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História La Farsa - Capítulo 35


Escrita por: petrafeelings

Notas do Autor


oi minhas deusas, como estão?

nossa farsinha está quase chegando ao fim, faltam apenas cinco capítulos pra história acabar! 🤧

vamos interagir mais no twitter? eu sou a @glowituno !

espero que gostem do capítulo e boa leitura ♡

Capítulo 35 - Amado mío


Fanfic / Fanfiction La Farsa - Capítulo 35 - Amado mío

O amor não cura nada.

Sejamos realistas. O amor é um aliado em nossas vidas para trazer leveza. O amor não dói, pelo menos não quando é correspondido na mesma frequência. O amor é como um sopro de ar puro, trazendo consigo sutileza e a dose perfeita de suavidade que devemos ter no cotidiano.

Estamos em constante mudança dentro de nós mesmos. Sempre superando algo ou alguém. Quando finalmente achamos que de fato estamos estáveis, surge outra situação para nos provar que a vida é uma eterna mudança e adaptação.

E não seria diferente só pelo fato de estar na casa dos quarenta anos. Eu fiz trabalhos que me deixaram famosa no lugar onde nasci e queria permanecer ali – porque de fato, eu era feliz assim – até enfim sair da minha zona de conforto e me mudar temporariamente para uma cidade que eu mal sabia o itinerário do metrô.

Eu achava que já havia atingido minha estabilidade profissional, mas a verdade é que nunca estamos estáveis. Principalmente dentro de uma profissão cheia de altos e baixos que é o ramo da atuação.

Me frustrei ao ver todos em minha volta seguindo sua vida profissional normalmente, exceto eu.

O que havia de errado comigo?

Um amontoado de sensações ruins se apoderou da minha mente e indiretamente afetou meu relacionamento.

Naquela época, Álvaro e eu vivenciávamos uma fase complicada. E mesmo que estivesse tudo perfeito, ainda sim, eu não teria me curado apenas com o seu amor.

Obviamente ele teria sua parcela de contribuição, no entanto, a cura é algo individual. Próprio. Particular.

E o meu desenvolvimento de cura foi algo que de fato, foi atingido com sucesso. O tempo que tirei para mim mesma foi imprescindível.

Eu era uma mulher na casa dos quarenta anos com uma profissão instável e uma vida amorosa fracassada.

No final, as coisas entraram nos eixos quando comecei a olhar mais para mim mesma. Logo eu, que sempre soube cuidar tão bem de mim. Tudo se resolveu com uma boa higiene mental, viagens para países incríveis, relaxamento e terapia.

Talvez eu conseguisse passar por esse processo ao lado de Álvaro? Sim, era bastante provável. Mas naquele momento, estávamos com os nervos à flor da pele, e só iríamos nos machucar ainda mais.

Quando nos reconciliamos, tudo pareceu se encaixar novamente. A nossa conexão voltou a ser a mesma, não digo apenas no sexo, mas sim a nossa cumplicidade. 

A nossa maneira de conversar, de entender as necessidades um do outro e nos acolhermos. Sempre foi sobre apoio. Diálogo. Confiança. A admiração e o respeito que sempre tivemos um pelo outro.

Eu, a mulher que chegou em Madri de forma um tanto receosa, acabou se envolvendo na paixão mais improvável e clichê de todas: pelo seu inimigo, que também era seu colega de trabalho, onde acabou tornando-se seu melhor amigo e por fim, namorado.

Às vezes, determinadas questões mexem com a gente. Questões que achamos que nossa mente pode controlar e simplesmente deixar de lado.

Mas é aí que o coração fala mais alto.

Fala mais alto quando o amor vem como a fúria de uma tempestade, onde abala as estruturas de forma inevitável e torna impossível de controlar.

Foi assim que Álvaro chegou.

O ano virou. Já é 2019.

Passar o ano novo em Algeciras havia sido revigorante. Conhecer a cidade onde Álvaro nasceu e cresceu, passar a virada de ano com sua família, fazia com que eu me sentisse em casa. O tempo todo seus pais me perguntavam se eu precisava de algo e me fitavam com um olhar caloroso, como se nos conhecêssemos há muitos anos. 

Halina, Javier e os gêmeos também estavam lá. Seus pais não perderam a oportunidade de me mostrar os álbuns de família, tornando o clima constantemente leve.

Folheei o álbum de quando Álvaro era bebê, e um sorriso involuntário escapou dos meus lábios ao ver uma sequência de fotos dele com um ano de idade. 

Ele era um neném rechonchudo, com bochechas grandes e um sorriso enorme com poucos dentinhos. Não sei ao certo por quanto tempo fiquei admirando aquelas fotos, até sentir sua presença ao meu lado. Álvaro havia voltado da cozinha com uma taça de vinho pra mim.

As crianças já tinham ido dormir, pois era tarde. Eu, Álvaro, Halina, Javier e seus pais permanecemos acordados com a lareira acesa, bebendo vinho, comendo fondue e contando muitas histórias.

— Ei, o que está vendo aí? — ele mirou as fotos.

— Só admirando seu excesso de gostosura. Suas covinhas continuam as mesmas. Por Deus, que bebê mais lindo!

Ele abriu um sorriso gigante e envergonhado, fechando os olhos e fazendo suas marquinhas de expressão surgirem, juntamente com as covinhas.

Álvaro se aproximou rapidamente e me deu um selinho, seguido por um cheiro no pescoço roçando sua barba e quase me derreti com aquele ato – como todas as outras vezes.

Me forcei a não desestabilizar com seu toque com sua família bem ali na minha frente.

— Álvaro era um bebê lindo, León se parece muito com ele. — disse Carmem orgulhosa do filho e do neto.

Sorri e concordei. De fato, León era a cópia de Álvaro.

— Tão lindo esse anjinho! Agora a Itzi vai seu álbum da adolescência! — gritou Halina, se aproximando com o objeto nas mãos 

— Não! Não! Não! — Álvaro levantou rapidamente e tentou impedir a irmã.

Acabou que consegui pegar o álbum a contragosto dele e folheei as páginas, encontrando uma versão sua de cabelos longos e em um estilo completamente diferente do que é hoje. 

Halina e Javier sorriam discretamente, em expectativa. 

Busquei seus olhos e prendi o riso. 

— Você sempre foi lindo, cariño — sem querer meu tom de voz saiu sarcástico e acabamos soltando a gargalhada engasgada.

Algumas horas depois, meu corpo apresentava sinais de cansaço. Uma vez que a virada de ano foi na noite anterior, pouco havíamos descansado.

Todos ajudamos a arrumar a mesa e limpar a bagunça, até finalmente irmos para os quartos dormirmos.

Antes que eu saísse da cozinha, a mãe de Álvaro me chamou brevemente quando estávamos apenas nós duas.

— Itzi… 

? — havia um leve sorriso em meus lábios por ouvi-la me chamando pelo apelido.

— Você está cada dia mais linda, meu bem! Há um brilho especial em você, está radiante. — seus olhos e sua voz exalavam ternura.

— Obrigada, Carmen! — eu sorri abertamente — Estou muito feliz de estar aqui.

— Faz muito tempo que não vejo Álvaro tão feliz como agora — ela segurou minha mão — Você é muito querida por todos nós e sempre será bem-vinda aqui.

Há tempos eu também não estava tão feliz como agora. 

Suspirei ao sentir a alegria transcender. Tal sentimento percorre cada parte do meu corpo e está presente em todas as minhas células.

— Obrigada por me receber tão bem. Aliás, obrigada por tudo!  — não nos limitamos apenas a um aperto de mãos, a puxei para um abraço caloroso, que foi retribuído na mesma intensidade

Os olhos dela estavam brilhando com singelas lágrimas, assim como os meus.

A madrugada estava demasiadamente fria em Algeciras no primeiro dia de Janeiro. Estávamos todos com muitos agasalhos e meias. A lareira do nosso quarto estava acesa e tudo que eu queria era dormir aninhada no calor dos braços de Álvaro. E assim o fiz.

Ele saiu do banheiro e se dirigiu até a cama. Levantou as inúmeras cobertas e deitou atrás de mim, onde formamos uma conchinha perfeita. Ambos os corpos buscando aconchego na temperatura congelante e envoltos em nossa própria bolha.

