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História Lamentavelmente, Lance McClain - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


A história a seguir pode conter gatilhos para o bullying, para a ansiedade/ depressão e para suicídio. O conteúdo é recomendado para maiores de 18 anos, mas a partir daqui você estará por sua conta e risco.

Acredito que não tenha nenhum erro ortográfico ou de digitação, mas caso encontrar, me corrija nos comentários.


Obrigado, e aproveite a leitura.

Capítulo 1 - Capítulo Único


 

Eu acho que a primeira vez em que percebi que as coisas nunca iriam dar certo para mim foi quando minha mãe faleceu.

Eu tinha 10 anos, novo demais para entender o que realmente aconteceu. Era isso o que as pessoas achavam de mim ali, mas eu sabia que isso se tornou uma mentira desde o momento em que recebi a notícia trágica.

O mundo não é um mar de rosas, e foi no velório que eu perdi o resto da inocência que me restava.

 

.

.

 

Enquanto eu tomava a coragem para entrar na sala onde o caixão dela estava, eu pude ver Rachel brincando com uma menina da mesma idade dela. Minha irmã era tão pequena que nem ao menos conseguia entender o que havia acontecido com nossa mãe. Agora ela só tinha os irmãos como família. E cabia aos irmãos mais velhos serem mais corajosos por ela, que era uma criança e ainda não entendia muita coisa.

Foi aí que eu decidi passar pela porta.

No começo, eu não entendia por que todos estavam chorando tanto. Ou o por que de eu não estar. Eu juro que tentei, mas as lágrimas sem recusavam a sair. Me senti frustrado por aquilo. Era minha mãe ali, dentro daquele caixão, com a pele esbranquiçada e até um pouco amarelada.  Eu sentia tristeza, mas por algum motivo não conseguia chorar.

Foi quando Verônica veio falar comigo. Ela estava abalada. Ainda era estranho ver uma pessoa de personalidade forte como a de minha irmã, estar com o olhar tão vazio como aquele. E eu não pude não me surpreender mais ainda quando ela me abraçou forte e melancolicamente. Então foi aí que a ficha caiu.

Foi um baque.

Minha mãe não voltaria, eu não a veria mais. Eu também não comeria mais sua comida deliciosa. Não a abraçaria mais, não escutaria mais sua voz, não veria mais aquele sorriso e não poderia mais dizer a palavra "mãe" com tanta frequência sem que eu me lembrasse do que ocorreu com a pessoa que correspondia àquela palavra.

Foi aí que as lágrimas surgiram. Uma após a outra. A realidade dolorosa - que fazia com que minha garganta apertasse como se eu estivesse sendo estrangulado, e que fazia o embrulho no meu estômago parecer tão incômodo - me atingiu como um soco na cara.

Me lembrei de todas as vezes em que poderia ter a abraçado mais; mostrado todo o carinho que eu sentia em relação à ela. Eu percebi o quanto que não dava valor quando aquela mulher maravilhosa estava ao meu lado.

E eu me odiei.

Eu não dava valor. O valor que a minha mãe merecia quando estava aqui. 

Mas não adiantava lamentar o leite derramado. Na verdade, não adiantava chorar pelos momentos perdidos.

Foi aí que eu decidi aproveitar melhor o tempo que eu tinha com todos. Me dedicar a fazer tudo o que eu queria o melhor possível.

 

 

Só que não.

 

Não me levem a mal, mas eu não quero iludir vocês. O que aconteceu foi completamente diferente. 

Depois de tudo isso eu fui diagnosticado com ansiedade por causa do medo da morte, e do medo de que mais alguém importante seja roubado de mim por ela. Pensava nisso a cada minuto, a cada hora, a cada dia; sempre.

Fiquei com fobia de participar de coisas que envolviam atividades em grupos e me afastei bastante da interação social. 

Mas não foi tão ruim depois. Pois eu tinha Pidge, a melhor das pessoas que eu já conheci. Ela me apoiava, me confortava e chorava comigo quando eu me sentia péssimo. Só que eu ainda não contava tudo pra ela ali. Mesmo com as palavras que ela me dizia, eu ainda me sentia incompleto.

Eu era o tipo de pessoa que te conforta quando você está chateado, mas que não consegue colocar os próprios conselhos em prática. Eu estava tão acostumado com isso que eu sabia todos os macetes que as pessoas usavam para consolar alguém, e por causa disso, todos esses macetes pararam de funcionar em mim.

