada. A imponente princesa Joan, comandante dos exércitos, estava na minha frente.

— O que houve?

— Fui roubado. — abaixei a cabeça, envergonhado. — Levaram minhas maçãs...

Por que disse isso? Ela tem mais o que fazer que se preocupar com um simples camponês! Mas então a vi se voltar aos soldados e, num tom imperativo, falar:

— Procurem o ladrão! Traga o meliante!

Não demoraram a trazer quem me roubou. Assisti aos soldados o forçarem a ajoelhar, como se humilhar já estivesse no pacote do castigo. A princesa o olhou com arrogância.

— Tu cometeste um crime.

— Diga algo que eu não saiba. — riu irônico o bandido.

— Então tu sabes a pena para teu delito.

A vi sacar uma espada simples da bainha que trazia junto de si. Platí era pacífica, raramente crimes ocorriam e muitas vezes eram cometidos por forasteiros. As penas eram duríssimas e roubo no mínimo era a perda de membros, até mesmo morte. Eu notei que ali seria a última pena. Não! Aquilo seria injusto! Eu sei o que é não ter o que comer, sei o que sentir o estômago doer!

— Alteza! Por favor!

Ela parou e me olhou. Fiquei intimidado, é verdade, mas me esforcei em terminar.

— Eu retiro a queixa se ele me devolver as maçãs...

Me senti analisado por aqueles belíssimos cor lilás. Acho que também analisava as consequências, afinal, apesar de pacífico, Platí era sempre atacada por djins.

A princesa então olhou para o ladrão, refazendo o ar autoritário.

— O que dizes, ladrão?

— Estão na bolsa... — respondeu, derrotado.

Um guarda tirou a bolsa e, por fim, a minha bolsa com as maçãs. Separei duas delas e as ofereci ao bandido.

— Tome, fique com estas por ter aceitado me devolver. — disse-lhe.

— O levem daqui. Estás expulso deste reino!

Os guardas prontamente obedeceram, arrastando o rapaz ruas afora. Senti algo gelado me tocar, eram as mãos da princesa em meu ombro.

— Como te chamas?

Fiquei surpreso. Engoli em seco e respondi:

— Andrew, alteza...

— Gostaria de recompensar-te por este coração generoso... Onde vives?

Senti meu rosto ferver, sabia que estava corando. Me sentia envergonhado demais para dizer que vivia nas ruas, que não tinha casa, nem família.

— Fico lisonjeado, alteza, mas não preciso de nada. O pouco que tenho me faz feliz.

— Eu insisto — ela disse, sem cortar o olhar para mim.

— Eu... não tenho casa... — disse cabisbaixo.

Ela demorou a responder algo, mas não tive coragem de olhar para a princesa.

— Venha comigo. Dar-te-ei casa e ofício. Deixa-me ajudar a ti, Andrew.

— Senhora... não há necessidade! — disse-lhe — Eu...

Um tímido sorriso foi o que vi quando consegui encarar a princesa Joan. Nunca se havia visto a princesa sorrir em público, sempre mostrando altivez e capacidade de comando. Tamanha frieza ocultava o que era mais óbvio: ela ainda era mulher, uma linda mulher.

— Eu... aceito... — rapidamente abaixei a cabeça, vermelho certamente.

Estava fraco por ainda não ter comido nada e aqueles minutos de agitação me fizeram ter vertigem. Apenas me recordo de ver um lindo corcel de gelo antes de perder os sentidos de novo.

===

Eu despertei achando um teto sobre minha cabeça e algo macio contra minhas costas. O que me cobria tinha um cheiro bom e era quentinho. Virei minha cabeça e encontrei Joan sentada numa cadeira. Sua expressão era menos austera e mais doce.

A vi se inclinar um pouco, tocando meu rosto como se quisesse verificar se havia febre. Só me sentia cansado e não febril.

— Onde estou...? — perguntei.

— No palácio, em meu quarto.

— Minhas... macieiras... vão roubar elas... — me levantei, ainda confuso — preciso ir regar...

Senti uma tontura e meus joelhos vacilaram. Eu teria caído no chão se a princesa não tivesse me segurado.

— Ainda estás fraco. Irei assegurar que nada hão de fazer com tuas macieiras... Descanse...

Ela me fez voltar a deitar e então notei uma jovem com cabelos cacheados e castanho claro, que me olhava com doçura.

— Stynx... poderia informar guardas para cuidarem da macieiras dele e buscar um bruxo botânico que possa transferir as árvores para cá? — ordenou para aquela jovem.

— Sim, senhorita... — A menina me olhou e sorriu. — Eu sou Stynx, dama de companhia da princesa. Retornarei em breve para tirar medidas suas e lhe fazer vestes...

Senti minhas bochechas queimarem, eu sabia que havia ficado vermelho. Abaixei minha cabeça, envergonhado, ao que notei que preocupei minha benfeitora.

— Por que...? — indaguei, quase pensativo — Por que está fazendo isso tudo por mim, alteza?

— Admirei tua nobreza no coração. Tu tens mais nobreza que aqueles que nasceram com ela de sangue. Quero que vivas aqui, mas não te hei de te obrigar. És livre para ir se quiseres, tudo que lhe peço é tua amizade.

Me surpreendi com o pedido. Apenas desejava que fosse seu amigo? Ela tinha damas de companhia, boa comida, servos, palácio, riquezas... Porque se importar com um humilde camponês sem teto? Então eu vi, um sorriso triste e solitário.

Vivendo uma vida regrada, como um pássaro na gaiola, liderando o alto poder militar, dona de uma magia poderosa, a princesa no fundo era apenas uma jovem garota solitária. Uma bela e solitária garota.