Seu braço rodeou minha cintura e me trouxe para mais perto, grudando meu corpo no dele. Seu nariz enfiou-se em meus cabelos, onde ele sentiu o aroma do meu xampu. O rosto foi descendo até sua barba roçar deliciosamente em meu pescoço e dar alguns beijinhos no local. 

Em seguida, descansou o rosto ao lado do meu.

— Não sei se é a idade, mas o dia de hoje foi cansativo — suspirou no meu pé do ouvido.

— Eu também estou exausta, — respondi — E com frio. Meus pés continuam frios e é que estou usando muitas meias — bufei.

Viene, cariño. Te esquento — me puxou pela cintura e grudou nossos corpos ainda mais, quase desafiando as leis da física.

Nossos pés estavam entrelaçados.

— Tenho saudade dos nossos dias de calor na Tailândia — seu hálito quente reverberou em meu rosto e fez meus pelinhos se eriçarem pelo sussurro.

— Tem, é? — me aconcheguei ainda mais nele.

Os braços grandes de Álvaro circundam meu corpo e me fazem parecer ainda menor do que sou.

— Mmmm, principalmente da praia e do que fizemos lá. 

Soltei um riso nasalado.

— Se depender de mim, ainda teremos muitas aventuras como a daquele dia — murmurei.

Nossas mãos se entrelaçaram na frente do meu corpo. 

— Espero ansiosamente para viver cada uma delas contigo. — beijou minha nuca e descansou a cabeça ao lado da minha.

— Boa noite, mi amor — eu disse baixinho.

— Bons sonhos, mi vida — ele respondeu. 

Em poucos minutos, o sono nos arrebatou e pareceu nos teletransportar para outra dimensão.

Nas últimas semanas, a qualidade do meu sono havia melhorado consideravelmente. Sempre fui acostumada a dormir sozinha e achava estranho quem tinha a necessidade de dormir agarradas nas pessoas que namoram.

Mas aí veio Álvaro.

É como se seu amor me envolvesse em uma capa de calmaria e serenidade, algo extremamente viciante.

Com as outras pessoas que eu costumava dormir, nunca cheguei a ter o nível de afeição que tenho com ele.

Bom, na verdade, planejei muitas coisas na vida que não consegui cumprir. Ter planejado ficar longe de Álvaro foi uma delas.

Chega um momento na vida amorosa, que só queremos alguém para chegar ao final do dia e poder contar como foi no trabalho. Dividir seus medos e inseguranças com uma pessoa que você sabe que não irá te julgar, que vai apenas te abraçar e reforçar o quanto te admira, que estará sempre ao seu lado com todo o apoio do mundo.

Alguém que te sirva uma taça de vinho e massageie seus pés em meio à uma rotina exaustiva. Uma pessoa que faça questão de lembrar o quanto te ama profundamente e de maneira infinita, te chame pra dançar mesmo sem música e que te abraçar forte ao sentir que seu mundo está prestes a desabar.

Álvaro era aquela pessoa.

Por muitos anos, achei que o amor não existisse e fosse apenas uma mera utopia da ficção.

Mas às vezes, você nem se dá conta de quando começa a amar.

E quando percebe, já é tarde demais.

Chegava a ser irônico, já que, por meio da atuação, nos apaixonamos. Aprendi a amar com minha personagem, para enfim adentrar as camadas não-intérpretes da pessoa pela qual correspondia meu amor – não apenas o ficcional.

Não havia mais jeito. Álvaro García já havia conquistado cada pedacinho do meu corpo e da minha alma. 

Talvez eu tenha entendido isso tarde demais.

Mas agora não importa, temos o resto da vida para desfrutarmos do nosso amor imutável e transcendente.


                        ❂❁✦✹✦❁❂


Dezembro, 2018. Tailândia 


Era uma quarta-feira ensolarada, e nosso último dia na Tailândia.

Há dias que eu planejava levar Álvaro a um lugar, acordei naquela manhã disposta a colocar meu plano em ação. Bastou uma pesquisa rápida para que eu soubesse onde ficava.

Álvaro havia acabado de sair do banheiro com uma toalha enrolada na cintura.

— Então, já que é nosso último dia, o que faremos durante o dia? — indagou ele — Quero que seja inesquecível.

Oh, e como seria! 

Meu olhar recaiu sobre as gotículas de água escorrendo pelo seu tórax, seguindo pelo seu abdômen, até chegar no oblíquo – aquela curva onde ele amarra a toalha.

Passei a língua nos lábios, meio atônita e busquei seus olhos.

— Vamos à praia — sorri ardilosamente.


[...]


A praia que fomos não era a que ficava ao lado do hotel, onde costumávamos gravar. Era uma não muito longe, mas uma distância suficiente para que pedíssemos um carro por aplicativo. 

Ao chegarmos, agradeci aos céus por estar deserta, mas já era de se imaginar que estivesse pouco movimentada. E o motivo não era apenas por ser uma quarta-feira.

O barulho das ondas me fez fechar os olhos, juntamente ao sentir a brisa cortar meu rosto e o cheiro salgado adentrar minhas narinas.

O sol cintilava vigorosamente, mas de uma forma não enfadonha. A temperatura daquele dia estava perfeita para uma manhã praiana.

Abri a canga sobre a areia e coloquei minha bolsa em cima, juntamente com nossos chinelos, ao mesmo tempo que ele ergueu os braços e retirou sua camiseta.

— Por que esta praia está tão vazia? — meu namorado indagou e gargalhei diante de sua pergunta.

— Álvaro, Álvaro. Você é ingênuo às vezes. — percorri meu olhar descarado sobre seu abdômen.

— Sou? — ele arqueou as sobrancelhas, um tanto quanto confuso.

— Uhum. Agora se me der licença, — provoquei, tateando seu corpo até chegar em seu calção de banho e baixá-lo junto com a sunga.

— O que estás fazendo? — perguntou relutante.

— Não sei se percebeu, mas... — me aproximei de seu ouvido — Estamos em uma praia de nudismo — sussurrei e notei sua pele arrepiar.

— Estamos? — ele me olhou boquiaberto, tentando processar a situação

Formei um biquinho nos lábios e balancei a cabeça afirmando.

— Não se sinta pressionado, eu entendo se não quiser — eu disse ao mesmo tempo que fitava seus lábios entreabertos.

— Não, não… eu quero — ele respondeu rapidamente.

O calção e a sunga já estavam em seus pés, até ele retirar as peças e colocá-las perto da minha bolsa.

Álvaro se empertigou, abriu os braços e deu de ombros – como uma criança mostrando o que havia acabado de fazer.

Subi pela cabeça o pequeno vestido de cor azul, no qual seu comprimento chegava até metade das minhas coxas. 

O olhar de Álvaro estava atento a cada movimento meu e seu semblante estava sério, principalmente quando abri o sutiã e joguei a peça ao lado de suas roupas. 

Ele estava compenetrado em assistir eu me despindo, e sua atenção se redobrou quando coloquei os dedos nas laterais da calcinha e desci a peça por minhas pernas.

Percebi Álvaro engolir em seco e seu olhar percorrer ao nosso redor, provavelmente receoso que alguém nos visse. Haviam cerca de duas pessoas bem ao longe, quase imperceptíveis. 

Sorri, me divertindo com sua cautela. Então ele se voltou para mim, sua cabeça se movia me estudando de cima a baixo.

Fechei os olhos e respirei fundo novamente, me reconectando com a energia do local. 

Minhas pálpebras se abriram e pude me dar conta que tinha em minha frente uma bonita visão: Álvaro inteiramente despido. Não digo no sentido da lascívia, mas sim por tê-lo nu em sua forma mais natural e liberto de pudor. Meu homem. Ele contrastava com as cores do céu, do oceano, da pequena vegetação da praia e algumas rochas. Mais me parecia uma obra de arte.

Bem ali, a pessoa que eu amo, mergulhando de cabeça nas minhas aventuras.


         (Amado mío - Mon Laferte)


A felicidade tomava conta de todo o meu ser, estava emaranhada em minhas entranhas e emanava por todos os poros. E eu estava disposta a vivenciá-la ao lado do amor da minha vida.


    Amanece en el canto de las cigarras

Bajo la cama celebran la danza de arañas


Comecei a correr em direção ao mar, me virei brevemente apenas para encará-lo.

No vienes, cariño

Ele sorriu.

Sorriu porque estava tão disposto quanto eu a vivenciar cada uma das minhas aventuras.


