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História Lamento de Cobiça - Capítulo 1


Escrita por: anacorrompida

Notas do Autor


Hoi, primeira fanfic da conta secundária.
Espero que gostem!

Capítulo 1 - Capítulo único: eternidade.


Changbin sentiu sua integridade escorrer por suas mãos quando, naquela noite, viu Felix não como um humano, mas como uma necessidade.

O estômago grunhia alto e as pernas bambeavam de fraqueza. Estava com fome, fome esta que não podia ser saciada como os humanos faziam e que nunca o incomodara propriamente, ao menos até o momento em que encontrou em seus olhos castanhos a vontade de não se alimentar com outros humanos mais. Isto é, não que estivesse livre de sua maldição; muito pelo contrário, nunca estivera tão faminto em toda sua vida, contudo ao passo que via dia após dia aquele homem trabalhar tão arduamente no campo, vivendo sua vida alheio ao olhar lascivo que o observava atrás do vitral da igreja, o desejo íntimo de juntar-se a ele e colar os lábios, rompendo a barreira que havia entre suas realidades para então guardar a feição imaculada em sua memória eterna, de pronto tornava-se tão insuportável que a hipótese de tomar qualquer outra pessoa em seus braços lhe causava asco; angústia, e, por conta disso, essa noite, também, observava-o. Só observava-o.

Ele estava juntando o feno com o mesmo forcado que certamente usaria para o perseguir, se soubesse da verdade.

A mente estava vazia como a de um cão.

Changbin sentiu sua barriga roncar. Seus olhos no reflexo estavam fundos como um abismo, com a opacidade da inanição. Estava com fome: a fome que não poderia ser saciada pelos métodos comuns. Mas, não. Não poderia deixar sua torre uma vez que o cheiro dos humanos era uma tormenta e, ainda que saísse, não poderia tocá-los, afinal havia feito um voto secreto e intrinsecamente movido pelos sentimentos mais torpes em prol de sua sanidade: não havia nenhum humano que satisfaria a necessidade que sentia de tocá-lo, tampouco cruzaria com um mortal cujo odor se comparasse ao do camponês, pois dessa forma o manteria estático como deveria ser; um ser místico, algo que a eternidade nunca lhe trouxera e sequer ousaria tirar.

Morreria, se fosse necessário, pois não restava uma parte de si capaz de ignorar um fio de cabelo que fosse daquele único humano, e se algo acontecesse com ele, seu voto seria quebrado.

Quem sabe poderia culpar a imortalidade por tamanha idealização, a existência perene o fazia zelar pela pureza das pequenas coisas, como o sorriso frívolo daquele camponês que não fazia nada além de trabalhar. Nunca buscou a normalidade; vivera bem enquanto sombra, não só porque se acostumou com essa posição, mas também porque, de fato, nunca vira a luz. O maior Sol que estivera em sua vida era ele — o humano efêmero, tão fraco que apodreceria em seus braços, o sorriso desmanchando sem dentes e a pele murchando como uma flor no outono enquanto ele mesmo, por sua vez, jamais envelheceria.

Ah! Como queria tocá-lo. Os ossos que fossem. Queria sentir sobre sua pele o choque do contato, sentir algo afinal; queria romper a casca morta que cobria seu corpo e amá-lo, mas não como criatura que fora destinado a ser e sim vestir-se de si mesmo e perder por completo a razão, nadar sobre os próprios sentimentos e, ao invés de afogar-se, permitir-se viver.

“Vida”. Por muito tempo não acreditou que havia algo vivo dentro de si e era óbvio que, com o passar das décadas e primeiro século, até mesmo o mais forte se deixaria levar pela efemeridade, algo que nunca lhe ocorrera e, por conta disso, Changbin havia abdicado da ideia de “vida” ou "humanidade". Não sabia o que era precisamente, nem como o primeiro dos seus surgira a princípio, contudo sempre soube que sua existência continuaria ali para o resto da eternidade, persistindo mesmo que os sentimentos e imagem não existissem mais dentro de si; mesmo que, para o conceito humano de existência, ele não fosse “algo”.

Oras, não resta muito ao indivíduo quando lhe é entregue em mãos o poder, não é mesmo? Aqueles de sua casta não eram deuses — se é que poderia acreditar que havia algo do tipo olhando por si —, mas obtiveram a força física e capacidades que nenhum humano conseguiria deter, quiçá um exército deles seria capaz contra um de sua espécie e, como moeda, deveriam desistir da luz pela eternidade. Para um Changbin um pouco mais jovem, esse custo não lhe pareceu alto e, sobretudo, seu ego acreditou que permaneceria, por séculos se necessário, e a luz permaneceria como sua própria maldição.

Contudo, o dia já não o incomodava como outrora e sim as longas madrugadas ao qual estaria preso por toda eternidade. Para sempre vivo, para sempre sem ver o Sol e, principalmente, para sempre sem ele. Ele, que era a única luz que conseguia romper os vitrais e trazer-lhe um pouco de calor irresistível para aqueles que já perderam a essência de si. Sentia-se um inseto irracional. A cada dia que o observava pela janela, mais Changbin o desejava, imaginando como seria despi-lo sobre os fardos de feno e não só admirar sua nudez frugal, mas depravá-la ao romper a carne com suas presas, o sangue escorrendo do pescoço ao peito enquanto os corpos enlaçam-se em uma união sórdida.

Ninguém viria até os dois. Ao sentir o pulsar de suas veias ao sugar de si a vida, o tempo da eternidade chegaria ao fim, cortando de vez os laços que restavam com Deus à medida que, ao alvorecer, chegariam ao ápice — juntos, não só de corpo, mas de espírito; de alma.

“Alma…”

Se Changbin tivesse um coração, mesmo os batimentos fracos agora estariam rindo de si, junto com todo o restante de seu sistema, falhando a cada lufada de ar. Não lembrava-se da dor, mas certamente aquilo que sentia relembrava ao mais profundo sentimento humano, afinal agonizava. Não tinha para onde fugir. Todas as partes de seu corpo eram tomadas pela cólera e sua mente, essa sim, lutava contra si mesma e os impulsos mais nefastos que apenas um de sua raça poderia sentir. Desejava o sangue, sentia o odor em suas narinas e o sabor em sua boca, como a primeira vez que havia o experimentado e, apenas essas sensações, eram a confirmação que havia alcançado o ápice de sua loucura, entretanto a pouca lucidez que lhe restara o manteria ao chão.

O Sol descia pelo horizonte e, naquela noite, ele não sairia para caçar. Mas era a última vez. Não poderia continuar, nem mesmo mais uma noite.

Morreria, de fato. Não pela luz ou por alguém, mas pelo seu sentimento mais prezado: o amor.


Notas Finais


#cemitérioangst, #FanficModerna2022, Palavras: 1. Perpetuidade; 2. Maldição; 3. Amor não-correspondido.


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