— Fique um tempo, pense e escolha. Gostaria que fosse meu assistente. Até ensinar-te o ofício, recupere suas forças. Não estava te alimentando, não?

— Hoje não comi... — me senti envergonhado. — Vivo de vender maçãs e tem dias que não consigo dinheiro suficiente.

Vi outra moça entrar, cabelos curtos de cor castanho escuro e expressão severa, trazia uma bandeja e pelo aroma, uma sopa.

— Pedi que preparassem uma refeição para ti. Por favor, coma o quanto desejares... — disse pegando a bandeja e me entregando — Obrigada, Giu...

Foi assim o começo dos meus dias no palácio, sem saber que era observado. Foi naquele momento que jurei me dedicar a Joan.

E foi assim, sem saber, que comecei a amar aquela princesa, de toda minha alma.

===

Os dias se seguiram. Me recordo da expressão de espanto de minha benfeitora ao saber que tinha vinte e cinco anos. Ela me julgou ser ainda um adolescente. Compreensível, eu era menos desenvolvido que um homem de minha idade pela pouca alimentação.

Joan treinou minha habilidade com espadas. Era uma espécie de precaução caso o palácio viesse a ser invadido em guerras, não tive maiores dificuldades visto que já conhecia um pouco do manejo de espadas

A cada dia eu via o quão doce e comum era a princesa. Sua máscara de frieza não existia quando estávamos apenas eu e ela, que me pedia para chamar apenas por seu nome.

Realmente, nos tornamos amigos.

Aqueles foram realmente dias felizes.

E eu a amava de verdade, mesmo que eu jamais pudesse tê-la. Eu a amava e dedicaria esse amor a protegendo.

Naquele tempo, eu só não sabia que os dias felizes teriam fim, um fim sombrio e cheio de dor. Eu não imaginava também que eu era observado com ódio. Descobri da pior maneira faltando poucos dias para a cerimônia do Réquiem acontecer.

Era noite e poucos servos permaneciam acordados. Joan havia tido cuidado de trazer minha macieira para o palácio e eu continuava a cuidar com esmero. Tinha gosto de ver ela florida, da alegria nos olhos dela quando presenteava com uma das maçãs. E ela também me presenteava com objetos de gelo e meu preferido era uma maçã, que fora o primeiro.

E lá estava eu a cuidar da árvore. Terminei os cuidados e ia me retirar quando senti um arrepio terrível, uma intenção agressiva. Desviei do golpe que vinha ao meu encontro e fiquei surpreso ao ver meu inimigo.

Os olhos brilhavam tingidos de vermelho sangue, longos cabelos negros. Era o príncipe herdeiro, senhor Marcel. Ele não me deu tempo para indagar e voltou a atacar com sua espada em brasa brilhante, Ánima de Foc.

Tive dificuldades, era muito forte. Mas eu era mais fraco, por mais insistente que eu fosse. Marcel conseguiu me encurralar e, sem chances de defesa, senti o ardor terrível em meu coração quando ele me atravessou com sua arma sagrada. Vi seu olhar sorrir, sádico.

— Tu pensas que não sei de teus sentimentos? Pedinte nojento e tolo...

Notei que ele agora estava a controlar minha vida, aquele golpe tinha sido fatal. Eu sabia que no instante que a espada deixasse meu corpo, eu estaria morto. Joan... pelos deuses, Joan não sabia o quão ruim era teu irmão!

— Joan é só minha, ela será só minha! Eu a terei só pra mim! Achava que a deixaria desenvolver sentimentos por ti... Moleque imbecil!

— És um monstro... — gemi ante a dor. — Ela saberá que tu me mataste...

— Não sou tolo de deixar provas... — ele sorriu. — Ela crê em mim tão cegamente, logo será minha e esquecerá do brinquedinho dela... Tu jamais conseguirá dizer o que sente. Jamais em qualquer existência que tiveres.

Seus olhos brilharam. Sabia que as últimas palavras seriam uma maldição.

Eu poderia matar Marcel com facilidade e requintes de crueldade, o torturando em meio a dor e desespero. Eu realmente poderia se aquele eu fosse o eu de hoje, mas naquele tempo eu era tão fraco e tolo. Minha visão escureceu, estava morrendo. Hoje eu o perfuraria com minhas agulhas...

===

— Milo! Milo!

Escutei a voz linear e tocada por preocupação de meu amigo. Com dificuldade abri meus olhos e reconheci o quarto de Hana em Aquário. Notei Camus me olhar assombrado.

— O que... foi picolé...?

— Seus... olhos...

Virei o rosto, encontrando o grande espelho que minha namorada tinha no cômodo e vi. No lugar dos meus olhos azuis eu encontrei duas esmeraldas. A cor dos olhos que eu um dia tive, no longínquo tempo onde Platí existira. Num tempo onde meu nome era Andrew e eu era um mero camponês salvo por uma princesa.

Eu havia me lembrado de tudo, nem sei porque. Mas agora entendia o vazio que tive diante do Muro das Lamentações, quando ia me sacrificar para abrir caminhos para os rapazes de bronze.

Eu iria morrer sem vê-la, iria morrer sem ter minha amada princesa. Eu não a tinha achado. E por mais de bom grado que fiz aquele sacrifício... ainda sim não era por ela.

Minha Joan... Minha Hana...

— Hana...? Onde ela está? — indaguei, ainda atordoado.

— Estava resolvendo assuntos com Atena e... Milo!

Sai em disparada. Eu apenas precisava de minha amada.

 

Continua...


Notas Finais


Não me matem, tô tentando voltar aos pouquinhos...
Vejo vcs logo.
Kissus!
:*


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