  Se acaba el mundo y tú, amado mío

      Tú solo siendo tú, amado mío


Álvaro foi até onde eu estava, e entramos na água de temperatura incrivelmente agradável.

Seus ombros, que antes estavam tensos, agora se encontravam inteiramente relaxados, assim como todo o resto do seu corpo.

Entramos até a água ficar na altura de nossas cinturas. Mergulhamos para molhar os cabelos e as partes do corpo que ainda não tinham sido impregnadas pela água salgada. 

A cada onda que vinha, sorrimos ao sentir nossos corpos balançarem. Sempre fui muito feliz na praia, mas parecia que agora uma felicidade diferente e mais intensa tomava conta de mim.

Era algo forte e incontrolável, que me fazia bem ao extremo e não me assustava mais. O amor não me assustava mais. Uma vez que decidi parar de tentar entendê-lo, para apenas vivenciá-lo de maneira fugaz.

Se o amor era viver plenamente ao lado de Álvaro, então eu queria. Queria a cada milésimo de segundo da minha vida e até o final dela.


          Qué bueno que aquí estás

                      Amado mío


Gargalhamos simultaneamente, nos deleitando na mais genuína forma de alegria e afeto.

Álvaro segurou meu rosto com as duas mãos e nossos lábios entraram em contato em um beijo incrivelmente lento, proveitoso e delicioso. Onde as línguas se entrelaçam de maneira única e seus lábios sugam tudo o que eu tenho a oferecer.

Quando o ar se fez necessário, sorri mais uma vez e retirei os fios de cabelo grudados em sua testa, que atrapalhavam sua visão. 


 Como adolescentes viajando a Saturno 

               En un carro de amor


Fiz um carinho em sua nuca enquanto mirava profundamente suas íris. O tempo pareceu parar e desejei viver aquele instante para sempre.

Sua mão estava em minha cintura e a outra segurava meu cabelo molhado. Então, nos aproximamos outras vezes em um delicioso roçar de lábios.


                   Tanto te quiero

      Tanto yo en tus vidas pasadas


Ao nos soltarmos, mergulhamos novamente e nadamos juntos, aproveitando a sensação incrível de estarmos desfrutando daquele dia ensolarado e regado de muito amor de ambas as partes. 

O salgado da água se misturou em meio aos nossos beijos, sorrimos feito bobos enquanto brincamos de jogar água um no outro. O único som que havia naquela praia era das ondas e das nossas gargalhadas.

Estávamos eufóricos quando voltamos pra areia. Busquei as toalhas e o protetor solar na bolsa, nos enxugamos e em seguida e despejei um pouco do conteúdo na minha mão, passando o tubo para ele fazer o mesmo

— Tome, estar nu requer bem mais cuidado do que imagina — lhe dei uma piscadela.

Passamos protetor solar por toda a extensão de nossos corpos. Descansamos sobre a canga, um ao lado do outro, com as laterais dos corpos grudados, — era involuntária a nossa necessidade de contato — imersos em um silêncio confortável.

— Eu sabia que você iria gostar do passeio — virei meu rosto para o seu.

— Estás brincando? É o melhor dia de praia da minha vida! — ele me olhou.

— Fico feliz que esteja aqui. — acariciei seu queixo com meu polegar — Te amo.

— Amo suas aventuras e quero estar em cada uma delas contigo. Eu também te am… — o beijei antes mesmo que ele terminasse a declaração.

O beijei porque poucas coisas na vida eram mais prazerosas do que ouvir que a pessoa que você ama dizer que estará ao seu lado para tudo.

O beijei porque nenhuma das outras pessoas com quem me relacionei estavam dispostas a se adaptar à minha realidade e ao meu mundinho.

O beijei porque Álvaro era a pessoa certa.

Quando o ar nos faltou, nos separamos. Percebi seu olhar inebriado de desejo fitando meu corpo dos pés à cabeça. Mordi o lábio inferior e devolvi o mesmo olhar sobre toda a extensão de sua pele desnuda. 

Nos apoiamos sobre os cotovelos e não foi preciso nenhuma palavra ser dita, agarrei seus cabelos com tamanha pressa e ele segurou firmemente meus fios dourados, causando uma dor prazerosa na raíz. Nossos lábios se encontraram de forma brutal por conta da intensa lascívia que se apoderava de nós.

Uma de suas grandes mãos tomou minha cintura e puxou meu corpo para perto de si, enquanto a outra se encontrava em minha nuca.

Nossas línguas se entrelaçaram com tamanha pressa e as cabeças se moviam em uma sincronia perfeita, dançando de lados opostos uma da outra. Então, suguei sua língua para finalizar o beijo, e Álvaro por sua vez, mordeu meu lábio inferior com força, deixando de lado qualquer resquício de delicadeza. E era daquela maneira que eu o queria naquele momento.

A praia nunca fora um lugar muito erótico para mim, mas se tratando de Álvaro e eu despidos, absolutamente qualquer local poderia torna-se viável a uma boa transa. 

Nos certificamos mais uma vez de que não havia ninguém por perto antes de iniciarmos nossa maior aventura na praia. Varremos o olhar por todos os lados, e felizmente estava completamente deserta. Até as pessoas que vimos ao longe quando chegamos, não estavam mais.

— Tem certeza de que… — começou ele, com mais uma de suas indagações sobre o medo de que alguém nos veja.

— Shhh — coloquei o indicador sobre seus lábios — Não seja tão certinho, Álvaro. Não tem mais ninguém por aqui.

Nos olhamos fixamente mais uma vez. Sua pupila estava dilatada e um arrepio percorreu minha pele por conta da ânsia de me aventurar com o homem que amo.

Iniciamos um beijo mais lento desta vez, molhado e envolvente, exalando tesão por todos os poros. 

Sua mão que antes percorria toda a extensão de minhas costas e quadril, deslizou para minha bunda e apertou com tamanha vontade.

Voltei a deitar, eu escorreguei para fora da canga, em contato total com a areia. 

Álvaro se posicionou por cima de mim e deixei escapar um gemido involuntário ao sentir seu membro enrigecer contra minha pélvis. Propositalmente rocei nossas intimidades em uma fricção gostosa.

Ele queria. Eu queria. 

Apenas aquilo bastava e então um fogo tomou conta de nossos corpos.

Eu senti a aspereza de sua barba roçando em meu pescoço, seguido de alguns beijos no local. 

Álvaro não pensou duas vezes antes de levar sua boca aos meus seios e os estimular, um de cada vez, em meio à sugadas e mordidas em uma morosidade envolvente. Eu arfava ao sentir sua língua trabalhar em meus mamilos rígidos e descontava o prazer puxando seu cabelo.

Seu dedo médio escorregou para minha fenda molhada e se moveu em uma sofrida lentidão, espalhando meu prazer por toda a extensão. Seu polegar circulou meu clitóris inchado e choraminguei implorando por alívio.

Álvaro não tardou para que me penetrasse, ele fechou os olhos e suspirou ao me adentrar por completo e esperou alguns segundos antes de começar a se mover.

Mirei seus olhos e desci o olhar até seus lábios inchados e avermelhados, sua boca se encontrava entreaberta e disparando sutis rajadas de ar. Toquei sua barba com a ponta dos dedos e selei nossos lábios. Logo ele entendeu que era o momento exato de começar a se mover.

Nossa conexão era de outras vidas.

Ele me adentra de forma lenta e profunda. Entreabri os lábios e minha respiração ficou cada vez mais descompassada. Era sublime a sensação de ser invadida por ele, não apenas carnalmente falando, mas também lá dentro da alma. 

As estocadas começaram a ficar cada vez mais urgentes e minhas costas iniciaram um atrito ardente contra a areia. Meu corpo se movia rapidamente pela veracidade dos movimentos.

Eu arqueava as costas involuntariamente por excesso de prazer e gemia demasiadamente em seu ouvido. Percebi o contraste que era o rosto de Álvaro deleitando-se de prazer, com o céu inteiramente azul. Para completar, ele tinha os cabelos bagunçados e a respiração cortada.

Nos beijamos mais uma vez e sorrimos, pairava sobre nós um ar repleto de sentimentalismo. Não era apenas a luxúria presente, mas principalmente o amor em sua forma mais crua e pura.

O barulho das ondas batendo sobre as pedras e nossos gemidos sôfregos eram os únicos sons agora presentes na praia. 