Nada que você falar vai me fazer ficar bem agora. O efeito de palavras era passageiro. Eu sentia o conforto, e quando a pessoa não estava mais olhando, eu voltava para o mundo onde tudo parecia péssimo para mim.  

Mas eu ainda tinha meus amigos e minhas irmãs. Eu me apoiei neles por um tempo.

Eu fazia tantas coisas que eu tinha vontade! De andar de skate à tocar violino. Aquele tempo foi incrível.

Mas então eu percebi que tudo o que eu fazia, nunca me satisfez.

Eu gostava de tirar fotos, mas nunca cheguei à um nível aceitável mesmo com o meu esforço. Eu desenhava, mas em comparação a outros artistas, aquilo que eu fazia era horrível. Eu tocava violino e sabia que eu nunca teria talento de verdade para aquilo, mesmo se me esforçasse.

Eu não servia para nada.

Quando pensava algo bom sobre mim, outra coisa sempre me fazia ficar com os pés no chão - ou à baixo dele -. 

Tipo o fato de trocarem totalmente o meu horário de aulas com o da Pidge, impossibilitando as nossas conversas na escola.

Ou talvez quando eu me descobri gay e surtei. 

Ou quando Keith - o garoto que eu gostava - começou a namorar meu amigo Lotor.

E o fundo do poço começou a chegar pra mim. Com insegurança na amizade e em relacionamentos, com a zoação que eu comecei a sofrer na sala onde eu não conhecia ninguém, com o cara eu gostava e meu amigo trocando beijos na minha frente, com o meu medo sobre a questão da minha sexualidade e com a pergunta "A minha mãe se orgulharia se me visse agora?" na cabeça.

Eu desmoronei.

Eu sou um monstro. Eu não deveria gostar de homens, isso é como um castigo. Já não bastava o tanto que me zoavam, agora eu teria mais um motivo para virar chacota. Eu não vou aguentar, eu já fui forte demais.

Isso. Eu já fui forte o suficiente. Eu não aguento mais disso, cansei de ser forte. Eu quero ser fraco, quero mostrar minhas fraquezas, quero GRITAR para todos o quanto eu estou machucado e o quanto isso dói. 

Eu já fui forte quando minha mãe morreu, já fui forte quando eu me reergui, fui forte quando recebi uma rejeição indireta, fui forte quando Pidge estava distante nos momentos em que precisava dela e fui forte quando eu comecei a ganhar apelidos maldosos.

Eu cansei. Cansei disso tudo.

 

 

Eu não quero ser isso que vocês dizem que eu sou.

 

 

 

 

Eu quero ser fraco. Pelo menos uma vez na vida, eu quero que saibam que eu estou chorando por dentro.

 

 

 

 

 

.

.

.

 

E só então abro os olhos, me lembrando de onde eu estava. Acho que refletir sobre meus motivos para realizar o que eu estou prestes a fazer demorou até mais do que o necessário.

Eu me sentei no chão e comecei a desamarrar os tênis, colocando-os junto ao meu casaco verde em cima de um banco qualquer. Eu sinto o vento acariciar meus cabelos de leve, como se tentasse me acalmar para eu finalmente tomar coragem de saltar sobre a grade que envolvia o terraço da escola, chegando ao outro lado.

Bem próximo da borda.

Quando olhei para baixo e vi a altura de quatro andares da escola, senti um frio na barriga e uma pequena hesitação. Mas então eu respirei fundo e fechei meus olhos.

 

Quem diria, né, Lance? Há alguns meses atrás você estava com medo da morte e adora está correndo em direção à ela como se fosse um meio de escapar de todos os seus problemas. É, eu realmente sou um fracote.

 

Bom, chega de enrolações. Todos já sabemos o fim que isso terá.


      E ainda de olhos fechados, comecei a soltar meus dedos da grade lentamente. Meu corpo se inclinou para frente e eu não senti mais o chão debaixo dos meus pés.

 

 

 

 


Notas Finais


A intenção dessa fanfic era a de dar um aviso sobre "eu cansei de escrever histórias e vou parar com tudo", mas eu não posso desistir tão fácil assim. Eu ainda não cansei de tentar.


Bem, os comentários estão abertos para críticas construtivas, elogios e desabafos. Eu sei que não posso ajudar todas as pessoas, mas eu sei que um certo peso é tirado de suas costas quando você diz para alguém o que você está passando.

Dizer para as pessoas o quanto você está sofrendo pode ser acolhedor, lembrem-se disso.


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