Era verdadeiramente o paraíso.

Entrelacei minhas pernas em seu tronco, em busca de mais contato. 

— Mais, cariño. Mais forte — sussurrei em meio a gemidos.

Ele metia com ímpeto ao mesmo tempo que levou o polegar ao meu clitóris. Minhas costas já ardiam pela fricção com a areia, porém nem ao menos me importei. Meu corpo implorava por um orgasmo e eu já estava tão perto a ponto de gemer palavras desconexas.

Senti a necessidade de tomar as rédeas da situação, Álvaro logo entendeu quando tomei impulso para levantar. Ele sentou-se sobre a canga com as pernas esticadas e me pus em seu colo. 

Ao me posicionar da maneira mais confortável, comecei a rebolar sobre seu membro de maneira ritmada.

A pressa não nos atormentava mais. Naquele momento, o que importava era apenas o deleite que estava sendo desfrutado de ambas as partes e os toques de pele com pele.

Álvaro me tocava e me dedilhava como se eu fosse o mais precioso dos instrumentos e ele o único músico a saber tanger.

Suas mãos estavam firmes em minha cintura, me ajudando com os movimentos precisos e fundos.

Fitei mais uma vez suas pupilas que transbordavam afeto e simplesmente sorri.

Sorri porque não havia qualquer outro lugar no mundo que eu quisesse estar a não ser ali. 

Sorri porque eu amava aquele homem como jamais amei outra pessoa. Amava a ponto de querer que seu corpo se fundisse ao meu.

Álvaro espelhou meu sorriso, que quase não cabia em nossos lábios. Nós fodemos rindo, completamente despreocupados com o passado, presente e futuro.

Permaneci cavalgando com veemência, sentindo a onda de calor do orgasmo se aproximar e meu ventre formigar. Eu arranhava ferozmente suas costas tentando descontar o máximo de prazer que conseguia e puxava com brutalidade seus fios de cabelo.

Estávamos fazendo amor na praia, em um ritmo tão preciso quanto uma orquestra sendo guiada por um maestro.

Ele me olhava com devoção. Permaneci sorrindo e joguei a cabeça para trás, olhando para o céu azul enquanto era invadida e meu corpo sucumbia ao prazer.

Eu sentia ele preenchendo não apenas meu corpo, mas minha alma também. E era impossível estar mais satisfeita.

Quando meu ponto mais sensível foi atingido, espasmos me invadiram, Álvaro firmou a mão em minha cintura, e a outra em meu cabelo. Um grito orgásmico escapou da minha garganta pelo imenso pico de prazer alcançado.

Fitei suas pupilas dilatadas e pude sentir que as minhas também estavam, uma vez que minha visão embaçou. Álvaro gemeu rouco e senti minhas paredes se contraindo, ao mesmo tempo que minhas pernas tremiam.

Seu jato quente me invadiu enquanto nos olhamos intensamente durante o orgasmo. Nada foi mais poético do que tal momento. Aliás, nada era mais sublime do que fazer amor na praia com ele.

Álvaro me puxou pela cintura e me beijou desesperadamente, cada cantinho da minha boca e todos os centímetros do meu rosto.

— Eu te amo tanto, mi vida — ele disse sem fôlego, acarinhando meu rosto.

— Te amo mais que tudo, cariñorespondi ardentemente.

Sem pressa alguma, nos desencaixamos e voltamos a nos deitar sobre a canga, ainda ofegantes e com os cabelos desgrenhados.

A partir dali, senti como se algo tivesse mudado dentro de mim. Como se de alguma forma, eu me sentisse cada vez mais segura ao lado de Álvaro e disposta a encarar qualquer coisa ao seu lado.

Era como se seu amor me fortalecesse cada vez mais a cada dia que passava.

                  


Álvaro

Meu corpo se encontrava inteiramente relaxado pelo orgasmo recente e a sensação não poderia ser melhor. Itziar se encontrava apoiada nos cotovelos, em cima da canga. Uma das pernas estava dobrada e a outra esticada, enquanto fumava um cigarro e contemplava o ir e vir das ondas.

Os raios solares refletem sobre ela, e quase se tornaram opacos em comparação ao brilho que emanava do seu corpo e de sua alma.

Minha mulher está radiante.

Eu julgava aquela visão como uma obra de arte, uma vez que sua silhueta curvilínea estava nua, contrastando com o cenário praiano. O vento batia em seus cabelos e mexia seus fios, dando a ela um ar angelical.

Itziar é uma deusa.

Em seu tornozelo esquerdo havia uma tornozeleira de miçangas e suas unhas estavam pintadas de vermelho.

Ela é um poema que faço questão de traçar cada uma das letras e desvendar suas entrelinhas.

Eu poderia viver um milhão de vidas, visitar milhares de museus nos quatro cantos do planeta, ainda sim, jamais encontraria uma obra de arte tão exuberante quanto a minha mulher.


                        ❂❁✦✹✦❁❂


Itziar


Finalmente temos a casa perfeita.

Encontramos um imóvel em um bairro tranquilo de Madri, não muito longe do centro, em um condomínio fechado. É de fato, o que estávamos procurando. Nada exagerado, mas o suficiente para nos dar o conforto necessário e com um imenso jardim com deck nos fundos.

Era o nosso segundo dia morando ali, estávamos exaustos do dia anterior com a mudança e também pela volta das gravações intensas da terceira temporada. 

Na semana seguinte, estarei de volta ao País Basco para as gravações de um novo filme e mal podia esperar para voltar. Iria alternar entre gravar duas coisas ao mesmo tempo, locais diferentes.

Mas para ser sincera, eu estava amando minha nova rotina. Cheia de trabalhos e novas propostas, indo e voltando na minha conexão Madri-Basauri.

Mesmo que fosse o dobro do cansaço, era incrivelmente satisfatório.

Consigo me enxergar realizada em todos os âmbitos, principalmente no quesito profissional, mas acima de tudo, como mulher. 

Hoje sei de muitas coisas e tenho conhecimento sobre diversos assuntos, mas tenho ciência de que estou em constante aprendizado e que todos os dias posso conhecer um pouco mais sobre tudo.

E é aí que está a beleza das coisas. A partir do momento em que a pessoa se fecha ao novo e acha que já sabe de tudo, então te digo, a verdade é que ela ainda não sabe de nada.

Cada dia que passa, quero entender um pouco mais quem sou. E é que já sei muito.

Eu estava radiante. E isso era bastante perceptível.

Era fim de tarde, quando despertei de um cochilo pós almoço por conta da exaustão. Álvaro e eu havíamos dormido abraçados naquela tarde de domingo, naquela nossa bolha de dengo que formamos. 

Éramos uma linha tênue entre um casal de adolescentes e um casal de idosos. Estávamos sempre em constante grude, mas também queríamos passar a maior parte do tempo em casa descansando.

Cocei os olhos e desconfiei que meu rosto estivesse amassado. Saí do nosso quarto e  desci as escadas procurando por Álvaro, até encontrá-lo na sala, regando nossas plantinhas.

Inclinei a cabeça e sorri automaticamente. Ele é tão lindo de todas as formas, especialmente naquela sua faceta doméstica e totalmente compenetrado na tarefa. 

A beleza de Álvaro contrastava com a nossa sala de estar, que estava exatamente da maneira como queríamos: um misto de clássica com rústica, incrivelmente aconchegante e acolhedora.

As paredes têm um tom de creme, com diversos quadros de pinturas, e o maior deles é aquele enorme da Frida, que ele me deu de aniversário. Modéstia parte, mas sabemos valorizar muito bem todas as facetas da arte, seja ela a plástica, a teledramatúrgica, a música, dentre muitas outras.

Álvaro e eu temos almas artísticas. E isso vai muito além da nossa profissão.

Abaixo do quadro da pintora mexicana, há o sofá azul marinho, e ao lado, uma poltrona marfim, juntamente com um jarro de palmeira.

No meio, há uma mesinha de centro com um recipiente raso composto por cristais energizados, ao lado, velas aromáticas de alecrim com lavanda. Ultimamente eu vinha ensinando a Álvaro o poder e utilidade de diversas ervas, alquimia dos aromas e misticismo. Ele se mostrava extremamente interessado e disposto a aprender, o que me fazia amá-lo cada vez mais.

Abaixo de todos os objetos citados, encontram-se revistas sobre turismo e cinema. Embaixo da mesa, está um tapete quadrado e de cores escuras.

O ambiente é repleto de luz natural, que adentra pelas janelas de vidro com adesivos de borboleta, – no qual Álvaro acatou de imediato quando sugeri – estando abaixo, uma mesa espaçosa com quatro cadeiras.

Uma lareira também compõe o ambiente, no lado oposto à janela. No canto da sala, encontra-se uma estante de livros, que é composta pela junção dos meus com os de Álvaro. Ao lado do móvel, há um jarro de zamioculcas, uma das plantas favoritas dele.

Além da televisão, o rack em frente ao sofá também carrega alguns jarrinhos de fittonia e a famigerada vitrola azul que eu lhe dei de aniversário, juntamente com coletâneas de discos. Discos nossos. Dos nossos cantores favoritos. Com as nossas músicas. 

Portas-retratos também compõem o ambiente. Alguns distribuídos no rack e outros acima da lareira. Algumas fotos só de nós dois, outras apenas de León e Julieta, e várias de nós quatro juntos.

Quem entrasse aqui, saberia. É a casa de Itziar e Álvaro. É a junção de nós dois. Emana nossa energia e o misto das características de cada um. 

Com um regador de plantas nas mãos, Álvaro estava concentrado em molhar a palmeira cuidadosamente por conta do inverno. 

Andei sobre o assoalho de madeira. Ele estava com os pensamentos nas alturas e pareceu não se dar conta quando me aproximei.

Cariño? — o chamei com um sorriso tímido.

Ele rapidamente virou a cabeça para mim.

Seu rosto se iluminou ao me ver e senti meu coração se aquecer. O amor recíproco é viciante.

Hola, meu bem — também sorriu.

Me aproximei e fiquei na ponta dos pés para um selinho, que logo foi retribuído, juntamente com sua mão livre em minha cintura.

— Me deixa te ajudar — lhe dei mais um selinho e em seguida outro.

— Uhum — ele murmurou dentro do beijo e desconfiei que nem ouviu o que eu disse.

Senti sua mão quente adentrar a blusa folgada que eu usava dele e ir até minhas costas quentes, me puxando para si.

Enlacei seu pescoço com meus braços e o trouxe para mim. Finalizamos o beijo um uma leve sugada de lábios e um sorriso meio bobo no rosto.

— Não vejo a hora de voltar para a cama, só pra ficar agarrado em ti e sentir teu cheiro — disse ele ao me fitar.

— Eu também, mas agora vamos cuidar das nossas filhas — o soltei e me afastei.

— Nossas filhas? — ele alçou uma sobrancelha.

Sim, las plantitas — lhe dei uma piscadela e peguei uma tesoura na gaveta do rack.

— Pretende matar nossas filhas, cariño? — perguntou sarcástico ao me ver pegar o objeto.

— Vou apenas apará-las para que cresçam saudáveis — segurei o riso.

Me abaixei para ficar do tamanho da planta. 

— Itzi…

— Sim?

— Cuidado, essa tesoura é maior que você — brincou ele.

Revirei os olhos e fingi ter me ofendido. Sua gargalhada ecoou pelo ambiente e não pude controlar meu riso.

Comecei a aparar a zamioculca apenas para manter a saúde do crescimento. Permanecemos em um silêncio confortável por alguns minutos, absortos em nossas tarefas. Notei um Álvaro meio alheio, eu sabia que algo o incomodava há um tempinho.

— Não quer me falar o que está te deixando assim? — eu disse, enquanto cortava alguns galhos da planta — Estou aqui se quiser conversar.

Ele continuou regando as plantinhas restantes na sala.

— Nada, é só que — suspirou pesadamente — Ainda estou pensando em Halina e Pedro, e o motivo de não terem nos contado que estão juntos.

Pedro e a irmã de Álvaro se envolveram enquanto nós estávamos na Tailândia, e sequer haviam nos contado. Descobrimos por conta própria quando chegamos por acaso na casa de Halina.

Pedro estava pintando um quadro da mulher, com o cavalete no meio da sala, além de pincéis e aquarelas espalhados pelo apartamento dela.

Halina, por sua vez, se encontrava sobre o sofá, coberta apenas por um lençol branco em pontos estratégicos. Também estava com as feições assustadas por ela e Alonso terem sido descobertos.

Eu tinha certeza que meus olhos estavam arregalados. Minha mente deu um nó enquanto tentava processar aquela situação.

Mas Álvaro nem ousou pensar.

Seus punhos se fecharam e fuzilou Pedro com o olhar.

Ele praticamente voou em cima de Pedro, segurou o homem pelo colarinho e o colocou contra a parede.

Me controlei muito para não rir da cena cômica que a situação havia se tornado. 

Alonso não baixou o olhar diante de Álvaro e o encarou na mesma intensidade, o que era ainda mais engraçado.

Muy bién, muy bién — me coloquei entre eles e os separei — Vão conversar civilizadamente ou ainda irão agir como se tivessem cinco anos?

Infelizmente, eles ainda estavam de cabeça quente e acabaram que não conversaram. Era tudo muito novo para todo mundo.

Eu sabia que Álvaro sentia um misto de raiva e mágoa. Sabia também que ele não era uma pessoa de sentir ódio, principalmente porque ali só haviam pessoas que ele amava. Mas era justamente por isso que estava tão ressentido.

Eram duas pessoas incrivelmente importantes para ele. Ambos estavam tendo algum tipo de relacionamento. E ele estava chateado por não terem o avisado e ainda ter descoberto da pior e mais constrangedora maneira.

No fundo, ele gostaria de ter sido uma das primeiras pessoas a saber e ter celebrado com eles aquele amor ou paixão, seja o que fosse.

Desde então, Álvaro ficou pensativo por conta das duas pessoas que ele tanto ama lhe omitirem algo tão importante.

Mas o fato é que Pedro e Halina também haviam ficado magoados.

— Confesso que não queria ter reagido daquela maneira quando descobri, mas também fiquei chateado por eles não terem  nos contado, entende, cariño?

Ele me olhou nos olhos, ainda que estivéssemos em pontos diferentes da sala.

— É estranho pensar neles juntos. Meu melhor amigo e minha irmã. Pedro algumas vezes me contava algumas de suas aventuras amorosas e fico desconcertado pensar que agora ele está com Halina. Se ele magoar minha irmã, nem sei o que sou capaz de fazer.

Álvaro bufou e passou uma mão sobre o rosto. Ele estava sofrendo com aquele tanto de pensamentos e encontrava conforto em mim. Apenas assenti e deixei que ele terminasse antes de dar minha opinião.

— Não sei como reagir, Itzi. Não sei o que fazer. Não quero perder nenhum dos dois e nem que eles fiquem magoados um com o outro. Eu percebi o quanto eles estavam mais felizes ultimamente, mas não imaginei o motivo — ele fechou os olhos e balançou a cabeça negativamente — Há alguns anos, minha irmã terminou um noivado e foi doloroso vê-la sofrer, não quero que algo aconteça de novo. Halina e Pedro são dois opostos, tanto na personalidade, quanto na maneira de viver. Eu só… não sei como lidar, meu bem.

Mira, Álvaro — fitei profundamente suas íris — Eu entendo que você queira proteger sua irmã, mas não precisa fazer isso o tempo todo. A Halina sabe se defender. Você acha que ela entraria de cabeça numa relação sem confiar na pessoa? — arqueei as sobrancelhas e comprimi os lábios, deixando a resposta subentendido.

Ele assentiu e balançou a cabeça concordando, então continuei.

— E daí que eles são diferentes? Sabe quem mais são diferentes? Nós! — lhe dei um sorriso — Obviamente que pensamos igual e temos a mesma opinião para assuntos importantes, mas nosso estilo de vida era bastante diferente. Na verdade, ainda é! O que acontece é que estamos nos adaptando a realidade um do outro, porque isso é amor, Álvaro. Sua irmã pode estar vivenciando esse sentimento e você não está dando apoio a ela. 

Álvaro baixou a cabeça e seus ombros caíram. Eu sabia que ele estava refletindo sobre o que eu falei e estava caindo em si. Ele balançou a cabeça positivamente, digerindo cada uma das minhas palavras.

— Sabe, ela sempre me tratou tão bem, desde quando a conheci. Lembro como se fosse ontem daquele dia, eu estava com uma lingerie planejando te fazer uma surpresa e sua família chegou. 

Comprimi os lábios em um meio sorriso.

— Fiquei vermelha de vergonha e me cobri com o roupão. Halina riu, mas fez com que eu não me sentisse desconfortável, conversamos como se nos conhecêssemos há anos. Naquele momento, eu soube que tinha ganho uma amiga pra vida toda. 

Ele mirava um ponto qualquer na parede enquanto me ouvia falar.

— Halina fez isso porque acima de tudo, ela te ama, Álvaro. Viu que você estava feliz por me ter ao seu lado e ficou feliz também. Agora ela quer dividir essa mesma felicidade contigo. Você disse que percebeu que ultimamente ela e o Pedro estão mais alegres, bom, então isso quer dizer que ambos fazem bem um ao outro.

Quando seu olhar se voltou para o meu, notei seus olhos marejados. Meu estômago se revirou e uma súbita vontade de abraçá-la me invadiu. Acho que ele sentiu o mesmo, já que na mesma hora, Álvaro se aproximou.

Eu ainda estava sentada no chão, então sentou também, na minha frente. Ele me abraçou abruptamente, me envolvendo em seus dois braços num aperto tranquilizador e caloroso.

— Obrigado, minha linda. Obrigado por existir e estar aqui comigo, sempre me fazendo pensar melhor sobre certos assuntos. Obrigado por me ensinar tanto — ele falava em meu ouvido.

— Não precisa me agradecer por nada, corazón.

Estar grudada em seu corpo era como estar em casa. Nada parecia mais certo do que estar com ele.

Nos afastamos, mas continuamos com os rostos próximos. Álvaro acariciou minha mandíbula e salpicou suaves beijos por meu rosto, finalizando com um beijinho em meu nariz, em cima do piercing – nova mania adquirida por ele – e finalizou a sequência selando nossos lábios.

Bueno, eu fiquei tão focado no medo de que Halina e Pedro se chateiem um com o outro, que não parei pra pensar no lado positivo do relacionamento — ele suspirou — E como eles disseram naquele dia, ainda estavam planejando nos contar. Fui inconsequente na minha maneira de agir e pensar.

— Você estava em estado de choque, mi amor, mas o que importa agora é o futuro e pensar no que vem pela frente. No quão incrível vai ser estarmos todos em família. Olha que incrível, cariño! Teremos Pedro agora nos eventos de família. Não acredito que Alonso agora é praticamente meu concunhado. 

Eu gargalhei e Álvaro me acompanhou.

— Seus pais irão amar conhecê-lo, Pedro definitivamente sabe como conquistar qualquer um, e ele é dono de um coração enorme. Não tenho dúvidas que ele ama sua irmã incondicionalmente, ela é uma mulher incrível e há tantas coisas que fizeram ambos se apaixonarem um pelo outro. — suspirei.

— Vamos convidá-los para um jantar? Eles ainda não conhecem nossa casa. 

— Acho uma ótima ideia! — lhe dei uma piscadela e levantei do chão.

Antes de recolher os galhos cortados da planta, Álvaro me segurou pelo braço.

— Itzi — chamou ele.

— Sim? — virei meu rosto para o seu.

— Te amo.

— Te amo mais.

— Impossível.

                 

                        ❂❁✦✹✦❁❂


Itziar

O dia havia amanhecido menos frio, e aquilo era uma verdadeira glória no inverno. O sol resolveu aparecer, ainda que um pouco tímido e era possível ouvir os pássaros cantando ao visitar nosso jardim

Havíamos adormecido no nosso espaçoso e confortável sofá, pois na noite anterior vimos um filme e ficamos com preguiça de subir para o quarto. Fizemos amor de forma lenta e calorosa, repleto de sentimentalismo e uma saudade um do outro que aprecia nunca cessar. 

Hoje é a minha viagem para o País Basco, as primeiras gravações de um filme. 

Também é a primeira vez que Álvaro e eu ficaremos longe um do outro, após a reconciliação.

Ele continuará gravando algumas de suas cenas pendentes como Sergio, enquanto consegui tirar alguns dias para conciliar com o início das gravações do filme.

Adormecemos na noite anterior completamente grudados. Eu vestia sua camisa que exalava seu cheiro, juntamente com uma calcinha. Ele, por sua vez, usava apenas uma boxer branca.

Seus braços estavam envoltos em minha cintura e meu corpo estava inteiramente sobre o seu, aconchegada em seu peito como se Álvaro fosse um travesseiro humano. E sendo sincera, eu particularmente acho bem mais confortável que nossa cama. 

Uma manta de cor vinho nos cobria, o ambiente também estava quentinho por conta do aquecedor ligado. 

Dormi a noite inteira com o nariz posicionado na curva do seu pescoço, sentindo seu cheiro que era sinônimo de lar para mim.

Ele dormiu aspirando o cheiro dos meus cabelos e vez ou outra beijava minha testa. Nossas respirações sincronizam quando ambos os corpos relaxam juntos e colados. E não há nada mais poético que isso.

Despertei com resquícios de claridade atravessando as cortinas. Observei o semblante de Álvaro mergulhado em um sono tranquilo. 

Salpiquei alguns beijos suaves pela extensão de seu pescoço e suas pálpebras se abriram lentamente, com um sorriso preguiçoso se formando nos lábios.

Buenos días — sussurrei e ele sorriu ainda mais.

Seu cabelo bagunçado e seu rosto amassado é a minha melhor visão ao acordar. 

— Buenos, mi vidarespondeu.

Fiz menção em levantar, mas seus braços me prenderam ainda mais contra seu corpo e não pude deixar de rir.

— Fica. — murmurou ele.

Cariño, eu preciso levantar. Meu voo é às onze.

Álvaro girou nossos corpos e ficou por cima, me prendendo contra ele e o sofá.

— Não vou deixar você sair. — provocou.

Gargalhei e puxei seu rosto para perto, enlaçando meus braços em seu pescoço. Suas mãos seguraram as laterais da minha cabeça, e por fim, nos envolvemos em um beijo lento e molhado, como se ele dissesse que já estava com saudade antes mesmo de eu ir embora. E de fato estava.

Alguns gemidos escaparam da minha garganta pela fúria e intensidade, ainda que fosse lento. Era como se nosso amor pudesse ser traduzido em forma de beijo.

Suas mãos subiram a camisa que eu estava vestida e passearam pelo meu corpo. Quando o ar nos faltou, nos separamos com meu lábio inferior entre seus dentes. 

Bueno, agora posso ir? — indaguei.

— Pode — ele se pôs sentado.

— Não vejo a hora dos nossos dias livres chegarem para que você vá comigo — murmurei.

— Nem eu — ele suspirou — Acho que no próximo fim de semana podemos ir com as crianças. 

— Vou amar levar vocês para conhecer Basauri — sorri e ele fez o mesmo.

— Estou contanto os dias, cariño — me deu uma piscadela — Vou fazer seu café. 

— Obrigada. Te amo. — depositei um rápido beijo em seus lábios.

Corri escada acima para o quarto e ele seguiu para a cozinha.

De fato, é sublime acordar ao lado de quem você ama.


[...]


Álvaro

Lá fora nevava demasiadamente nesta noite de quinta-feira, como em um típico dia madrileño de inverno. Por outro lado, aqui dentro estava devidamente aquecido, com a lareira acesa e o aquecedor ligado. 

Me encontro sentado no sofá com o notebook no colo, enquanto respondo alguns e-mails. Meus pés estão apoiados na mesinha de centro e estou com as costas afundadas na maciez do nosso sofá.

Visto um suéter verde musgo e uma calça preta, juntamente com minhas meias da coleção do Star Wars. Suponho que o Baby Yoda estampado nas meias esteja contrastando com o verde do suéter. 

Ah, e não poderia faltar meus óculos de grau. Ultimamente ele vem sendo um objeto inseparável, o que não passou despercebido por Itziar, que não poupou suas piadas de que estou ficando velho, mas eu rebatia com o argumento de que ela é um ano mais velha que eu.

O aroma que toma conta do ambiente vem das velas aromáticas de alecrim com lavanda e o cheiro do tempero da comida do jantar que está sendo feito.

Itziar está cozinhando, diga-se de passagem. 

Fiquei um tanto receoso quando ela me disse que iria fazer o jantar inteiro sozinha, já que chamamos Halina e Pedro para jantar aqui. 

Ainda perguntei se ela gostaria de ajuda, mas recebi ameaças caso eu ousasse me aproximar da cozinha. Então, decidi esperá-la no sofá enquanto resolvia assuntos pendentes de trabalho. 

— Ei! — Itziar surgiu na sala de estar, saindo da cozinha.

Desconfio de que na maioria das vezes eu fico com uma cara bobo ao olhar para ela. Quando penso que minha mulher não pode ficar ainda mais bonita, ela me lembra que sim, que fica cada vez mais deslumbrante com o passar dos dias.

Itziar andava em minha direção, vestida em uma blusa lilás de gola alta e uma calça pantacourt de cor nude, os cabelos por sua vez, completamente soltos. 

Ela vinha até mim emanando uma leveza e felicidade, juntamente com sua beleza tão exuberante que surtia efeito como uma droga sob meu corpo. Itziar é uma mulher viciante.

Na sua mão, um copo de rum. E nos pés? Uma meia com a estampa da princesa Leia.

Itziar se jogou ao meu lado com um suspiro e encostou a cabeça no meu ombro.

— Muitos e-mails pra responder ainda? — indagou, bebendo o conteúdo do copo de vidro.

— Não, já terminei. Finalmente! — fechei o notebook e o coloquei na mesinha de centro — E o jantar, deu certo? 

— Deu. Falta apenas finalizar para deixar o prato mais apresentável — nós dois rimos.

— Tem certeza de que não quer ajuda? — perguntei.

— Uhum — ela murmurou.

— Então tá bom. — a puxei pela cintura, de forma que ficasse em meu colo e de frente para mim.

Enlacei seu tronco e a puxei. Afundei o rosto na parte de seu pescoço que a blusa não cobria. Lhe dei um cheiro e senti o delicioso aroma do cítrico de seu perfume, junto com um misto de especiarias, já que ela estava cozinhando.

Ela bebeu mais do rum.

— Quer um pouco? — ofereceu o copo.

— Quero — segurei e bebi, sentindo o líquido rasgando pela garganta e esquentando a parte interna do meu corpo.

Ela riu quando fiz uma careta. Fazia uns bons meses que eu não bebia rum.

Enquanto eu tomava mais alguns goles, notei seu olhar de ternura sobre mim. Ela sorria atoa enquanto me fitava e acariciava minha barba

Itziar afundou o rosto em meu pescoço, começando com cheiros e beijos sutis. No entanto, evoluiu para mordidas e leves chupões. 

Bebi todo o resto do conteúdo e rapidamente coloquei o copo na mesinha, dando total atenção à Itziar. Firmei as mãos em seus quadris e a beijei com lascívia.

Nossos hálitos de rum deixaram o beijo ainda mais delicioso. Ela sugou veementemente minha língua, enquanto puxei seus lábios sempre que nossas cabeças se moviam.

Ela arfava e gemia baixinho à medida que o beijo se intensificava, proporcionando assim um arrepio de excitação, que percorreu toda minha espinha.

— Hum… — Itziar se afastou e me fitou inebriada de luxúria — Vai ser perigoso se continuarmos, nossos convidados já estão chegando.

Raspei os dentes pela sua mandíbula e alternei entre beijos rápidos no local.

Muy bién pigarreei e me desvencilhei cuidadosamente dela — Então vamos dançar? 

Itziar estava esparramada no sofá, com os lábios avermelhados e levemente inchados por conta do beijo.

Vasculhei nossa coleção de discos de vinil, até finalmente encontrar o que eu queria. 

Era uma das músicas que sempre se passava na minha cabeça ao pensar em Itziar.

Coloquei o vinil na vitrola e estiquei o braço, chamando-a para levantar e dançar comigo.

 Viene, cariño!

Ela sorriu apenas com os lábios e se levantou, vindo em minha direção.

A música She, na voz de Elvis Costello, ecoou pelo ambiente. Um sorriso escapou dos seus lábios a ponto dela fechar os olhos pelo riso de orelha a orelha.


                               She

           May be the face I can't forget

           A trace a pleasure or regrese

May be my treasure or the prace I have to pay



Ficamos frente a frente. Abracei sua cintura e encaixei o queixo em seu ombro. Itziar enlaçou os braços em meu pescoço e nossos rostos ficaram grudados, um ao lado do outro.


                             She 

    May be the song that summer sings

    May be the chill that Autumn brings 

     May be a hundred different things

         Within the measure of a day



Nos movemos lentamente no embalo daquela tão conhecida e envolvente melodia.



                              She

         May be the beauty or the beast

         May be the famine or the feast

 May turn each day into a Heaven or a Hell



Sua suave respiração reverbera em minha orelha, me causando deliciosas ondas de arrepios.



                               She

        May be the mirror of my dreams

           A smile reflect in a stream

     She may not be what she may seem

                    Inside her shell



Quando apenas a parte do instrumental se estendeu – na metade da música – Itziar afastou seu rosto do meu apenas para me olhar profundamente.

Seus olhos estavam marejados e suas íris escuras como a noite brilhavam feito uma constelação.

A melodia é extremamente envolvente a ponto de causar intensas emoções que mexem com todas as células e entranhas do corpo. 

Esta música tem um enorme valor sentimental imaterial para mim, uma vez que em minha percepção, cada trecho é como se definisse Itziar por inteiro.



                             She 

   Who always seems so happy in a croud

Whose eyes can be so private and so proud 

No one's allowed to see them when they cry



Uma tímida lágrima escorreu de seu olho e eu fiz questão de enxugar lentamente com meu polegar. 

Aproximei meus lábios e beijei suavemente sua bochecha, que ainda estava úmida. Itziar fechou os olhos e sorriu.



                              She

 May be the love that cannot hope to last

May come to me from shadows of the past

      That I'll remember till the day I die



Por fim, cantei o último trecho em forma de sussurro, como se fosse uma espécie de promessa.



                               She

            May be the reason I survive

        The why and wherefore I'm alive

  The one I'll care for throught the rough and ready years 

    Me, I'll take her laughter and her tears 

     And make them all my souveniers 

     For where she goes I've got to be 

          The meaning of my life is

                    She, she, she



— Essa música define uma pequena parte do que sinto por você. Meu sentimento vai muito além de uma letra de música. Meu amor por ti é maior que todas as galáxias e todo o universo.

Ela nada disse. Apenas me fitou exalando fascínio e paixão, até que me deu um beijo sentimental.

Aquele beijo capaz de me fazer mover céus e terras.

— Te amo, corazón. — sussurrou ela.


[...]


Estávamos terminando de arrumar a mesa de jantar com os pratos, talheres, guardanapos e taças. Itziar chegou com a travessa de chili mexicano, o que me surpreendeu bastante e me deixou ansioso para experimentar – apesar do receio.

Cariño, a Paloma me ligou hoje de manhã. Disse que podemos ir no abrigo no sábado, tudo bem pra você?

Várias vezes durante os anos, Itziar se engajou em projetos sociais no País Basco — algumas vezes sendo voluntária, e em outras com doações – onde abrangia diversos grupos de pessoas em situações de vulnerabilidade.

Ao chegar em Madri, deu continuidade a suas contribuições. Desde que começamos a namorar, lá no início da série, eu também havia participado de algumas de suas ações.

Então, esta semana, resolvi me oferecer mais uma vez. Itziar contatou a diretora de um lar de crianças, no qual nunca havíamos visitado até então.

Paloma, por sua vez, ficou extremamente contente ao saber que estávamos dispostos a doar – principalmente ao saber que éramos nós – E faríamos questão de irmos pessoalmente visitar o local.

— Tudo ótimo, mi amor.

O interfone então tocou. Nossos convidados haviam chegado.

Fiquei um pouco nervoso, seria estranho ver Pedro e Halina agora como um casal, mas agora me sinto inteiramente feliz, pois sei que são duas pessoas incríveis no qual as amo incondicionalmente. E que acima de tudo, se merecem.

Segundos depois, o barulho da campainha ecoou e Itziar foi abrir a porta. 

Um Pedro e uma Halina extremamente sorridentes surgiram. Eu nunca os tinha visto tão felizes. É o poder do amor.

— Ei! — Itziar os cumprimentou com ânimo e no mesmo segundo, Halina pulou e envolveu minha mulher em seus braços. 

Pedro entrou timidamente, com as mãos nos bolsos. Eu olhei para o chão, um tanto quanto sem jeito. Mas bastou que eu levantasse a cabeça e nossos olhares se encontrassem, que um sorriso brotou em nossos rostos.

Era impossível ficar com raiva de Pedro Alonso.

Nós dois gargalhamos e nos abraçamos fortemente, com diversos tapinhas nas costas e beijos no rosto.

Ele é meu melhor amigo e agora meu cunhado. 

O homem que está completamente apaixonado pela minha irmã.

Não precisou ele me dizer uma palavra do tamanho do seu amor por ela, bastou apenas alguns segundos para que eu percebesse a maneira como ele olha para ela.

— Que saudade, hemanito! Por favor, não fique mais com raiva de mim, é horrível ficar longe de ti — ele murmurou, ainda dentro do abraço.

— Apenas não quebre o coração da minha irmãzinha, e então continuaremos melhores amigos para sempre. 

— Eu prometo. Jamais faria isso! — ele assegurou.

Nós dois sorrimos mais uma vez e nos separamos. 

Pedro abriu os braços para abraçar Itziar e assim o fizeram.

Halina então me olhou, um tanto receosa de se aproximar. Andei até ela e a envolvi em um abraço de urso.

— Me desculpe por não ter reagido bem a notícia. Só quero sua felicidade e temo pela sua segurança — sussurrei em seu ouvido.

— Está tudo bem, eu entendo seu instinto de irmão mais velho — ela bufou — Mesmo que eu já tenha trinta e seis anos.

Nós gargalhamos.

Ela estava linda vestida em um vestidinho preto meio frouxo e na altura dos joelhos, estando também com uma meia calça e sapatos da mesma cor.

Seus cabelos castanhos estavam um pouco mais curtos, mais precisamente na altura dos ombros. 

— Você está belíssima! — beijei sua testa.

— Você também, milagrosamente. — disse sarcástica — Bonito e cheiroso.

Halina entregou uma sacola com uma garrafa de vinho e Itziar o colocou na mesa.

— Vou buscar a garrafa de rum, caso queiram também — ela foi até a cozinha.

— Comida cheirosa, você que fez? — perguntou Pedro.

— Não, foi a Itzi. 

— Itziar cozinhou? — Halina arqueou as sobrancelhas.

— Sim! Especialmente para vocês.

— Deus nos proteja. — brincou Pedro.

— Ei! — fingi indignação e reprimi uma risada

— Álvaro, Pedro, Halina — gritou Itziar da cozinha — Experimentem o chili e me digam o que acharam!

Nos entreolhamos receosos e nos posicionamos na mesa, em nossos respectivos lugares. Pedro e Halina próximos um do outro, e eu, ao lado da cadeira vazia que esperava por Itziar.

Colocamos os guardanapos sobre o colo e nos servimos, para enfim, comermos.

Meu amigo arregalou os olhos enquanto mastigava e tossiu discretamente. Minha irmã arqueou as sobrancelhas tentando digerir.

O excesso de sal e pimenta estavam matando. Quase no sentido literal também.

Itziar surgiu na sala com a garrafa de rum, colocou-a na mesa e sentou-se ao meu lado.

— E então? — perguntou empolgada.

Alonso fez menção a começar a falar, porém o fuzilei com o olhar para que ficasse calado.

Pigarreei depois de engolir e me preparei para falar.

— Delicioso, mi amor! — respondi, sentindo minha boca inteira arder.

— Verdade? — indagou ela, animada.

Halina clareou a garganta e me olhou como quem queria me decapitar.

Itziar então se serviu com um pouco de chili e Pedro soltou um riso irônico. Nós sabíamos o que estava por vir.

Ela deu duas colheradas em cheio e segundos depois, fez algumas caretas com rápidas mudanças de expressão – como se estivesse tentando ter certeza do quão ruim a comida estava.

Um vinco se formou em sua testa e ela me fuzilou com o olhar.

— Mas que merda, Álvaro! Como podes dizer que isso está bom? — ela rosnou de ódio — Seu mentiroso! — me atirou o guardanapo.

Perdoname, mi amor — estiquei o braço por seus ombros e a puxei para mim, beijando sua nuca.

Halina e Pedro explodiram em uma gargalhada.

— Me solte, seu traidor! — ela tentava reprimir um riso.

— Eu gosto de tudo que você faz, sabe disso, sim? — ela deu um tapinha em minha mão para que eu tirasse de seu ombro.

— Não sabes mentir, Álvaro. Acho que esqueceu disso — curvou os lábios para o lado e arqueou as sobrancelhas, me dando um olhar irônico.

Engoli em seco.

— O que pretendia fazer, Itziar? Nos deixar com a pressão alta? — brincou Pedro e desta vez ela não aguentou segurar a risada.

— E vocês dois?! — se dirigiu à Halina é Pedro — Nenhum ousou dizer nada? Mas que grandes amigos meus vocês são! — fingiu indignação.

No final, decidimos pedir pizza do restaurante italiano ao lado do condomínio. Ficamos a noite inteira jogando conversa fora, falando um pouco mais sobre o início da aproximação de Pedro e Halina – que por sinal, já estavam um pouco altos pelo excesso de vinho e rum — E também de planos para o futuro.

Ainda que Itziar tivesse levado com leveza o ocorrido do chili, eu consegui perceber que ela havia ficado um pouco desapontada pelo fracasso da receita.

Em determinado momento, quando Halina foi ao banheiro e Pedro buscou um copo de água na cozinha, fiquei sozinho com Itziar.

Ela remexia o resto de uma fatia de pizza no prato, meio atônita. Segurei sua mão sobre a mesa e beijei o dorso.

Que passa? — indaguei, mirando seus olhos — Ainda é o maldito chili? Talvez você possa tentar de novo essa semana, cariño. Chegou tão perto, sim? Pecou apenas no sal e na pimenta — nós rimos — Posso te ajudar desta vez, sendo seu ajudante, hum?

Ela riu e fitou nossos dedos se entrelaçando.

— Que se foda o maldito chili, quero fazer outra coisa! — deu de ombros — Mas aceito você sendo meu ajudante — falou com aquela voz rouca que me causa arrepios e soltou uma piscadela.

— Vale. — respondi sorrindo.

Me aproximei lentamente e passei a língua no cantinho de sua boca que havia um pouco de molho de tomate da pizza marguerita. 

Iniciamos um beijo vagaroso com gosto de molho, vinho e manjericão. Coloquei uma mão em sua nuca e a outra em suas costas, a puxando para mais perto e ouvindo um suspiro seu. Se existe algo que nunca irei cansar em toda minha vida, sem dúvidas é beijá-la.

Uma de suas mãos estava em minha perna e a outra eu meu cabelo, puxando meus fios negros. Finalizamos o beijo com um selinho e um delicioso roçar de narizes.

— Dizem que quando a pessoa salga demais a comida, é porque está ardentemente apaixonada. E então não dá pra medir o tanto de amor... ou do sal. — disse Halina, de volta à sala.

Itziar sorriu e se afastou, um tanto envergonhada, e colocou uma mecha de cabelo para trás da orelha.

Bueno, então acho que já temos a explicação. — ergueu os ombros.

— Confesso que minha boca está ardendo até agora — murmurou Pedro, voltando a sentar-se.

Todos nós sorrimos.

— Meu estômago ainda está embrulhado — ela bufou — Não me sinto muito bem.

— Quer um remédio para má digestão? — perguntei preocupado.

— Não, eu só… — tapou a boca com uma mão, como se fosse vomitar — Na verdade, eu só preciso pôr isso para fora — ela levantou rapidamente e correu até o lavabo.

A comida estava intragável, porém não a ponto de causar tantos danos. Troquei alguns olhares com Pedro e Halina, que me encaravam desconfiados.

Certeza que o vinco em minha testa já estava presente e meus olhos arregalaram. Minhas mãos suavam.

Passei uma das mãos pelo cabelo e passei a língua pelos lábios. Retirei sua taça de vinho da mesa e a coloquei o mais distante possível.

Algo estava acontecendo.

Ou estava prestes a acontecer.

Uma onda de múltiplos sentimentos e sensações se apoderou de mim e um arrepio me percorreu.



Notas Finais


os comentários de vocês são muito importantes, nunca esqueçam disso ♡

espero que tenham gostado e nos vemos em breve 🥺


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